JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

TEM ALGUÉM AÍ?

Antes do ano começar, disse pra mim mesma que não faria metas nem resoluções mirabolantes, mas prometi que não ficaria com a bunda no sofá esperando as coisas acontecerem. Quem disse isso fui eu mesma, ainda em janeiro, depois de passar quase um mês sem atualizar o blog. Não sei se vocês acreditam no poder das palavras, do pensamento positivo ou nesse tipo de coisa meio hippie que os jovens acreditam hoje em dia, mas desde que o ano começou, muita coisa tem de fato acontecido na vida desta que vos escreve. Como eu sou uma pessoa que acredita – às vezes demais, às vezes de um jeito ridículo -, fico repetindo essas palavras pra mim mesma sempre que posso, um jeito meio bobinho de me lembrar que nada acontece por acaso e que as palavras realmente têm poder.

O negócio é que eu sumi, né? Pela segunda vez, num espaço de tempo nem tão grande assim. O que aconteceu? Fiquei vários dias tentando responder essa pergunta, até perceber que não existia uma resposta certa pra ela, como não existe uma resposta certa pra quase nada nessa vida. Muita coisa tem realmente acontecido, mas não é como se elas me impedissem de vir aqui falar sobre a vida, o universo e tudo mais. Se tem uma coisa que eu aprendi em 2015 (também conhecido como o pior ano da minha vida) é que as coisas nunca acontecem uma de cada vez, pelo menos não na minha vida. Elas acontecem juntas, de uma vez só, se atropelam e não pedem licença, e eu que aprenda a lidar com tudo. Já passei muito tempo chorando porque me sentia incapaz, porque não acreditava que conseguia, que podia chegar lá, mas se tem uma coisa que eu também aprendi nesse tempo é que quanto mais a gente faz, mais a gente descobre que é capaz de fazer.

Então, nesse meio tempo, eu estava fazendo uma porção de coisas, todas ao mesmo tempo, tentando a todo custo não pirar e repetindo pra mim mesma que eu era capaz, que eu ia conseguir, que ia dar tudo certo. Nem sempre deu, é claro, mas isso não significa que tenha dado errado. Às vezes a gente precisa que as coisas não saiam como o planejado pra ter uma mudança de perspectiva e aí sim, fazer dar certo. Ou então desistir e colocar os esforços em algo que realmente vale à pena. Ou qualquer coisa assim. Abril e maio foram meses estranhos, intensos, que pesaram a mão pro bem e pro mal, e eu nunca sei se deveria estar comemorando, se deveria estar chorando, ou se não devia fazer nenhuma das duas coisas. Passei a última semana inteira de cama, incapaz de fazer coisas básicas tipo lavar o cabelo, chorando o tempo inteiro, me sentindo uma fraude, mas ao mesmo tempo incrivelmente feliz e realizada. Vai entender.

Várias vezes quis vir aqui e contar o que estava acontecendo, mas me incomodava demais voltar aqui só pra chorar algumas pitangas e depois sumir de novo, que é o que invariavelmente aconteceria. Então achei que seria mais honesto admitir, talvez mais pra mim do que pra vocês, que eu nem sempre vou dar conta de tudo mesmo e que é muito melhor eu me esforçar para estar inteira no que quer que eu faça, do que tentar, tentar, tentar dar conta de tudo ao mesmo tempo e acabar com um punhado de coisas feitas de qualquer jeito ou não feitas at all, pra depois ir chorar no meu quarto porque a vida é uma bosta e eu sou uma fraude.

Essa não é uma despedida, muito pelo contrário. Eu volto, sempre volto. Pode ser amanhã, daqui uma semana, ou só daqui um mês, quando minhas aulas acabarem e eu voltar a ser uma pessoa de verdade. Mas eu volto – e aí vamos poder deitar no tapete da sala, abrir uma garrafa de vinho e colocar o papo em dia, ou qualquer coisa assim. Enquanto isso, quando vocês se perguntarem por onde eu ando, saibam que eu estou aqui do outro lado, tentando fazer o melhor que posso sem pirar, arrancando os cabelos eventualmente, mas me sentindo muito feliz e realizada. As coisas finalmente estão acontecendo e eu preciso reconhecer a importância de tudo isso.

gif

Torçam por mim, mais uma vez?

CINEMA E TV, MEMES

UMA PEQUENA PAUSA PARA FALAR SOBRE SÉRIES

É uma verdade universalmente conhecida que os memes são a salvação dos blogueiros em crise. Eles são a melhor alternativa para aqueles dias de pouca inspiração, um respiro de pura irrelevância num dia difícil, a desculpa perfeita para engatar uma conversa bestinha e responder perguntas que normalmente ninguém faz. Gosto de memes porque eles me permitem falar sobre coisas aleatórias sem a menor cerimônia, além de me permitir conhecer as pessoas num nível que muitas vezes não conheço nem quem eu vejo todo santo dia. Tipo, muito legal saber o que você faz da vida, mas eu realmente estou muito mais interessada em conversar sobre seus filmes favoritos, comida e Taylor Swift.

No entanto, me incomoda um bocado estar nessa posição ingrata novamente em tão pouco tempo, especialmente quando eu quero e preciso muito escrever sobre várias coisas, mas por motivos diversos (faculdade, doença, milhões de coisas acontecendo ao mesmo tempo e desgraçando minha cabeça, etc etc) acabo não conseguindo. Eu sei que o mundo está acabando e prometo vir aqui em algum momento pra falar sobre todas essas coisas, mas hoje não. Porque hoje eu quero falar de séries – que é basicamente a única coisa que eu tenho pensando quando não estou pirando por todos os motivos já citados. Felizmente, quem manda nessa porra ainda sou eu. Vamos lá.

1) Qual a sua série favorita de todos os tempos?

supernatural

Supernatural. Porque óbvio, né? As pessoas sempre acham engraçado quando eu digo que minha série favorita fala exatamente sobre coisas sobrenaturais quando eu sou a pessoa mais medrosa do mundo, mas o que elas raramente lembram é que muito além dos monstros e de todos os demônios do mundo, Supernatural é uma série sobre pessoas, sobre família, sobre seres humanos tentando de verdade fazer o melhor que podem – e errando muito no processo, mas ainda assim. Não é por acaso que eu me importo tanto com esses irmãos, com essa família, que perco noites de sono e chore tanto com e principalmente por gente que nem existe. É uma história linda essa que eles estão escrevendo (ainda que problemática em alguns momentos, mas bear with me) e eu me importo demais com ela – ainda bem.

A menção honrosa fica com Friends, que é a minha nova série favorita de todos os tempos, e que tem tudo aquilo que eu mais amo numa história: personagens incríveis e o coração no lugar. É uma série que também fala muito sobre a vida, sobre pessoas, sobre amadurecimento, sobre a história que estamos escrevendo e tudo de maravilhoso que existe aí, e é bonito observar como os personagens crescem e amadurecem ao longo dos anos, sem nunca deixarem de ser eles mesmos.

2) Qual é o seu personagem favorito de todos os tempos?

dean

Dean Winchester. Além de ser a minha crush mais pesada da vida, Dean é um personagem completo & complexo, que existe com uma força tão absurda que difícil mesmo é admitir que ele não é real. Gosto de como ele nunca é uma coisa só – nem só o caçador, nem só o irmão mais velho, nem só o cara que curte rock clássico e faz piadas ruins – e como, independente do papel que assume, ele consegue ser uma pessoa tão completa em si mesmo, que erra, se contradiz e tem várias questões mal resolvidas, que também é vulnerável e erra mais do que acerta. Além disso, me encanta saber que, apesar da história horrorosa e todos os problemas do mundo, ele continua sendo um cara extremamente sensível, que se importa verdadeiramente com as pessoas ao seu redor e que está sempre pronto para ajudar – seja um amigo ou uma pessoa aleatória que cruzou seu caminho. Não dá pra não amar esse cara.

