JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

ALGUNS DIAS SÃO MELHORES QUE OUTROS

Hoje foi meu primeiro dia tomando um remédio novo. Depois das noites agitadas, a falta de apetite seguida de enjoos, e todas as crises de choro fora de hora que fizeram parte do período de adaptação ao primeiro, meu psiquiatra resolveu trocar o remédio por uma versão em gotas – infinitamente mais prática para quem vai começar a reduzir a dosagem do que ficar partindo comprimidos minúsculos em um milhão de pedacinhos. Em tese, é o mesmo remédio: nome e embalagens diferentes, mas igual em todo o resto (mesmo composto, mesma dose, etc etc); na prática, foi quase como estar de volta àqueles dias de noites agitadas, falta de apetite e crises de choro que poderiam explodir em qualquer momento, bastava alguém apertar o botão certo. Mas nada disso tem realmente a ver com o remédio – pelo menos não nesse caso, acredito. Achei justo registrar esse detalhe, no entanto, porque logo que acordei e pela eternidade que durou a minha manhã, fez todo o sentido do mundo culpar o remédio novo, que além de pouco prático, ainda tinha gosto ruim; e o médico que achou uma boa ideia me receitar aquele troço ao invés de me deixar ser feliz picando comprimidos em casa.

Mas o fato é que eu estava diante de um dia ruim, que já era ruim antes mesmo de eu colocar o remédio na boca e tentar espantar o gosto horrível com um café requentado e um cuscuz meio sem gosto. E não havia muito o que entender sobre isso, embora eu tenha passado boa parte do meu dia deitada na cama (quando deveria estar fazendo um milhão de coisas) tentando entender que necessidade maluca era aquela de ficar andando em círculos no meu quarto, ao ponto de precisar deitar para parar de uma vez, e o que, afinal de contas, me fazia ficar tão agitada e inteiramente incapaz de usar meu tempo livre para algo útil ou me concentrar numa atividade qualquer. Enviei uma mensagem pra Guilherme, meio desesperada, mas sem conseguir dizer exatamente o que estava acontecendo. Ele me mandou pular ou fazer polichinelos pra dispersar um pouco da tensão. Não fiz nenhuma das duas coisas, embora devesse ter feito. Alguns diriam que é falta de força de vontade. Eu diria que é só minha cabeça tornando minha vida um pouquinho mais difícil. Cada um acredita no que quiser.

Não sei explicar porque a minha cabeça funciona assim. Quer dizer, cientificamente existe uma justificativa, mas é uma forma que me parece distante demais e que nem sempre é suficiente pra que as pessoas tenham a real dimensão do que de fato está acontecendo ao ponto de me fazer querer passar um dia – uma semana, um mês – inteiro trancada no quarto, completamente incapaz de levantar da cama e fazer qualquer coisa. É algo que nem eu consigo entender, porque parece impossível e improvável, e eu ainda tenho certa resistência em aceitar que algo tão abstrato possa ter consequências tão concretas e exercer uma influência tão forte no que faço ou deixo de fazer – principalmente no que deixo de fazer. Por mais que eu continue buscando respostas melhores para explicar pra quem quer que seja que diabos estou sentindo e porque eu estou agindo desse jeito tão estranho de novo, nunca consigo encontrar uma justificativa que seja suficiente, só um vazio enorme e meio assustador, que me consome inteiramente. Muita gente acredita que o fato de tomar remédios me faz ter dias sempre bons, independente das coisas ruins que acontecem, mas isso é uma mentira deslavada. Se a vida de ninguém é feita só de alegrias, por que a minha deveria ser?

Em dias como hoje eu só queria comer uma yakissoba quentinho e dar uma choradinha entre um episódio e outro de uma série qualquer. Não é preciso que meu mundo esteja desabando pra que eu queira ter esses momentos, nem que alguma coisa realmente ruim tenha acontecido pra eu me permitir cancelar tudo: só a cruel, mas libertadora noção de que alguns dias são melhores que outros, e que às vezes é muito melhor admitir a derrota e seguir com o baile, do que continuar tentando fazer alguma coisa e se frustrar ainda mais por não conseguir fazer nada. É preciso parar e se permitir não fazer nada, olhar pro teto, se esconder embaixo do edredom, dar uma choradinha e comer uma comida quentinha que parece um abraço por dentro, e esquecer dos prazos, esquecer da vida, esquecer de todos os textos a serem escritos, livros a serem lidos e filmes a serem assistidos. Aceitar a tristeza não como algo definitivo, mas como uma parte intrínseca da nossa existência, e aprender a conviver com ela da forma mais natural possível.

