THE ROAD SO FAR

NOBODY LIKES YOU WHEN YOU’RE 23

Eu sempre gostei de fazer aniversário – até, claro, o dia que não gostei mais tanto assim. Desde que eu fiz vinte anos – longe de casa pela primeira vez, sem a minha mãe e a maior parte dos meus amigos, mas de frente pro mar, com meu namorado, com direito a um “parabéns pra você” tocado num imenso piano de cauda – minha relação com essa coisa de fazer aniversário mudou muito. Os dias que antecedem a data são sempre meio estranhos; meio triste, meio alegres, meio já cansei de tentar entender. Mas é também uma época que vem carregadas de uma expectativa que eu não sinto em qualquer outra época do ano, que é meio o que me mantém viva nesse período conturbado.

Eu sempre digo que março é o meu mês num tom de brincadeira, como quem pede pra que nada dê muito errado e que as pessoas pelo amor de Deus façam o favor de não forçarem muito a barra e serem mais gentis comigo do que o normal, mas esse é um mês que eu sinto muito meu justamente porque é quando um novo ciclo na minha vida começa de fato e eu me sinto no direito de pedir o que quiser, mesmo que não receba de volta. Minha mãe sempre me diz que querer não é poder e eu acredito nisso demais, mas foi essa mesma mãe que me disse que a gente precisa querer as coisas e pensar positivo, porque os pensamentos têm poder. Por mais que eu tenha revirado os olhos depois, preocupada demais em não morrer (risos eternos), eu sei exatamente do que ela estava falando porque na maior parte do tempo eu acredito nisso também: querer não é poder, mas é preciso querer antes de saber se é possível tê-las ou não. Então eu me permito desejar muitas coisas, ser mais abusada que o normal e ver no que dá, o máximo que eu posso receber é um “não”. É uma tática maravilhosas, e numa dessas eu já convenci muita gente que me ama a fazer coisas meio absurdas – mas não tão absurdas assim – só porque era o meu mês.

Só que secretamente, março é também um mês que eu costumo me recolher com mais frequência, ficar mais reservada que o normal, e refletir sobre minha vida, minhas escolhas, meus sonhos e como eu quero continuar minha caminhada dali em diante. É um momento que quase sempre envolve muito choro e também algum sofrimento, porque é difícil olhar pra trás e pisar de novo em lugares que já não existem mais no aqui e no agora, lembrar de sonhos que ficaram no meio da estrada e foram pisoteados por quem veio depois, e encarar de perto meus demônios só pra tentar diferenciar aqueles que já me sinto capaz de exorcizar daqueles que ainda precisam passar algum tempo comigo. Então eu choro: pela raiva, pela perda, pela saudade daquilo que já foi e, em algum momento, por tudo que não foi, pelo o que ainda está por vir. Nunca é fácil, mas é algo que faz total sentido na minha cabeça e que é absolutamente necessário – pelo menos, pra mim. Eu fico muito sensível e vulnerável depois, mas ironicamente é justamente assim que eu consigo me levantar mais forte e confiante mais tarde, e aí sim, ter forças pra celebrar mais um ciclo que se inicia.

O que não aconteceu esse ano – ou aconteceu e eu estava ocupada demais para perceber. Desde o início de março, ou talvez desde o final de fevereiro, minha vida virou uma bagunça tão grande que eu não tive tempo, quiçá vontade, de me acostumar com a ideia de mais um aniversário, refletir sobre a data e tentar entender tantos sentimentos que tomavam conta de mim de uma vez só. Eu passei dias inteiros deitada na cama, olhando pro teto do meu quarto sem a menor vontade de fazer qualquer coisa, porque qualquer coisa exigia uma força que eu não tinha e honestamente não queria ter. Era o meu mês e eu podia chorar se quisesse – mas também podia passar o dia inteiro na cama, e faltar todas as aulas do mundo, me afastar do mundo e fantasiar sobre cenários em que eu invariavelmente morria. Eu, que sempre tive pavor de morrer, de repente encantada com a perspectiva de por um fim em tudo. Foda-se, é o meu mês e eu posso morrer se quiser.

Verdade seja dita, eu achei que fosse morrer de verdade. Enquanto revirava na cama, dessa vez fisicamente doente, sentindo a febre e a dor me consumirem, eu alternava momentos de muito choro e outros em que simplesmente desejava que aquilo acabasse o mais rápido possível. O antibiótico não fez efeito, meu médico não podia me atender, e eu não tinha coragem de sair de casa para ir em qualquer outro. Era óbvio que eu ia acabar morrendo como uma camponesa da Idade Média. Quando disse isso pra minha mãe, ela respondeu que todo mundo ia morrer mesmo, mas que ninguém morre de amigdalite no século XXI. Era questão de tempo até eu melhorar e eu deveria parar de ser tão pessimista; mas ela não entendia que era impossível não ser. De repente, era o meu mês e eu estava fazendo uma porção de coisas, coisas demais para sequer aproveitar a vantagem, consumida pela depressão e pela ansiedade, até cair de cama de vez. Ficar doente foi como um pedido de ajuda do meu corpo, mas me magoava que justamente quando as coisas deveriam estar dando tão certo, elas estavam dando tão errado. O universo não deve nada, nem pra mim nem pra ninguém, mas me parecia injusto demais passar meu aniversário de cama, com um pijama velho e o cabelo sujo, sem nem conseguir ter uma refeição gostosa e especial. Eu queria ter um dia bacana, como qualquer pessoa deve querer em seu aniversário, mas a única coisa na minha frente era a morte lenta e dolorosa de uma camponesa medieval.