3) Cite uma série em que você viciou.

the paradise

The Paradise, uma indicação da menina Paloma que basicamente acabou com a minha vida nas últimas semanas. É uma série bem curtinha (são só duas temporadas, com oito episódios cada), que foi inspirada num livro do Émile Zola e conta a história de Denise Lovett – uma mocinha do interior que vai morar na cidade grande com o tio e começa a trabalhar numa espécie de loja de departamento enorme e linda que se chama, vejam só que coisa, “The Paradise”. A história tem tudo aquilo que eu mais amo: trama de época, personagens adoráveis, figurinos maravilhosos, mocinhas fortes e donas da própria história, e romancinhos que fazem o coração doer de tão bons. É uma série que cumpre exatamente aquilo que promete e deixa o coração mais quentinho a cada episódio. Eu realmente estou obcecada e recomendo demais para todos que também amam nutrir obsessões irrelevantes e querem viver este amor de mãos dadas comigo (tem tudo no Netflix <3).

4) Cite uma série que todo mundo gostou (ou gosta) e você não.

ahs

American Horror Story. Apesar de ser uma pessoa muito medrosa, que se impressiona com qualquer bobagem e que, por isso mesmo, sempre evita se envolver com qualquer história que possam tirar o sono de alguma forma, eu gosto de histórias de terror, eu gosto de sentir medo (desculpa, sou doente) e nutro uma admiração por esse universo que às vezes beira o ridículo. Foi por isso que resolvi assistir AHS – mesmo morrendo de medo, mesmo com todas as pessoas do mundo me dizendo que eu não ia conseguir dormir à noite e que aquela era, sem dúvida, uma péssima ideia. Então sim, foi uma decepção bem grande quando comecei a assistir e não só não senti medo algum, como achei tudo meio estranho e sem sentido (não de um jeito bom). Tipo, é uma história de terror, sobre uma casa mal-assombrada, eu não deveria estar mijando nas calças? Continuo achando a ideia toda muito legal, mas fiquei bem chateada que a execução não tenha superado minhas expectativas. Vale pelo menino Tate (COMO NÃO SE APAIXONAR PELO TATE) e as roupinhas de adolescente trevosa da Taissa Farmiga.

5) Cite um personagem com o qual você tem muito em comum.

magic beans

São questões. O que sinto é que, por mais que eu me identifique profundamente com vários personagens, nunca é o todo que me representa, mas sim uma parte – às vezes grande, às vezes mínima – do que está ali na tela. Então não dá pra dizer que tenho muito em comum com um único personagem, mas que tenho algumas coisas em comum com vários deles.

Recentemente, no entanto, recomecei a assistir Friends e tenho me identificado um bocado com a Rachel da primeira temporada: a dificuldade em encarar a vida adulta, a falta constante de dinheiro, essa coisa de ver todo mundo ao seu redor aparentemente com a vida toda no lugar enquanto do seu lado as coisas só parecem ir muito muito mal, a eterna sensação de ter só recebido feijões enquanto todo mundo está colhendo os frutos dos seus feijões mágicos, esse tipo de coisa. Felizmente as coisas acabam melhorando bastante pra ela, então espero que em algum momento elas melhorem pra mim também, risos.

6) Cite uma série pouco conhecida que você gosta.

master of none

Depende do referencial. Se for uma série pouco conhecida entre as pessoas da internet, eu realmente não conheço nenhuma. Sou bem lerda pra esse tipo de coisa, então sempre que descubro alguma coisa relativamente nova, ela só é nova mesmo pra mim e entre os meus amigos da época do colégio ou da faculdade – que, maravilhosamente, são mais lerdos que eu. Dessas, as mais recentes são Penny Dreadful e Master Of None – sendo que a primeira é a minha queridinha do momento (e é uma pena que certos namorados não levem a recomendação a sério) e a segunda, apesar de muito boa, ainda é uma grande questão na minha vida.

7) Qual sua série favorita dos últimos tempos?

penny dreadful

Penny Dreadful. Conheci a série no ano passado graças à menina Thay – que tem um gosto bem parecido com o meu e em quem eu confio de olhos fechados quando me indica alguma coisa – e foi um caminho sem volta. Incrivelmente (ou não) ela também é uma série sobre pessoas que enfrentam monstros, demônios, bruxas e coisas sobrenaturais de um modo geral, que às vezes me deixa com medo, muito medo (o que dizer das bruxas da segunda temporada e aquela coleção de bonecos do capeta, risos), às vezes me deixa completamente sem rumo, totalmente incapaz de lidar com a quantidade absurda de sentimentos envolvidos (são MUITOS), e os sentimentos, como vocês sabem, continuam sendo os únicos fatos. Não é difícil que, depois de um episódio muito intenso, eu acabe não conseguindo dormir ou então perca o sono at all. É demais pro meu coraçãozinho sofredor, mas eu juro que é maravilhoso também e eu mal posso esperar pela terceira temporada que vem por aí.

8) Cite um protagonista que você não gosta, mas curte a série.

oliver queen

Acho que sou bem sortuda até, porque ainda que eu assista bastante coisa e não morra de amores por quase nenhum protagonista, não chego a odiar nenhum. É mais aquela coisa de condenar certas atitudes e posicionamentos, mas ao mesmo tempo perceber que todo mundo é humano e que errar às vezes é inevitável – e aí é engraçado perceber que quase todos já me tiraram do sério em algum momento: Oliver Queen, Rick Grimes, Matt Murdock, Dean e Sam Winchester, Ross Geller… A lista é enorme, mas faz parte, né?

9) Qual personagem você gostaria de ser?

blair waldorf

Blair Waldorf – and i’m not even sorry. Ainda que tenha várias atitudes questionáveis e viva metendo os pés pelas mãos, eu realmente gosto da Blair e adoraria poder ser ela um pouquinho, nem que fosse por um dia só. Imagina só ser a rainha do Upper East Side, ter Chuck Bass himself aos seus pés, o melhor guarda-roupa de todos os tempos e a Dorota só pra você?

10) Qual série você indica pra todo mundo?

daredevil

Demolidor. Apesar de ser uma série bem pesada, onde desgraçamento de cabeça é a regra e não a exceção, ela é muito bem feita, com personagens muito bem construídos e cenas que te deixam literalmente sem fôlego. Fui completamente fisgada por Matt Murdock, Karen Page, Foggy Nelson e cia, e todos os absurdos que rolam em Hell’s Kitchen (acreditem, são muitos), e a segunda temporada só serviu para reforçar tudo isso. Definitivamente não é uma série pra todo mundo, mas mesmo assim indico sem medo de fazer feio – se tudo der errado, pelo menos podemos apreciar a bunda do Charlie Cox, que é tipo a melhor bunda de todos os tempos. Me agradeçam depois.

LIVROS

STARSHIPS & QUEENS AWARDS 2015: RETROSPECTIVA LITERÁRIA

Parece piada, mas com muito atraso, preguiça e uma dose de desânimo, finalmente chegamos à última parte deste famigerado prêmio. Sempre deixo pra falar dos livros por último porque a) enquanto blogueira literária, sou uma excelente blogueira de aleatoriedades e coisas irrelevantes em geral; b) eu realmente tenho uma dificuldade enorme para escrever sobre as coisas que leio – mais uma consequência da minha péssima memória do que qualquer outra coisa; e c) de todas as etapas deste prêmio, essa é a que mais exige tempo e paciência, e eu, infelizmente, sou uma pessoa bem preguiçosa. Então sim, apesar de ser um processo divertido, eu morro só de pensar em catar livros, ler sinopses, inventar categorias, escolher quotes e linkar livro por livro.

