JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

AQUELE COM OS ALUNOS PELADOS

Entre todas as coisas que me contaram sobre a Universidade de Brasília, a mais curiosa, de longe, era sobre os alunos que corriam pelados pela faculdade.

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Vejam bem, ninguém sabe até que ponto isso é verdade ou mentira. Afinal, estamos falando de uma história que vem sendo contada há anos, geração após geração, sem que ninguém questione a veracidade dos fatos – no fundo, porque ninguém leva esse papo muito a sério. O negócio é que a história foi sendo passada para frente de tal modo que, hoje, ela já se tornou tão popular quanto, sei lá, o trans-minhocão – que muito calouro jura de pé junto que existe até hoje -, ao ponto de fazer muita gente começar a, de fato, acreditar que em algum momento da história da UnB existiram esses tais estudantes que corriam pelados sem nenhum motivo aparente, apenas porque eram livres, muito livres, e nada mais libertador do que correr sem roupa por uma universidade federal, o antro da perdição, como diriam os mais conservadores.

Até hoje, eu não conheci uma pessoa que realmente estivesse envolvida nessas histórias (que viu a cena ou foi o aluno peladão, não importa), mas se vocês perguntarem para qualquer pessoa que more em Brasília, podem ter certeza, ela vai ter pelo menos uma história para contar sobre a galera que curtia pegar um vento onde o vento normalmente não bate nas horas vagas, risos eternos.

Não lembro quando ouvi essa história pela primeira vez, muito menos quem me contou (provavelmente um professor do colégio ou do cursinho, eles sempre têm umas histórias cabeludas pra contar), mas eu me divertia horrores imaginando esse povo correndo pelado por aí só porque sim, enquanto imaginava o dia que eu faria um filme ambientado na universidade e enfiaria uma pessoa correndo pelada pelo Minhocão sem mais nem menos – tudo numa fotografia meio anos 80/90, pra ficar ainda mais legal (desculpa, sou doente), mesmo que, no fundo, eu não acreditasse que isso pudesse acontecer de verdade. Quer dizer, existem leis que proíbem esse tipo de coisa, não existem? Sei que universidades têm essa imagem de lugares livres, onde as pessoas podem pensar e fazer o que quiserem (você até pode pensar o que quiser, fazer são outros quinhentos), mas na prática a coisa não é bem assim, e mesmo que todo mundo seja muito legal e a favor de certas rebeldias, também existem pessoas que odeiam esse tipo de coisa e que não aceitariam uma coisa dessas numa boa. Ou seja, as chances de que isso acontecesse enquanto eu estivesse lá eram menores do que, sei lá, eu meter a mão numa aranha e curtir a experiência.

Até que aconteceu. Do jeito mais improvável possível, mas ainda assim.

Foi mais ou menos assim: eu estava no primeiro semestre de contabilidade (long story short: antes de entrar para o audiovisual, passei por outros três cursos na UnB – gestão de saúde, contabilidade e comunicação organizacional, respectivamente – dos quais cheguei a cursar de verdade somente dois) (a não ser que vocês considerem a primeira e única semana que fui às aulas de gestão de saúde, risos), no meio de uma aula bem monótona sobre produção de textos (meio uma extensão das aulas de redação do colégio) e de repente, não mais que de repente, um monte de gente pelada começou a entrar na sala de aula. Gente pelada com sacos de papel pardo na cabeça, vale dizer. Uma coisa maravilhosa. Ninguém sabia o que fazer. Ninguém sabia o que não fazer. O circo estava formado.

Sabem aquele episódio em Gilmore Girls onde o Logan invade a sala de aula da Rory e faz um teatrinho com os amigos, dispersando todo mundo? Então. Eu me senti como uma daquelas pessoas na sala de aula – a diferença é que, ao invés de um teatrinho, nós tínhamos alunos pelados de verdade, com sacos de papel pardo na cabeça, andando casualmente pelo anfiteatro e depois indo embora como se nada tivesse acontecido. A professora, coitada, até tentou colocar ordem na sala novamente – depois, claro, de passado seu choque inicial -, mas foi um ato completamente desesperado, que terminou com ela jogando a toalha e liberando todo mundo mais cedo porque era absolutamente impossível retomar o controle da situação. Sério, quais as chances de um monte de jovens recém-saídos das fraldas verem um monte de gente aleatória andando pelada no meio da sala de aula, com um saco na cabeça, e seguir com a vida numa boa? Não dá. Maturidade: definitivamente não trabalhamos.