Foram necessárias horas e horas de conversas com minhas amigas, pequenos rituais de exorcismo que me ajudaram a manter a cabeça no lugar, superando de pouco em pouco cada um dos obstáculos que apareciam na minha frente: a amigdalite, a ansiedade, a depressão, as questões com o futuro, a falta de ânimo e de apetite, a pouca vontade de viver. Eu chorava muito em todas essas conversas, mas ao fim de cada uma delas eu me sentia incrivelmente renovada, um pouco mais forte e amada, especialmente amada. Foi assim que aprendi, do jeito mais difícil, uma lição que eu já acreditava ser muito verdadeira, mas que foi preciso muito tempo para finalmente colocar em prática: a melhor maneira de encontrar a luz nas trevas não é afastando as pessoas, mas caindo nos braços delas. A distância é enganadora porque ela nos dá essa aparente sensação de controle, como se nossos problemas se tornassem mais reais à medida que falamos em voz alta sobre eles. Mas eles estão ali e tentar lidar com tudo sozinha é terrível demais, além de enlouquecedor. Pela primeira vez em anos, talvez em décadas, eu permiti que meus problemas fossem o centro de todas as minhas conversas, permiti que as pessoas me dessem colo e palavras de conforto, e que entendessem o que estava acontecendo comigo. Era uma exposição até então inédita – ironicamente, já que eu me exponho em tempo integral por aqui – e também assustadora, porque foram anos criando barreiras e lidando sozinha com minhas questões. Mas foi assustador justamente por ser tão especial. A sensação foi como estar submersa, mas dessa vez numa enorme onda de amor e carinho, do qual eu não podia e nem queria fugir.

Quando meu aniversário chegou, eu estava incrivelmente em paz. E foi com esse sentimento de paz e profunda gratidão que eu recebi de braços abertos uma nova onda de amor e carinho, vinda dos mais diferentes lugares, de pessoas que eu sequer podia esperar. Eu recebi mensagens lindas, delicadas e carinhosas, mesmo depois da data; assisti minhas amigas fazerem festa e meus amigos escreverem coisas ridículas, mas absolutamente sensacionais sobre mim; tirei fotos ridículas e me senti bela em cada uma delas. Aproveitei cada minuto da minha ceia de Natal fora de época, feita especialmente pro meu aniversário, só porque era meu aniversário e eu queria uma ceia de Natal – um pedido que minha mãe não pensou duas vezes em atender. À noite, fui ao cinema assistir A Bela e a Fera, porque, de novo, era meu aniversário e ninguém me impediria de assistir a um dos meus filmes favoritos ganhar uma versão com gente de verdade. Cada minuto da sessão foi como um pequeno presente, e eu ri, chorei, cantei e me emocionei o tempo inteiro.

Eu não ganhei muitos presentes, mas foi como se cada parte do dia fosse um presente por si só. Diferente do que eu esperava, os vinte e quatro chegaram leves, especiais, coloridos como um arco-íris depois de uma tempestade; um adorável lembrete de como a vida pode ser bela, mesmo que nunca seja fácil. Quando soprei minhas velas – cor de rosa (!), com glitter (!) – no último dia 18, eu pedi um pouco mais de saúde, mas também que a vida se tornasse mais gentil e mais leve do que foi no ano anterior. Os vinte e três me ensinaram demais e foram, de longe, um dos melhores anos da minha vida, mas talvez seja a hora de voltar a respirar fundo e devagar – e que seja assim, então.

MEMES

LIKE A JEDI

Hoje é um daqueles dias que eu gostaria de escrever uma porção de coisas, mas não consigo escrever nada – o que é absolutamente normal, acho. Tenho passado muito tempo em casa, e embora isso pareça a definição de alegria pra muita gente – e pra mim também, em algum nível -, é uma verdade universalmente reconhecida que tudo demais sobra, de modo que passar tanto tempo em casa tem justamente o efeito oposto: eu me sinto drenada, como se um dementador estivesse sugando minhas energias, e totalmente incapaz de fazer muito pra mudar de situação. Por sorte, minhas aulas começam já na semana que vem, o que mais ou menos significa que essa sensação deve passar logo. Assim espero.

Enquanto isso, pra matar um pouquinho a vontade de escrever alguma coisa, qualquer coisa, resolvi responder esse meme que meu amorzinho Michas sugeriu que eu respondesse algum tempo atrás, ainda na época do blogmas. Acabou que eu deixei pra um momento mais oportuno de pouca criatividade e muita vontade de escrever – e agora eu agradeço por ter feito isso, risos. O meme, no caso, é uma união bem maravilhosa entre Star Wars e literatura, e basicamente consiste escolher livros de acordo com alguns personagens da saga. Não costumo indicar ninguém pra essas coisas, como vocês já estão carecas de saber, mas sintam-se livres para responder se quiserem.

1. Chewbacca: alguém que sempre vai estar lá para você!
Harry Potter e todos os seus personagens incríveis. Acho que é até meio ridículo dar uma resposta óbvia dessas, mas quando penso em uma história que me acompanhou vários momentos diferentes da minha vida, quando penso em personagens que estiveram ao meu lado em tantas fases diferentes, só consigo pensar em Harry, Rony e Hermione. Muitas lições que aprendi com eles são coisas que eu levei pra vida, e que me ajudaram a enxergar o mundo de uma forma completamente diferente – e, não por acaso, muito mais bonita.

2. C3PO: personagem/autor perdido, desesperado.
Nancy Jo Sales, em Bling Ring. Na verdade, nunca li outro trabalho da autora e nem sei se ela tem algum outro livro publicado. Contudo, Bling Ring é aquele tipo de livro que você lê uma vez e não esquece justamente por ser um pavor, um pavor completo; chato até dizer chega e que tenta ser muito crítico, mas que só se torna incrivelmente vazio. É verdade que a história que ele aborda, por si só, é bastante cabeluda e longe de mim querer defender esses jovens privilegiados que achavam maneiro roubar a casa de celebridades. Mas eu também acho que a Nancy tenta demais provar um ponto – no caso, o quanto essas pessoas são horríveis e o quanto a cultura das celebridades é péssima para os jovens norte-americanos – e isso começa a se tornar repetitivo depois de um tempo. Todo mundo já entendeu as consequências disso, todo mundo sabe que é um problema, mas não é uma abordagem rasa e cheia de pré conceitos que vai resolver a questão.