Em Alucinadamente Feliz, a Jenny Lawson diz que existem muitas coisas erradas na cabeça dela, mas que existem muitas certas também, e a partir daí começa a listar coisas boas que não existiriam sem as ruins: a alegria sem a tristeza, a luz sem a escuridão, a dor sem o alívio, a sorte de viver momentos tão maravilhosos quando não se conhecem os ruins. E eu concordo com cada parte disso. Dias ruins continuarão existindo, independente do que eu faça ou deixe de fazer, independente dos meus problemas, dos meus fantasmas, da minha realidade – eles existem pra todo mundo, em maior ou menor intensidade; e ninguém pode vencer o tempo inteiro. Então talvez, muito mais honesto do que tentar fugir ou lutar contra eles, seja encará-los de frente, tomar uma xícara de café e dormir de conchinha até o dia que eles finalmente decidam ir embora. Enquanto isso não acontece, no entanto, são as lembranças de todos os momentos felizes que eu já vivi e a promessa de todos que eu ainda viverei, que me fazem continuar seguindo em frente quando a depressão distorce a realidade e tenta me convencer do contrário. Alguns dias são melhores que outros, mas pelo menos ainda podemos contar com a certeza de que em algum momento, esses outros também irão embora – ainda bem.

CINEMA E TV

MARATONA OSCAR 2017: PARTE I

Desde o ano passado, eu tenho sentido uma preguiça muito particular com o Oscar. Embora ele continue sendo minha premiação favorita, cada ano que passa os filmes me empolgam menos, a premiação em si me empolga menos, e fica difícil levar os resultados realmente a sério quando os bastidores provam que quem ganha e quem perde é muito mais uma questão de contatos e referências do que, necessariamente, uma recompensa por trabalho duro e um atestado de qualidade. Sad but fucking true.

Ao contrário de 2016 – o ano dos caras brancos de óculos, como todos os outros -, 2017 trouxe algumas novidades que deveriam, em tese, me animar um bocado: muitos filmes protagonizados por mulheres, vários desses protagonizados por mulheres negras, e uma diversidade de indicados que, embora ainda não seja suficiente, foi bastante significativo se comparado aos anos anteriores. Mas mesmo assim eu continuei desanimada, continuei a ter uma dificuldade ridícula de sentar a bunda na cadeira e assistir algum indicado, e principalmente escrever sobre ele depois. Não por acaso, todos que eu assisti até o momento foram os filmes que precisei assistir para escrever sobre depois e que envolviam prazos que eu precisa, na medida do possível, cumprir – o que diz muito sobre minha boa vontade (ou falta de) para com o cinema no momento, de modo geral.

A maratona desse ano é uma tentativa possivelmente frustrada de tentar dar conta dos principais indicados e enfrentar toda a preguiça do mundo – que é o que toma conta do meu corpo cada vez que penso no assunto – e dar minha opinião não requisitada sobre cada um deles, mantendo a tradição deste maravilhoso blog. Assim como no ano passado, resolvi usar o formato que a Anna Vitória usou em 2015 – o mesmo que usei em 2016 e foi sucesso. Apertem os cintos e vamos lá.

A Chegada (Denis Villeneuve)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Denis Villeneuve), Melhor Roteiro Adaptado (Eric Heisserer), Melhor Fotografia (Bradford Young), Melhor Mixagem de Som (Bernard Gariépy Strobl e Claude La Haye), Melhor Edição de Som (Sylvain Bellemare), Design de Produção (Patrice Vermette e Paul Hotte) e Melhor Edição (Joe Walker).

Sobre o que é? Baseado no conto de Ted Chiang, o filme conta a história de Louise Banks, uma doutora em linguística que passa a trabalhar em conjunto com o governo norte-americano para descobrir uma forma de se comunicar com alienígenas que chegaram na Terra sabe-se lá vindos de onde, mas aparentemente não estão interessados em começar uma guerra ou qualquer coisa assim.

Prestou? DEMAIS! A princípio, ele parece só mais um filme de ficção científica, mas ele é muito, muito mais, o tipo de filme que capaz de construir uma experiência verdadeiramente única, que te faz refletir sobre a nossa própria histórica e arranca lágrimas sinceras, sem nunca se tornar piegas – o tipo de filme que eu adoraria fazer se algum dia fosse trabalhar com direção. Amy Adams traz à tona uma Louise Banks assustadoramente real, que é corajosa, determinada e de uma força inestimável, mas que também sente medo e também se sente insegura. Sua história nos atinge em um nível muito profundo, mas com a mesma delicadeza com que sua relação com os extraterrestres é construída. Não foi por acaso que ele se tornou um dos meus filmes favoritos da vida inteira, que possui um significado enorme pra mim e do qual eu jamais vou ser capaz de esquecer.

Sinceramente? Acho um absurdo que Amy Adams não esteja concorrendo à Melhor Atriz porque o que aquela mulher faz em cena é um troço absurdo (!) de tão bom e eu queria de verdade vê-la pelo menos concorrendo ao prêmio. Além das categorias técnicas, que acho que o filme tem chances reais de levar a maioria, não imagino que leve nenhum outro prêmio – fora o de roteiro que, embora a briga esteja acirrada, acho que ainda tem chances reais de levar.

Jackie (Pablo Larraín)

Indicações: Melhor Atriz (Natalie Portman), Melhor Figurino (Madeline Fontaine) e Melhor Trilha Sonora (Mica Levi).

