THE ROAD SO FAR

PERFECT PLACES

Em 2013, quando o primeiro álbum da Lorde foi lançado, eu tinha 20 anos. Era meu segundo ou terceiro semestre na faculdade de comunicação e coisas que imediatamente me pareceram extraordinárias, começavam a adquirir contornos cada vez mais mundanos. Depois de me impressionar com as pessoas, as opiniões e a aparente transgressão – às vezes, genuína -, me sentir sozinha e ao mesmo tempo parte de algo maior, amar e odiar aquilo com toda a força do meu coraçãozinho pisciano sofredor, eu finalmente começava a enxergar aquelas pessoas e aquele lugar aparentemente perfeitos por uma perspectiva menos idealizada e mais realista. De repente, as roupas bonitas e os cabelos calculadamente descolados passaram a dar lugar a pessoas inseguras, vulneráveis, cada vez mais distantes daquela imagem inicial de força e subversão; ainda eram as mesmas pessoas que, nos corredores da faculdade, pareciam invencíveis, fortes e livres, mas tanto quanto qualquer outro, elas também queriam pertencer, também sentiam medo e eram jovens, muito jovens, embora suas palavras nem sempre as condenassem.

Eu observava tudo isso a uma distância mais ou menos segura: distante o suficiente para não me machucar, o mais perto possível para não deixar nada passar despercebido. Era uma posição privilegiada, superior até; mas curiosamente decepcionante – eu queria o glamour meio decadente, queria o horror das noites em claro, bêbada demais para entender o que estava acontecendo; e todo o trauma, o terror e a porra do melodrama. Eu estava segura e a salvo, mas eu era jovem, muito jovem, e não queria estar segura, muito menos a salvo. Diferente da adolescência, quando passava a maior parte do meu tempo trancada no quarto, ouvindo músicas de bandas que ninguém conhecia, assistindo filmes que ninguém além de mim ou dos meus pais achavam legais e lendo livros que ninguém mais gostava, aos vinte anos, eu já não me sentia tão melhor assim do que outras pessoas por fazer nenhuma dessas coisas, muito menos julgava quem caminhasse na contramão – pelo contrário, eu quase implorava que eles me dessem a mão e pelo amor de Deus, me deixassem caminhar (ou dançar) junto com eles. Era uma mudança sutil – e silenciosa – de comportamento, mas ainda fundamental, que me afastava cada vez mais do meu eu adolescente e me aproximava desse novo cenário onde tudo era meio feio e exagerado, mas que ainda assim me atraía em vários níveis; o que era contraditório e, ao mesmo tempo, profundamente incômodo.

Minha adolescência não foi um mar de rosas – existiram os dramas, as drogas, as festas, o álcool, as pessoas legais demais até que se provasse o contrário -, mas ainda assim havia um abismo que separava a versão adolescente da versão jovem adulta de mim mesma. Com treze ou catorze anos, eu ouvia músicas que falavam sobre lugares em que eu nunca estivera, sobre sentimentos que eu nunca sentira, e via filmes e lia livros que falavam sobre exatamente as mesmas coisas, sonhando com o dia que eu, talvez, pudesse viver aquilo também – e aí, quem sabe, cantar, escrever ou registrar de alguma forma minhas próprias experiências. Contudo, mesmo aquilo que era vivido na clandestinidade, nos momentos de desatenção da minha mãe, vinha envolto por um sentimento de incompletude porque, no final das contas, eu continuava sendo a adolescente que não podia fazer nada sem permissão, envolta por uma bolha de limitações que nunca era estourada por completo.

A única vez que fiquei realmente bêbada durante minha adolescência foi dos quinze para os dezesseis anos, quando vomitei embaixo da mesa no aniversário de uma amiga e tive que ser levada pra casa, literalmente, no colo, na frente de todos os meus professores. As pessoas falaram sobre aquilo por semanas, e eu me senti invencível e descolada, de um jeito sujo e meio infantil – a imagem de garota certinha, de repente, quebrada em mil pedacinhos -, mas ninguém sabia que, naquele mesmo dia, enquanto enfiavam uma latinha de Coca-Cola embaixo do meu nariz, eu chorei no telefone com a minha mãe e pedi que ela, pelo amor de Deus, me levasse para casa; que eu deitei no chão do banheiro público de um shopping e pedi que me deixassem dormir ali porque não aguentava mais ficar em pé de tão enjoada, e foi preciso que meu namorado me carregasse mais uma vez nos braços; que eu precisei literalmente fugir do bar em que estava porque éramos todos menores de idade e ninguém queria terminar a noite numa delegacia ou no hospital. Viver tudo isso foi um terror e um horror do início ao fim, mas a história contada parecia muito mais romântica, de um jeito totalmente decadente e ironicamente glamouroso, e aos olhos (e ouvidos) de todos os outros, era muito mais interessante do que realmente tinha sido. No entanto, esse foi um episódio isolado e, eventualmente, as pessoas esqueceram que aquilo algum dia tinha acontecido. Eu voltei a ser a garota que lia demais, ouvia músicas estranhas e pintava as unhas de amarelo maracujá, enquanto as garotas descoladas de verdade continuavam saindo todos os finais de semana, bebendo horrores e fazendo o que quer que adolescentes descoladas faziam no final da primeira década dos anos 2000.

Pure Heroine, trabalho que apresentou Lorde ao mundo, fala exatamente sobre esse distanciamento – sobre observar tudo a uma distância segura, quase cínica, como uma espécie de espectadora segura demais em seu próprio espaço de controle e superioridade meio infantil e ironicamente periférica, sem se envolver demais ou encarar-se como uma parte ativa naquele contexto. Não ouvi o álbum para ter descoberto isso por conta própria, mas é o que tenho lido ou ouvido a respeito na maior parte do tempo, em especial nas últimas semanas, e não acredito que essa seja uma obra do acaso, onde todas as pessoas resolvem concordar umas com as outras just because. Boa parte das pessoas que disseram isso, aliás, são minhas amigas, pessoas que viveram coisas muito parecidas em algum momento de suas vidas, e que ao dizerem isso, falam com a propriedade de quem já esteve – ou ainda está – naquele lugar. Eu acredito nessas pessoas, acredito quando elas dizem que é exatamente esse sentimento que essas músicas evocam e falam a respeito, assim como acredito que a própria Ella de dezesseis anos, que escreveu aquelas músicas sem saber que elas a levariam ao estrelato, também estivera ali em algum momento.

Meus dezesseis anos foram, de alguma forma, o ápice desse exercício quase antropológico de observação. Depois de passar o início da adolescência nutrindo expectativas que eram controladas à base de pequenos atos de rebeldia, eu finalmente assumia, mais pra mim do que para os outros, que aquele não era o meu lugar; eu jamais andaria de mãos dadas com aquelas pessoas, muito menos frequentaria aquelas festas ou encheria a cara daquele jeito pra me divertir. Eu ansiava pelo fim da adolescência, ansiava pelo o que viria depois do ensino médio (I’m waiting for it, that green light, I want it.), mas já não me preocupava em parecer descolada ou fazer coisas que não me interessavam só porque sim. Então, eu continuei a ouvir minhas músicas estranhas, assistir filmes que ninguém conhecia e ler os mesmos livros em looping, me sentindo importante demais para fazer qualquer outra coisa. Curiosamente, foi mais ou menos nessa mesma época que eu comecei a namorar, o que, em partes, influenciou muito a forma como eu encarava a situação. Eu fiquei com Guilherme pela primeira vez numa noite clandestina de bebedeira, em que nós dois bebemos demais, e que terminou comigo vomitando no canteiro do prédio que morava na época. Contudo, a partir do momento em que decidimos ficar juntos, nada daquilo parecia continuar a fazer sentido. Minhas amigas solteiras passaram a frequentar lugares que não pareciam adequados para mim e meu namorado (embora eu nunca tenha acredito nesse tipo de coisa) e nós fomos, gradualmente, nos afastando. Nós não estávamos mais na mesma página, e para viver todo o drama da l.o.v.e.l.e.s.s. generation, era preciso que nós estivéssemos não apenas falando a mesma língua, mas vivendo as mesmas experiências.