3. R2D2: livro na língua mais estranha que você já leu.
Nenhum? Desculpa a decepção, risos.

4. Luke Skywalker: um livro que foi importante na sua “formação” (para se tornar um Jedi, claro!).
Estação Onze. Foi um livro que li não faz muito tempo, na realidade, mas que realmente me ensinou um bocado e que eu gostaria que tivesse caído no meu colo antes porque provavelmente teria me poupado de muitas crises de ansiedade desencadeadas por questões com a vida, a morte, o universo e tudo mais. Embora eu ainda tenha todas essas questões, Estação Onze me ensinou aquilo que realmente importa, que nossa vida na verdade é um sopro, e que o que sobra não são as coisas que nós possuímos, mas as pessoas que passaram pelo nosso caminho – as que ficaram e as que não ficaram também. Foi um livro que falou muito de perto comigo e de uma maneira muito carinhosa de assuntos espinhosos como a solidão, a mágoa, o futuro, a morte; e eu gosto dessa delicadeza e valorizo cada parte dele. Não é por acaso que ele se tornou meu livro favorito da vida inteira.

5. Han Solo: bonitinho, mas ordinário…
As Vantagens de Ser Invisível. Até me sinto meio culpada quando falo mal desse livro, mas a história de Charlie realmente não me tocou em momento algum, e por mais fofa e cheia de frases efeitos que ela seja, é incrível como ela nunca é capaz de chegar lá. O filme, por outro lado, me deu uma dimensão muito melhor da situação dos personagens, suas complexidades, seus fantasmas e desafios que enfrentavam todos os dias, algo que o livro falhou miseravelmente em fazer.

6. Princesa Léia: a força é forte nela.
Americanah. Não é exagero dizer que esse foi um dos livros mais incríveis que li, além do mais importante – o que não é exatamente uma surpresa considerando que a autora é uma pessoas mais incríveis que já tive o prazer de esbarrar com o trabalho. De uma forma delicada, mas nem por isso menos forte, Chimamanda nos mostra um lado que, fechados nas nossas bolhinhas de privilégio, muitas vezes perdemos a chance de ver; e é incrível como ler a história de Ifemelu é algo que realmente muda nossa forma de enxergar o mundo. Então, se eu pudesse dizer alguma coisa, seria: leiam Americanah, leiam Americanah, leiam Americanah.

7. Yoda: De sabedoria o livro é.
A Arte de Pedir. Porque Amanda Palmer é uma mulher foda e um livro escrito por ela não podia ser nada além de muito foda. Ainda preciso internalizar muitas das coisas que ela me ensinou, aprender a me permitir ser verdadeiramente vulnerável, e não ser tão dura comigo mesma. Mas acredito que tudo isso é um processo e que, um pé depois do outro e no seu próprio tempo, cada um consegue chegar lá.

8. Darth Vader: seu melhor vilão!
Voldemort, sempre!

9. Millennium Falcon: parece que não… mas vai!
Tigres em Dia Vermelho. Eu ainda tenho algumas questões com ele porque acredito que ele se perde um pouco do meio pro final, você acha que está lendo um livro sobre uma coisa e de repente é outra, e isso nem sempre é bom. Contudo, ainda é um livro incrível sobre pessoas, cotidiano, dramas familiares e coisas desse tipo – e pelas quais eu ando meio obcecada ultimamente, risos.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

THE FOOLS WHO DREAM

Here’s to the ones who dream
Foolish as they may seem
Here’s to the hearts that ache
Here’s to the mess we make

Eu lembro como se fosse ontem da primeira vez que pensei em estudar cinema: o ano era 2008, eu tinha quinze anos e estava no primeiro ano do ensino médio, e enquanto considerava uma carreira na moda, li o livro que mudou completamente a minha vida.

O livro, no caso, era Los Angeles, da Marian Keyes – uma história adorável e absurdamente engraçada sobre uma mulher que, após ser a filha certinha, a esposa certinha, a funcionária certinha, etc etc, descobre que sua vida inteira era uma mentira e vai morar com a melhor amiga em Los Angeles; uma melhor amiga que é roteirista e que trabalha duro para deixar sua marca no cinema norte-americano. O livro não idealiza Hollywood em momento algum – na verdade, muito pelo contrário -, mas foi ali, enquanto desvendava os absurdos da terra das estrelas que eu me interessei pela carreira de roteirista e achei que aquilo pudesse ser um caminho profissional viável, ainda que difícil pra caramba. Eu gostava de contar histórias, é algo que gosto de fazer até hoje, e a perspectiva de poder fazer disso uma profissão era tudo que eu precisava para sonhar e acreditar que aquilo era realmente possível.

Demorou até que eu finalmente entrasse na faculdade de cinema, mas o fato é que, uma vez lá, eu nunca acreditei que aquilo pudesse ser tão possível. Eu estava no caminho certo, eu estava onde eu queria estar desde sempre, e estava começando a correr atrás de verdade daquilo que era meu sonho – e continua sendo. O que antes parecia um desejo distante de adolescente, agora começava a ganhar forma, e eu realmente conseguia acreditar num futuro em que eu não só escreveria filmes, mas também os transformaria em algo real, minhas histórias concretizadas numa enorme tela de projeção. Eu acreditava na mágica do cinema, eu acreditava que sonhos podiam se tornar realidade, eu acreditava que a gente era capaz de fazer o que quisesse e chegar onde quisesse com dedicação e força de vontade. Chegava até a ser meio ridículo, mas era isso que me fazia continuar seguindo em frente, e acho que isso também fazia com que muitas outras pessoas continuassem seguindo em frente também. Era perceptível, numa turma de calouros, que todos ali tinham sonhos grandes, imensos, tão ridículos quanto assustadores. Eram pessoas que, assim como eu, também acreditavam que podiam chegar lá – não porque se achavam especiais demais (às vezes, um pouco disso também), mas porque confiavam no próprio potencial, no amor idealizado que sentiam por essa indústria imensa e na possibilidade de transformar sonhos em realidade.

O que não deixa de ser uma visão meio problemática, é claro. Mas sendo eu mesma uma pessoa que sempre acreditou na força dos sonhos e do amor, e que quase sempre foi movida por essas duas coisas, era importante sentir que existiam outras pessoas no mundo que não iam achar minhas aspirações ridículas, que não iam me julgar por colocar os dois pés pra fora da realidade e que de alguma forma acreditavam no meu potencial. Por mais que nenhuma dessas coisas garantam o sucesso de ninguém, acreditar é fundamental pra que você ao menos se permita tentar – o que talvez seja a principal diferença entre quem realmente tenta e quem simplesmente espera que as coisas caiam do céu.

