MEMES

Mais um meme para a coleção

Bom, aparentemente esse negócio de voltar a atualizar o blog tem dado certo, já que passados três dias daquele texto pedante e imenso, aqui estou novamente. Não prometo até quando, não prometo sempre o mesmo ritmo, mas vamos indo – com meme para manter a calma dessa vez.

Para quem se interessar, encontrei esse meme aqui.

1. Você se considera uma pessoa do dia ou da noite.
Preferencialmente do dia, mas consigo ser da noite quando necessário.

2. Você coleciona alguma coisa?
Ingressos de shows.

3. Qual era o seu programa preferido quando criança?
É uma ótima pergunta. Fora os desenhos animados (Pokémon, Digimon, Cavalo de Fogo, Três Espiãs Demais, etc), todas as novelas mexicanas infantis do SBT. E Chiquititas, risos.

4. Sobre o que você pensa antes de dormir?
Depende. Se assisti alguma coisa antes, provavelmente vou estar pensando a respeito disso. Se não, em coisas que preciso fazer ou que não consegui terminar antes de dormir.

5. Qual sua cor favorita?
Já tive muitas, mas hoje acho que o tal do rosa millenial – ou qualquer tom puxado pro pastel, tbh.

6. Você é viciada em algum vídeo game ou jogo de computador?
The Sims, para todos os efeitos, e mais recentemente o desgraçado joguinho de Harry Potter pra celular.

7. Você tem algum hábito ruim? 
Arrancar cabelo, dormir tarde demais, puxar cutícula com o dente, etc.

8. Você tem irmão ou irmã.
Ambos, mas só por parte de pai.

9. Você tem alguma tattoo ou piercing?
Nope.

10. Qual sua flor favorita? 
Tive uma época de ser apaixonada por tulipas, depois por hortênsias, sobretudo por causa do meu avô, mas hoje não sei, não realmente.

11. Quando pequena, o que você queria ser quando crescesse?
Muitas coisas, mas veterinária e rockstar foram as mais emblemáticas.

12. O que você guarda embaixo da cama?
A parte de baixo da minha cama não é vazia, mas possui duas gavetas bem grandes, e é ali que deixo uma papelada inútil da faculdade, saquinhos para guardar sapatos, livros e papéis que não uso com muita frequência, mas preciso ter de qualquer forma, e esse tipo de coisa. Então é isso que guardo embaixo da minha cama.

13. Você se considera organizada ou bagunceira?
Depende muito. Costumo ser bastante organizada com coisas que preciso fazer – tenho uma agenda em que sempre anoto tudo que preciso fazer durante a semana, textos que preciso escrever, e-mails e mensagens que preciso responder, prazos, etc etc. Meu quarto, no entanto, mantém-se frequentemente bagunçado, assim como meu armário, que está arrumado no momento, mas até quando é uma questão.

14. Se você pudesse viver em qualquer lugar do mundo, onde seria?
Nova York, acho. Ou Londres. Sou um clichê ambulante.

15. Qual seu filme favorito?
Para todos os efeitos, A Noviça Rebelde. Mas faz tempo que ele não é mais o único.

16. Qual ator ou atriz dizem que você se parece?
Embora já tenham dito que me pareço com algumas pessoas, as mais comuns são a Anne Hathaway e a Sophia Abrahão. Não me acho muito parecida com nenhuma das duas, tho.

17. Diga uma coisa que as pessoas não sabem sobre você.
Quando pequena, eu era muito boa em decorar coisas, fossem histórias, diálogos de filmes ou propagandas de televisão. Isso começou quando eu ainda era muito, muito novinha e possibilitou alguns momentos engraçados na minha infância, como quando, aos três anos, enganei uma amiga da minha mãe que já sabia ler enquanto contava uma história em quadrinhos para ela, mas na verdade só havia decorado a história inteira e sabia onde cada uma das partes estava localizada porque minha mãe e minha tia, que eram as pessoas que liam pra mim, tinham mania de fazê-lo passando o dedo pelas linhas. Naturalmente, não foi proposital, e a confusão foi desfeita quando minha mãe contou que eu só era muito boa em decorar as coisas mesmo.

18. Qual a última mensagem do seu celular?
Uma do Guilherme me explicando por que diabos ele cancelou uma compra que tinha feito na internet.

RORY GILMORE

Considerações sobre literatura, arte e consumo

(Esse título é pedante demais.)

A primeira coisa que você precisa ter em mente quando faz parte de uma bolha em que praticamente todo mundo lê e boa parte também escreve, é que as chances de que ambas as coisas eventualmente se transformem em debates e opiniões exaltadas são imensas. Como tudo nessa vida, existem basicamente duas formas de enxergar essas discussões, mas porque sou uma pessoa bem pouco engajada nesse tipo de coisa – e, pra ser honesta, em qualquer tipo de debate de internet -, no fim das contas isso não importa realmente; não sou eu que vou perder meu tempo pensando a respeito.

O problema é que, vez ou outra, algumas discussões quebram essa barreira, e eu começo a não apenas refletir sobre elas, mas também a querer conversar a respeito e destrinchar o assunto até dizer chega. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando a Kylie Jenner recebeu a alcunha de self-made woman ou quando absolutamente todas as pessoas do meu círculo começaram a falar, ao mesmo tempo, sobre como a nossa geração era a menos provável de conseguir realizar o sonho da casa própria (e esse texto foi apenas a cereja do bolo), e de repente, e não mais que de repente, eu estava obcecada, conversando com qualquer pessoa que demonstrasse o mínimo interesse em discutir o assunto e chorar algumas pitangas comigo. “Quais são suas considerações?”, eu perguntava, ou, ainda “o que você pensa sobre x, y ou z?”; claros sinais de que o ciclo estava prestes a começar mais uma vez. Desde grupos de amigas, até minha mãe e meu namorado, todos tiveram o seu momento para pensar sobre essas questões (“junto comigo!!! vamos lá!!!”), em momentos cada vez menos apropriados, fosse no meio do café da manhã ou antes da hora de dormir – limites que naturalmente não trabalhamos.

