COM AMOR

1. YOUR BEST FRIEND

Inspirado nesse desafio incrível aqui.

Querida J.,

Sei que faz pouco tempo desde a minha última carta, mas espero que você ainda tenha paciência pra ler mais uma. Sempre gostei muito de escreve-las, afinal de contas. Gosto de palavras que se unem de um jeito bonito num papel de carta qualquer (não seria muito mais legal se eu estivesse escrevendo isso tudo à mão, num papel bem bonito? seria sim, é claro), mas gosto, principalmente, de coisas cafonas, e cartas são cafonas pra cacete. Coisas cafonas têm essa imagem estranha e meio desagradável, mas com um gostinho de comfort food, sabe assim? Sei que não faz o menor sentido, mas bear with me. Talvez a gente faça piada disso amanhã.

Você sempre disse que eu era boa com palavras e eu tento acreditar nisso na maior parte do tempo. Lembra como você ficou brava quando eu disse que ia abandonar o blog antes desse? E como nós comemoramos quando eu decidi voltar, como se o fato de eu estar escrevendo fosse realmente importante? Parece que foi em outra vida, mas não faz nem cinco anos que isso aconteceu e você estava contando os dias pra eu voltar pra Brasília, só pra gente poder finalmente comemorar meu aniversário de maneira apropriada. A gente chegou a comemorar ou foi só mais um dos nossos planos furados que foram rapidamente deixados de lado? Eu adoro nossos planos que são deixados de lado, todos eles – na minha cabeça todos aconteceram e as lembranças são ótimas (mas a gente ainda precisa conhecer aquela lanchonete que vende panquecas no café da manhã, sério mesmo).

Como você sabe, já tive um sem fim de melhores amigas. A maioria se perdeu no tempo, talvez na vida; algumas me magoaram de verdade e saíram de cena pelo mesmo motivo. Não que eu fique remoendo essas coisas o tempo inteiro. Passou, vida que segue, e tudo bem. O que eu nunca te disse, no entanto, é que nossa amizade sempre me pareceu muito diferente de qualquer outra, essencialmente falando. Por fora, as mesmas risadas e piadas de sempre; por dentro, a certeza de que eu finalmente tinha encontrado alguém que não era minha família nem meu namorado, mas com quem eu podia ser eu, e apenas eu, em tempo integral, sem me preocupar em ser delicada e muito certinha o tempo inteiro (dois adjetivos que definitivamente não combinam comigo, mas que eu tento incorporar na maior parte do tempo pra não sair por aí ofendendo ninguém). Não sei se essa é uma consequência de estar envelhecendo (eu diria que estamos amadurecendo, mas sinceramente sinto que estou mais envelhecendo do que amadurecendo de fato) e de repente nós não nos importamos mais em agradar ninguém além de nós mesmos, tão diferentes daqueles adolescentes que fingiam ser perfeitos o tempo todo, e isso mudou muito minha percepção sobre amizades de um modo geral. Eu não aceito nada menos do que isso, principalmente porque não vale a pena tentar fingir ser uma pessoa que não sou pra conquistar alguém, e incrivelmente tem dado tão certo que não é difícil me ouvir dizendo que tenho os melhores amigos do mundo.

Digo tudo isso não pra fazer ciúmes ou olha, veja só como sou cheia de amigos. Mas percebe como a nossa dinâmica foi importante pra mim? Percebe que eu talvez ainda estivesse perdendo meu tempo ao lado de pessoas que só estavam ali pra me colocar pra baixo, nunca pra cima, não fosse você cruzando meu caminho em algum momento no final (final?) da nossa adolescência?

2015 tem sido um ano puxado em muitos sentidos, e não foi diferente pra gente. Entre empregos perdidos e namoros desfeitos, nos sentimos cada vez mais nossas e donas do mundo, sem anular nossas inseguranças e nosso medo da vida adulta de um modo geral. Me surpreendi esses dias quando conversamos sobre nossos planos pro futuro e você disse que às vezes sentia que ia sair da faculdade sem ser boa em nada de verdade, e pra mim, que me sinto assim o tempo inteiro e que sinceramente não sei onde isso vai dar, é reconfortante saber que eu não estou sozinha, e que você não diz que sabe exatamente o que eu estou falando quando conversamos sobre isso só pra me deixar tranquila, mas porque você sabe de verdade como é se sentir assim. Sei que não é fácil, mas acho que fica menos pior quando a gente tem alguém segurando nossa mão.

