CINEMA E TV, DRAMAS REAIS, PEGA O SAL, VIDA DE FANGIRL

SO WE WALK ALONE

All light will end and the world will live in darkness.

Eu pensei em mais ou menos 149835 formas de começar esse texto, sendo todas elas uma tentativa mais ou menos ridícula de colocar em palavras o que eu tenho sentido desde o último domingo, quando descobri (assim como todos os outros fãs) que a terceira temporada de Penny Dreadful, uma das minhas séries favoritas do momento (e, agora, da vida também), seria a última: uma vontade incontrolável de cancelar todos os meus compromissos, me trancar no meu quarto escuro e chorar pelos próximos dias sem parar. Alguns diriam que essa é uma reação ridícula e exagerada de fã retardada que não tem mais o que fazer da vida. Eu me reservo o direito de acreditar que essa é a única reação possível.

É uma verdade universalmente conhecida (e vocês sabem disso melhor do que ninguém) que eu nunca aprendi a falar sobre as coisas que amo demais, da mesma forma que nunca aprendi a me despedir delas quando chega a hora. Eu levo essa história de sentimentos muito a sério, de um jeito que às vezes beira o ridículo, e meu nível de comprometimento com as coisas que eu amo desconhecem qualquer tipo de limite. É por isso que é tão mais fácil ser hater e falar sobre aquilo que não gosto, que incomoda, que não faz bem – movida por algum nível de raiva ou decepção, eu até consigo ser bastante coerente, exatamente o oposto do que acontece quando amo demais alguma coisa e só consigo pensar em sair por aí gritando declarações de amor, que é mais ou menos o que acontece sempre que eu abro a boca pra falar de Penny Dreadful. Os sentimentos, esses sempre serão os únicos fatos.

Não por acaso, o único post que escrevi sobre a série é, também, um dos que menos gosto, embora seja, também, um dos mais sentimentais e que guardo com mais carinho (pois é, sou doente). É um texto que não faz o menor sentido, que é pequeno e mal escrito, mas é também muito visceral, escrito de qualquer jeito e sem muito tempo para pensar, mas apenas sentir, e que consegue representar muito bem o que eu estava sentindo naquele momento, ao fim da segunda temporada – de todas, talvez a minha favorita – e que, consequentemente, fez muita gente se identificar também. Eu recebi e-mails, mensagens no twitter e mimos de gente que eu não conhecia e que também não me conhecia, mas com quem, de uma forma meio tosca, porém bastante honesta, eu me sentia extremamente conectada. Vivemos isso, sofremos por isso.

É preciso uma história muito forte para evocar um sentimento tão poderoso, que é capaz de fazer com que tanta gente tenha sentimentos tão parecidos e se permitam ter os corações destroçados por gente que nem existe de verdade – e isso talvez seja o mais bonito sobre Penny Dreadful. Por mais que não seja uma série pra qualquer pessoa e que a união de terror e sobrenatural possa assustar os mais medrosos no início (e, quando digo isso, estou falando também de mim mesma), ela consegue transcender sua própria proposta, indo muito além daquilo que é esperado, e faz com que a gente se importe genuinamente com o que está acontecendo. De repente, o mais importante não é se Vanessa vai ou não conseguir derrotar o mal que a persegue, mas se ela ficará bem, independente do que aconteça, se terá a chance de viver a vida que sempre mereceu. E o mesmo serve para todos os outros personagens. Ainda que eles sejam imperfeitos, em maior ou menor escala, é impossível não se importar com todos eles, sem ressalvas, e torcer para que trilhem o melhor caminho possível, mesmo sabendo que finais felizes seriam a saída fácil e que Penny Dreadful nunca foi uma série de saídas fáceis.

E é por isso que seu final foi tão especialmente doloroso. Por mais que o fim seja inevitável, que todo mundo soubesse que a série não seria longa e que um final feliz era um possibilidade minúscula diante dos fatos, ver tudo concretizado ali, sem segundas chances, partiu o coração de muita gente. Assistir aquelas pessoas tentarem salvar o dia, mesmo quando já era tarde demais, me deixou em frangalhos, mesmo que no fundo eu soubesse que aquilo era uma consequência das escolhas dessas mesmas pessoas, que seus caminhos já vinham sendo traçados há muito tempo e que fugir era mesmo inevitável, mas perceber isso não deixa a situação menos dramática. No fundo, sei que o final foi coerente com a história que vinha sendo contada, e que talvez daqui alguns meses ou anos, eu consiga olhar para trás e enxergar que foi melhor assim. Por enquanto, me reservo o direito de chorar sempre que possível e curtir minha fossa em paz.

Quase um ano atrás, eu escrevi que Penny Dreadful tinha chegado na minha vida sem pedir licença, que tinha colocado o pé na porta e mostrado que veio pra ficar, mesmo que pra isso ela partisse meu coração em mil pedacinhos. Hoje, me sentindo um papel amassado, quebrada feito uma promessa, tal qual naquela época, fico feliz em pensar que tudo isso se provou real e que eu vivi intensamente cada parte dessa história. Finais sempre são dolorosos e eu nunca aprendi a dizer adeus, mas o que me consola é saber que, quando a saudade bater, eu sempre terei um lugar para onde voltar.

Obrigada, Penny Dreadful. Foi uma honra ter meu coração partido por você.

tumblr_nr1s7if0BM1txsq03o6_500

P.S: Na minha fanfic mental, estão todos vivendo felizes para sempre sem nenhum capeta dentuço para atormentar, beijos de luz.

LIVROS, MEMES

DEZ LIVROS QUE ME MARCARAM ATÉ AQUI

Como todos já sabem, o blog segue respirando com a ajuda de aparelhos. São tempos difíceis para as blogueiras, especialmente para esta que vos escreve, e infelizmente tenho tido que priorizar algumas coisas na minha vida. No entanto, enquanto lia meus blogs favoritos hoje, me deparei com um meme super gracinha no blog da Thay e imediatamente fiquei com uma vontade bem sincera de responder. Sei que essa é uma saída bem preguiçosa pra quem passa tanto tempo longe, mas a essa altura vocês já estão carecas de saber que os memes são a salvação oficial dos blogueiros em crise. Além disso, essa é uma ótima oportunidade pra que eu fale sobre livros, já que esse é um assunto que amo demais mas que, por motivos diversos, raramente falo aqui.

Não vou indicar ninguém dessa vez, mas sintam-se à vontade para responder. A única regra é que não pode repetir autores. E sempre importante lembrar: a ordem é completamente aleatória.