A faculdade, por outro lado, quebra um pouco desse encantamento. Porque uma vez ali dentro, você descobre que por trás de toda a mágica existem truques que são repetidos à exaustão; entende como eles acontecem, aprende a técnica por trás de cada um deles, constrói e desconstrói essas técnicas para aprender a reproduzi-las e só então construir os seus próprios truques. Por fora, tudo é lindo, colorido, quase sempre impecável; mas essa é uma realidade muito distante daquilo que realmente acontece para fazer com que algo lindo, colorido e impecável surja na tela pra quem quiser ver. De repente, você se vê deixando de acreditar em mágica porque filmes custam muito dinheiro, dão um trabalho imenso que nem sempre compensa, envolvem um milhão de pessoas que no final do dia precisam pagar as contas – e sonhos não pagam as contas de ninguém. Portas são batidas na sua cara, pessoas desacreditam o seu trabalho e você percebe que aquela indústria pautada pelos sonhos de alguém é, na realidade, um universo controverso, quase sempre injusto e cruel, e incrivelmente restrito, que só está interessada em sonhos com potencial de render alguns milhões. É muito fácil se tornar cético quando a realidade bate na porta e você passa a enxergar todas essas coisas, e percebe que sonhos não são suficientes, que a vida real é muito diferente daquilo que a gente vê na tela; e muito difícil acreditar em mágica quando você não tem dinheiro pra pagar as próprias contas, quando vive num lugar decadente, quando tem crises de ansiedade constantes porque não faz a menor ideia do que vai fazer com um diploma em cinema.

Sempre que falo que estudo cinema, as pessoas assumem duas posturas: ou a de achar que eu vou morrer de fome ou que eu tenho uma vida fácil e ultra glamourosa. São duas visões radicalmente opostas, mas que não se distanciam tanto assim da realidade porque a indústria cinematográfica que a gente conhece é, quase sempre, um festival de oitos e oitentas. Não existe um meio termo. Na faculdade, você descobre que esse meio termo até existe, mas que é preciso aprender a se dividir entre sonhos e aquilo que paga as contas – e não é difícil imaginar pra qual lado a balança pende quando a coisa aperta. A maior parte dos meus professores são também cineastas que se dividem entre a carreira acadêmica e a arte que eles acreditam. São pessoas que, com sorte, produzem um filme por ano, mas a maioria desses filmes ficam fora do circuito comercial e raramente rendem dinheiro suficiente para que eles possam se dedicar somente a isso. Ao mesmo tempo, alguns são pessoas completamente desiludidas com a indústria, que tiveram seus sonhos massacrados por ela e que perderam completamente a esperança. Neles, você percebe o olhar de quem já perdeu demais, alguém que um dia foi muito igual à você, mas que não teve tanta sorte, e teme pelo o futuro que lhe aguarda.

Então não é uma surpresa que, semestre após semestre, tanta gente mude de opinião: alguém que antes sonhava em trabalhar com direção de arte agora se contenta em seguir carreira na publicidade, o outro que sempre quis ser diretor decidiu que vai seguir carreira acadêmica ou se tornar crítico de cinema (ou as duas coisas), etc etc. Não é falta de força de vontade: é a percepção de que a vida real é muito diferente daquilo que sonhamos enquanto vivíamos nossas adolescências privilegiadas, é a perda de uma arrogância que precisa ir embora para que a gente aprenda a lidar com a vida como ela é de verdade – perdas, frustrações, raiva, tudo isso incluso no pacote -, não como a gente quer que seja. É um processo doloroso, é claro, mas absolutamente necessário também, e não é por acaso que ao final dele, a maior parte das pessoas desista dessa ideia maluca de ser um Grande Diretor de Cinema™ ou qualquer coisa que o valha. É um baque imenso, uma consciência da realidade que desestrutura completamente e que questiona sem nenhuma cerimônia todas as certezas, sonhos e promessas que tivemos ou fizemos até ali. E é difícil acreditar quando essa realidade bate na porta, quando contas precisam ser pagas, quando dinheiro é o que mais precisa e mesmo assim nenhum oportunidade aparece, nenhuma ideia é comprada, um roteiro é rejeitado atrás do outro.

Em cinco semestres de faculdade, eu desisti de alguns sonhos, guardei outros para momentos mais oportunos, e priorizei aquilo que parecia mais viável dentro da minha própria realidade. Descobri que, embora eu quisesse muito trabalhar com ficção, a escrita poderia ser uma saída justa e agradável quando meus sonhos grandiosos começaram a se tornar a lembrança de um passado ambicioso que já não dizia mais tanto assim sobre mim. Mesmo assim, é muito fácil que vez ou outra eu ainda me pegue pensando que a vida seria muito mais fácil se eu tivesse um emprego chato e estável, que fosse capaz de pagar todas as minhas contas e suprir meus pequenos desejos, sem que tivesse que viver nessa loucura. Mas eu também me permito entristecer pelos sonhos enterrados, pelos que ficaram no meio do caminho, pelos que foram enfiados no fundo da mochila até o dia que puderem ver a luz do dia de novo, ou então por aquela versão de mim mesma que acreditava que o impossível não existia.

Quando assisti La La Land, eu pensei em tudo isso.

La La Land conta a história de Mia e Sebastian, dois jovens que vão tentar a sorte em Los Angeles com o sonho de se tornarem grandes estrelas – ela, como uma renomada atriz de cinema; ele, como um importante músico. São pessoas sonhadoras, ambiciosas, movidas pelas suas paixões e que acreditam que o impossível não existe, sem medo de parecerem ingênuos demais; tudo isso enquanto dançam e cantam pela cidade dos anjos. A história dos dois é contada em um filme igualmente ambicioso, sonhador, que não tem medo de parecer ingênuo: um musical caro, difícil, grande, arriscado e extremamente ousado que, não por acaso, levou seis anos para ser concretizado. É um filme colorido, lindo, [quase] impecável, completamente deslocado da realidade; é a mágica do cinema acontecendo em tempo integral. É difícil não gostar do filme, não querer dançar junto com os atores, não querer fazer parte daqueles números tão adoráveis. Mas mais difícil ainda é não se identificar com Mia e Sebastian, e não pensar que a história dos dois é, em alguma medida, a história de todos nós – especialmente se esse “nós” é composto por pessoas que também querem fazer fama, dinheiro e sucesso nessa indústria maluca e completamente obcecada por si mesma.

