MEMES

11 FATOS SOBRE MIM E ALGUMAS COISINHAS MAIS

Algumas semanas atrás, a Tati – essa pessoa maravilhosa que claramente me salvou da minha própria falta do que postar – me indicou para responder uma tag (meme, meme, meme) chamado Liebster Awards, que nada mais é do que uma desculpa bem maneira de falar sobre a gente quando ninguém está realmente interessado nisso. Basicamente, o meme consiste em responder algumas questões feita pela própria Tati, além de contar 11 fatos aleatórios sobre mim, só para depois eu mesma fazer perguntas para os meus indicados. Também tinha que colar um selo, etc etc, mas em função da minha preguiça, pularei essa etapa.

11 FATOS SOBRE MIM:

1. Sou filha única por parte de mãe; por parte de pai, tenho três irmãos mais novos.
2. Desde que passei a ter consciência do meu corpo e da minha aparência, passei a ter muitos problemas de autoestima, que se mantém sempre baixa, muito baixa, e me faz ser bem pouco gentil comigo mesma. Uma das coisas que eu menos gosto de ouvir quando exponho minhas frustrações é, não por acaso, que eu só estou em busca de elogios, algo que machuca profundamente justamente porque perde todo o ponto da questão: não é sobre como os outros me enxergam, mas como eu enxergo a mim mesma, e minha incapacidade de ver beleza no meu reflexo no espelho.
3. Além de Supernatural, minhas outras séries favoritas são Penny Dreadful, Call The Midwife, Gilmore Girls, Downton Abbey e Friends.
4. Ainda sobre séries, depois que terminei de assistir Friends, comecei a assistir tudo de novo, mas por motivos diversos, não cheguei a terminar. O mesmo aconteceu com Downton Abbey – essa, no entanto, continuo assistindo e pretendo chegar até o fim; de novo.
5. Música sempre foi uma ótima fonte de inspiração pra mim, e continua sendo até hoje. Quando escrevo ficção, principalmente, a trilha sonora é algo que me ajuda muito a estabelecer o tipo de história que busco contar. Isso não significa que essas histórias vão, necessariamente, contar com essas músicas como uma parte intrínseca delas, mas como uma parte fundamental do processo criativo por trás delas e a construção dessas histórias de algo totalmente abstrato – uma ideia – até o produto em si – um livro, conto ou roteiro; tanto faz.
6. Outono é minha estação favorita.
7. Uma das minhas maiores frustrações foi não ter levado as aulas de piano e violão a sério quando ainda tinha tempo pra isso.
8. Vinho é uma das minhas bebidas favoritas.
9. Embora eu goste muito de moda, um dos meus maiores desejos no momento era ter uma pessoa pra me vestir todos os dias, risos.
10. A diferença de idade entre eu e minha mãe é de trinta anos (não sei porque disse isso, mas é algo que eu gosto demais, sei lá porquê).
11. Ainda que eu não seja a pessoa mais organizada do mundo, poucas coisas me irritam tanto quanto falta de responsabilidade e comprometimento. Infelizmente, é algo com o qual tenho que lidar desde que me entendo por gente e é realmente decepcionante contar com alguém só na teoria. Por esse motivo, confio muito mais no meu trabalho do que no da maioria das pessoas com quem preciso lidar, e mesmo que seja desgastante quando tudo sobre pra mim, por outro lado, fico muito mais tranquila de saber exatamente qual será o resultado final.

11 PERGUNTAS FEITAS PELA TATI:

1. Qual sua melhor lembrança da infância?
É difícil dizer. Acho que as memórias de todas as férias que passei na casa dos meus avós, no interior, mas não consigo lembrar de momentos específicos, e sim de flashes de coisas que aconteceram e, juntas, seriam capazes de conjurar patronos. Eu tive uma infância muito boa de um modo geral e é muito difícil lembrar de uma única lembrança que se destaque, porque o conjunto delas acaba sendo muito mais importante, se é que dá pra entender.

2. Quando a blogosfera passou a ser parte da sua vida?
Ensaiei ter alguns blogs quando ainda era muito novinha, por volta dos 12 ou 13 anos, mas foi só aos 16 que eu realmente assumi a blogosfera como uma parte da minha vida – primeiro, com os blogs de moda, e a partir de 2013, com um blog pessoal. Sinto muito por não ter vivido mais com essa presença constante na minha vida e por todas as memórias que acabaram se perdendo com o tempo, mas hoje não consigo imaginar uma vida em que eu não tenha um espaço para escrever e ser eu mesma em tempo integral.

3. Se você só pudesse ouvir uma música pelo resto da vida, qual seria e por quê?
Não faço ideia. Minha primeira reação é dizer que ouviria “Vienna”, do Billy Joel, porque é uma música que significa muito pra mim e que possui uma letra que bate muito forte sempre que ouço. Mas não sei se gostaria de ouvi-la pelo resto dos meus dias. Então, provavelmente, escolheria alguma música do Scorpions, do Harry Styles ou do primeiro álbum das Haim, que são músicas que, acredito, são mais atemporais e eu não enjoaria com muito facilidade, e que significam um bocado pra mim também; não necessariamente por uma música em si, mas pelo contexto do álbum em que elas estão inseridas e sua capacidade de representar tudo isso numa única canção, etc.