São casos isolados, é claro, e que tornam-se cada vez mais raros à medida que meu interesse por polêmicas de internet diminui em proporção ao meu desgaste com a internet de modo geral. O fato de ter encontrado formas de blindar esse tipo de conteúdo me mantiveram longe de muitas discussões, mas porque essa não é uma alternativa infalível, existem debates que eventualmente chegam até mim, simples assim, e não há muito que se possa fazer para desviar. O caso mais recente foi quando, na última semana, alguém me perguntou sobre uma questão bastante velha, que é a sobre pirataria de livros – uma história que de tempos em tempos renasce das cinzas para plantar alguma discórdia. Da última vez em que isso aconteceu, não me pareceu muito justificável que eu perdesse algum tempo do meu dia – e talvez alguma paz – para dar minha opinião não requisitada sobre algo que, embora me dissesse respeito em alguma medida (porque elas sempre falam sobre nós em alguma medida), não conhecia – e nem queria – o suficiente para me sentir confortável em lhe dispensar meus dois centavos. Mas dessa vez foi diferente, e bastou que alguém perguntasse quais eram minhas considerações sobre o assunto para que eu imediatamente ficasse obcecada.

Porque esse é um debate bastante complexo, existem mais lados nessa história do que opiniões exaltadas nos permitiriam perceber, e a maioria dos argumentos até agora são plausíveis o suficiente para serem levados em consideração. Isso significa que, até o momento, não tenho uma opinião 100% formada – ainda que, obviamente, tenha uma opinião – e estou disposta a entender de verdade quantos argumentos mais surgirem na minha frente. Ainda assim, muitos dos pontos levantados têm me feito pensar sobre a nossa relação com a literatura, com o aspecto do livro como bem de consumo, e sobre o que significa ser leitora em um país onde quase metade da população não lê, enquanto muitos nem sequer chegaram a comprar um livro alguma vez na vida – e é sobre esses aspectos que quero conversar agora.

1. Nem todo mundo pode comprar livros

De todos os argumentos, esse talvez seja o mais simples e óbvio (ou o que aparenta ser mais simples e óbvio), e também o mais importante – embora também seja o mais fácil de se perder de vista quando se está cercado por pessoas que leem mais de 50 livos num ano, muitos dos quais são comprados por elas mesmas, com o dinheiro que ganham com o próprio trabalho, dos pais ou de ambos. A impressão que dá é a de que todo mundo está lendo e, mais do que isso, comprando livros com alguma frequência. Esse, contudo, é apenas um recorte, e dificilmente seria compatível com a realidade de muitos brasileiros. Mais do que uma questão cultural, em um país como nosso, onde taxas de desemprego são enormes e o salário mínimo não chega a mil reais, comprar livros é um privilégio para poucos. O mesmo serve para a compra de e-readers e serviços como o Kindle Unlimited, que naturalmente não vão caber no orçamento de uma pessoa que precisa viver um mês inteiro com um salário mínimo – ou até menos.

Assim, quando alguém sem quaisquer outras fontes de acesso à literatura, e também nenhum incentivo, baixa ilegalmente uma obra em pdf, ela já está, sozinha, ultrapassando uma barreira. Limitar esse tipo de acesso serviria apenas para tornar a literatura mais restrita e elitista, o que ela já é de qualquer forma, e essa é uma questão tão complexa quanto problemática. De imediato, é muito fácil colocar todo mundo no mesmo balaio e dizer que quem baixa o que quer que seja ilegalmente é criminoso. Mas será que o fato de essas pessoas estarem baixando livros online é mesmo o maior dos problemas ou apenas o reflexo de uma questão maior e muito mais complicada?

2. Bibliotecas, infelizmente, não são a solução de todos os problemas

Dentre os muitos argumentos que surgiram como uma alternativa à pirataria, as bibliotecas talvez tenham sido a opção mais recorrente. Não é difícil entender por que elas de fato parecem uma solução milagrosa, que não é utilizada com tanta frequência mais por uma questão de pouca informação, costume e às vezes falta de interesse nas obras disponíveis, do que qualquer outra coisa, o que poderia ser facilmente revertido com programas ou projetos de incentivo. Na última semana, por exemplo, a Tati deu início ao projeto Rata de Biblioteca, que nada mais é do que uma forma de desmistificar velhos preconceitos e incentivar que mais pessoas passem a frequentar bibliotecas públicas. No texto de abertura, a própria Tati conta que, embora tenha crescido com acesso a uma biblioteca na escola quando mais nova, ela mesma tinha certo preconceito com bibliotecas públicas em geral, e foi só quando passou a frequentá-las que percebeu que o estereótipo do lugar velho, com livros empoeirados que não interessavam ninguém não era uma realidade.

É um projeto muito válido e realmente sugiro que vocês o acompanhem daqui pra frente. No entanto, como eu, ela e um grupo de amigas também conversamos essa semana, bibliotecas não são uma solução infalível, tampouco possível para todo mundo. Além de muitas não disponibilizarem um acervo atualizado, com livros que interessem faixas etárias e gostos mais abrangentes, o simples fato de se deslocar pode se tornar um empecilho para muita gente, que tampouco pode gastar com transporte para buscar e devolver livros sempre que necessário. Por mais difícil que seja visualizarmos essa realidade, o que pode não ser muito pra nós é, com alguma frequência, essencial para quem vive com dinheiro contado todos os meses e que não têm a possibilidade de gastar com nada além do essencial – seja um exame, uma comida diferente, uma passagem de ônibus ou um livro.

O que não quer dizer que bibliotecas públicas não sejam importantes, pelo contrário. Em outra polêmica mais recente, uma proposta de por fim às bibliotecas como são hoje nos Estados Unidos balançaram muitos norte-americanos que reconheciam a importância desses espaços, não só porque eles são o único acesso que muitos têm à literatura, mas também porque os serviços oferecidos são muito mais abrangentes. Em um dos muitos textos que li, uma bibliotecária de Washington contava que a biblioteca na qual trabalhava era o único espaço em que pessoas em situação de rua, por exemplo, podiam ter um pouco mais de dignidade, além de conseguirem acesso à internet, o que possibilitava que elas pudessem encontrar empregos, imprimir currículos e outros serviços gratuitos que não seriam oferecidos em outros lugares. As bibliotecas também se tornaram o espaço em que muitas pessoas mais velhas, que não cresceram na era da internet, puderam aprender a utilizar computadores, realizar pesquisas e todo tipo de conteúdo que lhes interessasse. Ou seja: bibliotecas são muito importantes, só não são a solução para os problemas de todo mundo.

