COM AMOR

4. YOUR SIBLINGS

Inspirado nesse desafio incrível aqui

Queridos A., G. e F.,

Como vocês estão? Espero que esteja tudo bem. Não sei quanto tempo faz que a gente não se fala, mas sei que faz bastante tempo. Tempo suficiente para que vocês tenham crescido e se tornado pessoas que eu muito provavelmente não sei quem são, e para que a maioria das pessoas que estão na minha vida não saibam da existência de vocês. Não é uma pena que as coisas tenham acontecido dessa forma? Embora nosso pai tenha se esforçado para que nos tornássemos próximos e até hoje tente criar algum tipo de laço entre nós, a vida nunca permitiu que eu fizesse meu papel de irmã mais velha e fosse uma figura presente na vida de vocês. Não sei se vocês alguma vez sentiram falta dessa presença (não sei se é possível sentir falta de algo que nunca tivemos) ou se tiveram curiosidade de me conhecer melhor, mas me entristece um bocado que eu não tenha tido a oportunidade de fazer parte da vida de vocês.

Eu sempre quis ter irmãos. Sei que esse é, muito provavelmente, o mantra de quase todo filho único, que pede à exaustão por uma companhia. Quero ter um irmão, quero ter um irmão, quero ter um irmão. Mas eu sempre quis mesmo ter um irmão (ou irmã), alguém com quem eu pudesse dividir uma casa, uma família, uma vida. Por mais que meus primos sempre tenham sido muito próximos e tenham suprido essa necessidade imediata de ter alguém com quem dividir a casa, a família e a vida – brigas e muitas histórias pra contar aí no meio -, sei que não é a mesma coisa, e é por isso que eu sinto tanto por não ter tido a chance de construir uma relação assim com vocês. Mesmo que não tenhamos a mesma mãe, mesmo que nossas realidades sejam tão diferentes, eu queria ter, desde o início, construído uma relação de amor e apoio mútuo, a mesma que hoje tenho com meus primos mais queridos.

Lembro da primeira vez que conheci vocês (menos F., que nessa época ainda não tinha nascido). Eu tinha mais ou menos 10 anos e quase não podia me conter de tanta empolgação quando nosso pai sugeriu que eu passasse um fim de semana na casa de vocês. Lembro também que minha mãe não gostou muito da ideia, não porque ela tivesse algum ressentimento com nosso pai ou tivesse qualquer receio de me deixar passar alguns dias com vocês, mas porque ela nunca se sentiu muito confortável com essa história de não me ter dormindo sob o mesmo teto que ela, talvez porque, desde o início, tenhamos sido só nós duas, e não ter a outra ali sempre tenha sido um troço complicado pras duas. Mas ela deixou e com isso eu ganhei um dos fins de semana mais especiais da minha vida, um fim de semana que, embora eu não lembre totalmente hoje, ainda me traz lembranças fragmentadas que são suficientes para me fazer sorrir. Nós brincando juntos, dormindo na mesma cama, fazendo as refeições e dividindo confidências com uma facilidade que só crianças conseguem ter, algo que, muito provavelmente, a gente nunca mais vai ter de novo.

Não é que agora seja tarde demais para construir algum tipo de relação e recuperar o tempo que não tivemos, mas também não é como se não fosse. É uma contradição proposital essa, que torna toda a situação infinitamente mais complexa, mas não é muito real também? Vocês sabem, talvez muito melhor do que eu, que a essa altura já não é mais tão fácil nos aproximarmos. Somos adultos – pelo menos a maioria de nós – e infelizmente somos seres-humanos muito mais complexos e cheios de nuances do que fomos um dia. Aos 10 anos, eu podia simplesmente sentar e brincar com vocês e tudo ficaria bem, mas hoje, quando vejo vocês pelas fotos, eu já não sei mais quem vocês são. Eu não sei o que vocês gostam, que tipo de música escutam, se já estão trabalhando, se estão estudando, o que fazem no tempo livre. São coisas bobinhas, se a gente parar pra pensar, mas são essas coisas bobinhas, tão pequenas que às vezes parecem dispensáveis, que falam muito sobre quem somos e que, justamente por isso, se tornam tão importantes. Muitos anos se passaram desde que nos vimos pela última vez (exceto você, F., que eu não conheço pessoalmente até hoje) e muita coisa aconteceu nesse meio tempo: A. se tornou mãe de uma menininha linda; G. se tornou um homem e F. é um dos meninos mais inteligentes dos quais eu já ouvi falar. Fico feliz de verdade que vocês tenham seguido com a vida de vocês e que, mesmo com todas as dificuldades, tenham se tornado pessoas tão boas – incríveis até -, mas todas essas coisas vividas longe um do outro são coisas que, de um jeito ou de outro, me separam de vocês cada vez mais e eu realmente não sei se hoje seria possível recuperar o tempo que perdemos, nem se eu estou disposta a isso, muito menos se vocês estão.