HARRY_POTTER_E_A_PEDRA_FILOSOFAL_1389761588B1) Harry Potter e a Pedra Filosofal, J.K. Rowling: Não dava pra ser mais clichê do que isso, mas a verdade é que, assim como boa parte da geração que viveu o auge de Harry Potter, a história do menino bruxo foi responsável por alavancar meu gosto por literatura, abrindo espaço para muitas outras histórias que viriam por aí. Lembro que ganhei esse livro da minha tia aos 9 ou 10 anos, numa edição mais antiga, quando as letras da capa ainda vinham numa fonte diferente (e sem o raio!), mas naquela época achei tudo meio estranho, especialmente porque o livro não tinha ilustrações e eu nunca tinha lido um livro sem ilustrações. Foi só quando meu padrasto alugou o filme pra mim (em VHS!) que eu fui descobrir a história incrível que aquelas páginas escondiam – e aí foi um caminho sem volta. Desnecessário dizer que, a partir daquele momento, a história do Harry se tornou uma das minhas favoritas da vida, para onde eu volto sempre que posso só pra poder viver tudo de novo, não importa quantas vezes já tenha feito isso antes.

LOS_ANGELES_1366213838B2) Los Angeles, Marian Keyes: É uma verdade universalmente conhecida que eu amo a Marian Keyes. Não tenho a menor vergonha de dizer que ela é uma das minhas autoras favoritas porque, bom, ela é mesmo. Ainda que seus livros mais recentes tenham me decepcionado um pouco, nunca deixo de ler algo que tenha o dedo dessa mulher, sempre na esperança de encontrar mais uma história incrível com o qual eu possa me identificar. Entre todos, no entanto, Los Angeles é de longe meu livro favorito, aquele que marcou uma época muito específica da minha adolescência e que, ao mesmo tempo, me influenciou no nível de, mais tarde, justificar minhas escolhas profissionais (?). Foi vendo Emily, melhor amiga da protagonista, ganhar a vida como roteirista, que surgiu em mim a vontade de fazer o mesmo. Por mais que ela passe por muitos perrengues (acreditem, ela passa por vários!), me imaginar tendo uma profissão tão legal (ainda que bem difícil) era o que fazia meu olho brilhar e até hoje, quando as coisas ficam meio estranhas na faculdade, é esse sentimento que me faz seguir em frente.

O_RETRATO_DE_DORIAN_GRAY_1415724390B

3) O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde: Difícil falar de um livro que, ao mesmo tempo que consegue ser tão incrível, é também tão descaradamente misógino. Por mais que seja uma obra de 1891 e que Oscar Wilde, por si só, já tenha um currículo bastante negativo nesse sentido, não deixa de ser incômodo (além de extremamente revoltante) ler barbaridades mil sobre mulheres, que são constantemente tratadas como seres superficiais e sem nenhum tipo de característica marcante além da beleza (ou a falta dela). Deixando essa questão de lado, no entanto, a história é realmente maravilhosa, e me fez refletir bastante sobre várias questões da minha vida, de um modo geral, mas também sobre essa coisa que é ser jovem e altamente influenciável, nossa relação com a passagem do tempo, a corrupção da alma, etc. Além disso, o livro também traz uma discussão bastante pertinente sobre a sociedade, o que é considerado certo, o que é considerado errado.

CARTAS_DE_AMOR_AOS_MORTOS_1402319998B

4) Carta de Amor aos Mortos, Ava Dellaira: Carta de Amor aos Mortos é um livro que divide opiniões. Enquanto algumas pessoas amam profundamente e se identificam horrores, algumas odeiam com todas as forças. A maioria das pessoas que conheço (inclusive, muitas das minhas amigas) odeiam horrores, logo eu meio que comecei a odiar também – pelo menos até ler o livro e ele se tornar uma preciosidade na minha vida. De um jeito simples, acho que esse livro conversou comigo de uma forma que As Vantagens de Ser Invisível conversou com muita gente. Os dois, aliás, possuem uma proposta muito parecida, sendo a principal diferença (além das histórias, lógico) o fato de aqui temos uma personagem principal feminina, o que, pra mim, mudou absolutamente tudo. Eu me identifiquei demais com os dramas e questões da Laurel, ainda que não tenha vivido nada parecido, e acompanhar sua jornada foi algo muito bonito de ver. É um livro precioso esse e eu queria realmente que mais pessoas me levassem a sério quando digo isso.

1984_1388816485B5) 1984, George Orwell: Eu sempre tive um problema considerável com clássicos – uma consequência do modelo nada favorável seguido pelas escolas que me obrigou a vida inteira a ler livros que não me chamavam a atenção e que eu não tinha a menor vontade de conhecer naquela época. 1984 foi, talvez, o primeiro grande clássico que li por interesse próprio, não por sugestão ou obrigação, e acho que isso fez toda a diferença do mundo. Porque, para além de uma história única e tão forte, esse foi um livro que de fato mudou a minha vida, a minha visão de mundo, que elevou meu medo de regimes totalitaristas em níveis e, principalmente, fez com que eu começasse a me interessar por política e história de um jeito que eu jamais tinha me interessado antes. Foi um livro que doeu o tempo inteiro e me deixou em frangalhos, mas acho que é pra isso que servem boas histórias.

AMERICANAH__1406135526B6) Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie: Tanto já se falou sobre Americanah que tenho a impressão de que qualquer coisa que eu diga agora vai ser totalmente irrelevante, mas mesmo assim me sinto na obrigação de falar sobre ele sempre que possível, não só porque ele se tornou um dos meus livros favoritos, mas principalmente porque foi um livro que me ensinou muito sobre privilégios, sobre o perigo de uma história única e, principalmente sobre diversidade e a importância da representatividade – todos esses conceitos que eu já estava bastante familiarizada quando li o livro, mas que só fui entender a real dimensão e importância depois da leitura. É uma história extremamente forte, que nos mostra o mundo de uma perspectiva completamente nova, e que pode nos ensinar demais – e é por isso que ele é um livro tão importante mas, acima de tudo, necessário.

CLUBE_DA_LUTA_1335983381B7) Clube da Luta, Chuck Palahniuk: Acredito fortemente que alguns livros aparecem na nossa vida quando mais precisamos deles e Clube da Luta é um exemplo perfeito disso. Uma leitura que começou como uma intenção vazia de ver gente escrota levando muita porrada, acabou se tornando uma das mais importantes do ano passado graças à genialidade do autor, que vai muito além do clube que move a trama ao construir uma história que abre espaço para discussões sobre mídia, consumo e a vida, de um modo geral. Numa época em que minha vida parecia completamente fora dos trilhos, o livro mostrou ser o que eu precisava pra sair do buraco que tinha me enfiado e continuar seguindo em frente, e de repente o inesperado, aconteceu: num livro sobre gente muito escrota e problemática, eu encontrei a paz e a serenidade que eu precisava para tomar as rédeas da minha vida de novo e voltar a ser uma pessoa de verdade.