O engraçado é que, mesmo com toda a preguiça e desânimo do mundo, eu estava realmente ansiosa para escrever esse post, primeiro porque 2015 foi um ano bem produtivo para os meus padrões: 31 livros, no total (vocês que conseguem ler 100 livros no ano, favor valorizar o meu esforço); e segundo porque, apesar de ter lido algumas coisas bem ruins, também li muita (eu disse MUITA) coisa boa e queria compartilhar isso com vocês. De início pensei em usar aquele formato criado pela Tary – que foi o que usei ano passado e foi sucesso -, mas a essa altura minha preguiça já ultrapassa qualquer limite e não ando mesmo com muita paciência, de modo que preferi chutar o balde de vez e apostar num modo mais randômico e completamente descompromissado, de acordo com o que acho mais relevante comentar.

books

LIVROS LIDOS EM 2015

O Duque e EuNão Sou Uma DessasComo Eu Era Antes de VocêÓculos, Aparelho e Rock’n Roll –  ObsessãoAnexosUm DiaGaroto Encontra GarotoPreciso Rodar o MundoA Lista de BrettA Culpa É das Estrelas (releitura) – AmericanahMentirososA Trama do CasamentoAs Vantagens de Ser InvisívelA EsperançaChá de SumiçoA Rainha VermelhaBoneco de NeveContando os DiasDália AzulO Retrato de Dorian GrayO Histórico Infame de Frankie Landau-BanksToda Luz Que Não Podemos VerO Diário Secreto de Lizzie BennetO Grande GatbsyEstação OnzeClube da LutaCanção da RainhaSejamos Todos FeministasFiquei Com Um Famoso

NÃO-FICÇÃO

nãoficção

Acho que a maior novidade de 2015 foi que eu finalmente comecei a dar atenção à livros de não-ficção. Pela primeira vez, pessoas que de fato me interessavam começaram a escrever sobre suas vidas e eu queria saber o que elas tinham para me contar. O primeiro dessa leva foi Não Sou Uma Dessas, da Lena Dunham, um livro mediano, mas com bons momentos. Ele foi meu primeiro contato com a Lena, uma mulher que eu conhecia mais de ouvir falar do que pelo seu trabalho, e realmente não recomendo que vocês façam o mesmo caminho. Algumas partes me incomodaram demais, demais, e eu tenho certeza que isso não teria acontecido se eu já estivesse minimamente acostumada com sua voz. No entanto, algumas partes também são maravilhosas e me fizeram pensar muito sobre várias coisas, inclusive sobre a minha vida. Não chega a ser uma identificação, mas ainda assim.

lena

Não há nada mais corajoso para mim do que uma pessoa anunciar que sua história merece ser contada, sobretudo se essa pessoa é uma mulher. Por mais que tenhamos trabalhado muito e por mais longe tenhamos chegado, ainda existem muitas forças que conspiram para dizer às mulheres que nossas preocupações são fúteis, que nossas opiniões não são relevantes, que não dispomos do grau de seriedade necessário para que nossas histórias tenham importância. 

Além dele, também li Preciso Rodar o Mundo, da Michelli Provensi, e aí a experiência foi completamente diferente. A Michelli é modelo e no livro conta um pouco da sua trajetória na profissão, fala sobre o começo da carreira, as vantagens e desvantagens, compartilha os perrengues que passou e um pouco sobre os lugares que conheceu. É um livro adorável, assim como a Michelli, mas que ao mesmo tempo faz questão de nos lembrar que existe muito mais no mundo da moda do que acredita nossa vã filosofia, e que ser modelo nem sempre significa ser famosa, que nem todo mundo vira Gisele. Mesmo assim é um livro delicioso, e a sensação que eu tive durante toda a leitura (que durou uma noite, no máximo) era a de que eu estava jogada no chão da sala, ouvindo uma amiga que eu não via há muito tempo contar sobre suas aventuras ao redor do mundo.

Contando os Dias foi o livro que me quebrou inteira e deixou meu coração em mil pedacinhos. Ele foi o projeto de conclusão de curso da Analu (!) e traz o relato de mulheres presas em regime semiaberto que tiveram seus filhos no ambiente prisional. Só daí já dá pra ter uma noção do tanto que ele desgraçou minha cabeça. Como a própria Analu diz nas suas primeiras impressões, o que muda entre o que pensamos das pessoas e o que elas realmente são é a distância que nos separa delas. Ler sobre a vida dessas mulheres me fez entender que a gente não sabe de nada mesmo e me lembrou do quanto ter empatia é importante, que somos todos seres humanos, no final das contas.

tumblr_inline_mnjof6ZqZ91qz4rgp

Eu chorei o tempo todo de um jeito que já não chorava há muito tempo, e foi difícil e doeu por cada segundo, mas é pra isso que servem os bons livros.

SÃO QUESTÕES

sãoquestões

São questões, no caso, os livros que ainda não tenho uma opinião muito formada, mas que foram bons o suficiente pra eu considerar uma nova leitura. O primeiro foi A Trama do Casamento, do Jeffrey Eugenides, um livro que eu esperei que me fizesse sentir muitas coisas, mas que não me fez sentir tantas coisas assim. No fundo, acho que foi mais uma questão de ler no momento errado – era fim de semestre, eu estava louca, arrancando os cabelos, tentando (e falhando miseravelmente) conciliar faculdade, estágio e uma vida aí no meio – do que qualquer outra coisa, mas ele também tem seus momentos e o final foi de longe um dos meus favoritos de 2015.

 Mentirosos, da E. Lockhart, é uma grande questão. Porque eu gostei, mas não gostei, sabe assim? Nele acompanhamos Cady, a principal herdeira de uma família muita rica, que sofreu um acidente e agora tenta descobrir o que de fato aconteceu e por quê as pessoas se recusam a contar a verdade sobre o que aconteceu no dia que ela bateu a cabeça. Falando assim, ele é exatamente o tipo de livro que eu mais gosto, mas a quantidade absurda de diálogos me incomodou bastante, assim como o grande mistério que envolve a história que, no final das contas, acaba nem sendo tão grande assim. Por outro lado, a leitura em si foi bem ótima – rápida, fluida, interessante – e o final, apesar de não ser surpreendente, me deixou com a certeza de que esse livro daria um filme sensacional.

O CLÁSSICO

dorian

Desde que comecei a assistir Penny Dreadful, tenho tentado dar mais atenção à personagens clássicos que até então não tinha tido muito interesse em conhecer. Foi assim que O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde, veio parar na minha estante (numa edição horrorosa que eu tenho até vergonha de mostrar, mas ainda assim) e depois acabou virando um dos meus livros favoritos da vida, ainda que seja extremamente misógino (!). Pois é. Não chega a ser uma surpresa (o livro é de 1891), mas causa sim um certo incômodo ler barbaridades mil. O tanto que eu quis jogar esse livro pela janela não tá escrito.

No entanto, eu disse que ele acabou se transformando num dos meus livros favoritos da vida, e é verdade. Apesar de ter essa visão nada gentil sobre as mulheres (pra dizer o mínimo), a história em si é maravilhosa e me fez pensar demais sobre a vida. Aliás, acho que o mais interessante é que, apesar de se passar numa realidade completamente diferente, ele fala de coisas que continuam muito atuais e traz questões que nos faz, de um jeito ou de outro, pensar em nós mesmos – o que é ser jovem e influenciável, nossa relação com a passagem do tempo, etc. Ou seja: os personagens até podem ser uns babacas e talvez o autor seja também, mas recomendo a leitura fortemente mesmo assim.