4. Qual seu self-care favorito?
Essa coisa de self-care ainda é muito nova pra mim e tenho tentado encontrar coisas que realmente façam com que eu me sinta bem e mais amada por mim mesma – o que é um desafio imenso, mas um passo de cada vez. Não sou a melhor pessoa do mundo com cuidados diários com pele, mas algo que me faz sentir extremamente bem é me cuidar dessa forma: tomar um banho quentinho, demorado e cuidadoso, passar um milhão de cremes na cara e no corpo em seguida, colocar um pijama e ficar embaixo das cobertas. Também amo me mimar com comida – o que é péssimo às vezes, porque constrói uma relação bem problemática com a comida, mas bear with me – e assistir um episódio de série conforto.

5. Se precisasse escolher, preferiria uma viagem com tudo pago para a Itália ou uma biblioteca completa dentro da sua casa?
Uma viagem com tudo pago para a Itália!

6. Qual foi o último filme que você viu no cinema?
Mulher-Maravilha, com a glória da deusa Diana e a benção da rainha Patty Jenkins.

7. Como diria Kelly Key: mais uma noite chega, e com ela a depressão?
Infelizmente, sim. Kelly Key sabia das coisas.

8. Mil reais ou uma foto com o Raça Negra?
Mil reais pois pobre de marré. Desculpa Raça Negra.

9. Qual sua palavra preferida?
Isso muda muito. No momento, acho que “serena”.

10. O que o ano de 2017 está sendo pra você?
Um desafio imenso, em muitos sentidos. No lado profissional, esses desafios surgem na forma de prazos a serem cumpridos, atividades com as quais não tenho muita segurança, mas preciso desempenhar de qualquer jeito, e funções e situações que me deixam profundamente desconfortáveis, mas que precisam ser desempenhadas e olhadas de frente. Sou uma pessoa naturalmente acomodada, que foge de confrontos como o diabo foge da cruz, e esse ano tem sido não apenas um ano de trabalhar muito duro o tempo inteiro, mas de também subverter esse meu lado e assumir uma postura mais corajosa – mesmo que seja só fachada. Já no pessoal, 2017 também tem sido um ano de descobertas, principalmente por causa da terapia, que cada vez mais desenterra fantasmas e me obriga a olhá-los de frente e entender porque eles estão ali para só então exorcizá-los; ou então reconhecer que tudo bem eles continuarem comigo por mais algum tempo. É um processo muitas vezes doloroso, incômodo, mas extremamente importante e também engrandecedor. Tenho feito muitas descobertas e confrontado nuances da minha personalidade que não são exatamente qualidades que eu gostaria de ter, mas que são muito humanas, e talvez pela primeira vez na minha vida, tenho a chance de aceitá-las como tal e ao menos tentar ser mais gentil comigo – algo que venho falhando miseravelmente até o fechamento desta edição, mas bear with me.

11. Se precisasse escolher um dos namorados da Taylor Swift para ficar com ela pra sempre, qual seria?
A não ser que minha vida dependesse disso, não escolheria nenhum. Por mais que eu goste muito do casal Haylor e tenha feels até hoje quando penso no “Red” e todas as suas músicas escritas especialmente para o Jake Gyllenhaal, não acho que nenhum deles faça mais sentido na vida da Taylor hoje, da mesma forma que ela, em contrapartida, também já não faz mais na deles. O tempo passa, para o bem e para o mal, e já passou tempo demais para que essas histórias sejam desenterradas e façam algum bem para os envolvidos. Não vai fazer. Então, só espero que a Taylor encontre um cara verdadeiramente legal para sua versão de hoje – ou não encontre cara nenhum, se ela não quiser -, da mesma forma que desejo ao Harry um amor profundo e poético, como ele merece, e ao Jake desejo eu mesma, porque lógico (brinks).

MINHAS 11 PERGUNTAS

1. Qual seu livro favorito e por quê?
2. Se pudesse ser a personagem de alguma série, qual seria?
3. Não devemos perder tempo com…?
4. O que acha de problematizações no geral e qual foi a problematização mais bizarra que você já viu?
5. Você se considera uma pessoa boa?
6. O pior defeito que uma pessoa pode ter e que você também tem?
7. Qual sua opinião sobre o show do Harry Styles com ingressos sendo vendidos com quase um ano de antecedência e esgotando em seis fucking minutos?
8. Um lugar do mundo que adoraria conhecer.
9. Do que mais se orgulha na sua vida até aqui?
10. Existe algum sonho de infância que você ainda pretende realizar?
11. O que Taylorene e Katy Perry deveriam estar fazendo ao invés de perder tempo com uma treta ridícula?

Infelizmente, não consegui pensar em ninguém pra indicar dessa vez porque a) sou antissocial e b) todas as pessoas que conheço já foram indicadas por outras pessoas. Então, sintam-se à vontade para responder às perguntas e me avisem depois pra eu poder conferir as respostas de vocês.

DRAMAS REAIS

TEMOS NOSSO PRÓPRIO TEMPO

Como todos os textos que nasceram da necessidade meio tosca de justificar minhas ausências, pensei em começar esse com um imenso e ridículo pedido de desculpas, mas então decidi que não valia à pena. Não que pedir desculpas não seja importante, mas a essa altura já é uma verdade universalmente conhecida que a rotina desse blog é feita de pequenos hiatos, que cedo ou tarde chegam ao fim, e eu já deixei de me sentir culpada por eles há tempo demais para continuar a me desculpar. Embora nem sempre tenha sido assim, nos últimos meses, o blog assumiu um espaço na minha vida que passa muito longe de ser uma obrigação; o que é, ao mesmo tempo, bom e ruim: bom porque, naturalmente, eu não passo mais tanto remoendo todos os textos que não escrevi; ruim pelo exato mesmo motivo. Entre uma atualização e outra, muita coisa acaba ficando perdida, e eu estaria mentindo se dissesse que eu não sinto muito, muitíssimo, por todos os textos que não viram a luz do dia.