É por isso que, quando assisti ao filme na última sexta-feira, embaixo das cobertas enquanto comia um pedaço de pizza gelada, muito longe da realidade que sonhei pra mim aos vinte e poucos anos, eu senti como se todos os meus sonhos tivessem sido desenterrados e, pouco a pouco, fossem jogados na minha cara – não de um jeito ruim, num tom de acusação, mas de uma forma especial que só quem também sonha alto, com força e que às vezes tem medo dos próprios sonhos é capaz de entender. Mia e Sebastian não recebem nada de mão beijada: eles são desvalorizados, aceitam trabalhos ridículos, mal conseguem pagar as próprias contas (quando conseguem) e recebem uma porção de “nãos” até o dia que recebem um “sim” – e aí, é incrível como a história dos dois muda radicalmente. Mas eles nunca (ou quase nunca) deixam de acreditar naquilo que sonham, que algum dia eles podem transformar tudo aquilo em realidade. O fato dos dois conseguirem, apesar de tudo, só nos lembra que sonhos são sim possíveis, mesmo que sejam muito difíceis de serem alcançados – a grande diferença está em quem acredita neles o suficiente para correr atrás e quem simplesmente espera que eles caiam do céu. O próprio Chazelle, diretor do filme, era um nome completamente desconhecido até o dia que não era mais; e ontem, durante o Oscar, enquanto segurava o prêmio nas mãos e entrava para a história como diretor mais jovem a ganhar um prêmio naquela categoria, era justamente nisso que eu pensava. Assim como Mia e Sebastian e tantas outras pessoas da indústria, ele também acreditou que era possível transformar sonhos em realidade – e foi lá e fez.

Tem esse discurso do Bryan Cranston (que se não me engano ele fez quando recebeu o Emmy, mas posso estar radicalmente equivocada) em que ele diz que aceitou uma porção de trabalhos ruins, que se sujeitou a uma porção de situações ridículas até o dia que conseguiu um trabalho legal de verdade que o levasse até onde ele queria estar. Ele não diz isso com essas palavras, mas é essa a mensagem principal do seu discurso, e eu sempre tento pensar nisso quando as coisas ficam difíceis demais – e agora, junto com ele, eu também vou lembrar de La La Land, de Mia e Sebastian, e de todos os sonhos que não devem morrer jamais.

La La Land não é o melhor filme do mundo, não é o mais importante. Mas isso não anula o fato de que ele é um ótimo filme, que é lindo, especial, e com uma mensagem linda que nunca foi tão necessária. São tempos difíceis para os sonhadores e às vezes, a gente realmente só precisa de filmes que nos lembrem que a mágica é real – desde que nunca deixemos de sonhar.

CINEMA E TV

MARATONA OSCAR 2017 – PARTE III

Antes tarde do que nunca, cá estou para a terceira e última parte da minha maratona. Infelizmente, não consegui cobrir todos os filmes que queria, mas foi o ano que consegui cobrir mais categorias e fico feliz por ter superado minhas expectativas, embora o cansaço seja muito, muito real. Não confirmo nem nego que minha vontade sincera era ficar alguns meses sem assistir filme nenhum – o que será absolutamente impossível, mas bear with me. A maior parte dos filmes desse ano são maravilhosos, então apesar do cansaço, a maior parte da maratona foi igualmente maravilhosa – eu só estou feliz demais que acabou e depois de hoje vou poder dormir em #paz.

Como de costume, mais tarde vou estar lá no twitter comentando, me revoltando e dando pitacos não requisitados sobre os indicados. Sigam-me os bons e não me deixem falando sozinha. Grata.

LION – UMA JORNADA PARA CASA (Garth Davis)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Dev Patel), Melhor Atriz Coadjuvante (Nicole Kidman), Melhor Roteiro Adaptado (Luke Davis), Melhor Fotografia (Greig Fraser) e Melhor Trilha Sonora (Dustin O’Halloran e Hauschka).

Sobre o que é? Um jovem indiano que se perde da família e acaba indo viver na Austrália com uma família adotiva. Vinte anos depois, ela tenta reencontrar a mãe, redescobrir suas raízes e entender o que aconteceu naquele dia em que ele saiu de casa com seu irmão mais velho para nunca mais voltar.

Prestou? Muito, muito, muito! A história é realmente linda, as atuações são impecáveis e você se emociona sem nem fazer força. Embora o filme não se dê o luxo de passar tempo demais explorando os vários aspectos da vida de Saroo, o personagem principal, você consegue entender as relações que ele constrói com cada pessoa, entender suas necessidades, suas frustrações, e se importar verdadeiramente com tudo o que está acontecendo. Por mais que eu nem sempre concordasse com sua atitudes, era impossível ficar com raiva de uma pessoa que perdeu tanto, mas que ao mesmo tempo era tão adorável, simples, com um sorriso enorme no rosto e que realmente valorizava as oportunidades que teve – e num filme que fala tanto de raízes quanto fala de privilégio, é realmente incrível ver um personagem que entende os privilégios que adquiriu, entende que aquilo não é a regra, mas sim a exceção, e que nunca cospe no prato que comeu. É um filme delicado demais, sensível demais, bonito demais, e que despertou em mim sentimentos muito preciosos. Então sim, é um filme que eu recomendo e recomendo com força.

Sinceramente? O que esse filme me destruiu não tá escrito. Queria dar um abraço no Dev Patel, pedir pra ser amiga, colega, pinguim de geladeira, qualquer coisa; e levar pra casa o pequeno Sunny Pawar, a criança mais adorável que você respeita. Infelizmente, numa disputa que só existe pra cumprir protocolo como a desse ano, acho bem difícil que leve alguma coisa. No entanto, se eu pudesse dizer alguma coisa é: assistam Lion, se apaixonem pela história e me agradeçam depois.

LOVING (Jeff Nichols)

Indicações: Melhor Atriz (Ruth Negga).