O MAIS IMPORTANTE

Sempre acho complicadíssimo falar de Americanah, da Chimamanda Ngozi Adichie, porque nada que eu diga vai ser capaz de dar pra vocês a real dimensão da preciosidade que é esse livro e, acima de tudo, o quanto ele é necessário.

Foi um livro que me fez chorar muito, o tempo inteiro, não porque ele conta uma história trágica, mas porque me fez aprender muito, demais, e aprender às vezes dói. Com Ifemelu, a personagem principal, aprendi a reconhecer meus privilégios, a abrir minha cabeça e reconhecer os perigos de uma história única, sobre a importância da representatividade, da diversidade. Ela me ensinou não apenas a ver o outro, mas principalmente a enxergar o outro, e sobre como a gente precisa, sim, ter empatia. Foi um livro que me mostrou que a gente não sabe mesmo de nada e fez com que eu me sentisse burra, muito burra, o tempo inteiro, mas, de novo, é pra isso que servem os bons livros.

Na cultura pop americana, as mulheres bonitas de pele escura são invisíveis (…). Nos filmes, as mulheres de pele escura fazem o papel da empregada gorda e maternal, ou da amiga da protagonista, que é forte, desbocada e às vezes assustadora, e que está sempre ali para dar apoio. Elas falam coisas sábias e têm atitude, enquanto a mulher branca encontra um grande amor. Mas elas nunca podem fazer o papel da mulher gostosa, linda e desejada por todos. 

OS FAVORITOS DE 2015  

osmelhores

No ano mais difícil e maluco e doído e estranho e pesado e intenso da minha vida, é natural que minhas leituras favoritas tenham sido meio assim também: não difíceis ou estranhas, mas intensas, pesadas, doídas e às vezes um pouco malucas também. São livros que, sobretudo, falam sobre a vida – difícil, estranha, doída – de perspectivas muito distintas, é verdade, mas que ainda assim conversaram demais comigo.

O primeiro deles foi Toda Luz Que Não Podemos Ver, do Anthony Doerr, um catatau com mais de 500 páginas sobre a vida de uma jovem francesa cega e um jovem alemão, durante a Segunda Guerra Mundial. Tenho um interesse muito grande por histórias que se passam durante alguma guerra, mas confesso que não esperava gostar desse como acabei gostando – primeiro porque ele é enoooooorme, segundo porque a narrativa é bem lenta, e terceiro porque muita gente eu conheço e que tem um gosto bem parecido com o meu não aguentou e acabou deixando o livro pra lá. Não sei se li no momento certo ou se ele de fato conversou demais comigo (chuto um pouco dos dois), mas foi uma experiência muito preciosa, sabe? É um livro muito delicado, extremamente sensível, triste em alguns momentos, mas bonito na maior parte, que me ensinou lições que não tornaram meu ano mais fácil, mas que me deram mais força pra continuar seguindo em frente.

Às vezes o olho do furacão é o lugar mais seguro para se estar. 

Num extremo oposto, Clube da Luta, do Chuck Palahniuk, veio para desgraçar a minha cabeça já desgraçada, num momento em que a única coisa que eu queria era ler sobre gente escrota caindo na porrada. Era mais um fim de semestre na faculdade, eu tinha perdido o emprego, não tinha mais uma melhor amiga, não suportava mais passar tanto tempo em casa e comecei a descontar minhas frustrações em cima de gente que não tinha nada a ver com o que estava acontecendo. De novo eu estava loucAaAaAaAaAaAa, achando minha vida um bolo inteiro de bostAaAaAaAa. Ver uns macho apanhando era totalmente minha vibe.

fighclub

O livro, no entanto, vai além: apesar de ser uma parte fundamental, a luta não é o mais importante. Por trás de toda a pancadaria, existem discussões bem ótimas sendo feitas (mídia, consumo, a vida, etc etc) e várias questões importantes sendo levantadas enquanto acompanhamos o fluxo de consciência do narrador – e aí foi bem louco perceber que, apesar de estar longe de ser uma história bonitinha-limpinha-a-vida-é-mara, muito do que li ali era exatamente o que eu precisava pra sair do buraco que tinha me enfiado e continuar seguindo em frente com mais calma, sem a necessidade de descontar minhas frustrações em gente que não merecia aguentar as barbaridades que eu andava dizendo. Num livro tenso (e intenso!), sobre gente muito problemática, eu encontrei a calma e a serenidade que me faltavam pra seguir em frente. Vai entender.

Naquela época, a minha vida parecia completa demais, e talvez tenhamos que quebrar tudo para construir algo melhor em nós mesmos.

(I rest my fucking case)

Já o melhor livro de 2015, foi também o melhor livro da minha vida – não por ser impecável ou ter a melhor história do mundo, nem só por ter me feito pensar na minha vida, mas principalmente por tudo que ele me fez sentir. E vocês sabem: os sentimentos são os únicos fatos.

Estação Onze, da Emily St. John Mandel, nos apresenta um mundo distópico dizimado pela Gripe da Geórgia, onde os poucos sobreviventes se esforçam para tentar reconstruir o mundo em que vivem, na medida do possível. Conhecemos, então, seis personagens – Kirsten, Jeevan, Miranda, Clark, o “Profeta”, e Arthur Leander, que é quem une a história de todas essas pessoas. São personagens completos e extremamente complexos, que nos mostram diferentes perspectivas não só sobre o fim do mundo, mas principalmente sobre a vida, independente do cenário. Acho incrível como num livro relativamente curto (ele tem pouco mais de 300 páginas), a Emily consegue construir algo tão forte, único e precioso, que nos faz pensar sobre sobrevivência, família, relacionamentos, memórias, solidão, arte, fama, a efemeridade da vida e a beleza do mundo em que vivemos. Foi a melhor experiência do meu ano e eu realmente espero que vocês me levem a sério dessa vez e leiam Estação Onze.

Ultimamente, ando pensando na imortalidade. No que significa ser lembrado e pelo que desejo ser lembrado, e outras questões relativas à fama e à memória. Adoro filmes antigos. Vejo na tela os rostos de pessoas que morreram muito tempo atrás e penso que elas nunca vão morrer de fato. Sei que isso é um clichê, mas, no caso, é mesmo verdade. Não só os famosos, que todo mundo conhece, os Clark Gable, as Ava Gardner, mas também os atores secundários, a empregada que traz uma bandeja, o mordomo, os caubóis no bar, a terceira garota, da esquerda para a direta, na boate. Todos eles são imortais pra mim. Primeiro, só desejamos ser vistos, porém quando somos vistos, isso já não é mais suficiente. Depois, queremos ser lembrados.

tumblr_nqf1fhGlHo1u9b9ceo1_500

Uma vez a Analu me perguntou se eu tinha um livro da vida, e eu disse que não. Hoje, se ela perguntasse de novo, eu responderia com toda a certeza do mundo: Estação Onze é o livro da minha vida.

Gostaria de agradecer a todos que acreditaram em mim e aguardaram calmamente por esse desfecho. Foram quase quatro meses, mas conseguimos e agora me sinto mais aliviada. Então podemos, oficialmente, voltar com a programação normal deste blog. De novo, agradeço pela paciência, mas prometo não enrolar tanto quando o ano acabar.

DRAMAS REAIS, QUERIDO DIÁRIO

23 COISAS QUE APRENDI EM 23 ANOS

Inspirado nesse post aqui

Na última sexta eu completei 23 anos.