Curiosamente, essa nova relação com a escrita, de um modo geral, me deixa muito mais tranquila, e taí uma coisa que eu tenho priorizado bastante na minha vida. Aos 24 anos, sempre imaginei que tranquilidade fosse estar muito longe da minha cota de prioridades – “quero dinheiro”, eu pensava, “um casamento”, “um trabalho maneiro”, “viagens”, etc etc -, mas sendo a vida essa grande piada cósmica, é impossível não olhar ao redor e querer viver num mundo em que a gente tenha tempo pra fazer tudo ou não fazer nada se preferir. Se minha vida fosse um filme, o transformaria numa narrativa cheia de silêncios carinhosos, tons pastéis e músicas fofas, e cenas que deixassem o coração de quem assiste mais quentinho. Ainda hoje (na verdade ontem, porque comecei a escrever esse texto num dia, mas só fui concluí-lo no dia seguinte), disse pra uma amiga que, embora eu amasse filmes frios e grandiosos, esse não era o tipo de cinema que eu gostaria de fazer, e é verdade. Não por acaso, os filmes que eu desejo fazer são aqueles que falam sobre pessoas muito desgraçadas, mas que curiosamente contam histórias leves, quentinhas, com sabor de comfort food, que é mais ou menos como eu desejo que minha vida seja também.

Sempre gostei de pensar que eu podia fazer o que quisesse, ser o que quisesse e conseguir o que quisesse, mas foi preciso que minha saúde física e mental entrassem em cena para que eu entendesse que, ainda que eu me sentisse muito capaz o tempo inteiro, nada nesse mundo valia o risco de perdê-las de vez. E que nem sempre eu ia conseguir fazer o que quisesse, ser o que quisesse, etc etc. Tenho a sorte – e o azar – de estar envolvida em muitos projetos e ter responsabilidades pelas quais eu sou completamente apaixonada e que fazem todo o esforço valer à pena. Eu amo a faculdade, eu amo fazer filmes, eu amo escrever. Mas existe uma diferença fundamental em amar todas essas coisas de maneira saudável e esquecer de si mesma no processo. Ser workaholic parece muito bacana na teoria; um milhão de vezes eu disse que era assim que eu queria ser, desde que fizesse o que amava, e era exatamente essa pessoa que eu estava me tornando, sempre ocupada demais para qualquer coisa. Então eu fiquei doente; uma vez, duas vezes, três vezes em pouquíssimos meses. Minha ansiedade voltou com força total. E enquanto eu era obrigada a abandonar um, dois, três projetos, quatro, cinco, seis ideias de textos, invariavelmente, eu me sentia uma fraude. Uma mentira. Uma pessoa incapaz e ridícula e falha e que não ia chegar em lugar nenhum porque ninguém chega a lugar algum se não consegue sequer cumprir um prazo porque está com a cabeça desgraçada demais pra isso.

Quando a Anna Vitória escreveu no Valkirias sobre colocar o pé no freio e se permitir absorver as coisas com calma, uma parte de mim jazia no chão completamente exausta depois de passar horas gritando na minha cabeça que aquele era um passo terrivelmente equivocado e que eu ia me arrepender amargamente de tê-lo aprovado num futuro nem tão distante assim. Depois de um ano intenso, porém maravilhoso, parecia uma decisão estúpida seguir na contramão daquilo que vinha dando tão certo. 2017 seria um ano do trabalho duro, diziam os astros, de fazer as coisas acontecerem, e eu, que nunca precisei de muito incentivo para acreditar nessas coisas, levei a máxima a sério o suficiente para me permitir ser engolida pelo trabalho. E pelos meus sonhos e projetos e ambições, como se de algum modo eu precisasse provar que eu era uma pessoa ocupada de verdade e que não passava o dia inteiro sentada na frente do computador atoa, assistindo vídeo de gato e jogando conversa fora com minhas amigas – ironicamente, as coisas que eu deveria estar fazendo também, mas que simplesmente não encontravam espaço para coexistir com a loucura entre faculdade e projetos que se multiplicavam de maneira insana. Eventualmente, consegui entender que pisar o pé no freio não significava fracassar ou admitir uma possível derrota; é uma decisão que parte muito mais da consciência de que, para acontecer da forma que queremos, nosso trabalho precisa de cuidado e atenção e tempo, do que de supostos fracassos. Além disso, somos todas humanas e não adianta nada falar sobre a humanidade não aceita de tantas personagens se nós sequer somos capazes de aceitar nossas próprias limitações.