Sobre o que é? O assassinato do presidente John F. Kennedy, em 1963, e o que aconteceu no período entre sua morte e o velório, tudo pela perspectiva da ex-primeira dama, Jacqueline Kennedy. Ele vai e volta a partir das memórias de Jackie, como ela era conhecida em seu círculo mais íntimo de pessoas, ao mesmo tempo que, no presente, ela conversa sobre os eventos com o jornalista da revista Life, responsável pela primeira entrevista da primeira-dama após o assassinato do marido.

Prestou? São questões. Assisti ao filme duas vezes e ainda não consegui identificar o que me incomoda particularmente. Na teoria, Jackie é um filme incrível: ele realmente mostra como é feita a construção do mito, como a mídia manipula fatos, histórias e principalmente a imagem das pessoas, e como por trás das figuras imortalizadas de celebridades e pessoas públicas, existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia. Jackie era uma mulher inteligentíssima, que tinha plena consciência disso, e mesmo após a morte do marido, cuidou para que seu legado nunca fosse destruído. Mas na prática, ele não é tão incrível assim. De todas as coisas que me incomodaram, no entanto, acho que a trilha sonora é a pior: eficiente em construir o clima do filme, mas ao mesmo tempo precisa em destruí-la. Vai entender.

Sinceramente? Provavelmente leva figurino, talvez leve trilha sonora, mas só uma zebra muito grande faz Natalie Portman levar essa estatueta pra casa.

Elle (Paul Verhoeven)

Indicações: Melhor Atriz (Isabelle Huppert).

Sobre o que é? Um thriller protagonizado por uma mulher que, após ser estuprada dentro da própria casa, passa a receber ameaças do seu abusador enquanto tenta lidar com o trauma que sofreu e descobrir quem é o criminoso por trás do abuso.

Prestou? Elle é um filme intenso, controverso, polêmico, e que joga algumas ideias que eu não sei se são realmente boas ou se são um desserviço completo, mas eu gostei demais. Ainda que seja a história de uma mulher contada por um homem, ele desconstrói radicalmente o estereótipo do estuprador em um beco escuro, e mostra que, na maioria dos casos, quem comete o crime é uma pessoa próxima à vítima. Ao mesmo tempo, ele constrói uma protagonista que não se deixa definir pelo trauma, e que embora possua sentimentos conflituosos em relação ao que sofreu, alguns dos quais eu questionei o tempo inteiro, se torna muito humana justamente por isso. Foi uma representação completamente nova pra mim, que me surpreendeu horrores e que, por mais que não seja um filme fácil de assistir, eu recomendo com força pra todo mundo.

Sinceramente? Isabelle Huppert é rainha e só não leva essa estatueta pra casa se um repeteco de 2013 acontecer. Minha torcida é dela e eu realmente vou tacar uma bomba nessa Academia fajuta se ela não for a vencedora. Ao mesmo tempo, queria muito que o filme concorresse nas demais categorias, por ser um filme fora do eixo norte-americano, mas principalmente por dar visibilidade – e uma nova interpretação – para uma questão tão importante. Infelizmente, não vai ser dessa vez, mas tem outros troféu.

Estrelas Além do Tempo  (Theodore Melfi)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) e Melhor Roteiro Adaptado (Allison Schroeder e Theodore Melfi).

Sobre o que é? A trajetória de Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson, três cientistas negras da NASA que foram absolutamente fundamentais na corrida espacial travada entre Estados Unidos e União Soviética, durante a Guerra Fria. O filme é um retrato do privilégio branco, que oprime e silencia inúmeras pessoas até hoje, mas que é amplamente ignorado por quem dele usufrui; pessoas que fizeram com que essas mulheres – assim como muitas outras – se tornassem figuras até então desconhecidas pelo grande público, mesmo exercendo papéis tão fundamentais na história norte-americana.

Prestou? Prestou tanto que dizer que ele é, muito provavelmente, o melhor filme dessa temporada de premiações não é exagero. É absolutamente impossível não se emocionar com a história de Katherine, Dorothy e Mary, e se identificar com elas, torcer por elas, querer ser como elas, chorar suas derrotas e celebrar suas vitórias. É um filme construído com um cuidado e delicadeza impressionantes, que não desumaniza suas personagens, mas apresenta mulher complexas e multifacetadas, cheias de nuances, com personalidades muito distintas e que traçam trajetórias muito diferentes, enfrentando cada uma a sua própria batalha. É lindo, lindo, lindo demais, mas acima de tudo um filme importante, que todo mundo deveria parar para assistir.

Sinceramente? É quando filmes como Estrelas Além do Tempo não recebem todas as indicações que merecia, que eu perco totalmente a minha fé no Oscar. Acho um abuso muito grande que Octavia Spencer tenha sido a única indicada, quando tanto Taraji P. Henson quanto Janelle Monáe fizeram trabalhos tão sensíveis e excelentes. Além disso, o fato de concorrer apenas em três categorias continua dizendo muito mais sobre o Oscar e seus critérios que ninguém entende, do que sobre a qualidade de um filme – ou, no caso, de uma preciosidade como Estrelas Além do Tempo. Espero de verdade que Octavia Spender leve a estatueta pra casa, mas já me preparo psicologicamente para decepções futuras.  

