CINEMA E TV

ÚLTIMOS FILMES QUE ANDEI ASSISTINDO

Já faz bastante tempo desde que falei sobre os filmes que andei assistindo aqui no blog, tanto tempo que eu sequer consigo me lembrar quando foi, de fato, a última vez que fiz isso. Como disse em outro momento, tenho tido muita preguiça de assistir filmes em casa e embora goste muito da experiência de ir ao cinema, com os preços extorsivos que são cobrados pelos ingressos e um combo mais ou menos decente de refrigerante e pipoca, acabo não assistindo todos os lançamentos que gostaria, o que acaba reduzindo bastante a quantidade de novos títulos que são adicionados ao meu perfil no Filmow. Fora isso, pelo menos na faculdade eu ainda continuo assistindo uma coisa ou outra sempre que possível, o que me impede de parar de vez e continuar tendo um ou outro filme pra falar a respeito – que é justamente o que eu vou fazer agora. Ao contrário de outros posts nesse estilo, no entanto, essa não é exatamente uma lista do que achei mais relevante comentar, mas daquilo que eu lembro que assisti nesse meio tempo. Perdoem a falha, prometo melhorar na próxima.

the-legend-of-tarzan_t68790_2NozyAf_jpg_210x312_crop_upscale_q90A Lenda de Tarzan (David Yates, 2016): A Lenda de Tarzan é mais um desses filmes que se apoiam em histórias bem conhecidas para contar algo totalmente novo que às vezes funciona, às vezes não. Tarzan não funciona. É um filme divertido? Sem dúvida. Mas é totalmente esquecível também, além de ter um roteiro e uma direção bem fracos. Não gostei nem um pouco dessa história de um único cara branco ter que despencar lá dos cafundós de onde judas perdeu as botas pra salvar vários negros que são tão ou mais fodas que ele, como se ele realmente fosse algum tipo de super-herói salvador da pátria. Além disso, o vilão é bem insuportável (de um jeito ruim) e a forma como a história pregressa do Tarzan é inserida é um saco. Salva pelo Alexander Skarsgård e pela Margot Robbie, mas é meio que só isso mesmo.

batman-a-piada-mortal_t127789_png_210x312_crop_upscale_q90Batman: A Piada Mortal (Sam Liu, 2016): Pensem num filme errado, mas assim, muito muito errado mesmo. Agora multipliquem isso ao máximo que conseguirem e talvez vocês consigam ter a dimensão da grande piada (perdão, foi mais forte que eu) de mal gosto que é esse filme. Não dá pra dizer que eu não sabia onde estava me metendo, já que foram vários textos lidos sobre o assunto antes de finalmente sentar e assistir, mas nada podia me preparar para o horror que eu estava prestes a ver acontecer na tela. É um absurdo que em pleno 2016 e com tanta gente falando sobre feminismo e representação feminina, um diretor safado resolva não só adaptar uma história extremamente problemática como essa, mas transformá-la em algo infinitamente pior com a desculpa ridícula de um suposto empoderamento da Batgirl. Sério, cara, seje menas. Ninguém precisa desse desserviço, beijos de luz.

06fdd97537a90d61a7d6042eb1e587de_jpg_210x312_crop_upscale_q90Alemanha, Ano Zero (Roberto Rossellini, 1948): Terceiro filme da trilogia do Rossellini sobre guerra, Alemanha, Ano Zero, mostra um lado que frequentemente esquecemos: o dos alemães pós Segunda Guerra Mundial. O filme acompanha a trajetória de um garoto de uma família muito pobre de Berlim, que precisa trabalhar para sustentar os irmãos e o pai doente, que ele passa a enxergar como peso morto – uma perspectiva que muda sua vida completamente. Ainda que seja um filme relativamente curto (são 71min de duração), é incrível como ele consegue ser tão marcante e transformar um cenário tão desolador, em algo tão bonito esteticamente. Além disso, boa parte dos atores no filme não eram profissionais, o que torna a representação dos personagens ainda mais crua e realista. Por fim, o final é realmente surpreendente, porém muito trágico, o tipo de coisa impossível de esquecer.

a6e075c40b8f80ab723b9aac3b58db79_2_jpg_210x312_crop_upscale_q90O Gabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene, 1920): Se antes de assistir esse filme alguém me dissesse que eu me apaixonaria completamente por um filme mudo de terror, eu teria rido com vontade, porque né. O negócio é que O Gabinete do Dr. Caligari é um filme realmente único e tão, tão bom, que transforma a missão de assisti-lo em algo realmente prazeroso. Não é difícil entender porque Tim Burton se encantou e pescou tantas referências do expressionismo alemão, um dos movimentos mais legais do cinema e ao qual esse filme pertence. Tudo é muito sombrio e melancólico, a realidade é constantemente distorcida e os personagens nunca são pessoas muito convencionais, e o fato do filme mostrar justamente a trajetória de um personagem mentalmente desequilibrado faz com que tudo isso faça ainda mais sentido. Recomendo demais, mesmo para quem não é muito fã do cinema mudo.

meu-amigo-totoro_t7972_16_jpg_210x312_crop_upscale_q90Meu Amigo Totoro (Hayao Miyazaki, 1988): Foi a primeira vez que assisti a um filme dos Estúdios Ghibli (!) e a experiência foi tão incrível quanto vocês podem imaginar. A história de Meu Amigo Totoro é muito simples, mas é justamente essa simplicidade que me encantou tão profundamente e mostra, acima de tudo, que não é necessário fazer coisas absurdas para construir um bom filme. Me apaixonei perdidamente pelas personagens, chorei em alguns momentos e celebrei quando tudo ficou bem de novo, e o tempo todo não conseguia deixar de pensar que ele era mesmo um filme muito, muito lindo, com uma mensagem muito boa por trás e que consegue mostrar com louvor a relação tão bonita e profunda entre duas irmãs. Embora existam algumas teorias sobre a real mensagem do filme, ele não deixa de contar uma história bonita e extremamente delicada, capaz de encantar até os corações mais gelados.

a123ee945fb0c33057b500fa6223f7d0_jpg_210x312_crop_upscale_q90Quatro Amigas e um Jeans Viajante (Ken Kwapis, 2005): Assisti esse filme quando era muito novinha e resolvi fazer isso de novo no mês passado, quando decidi escrever sobre ele para o Valkirias. O texto acabou não saindo, mas assistir ao filme tanto tempo depois me deu uma nova perspectiva sobre ele, muito além da que eu tinha pelas lembranças da Ana de 12 ou 13 anos. Eu não lembrava, por exemplo, que o filme tinha uma carga dramática tão grande, sendo muito mais do que um simples filme sobre quatro amigas que dividem uma calça misteriosa e passam férias separadas pela primeira vez. Quatro Amigas e um Jeans Viajante é um filme sobre amizade, mas uma amizade que parece real, entre pessoas que são muito diferentes e vivem dramas muito diferentes, e seguem juntas mesmo assim. Além disso, gosto muito que nenhum dos problemas das meninas é imediatamente resolvido com um romance – uma alternativa bem preguiçosa, mas que infelizmente é muito usada nesse tipo de filme.