3. Pessoas que baixam livros dificilmente investiriam em literatura se essa opção deixasse de existir

Existem muitos motivos que fazem com que uma pessoa prefira baixar um livro ao invés de adquiri-lo de maneira tradicional. Além da já citada falta de recursos, outra justificativa bastante comum é a de que algumas pessoas simplesmente não querem correr o risco de gastar dinheiro com um livro de que não vão gostar tanto assim, preferindo ler antes e comprar depois. É um argumento que faz sentido, sobretudo se você tem dinheiro, mas não muito, para investir nesse tipo de coisa. Além disso, mesmo que você possa gastar uma quantia razoável todos os meses, a velocidade com que novos livros são lançados, quase sempre a um valor altíssimo, barram o acesso a essas obras. Assim, em uma comparação tosca, ler o livro em pdf seria quase como ir à livraria todos os dias e ler um livro até o fim, só para ter certeza de que realmente valeria o investimento antes de finalmente comprá-lo – a única diferença é que isso deixa de acontecer no estabelecimento em si para existir no conforto de nossos lares.

Porque estou longe de ser santa, alguns anos atrás baixei dois livros que ilustram muito bem esse caso: Big Little Lies, da Liane Moriarty, e Bling Ring, da Nancy Jo Sales. Ao passo que o primeiro se tornou um favorito e não demorou a vir morar na minha estante (porque eu precisava, porque esse livro é perfeito, porque a Liane Moriarty é incrível, etc etc), comprar Bling Ring só teria me feito passar raiva, como aconteceu com Garoto Encontra Garoto, um livro que até hoje está largado na minha penteadeira esperando o dia que eu finalmente tomarei vergonha na cara para doá-lo ou trocar por outra coisa em um sebo – que são opções super válidas, é verdade, mas seria muito mais fácil não ter que olhar todos os dias para um livro que só me trouxe desgosto quando eu podia simplesmente não tê-lo comprado e seguido com a minha vida em relativa paz. Se a opção de baixá-los não existisse, no entanto, não teria acontecido nem uma coisa nem outra, e eu tanto não teria odiado Bling Ring como Big Little Lies não viria parar na minha estante por tão cedo. Em comparação, é verdade que sou uma pessoa bastante privilegiada e que não necessariamente precisa baixar livros, quaisquer que sejam. Entretanto, isso não significa que eu não precise fazer escolhas de tempos em tempos, que livros encham a minha barriga ou que qualquer obra está dentro do meu orçamento – como a maioria dos livros que uso na faculdade, por exemplo, que chegam aos três dígitos com facilidade e muitas vezes não são tampouco encontrados em livrarias, sebos e bibliotecas, ou qualquer outro lugar que não plataformas online de download ilegal; às vezes, nem mesmo brasileiras. Não considerar essas nuances é ignorar uma realidade que também existe, e acreditar que não é tão babaca quanto o argumento que diz que uma pessoa que nem sempre pode comprar os livros que deseja ler também não pode fazer outra coisa da vida, tipo comprar roupas ou ir no McDonald’s de vez em quando.

Em outra instância, comprar livros físicos é a única opção pra muita gente que não tem como bancar um Kindle (ou qualquer outro e-reader de sua preferência), seja por falta de grana ou pelas formas limitadas de pagamento (a Amazon, por exemplo, só aceita cartão de crédito), o que significa que comprar algo que não vai ser do seu agrado, além de ser um gasto que poderia ser evitado, também não é lá a opção mais sustentável do mundo. Outro ponto interessante é que, por pior que seja na cabeça de muita gente, o download de livros segue o mesmo molde de outras alternativas já citadas, como bibliotecas e o empréstimo em geral – é preciso que alguém o compre antes de disponibilizá-lo onde quer que seja. Então, se alguém ainda está comprando essas obras e se pessoas que baixam dificilmente as comprariam se lê-las online ou baixar em pdf não fosse uma opção, tampouco estão usando essa disponibilidade para ganhar dinheiro, qual é realmente o ponto?

4. Autores, blogueiros e booktubers não estão fazendo muito para mudar esse cenário

Como escritora e como alguém que trabalha com livros na internet, que mantém parcerias e responsabilidades, mas que pessoalmente não ganha um centavo com isso, é muito fácil entender o lado de quem argumenta contra a distribuição não-autorizada de obras literárias. Mais do que o trabalhoso processo de escrita, pesquisa e edição, e a dificuldade em conseguir que seu material seja publicado, culturalmente não somos um país acostumado a valorizar produções artísticas. Isso significa que para cada autor brasileiro que consegue viver muito bem, obrigada, com os frutos de sua obra, a maioria esmagadora de escritores ainda precisa dividir o seu tempo em jornadas duplas ou triplas de trabalho, em profissões alternativas capazes de fornecer a estabilidade que a escrita, sozinha, não dá. Para muitos, a arte continua a ser um supérfluo que qualquer um poderia realizar se quisesse, de modo que o fato de algumas pessoas ganharem dinheiro com isso é tanto um absurdo quanto uma afronta, para dizer o mínimo.

É uma realidade dura e é uma realidade que precisa mudar. Entretanto, minha sensação é a de que as mesmas pessoas que reclamam sobre a distribuição ilegal de livros são as mesmas que muito pouco fazem para mudar esse cenário. Autores merecem receber pelo seu trabalho e eu jamais diria que não. Mas quem são os autores que sugerem que as pessoas voltem a frequentar bibliotecas e que estão doando exemplares para esses lugares? Ou que estão ativamente tentando promover uma literatura mais inclusiva? Qual a diferença entre distribuir exemplares gratuitos para esses lugares e para jornais, revistas, sites, blogs e canais no YouTube? A resposta mais óbvia é a de que, naturalmente, esses veículos e as pessoas por trás deles têm um alcance maior do que o de um leitor padrão. Mas será mesmo? O boca a boca é, muito provavelmente, a tática mais antiga de marketing, e é também bastante eficiente. Qual a melhor forma de alcançar determinado público senão deixando que ele próprio fale sobre a sua obra?