A_ARTE_DE_PEDIR_1423501322435327SK1423501322B8) A Arte de PedirAmanda Palmer: Para além do título com ares de autoajuda, A Arte de Pedir foi o livro que literalmente mudou a minha vida. Nele, Amanda conta sua história, cruzando memórias da sua trajetória como artista e seu sucesso no Kickstarter, ao mesmo tempo que fala sobre sua vida pessoal, seu relacionamento com Neil Gaiman, e nos ensina lições sobre amor, vulnerabilidade, confiança e a importância de se permitir pedir – ajuda, abraços, biscoitos, qualquer coisa. Num mundo que estimula a competição e nos ensina a não confiar em ninguém, Amanda mostra que ser vulnerável não é algo ruim, que algumas pessoas são horríveis, é verdade, mas que não devemos tomar isso como a regra, mas sim como a exceção, e que todos nós merecemos ser amados. Foi um livro que conversou muito profundamente comigo, que me ensinou demais e que eu marquei inteiro sem dó: uma forma de nunca esquecer todas as lições que aprendi.

O_OCEANO_NO_FIM_DO_CAMINHO_1369426298B9) O Oceano no Fim do Caminho, Neil Gaiman: Meu primeiro e único Neil Gaiman até o momento foi também um dos livros mais marcantes que li até hoje – o que justifica todas as maravilhas que ouço sobre o autor desde sempre. O livro é descrito como fábula e, assim como a Thay, também acredito que não exista uma definição melhor para a história. Porque é exatamente isso que ela é: uma fábula extremamente sensível e preciosa sobre a vida e como os acontecimentos da nossa infância moldam os adultos que nos tornamos, em maior ou menor medida. Ainda que a maior parte da história aconteça com um menino de sete anos, o livro me fez sentir muito o tempo inteiro – uma mistura de identificação profunda e um medo surreal, ao mesmo tempo que trouxe memórias muito fortes da minha infância, coisa que só um livro muito poderoso e bem escrito poderia fazer. É dele, aliás, uma das minhas citações favoritas: Os adultos também não se parecem com adultos por dentro. Por fora, são grandes e desatenciosos e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, eles se parecem com o que sempre foram. Com o que eram quando tinham sua idade. A verdade é que não existem adultos. Nenhum, no mundo inteirinho.

ESTACAO_ONZE_1431639968450329SK1431639968B10) Estação Onze, Emily St. John Mandel: Até pouco tempo atrás, se alguém me perguntasse se eu tinha um livro favorito da vida, eu provavelmente responderia que não. Hoje, no entanto, posso dizer sem medo de parecer precipitada, que Estação Onze é meu livro favorito. Ele nos apresenta um mundo distópico dizimado pela Gripe da Geórgia, que matou quase 90% da população mundial. Conhecemos, então, seis personagens – Kirsten, Jeevan, Miranda, Clark, o “Profeta”, e Arthur Leander, que é quem une a história de todas essas pessoas. O livro, no entanto, vai além da distopia tradicional, e usa o fim do mundo muito mais como um cenário do que qualquer outra coisa. É incrível como, num livro relativamente curto, a autora consegue trabalhar tantas sensações e percepções ao mesmo tempo que nos faz refletir sobre sobrevivência, família, relacionamentos, memórias, solidão, arte, fama, a efemeridade da vida e a beleza do mundo em que vivemos, construindo algo forte, único e extremamente precioso. Sobreviver não é suficiente.

♥ 

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

I JUST WANNA TELL MY FRIENDS NO MATTER WHERE I GO

I’ll see them down the road. 

Antes do ano começar, naqueles minutos que antecedem a virada, prometi três coisas pra mim mesma: a primeira que não criaria expectativas e nem faria resoluções mirabolantes; a segunda que não ficaria com a bunda no sofá esperando coisas acontecerem; e a terceira, que não reclamaria tanto quando as coisas não saíssem como o esperado, reconhecendo que minha história não é imutável, que a vida é uma caixinha de surpresas e que existe beleza até no fracasso. Não sei se vocês acreditam nesse tipo de coisa (o poder das palavras!, o pensamento positivo!, etc etc), mas desde que o ano começou muita coisa tem de fato acontecido, e eu não posso deixar de pensar que, por mais idiota que pareça, muito disso tem a ver com aquela Ana meio rabugenta que prometeu pra si mesma que não dependeria mais da própria sorte. Não sei muito bem como chegamos aqui, mas parece que funcionou – ainda bem.

Maio foi um mês que durou aproximadamente 1475 anos. Começou com uma novidade incrível que eu gostaria de ter compartilhado com vocês de um jeito mais apropriado, mas como acontece demais na minha vida, infelizmente não deu. A essa altura vocês já sabem do que estou falando, mas se o blog é um registro daquilo que acontece na minha vida, nada mais justo do que registrar aquele que seria meu primeiro projeto pessoal de verdade: o Valkirias, um site sobre cultura pop feito por mulheres e para mulheres, que busca justamente levantar questões que muitas vezes são ignoradas em páginas mais abrangentes. O projeto é uma cria minha e de mais seis amigas (Ana, Anna Vitória, Fernanda, Paloma, Thay e Yuu), pessoas incríveis que a vida me deu de presente e que agora dividem uma filha comigo, que fizeram (e continuam fazendo) esse projeto acontecer, que celebram cada nova conquista e choram comigo pelas coisas ruins que inevitavelmente surgem no caminho – só pra depois levantar a cabeça e superar cada uma delas, todas juntas, de mãos dadas.

É uma experiência completamente nova essa, que me empolga e assusta na mesma medida, mas que tem me ensinado muito e sido incrível na maior parte do tempo. Disse aqui uma vez que precisava me apaixonar pelas coisas que faço e é verdade. Eu preciso me sentir realizada com aquilo que me proponho a fazer – seja um trabalho da faculdade, um almoço de domingo ou um site com minhas amigas -, preciso acreditar que meu esforço vale à pena e, principalmente, preciso me importar com cada uma delas – do contrário, eu realmente não vou esquentar minha cabeça com algo que não me interessa. O Valkirias é exatamente isso – algo que eu amo, que acredito e que realmente acho que vale à pena me esforçar pra dar certo.