Manchester à Beira-Mar (Kenneth Lonergan)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Direção (Kenneth Lonergan), Melhor Ator (Casey Affleck), Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Melhor Roteiro Original (Kenneth Lonergan) e Melhor Fotografia (James Laxton).

Sobre o que é? Um cara que, após perder o irmão, é obrigado a voltar para sua cidade natal e desenterrar vários fantasmas do passado, ao mesmo tempo que luta com o próprio luto – pela morte do irmão, mas também por tragédias anteriores que se passaram naquele mesmo cenário. É um filme sobre a dor de perder alguém, as diferentes formas de lidar com o luto, e a morte, de um modo geral.

Prestou? Depende muito do que você avalia. Enquanto produção, Manchester à Beira-Mar é sim um bom filme. Ele trata o luto com uma delicadeza surpreendente, mas ao mesmo tempo o constrói de uma forma muito crua, que se aproxima de uma forma assustadora da realidade: a vida segue, a dor continua, mas precisamos continuar dando um passo depois do outro, esse tipo de coisa. Mas ele é ainda um filme sobre homens brancos, contados sob a perspectiva de um outro homem branco, o que pra mim já é suficiente pra não colocá-lo no pedestal que todas as pessoas do mundo parecem colocar. Além disso, pra mim é impossível ignorar que esse é um filme protagonizado por um casa acusado de tantas coisas absurdas, e isso automaticamente me faz gostar bem menos dele.

Sinceramente? Queria enfiar um murro nas fuças de quem ainda acha que caras como o Cassey Affleck devem ser julgados pelo seu trabalho e que tudo bem ignorar seu comportamento repulsivo na vida pessoal. Entretanto, esse é bem o tipo de mentalidade retrógrada dos caras que compõe a Academia, fora que o filme, por si só, é o tipo de coisa que a Academia ama de paixão premiar, então sim, as chances de que Manchester à Beira-Mar e Cassey Affleck saiam vitoriosos são maiores do que eu gostaria de  admitir. Sad, but true.

LIVROS

RORY GILMORE APROVARIA ESSE POST

Muito antes de ser uma pessoa que escreve, eu já era uma pessoa que lê. Desde muito cedo, minha mãe – que nunca foi uma pessoa que escreve, muito menos uma pessoa que lê – me incentivou a gostar de livros e encontrar na leitura de páginas e páginas e mais páginas um prazer genuíno, que mantenho até hoje. A gente passava tardes inteiras explorando livrarias, lendo um livro atrás do outro até não aguentarmos mais, perdidas entre estantes que escondiam tantas histórias, infinitas histórias; e continuávamos tudo isso em casa, quando ela contava uma história diferente a cada noite até o dia que eu pude lê-las por conta própria e ela, então, passou a apenas financiar meu gosto por livros, rumo a uma biblioteca como a da Bela e a Fera (que ainda está bem longe da realidade, mas um dia chegamos lá), etc etc.

Gosto de livros porque, muito mais do que histórias, registro e preservação, e a capacidade de nos transportar para realidades tão diferentes da nossa, eles são capazes de evocar sensações antes mesmo do início da leitura: livros são cheiro, textura, peso, dor nas costas, e dizem um bocado sobre nós só por estarem ali. Olhar a estante de outra pessoa é, ao mesmo tempo, explorar seus gostos literários, mas também descobrir quem é aquela pessoa para além da leitura – seus gostos, ídolos, manias, preferências e hábitos. Um exemplar é suficiente para revelar os hábitos alimentares de alguém – uma mancha vermelha pode indicar sopa de tomate e uma verde macarrão ao molho pesto -, se a pessoa utiliza as orelhas como marcadores, se ela é do tipo que usa flags para marcar suas passagens favoritas ou se é do tipo que risca páginas inteiras sem dó. Ou seja, um universo inteiro e extraordinário que se esconde no simples ato de observar os livros (e estantes) dos outros.

Minha estante não é tão bonita ou memorável como algumas que existem por aí. Minha tia, por exemplo, tem uma em casa que é meu sonho de consumo: paredes de tijolinhos, pequenininha, mas cheia de estantes lotadas de livros lindos, enormes exemplares em capa dura. Mas ela, a minha estante, ainda é única e especial, algo que diz mais sobre mim do que sobre todos os livros presentes nela, o que por si só, eu já acho incrível demais. É por isso que vira e mexe eu abro as portinhas dela e fico ali, admirando minhas aquisições, lembrando das histórias que elas contam, mas principalmente das que construíram comigo. Não é por acaso que um dos meus maiores sonhos é morar num lugar em que eu possa ter um quarto inteiro vago para transformar numa biblioteca; e que eu fique tão apavorada só de pensar em me mudar para outro estado ou país e precisar deixar todos os meus livros para trás – o que é meio problemático, mas bear with me, podemos conversar sobre isso em outra hora.