5d69901d79af31595d21eecb4208725f_jpg_210x312_crop_upscale_q90Morangos Silvestres (Ingmar Bergman, 1957): Na teoria eu gosto demais desse filme e reconheço todas as suas qualidades – da fotografia impecável até a discussão tão necessária mas, ao mesmo tempo, tão angustiante, sobre vida, morte, arrependimento, mágoas, solidão, lembranças e o fim que todos teremos um dia. Na teoria. Porque na prática Morangos Silvestres não me fez sentir absolutamente nada. Assisti-lo às oito da manhã talvez não tenha sido a minha escolha mais sábia nessa vida, ainda mais se tratando de uma história tão densa, de modo que acredito que muito da minha opinião final tenha mais a ver com todo o sono do mundo do que pelo qualidade do filme (que é enorme, isso eu preciso dizer). Queria me sentir como a maioria das pessoas que assistem ao filme e imediatamente se sentem destrinchando o próprio passado, as lembranças e álbuns de família, mas infelizmente não consegui chegar lá.

truque-de-mestre-o-segundo-ato_t84150_jpg_210x312_crop_upscale_q90Truque de Mestre: O Segundo Ato (Jon M. Chu, 2016): Fui praticamente arrastada para o cinema, jurando de pé junto que o filme ia ser um porre, meu deeeeeus alguém me tira daqui, só pra sair de lá eufórica, completamente apaixonada pelos personagens e pelas confusões em que eles se metiam e resolviam num passe de mágica (literalmente). O mais legal é que eu nem precisei ter assistido o primeiro para entender o que estava acontecendo e conseguir acompanhar tudo direitinho: a história é realmente muito simples e você não precisa se esforçar nem um pouco para entender, e tentar fazer isso só vai estragar toda a experiência. Ele é um filme bem pipocão mesmo, que não se esforça para contar uma história realmente boa, mas que funciona muito bem como entretenimento e não tem a menor pretensão de ir além. Eu, que amo um filme besta que salte aos olhos para esquecer da minha vidinha ridícula, encontrei no segundo Truque de Mestre um ótimo aliado.

esquadrao-suicida_t107082_8OOR2hq_jpg_210x312_crop_upscale_q90Esquadrão Suicida (David Ayer, 2016): Se vocês estiverem interessados em ler uma crítica mais ou menos séria, escrevi sobre o filme lá no Valkirias. No entanto, preciso ser sincera e dizer que, embora o filme tenha (vários) problemas, enquanto entretenimento ele consegue cumprir muito bem o seu papel e eu me diverti MUITO assistindo. Era o que eu esperava? Definitivamente não. Podia ter sido melhor? Sem dúvida. Mas eu consegui me divertir um bocado, coisa que, depois de ler tantas críticas, eu realmente acreditei ser impossível. Destaque para Margot Robbie, impecável como Arlequina e que só não fica melhor porque o filme ainda insiste em apostar naquele velho clichê do relacionamento abusivo romantizado. Stop romantização de relacionamentos abusivos 2016. Fora isso, Esquadrão Suicida é infinitamente mais divertido que outras produções da DC por aí (BvS, é claro que estou olhando pra você).

QUERIDO DIÁRIO

A TAL MAGIA DO ESPORTE

Título roubado descaradamente desse texto incrível aqui.

Eu nunca gostei de esportes. Eu não tenho time de futebol, sempre odiei as aulas de educação física (se eu preferia ficar de recuperação por não fazer as provas práticas e depois recuperar a nota numa prova escrita? hell yeah!) e até onde eu me lembro, boa parte da minha infância foi marcada pelas tentativas frustradas da minha mãe – uma mulher super ativa, que está sempre pronta para fazer discursos sobre o poder da endorfina e os benefícios dos exercícios físicos – de me fazer gostar de alguma atividade física, qualquer que fosse. Foram anos de natação, alguns de vôlei, outros de ginástica rítmica – essa sim, eu adorava e era incrivelmente boa, mas infelizmente tive que sair depois que minha treinadora se mudou para outro estado e eu não tinha mais quem me treinar -, uma quase-tentativa de tênis, sem contar todas as vezes que me vi obrigada a jogar futebol, basquete ou handball na escola. Por fim, minha mãe acabou aceitando a derrota e entregou minha carta de alforria, me dando a chance de fazer a atividade que eu quisesse – ou não fizesse atividade nenhuma, que foi mais ou menos o que eu acabei fazendo no final das contas, risos eternos.

Como eu não sou idiota e sei que todo mundo em alguma medida precisa praticar algum tipo de atividade física para viver uma vida longa e feliz, corro de vez em quando e tenho tentado fazer pilates ou exercícios localizados em casa sempre que possível – muito menos que eu deveria, infelizmente -, mas essas são atividades muito solitárias e que nunca rendem uma boa história para contar, e eu sempre fico um pouco frustrada por nunca ter me apaixonado por um esporte o suficiente para me dedicar e ter histórias para contar. Não é como se eu tivesse algum talento, mas de qualquer forma fica aquela frustraçãozinha, aquele “e se” que não me deixa fingir que as coisas talvez pudessem ter sido diferentes se eu tivesse persistido um pouco mais.