O negócio é que, muitas vezes, me esforçar pra dar certo significa ir além dos meus próprios limites. Porque essa sou eu e amar e me sentir realizada com alguma coisa também envolve uma certa dose de obsessão – às vezes boa, às vezes ruim. Nos últimos dias, me vi numa onda de querer abraçar o mundo e achar que eu podia dar conta de tudo, mesmo quando eu claramente não tinha a menor estrutura pra isso. Podem ter certeza que, se eu não estava fazendo planos com minhas amigas, discutindo pautas e tomando decisões, eu estava trabalhando o tempo todo, escrevendo feito louca e tendo ideias sem parar, num nível de começar a perder o sono (!) e não conseguir fazer coisas básicas, tipo comer (!) ou lavar o cabelo (!).  No meio disso tudo ainda tinha (tem?) a faculdade – que também é algo que amo profundamente, num nível meio obsessivo (apesar de todas as crises que surgem no meio do caminho) – e a vida, que não para nunca, como vocês já estão carecas de saber.

Se tem uma coisa que 2015 me ensinou é que na vida (pelo menos na minha vida), as coisas nunca acontecem uma de cada vez. Elas sempre acontecem juntas, de uma vez só, se atropelam e não pedem licença, e eu que aprenda a lidar com tudo. Já passei tempo demais chorando porque me sentia incapaz, porque não acreditava que conseguia, que podia chegar lá, até aprender na marra que podia sim, e que quanto mais a gente faz, mais a gente descobre que é capaz de fazer. É por isso que, mesmo que às vezes não seja saudável, eu me permito correr atrás daquilo que eu quero. De uns tempos pra cá ficou meio cafona ser a pessoa que tenta demais, mas eu sou essa pessoa que tenta – às vezes demais – e tudo bem. O mundo não me deve favor algum e eu realmente acredito que é dando nosso melhor e tentando de verdade que, cedo ou tarde, a gente chega lá. Nem sempre dá certo, mas isso não significa também que tenha dado errado – e aí entra toda aquela filosofia de que também existe beleza no fracasso. Às vezes a gente precisa que as coisas não saiam como o planejado pra ter uma mudança de perspectiva e aí sim fazer dar certo. Ou então desistir de uma vez e colocar os esforços em algo que realmente valha à pena.

Maio foi um mês estranho, intenso, que pesou a mão pro bem e pro mal. Passei todos esses dias sem saber se eu deveria estar comemorando, se eu deveria estar chorando, se eu não deveria fazer nenhuma das duas coisas e só continuar trabalhando feito louca, até que eu fiquei doente e só queria saber de reclamar e chorar sem parar. Foram dias terríveis de febre, dor de garganta, de cabeça, muito choro e a sensação de ser absolutamente incapaz de fazer coisas triviais. Me obriguei a parar por uma semana e não fazer ou pensar em nada – porque eu não conseguia mesmo, mas principalmente porque percebi na doença uma forma do meu corpo pedir, pelo amor de Deus, que eu diminuísse um pouco o ritmo, respirasse fundo e voltasse a ser uma pessoa de verdade.

Eu já não ficava doente há bastante tempo, então ficar desse jeito foi um lembrete realmente necessário de que eu sou humana, que meu corpo tem limitações e necessidades, e que é preciso cuidar de mim antes de pensar em cuidar de qualquer outra coisa. Isso me fez refletir muito sobre muitas questões que inevitavelmente surgem quando eu me sinto vulnerável e me fez desenterrar algo que sempre me assustou muito e que eu vinha tentando esconder de qualquer jeito: o medo. Medo de escrever, medo de não ser suficiente, medo de criar, medo de ser uma fraude, medo de descobrirem que eu sou uma fraude, medo de falhar, medo de decepcionar minhas amigas, medo de correr atrás de alguma coisa que claramente não mereço conquistar, medo do desconhecido, medo dos meus sonhos – que são enorme, gigantes e desconhecem limites -, medo do próprio medo. Medo, medo, medo.

Conversando com algumas amigas, percebi que o medo é algo natural, que todo mundo sofre com ele em maior ou menor intensidade, e que isso não é de todo ruim, muito pelo contrário – a gente só não pode parar de vez e achar que vai ficar tudo bem por medo de tentar. Pela primeira vez eu estou realmente caminhando em busca daquilo que eu quero, que faz o meu olho brilhar, dos meus sonhos grandes – imensos, gigantes, enormes – que me assustam na mesma medida que me empolgam, e é natural que eu sinta medo, que me questione se realmente sou capaz – só pra descobrir, mais uma vez, que sou capaz sim. E aí, depois que a gente dá o primeiro passo, já não dá mais pra voltar atrás. Eu posso até estar apavorada, mas a vontade de descobrir o que me espera é muito maior e de repente eu estou enfrentando meus monstros, provando pra mim, de novo e de novo, que eu sou capaz. Como me disse uma amiga muito querida esses dias: dá um medo do caralho, mas quando a gente dá o primeiro passo, a gente sabe que é capaz simMais uma vez: é isso.

Então, nesse meio tempo que eu desapareci do mapa, saibam que eu estava aqui do outro lado lutando com alguns dragões, tentando de verdade correr atrás dos meus sonhos e fazer as coisas darem certo, acreditando que eu posso chegar lá – e que vocês também podem. Várias vezes quis vir aqui contar o que estava acontecendo, mas me incomodava demais voltar só para chorar algumas pitangas e depois sumir de novo, que é o que invariavelmente aconteceria, sem tirar nenhum aprendizado de tudo isso. Mas eu aprendi e agora me sinto pronta pra voltar a escrever aqui de novo. Foram tempos estranhos, mas superamos e agora acho que posso contar essa história de um jeito mais otimista. Não vou prometer que volto a escrever com a frequência de sempre porque, a não ser que eu tire umas férias de mim mesma, as coisas estão acontecendo numa velocidade absurda e acho que é muito mais honesto admitir que eu nem sempre vou dar conta de tudo mesmo e que é muito melhor eu estar inteira no que quer que eu faça, do que jurar que vou chegar em casa todos os dias e fazer milhões de coisas, e depois ficar frustrada porque não consegui fazer tudo ou porque preferi tomar um banho demorado, um chocolate quente e assistir mais um episódio de Supergirl, e aí ir chorar no meu quarto quando a culpa bater porque a vida é uma bosta e eu sou uma fraude.

Mas essa não é uma despedida, muito pelo contrário. Se o blog é um registro dos últimos anos, nada mais justo do que ele refletir o momento que eu estou vivendo. Mas eu volto, eu sempre volto – e aí vamos poder deitar no tapete da sala, abrir uma garrafa de vinho e colocar o papo em dia como sempre. Enquanto isso, quando vocês perguntarem por onde eu ando, saibam que eu estou aqui do outro lado, tentando fazer o melhor que posso sem pirar de vez, arrancando os cabelos eventualmente, mas me sentindo muito feliz e realizada. As coisas estão acontecendo e acho que finalmente temos um motivo para comemorar.

gif

Torçam por mim, mais uma vez?