Por mais difícil que seja, aceitar que nem sempre dá pra fazer tudo, ser tudo, dar conta de tudo, é fundamental para seguir com o baile. Continuo acreditando que crescer é importante, que fazer cada dia mais e melhor também é, mas desde que isso não custe tão caro ao ponto de se tornar prejudicial. É uma relação completamente nova com a escrita, é claro, mas também com minha vida acadêmica, profissional e também pessoal porque nem só de trabalho e problematização e artigos de cinco mil palavras é feita a vida; o que naturalmente também reflete no blog. Diferente de muitas pessoas que abandonaram os blogs para continuar falando sobre a vida em outras plataformas ou simplesmente se dedicar a outros projetos, eu continuo incrivelmente determinada a continuar nesse espaço, mas sem a obrigação que um dia já foi regra. Quero continuar a escrever sobre a vida e registrar minhas memórias aqui, mesmo que nem tudo seja explicitamente escrito, porque essa ainda é a melhor forma que encontrei para lembrar e guardar aquilo que é importante, e o que não é também, mas que eu vou gostar de lembrar quando tiver 84 anos e conversar com meus netos e deixar para trás depois que eu morrer – mesmo que ninguém se importe com isso além de mim mesma. Uma das minhas maiores frustrações é não ser fruto de uma família de gente que escreve, obcecada por registros e memórias, e nunca ter tido a oportunidade de passear pelas lembranças dos meus avós, que são pessoas que eu admiro tão profundamente e que tenho certeza que viveram coisas incríveis, mas que jamais foram registradas e que terminaram se perdendo com o tempo.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que começou a Primeira Guerra Mundial, um conflito de importância histórica que, dizem alguns, foi ainda mais traumático, sujo e brutal do que a Segunda Guerra. Ambos parecem distantes demais da nossa realidade, separadas por um período de mais de cem anos, mas que não parece tão distante assim quando sabemos que pessoas que conhecemos estiveram lá de alguma forma e fizeram parte da história, mais ou menos como nós também estamos fazendo agora. Meu avô assistiu muitos dos maiores fatos históricos que marcaram o século XX acontecerem em tempo real, e eu realmente gostaria de saber o que ele pensava sobre esses assuntos, quais eram suas opiniões, seus medos, frustrações. O homem que eu conheci – e que infelizmente já não está mais entre nós – é uma versão infantil e carinhosa moldada pela perspectiva da neta que passou dezesseis anos sendo chamada de passarinho, que ria de suas piadas e que acreditava que nenhum outro homem poderia ser tão gentil quanto aquele; mas existiam muitos outros e sinto muito por não tê-los conhecido também. Não é muito diferente do que acontece com a minha avó. Ela, que nasceu em 1927, também já viveu e assistiu muita coisa, mas ainda que conversemos um bocado sobre o passado, algumas memórias simplesmente se esvaem com o tempo.

É uma obsessão idiota, mas não vazia, e é isso que, de certa forma, me faz continuar aqui. Me perguntaram uma vez porquê eu continuava com o blog quando existia um sem fim de plataformas onde eu poderia fazer exatamente a mesma coisa, e eu não precisei pensar duas vezes antes de responder: porque o blog ainda é, dentre todas as coisas, algo essencialmente meu. Tirando duas ou três coisas nessa vida, esse é o único espaço do qual eu tenho pleno controle e que não vai sofrer mudanças se alguém além de mim mesma quiser; o que é muito mais do que eu posso esperar de um Medium da vida ou de um Tinyletter qualquer. Esse foi um dos motivos, aliás, que me fez desistir da newsletter nos moldes em que ela estava; embora eu ainda tenha a pretensão de fazer algo novo com ela, escrever sobre a minha vida em um novo espaço pode fazer muito sentido pra muita gente, mas definitivamente não faz pra mim. O blog é minha casa, é meu lar, é o cantinho que tem a minha cara e que muda comigo cada vez que eu achar necessário, como um corte de cabelo que muda ao longo dos anos, cada vez que sentimos a necessidade de apresentar uma nova faceta ao mundo. É aqui que eu quero poder sentar no tapete com uma taça de vinho na mão e falar sobre a vida e não faz o menor sentido tentar mudar o que acontece nesse espaço se eu já me sinto tão confortável aqui.

Ainda existem muitas coisas que eu quero fazer e pouco tempo para, de fato, fazê-las. Quero escrever mais e em novos lugares, quero remodelar a newsletter, aprender a bordar, voltar a fotografar, escrever mais roteiros, começar uma pequena produtora e produzir mais filmes, fazer colagens, terminar um livro; mas são coisas que inevitavelmente precisam de tempo e calma – e às vezes dinheiro – para acontecerem e eu estou disposta, talvez pela primeira vez na minha vida, a esperar e dar um passo de cada vez ao invés de sair atropelando tudo sem nunca ser capaz de curtir nada porque estou mais preocupada em fazer com que elas aconteçam do que realmente aproveitar cada uma dessas conquistas – que podem ser pequenas ou não, mas devem ser celebradas da mesma forma. Escrever mais ainda é meu maior objetivo, mas ao final de um dia de trabalho, eu ainda quero poder entrar nesse blog e descobrir que esse é exatamente o lugar em que eu desejo estar.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

NÃO ERA PRETO E BRANCO

Cada Um Com Seu Cinema é um filme de 2007 que reúne curta-metragens de diretores renomados do mundo inteiro, onde cada um tem a oportunidade de contar pequenas anedotas de amor ao cinema; histórias minúsculas que, pouco a pouco, constroem uma obra que, ao mesmo tempo, critica, celebra e lamenta o futuro da sétima arte. Na aula de direção dessa semana, tiramos o tempo para assistir e analisar alguns desses curtas, um exercício de crítica e compreensão de linguagem, estética e técnicas tão distintas; uma experiência que seria maravilhosa, não estivesse eu mais preocupada em fingir que estava tudo bem.

Fingir que está tudo bem é, aparentemente, o que mais tenho feito nos últimos meses; uma tentativa ridícula e desesperada de provar pra mim mesma que as coisas não estão tão ruins assim, mesmo que elas de fato estejam. Como disse para uma amiga esses dias, é como se o tempo inteiro eu tentasse equilibrar uma porção de pratos que precisam de cuidado e atenção, mas que ao mesmo tempo exigem uma agilidade constante no trato: o tempo que dedico a um prato pode ser fatal para outro, e é preciso me desdobrar em muitas para dar conta de tudo. Mas tudo isso é feito com um sorriso no rosto porque, do contrário, eu não estaria fingindo tão bem, ninguém compraria o que minha boca diz, quase sem pensar: está tudo bem, eu respondo quando alguém se mostra preocupado demais com a situação; mas não está. É exaustivo tentar dar conta de tanto, sabendo que, no momento, sequer sou capaz de dar conta de mim mesma, mas não dá simplesmente para deixar que todos os pratos caíam no chão porque as consequências seriam muitas, imensas, desastrosas, e eu não consigo pensar numa forma razoável de lidar com cada uma delas. Existe uma vida acontecendo; existem responsabilidades, problemas, pessoas. Não é como se eu pudesse sair correndo cada vez que um dos meus fantasmas escapassem pela porta e começassem a me assombrar, mas não é, também, como se eu pudesse segurar essa onda por muito mais tempo.