Lembro que, no ensino médio, enquanto eu ficava batendo papo com minhas amigas na aula de educação física, observava Guilherme jogar futebol, basquete, vôlei ou handball – dependia do que estávamos estudando naquele bimestre -, eu morria de inveja por não ser como ele, que se adaptava incrivelmente bem à qualquer esporte. Ele, que fez anos de natação e inclusive chegou a competir em provas regionais, também era incrivelmente bom em outras modalidades, e eu, no alto de toda a falta de habilidade do mundo, me perguntava se algum dia conseguiria saltar para bloquear uma bola no vôlei ou se daria um salto para marcar um ponto no handball sem me embolar inteira (spoiler: nunca consegui nenhuma das duas coisas). Eu queria ser boa em alguma coisa, eu ficava feliz quando por acaso fazia alguma coisa certa (tipo uma cesta, no basquete, ou tirar a bola de alguém que estava atacando, no futebol), mas eram casos isolados e no final do dia eu continuava sendo a adolescente inadequada que ninguém queria ter no próprio time.

Assim, segui minha vidinha me mantendo alheia ao máximo a qualquer tipo de competição esportiva e odiando tudo quando não conseguia. Eu me transformei no tipo de pessoa que revirava os olhos para um jogo de futebol e que só topava assistir um jogo de basquete ou vôlei na casa de alguém se tivesse comida no meio. A coisa mudava um pouco de figura durante a Copa do Mundo, quando eu realmente me transformava numa torcedora de carteirinha e me divertia um bocado. No entanto, depois de acompanhar o desempenho da Seleção Brasileira em 2006, 2010 e 2014, até mesmo a Copa deixou de ser tão divertida. Eu ainda torcia e me divertia, é claro, mas não era mais a mesma coisa quando eu já não acreditava mais naqueles caras que tentavam defender nosso país com uma bola no pé. Eu não ia começar a xingar muito no twitter e queimar a bandeira do meu país (!), mas a cada ano que passava eu sentia que me importava menos. Eu não tinha nada a ver com aquilo. Eu não ia sofrer por esporte nenhum, quem dirá por futebol. Sem chance.

Com as Olimpíadas no Rio de Janeiro cada vez mais próximas, minha reação foi mais ou menos a mesma. Quer dizer, eu não me importava. Eu sabia de todos os problemas que estavam acontecendo no nosso país, eu sabia como um evento desse porte nesse momento específico era uma ideia equivocada, e não me importava nem um pouco com o esporte em si. Não me importava se o Brasil tinha chances reais de ganhar medalhas, quem viria e quem ficaria de fora, não me importava com absolutamente nada, exceto, talvez, se o evento causaria algum tipo de interferência no meu semestre letivo – coisa que aconteceu na Copa do Mundo e avacalhou com o aproveitamento geral de algumas disciplinas. Eu não me importava com nada – até, claro, começar a me importar demais.

É engraçado como nossa opinião pode mudar tão rápido, mas às vezes acontece e eu fico feliz que tenha acontecido comigo dessa vez. Em questão de dias, eu fui da pessoa desacreditada, para uma torcedora de esportes que eu jamais imaginei me interessar; de uma pessoa que se irritava com a inconveniência do evento, para uma pessoa que saía mais cedo da aula só para acompanhar a final da ginástica artística; de uma pessoa que simplesmente não se importava, para uma pessoa que se importava demais, e que chorou por vitórias e derrotas como se cada uma delas fossem verdadeiramente suas, e que não queria que esse evento terminasse nunca, que chorou quando teve que ir embora. Eu me apaixonei por pessoas e por esportes, me diverti, me envolvi, gritei, xinguei, ri e chorei, e tudo isso por causa de um evento que eu jurei de pé junto que seria um porre. Não é como se eu já não estivesse acostumada a pagar minha língua, mas algumas vezes são mais divertidas que outras, e essa sem dúvida é uma que eu quero me lembrar sempre.

Eu continuo sendo a pessoa que não pratica esportes, continuo sendo a pessoa que não tem time de futebol e que revira os olhos para o Campeonato Brasileiro, mas pela primeira vez eu pude experimentar a tal magia do esporte, e foi incrível enquanto durou. Ontem, enquanto eu me desesperava com o vôlei masculino, Guilherme me perguntou porque eu me importava tanto se, na prática, eu não ganhava nada – e acho que essa é justamente a beleza de tudo isso. Na prática, a gente não ganha mesmo nada por se importar tanto. Medalhas não vão brotar nas nossas parede e nossos nomes não vão entrar para a história, e mesmo assim nós nos importamos. Não é bonito isso? Não é especial? São tempos estranhos esse que vivemos e não é como se todos os problemas do Brasil e do mundo fossem sumir de repente, mas ver tanta gente unida por uma razão comum, se importando com pessoas que elas sequer conhecem, com esportes que elas nem entendem, me dá mais esperanças, um motivo para continuar acreditando na beleza do mundo em que vivemos, acreditando na força que temos juntos, acreditando no esporte, nas pessoas.

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Obrigada, Olimpíadas, por me lembrar, acima de tudo, que a gente precisa continuar acreditando sempre. Foi muito bom enquanto durou.

COM AMOR

4. YOUR SIBLINGS

Inspirado nesse desafio incrível aqui

Queridos A., G. e F.,

Como vocês estão? Espero que esteja tudo bem. Não sei quanto tempo faz que a gente não se fala, mas sei que faz bastante tempo. Tempo suficiente para que vocês tenham crescido e se tornado pessoas que eu muito provavelmente não sei quem são, e para que a maioria das pessoas que estão na minha vida não saibam da existência de vocês. Não é uma pena que as coisas tenham acontecido dessa forma? Embora nosso pai tenha se esforçado para que nos tornássemos próximos e até hoje tente criar algum tipo de laço entre nós, a vida nunca permitiu que eu fizesse meu papel de irmã mais velha e fosse uma figura presente na vida de vocês. Não sei se vocês alguma vez sentiram falta dessa presença (não sei se é possível sentir falta de algo que nunca tivemos) ou se tiveram curiosidade de me conhecer melhor, mas me entristece um bocado que eu não tenha tido a oportunidade de fazer parte da vida de vocês.

Eu sempre quis ter irmãos. Sei que esse é, muito provavelmente, o mantra de quase todo filho único, que pede à exaustão por uma companhia. Quero ter um irmão, quero ter um irmão, quero ter um irmão. Mas eu sempre quis mesmo ter um irmão (ou irmã), alguém com quem eu pudesse dividir uma casa, uma família, uma vida. Por mais que meus primos sempre tenham sido muito próximos e tenham suprido essa necessidade imediata de ter alguém com quem dividir a casa, a família e a vida – brigas e muitas histórias pra contar aí no meio -, sei que não é a mesma coisa, e é por isso que eu sinto tanto por não ter tido a chance de construir uma relação assim com vocês. Mesmo que não tenhamos a mesma mãe, mesmo que nossas realidades sejam tão diferentes, eu queria ter, desde o início, construído uma relação de amor e apoio mútuo, a mesma que hoje tenho com meus primos mais queridos.