Não que estar comprometida, por si só, seja uma questão ou mesmo um problema, mas o romance quase sempre surge como uma parte muito essencial e indissociável de todo o drama que precisa acontecer, e quando ele acontece de forma natural e pouco dramática, você inevitavelmente enxerga as coisas por uma perspectiva diferente. A própria Lorde viveu um relacionamento relativamente longo durante sua adolescência, que chegou ao fim em 2015, e não é por acaso que a garota que conhecemos em Pure Heroine e a jovem mulher que ouvimos em Melodrama são tão radicalmente diferentes. Ela está em um lugar diferente – o que não tem apenas a ver com o fim do seu relacionamento, mas que ainda diz muito sobre estar solteira e, principalmente, sozinha. Como a Isa Sinay colocou em sua última newsletter, Melodrama é sobre descobrir que entrar na vida adulta é colocar os pés na água.

“[…] Melodrama, aos olhos de todos nós, escritores de vinte e tantos anos, não parece um rompimento, mas uma continuidade: a adolescente fechada em si mesma que descobre que entrar na vida adulta é por os pezinhos na água. É ter as coisas acontecendo. Intensas demais, rápidas demais, coisas demais, coisas que você romantizou na sua cabeça, mas que quando estão aqui, fazendo seu sangue ferver de verdade, já não parecem tão desejáveis.”

Nada disso tem a ver exclusivamente com o fato de estar em um relacionamento amoroso, mas essa ainda é uma parte importante da experiência de ser jovem, muito jovem, e que também diz muito sobre como nos posicionamos e enxergamos o mundo. O fato de nunca ter vivido grandes dramas me privou, de certa forma, dessa experiência, porque o amor continuava a ser um lugar seguro, estável e confortável demais para me jogar para o mundo por conta própria; e não fruto de mágoas profundas, vulnerabilidade e sentimentos confusos. Nunca foi confuso; inebriante e intenso, sem dúvida, mas nunca confuso. Foram necessários muitos mais anos do que talvez fosse aceitável para que eu finalmente colocasse meus pés na água e me permitisse ser vulnerável, o que talvez seja a maior mensagem sobre Melodrama. Até os 22 anos, eu não bebia, sequer pensava em usar drogas, e continuava vivendo numa bolha de pessoas que não bebiam ou usavam drogas, e que raramente iam em festas ou bares ou qualquer coisa assim. Nós passávamos horas jogando WAR, tomando banho de piscina, falando mal dos outros e comendo feito loucos; mas foi uma fase, e como todas as outras, essa também chegou ao fim.

Foi um rompimento dramático, triste e doloroso como poucos que senti e precisei lidar na minha vida. Várias vezes eu disse – pra mim mesma e também para os outros – que 2015 era o pior ano da minha vida, e essa era a mais pura e dolorosa verdade. 2015 foi um ano de profundo desencantamento, o momento em que rompi com todas as minhas certezas e finalmente me permiti colocar os pés na água – só para descobrir que ela era muito mais gelada do que eu estava esperando. Não foi preciso ter meu coração quebrado por um homem; mas ele foi quebrado assim mesmo – uma, duas, três vezes por fim; e foi difícil, traumático, dolorido como eu jamais poderia esperar. Era o fim de uma era, a despedida da vida que eu conhecia. Não por acaso, esse foi o mesmo ano em que eu menti pra minha mãe e viajei sozinha pela primeira vez para encontrar pessoas que eu nunca tinha visto na vida (num lapso inquestionável de coragem) e pedi transferência de curso na faculdade – uma atitude que, naquela altura do campeonato, pareceu ridícula e imatura para a maioria das pessoas -, mas também quando comecei a ter crises de ansiedade mais sérias e me perder em meio à depressão. Depois de perder o emprego, o casamento de uma amiga, levar um pé na bunda da minha então melhor amiga (thought you said that you would always be in love, but you’re not in love, no more) e ver um monte de gente da minha idade literalmente morrer, eu me vi em um lugar em que já não tinha mais nada a perder; o controle era só uma ilusão, não havia nada ali que não pudesse facilmente se desfazer no ar.

Lembro de morrer de medo em vários desses momentos, da ansiedade, do sentimento de vulnerabilidade por me permitir estar tão fora de mim, especialmente quando estava longe de casa. Mas, ao mesmo tempo, também lembro da magia, do sentimento de viver coisas tão incríveis e especiais, da segurança que pouco a pouco ganhava espaço em meio ao caos sem nenhum traço de ironia ou cinismo; o suficiente para que eu não quisesse voltar atrás. 2015 talvez tenha sido o pior ano da minha vida, mas foi um ano absolutamente necessário e também mágico, ainda que do seu jeito meio torto. Eu dancei até sentir meus pés doerem, só pra continuar dançando mesmo assim; chorei de saudades, ri até perder o ar, peguei no sono ainda com roupa de festa no corpo e maquiagem na cara, fui até a Lua e voltei três vezes, sem nem saber como havia saído de órbita para começo de conversa, sem nem mesmo precisar sair de casa. Era visceral, inebriante e, ao mesmo tempo, extremamente libertador.

Ao seu próprio modo, Melodrama também é visceral, inebriante e libertador. Conceitualmente ambientado em uma festa, o álbum nos leva por diferentes lugares que ganham espaço nesse cenário – início, ápice e declínio; lugares perfeitos e outros nem tão perfeitos assim -, condensados em 41 minutos preciosos e repletos de honestidade. Suas letras falam sobre rompimentos, sobre perda de controle, mas principalmente sobre permitir-se perdê-lo; sobre vulnerabilidade, desencantamento, drogas, álcool, paixões intoxicantes e instantâneas, solidão, e em alguma medida, também sobre o sentimento agridoce de renovação. Sem pedir licença, Lorde nos leva em uma montanha-russa de sentimentos contraditórios – e, por isso mesmo, tão reais -, e embora segure nossas mãos com carinho, não pede desculpas pelo final da jornada; não há, afinal, nenhuma garantia de que ela terminará bem. Mas isso não significa que não possamos nos divertir no processo. Se a dor é inevitável, então talvez seja a hora de jogar os braços para cima e dançar ao som das nossas próprias mágoas – exatamente o que ela faz e nos convida a fazer junto.

Em“Green Light”, primeira faixa do álbum, Lorde canta sobre o fim de seu relacionamento, sobre a tentativa de abrir-se para novas experiências, mas sobre a falha que inevitavelmente a persegue ao se apegar ao passado de tal modo que torna-se impossível desvencilhar-se por completo. São sentimentos ambíguos, contraditórios, que ganham espaço em meio à dor e ao sentimento de traição, quase inevitável após um rompimento dramático, ainda que não de forma intencional. O clipe é um retrato perfeito disso: Lorde canta, dança, sente o vento no rosto enquanto se pendura para fora da janela do carro, mas ainda é a mesma garota quebrada que diz na frente do espelho coisas que talvez jamais tenha coragem de dizer para a outra pessoa. ‘Cause, honey, I’ll come get my things, but I can’t let go; I wish I could get my things and just let go.