Eu sempre tive uma relação muito boa com meus aniversários, mas desde o ano passado a data tem trazido à tona várias angústias existenciais e crises de ansiedade que sempre me deixam com a sensação de que minha vida tem dado muito errado, e esse ano não foi diferente – a diferença é que dessa vez eu podia ser amarga e passar o dia inteiro dançando e chorando sozinha no meu quarto, que era mais ou menos a única coisa que eu achei que tinha vontade de fazer (it’s my party and i’ll cry if i want to, etc)

No entanto, contrariando todas as expectativas, eu tive um dia bem legal, legal de verdade, e depois de um fim de semana inteiro de comemorações, acho que já consigo olhar para a minha vida com um pouquinho mais de gentileza e reconhecer que, embora eu não tenha tudo exatamente como imaginei que teria a essa altura do campeonato (pareço uma velha falando, mas só sou pisciana mesmo), minha pequena jornada até aqui tem sido maravilhosa, intensa, especial, e mesmo as coisas ruins que aconteceram no caminho me ensinaram um bocado e é importante valorizar isso também.

good vibes

Prometi que em 2016 reclamaria menos e agradeceria mais, e esse post foi a forma que encontrei de fazer isso, celebrando todos os tropeços e joelhos ralados com vários gifs de Friends para completar. Valorizem o esforço.

1. Ninguém faz a menor ideia do que está fazendo – ou, pelo menos, a maioria não faz. Ter as rédeas da própria vida é um troço complicado porque viver, pra começo de conversa, é um troço complicado pra cacete, e não existe uma fórmula do que é certo ou errado. Ser adulto, aliás, não significa ter todas as respostas. É como escreveu o Neil Gaiman: “Os adultos também não se parecem com adultos por dentro. Por fora, são grandes e desatenciosos e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, eles se parecem com o que sempre foram. Com o que eram quando tinham sua idade. A verdade é que não existem adultos. Nenhum, no mundo inteirinho”. Então não fui só eu que não recebi um manual, então eu não sou a única chorando no banheiro porque não faz a menor ideia do que está fazendo – o que nos leva à segunda lição:

welcome to the real world

2. Fake it until you make it. Como não dá pra sair correndo, a melhor forma de lidar com situações desconhecidas é agir com a segurança de quem realmente sabe o que está fazendo, mesmo (e principalmente) quando você não faz a menor ideia. No fundo, estamos todos no mesmo barco e ninguém sabe mesmo o que está fazendo, a grande diferença é que algumas pessoas fingem melhor do que outras.

3. Eu não sou obrigada a nada, ninguém é. Eu não preciso concordar com tudo o tempo inteiro, não preciso fazer coisas que não quero só pra agradar outra pessoa (mas tudo bem se eu quiser agradar de vez em quando), eu não preciso mudar porque alguém me disse que o certo era ser assim e não assado, eu não preciso trocar de roupa só porque um cara achou legal invadir meu espaço e cagar regra. As pessoas que realmente importam me aceitam como eu sou (lembrando que ser quem realmente é não dá o direito de ser escroto com ninguém) e vão me respeitar sempre.

oh i wish i could but i dont want to

4. O mundo não me deve favor algum. Aprendi isso com Lelaina Pierce, em Reality Bites, e não esqueci mais. Eu não sou um floco de neve, eu não sou especial demais, então se eu realmente quiser alguma coisa, aí eu tenho que correr atrás e fazer por merecer. Não adianta ficar em casa choramingando, esperando as coisas caírem do céu. Quem quer vai atrás.

5. Assim como a minha altura e a cor dos meus olhos, ser introvertida é só uma característica, que não me torna melhor nem pior do que ninguém, que pode ser boa em alguns momentos e péssima em outros. A maioria das pessoas têm essa mania de tratar a introversão alheia como um problema quando na verdade ela está longe de ser um. Ninguém pede desculpas por ser alto demais ou por ter olhos castanhos, então eu não tenho por quê pedir desculpas por ser assim.

6. Todo mundo erra de vez em quando, em maior ou menor intensidade. Então tudo bem errar, tudo bem admitir a culpa, tudo bem mudar de opinião ou admitir que eu não consigo fazer alguma coisa. Da mesma forma, aprender a perdoar é importante, entender que nem sempre eu vou ser capaz de fazer isso, mas que é muito melhor quando eu consigo. No fundo, as pessoas só estão tentando muito acertar e fazer o melhor que podem com aquilo que tem, mas todo mundo acaba pisando na bola em algum momento. Também reconhecer quando eu estiver errada, pedir perdão quando for necessário (mas nunca pelo erro dos outros) e aprender a me perdoar quando pisar na bola. Ninguém é perfeito e estamos todos aprendendo.

hug

7. Por mais que nem sempre seja a coisa mais fácil do mundo, rir é quase sempre o melhor remédio. Então melhor do que choramingar porque a vida é uma merda é aprender a rir dessa grande piada cósmica que estamos vivendo até a barriga doer. Rir mais de mim, da vida, com os outros e às vezes dos outros também. Parece bobagem, mas a vida fica incrivelmente mais leve quando a gente não se leva tão a sério.

8. Evitar me comparar – primeiro porque ninguém é igual à ninguém e segundo porque não existe uma fórmula do sucesso, de modo que me comparar ou tentar seguir os passos de outra pessoa só vai servir pra me frustrar. A grama do vizinho sempre parece mais verde, mas a vida não é perfeita nem pra mim nem pra ninguém. Tudo bem me inspirar, mas sempre lembrando que até aí existe um limite, e que no fim do dia eu vou continuar sendo a Ana, e só a Ana, e que a história que estou escrevendo é única. A vida acontece de formas diferentes pra cada pessoa e não é porque fulana se formou antes dos 20 ou porque ciclano tem a mesma idade que eu e já tem uma carreira sólida que eu sou um fracasso. Cada um é cada um.

sometimes things dont work out the way you thought they would

9. Ser gentil sempre, não só com os outros, mas comigo também. Não me cobrar tanto o tempo todo, tentar enxergar meus acertos ao invés de só focar nos erros e me permitir respirar de vez em quando. Reconhecer que ninguém tem culpa dos meus problemas, que descontar minhas frustrações em cima do outro é bem bem errado, e não esquecer que na maioria das vezes eu não sei o que está passando na vida do outro, então se alguém for escroto comigo, o melhor que eu posso fazer é ignorar e seguir em frente, ou ser gentil e quebrar as pernas da pessoa logo de uma vez, ao invés de esquentar a cabeça e depois ir pra casa chorar porque o mundo é uma bosta. Nunca esquecer: gentileza gera gentileza, é melhor ser gentil do que estar certo, etc etc.

10. Eu sou uma pessoa privilegiada. Eu tenho olhos, pernas, braços e um coração batendo com força, tenho uma família que me apoia e que sempre me permitiu fazer minhas próprias escolhas. Eu tive oportunidades na vida que muitas pessoas não têm e também tenho direitos que nem todo mundo tem, e é importante que eu valorize isso. Aliás, sentir uma obrigação moral de aproveitar e fazer o melhor que eu posso com essas oportunidades não é errado, muito pelo contrário: é uma forma muito justa de ser grata. Muita gente gostaria de ter as mesmas chances, oportunidades e direitos que eu, mas o mundo infelizmente não é um lugar bacana com todo mundo. Algumas pessoas simplesmente não têm escolha – e eu não posso esquecer disso jamais. O lance de não saber o que se passa na vida do outro e ser gentil vale aqui também: não julgar, tentar entender antes de falar alguma merda (de preferência não falar merda).