Lembro da primeira vez que conheci vocês (menos F., que nessa época ainda não tinha nascido). Eu tinha mais ou menos 10 anos e quase não podia me conter de tanta empolgação quando nosso pai sugeriu que eu passasse um fim de semana na casa de vocês. Lembro também que minha mãe não gostou muito da ideia, não porque ela tivesse algum ressentimento com nosso pai ou tivesse qualquer receio de me deixar passar alguns dias com vocês, mas porque ela nunca se sentiu muito confortável com essa história de não me ter dormindo sob o mesmo teto que ela, talvez porque, desde o início, tenhamos sido só nós duas, e não ter a outra ali sempre tenha sido um troço complicado pras duas. Mas ela deixou e com isso eu ganhei um dos fins de semana mais especiais da minha vida, um fim de semana que, embora eu não lembre totalmente hoje, ainda me traz lembranças fragmentadas que são suficientes para me fazer sorrir. Nós brincando juntos, dormindo na mesma cama, fazendo as refeições e dividindo confidências com uma facilidade que só crianças conseguem ter, algo que, muito provavelmente, a gente nunca mais vai ter de novo.

Não é que agora seja tarde demais para construir algum tipo de relação e recuperar o tempo que não tivemos, mas também não é como se não fosse. É uma contradição proposital essa, que torna toda a situação infinitamente mais complexa, mas não é muito real também? Vocês sabem, talvez muito melhor do que eu, que a essa altura já não é mais tão fácil nos aproximarmos. Somos adultos – pelo menos a maioria de nós – e infelizmente somos seres-humanos muito mais complexos e cheios de nuances do que fomos um dia. Aos 10 anos, eu podia simplesmente sentar e brincar com vocês e tudo ficaria bem, mas hoje, quando vejo vocês pelas fotos, eu já não sei mais quem vocês são. Eu não sei o que vocês gostam, que tipo de música escutam, se já estão trabalhando, se estão estudando, o que fazem no tempo livre. São coisas bobinhas, se a gente parar pra pensar, mas são essas coisas bobinhas, tão pequenas que às vezes parecem dispensáveis, que falam muito sobre quem somos e que, justamente por isso, se tornam tão importantes. Muitos anos se passaram desde que nos vimos pela última vez (exceto você, F., que eu não conheço pessoalmente até hoje) e muita coisa aconteceu nesse meio tempo: A. se tornou mãe de uma menininha linda; G. se tornou um homem e F. é um dos meninos mais inteligentes dos quais eu já ouvi falar. Fico feliz de verdade que vocês tenham seguido com a vida de vocês e que, mesmo com todas as dificuldades, tenham se tornado pessoas tão boas – incríveis até -, mas todas essas coisas vividas longe um do outro são coisas que, de um jeito ou de outro, me separam de vocês cada vez mais e eu realmente não sei se hoje seria possível recuperar o tempo que perdemos, nem se eu estou disposta a isso, muito menos se vocês estão.

Não se sintam pessoas horríveis só porque vocês não têm o menor interesse em saber quem é a irmã mais velha de vocês. Esse é um direito de vocês – assim como também é um direito meu -, que não faz de vocês pessoas melhores ou piores, mas humanos, e eu não vou ficar chateada. Demorou muito até que eu aceitasse isso e foi só quando me vi condenando a personagem de uma série do qual gosto muito por não querer conhecer sua irmã por parte de pai que eu me dei conta de que eu e ela não éramos muito diferentes, e que ela, embora parecesse dura e fria num primeiro momento, estava no seu direito. Isso não quer dizer que eu esteja fechada pra vocês, muito pelo contrário, mas fica um pouco mais fácil quando a gente não sente essa obrigação de ser irmã e se fazer presente só porque divide laços sanguíneos com alguém, e é essa obrigação que eu não quero sentir em relação à vocês – muito menos que vocês sintam em relação à mim. Eu estou aqui e vou estar ainda por bastante tempo (pelo menos, assim espero), mas vocês não precisam me procurar por isso, não precisam se sentir confortáveis na minha (quase inexistente) presença ou qualquer coisa assim. Vocês não têm obrigação nenhuma de me amar ou sentir qualquer coisa por mim, e ninguém, nem o nosso pai, pode obrigar vocês a sentirem qualquer coisa. Sei que ele gostaria que nós tivéssemos uma relação mais próxima, mas a vida nem sempre acontece como planejamos, e ele também sabe disso melhor do que ninguém.

Mas eu estou aqui e vocês podem me procurar sempre que quiserem. Não se sintam intimidados e não acreditem em tudo que nosso pai diz. Ele não é mentiroso, claro que não, mas ele só conhece uma versão de mim mesma e essa é, muito provavelmente, a versão que ele apresenta pra vocês – da mesma forma que eu só conheço uma única versão de vocês, que é a que ele me mostra. No fundo, somos todos humanos, e eu acredito que, independente da escolha que fizermos, pelo menos sempre vamos ter as poucas memórias da nossa infância pra onde voltar. Mas eu estou aqui e, no fundo, eu sei que vocês estão aí também – e isso, por enquanto, vai ser o suficiente. 

Com carinho,
Ana. 

MEMES

MEME: O PODEROSO CHEFÃO

Na semana passada, a Thay e a Tati, essas duas maravilhosas, me indicaram para responder um meme sobre livros chamado O Poderoso Chefão (dã), que consiste em relacionar livros que já lemos à citações icônicas do filme de mesmo nome. Pensei em deixar para responder mais pra frente, de preferência num momento de pouco tempo e zero ideias, mas não consegui sossegar porque afinal de contas essa sou eu e odeio ficar guardando meme pra depois, além de achar terrível deixar as pessoas que me indicaram esperando enquanto juram de pé junto que foram casualmente ignoradas. Eu não ignoro meme, gente, jamais. Assim sendo, decidi responder de uma vez – e seja o que Deus quiser quando eu chegar naquele dia de pouco tempo e inspiração, risos.