Por muito tempo, comparei o fim da minha amizade com o fim de um relacionamento; eu me senti profundamente traída, sentia raiva, muita raiva o tempo inteiro (I know about what you did and I wanna scream the truth, she thinks you love the beach, you’re such a damn liar), e por mais que eu tentasse me livrar desses sentimentos – porque, no final das contas, me faziam mais mal do que qualquer outra coisa -, eu sempre voltava para o mesmo lugar, quase como se algo realmente me puxasse de volta cada vez que eu tentasse ir embora. Entretanto, a comparação só foi ganhar contornos mais óbvios quando comecei a fazer terapia e entendi que aquele rompimento, de fato, teve um peso imenso, muito maior do que as pessoas usualmente atribuem a uma amizade – daí a comparação com o fim de um namoro. Embora hoje essa seja uma questão resolvida na minha vida, no entanto, foram necessários muitos estágios até chegar aqui; o que, de certo modo, é o que Melodrama também faz. Os estágios, que a princípio remetem a uma festa, também evocam momentos de uma vida inteira, vividos num espaço de tempo muito distinto.

Não é por acaso que ouvi-lo assemelha-se à sensação de colocar os pés na água e ser pego por uma onda de sentimentos conflituosos, num vai e vem que não faz muito sentido até o fim da tempestade. Em “Homemade Dynamite”, Lorde fala, literalmente, sobre embriagar-se e perder o controle até estar completamente cega, blowing shit up with homemade d-d-d-dynamite. Diferente dela, no entanto, minha experiência com esse lugar aconteceu somente no ano passado, quando a depressão e ansiedade passaram a me consumir de formas muito intensas, e eu comecei a alternar períodos de tristeza e profundo desamparo, com outros em que eu verdadeiramente gostaria de explodir coisas por aí com bomba caseira, irreverente e destemida como nunca fui. Muitas das melhores coisas que fiz ano passado, muitos dos “sims” ditos de modo inconsequente, aconteceram justamente porque eu estava nesse lugar, nesse estado de absoluta embriaguez, mesmo sem uma gota sequer de álcool em meu corpo. Em muitas madrugadas que passei conversando sobre isso com a Yuu, chegamos à conclusão de que esse estado tinha muito a ver com nossos transtornos; a euforia antes da queda, como a Isa também colocou em sua newsletter. “The Louvre” é uma continuação de tudo isso: a situação não poderia estar mais fora de controle, but we’re the greatest, they’ll hang us in the Louvre; down the back, but who cares – still the Louvre.

Contudo, eventualmente a conta é cobrada, e quase sempre ela é cara, muito cara. “Liability” é essa conta. A música nos confronta com a perspectiva de que talvez sejamos difíceis demais, complexas demais, para sermos amadas. Não é um pedido de desculpas, pelo contrário, mas a dolorosa noção de que talvez esse amor idealizado e aparentemente perfeito não exista para mulheres… como nós; todas nós. É uma percepção que machuca, porque confronta anos e anos de representações tortas, que nos moldaram de algum modo, e destroem sonhos que são construídos a partir de padrões e expectativas irreais de amor, seja ele qual for. Deitada no meu quarto, sem vida e sem chão, muitas vezes eu me perguntei se não deveria fugir, se não deveria sumir de uma vez por todas (they’re gonna watch me disappear into the sun; you’re all gonna watch me disappear into the sun), deixar de existir e ser um problema para todas as pessoas que tiveram o azar de cruzar o meu caminho.

They say,”you’re a little much for me, you’re liability, you’re a little much for me”; so they pull back, make other plans; I understand, I’m a liability; get you wild, make you leave, I’m a little much for everyone. Na música, o eu-lírico se sente como um brinquedo, que pode ser substituído e deixado de lado tão logo seus truques perdem a graça. Eu me senti dessa forma um milhão de vezes; o sentimento de ser descartável como uma barreira que se punha entre eu e o mundo. Não foi por acaso que tantas vezes eu senti medo, muito medo, de permitir que as pessoas entrassem na minha casca, que elas conhecessem a verdadeira Ana, a mais feia dentre todas as mulheres que existem em mim – só para fugirem em seguida, algo que, eu sabia, ia acontecer, e aconteceria rápido se eu me tornasse… inútil. Mais de uma vez, fui questionada se eu realmente precisava ser tão útil o tempo inteiro, se só era digna do amor das pessoas quando servia para alguma coisa. Não era sobre como elas me tratavam ou me viam, mas sobre o tipo de amor que eu acreditava merecer: um amor condicionado e cheio de restrições.

Encontrar um meio de subverter essa narrativa foi um processo – mais curto e menos traumático do que eu esperava, mas ainda assim um processo -, que continua acontecendo todos os dias, embora hoje eu esteja em um lugar infinitamente melhor. “Hard Feelings / Loveless”“Writer In The Dark” representam, de certa forma, parte desse processo: Lorde se joga em amores incertos, repudia uma geração inteira de cabeças desgraçadas, e a mágoa e o desencantamento são sentimentos que gritam no escuro. Bet you rue the day you kissed a writer in the dark. E não apostamos todos? “Supercut”, em contrapartida, apresenta um eu-lírico quase conformado, que depois da tempestade, torna-se novamente capaz de dançar ao som das próprias mágoas. O desencantamento e a melancolia continuam lá, mas existe algo mais: a profunda e libertadora aceitação de que, na vida, o controle é apenas mentira que não nos impede de encontrar sentido em meio ao caos. Como disse em uma conversa que tive com a Yuu sobre álbum, algum tempo atrás, eu me identifico profundamente com isso porque acho que desde 2015 minha vida tem sido esse eterno processo de desencantamento: eu não sou boa demais, minhas expectativas foram enfiadas num buraco, e a vida não é tão fácil quanto meu eu adolescente imaginava; as coisas não acontecem simplesmente porque eu estou trabalhando duro. São constatações duras, difíceis e pouco gentis, mas que após o choque inicial, ainda abrem espaço para essa aceitação genuína e a percepção de que, embora o mundo não nos deva favor algum, ainda podemos ser felizes, ainda podemos encontrar um lugar perfeito em nossa própria imperfeição e fazer com que toda essa bagunça adquira algum significado – o que é, de certa forma, extremamente libertador.

Melodrama foi, curiosamente, lançado num momento em que eu vivia esse turbilhão de sentimentos, festas, álcool, trabalhos infinitos, e eu não podia me sentir mais perdida (are you lost enough?): era fim de semestre na faculdade, eu não parava de sair um minuto sequer, e quando não estava enchendo a cara em algum lugar, estava em casa, arrancando os cabelos para dar conta de um projeto que queria muito ver acontecer, embora só a ideia de vê-lo ganhar vida me enchesse de medo. Foram muitas noites em claro, pouquíssimas horas de sono, crises de choro em absolutamente qualquer lugar, uma briga interna entre acreditar que aquilo podia dar muito certo e a certeza de que daria muito errado; momentos de raiva, esperança, desesperança, estresse, risadas, corações quentinhos e medo, muito medo, que basicamente resumiram os últimos meses. Por algumas semanas, foi como se eu estivesse (e eu de fato estava) vivendo no meu limite, e tenho certeza que se não fossem as mensagens de apoio, as conversas, a paciência, o amor e carinho infinitos que recebi nesse meio tempo, eu jamais teria dado conta e resistido até o último minuto, quando finalmente enviei o projeto e entreguei nas mãos de Deus.

Parece idiota que eu tenha me envolvido tanto com um projeto que, a princípio, era só mais um trabalho de faculdade; mas como disse na apresentação – uma apresentação em que absolutamente tudo que podia dar errado deu, e mesmo assim continuei segura e plena; uma versão completamente nova de mim mesma -, aquela era uma história que dizia muito sobre mim, sobre minhas experiências, frustrações e desencantamentos, e eu queria a chance de contá-la, especialmente agora, quando todas essas coisas ainda são incrivelmente atuais pra mim. Compartilhei o roteiro dessa história com algumas pessoas ao longo do processo e uma das coisas mais importantes que ouvi nesse tempo foi que ele era muito… eu. Que embora fosse uma história repleta de silêncios, era possível me sentir ali o tempo inteiro, meu coração batendo em cada linha escrita, em cada palavra não dita pelos personagens. Eu chorei ao ouvir isso, chorei na véspera da apresentação e quis chorar antes dela, quando as coisas começaram a dar errado – mas eu continuei ali e, no final das contas, acho que todo esse processo me ajudou a criar uma base sólida sobre o que eu acreditava; e naquele momento, eu acreditava profundamente e irrevogavelmente no meu projeto.