Ontem, em determinado momento da aula, comecei a chorar em silêncio, sozinha no escuro – ainda que não estivesse sozinha de verdade. Na tela, a história de uma mulher cega que ia ao cinema com o namorado ganhava forma e traduzia de forma sensível e muito delicada uma porção de sensações e sentimentos – as mãos que se entrelaçam, os movimentos que se alteram de forma sutil à medida que o filme avança, a revelação de que a protagonista é cega, uma mulher que ouve e sente profundamente aquilo que é projetado na tela, mas não enxerga absolutamente nada, a câmera que não nos permite enxergar com clareza nada além da própria personagem também -, detalhes que pouco a pouco constroem uma narrativa curta e objetiva cujo o grande mote não é o cinema em si, mas todas as sensações que ele provoca; sensações essas que estão muito além da visão ou da compreensão humana. Ironicamente, o filme se chama Anna, e foi dirigido por ninguém mais, ninguém menos, que Alejandro González Iñárritu, um diretor que gosto bem pouco na maior parte do tempo, para não dizer coisa pior, mas que naquele pequeno momento conseguiu dizer muito mais (pra mim, ao menos) do que seus longa-metragens de três horas de duração.

Um momento particularmente tocante é quando, após sair da sala de cinema, visivelmente abalada, Anna pergunta ao namorado se o filme era preto e branco. Não era. Então ela chora, certa de que, ainda que seja capaz de ouvir e sentir, física e emocionalmente, cada uma daquelas histórias, jamais será capaz de viver aquela experiência de forma plena; e é assim que o filme chega ao fim. Tenho pensado muito sobre ele desde então, sobre Anna e também sobre mim, e quase sempre chego à conclusão de que, embora existamos em realidades muito distintas, existe algo terrivelmente familiar em sua narrativa. Eu me sinto um pouco como essa mulher: como se estivesse sentada na poltrona de um grande cinema, enquanto minha vida é projetada na tela; uma experiência que jamais sou capaz de experienciar em sua totalidade. Existe o choro e o carinho, existem as palavras trocadas no escuro, as mãos que se movimentam de forma sutil, expressando tudo aquilo que é grande demais para ser posto num intervalo de palavras; mas ainda é preciso que alguém me diga que as cores estão ali e sussurrar no meu ouvido o que está acontecendo. Existe essa regra – que às vezes é quebrada, às vezes não – clássica, tão velha quanto o mundo é mundo, de que no cinema nada se conta, tudo se mostra. Mas o que fazer quando a visão, esse sentido tão básico e fundamental, é arrancado – literal ou metaforicamente – de nós?

Anna lamenta pela cegueira, que pode ter surgido em seu caminho ou já nascido junto com ela; eu choro pela minha própria, que não nasceu junto comigo, mas apareceu no meio do meu caminho e ali ficou, sem nunca ir embora. Nós não pedimos por isso, nem eu nem ela, e seria muito mais fácil se fosse diferente, mas não é. “Você vai lidar com isso de uma forma boa ou ruim?”, pergunta uma voz no meu ouvido. Não sei, eu penso em resposta, por mais óbvia que a escolha pareça – entre o certo e o errado existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, afinal. O filme não era preto e branco; era em cores vivas, bonitas e cheias de tons de cinza, que se entrelaçavam aos tons luminosos e vibrantes, formando algo único e complexo, assim como a vida. Talvez em algum momento, sejamos capazes de enxergá-las de novo.

(Esse texto não faz o menor sentido, mas bear with me; nada na minha vida faz o menor sentido no momento.)

CINEMA E TV

OS CINCO FILMES DA MINHA VIDA

Bom, acho justo começar dizendo que a essa altura já está claro que a cilada BEDA em abril 2k17 foi um verdadeiro flop, que só não foi pior porque eu tive a decência de pelo menos tentar fazer com que ele acontecesse. Não aconteceu, mas não foi de todo um desperdício de tempo: longe de render todos os textos que eu esperava, pelo menos foi uma bagunça divertida, ao lado de gente A+, o que por si só já faz essa zona valer à pena. Mas a verdade é que o mês só acaba quando termina, de modo que eu ainda tenho alguns poucos dias para brincar e rir na cara do perigo, exatamente o que devia ter feito nas semanas anteriores e não fiz. Não tem textão (não ainda), mas tem blogagem coletiva – uma ideia da Mia, que gentilmente salvou o dia – e tem euzinha falando sobre os meus filmes da vida.

A principal diferença entre filmes da vida e favoritos é que, enquanto os favoritos podem ser, literalmente, qualquer coisa, os filmes da vida têm aquele apelo especial, aquele detalhe que parece conversar diretamente com a gente, de uma maneira profunda e especial que só a ficção é capaz de fazer. Não dá pra explicar, apenas sentir, etc etc. Tenho certeza absoluta que a maior parte dos filmes que vão me dizer coisas profundas e especiais ainda nem foram assistidos, mas tudo bem. Por enquanto, essa é a minha lista (que era pra eu ter postado ontem, mas tudo bem porque não se pode ter tudo mesmo).