O mesmo pode ser dito sobre as pessoas que recebem esses livros gratuitamente no conforto de suas casas. As parcerias firmadas com grandes editoras variam de veículo para veículo, o que significa que nem todo mundo os recebe como presente, mas como parte de um trabalho com prazos e obrigações a serem cumpridos – como qualquer outro. Além disso, nem todos os livros são escolhidos por quem os recebe, e isso não anula a obrigação de escrever e gerar conteúdo sobre eles. Na maior parte do tempo, esse ainda é o trabalho mais legal do mundo, mas nem sempre. Existem pessoas, é claro, que os recebem como presentes e que não têm qualquer obrigação em falar sobre eles, mas elas ainda são uma minoria – normalmente pessoas com muitos seguidores e um poder de influência gigantesco. Não é uma surpresa que muitas delas terminem acumulando uma quantidade insana de livros, muitos dos quais jamais serão lidos, mas que não necessariamente são repassados para outras pessoas, e muitas vezes são edições diferentes da mesma obra, o que, conscientemente ou não, também cria uma cultura bastante problemática de consumo. Mas até que ponto isso é válido? Qual o propósito de ter uma biblioteca no ano 2018 do nosso senhor? Qual a necessidade de manter três ou quatro edições diferentes do mesmo livro?

Como muitos autores, essas pessoas não parecem particularmente interessadas em doar parte daquilo que recebem para bibliotecas ou escolas, tampouco promovem iniciativas com o mesmo objetivo e utilizam sua visibilidade para algo mais do que longos hauls e bookshelf tours. É verdade que elas não têm nenhuma obrigação de fazer qualquer uma dessas coisas, mas até que ponto o argumento se torna válido quando nem mesmo elas estão dispostas a facilitar o consumo legal de obras literárias por qualquer pessoa e não apenas uma parcela privilegiada que tem dinheiro para investir em literatura com alguma facilidade? Mais do que isso: como julgar as pessoas quererem sempre mais quanto essa é, justamente, a cultura que estamos promovendo? Todas essas perguntas me levam ao próximo tópico, que é:

5. Literatura como arte versus literatura como bem de consumo

Esse semestre voltei a estudar um assunto que muito me interessa, que é a questão da reprodutibilidade da arte e seu aspecto como bem de consumo, e o conceito de indústria cultural – que não é novo, é verdade, mas continua sendo bastante relevante em análises sobre cultura e mídia de modo geral. A multiplicidade da arte e seu valor como bem de consumo ajudam a explicar por que a produção artística hoje não mantém a mesma aura sacralizada de décadas atrás. Você ainda precisa ir até o Louvre para ver a Monalisa ao vivo, por exemplo, mas não precisa ir até o Louvre para saber como a Monalisa se parece – existem fotos, vídeos e até mesmo réplicas que são suficientes para te dar, senão a dimensão completa dela, apenas uma noção de como ela é de verdade.

Isso fica ainda mais evidente hoje, quando o acesso a esse tipo de trabalho está literalmente ao alcance de um clique, e porque a indústria cultural é, antes de mais nada, um mercado, e o lucro é o fator mais importante, essa facilidade também cria novas relações e formas de consumo. Não é por acaso que vivemos um momento em que o ato de consumir o que quer que seja está mais atrelado ao pertencimento e tendências sociais do que o interesse genuíno em determinadas obras. É um fenômeno que não acontece apenas na literatura, mas em outros setores como a moda, o cinema e até mesmo a música, mas porque estamos inseridos em uma bolha de gente que lê e escreve, a indústria editorial acaba sendo o exemplo mais notório disso. Há uma inversão de valores e é essa inversão que faz com que o objeto livro torne-se consideravelmente mais relevante do que seu conteúdo ou até mesmo o aspecto intelectual da obra. O que é interessante não é querer algo porque genuinamente se tem interesse naquilo, mas o que possuir determinado bem de consumo significa na sociedade em que vivemos.

Desnecessário dizer que, para quem trabalha com isso, a venda de livros é uma questão tão importante quanto prática, e que obviamente deve ser levada em consideração. Todo mundo precisa comer e todo mundo precisa pagar contas, e trabalhar com o que se ama, com arte, não anula nada disso. Mas esse é realmente o aspecto mais importante? Uma coisa que muito me incomoda é que a forma como muitos autores (e editores, e youtubers, e pessoas que trabalham com livros de modo geral) atribuem valor àquilo que comercializam sugere que a compra é o último passo desse processo, quase como se tudo que acontece depois não fosse relevante – que você queime, doe, rasgue, use como objeto de decoração e jamais leia aquela história não é realmente importante. O trabalho do escritor, portanto, perde valor de um jeito ou de outro – receber por isso não significa necessariamente que seu trabalho está sendo consumido, tampouco valorizado. A pergunta que sempre me faço nesse caso é: aceitar esse molde é a única saída para ser artista e não morrer de fome em uma sociedade capitalista? Infelizmente, essa é uma pergunta para a qual ainda não tenho uma resposta.

6. Consumir algo ilegalmente também pode ser um ato político

A primeira vez que tive contato com esse argumento não foi em uma discussão sobre literatura, mas em um texto sobre cinema. Nele, a autora tentava justamente encontrar uma forma razoável de continuar consumindo certas produções sem, necessariamente, contribuir para que artistas horríveis continuassem trabalhando. Como uma pessoa que estuda cinema e, mais do que isso, escreve sobre cultura pop e produções artísticas em geral em 90% do tempo, tenho essa discussão em um âmbito tão pessoal quanto profissional. E, ainda assim, é difícil encontrar uma resposta definitiva sobre qual é a melhor maneira de lidar com o fato inexorável de que artistas horríveis continuarão a ser responsáveis por obras incríveis.