CINEMA E TV, MEMES

UMA PEQUENA PAUSA PARA FALAR SOBRE SÉRIES

É uma verdade universalmente conhecida que os memes são a salvação dos blogueiros em crise. Eles são a melhor alternativa para aqueles dias de pouca inspiração, um respiro de pura irrelevância num dia difícil, a desculpa perfeita para engatar uma conversa bestinha e responder perguntas que normalmente ninguém faz. Gosto de memes porque eles me permitem falar sobre coisas aleatórias sem a menor cerimônia, além de me permitir conhecer as pessoas num nível que muitas vezes não conheço nem quem eu vejo todo santo dia. Tipo, muito legal saber o que você faz da vida, mas eu realmente estou muito mais interessada em conversar sobre seus filmes favoritos, comida e Taylor Swift.

No entanto, me incomoda um bocado estar nessa posição ingrata novamente em tão pouco tempo, especialmente quando eu quero e preciso muito escrever sobre várias coisas, mas por motivos diversos (faculdade, doença, milhões de coisas acontecendo ao mesmo tempo e desgraçando minha cabeça, etc etc) acabo não conseguindo. Eu sei que o mundo está acabando e prometo vir aqui em algum momento pra falar sobre todas essas coisas, mas hoje não. Porque hoje eu quero falar de séries – que é basicamente a única coisa que eu tenho pensando quando não estou pirando por todos os motivos já citados. Felizmente, quem manda nessa porra ainda sou eu. Vamos lá.

1) Qual a sua série favorita de todos os tempos?

supernatural

Supernatural. Porque óbvio, né? As pessoas sempre acham engraçado quando eu digo que minha série favorita fala exatamente sobre coisas sobrenaturais quando eu sou a pessoa mais medrosa do mundo, mas o que elas raramente lembram é que muito além dos monstros e de todos os demônios do mundo, Supernatural é uma série sobre pessoas, sobre família, sobre seres humanos tentando de verdade fazer o melhor que podem – e errando muito no processo, mas ainda assim. Não é por acaso que eu me importo tanto com esses irmãos, com essa família, que perco noites de sono e chore tanto com e principalmente por gente que nem existe. É uma história linda essa que eles estão escrevendo (ainda que problemática em alguns momentos, mas bear with me) e eu me importo demais com ela – ainda bem.

A menção honrosa fica com Friends, que é a minha nova série favorita de todos os tempos, e que tem tudo aquilo que eu mais amo numa história: personagens incríveis e o coração no lugar. É uma série que também fala muito sobre a vida, sobre pessoas, sobre amadurecimento, sobre a história que estamos escrevendo e tudo de maravilhoso que existe aí, e é bonito observar como os personagens crescem e amadurecem ao longo dos anos, sem nunca deixarem de ser eles mesmos.

2) Qual é o seu personagem favorito de todos os tempos?

dean

Dean Winchester. Além de ser a minha crush mais pesada da vida, Dean é um personagem completo & complexo, que existe com uma força tão absurda que difícil mesmo é admitir que ele não é real. Gosto de como ele nunca é uma coisa só – nem só o caçador, nem só o irmão mais velho, nem só o cara que curte rock clássico e faz piadas ruins – e como, independente do papel que assume, ele consegue ser uma pessoa tão completa em si mesmo, que erra, se contradiz e tem várias questões mal resolvidas, que também é vulnerável e erra mais do que acerta. Além disso, me encanta saber que, apesar da história horrorosa e todos os problemas do mundo, ele continua sendo um cara extremamente sensível, que se importa verdadeiramente com as pessoas ao seu redor e que está sempre pronto para ajudar – seja um amigo ou uma pessoa aleatória que cruzou seu caminho. Não dá pra não amar esse cara.

3) Cite uma série em que você viciou.

the paradise

The Paradise, uma indicação da menina Paloma que basicamente acabou com a minha vida nas últimas semanas. É uma série bem curtinha (são só duas temporadas, com oito episódios cada), que foi inspirada num livro do Émile Zola e conta a história de Denise Lovett – uma mocinha do interior que vai morar na cidade grande com o tio e começa a trabalhar numa espécie de loja de departamento enorme e linda que se chama, vejam só que coisa, “The Paradise”. A história tem tudo aquilo que eu mais amo: trama de época, personagens adoráveis, figurinos maravilhosos, mocinhas fortes e donas da própria história, e romancinhos que fazem o coração doer de tão bons. É uma série que cumpre exatamente aquilo que promete e deixa o coração mais quentinho a cada episódio. Eu realmente estou obcecada e recomendo demais para todos que também amam nutrir obsessões irrelevantes e querem viver este amor de mãos dadas comigo (tem tudo no Netflix <3).

4) Cite uma série que todo mundo gostou (ou gosta) e você não.

ahs

American Horror Story. Apesar de ser uma pessoa muito medrosa, que se impressiona com qualquer bobagem e que, por isso mesmo, sempre evita se envolver com qualquer história que possam tirar o sono de alguma forma, eu gosto de histórias de terror, eu gosto de sentir medo (desculpa, sou doente) e nutro uma admiração por esse universo que às vezes beira o ridículo. Foi por isso que resolvi assistir AHS – mesmo morrendo de medo, mesmo com todas as pessoas do mundo me dizendo que eu não ia conseguir dormir à noite e que aquela era, sem dúvida, uma péssima ideia. Então sim, foi uma decepção bem grande quando comecei a assistir e não só não senti medo algum, como achei tudo meio estranho e sem sentido (não de um jeito bom). Tipo, é uma história de terror, sobre uma casa mal-assombrada, eu não deveria estar mijando nas calças? Continuo achando a ideia toda muito legal, mas fiquei bem chateada que a execução não tenha superado minhas expectativas. Vale pelo menino Tate (COMO NÃO SE APAIXONAR PELO TATE) e as roupinhas de adolescente trevosa da Taissa Farmiga.

5) Cite um personagem com o qual você tem muito em comum.

magic beans

São questões. O que sinto é que, por mais que eu me identifique profundamente com vários personagens, nunca é o todo que me representa, mas sim uma parte – às vezes grande, às vezes mínima – do que está ali na tela. Então não dá pra dizer que tenho muito em comum com um único personagem, mas que tenho algumas coisas em comum com vários deles.

