QUERIDO DIÁRIO

23 DE JANEIRO DE 2017

We’re all bad guys in someone’s story. 

Alguns dias atrás, sonhei com uma pessoa com quem já não falo há bastante tempo e em quem penso cada vez menos a respeito. Não é que eu não goste dessa pessoa ou qualquer coisa assim: a vida aconteceu e nós nos afastamos para trilhar caminhos radicalmente opostos, cada uma em busca dos próprios sonhos. Já faz bem mais de um ano que isso aconteceu, mais ou menos o mesmo tempo que não nos encontramos, um pouco menos que não nos falamos e que eu não procuro mais saber sobre a vida dessa pessoa. Ou seja: doeu, mas sobrevivi para contar essa história – e depois enterrá-la nas profundezas do inferno, que é o que eu estou tentando fazer agora, risos.

O problema é que sonhar com tudo isso depois de tanto tempo me fez desenterrar uma porção ridícula de sentimentos que eu jurei de pé junto que já estavam enterrados há décadas – rejeição, saudade, tristeza, decepção, raiva, frustração -, até que de repente eles estavam empilhados em cima de mim; todos eles, até me soterrarem de uma vez. A vida: em um momento, está tudo correndo bem, sem grandes dramas, até que no momento seguinte tudo se transforma num dramalhão mexicano que você não sente a menor vontade de viver de novo. Chega a ser vergonhosa a quantidade de vezes que eu pensei nesse assunto desde o fatídico dia, e isso só piora à medida que eu penso que o aniversário (!) dessa pessoa está chegando e que já é o segundo ano que vamos passar a data separadas. É mais ou menos nesse momento que eu começo a chorar por tudo que não aconteceu, por tudo que não vivemos. Não foi culpa de ninguém, como ambas sabemos, e o que tinha que acontecer, aconteceu. Mas é vergonhoso que, tanto tempo depois, eu ainda não tenha conseguido seguir em frente – pelo menos, não completamente – e que mesmo depois de me machucar tanto, eu passei os últimos dias pensando seriamente em puxar assunto com essa pessoa, numa tentativa fadada ao fracasso de reatar antigos laços.

Trouxa: teu nome é Ana Luíza.

No sonho, eu estava justamente tentando construir uma nova relação com essa pessoa que, por sua vez, fazia e acontecia pra cima de mim, exigindo coisas absurdas em troca de uma amizade que não passava de fachada. Eu não era burra, eu sabia que o que estava acontecendo: sabia de todas as vezes que era ignorada, que era feita de idiota, que era deixada na mão. Mas aí que tá, porque mesmo sabendo de tudo isso, eu continuava me sujeitando àquela situação, continuava permitindo que aquela pessoa me tratasse tão mal, só para no final admitir pra mim mesma que aquela já era uma página virada da minha vida, que não tinha como tentar reconstruir uma ponte se a pessoa do outro lado não estava disposta a construí-la junto comigo, e que era melhor seguir em frente do que ficar dando murro em ponta de faca. Mesmo assim, eu sofri por abrir mão de uma pessoa que teve um papel tão essencial na minha vida, e talvez por isso, por mais longe que eu esteja de onde nos desencontramos, eu continuo sempre olhando para trás, na esperança de que ela esteja logo ali, arrependida por ter virado naquela esquina ao invés de ter seguido em frente rumo à próxima.

Tendo destrinchado o que aconteceu exaustivamente ao longo do tempo, hoje eu já consigo ter plena consciência de que o ponto final da nossa história não foi, necessariamente, minha culpa ou culpa das escolhas que eu fiz – embora eu as carregue em alguma medida -, mas algo que já estava ali o tempo inteiro e que aconteceu porque tinha que acontecer, como uma consequência de todas as escolhas que nós fizemos ao longo do caminho, e que acontece com muitas pessoas, o tempo todo. Se tudo nessa vida tem começo, meio e fim, nós inevitavelmente chegaríamos a um ponto final, por vontade própria, de uma ou de outra, porque o destino resolveu agir de um jeito ridículo, ou tudo junto e misturado. Eu sofri muito, chorei por várias noites seguidas e até hoje ainda imagino uma realidade alternativa em que a gente ainda troca mensagens todos os dias, faz coisas juntas e onde todos os erros foram perdoados para dar lugar a uma nova fase – muito mais madura e feliz.