11. Se eu pensar duas vezes antes de dizer alguma coisa, então é melhor não dizer nada. Essa não é uma regra, é claro, mas na maioria das vezes eu não tenho controle sobre como os outros vão interpretar o que eu estou dizendo e muitas vezes uma história besta pode acabar virando uma coisa horrorosa se caírem nos ouvidos errados, então se eu não tenho certeza de algo, é melhor evitar o transtorno e a dor de cabeça. Aprendi isso do jeito mais difícil e levei pra vida desde então.

i didnt know it was a big secret

12. Sonhos são sempre válidos.

13. A maioria das pessoas não valorizam os sentimentos e esquecem que agir com o coração é uma das coisas mais corajosas que existem. Nossos sentimentos são poderosos e são eles que a gente deve respeitar. Por mais que decisões racionais sejam importantes e necessárias em certas situações, agir com o coração é o que me faz deitar a cabeça no travesseiro tranquila todas as noites e dormir em paz comigo mesma.       

14. Eu sou a única dona do meu corpo. Ninguém tem o direito de dizer o que eu devo fazer com ele, ninguém tem o direito de dizer o que eu não devo fazer com ele. Ninguém tem o direito de dar pitaco na minha roupa ou reclamar do tamanho da minha saia. Ninguém tem o direito de me fazer sentir inferior pelo corpo que eu tenho e ninguém, mas NINGUÉM MESMO, tem o direito de fazer qualquer coisa com ele que eu não queira. Meu corpo, minhas regras.

15. Nunca é tarde demais para começar alguma coisa, correr atrás dos meus sonhos e me transformar na pessoa que eu quero ser. O mais importante não é o tempo que eu vou levar até chegar lá, mas viver uma vida da qual eu me orgulhe no final das contas. Ter forças pra começar de novo e nunca ter medo de tentar.

16. As pessoas mudam e isso não é necessariamente ruim, muito pelo contrário. O negócio é que mudar dói e é ainda mais difícil quando outras pessoas mudam e saem da sua vida – porque elas não querem mais estar ali, porque não faz mais sentido elas estarem ali. Mas a gente sobrevive, segue em frente, e descobre que às vezes é melhor mesmo queimar algumas pontes e finalmente deixar de cruzá-las e sofrer por elas. Que bom que ainda somos capazes de evoluir, que bom que podemos mudar de opinião e voltar atrás, que bom que podemos nos reinventar em nós mesmos.

17. Tem uns que são uns bostas, mas essa não é a regra e sim a exceção. Eu não posso perder a fé na vida e principalmente nas pessoas só porque alguém me magoou ou traiu minha confiança. Existem pessoas ruins no mundo, existem pessoas que só querem me colocar pra baixo, que querem ver o meu mal, e essas pessoas vão continuar existindo independente do que eu faça, mas eu não posso me fechar pro mundo e achar que geral não presta, porque o mundo também está cheio de pessoas maravilhosas, que só querem o meu bem, que estão prontas para me dar todo o amor do mundo. Ou seja, se alguém me magoar, a reação correta é pensar que algumas pessoas são verdadeiramente horríveis, mas não todas. A vida já me mostrou que quando a gente confia, acaba descobrindo que a maior parte das pessoas que passam pela nossa vida são incríveis e que só querem mesmo ajudar do jeito que podem. Quem me ensinou isso foi a Amanda Palmer e é uma lição que eu espero nunca esquecer.

bride

18. Pedir ajuda é importante. Eu sempre tive uma dificuldade absurda em pedir e principalmente aceitar ajuda. Sabe aquela mania de não querer incomodar e sempre dizer que não, tá tudo bem, não precisa se preocupar? Então, eu sou mestra. E sempre que eu penso nisso me dói o coração porque já perdi as contas de quantas vezes deixei de pedir ajuda, sendo que eu realmente precisava de ajuda – um colo pra chorar, alguém pra conversar, tanto faz. Não é vergonhoso admitir que eu preciso de ajuda, não é feio precisar de alguém pra se apoiar, eu não sou fraca só porque admiti que não consigo continuar sozinha. É muito melhor admitir isso logo de uma vez do que ficar fingindo que tá tudo bem e no fundo estar me arrastando, tentando provar que não preciso de ninguém. Eu preciso – e que bom que eu tenho gente muito especial disposta a me dar a mão quando as coisas ficam difíceis demais.

19. A existência das pessoas no mundo não é uma garantia e não importa o quanto a gente ache que está preparado pra lidar com a ausência delas, a gente nunca está, não de verdade. Antes que seja tarde demais e eu passe o resto da minha vida arrependida por não ter passado todo o tempo do mundo ao lado das pessoas que eu amo, é melhor que eu de fato passe todo o tempo que eu puder com elas. A vida não é fácil, todos temos milhares de coisas brigando pela nossa atenção o tempo todo, mas só de saber que eu estou fazendo o melhor que eu posso já me dá um alívio enorme. Não perder a chance de dizer “eu te amo” ou de dar um abraço nas pessoas que eu amo, mesmo quando parecer brega demais. Não esquecer que são elas que fazem a vida valer à pena.

cuddle

20. Sobreviver não é o suficiente.

21. Gostar de One Direction, Justin Bieber e Taylor Swift, ler fanfics e me importar de verdade com a vida de gente que eu nem conheço (ou que nem existe, risos eternos) não me transforma numa pessoa bobinha, não me faz ser pior ou menos inteligente do que ninguém. Só faz de mim, vejam só que coisa, uma pessoa que gosta de boybands, que lê fanfics e que tem várias obsessões irrelevantes na vida. Não existe esse negócio de guilty pleasure. Tudo bem amar Godard e saber tudo sobre a nouvelle vague, tudo bem também amar um blockbuster de super-herói. Gostar de uma coisa não anula a outra e é sempre mais divertido amar loucamente várias coisas ao mesmo tempo do que segurar uma pose too cool for school 24/7.

22. Não adianta começar a me exercitar se eu estiver fazendo isso pelos motivos errados. Meu corpo precisa de atenção e cuidados, e pra dar certo é preciso que eu reconheça que isso é muito mais importante do que ter uma bunda empinada e uma barriga chapada. O resto é consequência. Sempre importante lembrar: o início é difícil pra cacete, mas depois que você acostuma, difícil é largar de mão.

23. Ter medo é absolutamente normal, mas eu não posso deixar que ele me limite de alguma forma. Isso de estar preparada não existe – é só uma desculpa de quem tem medo, muito medo, de dar o salto. “If you wait until you’re ready, you’ll be waiting for the rest of your life“. Ou seja: se der medo, o melhor é ir com medo mesmo. Pode até ser que a gente rale o joelho e quebre a cara, mas no final dá tudo certo.

yey

♥   

COM AMOR

QUERIDA ANA,

Como você está? Sei que hoje é o seu – nosso – aniversário, então achei que seria legal escrever pra você te dar os parabéns, e falar sobre a vida – a minha vida, a sua vida – o universo e tudo mais. Eu sei que você deve ter outros planos, mas por favor, sente um minuto, não seja uma adolescente mimada e preste um pouco de atenção.

Não lembro como foi o nosso aniversário de 13 anos (eu não lembro nem do meu aniversário do ano passado, então por favor, me dê uma ajudinha aqui), mas posso adiantar que esse vai ser um ano marcante na sua – nossa – vida, intenso, maluco, no bom e no mau sentido. 2006 foi um ano de muitas mudanças, mudanças que de alguma forma moldaram a pessoa que eu sou hoje e que você será um dia. Sei que falando assim parece assustador, e é mesmo – só não o tempo todo. Mas eu acredito em você, acredito que você pode fazer o melhor com isso, então segure firme e respire fundo, você vai precisar.