Sobre o que é? O casal Loving que se casou na década de 50, quando o casamento inter-racial ainda era proibido no estado da Virgínia, onde ambos residiam. Como punição, os dois são exilados do estado e só podem voltar separados, e é dessa forma que eles vivem durante alguns anos – pelo menos até que Mildred Loving, cansada de viver longe da família e em um lugar tão pouco favorável para se criar uma criança, escreve para Bobby Kennedy, que passa o caso dos Loving para a UCLA. A partir daí, o casal entra em uma briga na justiça contra o estado da Virgínia em busca do direito de viverem felizes onde bem entenderem.

Prestou? Horrores. A história de Mildred e Richard Loving é real e eles foram responsáveis por mudar toda a constituição dos Estados Unidos, estabelecendo que sim, o casamento inter-racial era um direito de todos os cidadãos norte-americanos, onde quer que eles estivessem – uma luta que não só beneficiou os dois, mas muitos outros casais que se viram contemplados pela decisão da Suprema Corte. Ruth Negga faz um trabalho espetacular como Mildred, uma mulher tímida, mas cheia de vontade de viver uma vida plena ao lado do marido e dos filhos, e com uma força que quase nunca está associada à mulher no cinema. É um filme lindo de verdade.

Sinceramente? O fato de ter recebido tão poucas indicações já diz um bocado sobre a opinião da Academia. Por mais que seja um filme lindo, sensível do início ao fim e com uma personagem tão fundamental em um momento que tanto se fala sobre a representatividade da mulher no cinema, é realmente uma pena que Loving não tenha sido indicado em mais categorias, e que saia de mãos abanando logo mais.

MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR (Barry Jenkins)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Barry Jenkins), Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Melhor Atriz Coadjuvante (Naomie Haris), Melhor Roteiro Adaptado (Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney), Melhor Fotografia (James Laxton), Melhor Edição (Nat Sanders e Joi McMillon) e Melhor Trilha Sonora (Nicholas Britell).

Sobre o que é? Procurei um milhão de sinopses diferentes, mas nenhuma delas faz jus à história que Moonlight de fato conta. Porque ele não é apenas um filme sobre um jovem negro descobrindo a si mesmo enquanto vive a implacável realidade que o maltrata em tempo integral. É sobre isso também, é claro, mas é muito mais, infinitamente mais – e talvez por isso seja tão difícil escrever sobre ele. É sobre um jovem tentando fugir da criminalidade quando esteve a vida toda no meio dela. É sobre relacionamentos. É sobre pessoas que são boas e más ao mesmo tempo, complexas como qualquer ser humano. É sobre negritude. É sobre a socialização masculina. É sobre o tráfico, sobre bullying. Mas é, principalmente, um filme sobre pessoas, tão delicado quanto deveria ser.

Prestou? Nada que eu diga vai ser suficiente pra dizer o quanto esse filme prestou, então só posso dizer que sim, prestou e prestou demais. A história é extremamente sensível, e embora trate de assuntos pesados como o tráfico de drogas, bullying e o uso de drogas, tudo é contado com uma delicadeza e um cuidado que deveria ser regra no cinema, mas infelizmente ainda é a exceção. Gosto particularmente de como a sexualidade é introduzida na vida de Chiron, das conversas com Juan e Teresa, e da relação com a mãe, que embora seja muito complexa e extremamente conturbada, é tratada com o mesmo cuidado de todo o filme – que não assume uma postura condenatória para com a personagem, dando a dimensão das consequências de suas escolhas não somente na vida do filho, mas na dela própria.      

Sinceramente? Podia sair rapando os prêmios tudo que ia ser bem merecido. Ainda tenho esperanças que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas esteja realmente empenhada em não só indicar negros e negras nas categorias principais, mas também a premiar essas pessoas quando elas merecerem – e Moonlight merece demais. Nada contra La La Land (inclusive, amo profundamente!), mas alguns filmes merecem infinitamente mais levar o prêmio pra casa e é importante que a gente reconheça isso também. Moonlight é um desses – que a Academia não dê mais uma bola fora esse ano.

Pra finalizar, a lista com minhas apostas (lembrando que esses não são, necessariamente, os filmes que estou torcendo para levarem o prêmio, mas aqueles que eu acredito que têm mais chances, mesmo ainda estando MUITO confusa e sem muita certeza de nada. 2017, definitivamente um ano estranho pra cacete).

Melhor Filme: Moonlight – Sob a Luz do Luar
Melhor Diretor: Damien Chazelle
Melhor Atriz: Isabelle Huppert
Melhor Ator: Casey Affleck
Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali
Melhor Atriz Coadjuvante: Viola Davis
Melhor Roteiro Original: La La Land
Melhor Roteiro Adaptado: Moonlight – Sob a Luz do Luar
Melhor Animação: Zootopia: Essa Cidade é o Bicho
Melhor Canção Original: “Audition (The Fools Who Dream)” – La La Land
Melhor Fotografia: A Chegada
Melhor Figurino: La La Land
Melhor Maquiagem e Cabelo: Star Trek: Sem Fronteiras
Melhor Mixagem de Som: Até o Último Homem
Melhor Edição de Som: A Chegada
Melhores Efeitos Visuais: Doutor Estranho
Melhor Design de Produção: La La Land
Melhor Edição: Até o Último Homem
Melhor Trilha Sonora: La La Land

> Esqueci de avisar no último post: agora estou devidamente registrada no Gato Curioso, o que significa que vocês estão liberados para me perguntarem o que quiserem sobre a vida, o universo e tudo mais. Como sou completamente maluca, prometo responder até as perguntas mais cabeludas, então vão lá, deixem suas perguntas, façam confissões e é isso aí.

CINEMA E TV

MARATONA OSCAR 2017 – PARTE II

É possível que eu tenha jurado de pé junto que nenhuma temporada de premiações da vida dessa que vos escreve tinha sido tão preguiçosa, mas aí, depois de finalmente começar a assistir aos filmes, me arrependi por não ter começado antes. Porque é uma verdade universalmente conhecida que embora os indicados muitas vezes não pareçam promissores, quase sempre a gente acaba se apaixonando por um ou outro – e a segunda parte da minha maratona está aí pra provar que, por mais que a gente esbarre com alguns filmes bem mais ou menos no meio do caminho, alguns são tão incríveis quanto a gente torce pra ser.