Não se sintam pessoas horríveis só porque vocês não têm o menor interesse em saber quem é a irmã mais velha de vocês. Esse é um direito de vocês – assim como também é um direito meu -, que não faz de vocês pessoas melhores ou piores, mas humanos, e eu não vou ficar chateada. Demorou muito até que eu aceitasse isso e foi só quando me vi condenando a personagem de uma série do qual gosto muito por não querer conhecer sua irmã por parte de pai que eu me dei conta de que eu e ela não éramos muito diferentes, e que ela, embora parecesse dura e fria num primeiro momento, estava no seu direito. Isso não quer dizer que eu esteja fechada pra vocês, muito pelo contrário, mas fica um pouco mais fácil quando a gente não sente essa obrigação de ser irmã e se fazer presente só porque divide laços sanguíneos com alguém, e é essa obrigação que eu não quero sentir em relação à vocês – muito menos que vocês sintam em relação à mim. Eu estou aqui e vou estar ainda por bastante tempo (pelo menos, assim espero), mas vocês não precisam me procurar por isso, não precisam se sentir confortáveis na minha (quase inexistente) presença ou qualquer coisa assim. Vocês não têm obrigação nenhuma de me amar ou sentir qualquer coisa por mim, e ninguém, nem o nosso pai, pode obrigar vocês a sentirem qualquer coisa. Sei que ele gostaria que nós tivéssemos uma relação mais próxima, mas a vida nem sempre acontece como planejamos, e ele também sabe disso melhor do que ninguém.

Mas eu estou aqui e vocês podem me procurar sempre que quiserem. Não se sintam intimidados e não acreditem em tudo que nosso pai diz. Ele não é mentiroso, claro que não, mas ele só conhece uma versão de mim mesma e essa é, muito provavelmente, a versão que ele apresenta pra vocês – da mesma forma que eu só conheço uma única versão de vocês, que é a que ele me mostra. No fundo, somos todos humanos, e eu acredito que, independente da escolha que fizermos, pelo menos sempre vamos ter as poucas memórias da nossa infância pra onde voltar. Mas eu estou aqui e, no fundo, eu sei que vocês estão aí também – e isso, por enquanto, vai ser o suficiente. 

Com carinho,
Ana. 

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2 Comments

  • Reply Thay 26 de agosto de 2016 at 9:17 PM

    Ai miga, que cartinha dolorida, hein? Sou irmã mais velha, como sabe, e não consegui sequer pensar em como seria a vida sem meus irmãos. Acho que aceitei tão bem esse meu papel que muito sobre minha pessoa tem relação com isso. Mas entendo muito bem sua posição, deve ser um pouco esquisito crescer com irmãos com quem não tem contato. Porém penso que vocês só teriam a ganhar em reatar os laços, sabe? Claro que isso não é tão simples quanto fiz parecer (tão mais fácil falar do que fazer, né?), mas com jeitinho e esforço dos dois lados, tudo é possível. Irmãos podem ser chatos, mas também são bem legais! ♥

  • Reply Manu 1 de setembro de 2016 at 2:49 AM

    Estou dez dias atrasada mas estou aqui porque esse post precisa ser comentado!!!
    Amiga, eu sinceramente nem sei o que dizer, só sentir. Tenho um ~meio-irmão~ também e acho que só quem tem, entende essa confusão. É irmão? Não é? Como faz? Até onde a gente pode ir nas confidências e nas intimidades? Vale a pena abrir a porta da nossa vida pra essa pessoa nova e criar laços? Quando a gente cresce junto, criar laços não é uma opção, mas acho que quando a gente tem essas famílias estendidas sob outros tetos e pode escolher, às vezes o medo deve tomar conta por mais vezes do que deveria. No final das contas, família pode ser complicada e meio estressante, mas tenho a impressão de que o saldo é sempre positivo quando a gente tem afeto. Eu não sei como vai ser entre você e seus irmãos, mas fico torcendo de verdade pra que vocês tenham a chance de dividir mais coisas no futuro. <3

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