Ironicamente, essa história fala muito sobre – se permitir – perder o controle e sobre aceitar que a vida não é sempre boa ou sempre ruim, mas algo aí no meio. Os momentos felizes são tratados exatamente como momentos, instantes de alegria que parecem eternos até que se prove o contrário – o que, eventualmente e inevitavelmente, acontece com todo mundo. Mas eu não queria contar uma história triste: “Aurora” era – e ainda é – uma história sobre esperança e aceitação, uma história não sobre encontrar respostas, mas sobre ser feliz em um mundo onde elas não existem e o controle é apenas uma ilusão; é sobre encontrar felicidade e sentido em meio ao caos. Os personagens dessa história são pessoas que sofreram muito ao longo da vida, pessoas que possuem uma cota considerável de tragédias pessoais e que, em determinado momento, se permitiram definir por elas – só para perceberem que, assim como os momentos de alegria, a tristeza e a dor também não são eternas. Elas são um capítulo, não a história de uma vida inteira.

Escrever essa história foi, ao mesmo tempo, um exercício de roteiro, construção narrativa e de personagens, mas também foi o momento em que fui confrontada pelos meus próprios fantasmas, e em que finalmente pude olhar de perto para o meu melodrama pessoal, um processo de me desencantar e encantar novamente por uma vida que jamais será perfeita. Ao lado de Julia e Rafael, meus dois personagens, eu exorcizei meus demônios, chorei, dancei, dirigi em alta velocidade e pulei na água sem medo que ela estivesse gelada demais. Eu segurei a mão deles e eles seguraram as minhas, e quando acabou, eu já não era mais a mesma. O encontro dos dois os marcou profundamente, mas me encontrar com eles deixou marcas indeléveis na minha jornada enquanto escritora e roteirista, mas principalmente como pessoa.

De certa forma, Melodrama foi a forma que a Lorde encontrou de registrar e guardar para sempre seus 19 anos. “Aurora”, por sua vez, foi a minha forma de condensar, em alguns minutos, um processo que já vinha acontecendo desde os meus 22. Lorde conclui o álbum com “Perfect Places” – de todas, minha favorita -, uma música onde ela assume para si mesma que lugares perfeitos não existem e para de procurar por eles, o que é, de certa forma, libertador. Tudo começa de novo e de novo e de novo – os drinks, a dança, o romance, a queda -, mas isso não a impede de se divertir. It’s just another graceless night – e tudo bem. A essa altura, ela tem a consciência de que o ideal é apenas uma história bonita demais que nos contaram e que o controle não é uma realidade; lugares perfeitos não existem – ela já passou noites inteiras buscando-os, afinal – e, quando existem, não são eternos, e não há absolutamente nada de errado com isso. Enquanto passava noites chorando, apavorada demais com o que aconteceria com meu projeto, as palavras da Lorde vieram como um abraço apertado e quentinho, e não é por acaso que suas músicas complementaram tão bem a minha história, ainda que ela tenha sido concebida muito antes do álbum sequer ser lançado. Nós estávamos no mesmo lugar.

Essas músicas sempre vão ser a trilha sonora desse momento, das descoberta, das decepções, das crises, da euforia, das conquistas e do momento em que eu finalmente me tornei capaz não de colocar os pés na água, mas de pular num mar inteiro de sentimentos e incertezas. Conversando com algumas amigas algumas semanas atrás, disse que me sentia meio idiota por me identificar tanto com o trabalho de uma mulher de 19 anos, quando eu já devia ter passado dessa fase. Hoje, no entanto, enquanto escrevo esse texto (uma tentativa meio tosca, mas honesta, de também registrar essas memórias e impressões), não me sinto nem um pouco idiota, mas plena e segura, de um jeito que talvez nunca tenha me sentido antes. What the fuck are perfect places anyway?

MEMES

11 FATOS SOBRE MIM E ALGUMAS COISINHAS MAIS

Algumas semanas atrás, a Tati – essa pessoa maravilhosa que claramente me salvou da minha própria falta do que postar – me indicou para responder uma tag (meme, meme, meme) chamado Liebster Awards, que nada mais é do que uma desculpa bem maneira de falar sobre a gente quando ninguém está realmente interessado nisso. Basicamente, o meme consiste em responder algumas questões feita pela própria Tati, além de contar 11 fatos aleatórios sobre mim, só para depois eu mesma fazer perguntas para os meus indicados. Também tinha que colar um selo, etc etc, mas em função da minha preguiça, pularei essa etapa.

11 FATOS SOBRE MIM:

1. Sou filha única por parte de mãe; por parte de pai, tenho três irmãos mais novos.
2. Desde que passei a ter consciência do meu corpo e da minha aparência, passei a ter muitos problemas de autoestima, que se mantém sempre baixa, muito baixa, e me faz ser bem pouco gentil comigo mesma. Uma das coisas que eu menos gosto de ouvir quando exponho minhas frustrações é, não por acaso, que eu só estou em busca de elogios, algo que machuca profundamente justamente porque perde todo o ponto da questão: não é sobre como os outros me enxergam, mas como eu enxergo a mim mesma, e minha incapacidade de ver beleza no meu reflexo no espelho.
3. Além de Supernatural, minhas outras séries favoritas são Penny Dreadful, Call The Midwife, Gilmore Girls, Downton Abbey e Friends.
4. Ainda sobre séries, depois que terminei de assistir Friends, comecei a assistir tudo de novo, mas por motivos diversos, não cheguei a terminar. O mesmo aconteceu com Downton Abbey – essa, no entanto, continuo assistindo e pretendo chegar até o fim; de novo.
5. Música sempre foi uma ótima fonte de inspiração pra mim, e continua sendo até hoje. Quando escrevo ficção, principalmente, a trilha sonora é algo que me ajuda muito a estabelecer o tipo de história que busco contar. Isso não significa que essas histórias vão, necessariamente, contar com essas músicas como uma parte intrínseca delas, mas como uma parte fundamental do processo criativo por trás delas e a construção dessas histórias de algo totalmente abstrato – uma ideia – até o produto em si – um livro, conto ou roteiro; tanto faz.
6. Outono é minha estação favorita.
7. Uma das minhas maiores frustrações foi não ter levado as aulas de piano e violão a sério quando ainda tinha tempo pra isso.
8. Vinho é uma das minhas bebidas favoritas.
9. Embora eu goste muito de moda, um dos meus maiores desejos no momento era ter uma pessoa pra me vestir todos os dias, risos.
10. A diferença de idade entre eu e minha mãe é de trinta anos (não sei porque disse isso, mas é algo que eu gosto demais, sei lá porquê).
11. Ainda que eu não seja a pessoa mais organizada do mundo, poucas coisas me irritam tanto quanto falta de responsabilidade e comprometimento. Infelizmente, é algo com o qual tenho que lidar desde que me entendo por gente e é realmente decepcionante contar com alguém só na teoria. Por esse motivo, confio muito mais no meu trabalho do que no da maioria das pessoas com quem preciso lidar, e mesmo que seja desgastante quando tudo sobre pra mim, por outro lado, fico muito mais tranquila de saber exatamente qual será o resultado final.

11 PERGUNTAS FEITAS PELA TATI:

1. Qual sua melhor lembrança da infância?
É difícil dizer. Acho que as memórias de todas as férias que passei na casa dos meus avós, no interior, mas não consigo lembrar de momentos específicos, e sim de flashes de coisas que aconteceram e, juntas, seriam capazes de conjurar patronos. Eu tive uma infância muito boa de um modo geral e é muito difícil lembrar de uma única lembrança que se destaque, porque o conjunto delas acaba sendo muito mais importante, se é que dá pra entender.