Antes que alguém venha falar alguma coisa (ou a quem interessar possa): a terceira parte da maratona e as minhas apostas (!) entram mais tarde, assim que eu terminar de assistir os filmes que ainda faltam, risos. Ia postar tudo junto dessa vez, mas preferi não abusar da paciência de ninguém e dividir em três posts ao invés de dois pra não ficar grande demais. Por favor, não desistam de mim.

UM LIMITE ENTRE NÓS (Denzel Washington)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Denzel Washington), Melhor Atriz Coadjuvante (Viola Davis) e Melhor Roteiro Adaptado (August Wilson)

Sobre o que é? Um homem negro de meia-idade, pobre e frustrado com a carreira como jogador de beisebol que não decolou, que passa por uma crise no casamento e vive um momento particularmente conturbado de sua vida, que começa a estabelecer limites nas relações que, pouco a pouco, vão se desfazendo – daí o nome do filme. Baseado na peça homônima (que é interpretada pelos mesmos atores do filme), a história se passa no norte dos Estados Unidos e mostra que mesmo num estado onde o racismo era tido como uma questão superada, a realidade ainda estava muito distante disso. Ele não é Um Filme Sobre Racismo™, mas deixa muito claro como essas questões pautavam a vida de seus personagens, colocando um milhão de obstáculos em seus caminhos.

Prestou? São questões. É uma história densa sobre pessoas, relacionamentos, racismo e raiva, principalmente sobre raiva. Existe muita raiva – às vezes contida, às vezes nem tanto – em praticamente todas as relações que o personagem principal estabelece com as pessoas ao seu redor, e quase todas as atitudes dele são pautadas por esse sentimento: seja a fuga de sua própria realidade quando trai a mulher; a frustração, a agressividade, a forma como trata os filhos e a esposa. Gosto particularmente que praticamente todas as cenas mais relevantes se passem no quintal, especialmente quando a câmera nos lembra da própria experiência teatral, quase como se realmente estivéssemos sentados em uma poltrona e tudo aquilo se desenrolasse num palco à nossa frente; e talvez por isso o filme erre tanto ao tentar fazer algo diferente. Além disso, embora a analogia com a cerca construída pelo personagem seja muito boa, ela nunca recebe atenção suficiente pra que a gente realmente entenda aquilo como uma parte que diz muito mais sobre a história do que aquilo que é dito em cena.

Sinceramente? Queria matar o personagem do Denzel Washington de cinco em cinco minutos – e isso não é exagero, considerando que todas as minhas amigas que assistiram ao filme tiveram a mesma reação. É muito difícil gostar de um cara que agride tanto as pessoas ao seu redor, que afasta aqueles que o amam por ser incapaz de superar a própria frustração. A relação que ele tem com Rose, sua mulher, interpretada belamente por Viola Davis, é problemática demais, demais, demais, ao ponto de eu dar graças quando ela finalmente se viu livre daquela sombra horrorosa do marido, sozinha com sua filha – porque sim, Raynell se tornou sua filha também. É uma história que eu realmente tive bastante dificuldade de engolir e, não por acaso, foi um dos filmes que menos gostei de toda a maratona. Viola merece demais o Oscar e acho que esse prêmio dela ninguém tira, mas provavelmente vai ser só isso mesmo.

FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER? (Stephen Frears)

Indicações: Melhor Atriz (Meryl Streep) e Melhor Figurino (Consolata Boyle).

Sobre o que é? Florence Foster Jenkins, uma cantora e socialite norte-americana, apaixonada por música, que ficou famosa na década de 40 pelo seu talento peculiar como cantora, risos. Florence cantava mal, muito mal. Mas isso não a impedia de se apresentar e fazer aquilo que mais amava. Muito além da música, no entanto, a história de Florence é a trajetória emocionante – e por vezes triste – de uma mulher que sofreu demais em vida e ainda assim encontrou um jeito de continuar seguindo seu caminho; que amou, foi amada, e encontrou em meio à dor uma forma de continuar sorrindo.

Prestou? Demais! Meryl Streep dá vida a uma Florence adorável e muito apaixonada – pela música, pelo seu marido e pela vida -, às vezes um tanto inocente, mas também muito determinada. Mesmo lutando contra a sífilis, uma doença que a limitava de várias formas – ela precisou deixar de tocar piano quando a doença atacou os nervos da sua mão, não podia manter relações sexuais com o próprio marido, além da perda dos cabelos e do mal estar físico que sentia por vezes -, Florence não se permitia abater e nem entristecer. Ela se torna luz na vida daqueles que a conhecem e não é difícil que, do outro lado, a gente se sinta tocado da mesma forma. É inevitável não se apaixonar, chorar e se inspirar com essa mulher.

Sinceramente? Amei demais. Embora não seja um filme inovador, a história é muito delicada, sensível, mas cheia de luz e boas energias, assim como a própria Florence. Ao mesmo tempo que chorei horrores com a sua história, Florence me fez rir como nenhum filme dessa temporada de premiações fez e deixou meu coração verdadeiramente aquecido num momento em que tudo que eu mais precisava era justamente disso. Infelizmente, não imagino que ele ganhe alguma coisa. Embora Meryl Streep esteja adorável, só uma zebra muito grande vai tirar a estatueta da mão de Isabelle Huppert – e mesmo que isso aconteça, duvido que Meryl seja a pessoa a fazer isso. Melhor figurino é uma questão, mas sempre há esperança.

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Mel Gibson)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Mel Gibson), Melhor Ator (Andrew Garfield), Melhor Mixagem de Som (Kevin O’Connel, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace), Melhor Edição de Som (Robert Mackenzie e Andy Wright) e Melhor Edição (John Gilbert).

Sobre o que é? A história real do médico Desmond Doss, o homem que se alistou no exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, mas que se recusou a pegar numa arma e não só sobreviveu para contar sua história, como ajudou muitas pessoas a sobreviverem também, mesmo no meio do caos que era o front de batalha.