No entanto, por mais que a vontade de recuperar laços antigos seja muito real, eu já não tenho mais tanta certeza se essa seria uma boa ideia – e basta que eu fuce as redes sociais dessa pessoa agora para ter certeza absoluta. Já não somos mais as mesmas pessoas e eu tenho certeza absoluta que a minha versão atual e a dela não se dariam tão bem como nossos “eus” do passado. E talvez por isso a dor seja ainda maior: porque eu não sinto falta apenas de algo que existiu, mas de algo que poderia existir, mas nunca vai. Das festinhas de aniversário que nunca foram, dos presentes nunca trocados, das coisas nunca ditas, das promessas feitas que nunca serão cumpridas. Eu me sinto traída até hoje e acho um desaforo ter sido levada a acreditar em tantas coisas que nunca vão existir – nem nessa vida, nem em outra -, e quem está dizendo isso é a pessoa que diz que a gente nunca deve dizer nunca. Vê como as coisas são?

Já me disseram que nem todas as pessoas estão destinadas a estar nas nossas vidas para sempre, e eu acredito nisso até. Já me disseram, também, que às vezes é preciso que duas pessoas se afastem para se reencontrarem em algum ponto do futuro e se conectarem novamente, não como no passado, mas construindo uma relação completamente nova em cima das memórias destroçadas de outrora. É algo que eu também acredito, demais até, mas que não acho possível – não quando eu demorei quase dois anos para voltar a confiar em pessoas e estabelecer algum tipo de relação íntima com elas, e continuo catando os caquinhos de uma relação que deixou traumas tão profundamente enraizados em mim.

Portanto, da próxima vez que eu tiver um sonho esquisito como esse (de preferência, nunca mais), me deem um puxão de orelha e me lembrem que eu não nasci para sofrer e que não quero fazer o papel da mulher bêbada que liga pro ex para falar coisas das quais vai se arrepender no dia seguinte. Grata.

(Espero que isso nunca aconteça, tho.)

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2 Comments

  • Reply Natália Oliveira 27 de janeiro de 2017 at 3:06 PM

    Essa situação é muito complicada. Eu tenho uma amizade dessas e, olha, não compensa nem sonhar sobre. Aos poucos eu estou tentando aceitar que vou ter que desapegar antes que eu fique realmente mal, mas não é fácil. Ainda mais quando você tem uma amizade de anos, que acha que vai durar pra sempre e percebe que ela te faz mais mal do que bem. Pesado…
    Eu sei que ninguém vai substituir a amizade perdida e que a gente acaba ficando com um pé atrás com as pessoas, mas olha: o mundo é cheio de gente incrível. Acho que é impossível achar alguém que compartilhe TODAS as suas opiniões e visões de mundo, mas tem muita gente lá fora querendo só concordar em discordar, ter uma amizade pacifica e tranquila, sem muitas exigências. Sem contar que existem pessoas que tem muito pra ensinar. Eu estou tentando me apoiar nisso: por que perder tempo com alguém que quer meu mal (ou que me faz mal, mesmo sem querer, mas não quer mudar isso) se tem gente lá fora querendo me ensinar coisas e aprender coisas que eu tenho pra ensinar? Pessoas querendo viver coisas incríveis, por mais simples que sejam, sem ter que fazer mal pra alguém ou estar por cima de alguém? Sei que é clichê, mas não vale a pena.
    Espero que você tenha força pra lidar com esse momento: você super não nasceu pra sofrer.
    Beijos

  • Reply Você-deve-saber 16 de fevereiro de 2017 at 5:38 PM

    Incrivelmente, eu ainda leio. :)

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