Até hoje não sei o que, afinal de contas, foi aquilo. Reza a lenda que tudo não passou de um protesto feito pelos estudantes em prol de uma causa “x” – uma informação que não confirmo nem nego, porque a verdade é que eu não consegui prestar muita atenção nas cabeças ensacadas ou em qualquer outra coisa que não as ppks aleatórias e os pintos meio murchos. De todo modo, foi uma ótima experiência antropológica, o jeito perfeito de tirar a prova que, afinal de contas, os estudantes pelados existem de verdade – eles só são um pouco diferentes do que as histórias costumam contar.

Pelo menos agora eu vou poder contar para meus filhos e netos que essas pessoas existem de verdade e que eu as vi com meus próprios olhos. Aposto que eles vão adorar, risos eternos.

CINEMA E TV

ÚLTIMOS FILMES QUE ANDEI ASSISTINDO

Já faz bastante tempo desde que falei sobre os filmes que andei assistindo aqui no blog, tanto tempo que eu nem consigo me lembrar quando foi realmente a última vez que fiz isso. Como disse em outro post, tenho tido muita preguiça de assistir filmes em casa e embora goste muito da experiência de ir ao cinema, com os preços extorsivos que são cobrados pelos ingressos e um combo mais ou menos decente de refrigerante e pipoca, acabo não assistindo todos os lançamentos que gostaria, o que acaba reduzindo bastante a quantidade de novos títulos que são adicionados ao meu perfil no Filmow (me adicionem, beijos de luz). Fora isso, pelo menos na faculdade eu ainda continuo assistindo uma coisa ou outra sempre que possível, o que me impede de parar de vez e continuar tendo um ou outro filme pra falar a respeito – que é justamente o que eu vou fazer agora. Ao contrário de outros posts nesse estilo, no entanto, essa não é exatamente uma lista do que achei mais relevante comentar, mas daquilo que eu lembro que assisti nesse meio tempo. Perdoem a falha, prometo melhorar.

the-legend-of-tarzan_t68790_2NozyAf_jpg_210x312_crop_upscale_q90A Lenda de Tarzan (David Yates, 2016): A Lenda de Tarzan é mais um desses filmes que se apoiam em histórias bem conhecidas para contar algo totalmente novo que às vezes funciona, às vezes não. Tarzan não funciona. É um filme divertido? Sem dúvida. Mas é totalmente esquecível também, além de ter um roteiro e uma direção bem fracos. Não gostei nem um pouco dessa história de um único cara branco ter que despencar lá dos cafundós de onde judas perdeu as botas pra salvar vários negros que são tão ou mais fodas que ele, como se ele realmente fosse algum tipo de super-herói salvador da pátria. Além disso, o vilão é bem insuportável (de um jeito ruim) e a forma como a história pregressa do Tarzan é inserida é um saco. Salva pelo Alexander Skarsgård e pela Margot Robbie, mas é meio que só isso mesmo.

batman-a-piada-mortal_t127789_png_210x312_crop_upscale_q90Batman: A Piada Mortal (Sam Liu, 2016): Pensem num filme errado, mas assim, muito muito errado mesmo. Agora multipliquem isso pelo maior número que vocês conseguirem pensar e talvez, só talvez, vocês consigam ter ideia da grande piada (perdão, foi mais forte que eu) de mal gosto que é esse filme. Não dá pra dizer que eu não sabia onde estava me metendo, já que foram vários textos lidos sobre o assunto antes de finalmente sentar e assistir, mas assim, nada podia me preparar para o HORROR que eu vi na tela. É um absurdo que em pleno 2016 e com tanta gente falando sobre feminismo e representação feminina, um diretor safado resolva não só adaptar uma história extremamente problemática como essa, mas transformá-la em algo infinitamente pior com a desculpa ridícula de um suposto empoderamento da Batgirl. Sério, cara, seje menas. Ninguém precisa desse desserviço.

06fdd97537a90d61a7d6042eb1e587de_jpg_210x312_crop_upscale_q90Alemanha, Ano Zero (Roberto Rossellini, 1948): Terceiro filme da trilogia do Rossellini sobre guerra, Alemanha, Ano Zero, mostra um lado que frequentemente esquecemos: o dos alemães pós Segunda Guerra Mundial. O filme acompanha a trajetória de um garoto de uma família muito pobre de Berlim, que precisa trabalhar para sustentar os irmãos e o pai doente, que ele passa a enxergar como peso morto – uma perspectiva que muda sua vida completamente. Ainda que seja um filme relativamente curto (são 71min de duração), é incrível como ele consegue ser tão marcante e transformar um cenário tão desolador, em algo tão bonito esteticamente. Além disso, boa parte dos atores no filme não eram profissionais, o que torna a representação dos personagens ainda mais crua e realista. Por fim, o final é realmente surpreendente, mas muito triste também, o tipo de coisa que é difícil esquecer.