A essa altura você se acha muito dona do mundo e principalmente do seu nariz. Eu te diria para ir com calma, que você ainda não é completamente independente e precisa respeitar isso (e as pessoas que te disserem isso), mas acho que muito da sua coragem reside exatamente nessa confiança inabalável em si mesma e coragem é uma coisa que anda faltando por aqui. Eu tenho muito medo de muitas coisas. Crescer é tão difícil quanto todas as pessoas te disseram e é bem menos divertido do que você acredita agora, mas eu estaria mentindo se te dissesse que não gosto do lugar onde estamos. Você vai viver coisas incríveis nesses anos – únicas, especiais, preciosas. No entanto, preciso te pedir: não viva tanto no futuro. Eu sei quais são os seus sonhos agora, sei o quanto eles são importantes pra você e sei também que é essa vontade de fazer as coisas darem certo que te coloca em movimento, que te dá forças pra correr atrás, mas você também está vivendo coisas únicas, especiais, preciosas, e às vezes eu daria qualquer coisa para ser você de novo. Não me leve a mal, não é que nossa vida seja ruim, muito pelo contrário. Ela é muito boa, boa de verdade. Mas um dia você vai sentir falta da vida que leva agora, de todas as possibilidades, da cobrança que ainda não era tão grande, da chance de poder errar sem muitas consequências. Você ainda não sabe disso, mas uma de nossas músicas favoritas fala exatamente sobre essa pressa de viver, de fazer as coisas acontecerem, e como isso nem sempre é bom, então vá com calma. O presente também é importante e viver no futuro, às vezes, faz mais mal do que bem. Não deixe de acreditar em você, muito menos nos nossos sonhos (todos eles são válidos, não importa o que as pessoas digam), mas saiba aproveitar o que você está vivendo agora da melhor forma possível. São essas lembranças que vão te segurar quando, daqui alguns anos, as coisas ficarem difíceis demais.

A urgência de fazer sua vida dar certo continua igual mesmo 10 anos depois, mas algumas coisas são mais difíceis de fazer agora e você vai descobrir que o tempo é bem menos generoso com você do que já foi um dia. Alguns meses atrás, escrevi para a nossa versão de 32 anos e uma coisa que disse para ela foi que a gente não pode se deixar abalar pelos efeitos dele. Temos nosso próprio tempo, diz uma música que amamos demais, e é verdade, então respeite o seu próprio tempo e não pense nunca que é tarde demais. Eu realmente acredito nisso e espero que você também, mas se quiser me poupar um pouquinho o trabalho, eu diria para você começar a correr atrás agora. Como eu disse, você ainda não tem sua independência, mas você tem braços, pernas e um coração batendo com força pra correr atrás de algumas coisas. Comece já a tocar bateria e leve a sério as aulas de violão. Você nunca vai ter tanto tempo quanto tem agora, então faça algo com isso.

Aliás, a música vai ser sempre muito importante nas nossas vidas e é o que vai nos segurar nos momentos mais difíceis. Grite suas letras favoritas, dance sozinha no quarto, encha suas paredes com posteres e chore quando for necessário. Nenhuma das suas bandas vai dar certo (desculpa, preciso ser sincera aqui), mas valorize o que a música pode te ensinar. Você não entende a maioria das letras que canta agora, mas um dia elas vão dizer muito sobre o que você sente e sobre quem você é. Ah, e não empreste seu cd do Blink 182. Você nunca mais vai ter ele de volta e, acredite, faz uma falta enorme dirigir (a gente dirige pra cima e pra baixo, olha que loucura!) sem poder ouvir esses caras de vez em quando.

Não acredite que suas amizades são eternas. Infelizmente (ou felizmente, vai saber) as pessoas mudam, você também vai mudar demais, e de repente alguns relacionamentos deixam de fazer sentido na nossa vida. É triste quando isso acontece, mas quase sempre é necessário, então paciência. Eu poderia te dizer para escolher melhor as suas pessoas, mas a gente não tem como prever o futuro, e se aos 23 nós ainda erramos e colocamos nossa fé em gente que dali cinco minutos (ou cinco anos) vai nos dar um pé na bunda, então não tem mesmo muito o que fazer. Aprenda desde já que as pessoas são complexas, difíceis, e que se relacionar com elas é tão difícil e complexo quanto, mas nunca, jamais deixe de acreditar que pessoas boas vão cruzar o seu caminho, porque elas vão. Eu sei que às vezes parece que é o fim do mundo, sempre parece assim, mas até aqui nós superamos tudo muito bem, obrigada. Pode demorar até essas pessoas aparecerem, você vai errar um bocado no processo, mas se tem uma coisa que a vida me ensinou é que cedo ou tarde a gente acaba encontrando nossas pessoas no mundo. Às vezes é quem a gente menos imagina, às vezes não. Você precisa pagar pra ver.

Também não acredite que o fato de não ser eterno anula tudo de bom que você viveu ao lado do outro, porque não anula. Uma amiga me disse uma vez que as pessoas às vezes aparecem na nossa vida com uma missão específica, para ensinar ou nos mostrar uma ou duas coisas, e então vão embora. É triste, mas a vida acontece, e quase sempre você vai perceber que ela te leva por caminhos melhores, que dá pra tirar muito aprendizado desse sofrimento. Então não se culpe por coisas que estão fora do seu controle. Dói quando isso acontece, mas ninguém morre por um coração partido. Pense nisso e siga em frente. Falando assim, até parece que estou falando na nossa vida amorosa, mas saiba desde já que você vai ter muito mais questões com seus amigos do que com seus namorados. Aliás, você vai ter bastante sorte no amor, então não se preocupe, as coisas acontecem quando têm que acontecer. De novo: não tenha pressa. E se valorize sempre, em primeiro lugar. Eu sei que você já faz isso, mas em algum momento as coisas vão ficar um poucos estranhas e você vai aprender que dizer “não” nem sempre é o suficiente. Saiba se defender quando isso acontecer. Não faça nada que você não quiser.

Ainda sobre amizades, uma coisa importante: não dê atenção para as pessoas que não acreditarem que suas amizades de internet são verdadeiras. Eu sei o quanto elas são importantes pra você, muitas delas inclusive são mais importantes do que a amizade de muita gente que está ali imediatamente do seu lado, e acredite que ainda é assim até hoje. Mas não se desespere porque você não poder ter um contato “””real””” com essas pessoas. Eu sei que faz falta, muita falta, e que às vezes parece insuportável continuar tendo relações tão íntimas com gente que mora tão longe, mas lembra que um dia você vai ser independente e ter o seu próprio dinheiro e vai poder fazer o que quiser com ele. Não queria te dar nenhum spoiler, mas aos 22 você vai viajar sozinha pro Rio de Janeiro para conhecer as melhores pessoas do mundo, amigas maravilhosas que você conheceu graças à internet, e vai ser uma das coisas mais bonitas e importantes que você vai viver. Então sossega porque em algum momento as coisas começam a acontecer. De verdade, elas realmente acontecem.

Outra coisa muito importante: aprenda a ser mais gentil com você mesma. É sério, você não é perfeita, ninguém é, então não perca seu tempo tentando alcançar o inalcançável. Você é linda do jeitinho que é e quem te disser o contrário não sabe de nada. Sei que a adolescência não é um período fácil e você vai se sentir deslocada o tempo inteiro – porque não tem a barriga chapada das suas amigas, porque suas coxas são moles demais, porque você é mais alta que todos os meninos – mas acredite quando eu te digo que ninguém tem a vida toda no lugar, ninguém. O calo aperta pra todo mundo, mas ninguém vai assumir isso assim, em voz alta. Eventualmente você vai aprender a lidar com seus defeitos e principalmente a aceitá-los, não como uma coisa ruim, mas como uma parte importante da pessoa que você é. Por hora, tente não cobrar tanto de si mesma, não se compare com as suas amigas, se cerque de pessoas positivas, use o que tiver vontade e aprenda a aceitar elogios. Você pode se achar horrível na maior parte do tempo, mas isso não significa que o mundo inteiro tem que achar a mesma coisa. Aprenda também a aceitar as críticas que você recebe. Não é fácil, nem sempre é legal, mas muita gente está fazendo isso porque realmente quer o melhor pra você. Nem todo mundo quer te colocar pra baixo, nem todo mundo quer o seu mal. E por favor, não beba tanto refrigerante, sério mesmo, esse troço faz mal.