É uma questão bastante complexa, não apenas porque entre consumir e deixar de fazê-lo existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, mas porque esse consumo muitas vezes está atrelado à coisas das quais não podemos abrir mão, seja por causa de um trabalho, estudo ou vontade. Mesmo que por gosto, o argumento continua válido, sobretudo porque muitas obras artísticas adquirem valor sentimental, tornam-se parte da nossa história, e é difícil abrir mão de algo com tamanho significado. Polanski nos deu de presente O Bebê de Rosemary, mas ele continua a ser o homem que abusou sexualmente de uma menina de 13 anos. Animais Fantásticos e Onde Habitam é um ótimo filme, mas ainda é a mesma produção cuja equipe preferiu defender a permanência de um agressor em seu elenco a tomar uma atitude mais drástica, porque essa era a opção mais cômoda. Mas eu não vou deixar de consumir nem uma coisa nem outra – a produção do Polanski, por causa da faculdade; qualquer coisa da saga Harry Potter porque essas ainda são histórias que cresceram comigo ou que sempre vão remeter a um período importante da minha vida. Então, como continuar a consumir essas obras sem, no entanto, promover as pessoas por trás delas?

Sempre que penso nisso, lembro de uma vez em que a Olivia Wilde contou que, em uma conversa com a Gloria Steinem, ela ouviu que, se realmente quisesse protestar contra o governo de forma eficiente, que deixasse de pagar seus impostos. É uma posição drástica, é verdade, mas gosto desse exemplo porque ele sintetiza de forma bastante óbvia como o manifesto sobre qualquer que seja a causa pode acontecer de diversas formas. E é por isso que, de certa forma, o download ilegal também pode ter um peso de manifesto; por mais errado que seja aos olhos da lei, existe algo de subversivo entre fazê-lo com esse fim, que é totalmente diferente de utilizar a disponibilidade dessas obras para ganhar dinheiro, por exemplo. O fato de que muitas pessoas não têm dinheiro para pagar para consumir essas produções de formas legais, a ausência de cinema em várias cidades do país e a falta de programas de incentivo de acesso e consumo à cultura são apenas mais nuances que devem ser levadas em consideração.

No caso da literatura, não é tão diferente: além de existirem autores detestáveis, que utilizam sua visibilidade e sucesso de maneiras igualmente detestáveis (pensem no autor que cobra 700 golpes por pessoa para dar uma palestra), livros são bens de consumo, nem todo mundo tem dinheiro para comprá-los e bibliotecas nem sempre são acessíveis. Muitas vezes, baixar ilegalmente é a única forma que determinados grupos podem ter acesso à literatura e, consequentemente, ultrapassar barreiras que lhe são impostas a vida inteira. Se tanto falamos sobre a importância de  termos oportunidades equivalentes, sejamos homens ou mulheres, negros ou brancos, ricos ou pobres, negar as limitações que lhe são impostas é, também, uma forma de subversão. Então talvez, e só talvez, consumir arte ilegalmente seja, também, um ato político.

RORY GILMORE

Um balanço das leituras de 2018: o meme dos 50%

Mais de seis meses depois do último post deste blog, confesso que nem sei muito como voltar, mas estou tentando. É nessa tentativa meio ridícula, meio frustrada, que hoje respondo este ilustríssimo meme, já bastante conhecido, mas do qual só lembrei após ler as respostas da Mia, em que basicamente se faz um balanço das leituras do ano até aqui. 2018 tem sido um ano pouquíssimo favorável nesse aspecto (e em muitos outros, tbh), mas alguns livros me conquistaram o suficiente para valer à pena responder as questões mesmo assim, e é sobre eles, principalmente, que escrevo agora.

Eventualmente voltaremos com a programação normal deste blog, mas por ora, é isto.

1. O melhor livro que você leu até agora, em 2018.
O Condo da Aia, da Margaret Atwood – que honestamente, dispensa apresentações.

2. A melhor continuação que você leu até agora, em 2018.
A única até agora, mas não necessariamente a melhor: Noites Azuis, da Joan Didion. O livro é uma continuação de O Ano do Pensamento Mágico, onde a autora continua falando sobre perda, mas dessa vez centraliza a perda da filha, que morre de maneira repentina e um tanto jovem, de algo que ninguém esperava que fosse ter um desfecho tão triste, nem se tornar uma enfermidade tão grave. Noites Azuis ainda é um livro muito interessante e a escrita da Joan é realmente fascinante, mas em comparação, ele parece bem menos comprometido com a questão da perda em específico e o resultado é um livro bem pouco equilibrado – mas talvez perder um filho seja isso.

3. Algum lançamento do primeiro semestre que você ainda não leu, mas quer muito.
Pequenos Incêndios Por Toda Parte, da Celeste Ng – que não é um livro deste ano, mas foi lançado no Brasil só em 2018.

4. O livro mais aguardado do segundo semestre.
Não faço ideia, não me perguntem.

5. O livro que mais te decepcionou esse ano.
On The Road, do Jack Kerouac, que pra começar comprei por engano, mirando no Into The Wild, do Jon Krakauer. Publicado originalmente em algum momento da década de 1950, On The Road é um livro bem famoso lá fora e vira e mexe surge como referência (Gilmore Girls e Mad Men, por exemplos, o citam em determinado momento), porque ele foi, de fato, um marco pra uma geração. Mas nada disso anula o fato de ele ser um livro realmente detestável, com personagens tão detestáveis quanto. Não é só o machismo que incomoda (Oscar Wilde conseguiu muito bem, obrigada, escrever um livro incrível e ainda assim profundamente misógino), embora isso naturalmente aconteça, mas não há nada realmente relevante na estrada, nenhuma mudança, nenhum amadurecimento. Histórias que se passam na estrada costumam ser interessantes justamente porque, de forma mais ampla, elas servem como uma grande metáfora pra vida e tudo aquilo que aprendemos, ganhamos, perdemos, deixamos pra trás. On The Road não tem isso, como seus personagens não parecem particularmente interessados em nada além de bebidas, festa e sexo sem compromisso. Não é por acaso que, ainda hoje, o típico fã de Kerouac é tido como o homem imaturo que não quer nada da vida além de curtição – e se eles continuam a existir, que seja bem longe de mim.

6. O livro que mais te surpreendeu este ano.
A Trama do Casamento, do Jeffrey Eugenides, foi uma releitura que surgiu sem muita pretensão: era final de ano, eu não queria ficar no limbo com um livro inédito, e então decidi lê-lo pela segunda vez. Ao contrário da primeira, eu não apenas tive vontade de fazê-lo dessa vez, como estava em um momento muito diferente, e acho que tudo isso, no final das contas, terminou por influenciar minha opinião. Se em 2015 ele foi uma questão, um quatro estrelas mais por qualidade do que por gosto, em 2018 A Trama do Casamento se tornou um dos meus livros favoritos de toda a vida, que continua até hoje ao lado da minha cama e para onde ainda quero poder voltar outra vez.