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1. “Se um homem honesto como você tivesse inimigos, então eles seriam meus inimigos e temeriam você.”Qual livro te deu mais medo? O Oceano no Fim do Caminho, do Neil Gaiman. Porque aparentemente eu sou idiota desse tanto mesmo. Na realidade, não tenho muitos livros de terror, de modo que medo é um sentimento que não costumo ter enquanto leio qualquer coisa, mas às vezes acontece dele aparecer, especialmente em livros que possuem alguma dose de fantasia. Aconteceu, por exemplo, em alguns momentos de Harry Potter e As Relíquias da Morte, e mais recentemente aconteceu com O Oceano no Fim do Caminho, que é um livro curtinho até, mas desses que você lê uma vez e não esquece nunca mais. Ele conta a história de um homem de meia-idade que, quando criança, conheceu uma menina um pouco mais velha chamada Lottie, com quem viveu aventuras inimagináveis e viu criaturas que qualquer adulto duvidaria, e como todas essas coisas influenciaram sua vida no futuro. É um livro maravilhoso demais e que eu sempre recomendo pra todo mundo. No entanto, ele também foi o livro que me deixou sem conseguir dormir algumas vezes e que me fez ter vários pesadelos com Ursula Monkton, a grande vilã. Não confirmo nem nego que até hoje, ouvir esse nome me causa arrepios, risos.

2. “Nunca odeie seus inimigos, isso atrapalha seu raciocínio” – Qual o livro mais confuso que você já leu? Germinal, do Émile Zola. Eu nem sei se ele é um livro verdadeiramente confuso porque li na adolescência, por causa do vestibular, quando eu tinha um problema ainda mais sério com clássicos do que tenho hoje, de modo que é bem possível que minha opinião tenha sido completamente distorcida. A real é que a única coisa que lembro sobre ele é o final, mas tenho muita vontade de ler novamente e descobrir a história de verdade, sem a pressão de um vestibular nas costas e de preferência sem a influência do meu medo dos grandes clássicos da literatura, hê.

3. “Quem lhe oferecer segurança será o traidor” – Qual livro te decepcionou? As Vantagens de Ser Invisível, do Stephen Chbosky, um livro que tinha tudo para se tornar favorito, mas que não foi capaz de chegar lá. Na época que comecei a leitura, eu estava escrevendo o roteiro de um curta-metragem coming of age e o livro foi uma indicação de uma amiga que achou que a história do Charlie pudesse me ajudar de alguma forma. No entanto, embora eu tenha me sentido bem culpada no final por não ter sentido tudo que eu achava que deveria sentir e, principalmente, por ter julgado tanto o chororô sem fim do Charlie, a história acabou não sendo exatamente o que eu procurava para me ajudar com o roteiro e eu não fui capaz de me identificar com os personagens em momento algum. Marquei algumas citações, afinal o livro é recheado de várias maravilhosas, mas foi só isso mesmo.

4. “Nunca deixe que ninguém de fora da família saiba o que você está pensando” – Qual livro te fez pensar na vida? Estação Onze, da Emily St. John Mandel. Desde que li esse livro pela primeira vez, no final do ano passado, tenho a impressão de que estou sempre falando sobre ele – o que pode ser verdade ou não -, mas é que ele de fato se tornou meu livro favorito da vida inteira e muito disso se deve justamente ao fato de que, muito além de uma história sobre o fim do mundo, o livro também fala sobrevivência, família, relacionamentos, memórias, solidão, arte, fama, a efemeridade da vida e a beleza do mundo em que vivemos, questões muito presentes na vida de qualquer ser-humano, independente do cenário. É um livro realmente incrível, capaz de transformar palavras em sensações muito únicas e foi exatamente por isso que ele se tornou não apenas meu livro favorito do ano passado, mas da minha vida também.

5. “Um advogado com uma pasta na mão pode matar mais que mil homens armados” – Qual livro te surpreendeu? O Clube da Luta, do Chuck Palahniuk, de longe uma das minhas leituras favoritas do ano passado. O fato de não ter assistido ao filme antes talvez tenha sido decisivo para minha opinião final, mas não posso negar que muito também é mérito do autor, que construiu uma história complexa, com personagens ambíguos e uma narrativa que te impede de parar por um minuto sequer. Ao começar a leitura, tudo que eu esperava era uma história sobre gente muito problemática caindo na porrada, que é uma das coisas coisas que o livro de fato promete, mas é incrível como ele consegue ir tão além de sua proposta e entrega muito mais do que a gente espera. Ele não conta uma história limpinha, ele não é um livro exatamente divertido de ler, mas contrariando todas as minhas expectativas, ele foi justamente aquilo que eu precisava ouvir (ler?) para sair do buraco que eu tinha me enfiado no ano passado. Estranho, mas muito real.

6. “Mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda”Quem é seu melhor amigo literário? A Arte de Pedir, da Amanda Palmer. Ao contrário da maior parte dos meus livros, que ficam numa espécie de armário no meu quarto ou numa das estantes da parede (pelo menos quando elas não resolvem cair), A Arte de Pedir sempre fica ao meu lado, na primeira gaveta do móvel que fica meu computador e onde eu passo a maior parte do tempo quando estou em casa. O motivo não é uma surpresa pra ninguém, pelo menos para aqueles que já tiveram contato com essa preciosidade de livro: a história da Amanda, além de super inspiradora, traz lições importantíssimas sobre a vida, sobre amor, sobre conexões e vulnerabilidade, ensinamentos que eu levei verdadeiramente para minha vida. É por isso que sempre deixo ele por perto: para que eu nunca esqueça das lições que aprendi e continue seguindo em frente como uma pessoa minimamente decente, que não desiste no primeiro obstáculo e que acredita no ser-humano.

7. “Se dedica à família?”Qual livro você mais se dedicou a ler? A Tormenta de Espadas, terceiro livro das Crônicas de Gelo e Fogo, do George R. R. Martin. Antes que alguém venha tacar pedras, explico: sou apaixonada pelas Crônicas de Gelo e Fogo, tanto que gasto muito do meu tempo refletindo sobre seus personagens e todas as teorias malucas que não param de surgir por aí. No entanto, ler A Tormenta de Espadas foi um verdadeiro tormento (perdão por ser tão ridícula) e eu precisei me esforçar um bocado para conseguir terminar aquele calhamaço ao mesmo tempo que conciliava uma viagem e, posteriormente, o início das aulas na faculdade. Desde então, tenho evitado ler livros com mais de 600 páginas e nunca mais li nenhum livro do universo de Game of Thrones, mas pretendo retomar em algum momento – só falta mesmo a coragem.