Muita coisa mudou desde que nos conhecemos, mas hoje enxergo tudo isso mais como um processo natural da vida e não como o fim do mundo. Eu ainda sinto ciúmes de vez em quando, afinal sou eu, essa pisciana maluca que quer ser dona de todo mundo, mas se nossa última briga (?) me ensinou alguma coisa foi a que nós não precisamos estar juntas o tempo inteiro pra estarmos próximas; que existe vida além desse eu&você, e isso não é ruim, muito pelo contrário: no fundo, a gente sabe que sempre tem pra onde voltar, não importa o que aconteça. Assisti um episódio de Grey’s Anatomy esses dias (uma série que, aliás, tem me surpreendido bastante, acho que você ia gostar), e em determinado momento Meredith, a personagem principal, chega pra um de seus melhores amigos e diz que não importa quanto tempo passe, sempre que ele olhar pra trás, ela estará lá. Sinto a mesma coisa quando penso em nós duas, agora mais do que nunca – e amo que as coisas sejam assim.

Só queria que você soubesse que, independente do que aconteça hoje, amanhã ou daqui 30 anos, nossa amizade sempre vai ser uma das coisas mais importantes pra mim. Que você pode me chamar sempre, seja pra reclamar do tempo, contar um super babado, conversar sobre feminismo ou desabafar sobre a vida; que eu posso ser enrolada, que eu erro pra caramba e sou meio dramática às vezes, mas que não faço nada disso por mal (inclusive me desculpa se em algum momento eu fiquei tão mexicana ou fiz alguma merda tão grande que cheguei a magoar você). Que você sempre vai ser a irmã que eu não tive, minha irmã de alma, e que eu tenho muito orgulho de tudo que a gente construiu até aqui.

Com amor. 

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5 Comments

  • Reply Priscila Dias 23 de setembro de 2015 at 11:57 AM

    Sobre cartas: amo!
    Sobre cartas para amigas: amo duplamente.

    Adorei o desafio, posso participar?? rsrs
    Bjs!

  • Reply Fran 23 de setembro de 2015 at 12:32 PM

    Esse desafio das cartas é uma das coisas mais bonitas que vi pela internet <3 E amei essa sua. Acho ótimo porque sempre tive um monte de melhores amigas que se foram com o tempo e, hoje, gosto de saber que se tenho pouquíssimas amigas, é porque nos identificamos bem mais, de uma forma natural e sem forçar a barra. E que elas estão ali, mesmo que não todos.os.minutos, mas eu sempre sei onde encontrá-las. Não sei se tô emotiva demais hoje, rs, mas achei isso muito lindo!

  • Reply Dasty Sama 23 de setembro de 2015 at 5:05 PM

    Que carta linda ♥ Amo cartas e recentemente também escrevi uma no meu blog (que até lembrou vagamente a sua, mas não é sobre amizade e sim amor haha). Adorei!

  • Reply Yuu 23 de setembro de 2015 at 7:49 PM

    Ana, que legal você ter começado a participar desse desafio! Além de ser um ótimo exercício de escrita, estou sentindo que vai me ser útil para desabafar umas coisas que eu guardo há muito tempo. No começo tive receio de que seria julgada, mas até agora o retorno está sendo bem positivo de ambos os lados – dos meus leitores e de mim mesma. Às vezes bate aquela dificuldade em saber o que escrever, mas a gente sempre dá um jeito de seguir em frente.

    Sobre a sua carta, identifiquei muita coisa da relação da minha melhor amiga com a sua, mas principalmente da parte em que aprendemos que não precisamos estar juntas para estar perto, sabe? Quando era novinha eu tinha ciúmes até do ar que eu respirava, e ficava triste só de pensar nos bons tempos que minha amiga podia ter quando minha mãe não me deixava participar de algumas coisas com ela. Mas, hoje eu mudei minha forma de pensar e vejo que o modo como nós respeitamos nossas vidas separadas faz com que aproveitemos mais o tempo que passamos juntas. Amor de amiga é tudo de bom.

    Beijinhos. :*

  • Reply Thay 23 de setembro de 2015 at 10:04 PM

    AIN, que linda você aderindo ao desafio! ♥

    Ele mata a minha paciência de vez em quando, mas no final das contas está sendo muito interessante participar! E fico mais feliz ainda de ver gente linda como você entrando no bolo! YAY!

    E sobre sua carta, awn, que coisa mais amor. Tua amiga certamente ficará encantada quando você a enviar (digo, você TEM que mandar pra ela, de preferência à moda antiga!) porque eu aqui, que não sou o alvo, fiquei achando tudo digno de nota. Também já vi inúmeras melhores amigas na vida, mas quando a gente descobre a ‘the one’, tudo muda. É com ela que a gente pode ser real e sem se preocupar se estamos chocando ou agradando. Não precisamos estar sempre juntas para estar perto, e não precisamos fingir absolutamente nada.

    Bem vinda ao desafio, Ana! Vou aguardar ansiosamente pelas próximas! =**

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