a6e075c40b8f80ab723b9aac3b58db79_2_jpg_210x312_crop_upscale_q90O Gabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene, 1920): Se antes de assistir esse filme alguém me dissesse que eu me apaixonaria completamente por um filme mudo de terror, eu teria rido com vontade, porque né. O negócio é que O Gabinete do Dr. Caligari é um filme realmente único e tão, tão bom, que transforma a missão de assisti-lo em algo realmente prazeroso. Não é difícil entender porque Tim Burton se encantou e pescou tantas referências do expressionismo alemão, um dos movimentos mais legais do cinema e ao qual esse filme pertence. Tudo é muito sombrio e melancólico, a realidade é constantemente distorcida e os personagens nunca são pessoas muito convencionais, e o fato do filme mostrar justamente a trajetória de um personagem mentalmente desequilibrado faz com que tudo isso faça ainda mais sentido. Recomendo muito fortemente.

meu-amigo-totoro_t7972_16_jpg_210x312_crop_upscale_q90Meu Amigo Totoro (Hayao Miyazaki, 1988): Foi a primeira vez que assisti a um filme dos Estúdios Ghibli (!) e a experiência foi tão incrível quanto vocês podem imaginar. A história de Meu Amigo Totoro é muito simples, mas é justamente essa simplicidade que encanta tão profundamente e mostra, acima de tudo, que não é necessário fazer coisas absurdas para construir um filme incrível. Me apaixonei perdidamente pelas personagens, chorei em alguns momentos e celebrei quando tudo ficou bem de novo, e o tempo todo não consegui deixar de pensar que ele era mesmo um filme muito, muito lindo, com uma mensagem muito boa por trás e que consegue mostrar com louvor a relação tão bonita e profunda entre duas irmãs. Embora existam algumas teorias sobre a real mensagem do filme, ele não deixa de contar uma história bonita e extremamente delicada, capaz de aquecer até os corações mais gelados.

a123ee945fb0c33057b500fa6223f7d0_jpg_210x312_crop_upscale_q90Quatro Amigas e um Jeans Viajante (Ken Kwapis, 2005): Assisti esse filme quando era muito novinha e resolvi fazer isso de novo no mês passado, quando decidi escrever sobre ele para o Valkirias. O texto acabou não saindo, mas assistir ao filme tanto tempo depois me deu uma nova perspectiva sobre ele, muito além da que eu tinha pelas lembranças da Ana de 12 ou 13 anos. Eu não lembrava, por exemplo, que o filme tinha uma carga dramática tão grande, sendo muito mais do que um simples filme sobre quatro amigas que dividem uma calça misteriosa e passam férias separadas pela primeira vez. Quatro Amigas e um Jeans Viajante é um filme sobre amizade, mas uma amizade que parece real, entre pessoas que são muito diferentes e vivem dramas muito diferentes, e seguem juntas mesmo assim. Além disso, gosto muito que nenhum dos problemas das meninas é imediatamente resolvido com um romance – uma alternativa bem preguiçosa que infelizmente ainda é muito usada nesse tipo de filme.

5d69901d79af31595d21eecb4208725f_jpg_210x312_crop_upscale_q90Morangos Silvestres (Ingmar Bergman, 1957): Na teoria eu gosto demais desse filme e reconheço todas as suas qualidades – da fotografia impecável até a discussão tão necessária mas, ao mesmo tempo, tão angustiante, sobre vida, morte, arrependimento, mágoas, solidão, lembranças e o fim que todos teremos um dia. Na teoria. Porque na prática Morangos Silvestres não me fez sentir absolutamente nada. Assisti-lo às oito da manhã talvez não tenha sido a minha escolha mais sábia nessa vida, ainda mais se tratando de uma história tão densa, de modo que acredito que muito da minha opinião final tenha mais a ver com todo o sono do mundo do que pelo qualidade do filme (que é enorme, isso eu preciso dizer). Queria me sentir como a maioria das pessoas que assistem ao filme e imediatamente se sentem destrinchando o próprio passado, as lembranças e álbuns de família, mas infelizmente não consegui chegar lá.

truque-de-mestre-o-segundo-ato_t84150_jpg_210x312_crop_upscale_q90Truque de Mestre: O Segundo Ato (Jon M. Chu, 2016): Fui praticamente arrastada para o cinema, jurando de pé junto que o filme ia ser um porre, meu deeeeeus alguém me tira daqui, só pra sair de lá eufórica, completamente apaixonada pelos personagens e pelas confusões em que eles se metiam e resolviam num passe de mágica (literalmente). O mais legal é que eu nem precisei ter assistido o primeiro para entender o que estava acontecendo e conseguir acompanhar tudo direitinho: a história é realmente muito simples e você não precisa se esforçar nem um pouco para entender. Ele é um filme bem pipocão mesmo, que não se esforça para contar uma história realmente boa, mas que funciona muito bem como entretenimento e não tem a menor pretensão de ser mais do que realmente é. Eu, que amo um filme besta que salte aos olhos para esquecer da minha vidinha ridícula, encontrei no segundo Truque de Mestre um ótimo aliado.