8. “Farei uma oferta irrecusável a ele”Indique 5 blogs para fazer essa tag. Raramente indico pessoas para responderem memes, especialmente quando é um meme onde eu já fui indicada por alguém que poderia estar na minha lista de indicações e que também já indicou outras mil pessoas que poderiam estar na lista, de modo que não sobra ninguém para eu indicar. Dessa vez, no entanto, vou brincar direito e indicar a Manu, do Beyond Cloud Nine; a Michas, do Lunatic Pisces; a Nicas, do Apto 401; a Alê, do Desconexa Sensação; e vou indicar a Yuu, do Dreams & Dramas, que também foi indicada pelo Thay mas que não custa nada reforçar, risos.

CINEMA E TV

07 EPISÓDIOS FAVORITOS DE SUPERNATURAL

Não é novidade pra ninguém que “Supernatural” é minha série favorita. Embora não fale sobre ela com muita frequência por aqui, visto que não tenho maturidade para falar das coisas que amo demais e não sou obrigada a lidar com gente sem coração dizendo que essa série não presta, devia ter acabado na quinta temporada, será que essa merda não acaba nunca?, etc etc (não é fácil ser fã de “Supernatural”, risos), já comentei sobre a série por vezes suficientes para que vocês não tenham nenhuma dúvida sobre meu amor pelos irmãos Winchester e seu negócio de família. Por mais que eu reconheça muitos dos problemas da série, sejam eles técnicos ou não, “Supernatural” foi uma das primeiras séries a me conquistar de verdade, ainda na adolescência, e que continua sendo minha favorita quase dez anos depois.

Pensando nisso e tentando falar um pouco mais sobre minha série do coração (que aparentemente nunca terá fim, risos histéricos), decidi compartilhar com vocês alguns dos meus episódios favoritos – uma ideia que, claro, tirei do blog da Thay, essa pessoa maravilhosa e que, não por acaso, divide o mesmo amor sem limites pela série que eu. Com mais de 200 (!) episódios para escolher, é quase uma missão impossível selecionar apenas sete e já adianto que tive que deixar de fora vários episódios icônicos, mas tentei fazer o melhor que pude, escolhendo episódios que faziam meu coração bater mais forte e que me marcaram de alguma forma, mas que também tinham alguma coisa a mais para oferecer além da bela relação dos irmãos e dos seres sobrenaturais que são regra (também excluí as seasons finales, porque acho praticamente todas sensacionais). Não custa avisar: o texto contém vários spoilers sobre a série (se é que dá pra considerar spoiler quando falamos de um episódio que foi ao ar há mais de dez anos), então se você se importa demais com esse tipo de coisa, vá tomar um café e volte outra hora, risos.

1) “PILOT” (1×01)

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Quase nada é tão clichê quanto escolher o primeiro episódio de uma série como favorito, mas sou da opinião de que clichês não se tornam clichês por acaso, e no caso de “Supernatural” é absolutamente impossível fugir de uma escolha tão óbvia. Mesmo eu, que raramente gosto de primeiros episódios e nunca sou convencida por uma série na largada, tenho um carinho enorme por esse – que é também o que assisti mais vezes até hoje. Gosto muito da história da Mulher de Branco, de todo o clima típico dos filmes de terror da segunda metade dos anos 90 e início dos anos 00 – que me transporta diretamente para todas as tardes que passei explorando locadoras atrás de filmes de terror na infância, num nível tão intenso que eu quase posso sentir o cheiro (!) das capas dos filmes empoeiradas nas prateleiras -, e da trilha sonora cheia de rock clássico mas também lotada de músicas instrumentais que complementam todo o ambiente e o suspense necessário na história, mas gosto, principalmente, de como ele consegue apresentar seus personagens de forma tão adequada, construindo relações tão humanas que, ao contrário do que muita gente acredita, é um dos pontos altos da série.

Nele, conhecemos os dois protagonistas da série, Sam e Dean, irmãos que tiveram a mãe brutalmente assassinada por um demônio ainda na infância e que veem suas vidas mudarem radicalmente após o episódio, quando o pai dos dois decide partir numa caçada ao demônio de olhos amarelos, responsável pelo assassinato de sua esposa. 22 anos se passaram desde o assassinato, Dean e Sam se tornaram homens e seguiram seus caminhos. No entanto, após John sumir sem deixar vestígios, Dean se vê “””obrigado””” a pedir ajuda para seu irmão caçula. A partir daí, começamos a entender as principais diferenças entre os dois, sendo a relação de cada um com o pai talvez a mais gritante delas. É justamente por isso que, embora “Supernatural” seja uma série sobre caras muito gatos caçando criaturas sobrenaturais, sempre gosto de dizer que ela é muito mais uma história sobre família do que qualquer outra coisa, e isso é algo que o próprio episódio piloto faz questão de deixar bem claro. 

2) “SCARECROW” (1×11)

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Também conhecido como “o episódio do espantalho”, Scarecrow foi o episódio da série que mais me deu medo até hoje, que me fez ficar acordada à noite e ter vários pesadelos quando eu finalmente conseguia pegar no sono. Ele começa quando John Winchester, pai dos rapazes, liga para os dois depois de algum tempo sem dar notícias e pede que eles parem de procurá-lo, dando indicações para um possível caso na pequena cidade de Burkitsville, em Indiana, onde um casal de jovens desaparecera nos últimos três anos, sempre na segunda semana de Abril. Contrariado pelas ordens do pai, Sam briga com Dean e decide agir por conta própria, indo para a Califórnia atrás do pai e do demônio que matou sua mãe e namorada, enquanto Dean prefere seguir as instruções do pai e viaja para Burkitsville, onde descobre a existência de um deus pagão nórdico que exige o sacrifício de um casal por ano para continuar mantendo a prosperidade da pequena cidade. É assim que os moradores da cidade, ano após ano, enviam casais para serem mortos pelo Espantalho e depois acobertam cada um dos assassinatos. 

