COM AMOR

3. YOUR PARENTS

Inspirado nesse desafio incrível aqui

Queridos mamãe e papai,

Uma vez me disseram que uma família não é formada por pessoas que dividem o mesmo sangue e sobrenome, mas por aquelas que dividem a vida – e uma casa – com você, e que todo o resto eram apenas parentes. Na época, eu provavelmente sorri e acenei, meu jeitinho (como vocês bem sabem) de evitar qualquer conflito desnecessário, mas eu nunca concordei muito com essa definição, embora eu concorde que uma família vai muito além de sobrenome e laços sanguíneos.

Nós nunca fomos uma família tradicional. Não tradicional no estilo comercial de televisão, dessas famílias que aparecem juntas tomando café da manhã juntos e sorrindo o tempo inteiro, perfeitos até a página três. Mas nós também nunca moramos na mesma casa (pelo menos não o suficiente pra eu me lembrar disso), nunca fizemos refeições juntos, nunca fomos ao médico juntos e vocês nunca discutiram juntos as minhas notas ou o meu futuro ou seja lá o que pais discutem sobre a vida dos filhos. Essa, muito provavelmente, foi a intenção de vocês quando se casaram, quase dez anos antes de me trazerem ao mundo, mas coisas acontecem o tempo inteiro e nós nem sempre temos controle suficiente para levar exatamente a vida que queremos e planejamos ter. Eu não sei se vocês se arrependem de alguma escolha que fizeram no passado ou se teriam feito algo diferente se pudessem, mas eu queria que vocês soubessem desde já que eu, nem por um minuto sequer, mudaria o que nós temos.

Sempre que alguém descobre que sou filha de pais separados, a primeira reação é imediatamente achar que eu sofri um bocado e que essa é, muito provavelmente, uma grande questão na minha vida. É verdade que nem sempre foi fácil (especialmente pra você, mãe) e é bem possível que eu tenha tido alguma dificuldade ao ter que explicar todo ano por quê eu não dava presente de dia das mães pra minha mãe ou por quê meu pai nunca ia me buscar na escola, mas isso não quer dizer que eu tenha tido uma infância ruim, muito menos que tenha crescido traumatizada, muito pelo contrário. Talvez nós sejamos infelizes à nossa própria maneira, como em “Anna Karenina”, mas nós também sempre fomos muito felizes, e o amor, que é o mais importante, sempre esteve ali. Em todos esses anos, eu nunca, nem por um minuto sequer, me senti menos amada por não ter vocês dois juntos o tempo inteiro do meu lado, porque estar junto não é físico e vocês sempre estiveram ao meu lado do jeito que puderam.

Eu não tento explicar nossa dinâmica para outras pessoas porque, a não ser que elas tenham vivido algo muito parecido, a maioria realmente não entende. Nas histórias que as pessoas contam sobre separações, sempre existe uma parte que sai mais machucada do que a outra e eu acho que isso não foi diferente aqui. Mas vocês passaram por cima de tudo isso e conseguiram construir uma relação de amizade, ainda que distante. Vocês nunca brigaram pra ver quem ia ficar comigo (eu sei que você jamais faria isso com minha mãe, pai) e nunca discutiram na minha frente, nem uma vezinha sequer, e talvez por isso eu tenha crescido tão tranquila em relação à nossa realidade. Hoje eu sei que vocês não são perfeitos, porque vocês são, antes de mais nada, seres-humanos, mas eu agradeço por terem sido tão maduros e colocado meu bem-estar sempre em primeiro lugar. Parece óbvio quando a gente fala assim, mas eu sei que existem muitas pessoas por aí que não têm a mesma sorte, e eu me sinto verdadeiramente privilegiada por ser filha de duas pessoas tão especiais.

É por isso que eu jamais seria capaz de não chamar vocês de minha família. Porque vocês são a minha família. Vocês foram as primeiras pessoas que eu conheci nesse mundo e são, talvez, as únicas pessoas que eu tenho certeza absoluta que sempre vão estar ao meu lado, não importa o que aconteça. Aqueles que vão torcer sempre por mim e que jamais vão querer o meu mal, que sempre estarão prontos para me defender de qualquer coisa. Vocês são o meu refúgio, aqueles em quem eu mais confio nesse mundo inteirinho – e não é porque a gente não divide uma casa ou uma rotina que isso vai mudar.