esquadrao-suicida_t107082_8OOR2hq_jpg_210x312_crop_upscale_q90Esquadrão Suicida (David Ayer, 2016): Se vocês estiverem interessados em ler uma crítica mais ou menos séria, escrevi sobre o filme lá no Valkirias. No entanto, preciso ser sincera e dizer que, embora o filme tenha (vários) problemas, enquanto entretenimento ele consegue cumprir muito bem o seu papel e eu me diverti MUITO assistindo. Era o que eu esperava? Definitivamente não. Podia ter sido melhor? Sem dúvida. Mas eu consegui me divertir um bocado, coisa que, depois de ler tantas críticas negativas, eu realmente achei que fosse ser impossível. Destaque para Margot Robbie, impecável como Arlequina e que só não fica melhor porque o filme ainda insiste em apostar naquele velho clichê do relacionamento abusivo romantizado. Stop romantização de relacionamentos abusivos 2k16. Fora isso, Esquadrão Suicida é infinitamente mais divertido que outras produções da DC por aí (BvS, é claro que estou olhando pra você).

QUERIDO DIÁRIO

A TAL MAGIA DO ESPORTE

Título roubado descaradamente desse texto incrível aqui.

Eu nunca gostei de esportes. Eu não tenho time de futebol, sempre odiei as aulas de educação física (se eu preferia ficar de recuperação por não fazer as provas práticas e depois recuperar a nota numa prova escrita? hell yeah!) e até onde eu me lembro, boa parte da minha infância foi marcada pelas tentativas frustradas da minha mãe – uma mulher super ativa, que está sempre pronta para fazer discursos sobre o poder da endorfina e os benefícios dos exercícios físicos – de me fazer gostar de alguma atividade física, qualquer que fosse. Foram anos de natação, alguns de vôlei, outros de ginástica rítmica – essa sim, eu adorava e era incrivelmente boa, mas infelizmente tive que sair depois que minha treinadora se mudou para outro estado e eu não tinha mais quem me treinar -, uma quase-tentativa de tênis, sem contar todas as vezes que me vi obrigada a jogar futebol, basquete ou handball na escola. Por fim, minha mãe acabou aceitando a derrota e entregou minha carta de alforria, me dando a chance de fazer a atividade que eu quisesse – ou não fizer atividade nenhuma, que foi mais ou menos o que eu acabei fazendo no final das contas.

Digo mais ou menos porque, como eu não sou idiota e sei que todo mundo precisa praticar algum tipo de atividade física para viver uma vida longa e feliz, corro de vez em quando e tenho tentado fazer pilates ou exercícios localizados em casa mesmo, sempre que possível – que é muito menos do que eu deveria, infelizmente -, mas essas são atividades muito solitárias e que nunca rendem uma boa história para contar, e eu sempre fico um pouco frustrada por nunca ter me apaixonado por um esporte o suficiente para me dedicar e ter histórias para contar. Não é como se eu tivesse algum talento, mas de qualquer forma fica aquela frustraçãozinha, aquele “e se” que não me deixa fingir que as coisas talvez pudessem ter sido diferentes se eu tivesse persistido um pouco mais.

Lembro que, no ensino médio, enquanto eu ficava batendo papo com minhas amigas na aula de educação física, observava Guilherme jogar futebol, basquete, vôlei ou handball – dependia do que estávamos estudando naquele bimestre -, e morria de inveja por não ser como ele, que se adaptava incrivelmente bem à qualquer esporte. Ele, que fez anos de natação e inclusive chegou a competir em provas regionais, também era incrivelmente bom em outras modalidades, e eu, no alto de toda a falta de habilidade do mundo, me perguntava se algum dia conseguiria saltar para bloquear uma bola no vôlei ou se daria um salto para marcar um ponto no handball sem me embolar inteira  e acabar dando com a cara no chão (spoiler: nunca consegui nenhuma das duas coisas). Eu queria ser boa em alguma coisa, eu ficava feliz quando por acaso fazia alguma coisa certa, mas eram casos isolados e no final do dia eu continuava sendo a adolescente inadequada que ninguém queria ter no próprio time.