Talvez por isso, eu nunca tenha me interessado tanto assim por e-readers. Embora consiga reconhecer todas as vantagens de ter uma biblioteca inteira na palma da mão, com toda a mobilidade e economia de espaço que isso dá, sem drama e sem dor nas costas – e, muito provavelmente, a um custo bem mais em conta -, elas não são o suficiente para me fazerem abrir mão da ideia de continuar comprando meus livros sempre que possível, ocupando espaços que não tenho, mas ainda garantindo a possibilidade de poder abraçar, cheirar, folhear, marcar e construir uma história com cada um deles que só existe quando temos um livro nas mãos.

Muita gente já me disse que comprar um e-reader é um caminho sem volta porque você naturalmente se encanta com todas as possibilidades, mas principalmente com a praticidade de tudo aquilo – e eu acredito. Quando uma das minhas melhores amigas da faculdade comprou um, ainda no nosso primeiro ano de curso, nós pulamos juntas no meio de um monte de pessoas, e nos abraçamos e celebramos aquela conquista, e foi ali, admirando aquele pequeno quadradinho branco e suas milhões de possibilidades que eu quase – eu disse, quase – pensei em adquirir um também. Mas bastou que eu voltasse para casa e olhasse a minha pequena, mas amada e idolatrada estante, para esquecer toda essa ideia maluca de enfiar tudo num quadradinho eletrônico pouco maior que a minha mão. E foi exatamente nisso que eu pensei enquanto lia a reportagem sobre o renascimento do livro impresso.

Eu não acho que o livro digital deva morrer, muito pelo contrário. Mas em tempos como o que vivemos, talvez continuar comprando livros físicos seja, também, uma forma de resistência, aquele jeitinho de continuar com um pézinho no passado, preservando certos costumes, enquanto continuamos inevitavelmente seguindo em frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

WALK OF SHAME

UM MINUTO PARA REFLETIR SOBRE O OSCAR

A temporada do Oscar é uma das minhas épocas favoritas do ano – e isso já nem é mais novidade pra ninguém. Gosto que as pessoas sempre parecem se interessar mais por cinema nessa época, que assistam coisas que não assistiriam normalmente e, principalmente, que queiram trocar opiniões, fazer apostas, escolher seus favoritos. É uma época que eu, naturalmente, fico bem cansada – são muitos filmes pra ver, afinal de contas, e quase sempre milhões de textos para escrever -, mas é um cansaço que compensa, que traz satisfação. As pessoas começam a respirar cinema, mesmo que um cinema às vezes questionável, e como boa estudante apaixonada/entusiasmada/retardada/tosca, ver isso acontecer me dá uma ânimo incrível – um ânimo que a gente quase esquece que existe quando está numa sala abafada durante 50 minutos, duas vezes por semana.

Por mais que o Oscar não diga muita coisa sobre a qualidade dos indicados e, principalmente, dos premiados, ele ainda é a premiação mais popular do cinema, aquela que o público médio mais se interessa, e que pode abrir portas para outros filmes e histórias que passam longe do circuito comercial. Eu mesma, por exemplo, só fui começar a me interessar por cinema – e não mais só assistir os lançamentos que me interessavam, dando uma chance para histórias que saiam um pouco fora da curva -, depois de começar a acompanhar o Oscar mais de perto e automaticamente ter curiosidade de assistir os indicados das principais categorias. Eu nem sempre gostava de tudo que assistia, mas aquilo me ajudou a expandir meus gostos e, consequentemente, procurar por um cinema que fosse além do circuito norte-americano e que contasse histórias diferentes daquelas com as quais eu já estava acostumada, que eu sabia exatamente como iriam terminar antes mesmo de chegar na metade. É por isso que eu gosto tanto do Oscar e porque, até hoje, eu acompanho a premiação com uma empolgação que pode parecer ridícula pra muita gente – e talvez seja mesmo! -, mas que eu recomendo fortemente.

O negócio é que, como quase tudo que envolve o cinema norte-americano – e a indústria cinematográfica, de um modo geral -, o Oscar é, também, uma premiação bem controversa. E não quero dizer só pelo favoritismo que vira e mexe premia gente que não merece prêmio nenhum (vocês sabem exatamente de quem estou falando, risos), mas também de problema mais sérios e que também dizem muito sobre a indústria de um modo geral. O fato de 2017 ser um ano com mais pessoas negras e filmes sobre negros indicados em várias categorias diz muito porque, embora seja ainda muito pouco se pensarmos na imensa e histórica luta contra o racismo, é algo que vai totalmente contra o que o Oscar vinha fazendo até agora, e isso talvez seja resultado de uma mudança de mentalidade que, por sua vez, pode trazer mudanças significativas em um cenário ainda tão racista. A princípio, indicações não querem dizer muita coisa, mas eu me permito ficar feliz que tantas pessoas estejam assistindo filmes como Hidden Figures, por exemplo, e amando tão profundamente, se sentindo representadas e se inspirando na história dessas mulheres – coisa que talvez não tivesse acontecido sem essa visibilidade que o Oscar, feliz ou infelizmente, ainda dá.