Prestou? Com força. A história de Doss é realmente incrível, cativante, uma dessas histórias que me fazem crer que, embora a gente ainda fale muito sobre guerra – especialmente sobre a Segunda Guerra – ainda existem muitas histórias por aí que podem e devem ser contadas. Ao mesmo tempo, eu, que não conhecia o trabalho do Mel Gibson como diretor, fiquei realmente sem chão por gostar TANTO de algo feito por um homem que eu não tenho nenhum motivo pra gostar. Seu trabalho é realmente impecável, as cenas de batalha são muito viscerais, sem medo de mostrar a verdadeira face da guerra, e eu admirei o suficiente pra pensar que se algum dia fizesse um filme sobre guerra, queria fazer algo no mesmo estilo, com a mesma força e o mesmo cuidado. Bem triste, mas não deixa de ser verdade.

Sinceramente? É uma verdade universalmente conhecida que Damien Chazelle possivelmente vai levar o prêmio de direção pra casa, mas eu realmente me questiono se Mel Gibson não tem chances reais também. Se ganhar, vai ser aquele prêmio com gosto de derrota: amei o trabalho, mas realmente não vou bater palma pra um maluco desses dançar. Andrew Garfield, por outro lado, é uma figura tão adorável que eu me vi torcendo genuinamente pra ele arrancar o prêmio das mãos do babaca do Cassey Affleck de uma vez e levar essa estatueta pra casa. Ademais, tem chances em edição e mixagem de som, mas acredito que só.

A QUALQUER CUSTO (David Mackenzie) 

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Jeff Bridges), Melhor Roteiro Original (Taylor Sheridan) e Melhor Edição (Jake Roberts).

Sobre o que é? Dois irmãos que, depois da morte da mãe, decidem assaltar uns bancos pra alguma coisa que até agora eu não entendi direito enquanto dois policiais tentam encontrar esses bandidos que roubavam por algum motivo que ninguém conseguiu entender também.

Prestou? Infelizmente, não. O cenário é maravilhoso, a trilha sonora é um primor para quem gosta de música country, fora que Jeff Bridges e Chris Pine são bem ótimos; mas isso não é suficiente pra segurar por quase duas horas uma história que não faz sentido nenhum. O filme nunca engrena de verdade, os personagens não são exatamente interessantes e a história não chega a ser o tipo de coisa que você vai ter vontade de passar quase duas horas da sua vida assistindo. Foi o filme mais fraco dessa temporada de premiações que assisti e, não por acaso, o mais esquecível também.

Sinceramente? Eu queria gostar muito desse filme, de verdade. Eu amo o Jeff Bridges, amo que a trilha sonora seja cheia de pérolas da música country e até consigo ir com a cara do Chris Pine, mas não deu. Fora a última cena e as tomadas no meio da estrada, que mostram as paisagens lindíssimas das estradas americanas ao som da melhor country music que você respeita, não tem nada ali que valha a pena. Não duvido nada que ele termine sendo o Grande Desaplaudido da Noite™, e infelizmente não vai ser uma surpresa quando isso acontecer. Triste, mas tem outros troféu.

LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES (Damien Chazelle)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Damien Chazelle), Melhor Atriz (Emma Stone), Melhor Ator (Ryan Gosling), Melhor Roteiro Original (Damien Chazelle), Melhor Canção Original (“Audition (The Fools Who Dream)” e “City Of Stars”), Melhor Fotografia (Linus Sandgren), Melhor Figurino (Mary Zophres), Melhor Mixagem de Som (Andy Nelson, Ai-Ling e Steve A. Morrow), Melhor Edição de Som (Ai-Ling e Mildred Iatrou Morgan), Melhor Design de Produção (David Wasco e Sandy Reynolds-Wasco), Melhor Edição (Tom Cross) e Melhor Trilha Sonora (Justin Hurwitz).

Sobre o que é? Mia e Sebastian são dois jovens sonhadores que vão para Hollywood atrás daquilo que desejam pra si: ela, se tornar uma grande atriz de cinema; ele, apaixonado por jazz, um respeitado músico. No meio do caminho os dois se conhecem, se odeiam, depois se apaixonam, tudo isso enquanto correm atrás dos seus sonhos e dançam e cantam por uma Los Angeles ensolarada que brilha como as estrelas de uma noite sem nuvens. É um filme lindo, completamente deslocado da realidade, cheio de referências, que celebra não só o jazz, mas principalmente Hollywood, o cinema clássico e os sonhos que sempre foram a força motriz dessa indústria imensa.

Prestou? Demais! Embora ele não seja tudo isso que as pessoas estão dizendo, fico feliz que ele exista pra nos lembrar que ainda existem pessoas nesse mundo que acreditam em sonhos, que são apaixonadas por aquilo que fazem, que acreditam demais numa ideia tão ambiciosa quanto essa, mas principalmente que existam pessoas dispostas a fazer esse sonho – que é o que o filme é, no final das contas – acontecer. É por isso que eu realmente fico desgraçada da cabeça quando as pessoas começam a falar mal do filme e traçar paralelos com a situação atual dos Estados Unidos e a presidência do Trump. La La Land é uma ode ao cinema clássico, à Hollywood, ao sonhos, e também ao american dream, é claro, mas isso não quer dizer perigoso como muita gente se cansou de escrever por aí. Nenhum filme existe no vácuo, eles sempre vão ter uma mensagem além, mas dizer que o filme é o pavor dos nossos tempos é demais pra mim.

Sinceramente? É uma verdade universalmente conhecida que La La Land vai levar todos os prêmios e não sou eu que vou dizer que não. Embora ele não seja tão inovador, é um filme ambicioso, que se arrisca, e que tem a coragem de entregar algo que já não acontecia há bastante tempo. Mesmo que minha torcida não esteja com ele em todas as categorias – existem filmes mais importantes, melhores e que merecem mais levar o prêmio pra casa -, não vou ficar descontente caso ele leve, porque às vezes a gente só precisa lembrar que o cinema é essa fábrica de sonhos linda, imensa e incrível, e que num mundo tão difícil quanto o que vivemos, às vezes é importante ter alguém (ou algo) pra nos lembrar que é possível continuar a sonhar.