Assim, segui minha vidinha me mantendo alheia a qualquer tipo de competição esportiva e odiando tudo quando não conseguia. Eu me transformei no tipo de pessoa que revirava os olhos para um jogo de futebol e que só topava assistir um jogo de basquete ou vôlei na casa de alguém se tivesse comida no meio. A coisa mudava um pouco de figura na Copa do Mundo, quando eu realmente me transformava numa torcedora dessas de carteirinha e me divertia um bocado. No entanto, depois de acompanhar o Brasil 2006, 2010 e 2014, até mesmo a Copa deixou de ser tão divertida. Eu ainda torcia e me divertia, é claro, mas não era mais a mesma coisa quando eu já não acreditava mais naqueles caras que tentavam defender nosso país com uma bola no pé. Eu não ia começar a xingar muito no twitter e queimar a bandeira do meu país (!), mas a cada ano que passava eu sentia que me importava menos. Eu não tinha nada a ver com aquilo. Eu não ia sofrer por esporte nenhum, quem dirá por futebol. Sem chance.

Com as Olimpíadas no Rio de Janeiro cada vez mais próximas, minha reação foi mais ou menos a mesma. Quer dizer, eu não me importava. Eu sabia de todos os problemas que estavam acontecendo no nosso país, eu sabia como um evento desse porte nesse momento específico era uma ideia equivocada, e não me importava nem um pouco com o esporte em si. Não me importava se o Brasil tinha chances reais de ganhar medalhas, quem viria e quem ficaria de fora, não me importava com absolutamente nada, exceto, talvez, se o evento causaria algum tipo de interferência no meu semestre letivo – coisa que aconteceu na época da Copa e avacalhou com o aproveitamento geral de algumas disciplinas. Eu não me importava com nada – até, claro, começar a me importar demais.

É engraçado como nossa opinião pode mudar tão rápido, mas às vezes acontece e eu fico feliz que tenha acontecido comigo dessa vez. Em questão de dias, eu fui da pessoa desacreditada, para uma torcedora de esportes que eu jamais imaginei me interessar; de uma pessoa que se irritava com a inconveniência do evento, para uma pessoa que saía mais cedo da aula só para acompanhar a final da ginástica artística; de uma pessoa que simplesmente não se importava, para uma pessoa que se importava demais, e que chorou por vitórias e derrotas como se cada uma delas fossem verdadeiramente suas, e que não queria que esse evento terminasse nunca, nunquinha, que chorou quando teve que ir embora. Eu me apaixonei por pessoas e por esportes, me diverti, me envolvi, gritei, xinguei, ri e chorei, e tudo isso por causa de um evento que eu jurei de pé junto que seria um porre. Não é como se eu já não estivesse acostumada a pagar minha língua, mas algumas vezes são mais divertidas que outras, e essa sem dúvida é uma que eu quero me lembrar sempre.

Eu continuo sendo a pessoa que não pratica esportes, continuo sendo a pessoa que não tem time de futebol e que revira os olhos para o Campeonato Brasileiro, mas pela primeira vez eu pude experimentar a tal magia do esporte, e foi incrível enquanto durou. Ontem, enquanto eu me desesperava com o vôlei masculino, Guilherme me perguntou porque eu me importava tanto se, na prática, eu não ganhava nada – e acho que essa é justamente a beleza de tudo isso. Na prática, a gente não ganha mesmo nada por se importar tanto. Medalhas não vão brotar nas nossas parede e nossos nomes não vão entrar para a história, e mesmo assim nós nos importamos. Não é bonito isso? Não é especial? São tempos estranhos esse que vivemos e não é como se todos os problemas do Brasil e do mundo fossem sumir de repente, mas ver tanta gente unida por uma razão comum, se importando com pessoas que elas sequer conhecem, com esportes que elas nem entendem, me dá mais esperanças, um motivo para continuar acreditando na beleza do mundo em que vivemos, acreditando na força que temos juntos, acreditando no esporte, nas pessoas.

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Obrigada, Olimpíadas, por me lembrar, acima de tudo, que a gente precisa continuar acreditando sempre. Foi muito bom enquanto durou.

COM AMOR

4. YOUR SIBLINGS

Inspirado nesse desafio incrível aqui

Queridos A., G. e F.,

Como vocês estão? Espero que esteja tudo bem. Não sei quanto tempo faz que a gente não se fala, mas sei que faz bastante tempo. Tempo suficiente para que vocês tenham crescido e se tornado pessoas que eu muito provavelmente não sei quem são, e para que a maioria das pessoas que estão na minha vida não saibam da existência de vocês. Não é uma pena que as coisas tenham acontecido dessa forma? Embora nosso pai tenha se esforçado para que nos tornássemos próximos e até hoje tente criar algum tipo de laço entre nós, a vida nunca permitiu que eu fizesse meu papel de irmã mais velha e fosse uma figura presente na vida de vocês. Não sei se vocês alguma vez sentiram falta dessa presença (não sei se é possível sentir falta de algo que nunca tivemos) ou se tiveram curiosidade de me conhecer melhor, mas me entristece um bocado que eu não tenha tido a oportunidade de fazer parte da vida de vocês.