7. Novo autor favorito (que lançou seu primeiro livro neste semestre, ou que você conheceu recentemente).
Ian McEwan – o que parece tão ridículo quanto improvável, mas bear with. Foi só em 2018 que pude ter meu primeiro contato com a obra do autor, depois de compras que não deveriam, mas foram feitas mesmo assim, e embora tenha lido somente um dos livros que comprei, foi o suficiente pra sentir muito, o tempo inteiro. Na Praia, primeiro livro de sua autoria que veio parar nas minhas mãos, conta a história de um casal em sua noite de núpcias, e é uma história bem curtinha, dividida em cinco capítulos, mas é incrível o que ele consegue fazer nesse curto espaço de tempo. Até hoje consigo lembrar perfeitamente das sensações que percorreram a leitura, de como foi me colocar no lugar daqueles personagens tão jovens e ainda assim tão problemáticos, como o final me deixou melancólica. Quando penso nisso, chego à conclusão de que era exatamente o que eu gostaria de conseguir quando escrevo ficção, e por fim só posso mesmo esperar um dia chegar lá.

8. A sua quedinha por personagem fictício mais recente.
Nenhum, infelizmente.

9. Seu personagem favorito mais recente.
Madeleine, de A Trama do Casamento.

10. Um livro que te fez chorar neste primeiro semestre.
O Ano do Pensamento Mágico, da Joan Didion. De todos os livros, esse talvez seja o mais óbvio nesse aspecto, mas porque o momento em que o li também foi muito significativo, foi difícil não me emocionar em vários momentos durante a leitura. Joan Didion fala sobre a perda de maneira muito visceral e viva – o que é irônico em um livro que fala justamente sobre o oposto, mas é verdade. Mesmo que nosso luto parta de relações diferentes, sua dor também era a minha dor e conversava comigo de uma maneira muito profunda. O livro foi a minha forma de tentar lidar com a perda e não foi uma surpresa que tudo sobre ele tenha sigo tão significativo, mas foi importante que a expectativa tenha se tornado real e que ele tenha sido capaz de oferecer o suporte que eu precisava naqueles dias.

11. Um livro que te deixou feliz neste primeiro semestre.
O Ano Em Que Disse Sim, da Shonda Rhimes – uma sugestão da minha psicóloga, que achou o livro bastante interessante e recomendou que eu o lesse. Desnecessário dizer que ela não só acertou muito, como o tom leve e despretensioso com a qual a Shonda escreve me fisgou sem muito esforço. Embora trate de temas um tanto densos, a leitura é realmente muito fluida, de modo que a sensação é sempre muito próxima do que imagino que seria conversar com a Shonda enquanto casualmente tomamos um café.

12. Melhor adaptação cinematográfica de um livro que você assistiu até agora, em 2018.
Call Me By Your Name, sem nem pensar duas vezes.

13. Sua resenha favorita deste primeiro semestre (escrita ou em vídeo).
Não tenho o costume de ler resenhas, fora as que são publicadas no Valkirias, então fiquem de olho. Fora isso, acompanho sempre que posso os canais da Michas e da Analu, e porque elas são incríveis demais no que fazem, fica a recomendação.

14. O livro mais bonito que você comprou ou ganhou este ano.
Acho que o Querido Scott, Querida Zelda, que apesar de não ter capa dura, é bastante bonito por dentro e por fora.

15. Quais livros você precisa ou quer muito ler até o final do ano?
De preferências, todos os comprados e não lidos, e com sorte, alguns da minha lista de desejos, risos.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

O abismo no meio do caminho

Não lembro exatamente quando, tampouco por quê, mas em algum ponto em meados de setembro, comecei a assistir Gilmore Girls pela segunda vez. Era pra ser um rewatch banal e descompromissado, minha companhia em dias difíceis, noites insones e horas de almoço – às vezes, meu único momento de paz e sossego real ao longo do dia -, mas de repente as coisas começaram a ficar meio estranhas e já não fazia mais sentido assistir qualquer outra coisa ou fazer qualquer outra coisa quando eu simplesmente poderia fugir para Stars Hollow e me deliciar com a existência daquelas pessoas, me solidarizar com seus conflitos, erros e mágoas, e viver uma realidade que parecia tão melhor.

Assim como Downton Abbey, Gilmore Girls se transformou num bote salva-vidas, cujo maior objetivo era me manter sã; o barquinho que impedia meu coração de se afogar. A grande diferença entre as duas, no entanto, é que enquanto em Downton tudo parecia pertencer a uma realidade tão, tão distante – estamos, afinal, falando de uma história que gira em torno uma família aristocrata inglesa e seus empregados, tudo isso ambientado no século passado, um mundo que definitivamente não existe mais -, Gilmore Girls sempre me forneceu um conforto muito mais próximo, como o abraço apertado de alguém que sabe exatamente o que você está passando e entende o quanto pode ser difícil, doloroso e traumático, mas que também reconhece que vai ficar tudo bem. Rory Gilmore, sobretudo na faculdade, sou eu em todos os níveis possíveis, sejam eles bons ou ruins (principalmente os ruins), e existe algo de muito confortável – num nível totalmente pessoal – em ver outra pessoa que não uma amiga, colega ou conhecida viver coisas tão parecidas e ainda encontrar uma saída em meio ao caos.