Mas é essa mesma premiação que reluta em sequer indicar mulheres, quem dirá premiá-las, mesmo quando elas merecem ter seus esforços reconhecidos, que prefere ignorar assuntos como diversidade, machismo e representatividade, e que dá biscoito pra qualquer homem branco que faça um trabalho relativamente bom, mesmo que ele seja uma pessoa horrível até dizer chega – o que, na verdade, tem me dado muito o que pensar. Por mais que essa já seja uma discussão velha, que vem à tona todos os anos, me descaralha a cabeça que ela nunca chegue em lugar algum, justamente porque as pessoas não parecem muito dispostas a encarar a verdade que, por trás de seus ídolos, existem pessoas horríveis que deveriam arder no fogo do inferno – ou, no mínimo, serem julgados pelos seus atos – e não é legal colocar essas pessoas num pedestal como se elas fossem legais, como se merecessem estar ali. Polanski ganhou um fucking Oscar quando nem sequer podia entrar nos Estados Unidos para receber o prêmio, porque era foragido da polícia, acusado de abusar sexualmente de uma menina de 13 anos em 1977; Woody Allen recebeu o prêmio de Melhor Roteiro Original em 2012; e enquanto celebramos as conquistas deste ano, Mel Gibson segue com uma porção de indicações por Hacksaw Ridge – e pode ser que ele não ganhe nada, é verdade, mas pelo menos uma porção de dinheiro ele ainda vai fazer. Isso sem falar do pavoroso Cassey Affleck, que embora tenha feito um trabalho até bem decente em Manchester à Beira-Mar, não é uma pessoa que a gente deva admirar ou tomar como exemplo.

Na faculdade, é muito comum que a gente se esqueça de quem são as pessoas por trás dos filmes para pensar somente na arte, no que eles estão dizendo, em suas influências e referências. A gente é incentivado a pensar assim e, na realidade, muito pouco se discute sobre quem são as pessoas contando essas histórias. Mas por mais que eu continue assistindo esses filmes – às vezes por obrigação, às vezes por vontade própria (o que é bastante irônico, mas bear with me) – não consigo ficar alheia ao que eles representam, e o que as pessoas por trás deles fazem ou deixam de fazer. Existe uma diferença enorme entre consumir algo de forma consciente, e ignorar que por trás de cada uma dessas produções existem pessoas com uma índole bastante questionável, quando não são criminosas mesmo.

Em 2014, Dylan Farrow escreveu uma carta, publicada no The New York Times, onde ela fala justamente sobre o abuso que sofreu aos sete anos de idade. Ela começa a carta perguntando “qual é o seu filme favorito do Woody Allen” e a partir daí, discorre sobre todo o trauma que sofreu; sobre assistir seu abusador sair impune do crime que cometeu, sobre como foi crescer com medo de ser tocada por outros homens, sobre os distúrbios alimentares, e principalmente sobre como era terrível que, enquanto ela sofria todas as consequências, Woody Allen continuava a ser tratado como um gênio, um Grande Nome do Cinema™. Ele continuava a ser premiado, quotado por outros artistas, estampava revistas, camisetas, posteres imensos; e Dylan, por sua vez, tentava esconder o pânico que era ter o rosto de seu abusador a perseguindo em tempo integral.

Hoje, o The Hollywood Reporter publicou um texto (e eu sinto muito, mas não vou fazer o desserviço de linkar aqui) em que, basicamente, diz que caras como Woody Allen, Cassey Affleck, Mel Gibson, Polanski e cia, devem ser julgados pela Academia pelo trabalho que fazem à frente ou atrás das câmeras, e não por aquilo que fazem ou deixam de fazer em suas vidas privadas. Isso porque, segundo o argumento do texto, já existe uma premiação no próprio Oscar que é dedicada à pessoas que fazem não só um trabalho incrível, mas que também são pessoas extraordinárias em suas vidas privadas, alguém que o povo norte-americano deve se orgulhar; e que qualquer prêmio além desse não deve levar em consideração quem diabos são e que porra fazem as pessoas indicadas – e, eventualmente, premiadas. É um argumento completamente descabido, que ignora completamente o trauma de mulheres como Dylan Farrow, e perpetua a ideia equivocada de que tudo bem esses caras serem horríveis em suas vidas, porque isso não anula o fato de que eles são gênios, grandes artistas; pessoas que devemos, em alguma medida, admirar; quase como se ser uma personalidade tão horrível os ajudasse a construir o mito que esses caras eventualmente personificam.

E é perigoso isso. É perigoso demais. Separar o artista de sua obra parece a opção óbvia quando ignoramos que, ao fazer isso, estamos ajudando as únicas pessoas que não deveriam ser ajudadas – os abusadores, criminosos, agressores, estupradores, etc – enquanto silenciamos aquelas que merecem ganhar voz – as vítimas -, que lembram, temporada de premiação após temporada de premiação que vivemos num mundo cruel, machista, que prefere tampar os olhos diante de um problema real e muito sério, ao invés de dar o braço a torcer. Se é tão óbvio que um homem qualquer deva ser punido após cometer um crime, então por que ainda colocamos esses caras acima da lei? Por que ainda prestigiamos agressores, estupradores, abusadores em série, e agimos como se estivesse tudo bem? Como se entre os artistas que endeusamos não existissem pessoas que foram acusadas pelos crimes que cometeram e, ainda assim, não perdem o status de ídolo, continuam vivendo uma vida como se nada tivesse realmente acontecido. É perigoso demais manter esse tipo de mentalidade e ignorar que existe muito além da arte para se considerar; como se todas essas coisas também não influenciassem uma porção de outras pessoas, caras que, embora não sejam ídolos de ninguém, vão acreditar que tudo bem fazer o que quiser com uma mulher. É isso que eles fazem, nós podemos fazer também?