Eu sempre quis ter irmãos. Sei que esse é, muito provavelmente, o mantra de quase todo filho único, que pede à exaustão por uma companhia. Quero ter um irmão, quero ter um irmão, quero ter um irmão. Mas eu sempre quis mesmo ter um irmão (ou irmã), alguém com quem eu pudesse dividir uma casa, uma família, uma vida. Por mais que meus primos sempre tenham sido muito próximos e tenham suprido essa necessidade imediata de ter alguém com quem dividir a casa, a família e a vida – brigas e muitas histórias pra contar aí no meio -, sei que não é a mesma coisa, e é por isso que eu sinto tanto por não ter tido a chance de construir uma relação assim com vocês. Mesmo que não tenhamos a mesma mãe, mesmo que nossas realidades sejam tão diferentes, eu queria ter, desde o início, construído uma relação de amor e apoio mútuo, a mesma que hoje tenho com meus primos mais queridos.

Lembro da primeira vez que conheci vocês (menos F., que nessa época ainda não tinha nascido). Eu tinha mais ou menos 10 anos e quase não podia me conter de tanta empolgação quando nosso pai sugeriu que eu passasse um fim de semana na casa de vocês. Lembro também que minha mãe não gostou muito da ideia, não porque ela tivesse algum ressentimento com nosso pai ou tivesse qualquer receio de me deixar passar alguns dias com vocês, mas porque ela nunca se sentiu muito confortável com essa história de não me ter dormindo sob o mesmo teto que ela, talvez porque, desde o início, tenhamos sido só nós duas, e não ter a outra ali sempre tenha sido um troço complicado pras duas. Mas ela deixou e com isso eu ganhei um dos fins de semana mais especiais da minha vida, um fim de semana que, embora eu não lembre totalmente hoje, ainda me traz lembranças fragmentadas que são suficientes para me fazer sorrir. Nós brincando juntos, dormindo na mesma cama, fazendo as refeições e dividindo confidências com uma facilidade que só crianças conseguem ter, algo que, muito provavelmente, a gente nunca mais vai ter de novo.

Não é que agora seja tarde demais para construir algum tipo de relação e recuperar o tempo que não tivemos, mas também não é como se não fosse. É uma contradição proposital essa, que torna toda a situação infinitamente mais complexa, mas não é muito real também? Vocês sabem, talvez muito melhor do que eu, que a essa altura já não é mais tão fácil nos aproximarmos. Somos adultos – pelo menos a maioria de nós – e infelizmente somos seres-humanos muito mais complexos e cheios de nuances do que fomos um dia. Aos 10 anos, eu podia simplesmente sentar e brincar com vocês e tudo ficaria bem, mas hoje, quando vejo vocês pelas fotos, eu já não sei mais quem vocês são. Eu não sei o que vocês gostam, que tipo de música escutam, se já estão trabalhando, se estão estudando, o que fazem no tempo livre. São coisas bobinhas, se a gente parar pra pensar, mas são essas coisas bobinhas, tão pequenas que às vezes parecem dispensáveis, que falam muito sobre quem somos e que, justamente por isso, se tornam tão importantes. Muitos anos se passaram desde que nos vimos pela última vez (exceto você, F., que eu não conheço pessoalmente até hoje) e muita coisa aconteceu nesse meio tempo: A. se tornou mãe de uma menininha linda; G. se tornou um homem e F. é um dos meninos mais inteligentes dos quais eu já ouvi falar. Fico feliz de verdade que vocês tenham seguido com a vida de vocês e que, mesmo com todas as dificuldades, tenham se tornado pessoas tão boas – incríveis até -, mas todas essas coisas vividas longe um do outro são coisas que, de um jeito ou de outro, me separam de vocês cada vez mais e eu realmente não sei se hoje seria possível recuperar o tempo que perdemos, nem se eu estou disposta a isso, muito menos se vocês estão.