2. Quando a blogosfera passou a ser parte da sua vida?
Ensaiei ter alguns blogs quando ainda era muito novinha, por volta dos 12 ou 13 anos, mas foi só aos 16 que eu realmente assumi a blogosfera como uma parte da minha vida – primeiro, com os blogs de moda, e a partir de 2013, com um blog pessoal. Sinto muito por não ter vivido mais com essa presença constante na minha vida e por todas as memórias que acabaram se perdendo com o tempo, mas hoje não consigo imaginar uma vida em que eu não tenha um espaço para escrever e ser eu mesma em tempo integral.

3. Se você só pudesse ouvir uma música pelo resto da vida, qual seria e por quê?
Não faço ideia. Minha primeira reação é dizer que ouviria “Vienna”, do Billy Joel, porque é uma música que significa muito pra mim e que possui uma letra que bate muito forte sempre que ouço. Mas não sei se gostaria de ouvi-la pelo resto dos meus dias. Então, provavelmente, escolheria alguma música do Scorpions, do Harry Styles ou do primeiro álbum das Haim, que são músicas que, acredito, são mais atemporais e eu não enjoaria com muito facilidade, e que significam um bocado pra mim também; não necessariamente por uma música em si, mas pelo contexto do álbum em que elas estão inseridas e sua capacidade de representar tudo isso numa única canção, etc.

4. Qual seu self-care favorito?
Essa coisa de self-care ainda é muito nova pra mim e tenho tentado encontrar coisas que realmente façam com que eu me sinta bem e mais amada por mim mesma – o que é um desafio imenso, mas um passo de cada vez. Não sou a melhor pessoa do mundo com cuidados diários com pele, mas algo que me faz sentir extremamente bem é me cuidar dessa forma: tomar um banho quentinho, demorado e cuidadoso, passar um milhão de cremes na cara e no corpo em seguida, colocar um pijama e ficar embaixo das cobertas. Também amo me mimar com comida – o que é péssimo às vezes, porque constrói uma relação bem problemática com a comida, mas bear with me – e assistir um episódio de série conforto.

5. Se precisasse escolher, preferiria uma viagem com tudo pago para a Itália ou uma biblioteca completa dentro da sua casa?
Uma viagem com tudo pago para a Itália!

6. Qual foi o último filme que você viu no cinema?
Mulher-Maravilha, com a glória da deusa Diana e a benção da rainha Patty Jenkins.

7. Como diria Kelly Key: mais uma noite chega, e com ela a depressão?
Infelizmente, sim. Kelly Key sabia das coisas.

8. Mil reais ou uma foto com o Raça Negra?
Mil reais pois pobre de marré. Desculpa Raça Negra.

9. Qual sua palavra preferida?
Isso muda muito. No momento, acho que “serena”.

10. O que o ano de 2017 está sendo pra você?
Um desafio imenso, em muitos sentidos. No lado profissional, esses desafios surgem na forma de prazos a serem cumpridos, atividades com as quais não tenho muita segurança, mas preciso desempenhar de qualquer jeito, e funções e situações que me deixam profundamente desconfortáveis, mas que precisam ser desempenhadas e olhadas de frente. Sou uma pessoa naturalmente acomodada, que foge de confrontos como o diabo foge da cruz, e esse ano tem sido não apenas um ano de trabalhar muito duro o tempo inteiro, mas de também subverter esse meu lado e assumir uma postura mais corajosa – mesmo que seja só fachada. Já no pessoal, 2017 também tem sido um ano de descobertas, principalmente por causa da terapia, que cada vez mais desenterra fantasmas e me obriga a olhá-los de frente e entender porque eles estão ali para só então exorcizá-los; ou então reconhecer que tudo bem eles continuarem comigo por mais algum tempo. É um processo muitas vezes doloroso, incômodo, mas extremamente importante e também engrandecedor. Tenho feito muitas descobertas e confrontado nuances da minha personalidade que não são exatamente qualidades que eu gostaria de ter, mas que são muito humanas, e talvez pela primeira vez na minha vida, tenho a chance de aceitá-las como tal e ao menos tentar ser mais gentil comigo – algo que venho falhando miseravelmente até o fechamento desta edição, mas bear with me.

11. Se precisasse escolher um dos namorados da Taylor Swift para ficar com ela pra sempre, qual seria?
A não ser que minha vida dependesse disso, não escolheria nenhum. Por mais que eu goste muito do casal Haylor e tenha feels até hoje quando penso no “Red” e todas as suas músicas escritas especialmente para o Jake Gyllenhaal, não acho que nenhum deles faça mais sentido na vida da Taylor hoje, da mesma forma que ela, em contrapartida, também já não faz mais na deles. O tempo passa, para o bem e para o mal, e já passou tempo demais para que essas histórias sejam desenterradas e façam algum bem para os envolvidos. Não vai fazer. Então, só espero que a Taylor encontre um cara verdadeiramente legal para sua versão de hoje – ou não encontre cara nenhum, se ela não quiser -, da mesma forma que desejo ao Harry um amor profundo e poético, como ele merece, e ao Jake desejo eu mesma, porque lógico (brinks).

MINHAS 11 PERGUNTAS

1. Qual seu livro favorito e por quê?
2. Se pudesse ser a personagem de alguma série, qual seria?
3. Não devemos perder tempo com…?
4. O que acha de problematizações no geral e qual foi a problematização mais bizarra que você já viu?
5. Você se considera uma pessoa boa?
6. O pior defeito que uma pessoa pode ter e que você também tem?
7. Qual sua opinião sobre o show do Harry Styles com ingressos sendo vendidos com quase um ano de antecedência e esgotando em seis fucking minutos?
8. Um lugar do mundo que adoraria conhecer.
9. Do que mais se orgulha na sua vida até aqui?
10. Existe algum sonho de infância que você ainda pretende realizar?
11. O que Taylorene e Katy Perry deveriam estar fazendo ao invés de perder tempo com uma treta ridícula?

Infelizmente, não consegui pensar em ninguém pra indicar dessa vez porque a) sou antissocial e b) todas as pessoas que conheço já foram indicadas por outras pessoas. Então, sintam-se à vontade para responder às perguntas e me avisem depois pra eu poder conferir as respostas de vocês.

DRAMAS REAIS

TEMOS NOSSO PRÓPRIO TEMPO

Como todos os textos que nasceram da necessidade meio tosca de justificar minhas ausências, pensei em começar esse com um imenso e ridículo pedido de desculpas, mas então decidi que não valia à pena. Não que pedir desculpas não seja importante, mas a essa altura já é uma verdade universalmente conhecida que a rotina desse blog é feita de pequenos hiatos, que cedo ou tarde chegam ao fim, e eu já deixei de me sentir culpada por eles há tempo demais para continuar a me desculpar. Embora nem sempre tenha sido assim, nos últimos meses, o blog assumiu um espaço na minha vida que passa muito longe de ser uma obrigação; o que é, ao mesmo tempo, bom e ruim: bom porque, naturalmente, eu não passo mais tanto remoendo todos os textos que não escrevi; ruim pelo exato mesmo motivo. Entre uma atualização e outra, muita coisa acaba ficando perdida, e eu estaria mentindo se dissesse que eu não sinto muito, muitíssimo, por todos os textos que não viram a luz do dia.

