ERA UMA VEZ?

1. POR QUE ESCREVEMOS FICÇÃO?

Esse post faz parte do Fangirl Project.

Essa semana, a Anna postou na Máfia o link de um curso online da Universidade do Iowa sobre escrita criativa. Imediatamente entrei no site pra fazer minha inscrição, mas voltei atrás porque, cá entre nós, tenho sérios problemas com cursos online. Queridos leitores, não se assustem. Não condeno quem faz, muito menos abomino a existência deles, inclusive já fiz alguns e a experiência foi totalmente excelente na maioria dos casos. Mas imaginem que, sendo essa pessoa horrível e muito esquecida, difícil mesmo é lembrar que em algum momento eu resolvi me matricular num curso online e que, como em qualquer outro curso, eu tenho lições e prazos a cumprir. Eu me esqueço dos prazos para entregar meus trabalhos da faculdade, esqueço de consultas com a mesma facilidade que peço um açaí na cantina da faculdade nesse calor, e já até esqueci que tinha prova, sendo lembrada apenas quando cheguei toda serelepe na aula e me deparei com a tensão dos meus colegas, ou seja né. Contudo, por mais que o curso não dê em nada no final das contas, foi curioso que ele tenha surgido logo agora, quando eu passo metade do meu dia pensando que talvez não seja uma ideia de todo ruim levar a sério esse negócio de escrever.

Como quase tudo nesse momento da vida, isso começou a passar pela minha cabeça depois que fui mandada embora do estágio. Sabe como é, muito tempo livre, cabeça vazia, morada do diabo, esse tipo de coisa. Mas não deixou de ser importante pensar na escrita como uma possibilidade além. Não como uma saída financeira, pelo menos não necessariamente, mas uma alternativa pra sair do buraco que eu tinha me enfiado. E aí, num devaneio muito louco, eu começava a pensar em histórias como a da J.K, e em dois minutos já estava imaginando a minha volta por cima, meu renascimento das cinzas, minha banana pra sociedade e pra todo mundo que ousou não acreditar em mim. Risos eternos. De lá pra cá tenho lido bastante sobre o assunto, e por mais que isso não me leve muito no longe no sentido óbvio da coisa, acho que nunca dá pra dizer que não deu em nada se a gente está aprendendo.

Nesse ínterim, percebi que a cada dia sinto mais vontade de me aventurar em novos formatos e propostas, em especial na ficção. Ora, mas por que ficção?, vocês perguntam, e eu respondo com outra pergunta: ora, e por que não? Como não me seduzir diante da possibilidade de inventar histórias, pessoas e mundos que só existiam na minha cabeça, e transformar sonhos em realidade? As pessoas dizem que médicos gostam de brincar de Deus, mas cá com meus botões, acho que ninguém brinca tanto de ser Deus quanto autores de ficção. Seja num pedaço de papel ou na tela de um computador, transformamos palavras em histórias que não viveríamos no mundo real, por motivos óbvios ou nem tanto, e podemos viver aventuras ao lado de pessoas que não existem ou que nunca esbarrariam com a gente, não fosse essa nossa mente fértil trabalhando depois do expediente. Eu gosto de ficção, acima de tudo, porque ela me permite esquecer dos meus problemas e, por algumas horas, que seja, viver num mundo que parece muito mais divertido e interessante, como uma válvula de escape desse mundo que sempre nos cobra demais. Eu gosto de escrever sobre a minha vida e as coisas bestas do meu dia-a-dia, mas mais legal do que escrever sobre isso e ter um monte de gente se identificando, só pensar que eu escrevi um troço completamente aleatório e que mesmo assim não é tão aleatório que as pessoas não possam se identificar. Sei que isso só faz sentido na minha cabeça, mas bear with me.