Não se sintam pessoas horríveis só porque vocês não têm o menor interesse em saber quem é a irmã mais velha de vocês. Esse é um direito de vocês – assim como também é um direito meu -, que não faz de vocês pessoas melhores ou piores, mas humanos, e eu não vou ficar chateada. Demorou muito até que eu aceitasse isso e foi só quando me vi condenando a personagem de uma série do qual gosto muito por não querer conhecer sua irmã por parte de pai que eu me dei conta de que eu e ela não éramos muito diferentes, e que ela, embora parecesse dura e fria num primeiro momento, estava no seu direito. Isso não quer dizer que eu esteja fechada pra vocês, muito pelo contrário, mas fica um pouco mais fácil quando a gente não sente essa obrigação de ser irmã e se fazer presente só porque divide laços sanguíneos com alguém, e é essa obrigação que eu não quero sentir em relação à vocês – muito menos que vocês sintam em relação à mim. Eu estou aqui e vou estar ainda por bastante tempo (pelo menos, assim espero), mas vocês não precisam me procurar por isso, não precisam se sentir confortáveis na minha (quase inexistente) presença ou qualquer coisa assim. Vocês não têm obrigação nenhuma de me amar ou sentir qualquer coisa por mim, e ninguém, nem o nosso pai, pode obrigar vocês a sentirem qualquer coisa. Sei que ele gostaria que nós tivéssemos uma relação mais próxima, mas a vida nem sempre acontece como planejamos, e ele também sabe disso melhor do que ninguém.

Mas eu estou aqui e vocês podem me procurar sempre que quiserem. Não se sintam intimidados e não acreditem em tudo que nosso pai diz. Ele não é mentiroso, claro que não, mas ele só conhece uma versão de mim mesma e essa é, muito provavelmente, a versão que ele apresenta pra vocês – da mesma forma que eu só conheço uma única versão de vocês, que é a que ele me mostra. No fundo, somos todos humanos, e eu acredito que, independente da escolha que fizermos, pelo menos sempre vamos ter as poucas memórias da nossa infância pra onde voltar. Mas eu estou aqui e, no fundo, eu sei que vocês estão aí também – e isso, por enquanto, vai ser o suficiente. 

Com carinho,
Ana. 

MEMES

MEME: O PODEROSO CHEFÃO

Na semana passada, a Thay e a Tati, essas duas maravilhosas, me indicaram para responder um meme chamado O Poderoso Chefão (dã), que basicamente consiste em relacionar livros que já lemos à citações icônicas do filme de mesmo nome. Pensei em deixar pra responder mais pra frente, de preferência num momento de pouco tempo e zero ideias, mas não consegui sossegar porque afinal de contas essa sou eu e odeio ficar guardando meme pra depois, além de achar terrível deixar as pessoas que me indicaram esperando enquanto juram de pé junto que foram casualmente ignoradas. Eu não ignoro meme, gente, jamais. Assim sendo, decidi responder de uma vez – e seja o que Deus quiser quando chegar aquele dia de pouco tempo e inspiração, risos.

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1. “Se um homem honesto como você tivesse inimigos, então eles seriam meus inimigos e temeriam você.”Qual livro te deu mais medo? O Oceano no Fim do Caminho, do Neil Gaiman. Porque aparentemente eu sou idiota desse tanto mesmo. Na real, eu não li muitos livros de terror nessa vida (é possível que não tenha lido nenhum), de modo que medo é um troço que não costumo sentir durante a leitura. Às vezes, no entanto, acontece dele aparecer em livros de outros gêneros, especialmente fantasia, e aí eu acabo sentindo um pouco de medo sim. É o caso, por exemplo, de Harry Potter e As Relíquias da Morte, que não me assustou, mas deixou bastante apreensiva em alguns momentos, e mais recentemente, com O Oceano no Fim do Caminho. Nele, conhecemos a história de um homem de meia-idade que, quando criança, conhece uma menina um pouco mais velha chamada Lottie, com quem viveu aventuras inimagináveis, mas o livro também fala sobre como essas experiências influenciam sua vida no futuro, mostrando que nossa infância reflete, de alguma forma, nas pessoas que nos adultos que eventualmente nos tornamos. É um livro maravilhoso demais, que se tornou um dos meus favoritos e que eu sempre recomento para todo mundo. No entanto, ele também me deixou sem dormir em algumas noites e me fez ter alguns pesadelos com Ursula Monkton, a grande vilã. Não confirmo nem nego que até hoje, ouvir esse nome me causa arrepios, risos.

2. “Nunca odeie seus inimigos, isso atrapalha seu raciocínio” – Qual o livro mais confuso que você já leu? Germinal, do Émile Zola. Eu nem sei se ele esse é um livro verdadeiramente confuso ou se eu li numa época bem ridícula da minha vida mesmo (ensino médio, vestibular batendo na porta, vocês sabem do que estou falando), de modo que é bem possível que minha opinião sobre ele seja completamente distorcida. Sendo bem sincera, a única coisa que lembro hoje é o final, mas tenho muita vontade de ler novamente e descobrir o que essa história reserva de verdade, sem a pressão de um vestibular nas costas e, de preferência, sem a interferência do meu medo dos ~grandes clássicos da literatura~, hê.