Na tentativa de impedir que os moradores continuem sacrificando pessoas inocentes por causa de maçãs (!), Dean acaba sendo capturado e é oferecido, junto com a filha adotiva de um dos casais da cidade, como sacrifício, já que o prazo está se esgotando e as árvores começam a morrer. No final das contas tudo acaba dando certo, mas até hoje acho incrível como os criadores da série são capazes de construir um caso tão rico e um cenário tão bonito e assustador, explorar uma mitologia tão rica como a de um deus pagão, adicionar mais camadas à relação dos dois irmãos e introduzir uma personagem que seria recorrente na trama, num único episódio. Além disso, uma das minhas quotes favoritas da série está nesse episódio e, embora ela seja dita por uma personagem terrível, que só diz isso para se aproximar de Sam – porque esse era bem o tipo de coisa que ele precisava ouvir, afinal de contas -, não consigo gostar menos dela por isso: “the food migh be bad and the beds might be hard, but at least we’re living our own lives“. Obrigada por essa, Meg!

3) “THE MAGNIFICENT SEVEN” (3×01)

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Após abrirem os portões do inferno e com o relógio correndo para Dean – que fez um acordo com um demônio da encruzilhada para salvar a vida de Sam, e agora tem apenas mais um ano de vida até que hellhounds venham buscá-lo -, o primeiro episódio da terceira temporada marca muito bem o início de uma das melhores temporadas da série, mas também uma das mais tristes, onde os irmãos Winchester precisam lidar com demônios que não são vistos há muito tempo – em alguns casos, desde a Idade Média – e que são muito mais poderosos do que muitas criaturas com os quais eles tiveram que lidar até então, ao mesmo tempo que precisam lidar com outros caçadores que se revoltaram com o vacilo dos rapazes, e a morte de Dean, que se aproxima cada vez mais e gera cenas de partir o coração, inclusive uma, ao final desse episódio. Em The Magnificent Seven, no entanto, também conhecemos os Sete Pecados Capitais, demônios que representam cada um dos pecados e que são capazes de fazer com que seres-humanos cometam atos terríveis sob a influência deles. Um bom exemplo disso é a família que morre, literalmente, de preguiça, ou então a mulher que mata outra por pura inveja, mas o pior mesmo acontece quando um caçador, dominado pela gula, bebe um galão de desentupidor e morre na frente da mulher enquanto vários demônios riem ao redor – uma cena tão terrível quanto vocês devem estar imaginando.

O episódio, no entanto, aproveita o gancho dos sete pecados capitais para fazer uma discussão bastante pertinente sobre a presença deles nas nossas vidas, sobre a hipocrisia do ser-humano e como os pecados são inerentes à nossa existência, sendo a maior diferença apenas o fato de que consumimos doses homeopáticas deles, enquanto demônios elevam isso ao nível máximo – algo que me fez pensar um bocado. Além disso, é nesse episódio que uma das minhas personagens favoritas – e que, posteriormente, se tornou uma das mais odiadas – é inserida: Ruby. Odeio a segunda versão dela, tão insuportável que tenho vontade de vomitar, mas amo demais essa primeira, interpretada maravilhosamente pela Katie Cassidy, e adoro especialmente a forma como ela chega, enfiando o pé na porta, chutando bundas e salvando a vida de Sam no processo. Who the hell are you? I’m the girl who just saved your ass.

4) “MONSTER MOVIE” (4×05)

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De todas as criaturas que já apareceram em “Supernatural”, metamorfos são os que eu menos gosto e episódios com eles são, consequentemente, os que eu menos curto. Acho uma bosta esse povo que pode se transformar em qualquer pessoa e ao invés de usar isso para algo bacana, preferem sair por aí tocando o terror, acabando com a vida de tanta gente e causando um tanto de problema só porque sim. Além disso, sempre fico muito incomodada de pensar que eles podem ser QUALQUER PESSOA, literalmente, de modo que os personagens nunca estão seguros em lugar nenhum, fora que metamorfos sempre acabam incriminando muita gente inocente sem nenhuma dó, coisa que ferve meu sangue só de pensar. No entanto, Movie Monster foge completamente à regra justamente por ter um metamorfo que, embora faça coisas ruins – ele matou uma galerinha, né? – faz isso inspirado em filmes clássicos, assumindo a forma de personagens icônicos da ficção, e que tem uma história verdadeiramente triste por trás de seus atos. No episódio, Sam e Dean vão para uma pequena cidade onde está acontecendo uma edição da Oktoberfest, um festival que celebra as tradições alemãs, e onde mortes misteriosas começaram a acontecer desde então. O problema é que as únicas testemunhas dos crimes acusam criaturas sobrenaturais como vampiros, lobisomens e múmias, e ninguém acredita em nenhuma delas – além, claro, dos irmãos, que já viram de tudo nessa vida mesmo e não teria motivo para duvidar.

No entanto, ao longo do episódio, eles vão descobrindo que cada um dos personagens não são nem um pouco parecidos com os vampiros e lobisomens com os quais eles estão acostumados, sendo criaturas idealizadas, muito parecidas com aquelas que ficaram famosas no cinema. É depois de um encontro com o “””Drácula””” que Dean descobre que se trata de um metamorfo, e a partir daí os dois vão atrás do verdadeiro culpado. O mais interessante no episódio, além da história absurdamente divertida, é que, esteticamente, ele é bem diferente do que estamos acostumados, e utiliza vários elementos que remetem ao cinema clássico. A fotografia em preto e branco, as sombras típicas do expressionismo alemão, os créditos na abertura, as transições, a trilha sonora, o intervalo (!) no meio do episódio e os próprios personagens, fora todas as brincadeiras tão características da série, que em todos esses anos nunca se levou a sério demais (ainda bem!). É absolutamente impossível esquecer os agentes Angus e Young, a teoria de Dean sobre ter voltado a ser virgem depois de passar um tempo no inferno, ou então do Drácula recebendo uma pizza em casa e querendo usar um cupom de desconto (mas só depois de se certificar que não tinha alho nela, pois lógico).

 5) “YELLOW FEVER” (4×06)

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Sendo a pessoa retardada que sou, estranho mesmo seria deixar Yellow Fever de fora da minha lista de episódios favoritos. Nele, Sam e Dean investigam três casos de pessoas absolutamente saudáveis que tiveram um infarto e faleceram, em uma pequena cidade do Colorado. Ao que tudo indica, não existe nada de sobrenatural acontecendo, mas os irmãos logo descobrem que todas as vítimas tinham arranhões nos braços e ficaram apavoradas por algum motivo desconhecido antes de morrer, fora que todas faleceram exatamente 48h após o ocorrido, de modo que eles decidem ficar e investigar. O negócio é que não demora muito tempo para que Dean comece a apresentar os mesmos sintomas das vítimas e temer coisas absolutamente ridículas, tipo um yorkshire ou um gatinho num armário, e se tornar cauteloso com coisas que ele nunca tomou o menor cuidado, tipo dirigir dentro do limite de velocidade e preferir dar uma volta enorme ao invés de pegar a contra-mão, ou achar que seu trabalho como caçador é coisa de gente doida (!) e se recusar a segurar uma arma porque ela pode disparar sozinha a qualquer momento – e é justamente aí que mora toda a graça.