Sempre tive um carinho especial por fanfics, por exemplo, porque pra mim elas são o jeito mais honesto que as pessoas encontraram de colocar pra fora essa necessidade de inventar histórias e consertar um mundo que às vezes parece errado demais. Parece bobo pra quem vê de fora e não entende, mas eu jamais poderia julgar aquela menina que postava um capítulo novo da sua fanfic do Simple Plan numa comunidade da banda no finado Orkut, e que me mostrou um mundo em que o Pierre era um adolescente qualquer que tinha acabado de se mudar pra uma cidadezinha e de repente encontrava um fantasma do David no seu quarto e os dois viviam um relacionamento problemático com o qual até hoje perco noites de sono. Na vida real, o Pierre continuava sendo feliz com a Lachelle Farrar e o David ainda namorava a horrorosa da Alison Barone, mas enquanto lia um capítulo atrás do outro, eu podia fingir que os dois eram adolescentes angustiados que não faziam ideia do que fazer diante daquele amor proibido e deixar meu coração se partir por isso.

Se desde pequena eu já inventava histórias não era só porque eu tinha uma imaginação muito fértil, mas porque ser a Ana que ia pra escola todo dia, fazia a lição de casa e posteriormente foi pra faculdade, começou a namorar e ir em mais festas do que já imaginou, nunca foi suficiente. Eu gosto da vida que eu levo, mas eu ainda sonho em receber minha carta de Hogwarts, em ser uma elfa ou uma rockstar, e se eu não posso viver tudo isso nesse mundo, que eu pelo menos possa inventar pessoas que vivam isso por mim, num universo paralelo, e, quem sabe, fazer com que mais pessoas vivam isso também, junto comigo. Todas as histórias são sobre nós, afinal de contas, e que continue sendo assim: em Hogwarts, em Panem, na Terra Média, nos Sete Reinos, ou na esquina de casa. A gente escolhe.

i promise

(Talvez eu me matricule no curso, só por via das dúvidas)

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2 Comments

  • Reply Thay 28 de setembro de 2015 at 1:05 AM

    E cadê link do curso, dona Ana? HAHA, gente, fiquei muito na pilha de participar também.

    E fiquei ainda mais feliz quando vi teu comentário lá no blog, saber que você aderiu ao projeto e entrou na dança junto com a gente. Cilada boa é cilada em que participamos unidas, porque sim. ♥

    E, nossa, o que dizer dessa frase incrível? “Eu gosto de ficção, acima de tudo, porque ela me permite esquecer dos meus problemas e, por algumas horas, que seja, viver num mundo que parece muito mais divertido e interessante, como uma válvula de escape desse mundo que sempre nos cobra demais.” Falou muito comigo, pois é isso que sinto. Às vezes a vida é pesada demais, confusa demais e precisamos de um escape para nos manter sãos e sonhadores. E se isso envolve ser uma heroína de distopia, um elfo, um bruxo ou um guerreiro pagão, melhor ainda! Sinceramente, não sei o que seria de mim sem a ficção. Não tenho a pretensão de viver disso, não sou tão boa assim, mas o tempo que tiro para me aventurar nisso é muito valioso.

    E viva a ficção e o poder de sermos quem quisermos ser! ♥

  • Reply Fernanda 1 de outubro de 2015 at 7:51 PM

    Pfvr, cadê o link desse curso?

    Amo escrever ficção. Mesmo que nenhuma dessas histórias tenham sido publicadas ou sequer mostradas à alguém. Escrevo e escrevo e tenho uma pilha de cadernos da época da escola (lá de 2001, 2002) que guardo com carinho até hoje porque foi quando comecei a escrever. Hoje coleciono arquivos de word em pastas no OneDrive. Não terminei várias das histórias que comecei, mas todas elas surgiram das viagens de trem/ônibus quando, com música no ouvido, minha mente vagava pra aventuras que eu nunca poderia viver sendo eu, e então surgiam os personagens, os cenários, as relações, toda uma vida paralela (e muito mais legal) que a minha própria. Ás vezes até acho que invento histórias demais e perco mais tempo com elas do que vivendo minha vida, mas enfim.

    Todo mundo é capaz de inventar histórias. E se existe um prazer que esteja à altura de escrever é ler, e ler sobre outras pessoas e seus mundos e suas ideias.

    E é bem isso mesmo: “Eu gosto de ficção, acima de tudo, porque ela me permite esquecer dos meus problemas e, por algumas horas, que seja, viver num mundo que parece muito mais divertido e interessante, como uma válvula de escape desse mundo que sempre nos cobra demais.” Resumiu numa frase tudo o que sempre pensei ♥

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