3. “Quem lhe oferecer segurança será o traidor” – Qual livro te decepcionou? As Vantagens de Ser Invisível, do Stephen Chbosky, um livro que tinha tudo para se tornar favorito, mas que infelizmente não chegou lá. Na época que comecei a leitura, eu estava escrevendo o roteiro de um curta-metragem coming of age (?) e o livro foi uma indicação de uma amiga que achou que a história pudesse me ajudar de alguma forma. No entanto, embora eu tenha me sentido bem culpada no final por não ter sentido tudo que eu achava que deveria sentir e, principalmente, por ter julgado tanto o chororô sem fim do Charlie, a história acabou não sendo exatamente o que eu procurava para me ajudar com o roteiro e eu não fui capaz de me identificar com os personagens em momento algum. Marquei algumas citações, afinal o livro é recheado de várias bem maravilhosas, mas foi só isso mesmo.

4. “Nunca deixe que ninguém de fora da família saiba o que você está pensando” – Qual livro te fez pensar na vida? Estação Onze, da Emily St. John Mandel. Desde que li esse livro pela primeira vez, no final do ano passado, tenho a impressão de que estou sempre falando sobre ele – o que pode ser verdade ou não -, mas é que ele de fato se tornou meu livro favorito da vida inteira e muito disso se deve justamente ao fato de que, muito além de uma história sobre o fim do mundo, o livro também fala sobrevivência, família, relacionamentos, memórias, solidão, arte, fama, a efemeridade da vida e a beleza do mundo em que vivemos, questões muito presentes na vida de qualquer ser-humano, independente do cenário. É um livro realmente incrível, capaz de transformar palavras em sensações muito únicas e foi exatamente por isso que ele se tornou não apenas meu livro favorito do ano passado, mas da minha vida também.

5. “Um advogado com uma pasta na mão pode matar mais que mil homens armados” – Qual livro te surpreendeu? O Clube da Luta, do Chuck Palahniuk, de longe uma das minhas leituras favoritas do ano passado. O fato de não ter assistido ao filme antes talvez tenha sido decisivo para minha opinião final, mas não posso negar que muito também é mérito do autor, que construiu uma história complexa, com personagens ambíguos e uma narrativa que te impede de parar por um minuto sequer. Ao começar a leitura, tudo que eu esperava era uma história sobre gente muito problemática caindo na porrada, que é uma das coisas coisas que o livro de fato promete, mas é incrível como ele consegue ir tão além de sua proposta e entrega muito mais do que a gente espera. Ele não conta uma história limpinha, não é um livro exatamente divertido de ler, mas contrariando todas as minhas expectativas, ele foi justamente aquilo que eu precisava ouvir (ler?) para sair do buraco que eu tinha me enfiado no ano passado. Estranho, mas muito real.

6. “Mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda”Quem é seu melhor amigo literário? A Arte de Pedir, da Amanda Palmer. É o livro que sempre tenho por perto, seja dentro de uma gaveta do móvel onde fica meu computador – e onde passo a maior parte do meu dia -, seja em cima do próprio móvel, ao alcance dos olhos de todo mundo que entra no meu quarto. Muito além de uma história inspiradora, Amanda me ensinou lições importantíssimas sobre a vida e o amor, sobre se conectar com pessoas e se permitir ser vulnerável, tudo isso através de suas palavras, e essas são lições que eu quero carregar comigo por toda a vida.

7. “Se dedica à família?”Qual livro você mais se dedicou a ler? A Tormenta de Espadas, terceiro livro das Crônicas de Gelo e Fogo, do George R. R. Martin. Antes que alguém venha me tacar pedras, explico: embora eu seja apaixonada pelas Crônicas de Gelo e Fogo (no nível de gastar um tempo considerável da minha vida refletindo sobre seus personagens e teorias cabeludas que não param de surgir por aí), ler A Tormenta de Espadas foi um verdadeiro tormento (perdão por ser tão ridícula, risos) e eu precisei me esforçar um bocado para chegar ao fim daquele calhamaço. Desde então, criei um certo trauma e tenho evitado ler livros com mais de 600 páginas, além de nunca mais ter lido nenhum livro do universo de Game of Thrones – algo que pretendo retomar em algum momento, quando criar coragem.

8. “Farei uma oferta irrecusável a ele”Indique 5 blogs para fazer essa tag. Raramente indico pessoas para responderem memes, especialmente quando é um que eu já fui indicada por gente que eu poderia indicar e que basicamente conhece as mesmas pessoas que eu, de modo que já estão todos indicados e muito felizes. Sendo assim, tentando brincar direito hoje vou passar a bola pra a Manu, do Beyond Cloud Nine; pra Michas, do Lunatic Pisces; pra Nicas, do Apto 401; pra Alê, do Desconexa Sensação; e pra Yuu, do Dreams & Dramas, que também foi indicada pelo Thay mas que eu sinceramente gostaria de reforçar a indicação, risos.