1. REALITY BITES


Reality Bites é um filme dirigido pelo Ben Stiller, que ainda era um jovem ambicioso em início de carreira, e que em português ganhou o nome absolutamente ridículo de Caindo na Real (pois é) – que é um título que até faz sentido, mas que soa bem ridículo se você parar pra pensar. Acontece que, contrariando todas as expectativas, a história que ele conta é realmente muito, muito ótima, e reúne numa só narrativa questões que abordam, ao mesmo tempo, carreira, romances, amizade, relações familiares, crises existenciais, doenças mentais e aids. Lelaina, Vickie, Sammy e Troy são jovens de vinte e poucos anos que se veem naquele limbo do fim da faculdade – todos os sonhos tão perto e tão longe – e se apoiam num discurso bastante idealizado sobre a vida adulta; que negam o tempo todo suas origens e tentam se afastar o mais radicalmente possível dos próprios pais até que, numa sucessão óbvia de fatos, são confrontados pela realidade que não é assim tão interessante quanto eles imaginaram. Um dos meus momentos favoritos do filme é quando, frustrada com a própria vida e a dificuldade em conseguir um emprego na área que sempre sonhou em trabalhar – cinema ou televisão, ironicamente, risos -, Lelaina diz que imaginava que seria algo mais aos vinte e três anos, ao que Troy responde que a única coisa que ela deveria ser aos vinte e três é ela mesma; o que não deixa de ser uma verdade. Embora a história termine sendo mais sobre o romance entre Troy e Lelaina no final das contas, eu ainda consigo me enxergar em cada plano, em cada cena – às vezes de um jeito besta e idealizado, mas é pra isso mesmo que serve a ficção.

2. CLUBE DOS CINCO

Lembro exatamente da primeira vez que assisti esse filme: eu tinha acabado de voltar do shopping com minha então melhor amiga, passando mal adoidado, e nós decidimos assistir esse filme pra matar o resto de tempo que a gente ainda tinha – eu, com a cabeça no colo dela, enquanto ela mexia no meu cabelo em silêncio. De lá pra cá, já assisti Clube dos Cinco aproximadamente 192873891273 vezes, e todas elas foram exatamente como a primeira: um festival de reflexões e amor verdadeiro e eterno. Embora ele não converse diretamente com minha faixa etária – os personagens, afinal, estão no ensino médio e já faz bastante tempo que eu saí do ensino médio, risos -, é curioso como os conflitos e questões que eles têm continuam muito próximos e atuais, ao ponto de conversar não só com adolescentes, mas com faixas etárias mais abrangentes. Embora os filmes do John Hughes sejam problemáticos em muitos níveis, amo a forma como ele não trata adolescentes como jovens rebeldes e insatisfeitos sem causa ou motivo algum, mas como os seres humanos complexos que verdadeiramente são, algo que eu gostaria muito de conseguir imprimir na tela também. Me perguntaram algum tempo atrás no curious cat (favor, me sigam) qual filme eu gostaria de ter feito, e não foi preciso pensar muito para dar uma resposta: Clube dos Cinco it is!

3. PIERROT LE FOU

Longe de ser o meu Godard favorito, Pierrot le Fou acabou se transformando na minha referência favorita do cineasta porque ainda é o que conversa comigo de forma mais profunda, e para o qual eu sempre retorno quando preciso. A história é muito simples: frustrado com a vida que leva, Ferdinand decide fugir com Marianne, uma jovem adorável, romântica e cheia de frases de efeito que o leva por uma aventura sangrenta (!) e de final trágico para ambos. Antes disso, no entanto, os dois dividem momentos de alegria e frustração, passeiam por paisagens belíssimas, cantam como se vivessem num adorável musical e são perseguidos pela máfia, tudo ao mesmo tempo. Eles se envolvem com tráfico de armas e conspirações políticas, mas ainda são pessoas que sonham em viver sob as próprias regras e ideais, negando a realidade que lhes aprisiona. Lançado em 1965, o filme é tido como um dos grandes marcos da nouvelle vague, movimento artístico do cinema francês que, na contramão do que vinha acontecendo na época, buscava transgredir as regras do cinema clássico comercial; e que para muitos ~estudiosos~, teve fim na cena icônica em que Ferdinand explode a própria cabeça, ao final de… Pierrot le Fou. Independente de importância histórica ou qualquer coisa assim, no entanto, o filme é realmente maravilhoso e eu sempre recomendo sem nem pensar duas vezes, pra quem quer que seja.

4. GOD HELP THE GIRL

God Help The Girl não é apenas um dos filmes da minha vida: ele é, também, o meu filme com a Yuu, minha baby girl, uma das minhas melhores amigas e uma das pessoas mais importantes da minha vida; o que por si só já é suficiente pra transformá-lo, senão no mais importante dessa lista, ao menos em um dos mais relevantes dela. Mas ele também é o filme sobre uma jovem com transtornos alimentares e mentais, que encontra na música uma saída para superar os próprios traumas, e constrói amizades lindas e sinceras a partir daí. Entre músicas adoráveis, cenários belíssimos e lukinhos inspiradores, o que essa história – que nasceu de uma música composta pelo próprio diretor, que também calhou de ser vocalista do Belle & Sebastian, por sua vez criada para a banda mas que, segundo o próprio Stuart Murdoch, parecia pertencer a um universo a parte; daí a ideia de criar um musical em cima dessas canções – faz é construir uma história linda e repleta de significado. Gosto principalmente de como, mesmo tratando de temas tão pesados, a narrativa consegue manter-se leve, mas nunca deixa de ser profundamente honesta. Não há nada de bonito em ser assombrada por transtornos mentais e o filme não se esquiva dessa realidade; mas isso não quer dizer que as pessoas que lidam com essas questões não podem também ter uma vida bonita, amizades sinceras, e músicas deliciosas que servem de trilha sonora para suas jornadas, enquanto dançam em seus quartos – ou no meio da rua – com os braços pra cima. Esse filme – e suas músicas – tem me segurado nos momentos mais difíceis, tornando-se um importante lembrete de que, embora a ansiedade e a depressão sejam coisas muito reais, elas jamais serão capazes de definir quem eu sou.