Não é por acaso que tantas amigas, colegas e conhecidas se identificam com a Rory – e se inspiram nela, e querem ser como ela, e sentem-se profundamente incomodadas pelos erros dela. Ainda que a experiência esteja longe de ser universal, porque contempla uma bolha muito específica de mulheres brancas e privilegiadas, com acesso à educação de qualidade, que nunca tiveram que se preocupar com muito além de serem boas alunas, boas filhas e entrar numa faculdade de prestígio, a trajetória da Rory representa muito dos nossos conflitos internos, que derivam em grande parte por esse estigma de perfeição (a filha perfeita, a aluna perfeita, a namorada perfeita, a neta perfeita, etc etc) que não corresponde à realidade. Crescer significa ser constantemente confrontada pela perspectiva de que ser um floquinho de neve especial é uma missão fadada ao fracasso, que por mais perfeitas que sejamos, jamais vamos chegar lá. É por isso que gosto tanto da quarta temporada em diante, quando Rory finalmente vai para Yale e começa a caminhar por conta própria. Sem a presença constante da Lorelai – que, talvez pela primeira vez, também já não tem mais todas as respostas – Rory precisa descobrir sozinha por que e como resolver aquilo que acontece em sua vida, e mesmo que nem sempre tome as decisões certas, ela ao menos está tentando. Muita gente odeia essa nova versão da personagem, que é intensificada no revival, mas eu adoro justamente porque é quando ela se permite ser mais humana. Nos acostumamos a ter esse referencial de perfeição e é por isso que vê-la errar chega a ser tão incômodo, mas é, ao mesmo tempo – e ironicamente, e contraditoriamente – tão libertador.

As coisas dão errado. Elas dão tão errado que às vezes a gente se pergunta se algum dia elas já deram certo, porque não pode ser possível que algo dê tão errado sem que exista um histórico de erros cabeludos por trás. E ainda assim elas dão, porque, bom, essa é a vida. Um dos grandes motivos que me levaram à terapia foi minha incapacidade de lidar com o futuro e o fato de não poder ter uma vida inteira planejada, perfeita, estável, com todos os movimentos calculados previamente. Desde muito nova, eu sabia exatamente o que fazer, como fazer, e mesmo que não soubesse com precisão a carreira que gostaria de seguir – tinha um fraco por algumas áreas -, a certeza de que dali alguns anos eu estaria na faculdade já era suficiente. Estar na faculdade transformou tudo, no entanto: de repente, o próximo passo já não parecia tão óbvio – eu estava num penhasco, à frente havia apenas uma neblina densa e horrível -, me desestruturando por completo. O que vai acontecer depois? se tornou uma das minhas perguntas favoritas – e também a mais desesperadora delas – e ninguém te conta o quanto pode ser angustiante pensar num futuro que, embora repleto de opções, sempre parece tão abstrato.

“Pra onde eu vou agora?”, ela perguntou, sentou na estrada e começou a chorar sozinha.

Um dos meus momentos favoritos de Gilmore Girls é quando Rory vai para Stars Hollow com Lucy e Olivia, suas novas amigas da faculdade, e elas jogam conversa fora, riem, pintam os cabelos de rosa, roxo e verde, vasculham álbuns de fotos, fazem doces de flocos de arroz, e se divertem de verdade. Mas é ali, em meio a uma banal girl’s night out, que Rory tem seu momento e despenca, confessa que não sabe o que fazer em seguida, chora o fim da faculdade que se aproxima mais e mais, lamenta sua saída da editoria do Yale Daily News, se entrega à todas as dúvidas que a destroem por dentro. Ela sente muito, naturalmente e intensamente, e chora no chão do banheiro com os cabelos pintados de rosa, numa dicotomia que faz todo o sentido do mundo; tão, tão adulta e, ainda assim, tão ridiculamente vulnerável. Ela não é uma pessoa de verdade, não ainda, assim como a personagem principal de Frances Ha, e há algo de reconfortante ali – não somos também, afinal. Quando permite que suas angústias se transformem em palavras, ganhando forma e tamanhos reais, Rory é um pouco (muito) como nós. Em qualquer outra circunstância, ela permitiria que esses monstros a consumissem por dentro, tornando-os uma ilusão menos real, ainda que tão maléfica quanto; mas quando os expõe, ela os confronta realmente – e encontra de volta amor, apoio, carinho e uma compreensão que parte, principalmente do entendimento de que não é a única naquele barco. Lucy e Olivia também se sentem assim; e eu, e vocês aí do outro lado, e todas as garotas do mundo que foram criadas para serem lindos floquinhos de neve especiais, até descobrirem que o mundo era um lugar grande demais para nos limitarmos  a uma caixa. Rory Gilmore não está sozinha justamente porque nós também não estamos.

As últimas semanas foram um processo doloroso de ser muito adulta, o que significa que na maior parte do tempo eu só queria me esconder embaixo das minhas cobertas, fingir que jamais tinha existido e que todas as merdas que já havia feito não eram problemas meus, tampouco minha responsabilidade. Foram tombos atrás de tombos, atrás de outros tantos tombos, até que eu não quisesse mais me levantar, mas ser adulto é levantar uma, duas, três vezes – e levantar rápido -, só para cair de novo, dessa vez por um motivo completamente diferente. Foi preciso me lembrar constantemente que falhar não era o fim do mundo – nem da minha carreira ou da minha vida -, que errar era humano e que não fazia o menor sentido chorar por erros que chegaram muito perto de acontecer, mas não aconteceram de verdade. Tive a sorte de contar com pessoas nesse meio tempo que tinham a paciência e firmeza necessárias para lembrarem que nem tudo estava perdido e me mandar engolir o choro e voltar ao trabalho, mas que também me abraçaram e confortaram, que me lembraram que todos os êxitos pesavam mais do que as falhas que sempre pareciam monstros tão maiores e assustadores com os quais lidar na minha cabeça.

Ao mesmo tempo, quando tudo acabou, foi preciso lidar com o fim de algo que vinha me consumindo por inteiro, pro bem e pro mal, e ao qual me apeguei profundamente; chegar ao fim foi como me sentir órfã e descobrir que, embora o cansaço e o desgraçamento fossem reais, e não sobrasse uma roupa limpa no meu armário, eu não queria que aquilo terminasse. Eu sentia falta da rotina, das pessoas, dos problemas que pareciam impossíveis de serem resolvidos, até acontecerem como num passe de mágica, porque a magia do cinema existe também – e principalmente – nos bastidores. No último dia, nós nos abraçamos longa e fortemente, trocamos mensagens fofas, celebramos o quanto aquela experiência havia sido incrível, mas dois dias depois, sozinha e de pijamas no meu quarto, eu só conseguia me sentir terrivelmente perdida, como se um pedaço grande e importante de mim tivesse ido embora. Eu tinha mergulhado em um oceano inteiro de emoções, conflitos, altos e baixos, sem que tivesse tempo de respirar antes de enfiar cabeça e corpo inteiros na água – o que poderia ter sido traumático, é verdade, mas foi uma das melhores experiências que eu podia ter tido, mas principalmente vivido; e eu vivi, cada segundo. Eu coloquei não apenas os pés na água, mas me joguei inteira, sem saber direito o que me esperava, e foi incrível. Estar de volta no meu quarto escuro foi como me sentir presa depois de experienciar a imensidão azul incontrolável, totalmente sem limites do mar, e depois sequer poder sentir o vento na cara.