Recentemente, no entanto, recomecei a assistir Friends e tenho me identificado um bocado com a Rachel da primeira temporada: a dificuldade em encarar a vida adulta, a falta constante de dinheiro, essa coisa de ver todo mundo ao seu redor aparentemente com a vida toda no lugar enquanto do seu lado as coisas só parecem ir muito muito mal, a eterna sensação de ter só recebido feijões enquanto todo mundo está colhendo os frutos dos seus feijões mágicos, esse tipo de coisa. Felizmente as coisas acabam melhorando bastante pra ela, então espero que em algum momento elas melhorem pra mim também, risos.

6) Cite uma série pouco conhecida que você gosta.

master of none

Depende do referencial. Se for uma série pouco conhecida entre as pessoas da internet, eu realmente não conheço nenhuma. Sou bem lerda pra esse tipo de coisa, então sempre que descubro alguma coisa relativamente nova, ela só é nova mesmo pra mim e entre os meus amigos da época do colégio ou da faculdade – que, maravilhosamente, são mais lerdos que eu. Dessas, as mais recentes são Penny Dreadful e Master Of None – sendo que a primeira é a minha queridinha do momento (e é uma pena que certos namorados não levem a recomendação a sério) e a segunda, apesar de muito boa, ainda é uma grande questão na minha vida.

7) Qual sua série favorita dos últimos tempos?

penny dreadful

Penny Dreadful. Conheci a série no ano passado graças à menina Thay – que tem um gosto bem parecido com o meu e em quem eu confio de olhos fechados quando me indica alguma coisa – e foi um caminho sem volta. Incrivelmente (ou não) ela também é uma série sobre pessoas que enfrentam monstros, demônios, bruxas e coisas sobrenaturais de um modo geral, que às vezes me deixa com medo, muito medo (o que dizer das bruxas da segunda temporada e aquela coleção de bonecos do capeta, risos), às vezes me deixa completamente sem rumo, totalmente incapaz de lidar com a quantidade absurda de sentimentos envolvidos (são MUITOS), e os sentimentos, como vocês sabem, continuam sendo os únicos fatos. Não é difícil que, depois de um episódio muito intenso, eu acabe não conseguindo dormir ou então perca o sono at all. É demais pro meu coraçãozinho sofredor, mas eu juro que é maravilhoso também e eu mal posso esperar pela terceira temporada que vem por aí.

8) Cite um protagonista que você não gosta, mas curte a série.

oliver queen

Acho que sou bem sortuda até, porque ainda que eu assista bastante coisa e não morra de amores por quase nenhum protagonista, não chego a odiar nenhum. É mais aquela coisa de condenar certas atitudes e posicionamentos, mas ao mesmo tempo perceber que todo mundo é humano e que errar às vezes é inevitável – e aí é engraçado perceber que quase todos já me tiraram do sério em algum momento: Oliver Queen, Rick Grimes, Matt Murdock, Dean e Sam Winchester, Ross Geller… A lista é enorme, mas faz parte, né?

9) Qual personagem você gostaria de ser?

blair waldorf

Blair Waldorf – and i’m not even sorry. Ainda que tenha várias atitudes questionáveis e viva metendo os pés pelas mãos, eu realmente gosto da Blair e adoraria poder ser ela um pouquinho, nem que fosse por um dia só. Imagina só ser a rainha do Upper East Side, ter Chuck Bass himself aos seus pés, o melhor guarda-roupa de todos os tempos e a Dorota só pra você?

10) Qual série você indica pra todo mundo?

daredevil

Demolidor. Apesar de ser uma série bem pesada, onde desgraçamento de cabeça é a regra e não a exceção, ela é muito bem feita, com personagens muito bem construídos e cenas que te deixam literalmente sem fôlego. Fui completamente fisgada por Matt Murdock, Karen Page, Foggy Nelson e cia, e todos os absurdos que rolam em Hell’s Kitchen (acreditem, são muitos), e a segunda temporada só serviu para reforçar tudo isso. Definitivamente não é uma série pra todo mundo, mas mesmo assim indico sem medo de fazer feio – se tudo der errado, pelo menos podemos apreciar a bunda do Charlie Cox, que é tipo a melhor bunda de todos os tempos. Me agradeçam depois.

LIVROS

STARSHIPS & QUEENS AWARDS 2015: RETROSPECTIVA LITERÁRIA

Parece piada, mas com muito atraso, preguiça e uma dose de desânimo, finalmente chegamos à última parte deste famigerado prêmio. Sempre deixo pra falar dos livros por último porque a) enquanto blogueira literária, sou uma excelente blogueira de aleatoriedades e coisas irrelevantes em geral; b) eu realmente tenho uma dificuldade enorme para escrever sobre as coisas que leio – mais uma consequência da minha péssima memória do que qualquer outra coisa; e c) de todas as etapas deste prêmio, essa é a que mais exige tempo e paciência, e eu, infelizmente, sou uma pessoa bem preguiçosa. Então sim, apesar de ser um processo divertido, eu morro só de pensar em catar livros, ler sinopses, inventar categorias, escolher quotes e linkar livro por livro.

O engraçado é que, mesmo com toda a preguiça e desânimo do mundo, eu estava realmente ansiosa para escrever esse post, primeiro porque 2015 foi um ano bem produtivo para os meus padrões: 31 livros, no total (vocês que conseguem ler 100 livros no ano, favor valorizar o meu esforço); e segundo porque, apesar de ter lido algumas coisas bem ruins, também li muita (eu disse MUITA) coisa boa e queria compartilhar isso com vocês. De início pensei em usar aquele formato criado pela Tary – que foi o que usei ano passado e foi sucesso -, mas a essa altura minha preguiça já ultrapassa qualquer limite e não ando mesmo com muita paciência, de modo que preferi chutar o balde de vez e apostar num modo mais randômico e completamente descompromissado, de acordo com o que acho mais relevante comentar.

books

LIVROS LIDOS EM 2015

O Duque e EuNão Sou Uma DessasComo Eu Era Antes de VocêÓculos, Aparelho e Rock’n Roll –  ObsessãoAnexosUm DiaGaroto Encontra GarotoPreciso Rodar o MundoA Lista de BrettA Culpa É das Estrelas (releitura) – AmericanahMentirososA Trama do CasamentoAs Vantagens de Ser InvisívelA EsperançaChá de SumiçoA Rainha VermelhaBoneco de NeveContando os DiasDália AzulO Retrato de Dorian GrayO Histórico Infame de Frankie Landau-BanksToda Luz Que Não Podemos VerO Diário Secreto de Lizzie BennetO Grande GatbsyEstação OnzeClube da LutaCanção da RainhaSejamos Todos FeministasFiquei Com Um Famoso