Curiosamente, essa nova relação com a escrita, de um modo geral, me deixa muito mais tranquila, e taí uma coisa que eu tenho priorizado bastante na minha vida. Aos 24 anos, sempre imaginei que tranquilidade fosse estar muito longe da minha cota de prioridades – “quero dinheiro”, eu pensava, “um casamento”, “um trabalho maneiro”, “viagens”, etc etc -, mas sendo a vida essa grande piada cósmica, é impossível não olhar ao redor e querer viver num mundo em que a gente tenha tempo pra fazer tudo ou não fazer nada se preferir. Se minha vida fosse um filme, o transformaria numa narrativa cheia de silêncios carinhosos, tons pastéis e músicas fofas, e cenas que deixassem o coração de quem assiste mais quentinho. Ainda hoje (na verdade ontem, porque comecei a escrever esse texto num dia, mas só fui concluí-lo no dia seguinte), disse pra uma amiga que, embora eu amasse filmes frios e grandiosos, esse não era o tipo de cinema que eu gostaria de fazer, e é verdade. Não por acaso, os filmes que eu desejo fazer são aqueles que falam sobre pessoas muito desgraçadas, mas que curiosamente contam histórias leves, quentinhas, com sabor de comfort food, que é mais ou menos como eu desejo que minha vida seja também.

Sempre gostei de pensar que eu podia fazer o que quisesse, ser o que quisesse e conseguir o que quisesse, mas foi preciso que minha saúde física e mental entrassem em cena para que eu entendesse que, ainda que eu me sentisse muito capaz o tempo inteiro, nada nesse mundo valia o risco de perdê-las de vez. E que nem sempre eu ia conseguir fazer o que quisesse, ser o que quisesse, etc etc. Tenho a sorte – e o azar – de estar envolvida em muitos projetos e ter responsabilidades pelas quais eu sou completamente apaixonada e que fazem todo o esforço valer à pena. Eu amo a faculdade, eu amo fazer filmes, eu amo escrever. Mas existe uma diferença fundamental em amar todas essas coisas de maneira saudável e esquecer de si mesma no processo. Ser workaholic parece muito bacana na teoria; um milhão de vezes eu disse que era assim que eu queria ser, desde que fizesse o que amava, e era exatamente essa pessoa que eu estava me tornando, sempre ocupada demais para qualquer coisa. Então eu fiquei doente; uma vez, duas vezes, três vezes em pouquíssimos meses. Minha ansiedade voltou com força total. E enquanto eu era obrigada a abandonar um, dois, três projetos, quatro, cinco, seis ideias de textos, invariavelmente, eu me sentia uma fraude. Uma mentira. Uma pessoa incapaz e ridícula e falha e que não ia chegar em lugar nenhum porque ninguém chega a lugar algum se não consegue sequer cumprir um prazo porque está com a cabeça desgraçada demais pra isso.

Quando a Anna Vitória escreveu no Valkirias sobre colocar o pé no freio e se permitir absorver as coisas com calma, uma parte de mim jazia no chão completamente exausta depois de passar horas gritando na minha cabeça que aquele era um passo terrivelmente equivocado e que eu ia me arrepender amargamente de tê-lo aprovado num futuro nem tão distante assim. Depois de um ano intenso, porém maravilhoso, parecia uma decisão estúpida seguir na contramão daquilo que vinha dando tão certo. 2017 seria um ano do trabalho duro, diziam os astros, de fazer as coisas acontecerem, e eu, que nunca precisei de muito incentivo para acreditar nessas coisas, levei a máxima a sério o suficiente para me permitir ser engolida pelo trabalho. E pelos meus sonhos e projetos e ambições, como se de algum modo eu precisasse provar que eu era uma pessoa ocupada de verdade e que não passava o dia inteiro sentada na frente do computador atoa, assistindo vídeo de gato e jogando conversa fora com minhas amigas – ironicamente, as coisas que eu deveria estar fazendo também, mas que simplesmente não encontravam espaço para coexistir com a loucura entre faculdade e projetos que se multiplicavam de maneira insana. Eventualmente, consegui entender que pisar o pé no freio não significava fracassar ou admitir uma possível derrota; é uma decisão que parte muito mais da consciência de que, para acontecer da forma que queremos, nosso trabalho precisa de cuidado e atenção e tempo, do que de supostos fracassos. Além disso, somos todas humanas e não adianta nada falar sobre a humanidade não aceita de tantas personagens se nós sequer somos capazes de aceitar nossas próprias limitações.

Por mais difícil que seja, aceitar que nem sempre dá pra fazer tudo, ser tudo, dar conta de tudo, é fundamental para seguir com o baile. Continuo acreditando que crescer é importante, que fazer cada dia mais e melhor também é, mas desde que isso não custe tão caro ao ponto de se tornar prejudicial. É uma relação completamente nova com a escrita, é claro, mas também com minha vida acadêmica, profissional e também pessoal porque nem só de trabalho e problematização e artigos de cinco mil palavras é feita a vida; o que naturalmente também reflete no blog. Diferente de muitas pessoas que abandonaram os blogs para continuar falando sobre a vida em outras plataformas ou simplesmente se dedicar a outros projetos, eu continuo incrivelmente determinada a continuar nesse espaço, mas sem a obrigação que um dia já foi regra. Quero continuar a escrever sobre a vida e registrar minhas memórias aqui, mesmo que nem tudo seja explicitamente escrito, porque essa ainda é a melhor forma que encontrei para lembrar e guardar aquilo que é importante, e o que não é também, mas que eu vou gostar de lembrar quando tiver 84 anos e conversar com meus netos e deixar para trás depois que eu morrer – mesmo que ninguém se importe com isso além de mim mesma. Uma das minhas maiores frustrações é não ser fruto de uma família de gente que escreve, obcecada por registros e memórias, e nunca ter tido a oportunidade de passear pelas lembranças dos meus avós, que são pessoas que eu admiro tão profundamente e que tenho certeza que viveram coisas incríveis, mas que jamais foram registradas e que terminaram se perdendo com o tempo.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que começou a Primeira Guerra Mundial, um conflito de importância histórica que, dizem alguns, foi ainda mais traumático, sujo e brutal do que a Segunda Guerra. Ambos parecem distantes demais da nossa realidade, separadas por um período de mais de cem anos, mas que não parece tão distante assim quando sabemos que pessoas que conhecemos estiveram lá de alguma forma e fizeram parte da história, mais ou menos como nós também estamos fazendo agora. Meu avô assistiu muitos dos maiores fatos históricos que marcaram o século XX acontecerem em tempo real, e eu realmente gostaria de saber o que ele pensava sobre esses assuntos, quais eram suas opiniões, seus medos, frustrações. O homem que eu conheci – e que infelizmente já não está mais entre nós – é uma versão infantil e carinhosa moldada pela perspectiva da neta que passou dezesseis anos sendo chamada de passarinho, que ria de suas piadas e que acreditava que nenhum outro homem poderia ser tão gentil quanto aquele; mas existiam muitos outros e sinto muito por não tê-los conhecido também. Não é muito diferente do que acontece com a minha avó. Ela, que nasceu em 1927, também já viveu e assistiu muita coisa, mas ainda que conversemos um bocado sobre o passado, algumas memórias simplesmente se esvaem com o tempo.

É uma obsessão idiota, mas não vazia, e é isso que, de certa forma, me faz continuar aqui. Me perguntaram uma vez porquê eu continuava com o blog quando existia um sem fim de plataformas onde eu poderia fazer exatamente a mesma coisa, e eu não precisei pensar duas vezes antes de responder: porque o blog ainda é, dentre todas as coisas, algo essencialmente meu. Tirando duas ou três coisas nessa vida, esse é o único espaço do qual eu tenho pleno controle e que não vai sofrer mudanças se alguém além de mim mesma quiser; o que é muito mais do que eu posso esperar de um Medium da vida ou de um Tinyletter qualquer. Esse foi um dos motivos, aliás, que me fez desistir da newsletter nos moldes em que ela estava; embora eu ainda tenha a pretensão de fazer algo novo com ela, escrever sobre a minha vida em um novo espaço pode fazer muito sentido pra muita gente, mas definitivamente não faz pra mim. O blog é minha casa, é meu lar, é o cantinho que tem a minha cara e que muda comigo cada vez que eu achar necessário, como um corte de cabelo que muda ao longo dos anos, cada vez que sentimos a necessidade de apresentar uma nova faceta ao mundo. É aqui que eu quero poder sentar no tapete com uma taça de vinho na mão e falar sobre a vida e não faz o menor sentido tentar mudar o que acontece nesse espaço se eu já me sinto tão confortável aqui.