Separar artista e obra é a opção mais óbvia porque é a opção mais fácil, mas isso não significa que ela seja a melhor, muito menos que seja a ideal. Por mais que nem sempre sejamos capazes de manter uma opinião clara sobre o assunto, porque não é simples mesmo chegar nesse ponto – eu, por exemplo, escrevi tudo isso mas continuo consumindo a obra de muitos desses caras, o que é no mínimo contraditório -, é preciso discutir, é preciso olhar além e perceber que existe um problema, e que não podemos ignorá-lo, e é por isso que o Oscar, sendo a premiação mais popular do cinema norte-americano – e talvez, do mundo inteiro – deveria levar isso em consideração. Não é ignorar a arte: é olhar para além dela. No entanto, enquanto essa mentalidade retrógrada de que voters should judge the art and not the artist seja a regra, não a exceção, vamos continuar vivendo esse filme de horror que é, na verdade, nossa própria realidade.

DRAMAS REAIS

ADULTHOOD

No ano passado, fiz um teste do Buzzfeed que prometia me dizer quão preparada para viver esse Mundo dos Adultos™ eu estava, a partir de uma porcentagem calculada com base nas minhas respostas. Era um teste até bem simples – como todos são – em que, basicamente, a gente tinha que responder quais seriam nossas reações em algumas situações banais do dia-a-dia, tipo uma lâmpada queimada ou ficar doente e ter que decidir se prefere morrer em casa ou se vai ao médico por conta própria. Eu me escangalhava de tanto rir porque algumas respostas eram tão absurdas que não parecia possível que alguém fizesse aquilo na vida real, enquanto escolhia minhas próprias alternativas, imaginando qual seria a porcentagem no final – naturalmente, baixa, bem baixa.

Eu só não esperava que fosse tão baixa.

Querido leitor, caso você tenha chegado nesse cantinho agora (por favor, sente-se aqui, vamos tomar um café, risos eternos), saiba desde já que a única certeza que eu tenho na vida desde que passei a ser vista – e tratada – como adulta, é o fato de que eu não tenho certeza de nada – o que, pra uma pessoa ironicamente tão controladora quanto eu, é absolutamente assustador. Mas o fato de não ser uma adulta ideal, uma pessoa totalmente independente, que sabe com perfeição executar tarefas triviais do dia-a-dia – tipo trocar uma lâmpada ou ir ao médico por conta própria -, nunca foi uma questão muito grande na minha vida. Eu nunca tive a necessidade de fazer nenhuma dessas coisas, porque minha mãe sempre se dispôs a fazer cada uma delas pra mim. Foi só quando a gente se mudou pra uma casa nova e muito maior do que o apartamento em que morávamos antes, que eu passei a assumir algumas tarefas que não eram minhas até então, tipo arrumar a cama, tirar o lixo do banheiro e fazer uma faxina no meu quarto de tempos em tempos. Não é que eu goste de fazer essas coisas, vejam bem, tanto é que de vez em quando me permito não fazer nenhuma delas só porque sim: porque eu não tenho saco, não sou obrigada, fuck the police. Mas eu faço na maior parte do tempo, e quando faço, faço sem reclamar. De um jeito ou de outro, eu sei que são coisas que precisam ser feitas: ninguém vai morrer se deixar o lixo um dia a mais no banheiro, se passar um dia sem arrumar a cama, se deixar o quarto por alguns dias mais bagunçado do que o normal; mas eventualmente é preciso que alguém faça essas coisas porque, do contrário, a casa vira um caos. E se eu não gosto de viver no caos, o mínimo que eu posso fazer é ajudar a manter as coisas mais ou menos sob controle.

Todas essas tarefas são coisas que eu faço porque preciso fazê-las; foi por isso que as aprendi. É muito diferente, por exemplo, de como eu aprendi a cozinhar: eu não tinha nenhuma obrigação ou necessidade de fazê-lo, até o dia que comecei a me interessar por gastronomia e ter vontade de testar comidas diferentes das que minha mãe fazia pra gente em casa. Assim, nós duas acabamos aprendendo juntas: ela, pratos mais elaborados, com ingredientes diferentes; eu, a fazer o básico feijão com arroz de cada dia. Da mesma forma, eu só aprendi a usar de verdade a máquina de lavar algumas semanas atrás, quando senti a necessidade de começar a lavar minhas roupas por conta própria ao invés de esperar a boa vontade da minha mãe, e tem sido uma experiência maravilhosa, de dupla satisfação: por ter aprendido algo novo e pela independência conquistada. Mas o fato de saber fazer essas coisas não me torna necessariamente mais adulta do que alguém que não sabe, da mesma forma que uma pessoa que sabe fazer mais do que eu pode não ser exatamente a mais adulta do mundo, só uma pessoa que sabe fazer mais tarefas domésticas do que eu.