5. A BELA E A FERA

Porque lógico, né. Peguem uma menina de três anos, completamente obcecada por livros e princesas, e a apresentem a uma princesa que seja não apenas gentil e adorável, mas igualmente obcecada por livros, ao ponto de ler infinitas vezes suas histórias favoritas. Pronto. É assim que nasce a identificação. Bela foi a primeira personagem com o qual eu me identifiquei, muito antes de saber que diabos significava se identificar com alguém que não fosse minha própria mãe, a professora, uma coleguinha da escola ou um parente mais próximo; mas foi também uma das minhas primeiras referências, aquela com quem eu desejava parecer de qualquer jeito e me inspirava em tempo integral. Aos cinco anos, eu me vesti de Bela e ganhei uma festa com balões dourados, num salão que não era tão grande quanto o do castelo da Fera, mas que emulava um salão de baile em cada pedacinho. Ali, eu era a Bela, única possível, e desde então nunca deixei de ser – no meu próprio tempo e espaço, mas ainda assim.

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QUEM TEM MEDO DE CLÁSSICOS?

O primeiro livro de gente grande que eu li foi Robinson Crusoé, um romance sobre um náufrago que passa vinte e oito anos perdido numa ilha deserta. O livro foi publicado em 1719, mas curiosamente foi uma das coisas mais legais que eu já tinha lido até ali, uma obra que abriu espaço para muitas outras dali em diante numa época em que eu ainda não tinha medo de livros antigos demais, distantes demais da minha realidade, dos grandes clássicos da literatura e todo o resto. Crescer aparentemente me transformou numa pessoa ridiculamente idiota, porque desde o início da minha adolescência, a leitura de clássicos se tornou um grande tabu na minha vida e não é por acaso que, até hoje, minha formação literária nesse sentido é tão falha. Eu criei um medo irracional de muitos livros e de muitos autores, ao ponto de só muito recentemente ter passado a correr atrás do prejuízo – meio por interesse, meio porque não aguentava mais dizer que nunca tinha lido Machadão ou Jane Austen.

É uma situação ridícula essa, especialmente quando falamos de clássicos, que são os livros populares de outrora, os tais best-sellers que a gente tanto ouve falar. Embora a escrita mais rebuscada às vezes seja um problema, ela nem sempre é a regra, e no final das contas esses livros acabam sendo experiências maravilhosas, além de retratos de épocas que não vivemos. Tirando uma ou outra leitura que até agora eu não consegui superar o medo – Machadão, estou olhando pra você #spoiler – a maior parte das minhas experiências foram maravilhosas, e eu acabei conhecendo histórias que se tornaram favoritas de uma vida inteira. Orgulho e Preconceito é uma grande novela das seis, deliciosa de acompanhar e absolutamente cativante; O Retrato de Dorian Gray se tornou um verdadeiro favorito, desses que eu indico pra qualquer pessoa sem nem pensar duas vezes; e embora já faça muito tempo desde que o li, Lucíola ainda é um dos meus clássicos favoritos da literatura brasileira. Então por que diabos a gente – e quando digo a gente, estou falando principalmente de mim mesma – continuamos com esse medo ridículo de… livros?

Foi pensando nisso que a Mia, essa adorável criatura e parceira de crime, sugeriu que falássemos sobre livros clássicos que nos dão medo, muito medo, que nos intimidam em tempo integral mesmo que a vontade de lê-los seja imensa. Imediatamente pensei em uma porção de títulos que se encaixariam perfeitamente na proposta, mas preferi focar nos principais, aqueles que me dão mais medo entre todos os clássicos que estão na minha lista de futuras leituras há anos, mas seguem me assombrando em tempo integral.

1. Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski.
Aparentemente existe um consenso sobre os russos, que não são apenas os russos, mas os RUSSOoOoOoOoOoS, esses caras diferentões e difíceis de lidar, que escrevem uma literatura igualmente diferentona e difícil de lidar. São livros imensos, vindos de uma terra que nos causa, ao mesmo tempo, fascínio e receio, um lugar de gente diferentona e, reza a lenda, difícil de lidar, e eu não acho que seja puro acaso que esses livros evoquem os mesmos sentimentos. Crime e Castigo acaba sendo ainda pior por se tratar de um livro imenso com uma temática pesada; a história de um ex-estudante de Direito que comete um assassinato (!) e se torna incapaz de lidar com sua própria vida após o delito. Outras histórias se desenvolvem em paralelo, mas o livro dedica boa parte de suas infinitas páginas aos conflitos psicológicos do personagem principal, e isso por si só já é suficiente para que eu tenha certeza de que uma bad fenomenal caminha em minha direção só de passar os dedos pela capa do livro, enquanto vivemos um relacionamento platônico e destrutivo numa livraria qualquer.

2. Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Minha relação com Machadão começou no ensino médio, quando eu fui gentilmente obrigada a ler algumas de suas obras para o vestibular e…não li nenhuma. Eu passava horas, na sala de aula mesmo, lendo tudo que fosse possível, menos aquilo que eu efetivamente deveria estar lendo; meu jeitinho de ser rebelde, mas nem tanto assim. A verdade é que eu sempre tive um preconceito sincero em relação aos clássicos da literatura nacional, algo que mais tarde evoluiu para um medo muito honesto de lê-los. As pessoas diziam que todos eram insuportáveis, difíceis, e meio sem querer, meio já querendo, eu acreditava, mesmo que nunca tivesse realmente tentado dar uma chance pra eles. Alguns anos mais tarde, conheci pessoas que me fizeram mudar completamente de ideia e que me mostraram que Machado de Assis não era um autor chato e difícil, como passei boa parte da minha vida ouvindo. Assim, tentei ler uma edição feiosa que ganhei na época do vestibular, junto com uma porção de outros clássicos – todos em edições igualmente horrorosas, para o meu completo horror -, mas infelizmente não consegui passar da primeira página. Foi a primeira tentativa frustrada de algumas, não muitas, mas que imagino serem uma consequência de todos aqueles anos que eu passei ouvindo que o livro era o maior pavor de todos os tempos. Ainda pretendo dar uma nova chance, mas quando isso vai acontecer é realmente uma questão.

3. Drácula, de Bram Stoker.
Sendo uma pessoa apaixonada por vampiros e toda a mitologia que os envolve, chega a ser ridículo que até hoje eu não tenha lido Drácula, também conhecido como o livro que moldou nosso imaginário coletivo e que nos deu de presente a figura misteriosa e repulsiva do vampiro mais famoso do mundo, etc etc. Tenho certeza que vou amar cada minuto da leitura e foi justamente por isso que, no ano passado (!) finalmente comprei uma edição pra chamar de minha – uma que não é exatamente bonita, mas também não é exatamente feia, bear with me -, decidida a iniciar a leitura assim que possível; um possível que, por algum motivo, nunca chega. Já perdi as contas de quantas vezes tirei o livro da estante, determinada a mergulhar na história, mas aparentemente não trabalhamos com vergonha na cara, porque até hoje foi o máximo que já aconteceu. Numa medida desesperada, enfiei o livro na minha lista do Desafio Luxuoso, genialmente criado pela menina Analu e sua amiga, creiça Karina, mas até o fechamento desta edição, o livro segue “””intocado””” na minha estante. Vai entender.

4. Este Lado do Paraíso, de Scott Fitzgerald.
Não sei se já falei sobre isso, mas desde que conheci a Fer, tenho nutrido uma obsessão descompromissada pelo casal Fitzgerald. Amor descompromissado foi a forma que eu encontrei de chamar essa admiração e interesse que tenho pelos dois e sua história de vida curta e conturbada, mas sem realmente mergulhar na vida & obra de ambos. Este Lado do Paraíso foi o primeiro livro do Scott a ser publicado, o responsável por colocar o selo “top” de aprovação na testa do homem, e desde que assisti a primeira temporada de Z: The Beginning of Everything – que na verdade é sobre a Zelda, mas bear with me – tenho me sentido especialmente interessada. Mas meu primeiro contato com a literatura de Scott Fitzgerald não foi das melhores. Embora ainda tenha vontade de lê-lo em outro momento, O Grande Gatsby não me disse absolutamente nada, o que me faz ter um medo especial de encarar uma nova obra sem um bom preparo psicológico antes. Não é uma leitura difícil, muito pelo contrário, mas eu realmente gostaria de me apaixonar pelas histórias e não apenas lê-las e seguir com a vida depois, como se nada tivesse acontecido.

5. Moby Dick, de Herman Melville.
Um milhão de páginas sobre uma baleia, pesca, arpões e métodos de caça que, por algum motivo, se tornou um dos livros mais importantes da literatura mundial. Curiosamente, meu medo de Moby Dick não é exatamente em relação ao livro em si – que como acontece com muitos clássicos, foi mal recebido pela crítica da época, até se tornar O Livro Respeitado™ que é hoje -, mas sobre a história, sobre o fato de ser uma questão – no caso, a caça de baleias – que pra mim ainda é muito delicada. Realmente, não sei se algum dia conseguirem ler, mas a vontade, ironicamente, é bem real, apesar dos pesares.

6. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.
Falo de Cem Anos de Solidão porque é o primeiro que me vem à cabeça, mas poderia ser qualquer livro do Gabo. Eu tenho pavor de Gabriel García Márquez – um pavor que também não é nada senão uma consequência das aulas de literatura e de todas as pessoas que me disseram que eu deveria ter medo, muito medo, da literatura de um cara tão incrível. E eu tenho, até hoje. Não ajuda em nada que o livro seja considerado uma das obras mais importantes da literatura latino-americana, a segunda mais importante de toda a literatura hispânica, ou seja né. O medo, ele é muito real.

7. Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
Aparentemente existe um consenso de que esse livro é o pavor maior entre todos os pavores gigantes que fazem parte desse período maravilhoso chamado ensino médio, vestibular a dar com pau, etc etc. Como todos os clássicos que deveria ter feito parte do meu currículo (cof, cof), mas foram gentilmente ignorados, Grande Sertão: Veredas acabou ficando esquecido no tempo; até, claro, o dia que decidi que queria compensar o tempo perdido, mesmo que fosse para me sentir burra o tempo inteiro – o que, tenho certeza, inevitavelmente irá acontecer. Embora seja um livro que, reza a lenda, é difícil pra caramba, ele ainda é uma obra muito rica, que utiliza um cenário muito específico para tratar de temas universais, e uma vez ultrapassadas as barreiras que me afastam dele, tenho certeza que a experiência pode ser verdadeiramente incrível.