Ainda existem muitas coisas que eu quero fazer e pouco tempo para, de fato, fazê-las. Quero escrever mais e em novos lugares, quero remodelar a newsletter, aprender a bordar, voltar a fotografar, escrever mais roteiros, começar uma pequena produtora e produzir mais filmes, fazer colagens, terminar um livro; mas são coisas que inevitavelmente precisam de tempo e calma – e às vezes dinheiro – para acontecerem e eu estou disposta, talvez pela primeira vez na minha vida, a esperar e dar um passo de cada vez ao invés de sair atropelando tudo sem nunca ser capaz de curtir nada porque estou mais preocupada em fazer com que elas aconteçam do que realmente aproveitar cada uma dessas conquistas – que podem ser pequenas ou não, mas devem ser celebradas da mesma forma. Escrever mais ainda é meu maior objetivo, mas ao final de um dia de trabalho, eu ainda quero poder entrar nesse blog e descobrir que esse é exatamente o lugar em que eu desejo estar.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

NÃO ERA PRETO E BRANCO

Cada Um Com Seu Cinema é um filme de 2007 que reúne curta-metragens de diretores renomados do mundo inteiro, onde cada um tem a oportunidade de contar pequenas anedotas de amor ao cinema; histórias minúsculas que, pouco a pouco, constroem uma obra que, ao mesmo tempo, critica, celebra e lamenta o futuro da sétima arte. Na aula de direção dessa semana, tiramos o tempo para assistir e analisar alguns desses curtas, um exercício de crítica e compreensão de linguagem, estética e técnicas tão distintas; uma experiência que seria maravilhosa, não estivesse eu mais preocupada em fingir que estava tudo bem.

Fingir que está tudo bem é, aparentemente, o que mais tenho feito nos últimos meses; uma tentativa ridícula e desesperada de provar pra mim mesma que as coisas não estão tão ruins assim, mesmo que elas de fato estejam. Como disse para uma amiga esses dias, é como se o tempo inteiro eu tentasse equilibrar uma porção de pratos que precisam de cuidado e atenção, mas que ao mesmo tempo exigem uma agilidade constante no trato: o tempo que dedico a um prato pode ser fatal para outro, e é preciso me desdobrar em muitas para dar conta de tudo. Mas tudo isso é feito com um sorriso no rosto porque, do contrário, eu não estaria fingindo tão bem, ninguém compraria o que minha boca diz, quase sem pensar: está tudo bem, eu respondo quando alguém se mostra preocupado demais com a situação; mas não está. É exaustivo tentar dar conta de tanto, sabendo que, no momento, sequer sou capaz de dar conta de mim mesma, mas não dá simplesmente para deixar que todos os pratos caíam no chão porque as consequências seriam muitas, imensas, desastrosas, e eu não consigo pensar numa forma razoável de lidar com cada uma delas. Existe uma vida acontecendo; existem responsabilidades, problemas, pessoas. Não é como se eu pudesse sair correndo cada vez que um dos meus fantasmas escapassem pela porta e começassem a me assombrar, mas não é, também, como se eu pudesse segurar essa onda por muito mais tempo.

Ontem, em determinado momento da aula, comecei a chorar em silêncio, sozinha no escuro – ainda que não estivesse sozinha de verdade. Na tela, a história de uma mulher cega que ia ao cinema com o namorado ganhava forma e traduzia de forma sensível e muito delicada uma porção de sensações e sentimentos – as mãos que se entrelaçam, os movimentos que se alteram de forma sutil à medida que o filme avança, a revelação de que a protagonista é cega, uma mulher que ouve e sente profundamente aquilo que é projetado na tela, mas não enxerga absolutamente nada, a câmera que não nos permite enxergar com clareza nada além da própria personagem também -, detalhes que pouco a pouco constroem uma narrativa curta e objetiva cujo o grande mote não é o cinema em si, mas todas as sensações que ele provoca; sensações essas que estão muito além da visão ou da compreensão humana. Ironicamente, o filme se chama Anna, e foi dirigido por ninguém mais, ninguém menos, que Alejandro González Iñárritu, um diretor que gosto bem pouco na maior parte do tempo, para não dizer coisa pior, mas que naquele pequeno momento conseguiu dizer muito mais (pra mim, ao menos) do que seus longa-metragens de três horas de duração.

Um momento particularmente tocante é quando, após sair da sala de cinema, visivelmente abalada, Anna pergunta ao namorado se o filme era preto e branco. Não era. Então ela chora, certa de que, ainda que seja capaz de ouvir e sentir, física e emocionalmente, cada uma daquelas histórias, jamais será capaz de viver aquela experiência de forma plena; e é assim que o filme chega ao fim. Tenho pensado muito sobre ele desde então, sobre Anna e também sobre mim, e quase sempre chego à conclusão de que, embora existamos em realidades muito distintas, existe algo terrivelmente familiar em sua narrativa. Eu me sinto um pouco como essa mulher: como se estivesse sentada na poltrona de um grande cinema, enquanto minha vida é projetada na tela; uma experiência que jamais sou capaz de experienciar em sua totalidade. Existe o choro e o carinho, existem as palavras trocadas no escuro, as mãos que se movimentam de forma sutil, expressando tudo aquilo que é grande demais para ser posto num intervalo de palavras; mas ainda é preciso que alguém me diga que as cores estão ali e sussurrar no meu ouvido o que está acontecendo. Existe essa regra – que às vezes é quebrada, às vezes não – clássica, tão velha quanto o mundo é mundo, de que no cinema nada se conta, tudo se mostra. Mas o que fazer quando a visão, esse sentido tão básico e fundamental, é arrancado – literal ou metaforicamente – de nós?

Anna lamenta pela cegueira, que pode ter surgido em seu caminho ou já nascido junto com ela; eu choro pela minha própria, que não nasceu junto comigo, mas apareceu no meio do meu caminho e ali ficou, sem nunca ir embora. Nós não pedimos por isso, nem eu nem ela, e seria muito mais fácil se fosse diferente, mas não é. “Você vai lidar com isso de uma forma boa ou ruim?”, pergunta uma voz no meu ouvido. Não sei, eu penso em resposta, por mais óbvia que a escolha pareça – entre o certo e o errado existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, afinal. O filme não era preto e branco; era em cores vivas, bonitas e cheias de tons de cinza, que se entrelaçavam aos tons luminosos e vibrantes, formando algo único e complexo, assim como a vida. Talvez em algum momento, sejamos capazes de enxergá-las de novo.

(Esse texto não faz o menor sentido, mas bear with me; nada na minha vida faz o menor sentido no momento.)

CINEMA E TV

OS CINCO FILMES DA MINHA VIDA

Bom, acho justo começar dizendo que a essa altura já está claro que a cilada BEDA em abril 2k17 foi um verdadeiro flop, que só não foi pior porque eu tive a decência de pelo menos tentar fazer com que ele acontecesse. Não aconteceu, mas não foi de todo um desperdício de tempo: longe de render todos os textos que eu esperava, pelo menos foi uma bagunça divertida, ao lado de gente A+, o que por si só já faz essa zona valer à pena. Mas a verdade é que o mês só acaba quando termina, de modo que eu ainda tenho alguns poucos dias para brincar e rir na cara do perigo, exatamente o que devia ter feito nas semanas anteriores e não fiz. Não tem textão (não ainda), mas tem blogagem coletiva – uma ideia da Mia, que gentilmente salvou o dia – e tem euzinha falando sobre os meus filmes da vida.