E era meio isso que o resultado do teste avaliava. Todas as perguntas se baseavam em coisas que no fundo, no fundo, não eram capazes de determinar quem era adulto e quem deixava de ser: ele apenas dizia quem era mais preparado ou não pra lidar com certas situações e manter o controle, mas ser adulto não é isso – ao menos, não só isso.

“Seria uma maravilha se ser adulto significasse ter controla da ordem da sua casa, do seu estoque de lâmpadas e de um faqueiro extra para ocasiões especiais. Na minha concepção, isso são só aparatos. A pessoa pode tê-los e ainda não saber o que fazer da vida. Ser adulto não depende da hora que você acorda aos fins de semana, pois se você acorda cedo de segunda à sexta, e não tem motivos para o fazer o mesmo aos fins de semana, qual é o problema em só levantar da cama lá pelas 15h? E por que trocar os lençóis a cada duas semanas me faz menos adulta do que uma pessoa que os troca toda semana? ada família tem seu hábito de acordo com as necessidades, então para mim isso não faz muito sentido. Outra coisa que me deixou meio assim foram as questões que te induzem a determinadas respostas. Porque exemplo: eu moro com meus pais, portanto cozinho quase nunca e não pago a maioria das contas. Porém, se eu moro com meus pais é porque não tenho meios financeiros de me sustentar sozinha e decidi não arriscar minha qualidade de vida para conquistar a so-called independência, se isso significasse morar num buraco qualquer e comer miojo sete dias por semana. Fora que meus pais precisam de mim tanto eu deles. E eu pago as contas que me dizem respeito, compro a ração dos meus gatos, os livros e as roupas que eu quero. Mas ser adulta, para mim, vai ainda além disso. Ser adulta é a capacidade de tomar decisões, assumir responsabilidades, saber cuidar de você e de alguém quando as circunstâncias te jogarem para isso.” (YOGI, Yuriko, também conhecida como a pessoa mais sábia do universo)

Quando eu escrevi sobre isso em uma newsletter, a maior parte das pessoas se identificou profundamente porque todas, de um jeito ou de outro, se encontravam numa situação muito parecida. Eram pessoas que também se sentiam muito desconfortáveis em se assumir como adultas e se enxergar como uma, porque se julgavam despreparadas demais para assumir essa posição. É por isso que eu acho a resposta que a Yuu me deu naquele dia – e que compartilho um pedaço com vocês agora – tão fundamental: a gente não se torna adulto quando aprende a trocar uma lâmpada, a cozinhar, a ir no médico por conta própria, sem pedir ajuda à ninguém. A gente se torna adulto nas pequenas situações diárias, quando passamos a assumir mais responsabilidades, a tomar decisões e abraçar as consequências, a ser a pessoa responsável numa situação “x”, “y” ou “z”. Eu, por exemplo, me sinto incrivelmente adulta quando almoço a pizza que sobrou da noite anterior, ou então quando preciso buscar o meu primo mais novo em algum lugar e sou a responsável por levar seus amigos em casa, quando sou em quem minha mãe ou minhas tias chamam quando precisam de companhia para ir numa consulta ou fazer algum exame, quando algum dos meus bichinhos ficam doentes e sou eu quem conversa com o veterinário, quando eu viajo sozinha; fora todas as coisas que já aconteceram na minha vida e que me obrigaram a amadurecer muito mais rápido do que muita gente. Situações simples, quase banais, mas que me fazem sentir muito mais adulta do que passar o dia limpando a casa ou enfrentar a fila de um banco.

A gente precisa parar com essa mania de achar que só é adulto quem sabe fazer isso ou aquilo, quando existe uma infinidade de possibilidades e caminhos que nos tornam tão adultos quanto nossas referências. É até ilógico achar que existe um jeito certo de ser tornar essa tal pessoa adulta idealizada, com um salário de quatro dígitos, que viaja para o exterior uma vez por ano, que planeja filhos e paga todas as contas da casa, porque se nossas realidades são tão distintas, se nossas vidas são tão diferentes, nada mais natural que cada um percorra seu caminho de forma gradual e aprenda o que tiver que aprender de acordo com suas necessidades e vontades. E isso não te torna mais adulto ou menos adulto do que ninguém. Então, no final das contas, acho que o que importa na realidade não é o que a gente sabe fazer, mas aquilo que a gente está fazendo, e como isso contribui para nossas vidas, para nossas realidades, como isso nos torna pessoas melhores. No final das contas, estamos todos no mesmo barco, tentando dar o nosso melhor – e isso, às vezes, já é o suficiente.

Já faz uns dois anos que eu não tenho nenhum problema em me perceber como adulta e principalmente me assumir como adulta, embora ainda dê um monte de tropeços no meio do caminho. Ou seja, como quase tudo nessa vida, tornar-se adulto também é um aprendizado: algumas pessoas só demoram mais do que outras para concluí-lo, risos.