NÃO-FICÇÃO

nãoficção

Acho que a maior novidade de 2015 foi que eu finalmente comecei a dar atenção à livros de não-ficção. Pela primeira vez, pessoas que de fato me interessavam começaram a escrever sobre suas vidas e eu queria saber o que elas tinham para me contar. O primeiro dessa leva foi Não Sou Uma Dessas, da Lena Dunham, um livro mediano, mas com bons momentos. Ele foi meu primeiro contato com a Lena, uma mulher que eu conhecia mais de ouvir falar do que pelo seu trabalho, e realmente não recomendo que vocês façam o mesmo caminho. Algumas partes me incomodaram demais, demais, e eu tenho certeza que isso não teria acontecido se eu já estivesse minimamente acostumada com sua voz. No entanto, algumas partes também são maravilhosas e me fizeram pensar muito sobre várias coisas, inclusive sobre a minha vida. Não chega a ser uma identificação, mas ainda assim.

lena

Não há nada mais corajoso para mim do que uma pessoa anunciar que sua história merece ser contada, sobretudo se essa pessoa é uma mulher. Por mais que tenhamos trabalhado muito e por mais longe tenhamos chegado, ainda existem muitas forças que conspiram para dizer às mulheres que nossas preocupações são fúteis, que nossas opiniões não são relevantes, que não dispomos do grau de seriedade necessário para que nossas histórias tenham importância. 

Além dele, também li Preciso Rodar o Mundo, da Michelli Provensi, e aí a experiência foi completamente diferente. A Michelli é modelo e no livro conta um pouco da sua trajetória na profissão, fala sobre o começo da carreira, as vantagens e desvantagens, compartilha os perrengues que passou e um pouco sobre os lugares que conheceu. É um livro adorável, assim como a Michelli, mas que ao mesmo tempo faz questão de nos lembrar que existe muito mais no mundo da moda do que acredita nossa vã filosofia, e que ser modelo nem sempre significa ser famosa, que nem todo mundo vira Gisele. Mesmo assim é um livro delicioso, e a sensação que eu tive durante toda a leitura (que durou uma noite, no máximo) era a de que eu estava jogada no chão da sala, ouvindo uma amiga que eu não via há muito tempo contar sobre suas aventuras ao redor do mundo.

Contando os Dias foi o livro que me quebrou inteira e deixou meu coração em mil pedacinhos. Ele foi o projeto de conclusão de curso da Analu (!) e traz o relato de mulheres presas em regime semiaberto que tiveram seus filhos no ambiente prisional. Só daí já dá pra ter uma noção do tanto que ele desgraçou minha cabeça. Como a própria Analu diz nas suas primeiras impressões, o que muda entre o que pensamos das pessoas e o que elas realmente são é a distância que nos separa delas. Ler sobre a vida dessas mulheres me fez entender que a gente não sabe de nada mesmo e me lembrou do quanto ter empatia é importante, que somos todos seres humanos, no final das contas.

tumblr_inline_mnjof6ZqZ91qz4rgp

Eu chorei o tempo todo de um jeito que já não chorava há muito tempo, e foi difícil e doeu por cada segundo, mas é pra isso que servem os bons livros.

SÃO QUESTÕES

sãoquestões

São questões, no caso, os livros que ainda não tenho uma opinião muito formada, mas que foram bons o suficiente pra eu considerar uma nova leitura. O primeiro foi A Trama do Casamento, do Jeffrey Eugenides, um livro que eu esperei que me fizesse sentir muitas coisas, mas que não me fez sentir tantas coisas assim. No fundo, acho que foi mais uma questão de ler no momento errado – era fim de semestre, eu estava louca, arrancando os cabelos, tentando (e falhando miseravelmente) conciliar faculdade, estágio e uma vida aí no meio – do que qualquer outra coisa, mas ele também tem seus momentos e o final foi de longe um dos meus favoritos de 2015.

 Mentirosos, da E. Lockhart, é uma grande questão. Porque eu gostei, mas não gostei, sabe assim? Nele acompanhamos Cady, a principal herdeira de uma família muita rica, que sofreu um acidente e agora tenta descobrir o que de fato aconteceu e por quê as pessoas se recusam a contar a verdade sobre o que aconteceu no dia que ela bateu a cabeça. Falando assim, ele é exatamente o tipo de livro que eu mais gosto, mas a quantidade absurda de diálogos me incomodou bastante, assim como o grande mistério que envolve a história que, no final das contas, acaba nem sendo tão grande assim. Por outro lado, a leitura em si foi bem ótima – rápida, fluida, interessante – e o final, apesar de não ser surpreendente, me deixou com a certeza de que esse livro daria um filme sensacional.

O CLÁSSICO

dorian

Desde que comecei a assistir Penny Dreadful, tenho tentado dar mais atenção à personagens clássicos que até então não tinha tido muito interesse em conhecer. Foi assim que O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde, veio parar na minha estante (numa edição horrorosa que eu tenho até vergonha de mostrar, mas ainda assim) e depois acabou virando um dos meus livros favoritos da vida, ainda que seja extremamente misógino (!). Pois é. Não chega a ser uma surpresa (o livro é de 1891), mas causa sim um certo incômodo ler barbaridades mil. O tanto que eu quis jogar esse livro pela janela não tá escrito.

No entanto, eu disse que ele acabou se transformando num dos meus livros favoritos da vida, e é verdade. Apesar de ter essa visão nada gentil sobre as mulheres (pra dizer o mínimo), a história em si é maravilhosa e me fez pensar demais sobre a vida. Aliás, acho que o mais interessante é que, apesar de se passar numa realidade completamente diferente, ele fala de coisas que continuam muito atuais e traz questões que nos faz, de um jeito ou de outro, pensar em nós mesmos – o que é ser jovem e influenciável, nossa relação com a passagem do tempo, etc. Ou seja: os personagens até podem ser uns babacas e talvez o autor seja também, mas recomendo a leitura fortemente mesmo assim.

O MAIS IMPORTANTE

Sempre acho complicadíssimo falar de Americanah, da Chimamanda Ngozi Adichie, porque nada que eu diga vai ser capaz de dar pra vocês a real dimensão da preciosidade que é esse livro e, acima de tudo, o quanto ele é necessário.