Dean sempre foi um cara extremamente corajoso, que enfrenta coisas que colocariam medo em qualquer pessoa, que nunca se preocupou em se sacrificar pelas pessoas que ama e sempre esteve disposto a colocar sua vida em risco para salvar pessoas que ele nem conhece, e vê-lo ter medos tão aleatórios é no mínimo curioso (além de muito engraçado). No fundo, sempre me bate uma pena real quando vejo a carinha dele de assustado, fora que a história por trás do caso é bem triste na realidade, mas como ver o Dean fazendo o maior escândalo por causa de um gato e não se dobrar de tanto rir? Além disso, esse é o episódio em que Jensen Ackles, ator que interpreta o Dean, faz toda uma performance ao som de Eye of the Tiger, do Survivor, o tipo de coisa que você assiste e não esquece nunca mais, e que sempre me dá a certeza de que ele deve ser uma pessoa tão legal e divertida quanto faz parecer.

6) “SYMPATHY FOR THE DEVIL” (5×01)

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Eu ia começar dizendo que a quinta temporada é minha favorita, de modo que não tinha como fugir do episódio que abre a temporada e é responsável por dar todo o tom do negócio, mas aí eu lembrei que todas as temporadas são minhas favoritas (menos a sétima, porque realmente não dá pra defender uma temporada que achou uma boa ideia investir em leviatãs aleatórios), ou seja, eu não tenho nenhum motivo especial para escolher esse episódio além dele ser muito, muito bom e absolutamente impecável na missão de contextualizar o maior evento da temporada e, muito provavelmente, de toda a série: o Apocalipse. Embora essa seja justamente a temporada em que muita gente jura que a série deveria ter sido finalizada – uma questão que ainda divide bastante as opiniões dos fãs -, não dá para discordar de que ela realmente é uma das melhores e que consegue passar toda a urgência digna do fim do mundo já no primeiro episódio. Ele começa exatamente de onde parou: após quebrar o 66º selo e libertar Lúcifer de sua jaula, os irmãos são salvos misteriosamente e a partir daí começam uma corrida contra o tempo para impedir que o capeta himself concretize seus planos. Ao mesmo tempo, eles vão fazendo novas descobertas sobre o Apocalipse, mas também sobre o papel de cada um nessa história, coisa que determina o rumo da série no final da temporada.

No entanto, o que mais gosto nesse episódio – e que, inclusive, também mais me assusta – é a forma como Lúcifer vai cercando “seu escolhido”, a pessoa que ele precisa tomar o corpo para poder colocar seus planos em prática. Ao contrário dos demônios, que podem possuir qualquer pessoa sem a permissão da mesma, Lúcifer é um anjo, de modo que ela precisa da permissão do seu receptáculo para possuir seu corpo. A série apresenta, então, Nick, interpretado por Mark Pellegrino (melhor Lúcifer EVER), um cara que matou a mulher e o filho durante o sono e passa a ser atormentado por visões da mulher morta, que informa que ele é o escolhido e pede para que ele aceite sua missão; além de ver sangue no berço do filho, objetos em movimento sem nenhuma explicação aparente e ouve barulhos que não vêm de lugar nenhum. São cenas realmente terríveis, mas muito bem feitas e pensadas, e que fazem total sentido no contexto em que a série se encontra nesse ponto. É o começo do fim do mundo, Lúcifer está à solta e ninguém faz a menor ideia do que fazer em seguida, e esse episódio é suficiente para me fazer temer o futuro como se o fim do mundo fosse, de fato, uma realidade.

7) “THE FRENCH MISTAKE” (6×15)

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Por último, mas não menos importante, The French Mistake é um desses episódios que nos lembram uma das coisas mais importantes sobre “Supernatural”: embora seja uma série com uma carga dramática enorme e que faça a gente sofrer um bocado com e por seus personagens, ela também é uma série que nunca se leva a sério demais e que está sempre pronta para quebrar barreiras e fazer graça de si mesma, o que, no meio de tanta coisa ruim que invariavelmente acontece, acaba sendo um respiro muito bem-vindo pra todo mundo. Nesse episódio, por exemplo, Sam e Dean vão parar numa realidade alternativa onde os dois não são mais Sam e Dean, mas sim Jensen e Jared, dois atores que interpretam os irmãos Sam e Dean (!) em um seriado chamado “Supernatural” (!). Não é sensacional?

Tudo isso acontece graças à Balthazar, um anjo pentelho que às vezes é bom, às vezes nem tanto, mas que sempre toma umas decisões bem equivocadas (tipo roubar e quebrar o cajado de Moisés, wtf, cara?). No episódio, no entanto, Balthazar só estava tentando salvar os irmãos Winchester de um ataque surpresa de Rafael, um dos quatro Arcanjos criados por Deus (os outros três são Gabriel, Miguel e Lúcifer), e acaba enviando os dois para essa realidade alternativa por esse motivo. Embora o plano não dê muito certo e os anjos acabem, finalmente, encontrando os dois irmãos – o que consequentemente traz para o set e para a vida das pessoas que trabalham ali alguns episódios bem ruins -, o que torna The Frenck Mistake diferente dos outros episódios e tão, tão marcante é justamente essa proposta de sair do lugar comum e fazer graça com todo mundo enquanto os dois irmãos tentam desvendar o caso da vez. É divertido demais assistir Sam e Dean tentando ser Jensen e Jared – e falhando miseravelmente -, além de todas as piadinhas, referências e surpresas que aparecem no meio do caminho (a cara deles quando encontram Genevieve Cortese, mulher do Jared Padalecki na vida real e que interpretou a Ruby 2.0, é impagável). Como sempre, tudo se resolve no final e os dois irmãos retornam para sua realidade de caçadores, mas é por essas e outras que “Supernatural” continua sendo minha série favorita mesmo depois de tanto tempo.