Em “French Twist”, é a saída do Yale Daily News que faz a Rory ter essa percepção de que as coisas estão acabando; ela saíra do jornal, em breve sairá da faculdade e, de repente, não tem nenhum emprego para ir, nenhuma pós-graduação para começar. Pra mim, o fim das gravações é o que marca esse momento. Porque tudo está acabando. Ainda existem projetos a serem produzidos, experiências a serem vividas, mas o fim parece mais próximo do que o início. Há uma melancolia sobre o fim, que começa muito antes do efetivo ponto final. E mesmo assim, nada disso deixa de ser extremamente natural – terrivelmente, mas ainda assim. Como um reflexo pouco surpreendente, a ansiedade voltou com força total, voltei ao antigo e reconfortante – porém problemático – hábito de arrancar meus cabelos e uma atrás da outra, embalagens de comida chinesa começam a se empilhar no lixo da minha cozinha. Nada parece casual, no entanto. Que tudo passa é uma certeza com a qual posso sobreviver – só para começar de novo e de novo em outro lugar. Eu sou Rory Gilmore de cabelos cor-de-rosa, chorando no chão do banheiro, apavorada demais com aquilo que me reserva o futuro – mas isso também vai passar.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

Fluxo de consciência e outras inutilidades

Inspirado nesse post aqui

1. Perdi completamente o filtro na hora de falar sobre minha cabeça desgraçada. Ninguém perguntou, mas estou falando mesmo assim. Meu nome é Ana Luíza, tenho 24 anos, tenho depressão, ansiedade, não sei lidar com lugares lotados, arranco meus cabelos nas horas vagas, mas juro que sou uma boa pessoa. Complicada, mas legal. Desgraçada demais, mas com bom coração.

2. Por que eu me importo tanto?

3. Thor: Ragnarok é um bom filme, mas a Marvel devia parar de tentar ser tão engraçada o tempo inteiro. E fazer cenas pós-créditos melhores. Eu odeio cenas pós-créditos. Quem inventou que era legal fazer cenas pós-créditos?

4. Não sei o que acontece com a minha cara quando alguém aponta uma câmera na minha direção. Não é possível que eu seja assim tão feia, não é isso que vejo quando me olho no espelho. Se bem que já me disseram que a gente se enxerga algumas vezes mais bonitos do que realmente somos. O que isso quer dizer? Talvez eu não seja bonita, afinal. Eu queria ser bonita. Queria acreditar quando as pessoas dizem que sou bonita. Só queria sair bonita em uma foto espontânea. Só isso.

5. É uma falta emocional ou técnica? As duas. Mais emocional ou mais técnica? Não sei.

6. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa.

7. Odeio ficar sozinha. Será que alguém vai vir ficar comigo? Será que alguém vai sentir a minha falta e vai me procurar? Provavelmente não, mas seria legal se acontecesse. Mas não vai acontecer. Infelizmente. Eu deveria me importar tanto? Provavelmente não. Mas eu me importo. Não queria ficar sozinha. No escuro. Sozinha. Queria abraçar alguém. Precisava abraçar alguém. Mas está calor. Ninguém quer ser abraçado no calor. Eu quero. Qual o meu problema? Por que diabos eu preciso de carinho o tempo inteiro? Daqui a pouco alguém vai confundir carência com outra coisa. Que coisa? Eu gosto de abraçar meus amigos. Eu gosto de cuidar deles, gosto de dar beijo, carinho. Eu durmo de conchinha com minhas amigas. Gosto de me sentir segura, amada. Ninguém tem nada a ver com isso. Ou tem? Por que eu preciso tão desesperadamente ser amada? É patético, mas talvez eu seja patética. E é por isso que eu quero abraçar as pessoas no escuro, no calor; porque sou tão legal com todo mundo o tempo inteiro. Porque evito conflitos. Eu só quero aprovação. Amor. Pertencimento. Carinho. Patético.

8. Por que as pessoas continuam aqui? Por que elas não saem correndo? Elas deveriam sair correndo. Seria mais fácil, mais seguro – pra mim, pra todas elas. Não consigo sair correndo. Não confiem em mim. Não entrem na minha tempestade, não dancem nela. Era disso que a Lorde estava falando, não é? Por que diabos estou chorando de novo? Sempre foi assim. Quer dizer, não sempre, sempre, mas quase sempre. Dói, dói, dói. Por que tem que doer tanto? Merda, será que não podia ser um pouquinho mais fácil? Claro que não podia. A vida. A porra da vida. Eu só queria um yakissoba e um episódio de Gilmore Girls pra me consolar.

9. Escrever. Eu preciso voltar a escrever. E lavar roupas. Meu Deus, eu realmente preciso lavar minhas roupas.

10. Se eu estiver em um carro com os vidros abertos, mas não completamente abertos, e acontecer um acidente, é provável que esse vidro venha parar diretamente na minha bochecha. Quão aberto o vidro precisa estar para ser seguro que ele não venha parar no meio da minha cara se qualquer coisa acontecer?

11. Eu não sou o apêndice de ninguém. Eu tenho uma VIDAAAAAAAA. A porra de uma VIDAAAAAAAA. Não dependo de um homem pra ter a porra de uma vida. Eu também trabalho pra caralho. Porra, eu trabalho PRA CARALHO. Tenho todo o direito de estar cansada, ninguém pode me julgar por preferir passar o fim de semana em casa depois de uma semana escrota. Eu não preciso inventar uma desculpa pra isso, não preciso me justificar pra ninguém. Quem essa mulher pensa que é pra falar sobre mim dessa forma? E ODIAR PESSOAS? De onde ela tirou que eu odiaria pessoas? Eu mal tenho tempo pra lidar com as pessoas que amo, pra que caçar gente pra odiar? Eu não aguento mais.