Agora, preciso levar um papo muito sério com você. Porque eu disse no início desta carta que seus – nossos – 13 anos seriam marcantes, intensos, especiais, mas não só no bom sentido, e é verdade. Mas você já sabe do que eu estou falando, não é?

Sua tia nunca vai melhorar. Você vai passar a sua adolescência inteira sonhando com o dia que isso vai acontecer até descobrir que não vai. E aí vai aceitar que tudo bem as coisas serem assim – não sem antes quebrar uns pratos, riscar as paredes, bater portas e gritar pela casa. Como em todos esses anos desde os seus 10 anos, ela vai ter momentos bons e momentos ruins também, bem ruins (algo realmente terrível vai acontecer ali por 2011 ou 2012, segure firme), mas todos sobrevivem no final das contas. A depressão não é uma doença fácil, é muito mais séria do que a gente imagina, então tente ser compreensiva e fazer o melhor que você puder para ajudar. Eu sei que isso é o que todo mundo diz e que você não aguenta mais essa discurso porque um dia eu fui você e eu sei como dói precisar tanto de alguém, de um colo, e não ter pra onde correr. Mas tenha paciência e reconheça uma vez na vida que os adultos estão certos dessa vez. E seja forte. Eu realmente acredito que você consegue – se não acreditasse, talvez eu nem estivesse aqui agora escrevendo pra você (por favor, segure as pontas).

Seja gentil com sua mãe e acredite que ela também está sofrendo com tudo isso. Pense antes de dizer coisas que você vai se arrepender pelo resto da vida. Você pode ser cruel quando quiser e pode magoar as pessoas de verdade com suas palavras, mas desde já aprenda que o gosto da crueldade é terrível, amargo. Imagine o que a sua mãe sente quando você diz que preferia estar morta, que preferia não viver, que odeia a sua vida. As palavras têm força, querida Ana, tome muito cuidado com elas. E pense sempre que você não quer magoar a pessoa mais importante da sua vida. Também seja mais compreensível com o Bruno. Ele não tem culpa do que está acontecendo – é só uma criança, no olho do furacão. Eu sei que ele é insuportável às vezes, que ninguém acredita no quanto ele é mimado, mas elas vão enxergar isso eventualmente, e aí você vai poder dizer que já sabia. Mas não diga isso, você realmente não ganha nada. Daqui alguns anos, quando ele tiver a sua idade, você vai ser a prima cool que busca ele nos lugares, que conversa sobre tudo, de cultura pop até coisas aleatórias sobre a vida, e ele vai ser um dos seus melhores amigos. Eu sei, eu sei, é difícil imaginar que isso vai acontecer algum dia, mas vai. Os arranca-rabos, no entanto, continuam os mesmos, a diferença é que agora ninguém se importa com quem vai sair apanhando (não se preocupe, você é boa de briga, ele continua apanhando mais). E, principalmente, ame sua tia. Eu sei que você sente raiva, muita raiva agora, mas ela não tem culpa de nada do que está acontecendo, ninguém tem. Pegue toda essa raiva e transforme em amor (não revire os olhos), isso é o que ela mais precisa no momento. Lembre-se que ela é uma das pessoas que mais te amam no mundo inteiro, então tenha paciência e a ame de volta.

Lembre-se também de pedir ajuda quando precisar. Não finja que não precisa: você SABE que PRECISA, e tudo bem. Não existe nada de errado nisso, você não vai ser menos corajosa só porque admitiu que precisa se apoiar em alguém, não é vergonhoso, muito pelo contrário. É difícil pra cacete, aliás. Eu, por exemplo, estou te dizendo tudo isso mas ainda tenho uma dificuldade enorme de admitir quando preciso de um ombro pra chorar, quando preciso ter alguém para conversar. É aquela história: ah, não quero incomodar, que é isso, tá tudo certo. Sabe como? É, eu sei que você sabe. Por favor, seja melhor que eu. Suas amigas realmente não vão querer ouvir você falar sobre os seus problemas, não agora. Mas entenda que elas não fazem isso por mal – você também não gosta muito de falar sobre isso, a diferença é que você precisa e elas realmente não podem ter a dimensão do que você vive, não aos 13 anos. É pra isso que serve a ajuda – e por ajuda, entenda qualquer coisa, um terapeuta, uma prima mais velha, um padre, sei lá. Mas peça ajuda. Li, num dos livros da nossa vida (você ainda não sabe qual é, mas vai descobrir quando for a hora) que a melhor maneira de encontrar a luz nas trevas não é afastando as pessoas, mas caindo nos braços dela, e é verdade. Não demore tanto para descobrir isso. Peça ajuda e não tenha medo de ser vulnerável.

Mais uma coisa: escrever ajuda muito. Talvez você não perceba o quanto agora, mas todos os desabafos na parede do seu quarto não foram escritos por acaso. Você é uma pessoa que escreve, e é na escrita que você consegue colocar os pensamentos em ordem. Então continue escrevendo – na parede, num caderno, no computador, tanto faz. Continue escrevendo suas fanfics, comece um blog e não pare de ler nunca. Leia, leia, leia. E acredite no seu trabalho. Ninguém vai te levar a sério no início, mas hoje já descobri que é possível transformar isso em algo de verdade, concreto. E também não pare de desenhar, sério mesmo. Hoje eu só faço boneco palito e é péssimo, não faço a menor ideia de como isso aconteceu.

O que mais, o que mais, o que mais? Ah, sim. Valorize as pessoas que estão do seu lado. Confie na sua mãe. Não perca a chance de passar o máximo de tempo com seu avô. Acredite em você e no seu potencial. Diga mais “sim” do que “não”. E principalmente, seja feliz.

A vida não vai ser sempre gentil com você, algumas coisas dão errado no meio do caminho, mas acredite que fica tudo bem no final. Eu poderia te pedir desculpas por todos os sonhos – seus, nossos – que não realizei, por ter jogado muitas das suas expectativas no buraco, mas por mais que eu sinta muito de vez em quando, não me sinto realmente culpada por ter feito as escolhas que fiz e por ter chegado no lugar onde cheguei. Aos 23 anos eu ainda moro com a minha mãe, não tenho um emprego, não estou formada e nunca viajei para o exterior. Mas a vida é boa assim mesmo, você vai ver, e acho que, no final das contas, você também vai aprender a se orgulhar disso tudo. Hoje, no seu dia, quero te desejar tudo de mais lindo, do fundo do meu coração. Que você tenha um dia incrível, que esteja ao lado das pessoas que você ama e aproveite cada segundo dessa data tão especial. Aqui do outro lado, estou te esperando com um sorriso no rosto, o cabelo enorme, dois cachorrinhos no colo (dois!), alguns quilos a mais e muito, muito feliz. As coisas dão certo, pequena Ana. Aproveite, viva (sobreviver não é o suficiente), brinque, erre, dance, se divirta, ria, e nunca deixe de sonhar. Eu te amo de verdade. Obrigada por tudo que você me ensinou. Espero que a gente ainda possa aprender muitas coisas por aí.

Com amor,
Ana.