Foi um livro que me fez chorar muito, o tempo inteiro, não porque ele conta uma história trágica, mas porque me fez aprender muito, demais, e aprender às vezes dói. Com Ifemelu, a personagem principal, aprendi a reconhecer meus privilégios, a abrir minha cabeça e reconhecer os perigos de uma história única, sobre a importância da representatividade, da diversidade. Ela me ensinou não apenas a ver o outro, mas principalmente a enxergar o outro, e sobre como a gente precisa, sim, ter empatia. Foi um livro que me mostrou que a gente não sabe mesmo de nada e fez com que eu me sentisse burra, muito burra, o tempo inteiro, mas, de novo, é pra isso que servem os bons livros.

Na cultura pop americana, as mulheres bonitas de pele escura são invisíveis (…). Nos filmes, as mulheres de pele escura fazem o papel da empregada gorda e maternal, ou da amiga da protagonista, que é forte, desbocada e às vezes assustadora, e que está sempre ali para dar apoio. Elas falam coisas sábias e têm atitude, enquanto a mulher branca encontra um grande amor. Mas elas nunca podem fazer o papel da mulher gostosa, linda e desejada por todos. 

OS FAVORITOS DE 2015  

osmelhores

No ano mais difícil e maluco e doído e estranho e pesado e intenso da minha vida, é natural que minhas leituras favoritas tenham sido meio assim também: não difíceis ou estranhas, mas intensas, pesadas, doídas e às vezes um pouco malucas também. São livros que, sobretudo, falam sobre a vida – difícil, estranha, doída – de perspectivas muito distintas, é verdade, mas que ainda assim conversaram demais comigo.

O primeiro deles foi Toda Luz Que Não Podemos Ver, do Anthony Doerr, um catatau com mais de 500 páginas sobre a vida de uma jovem francesa cega e um jovem alemão, durante a Segunda Guerra Mundial. Tenho um interesse muito grande por histórias que se passam durante alguma guerra, mas confesso que não esperava gostar desse como acabei gostando – primeiro porque ele é enoooooorme, segundo porque a narrativa é bem lenta, e terceiro porque muita gente eu conheço e que tem um gosto bem parecido com o meu não aguentou e acabou deixando o livro pra lá. Não sei se li no momento certo ou se ele de fato conversou demais comigo (chuto um pouco dos dois), mas foi uma experiência muito preciosa, sabe? É um livro muito delicado, extremamente sensível, triste em alguns momentos, mas bonito na maior parte, que me ensinou lições que não tornaram meu ano mais fácil, mas que me deram mais força pra continuar seguindo em frente.

Às vezes o olho do furacão é o lugar mais seguro para se estar. 

Num extremo oposto, Clube da Luta, do Chuck Palahniuk, veio para desgraçar a minha cabeça já desgraçada, num momento em que a única coisa que eu queria era ler sobre gente escrota caindo na porrada. Era mais um fim de semestre na faculdade, eu tinha perdido o emprego, não tinha mais uma melhor amiga, não suportava mais passar tanto tempo em casa e comecei a descontar minhas frustrações em cima de gente que não tinha nada a ver com o que estava acontecendo. De novo eu estava loucAaAaAaAaAaAa, achando minha vida um bolo inteiro de bostAaAaAaAa. Ver uns macho apanhando era totalmente minha vibe.

fighclub

O livro, no entanto, vai além: apesar de ser uma parte fundamental, a luta não é o mais importante. Por trás de toda a pancadaria, existem discussões bem ótimas sendo feitas (mídia, consumo, a vida, etc etc) e várias questões importantes sendo levantadas enquanto acompanhamos o fluxo de consciência do narrador – e aí foi bem louco perceber que, apesar de estar longe de ser uma história bonitinha-limpinha-a-vida-é-mara, muito do que li ali era exatamente o que eu precisava pra sair do buraco que tinha me enfiado e continuar seguindo em frente com mais calma, sem a necessidade de descontar minhas frustrações em gente que não merecia aguentar as barbaridades que eu andava dizendo. Num livro tenso (e intenso!), sobre gente muito problemática, eu encontrei a calma e a serenidade que me faltavam pra seguir em frente. Vai entender.

Naquela época, a minha vida parecia completa demais, e talvez tenhamos que quebrar tudo para construir algo melhor em nós mesmos.

(I rest my fucking case)

Já o melhor livro de 2015, foi também o melhor livro da minha vida – não por ser impecável ou ter a melhor história do mundo, nem só por ter me feito pensar na minha vida, mas principalmente por tudo que ele me fez sentir. E vocês sabem: os sentimentos são os únicos fatos.

Estação Onze, da Emily St. John Mandel, nos apresenta um mundo distópico dizimado pela Gripe da Geórgia, onde os poucos sobreviventes se esforçam para tentar reconstruir o mundo em que vivem, na medida do possível. Conhecemos, então, seis personagens – Kirsten, Jeevan, Miranda, Clark, o “Profeta”, e Arthur Leander, que é quem une a história de todas essas pessoas. São personagens completos e extremamente complexos, que nos mostram diferentes perspectivas não só sobre o fim do mundo, mas principalmente sobre a vida, independente do cenário. Acho incrível como num livro relativamente curto (ele tem pouco mais de 300 páginas), a Emily consegue construir algo tão forte, único e precioso, que nos faz pensar sobre sobrevivência, família, relacionamentos, memórias, solidão, arte, fama, a efemeridade da vida e a beleza do mundo em que vivemos. Foi a melhor experiência do meu ano e eu realmente espero que vocês me levem a sério dessa vez e leiam Estação Onze.

Ultimamente, ando pensando na imortalidade. No que significa ser lembrado e pelo que desejo ser lembrado, e outras questões relativas à fama e à memória. Adoro filmes antigos. Vejo na tela os rostos de pessoas que morreram muito tempo atrás e penso que elas nunca vão morrer de fato. Sei que isso é um clichê, mas, no caso, é mesmo verdade. Não só os famosos, que todo mundo conhece, os Clark Gable, as Ava Gardner, mas também os atores secundários, a empregada que traz uma bandeja, o mordomo, os caubóis no bar, a terceira garota, da esquerda para a direta, na boate. Todos eles são imortais pra mim. Primeiro, só desejamos ser vistos, porém quando somos vistos, isso já não é mais suficiente. Depois, queremos ser lembrados.

tumblr_nqf1fhGlHo1u9b9ceo1_500

Uma vez a Analu me perguntou se eu tinha um livro da vida, e eu disse que não. Hoje, se ela perguntasse de novo, eu responderia com toda a certeza do mundo: Estação Onze é o livro da minha vida.

Gostaria de agradecer a todos que acreditaram em mim e aguardaram calmamente por esse desfecho. Foram quase quatro meses, mas conseguimos e agora me sinto mais aliviada. Então podemos, oficialmente, voltar com a programação normal deste blog. De novo, agradeço pela paciência, mas prometo não enrolar tanto quando o ano acabar.