Sabem, vocês sempre estão prontos pra dizer o quanto eu sou importante e como vocês me amam tão incondicionalmente, mas acho que eu nunca disse que vocês são as pessoas mais preciosas da minha vida e que eu agradeço todos os dias por ter nascido exatamente nessa família e por ser justamente filha de vocês. Sei que se não fossem vocês, também não seria eu, mas eu gosto de acreditar que nesse universo enorme e cheio de possibilidades, alguma força superior fez com que eu viesse parar justamente na vida de vocês, e aí sim, eu pudesse me tornar a pessoa que sou hoje.

Eu demorei muito tempo para valorizar o que vocês fizeram por mim em todos esses anos e demorei muito mais tempo tentando ser uma pessoa completamente diferente de vocês, praguejando na frente do espelho por todas as características herdadas, só pra crescer e me dar conta que, afinal de contas, não somos tão diferentes assim. E que eu não consigo me imaginar sendo uma pessoa diferente, mesmo com todos os defeitos, mesmo que eu tenha sonhado tantas vezes em ser loira e ter os olhos claros. Nós somos muito diferentes, mas somos também muito iguais, e quando eu me olho no espelho eu tenho, mais uma vez, a certeza de que vocês sempre vão estar comigo. No meu cabelo que não é liso nem enrolado, no nariz que deveria ser reto, mas que tem um ossinho ali no meio que muda absolutamente tudo, na sobrancelha fininha ou na cor dos meus olhos. Vocês sempre vão estar comigo, não importa onde eu esteja e eu espero que, quando vocês estiverem preocupados demais com o caminho que eu estou trilhando – não porque estou fazendo alguma coisa errada (não estou), mas porque eu sempre quis voar pra longe, bem longe, e vocês nunca souberam lidar muito bem com isso -, se lembrem disso também e, acima de tudo, confiem na criação que vocês me deram, nos valores que vocês me ensinaram. O resto parece muito pequeno quando a gente lembra dessas coisas, prometo.

Hoje, no entanto, eu queria agradecer. Agradecer por todas as vezes que vocês me confortaram e me deram colo, por todas as vezes que vocês confiaram em mim e no meu potencial, por todo o amor do mundo – que não foi pouco. Por todos os presentes, por todos os passeios, por todas as conversas e por todas as brigas também, porque elas me ensinaram demais. Por terem me incentivado a ser a pessoa que sou hoje e por se orgulharem da mulher que eu me tornei, mesmo que eu seja tão diferente de vocês às vezes. Obrigada por terem me dado limites, por me ensinarem que a vida é muito mais do que aquilo que é socialmente esperado da gente e que o mundo não gira ao redor do meu umbigo. Obrigada por me darem a oportunidade de fazer minhas próprias escolhas, por nunca me forçarem a seguir um caminho que não era meu, mesmo que vocês tenham sonhado com ele desde que eu nasci. Obrigada por respeitarem meus sonhos, por nunca ridicularizarem minhas vontades e por sempre celebrarem minhas conquistas. Por nunca terem tentado me limitar de alguma forma, por nunca terem desvalorizado meus sentimentos e por sempre acreditarem em mim, mesmo quando eu já não acreditava mais.

Obrigada por terem, principalmente, me dado asas para voar pra onde eu quisesse, mas muito obrigada, também, por terem me ensinado o caminho de volta pra casa. A vida pode não ser perfeita e talvez nós não tenhamos sido a família que vocês sonharam um dia, mas eu tenho certeza que tirei a sorte grande por ter pais como vocês. Muito obrigada por tudo, hoje e sempre.

Com (muito) amor.

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2 Comments

  • Reply Marina Matos 30 de julho de 2016 at 12:46 AM

    Que carta mais linda!
    Passou um sentimento muito bom, de harmonia mesmo. Claro que nem sempre deve ter sido fácil – nada é nessa vida, não é mesmo? Mas a relação que vocês construíram juntos é mais forte e mais poderosa do que qualquer convenção social ou ditado popular. Família é quem a gente sente que é. Vida longa a vocês!

    Beijo beijo!

  • Reply Thay 1 de agosto de 2016 at 1:43 AM

    Sharon, que carta mais maravilhosa! Ela está no meu feedly desde que você publicou mas eu queria um momento pra ler com carinho pois sabia que teria só coisa linda. Acho incrível essa facilidade (bem, pelo menos você faz parecer fácil) com que você expressa carinho, às vezes eu me sinto muito travada ou pedante – e detesto isso. E acho que não tem fórmula pra definir família, sabe? Família é aquilo que você sente, é o lar para o qual você sempre pode retornar independente do que aconteça. E isso é lindo. <3
    Espero que senhores mamãe e papai de Sharon tenham lido essa maravilha, eles ficariam encantados!
    Beijo, beijo!

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