A principal diferença entre filmes da vida e favoritos é que, enquanto os favoritos podem ser, literalmente, qualquer coisa, os filmes da vida têm aquele apelo especial, aquele detalhe que parece conversar diretamente com a gente, de uma maneira profunda e especial que só a ficção é capaz de fazer. Não dá pra explicar, apenas sentir, etc etc. Tenho certeza absoluta que a maior parte dos filmes que vão me dizer coisas profundas e especiais ainda nem foram assistidos, mas tudo bem. Por enquanto, essa é a minha lista (que era pra eu ter postado ontem, mas tudo bem porque não se pode ter tudo mesmo).

1. REALITY BITES


Reality Bites é um filme dirigido pelo Ben Stiller, que ainda era um jovem ambicioso em início de carreira, e que em português ganhou o nome absolutamente ridículo de Caindo na Real (pois é) – que é um título que até faz sentido, mas que soa bem ridículo se você parar pra pensar. Acontece que, contrariando todas as expectativas, a história que ele conta é realmente muito, muito ótima, e reúne numa só narrativa questões que abordam, ao mesmo tempo, carreira, romances, amizade, relações familiares, crises existenciais, doenças mentais e aids. Lelaina, Vickie, Sammy e Troy são jovens de vinte e poucos anos que se veem naquele limbo do fim da faculdade – todos os sonhos tão perto e tão longe – e se apoiam num discurso bastante idealizado sobre a vida adulta; que negam o tempo todo suas origens e tentam se afastar o mais radicalmente possível dos próprios pais até que, numa sucessão óbvia de fatos, são confrontados pela realidade que não é assim tão interessante quanto eles imaginaram. Um dos meus momentos favoritos do filme é quando, frustrada com a própria vida e a dificuldade em conseguir um emprego na área que sempre sonhou em trabalhar – cinema ou televisão, ironicamente, risos -, Lelaina diz que imaginava que seria algo mais aos vinte e três anos, ao que Troy responde que a única coisa que ela deveria ser aos vinte e três é ela mesma; o que não deixa de ser uma verdade. Embora a história termine sendo mais sobre o romance entre Troy e Lelaina no final das contas, eu ainda consigo me enxergar em cada plano, em cada cena – às vezes de um jeito besta e idealizado, mas é pra isso mesmo que serve a ficção.

2. CLUBE DOS CINCO

Lembro exatamente da primeira vez que assisti esse filme: eu tinha acabado de voltar do shopping com minha então melhor amiga, passando mal adoidado, e nós decidimos assistir esse filme pra matar o resto de tempo que a gente ainda tinha – eu, com a cabeça no colo dela, enquanto ela mexia no meu cabelo em silêncio. De lá pra cá, já assisti Clube dos Cinco aproximadamente 192873891273 vezes, e todas elas foram exatamente como a primeira: um festival de reflexões e amor verdadeiro e eterno. Embora ele não converse diretamente com minha faixa etária – os personagens, afinal, estão no ensino médio e já faz bastante tempo que eu saí do ensino médio, risos -, é curioso como os conflitos e questões que eles têm continuam muito próximos e atuais, ao ponto de conversar não só com adolescentes, mas com faixas etárias mais abrangentes. Embora os filmes do John Hughes sejam problemáticos em muitos níveis, amo a forma como ele não trata adolescentes como jovens rebeldes e insatisfeitos sem causa ou motivo algum, mas como os seres humanos complexos que verdadeiramente são, algo que eu gostaria muito de conseguir imprimir na tela também. Me perguntaram algum tempo atrás no curious cat (favor, me sigam) qual filme eu gostaria de ter feito, e não foi preciso pensar muito para dar uma resposta: Clube dos Cinco it is!

3. PIERROT LE FOU

Longe de ser o meu Godard favorito, Pierrot le Fou acabou se transformando na minha referência favorita do cineasta porque ainda é o que conversa comigo de forma mais profunda, e para o qual eu sempre retorno quando preciso. A história é muito simples: frustrado com a vida que leva, Ferdinand decide fugir com Marianne, uma jovem adorável, romântica e cheia de frases de efeito que o leva por uma aventura sangrenta (!) e de final trágico para ambos. Antes disso, no entanto, os dois dividem momentos de alegria e frustração, passeiam por paisagens belíssimas, cantam como se vivessem num adorável musical e são perseguidos pela máfia, tudo ao mesmo tempo. Eles se envolvem com tráfico de armas e conspirações políticas, mas ainda são pessoas que sonham em viver sob as próprias regras e ideais, negando a realidade que lhes aprisiona. Lançado em 1965, o filme é tido como um dos grandes marcos da nouvelle vague, movimento artístico do cinema francês que, na contramão do que vinha acontecendo na época, buscava transgredir as regras do cinema clássico comercial; e que para muitos ~estudiosos~, teve fim na cena icônica em que Ferdinand explode a própria cabeça, ao final de… Pierrot le Fou. Independente de importância histórica ou qualquer coisa assim, no entanto, o filme é realmente maravilhoso e eu sempre recomendo sem nem pensar duas vezes, pra quem quer que seja.

4. GOD HELP THE GIRL

God Help The Girl não é apenas um dos filmes da minha vida: ele é, também, o meu filme com a Yuu, minha baby girl, uma das minhas melhores amigas e uma das pessoas mais importantes da minha vida; o que por si só já é suficiente pra transformá-lo, senão no mais importante dessa lista, ao menos em um dos mais relevantes dela. Mas ele também é o filme sobre uma jovem com transtornos alimentares e mentais, que encontra na música uma saída para superar os próprios traumas, e constrói amizades lindas e sinceras a partir daí. Entre músicas adoráveis, cenários belíssimos e lukinhos inspiradores, o que essa história – que nasceu de uma música composta pelo próprio diretor, que também calhou de ser vocalista do Belle & Sebastian, por sua vez criada para a banda mas que, segundo o próprio Stuart Murdoch, parecia pertencer a um universo a parte; daí a ideia de criar um musical em cima dessas canções – faz é construir uma história linda e repleta de significado. Gosto principalmente de como, mesmo tratando de temas tão pesados, a narrativa consegue manter-se leve, mas nunca deixa de ser profundamente honesta. Não há nada de bonito em ser assombrada por transtornos mentais e o filme não se esquiva dessa realidade; mas isso não quer dizer que as pessoas que lidam com essas questões não podem também ter uma vida bonita, amizades sinceras, e músicas deliciosas que servem de trilha sonora para suas jornadas, enquanto dançam em seus quartos – ou no meio da rua – com os braços pra cima. Esse filme – e suas músicas – tem me segurado nos momentos mais difíceis, tornando-se um importante lembrete de que, embora a ansiedade e a depressão sejam coisas muito reais, elas jamais serão capazes de definir quem eu sou.

5. A BELA E A FERA

Porque lógico, né. Peguem uma menina de três anos, completamente obcecada por livros e princesas, e a apresentem a uma princesa que seja não apenas gentil e adorável, mas igualmente obcecada por livros, ao ponto de ler infinitas vezes suas histórias favoritas. Pronto. É assim que nasce a identificação. Bela foi a primeira personagem com o qual eu me identifiquei, muito antes de saber que diabos significava se identificar com alguém que não fosse minha própria mãe, a professora, uma coleguinha da escola ou um parente mais próximo; mas foi também uma das minhas primeiras referências, aquela com quem eu desejava parecer de qualquer jeito e me inspirava em tempo integral. Aos cinco anos, eu me vesti de Bela e ganhei uma festa com balões dourados, num salão que não era tão grande quanto o do castelo da Fera, mas que emulava um salão de baile em cada pedacinho. Ali, eu era a Bela, única possível, e desde então nunca deixei de ser – no meu próprio tempo e espaço, mas ainda assim.