COM AMOR

5. YOUR DREAMS

Inspirado nesse desafio incrível aqui.

Queridos sonhos,

Escrever pra vocês é, ao mesmo tempo, muito fácil e muito difícil – uma contradição que é totalmente proposital. Logo que descobri que a próxima carta do desafio seria pra vocês, achei que ela seria, possivelmente, uma das mais fáceis até agora, talvez porque falar sobre algo que faz tão parte de mim, ao ponto de se tornar uma parte tão fundamental da minha vida e da pessoa que sou hoje, mas principalmente daquela que eu quero ser um dia, realmente pareça muito fácil à primeira vista. Nós nos conhecemos muito profundamente e eu sou a única pessoa nesse mundo inteiro que conhece a dimensão real de vocês – que às vezes são pequenos, como um grãozinho de feijão; ora são enormes, ao ponto de me dar medo e paralisar minhas pernas. No início deste ano, um professor perguntou quais eram meus sonhos e eu travei, mesmo que a resposta estivesse o tempo inteiro na minha cabeça – algo que acontece com mais frequência do que vocês gostariam de imaginar. O tempo, no entanto, foi suficiente pra mostrar que, muito além das coisas boas que vocês me trouxeram em todos esses anos, escrever pra vocês – e, principalmente, sobre vocês – também exigia que eu desenterrasse fracassos, coisas que ficaram no passado e que eu talvez não tenha superado tanto quanto gosto de acreditar, além de escancarar fantasmas que ainda me aterrorizam e com os quais eu ainda não sei se sou capaz de lidar.

Ou seja, fácil, mas também difícil.

A maior parte de vocês cresceu junto comigo. São sonhos que eu guardo com muito carinho, mas que já ficaram para trás há muito tempo, e isso não é de modo algum algo ruim, muito pelo contrário. Vocês são sonhos que, a essa altura do campeonato, eu já consigo ter uma relação mais saudável, que não é de cobrança ou decepção, mas que me fazem olhar pra trás e perceber que tudo bem que as coisas não tenham saído exatamente como meu plano de quinze anos atrás e que, pelo menos, eu vou ter vocês sempre guardados na minha memória, como uma lembrança boa da criança que eu fui um dia. Se hoje eu sou essa pessoa que leva sonhos tão a sério e que sonha até demais é só porque, lá atrás, vocês já me ensinaram que sonhar é importante, que acreditar é essencial, e que se não tivermos algo pelo o que almejar, a vida perde muito da sua graça.

Entretanto, existem muitos de vocês com as quais eu ainda preciso fazer as pazes. Sonhos de dez, às vezes menos, anos atrás que foram deixados de lado por questões diversas – pela falta de dinheiro, principalmente, mas também por falta de foco e persistência. Vocês ainda passeiam pela minha cabeça, como uma promessa não cumprida que, no fundo, no fundo, ninguém prometeu, e por mais que eu tente, às vezes é difícil não encará-los com uma certa mágoa. Porque eu queria que cada um de vocês se tornasse realidade, mesmo que ter absolutamente tudo nunca tenha sido uma opção. Seria injusto não admitir que, por trás de todo o ressentimento do mundo, vocês ainda fazem meu olho brilhar com força e meu coração bater mais forte, e que em uma realidade alternativa seriam vocês a minha realidade, porque é assim que eu gosto de pensar. Mas, a essa altura, eu já tenho a capacidade de compreender que mesmo o fracasso também foi importante e que a frustração de não ter todos os meus sonhos realizados também me ensinou um bocado. Por mais que a Ana de dez anos atrás nem sempre me olhe com um sorriso no rosto, mas com a descrença com a qual jovens adolescentes, em toda a sua complexidade, olham para adultos que se tornaram pessoas tão comuns, eu consigo entender que isso foi necessário para que eu quebrasse muitas das minhas próprias expectativas e entendesse que o mundo não é uma máquina de realizar desejos, mas uma caixinha de surpresa, que reserva inúmeras reviravoltas pelo caminho – algumas incríveis, outras nem tanto – e são essas reviravoltas, no final das contas, que constroem nossas histórias. Se soubéssemos exatamente como seria o caminho, de nada valeria a jornada.

A maior parte das minhas questões com a vida adulta são justamente fruto dessa bolha privilegiada que eu vivi durante muitos anos e que, quando estourou, me jogou em um mundo com o qual eu nunca fui inteiramente capaz de lidar. Embora eu ainda esteja bem longe do ideal que criei de mim mesma aos 23 anos, foram vocês os responsáveis por, de certo modo, me prepararem para o mundo que esperava – um mundo muito maior do que aquele em que eu cresci e com pessoas com sonhos tão importantes quanto os meus. Mesmo assim, vocês encontraram espaço para crescer para além de qualquer fronteira e foram capazes de me mostrar que, se tantas pessoas chegaram lá – onde quer que esse tal “lá” seja – então eu também sou capaz de chegar onde quiser. Meu esforço nem sempre vai ser capaz de me fazer chegar nos lugares onde eu sonho em estar um dia, mas isso não significa que eles não me ajudem a chegar num lugar – um lugar que talvez seja muito melhor do que aquele que eu e vocês imaginamos juntos.

Embora eu tenha custado a admitir isso pra mim mesma, no entanto, é verdade também que muitos de vocês ainda me dão medo. Não só porque vocês são enormes, difíceis, porque cresceram muito além da conta, mas porque eu morro de medo de que, perdida no mundo de vocês, eu termine me perdendo de mim mesma. Dizem que piscianos têm essa tendência a sonhar alto demais e, muitas vezes, ultrapassar os limites daquilo que é considerado saudável até chegar em um ponto em que a realidade se tornou tão brutal, que ligar o modo automático e viver no mundo dos sonhos em tempo integral se torna muito mais fácil, para não dizer a única alternativa válida. Um dos meus filmes favoritos conta justamente a história de um cara que perdeu a mulher porque ela, de repente, se deixou perder nos próprios sonhos de tal modo que, ao se perder em uma realidade construída sob medida, tirou a própria vida para viver aquilo que ela acreditava ser sua única realidade. A primeira vez que assisti ao filme, achei a personagem burra, estúpida, idiota. Aos poucos, no entanto, percebi nela muito de mim mesma, e por mais que doa admitir isso, cada vez mais eu consigo enxergar o quanto eu e ela estamos ligadas – e foi preciso que eu passasse por períodos terríveis na minha própria vida para reconhecer que entre eu e ela existiam muito mais semelhanças do que acreditava minha vã filosofia.

Embora eu nunca tenha pensando em nada tão extremo e o contexto no qual ela está inserida seja cheio de artifícios possíveis apenas na ficção, eu consigo enxergar a linha – às vezes muito tênue – que separa a Ana que sonha alto e corre atrás dos próprios sonhos, mesmo quando morre de medo deles, daquela que prefere rejeitar sua própria realidade em prol do mundo que construiu em sua cabeça. Conversando sobre isso com a Yuu, durante um dos momentos mais difíceis pelos quais passei esse ano, fui pega de surpresa pela genuína – e inevitável – preocupação dela. Até ali, eu não acreditava que vocês pudessem ser um problema na minha vida para além da minha dificuldade nata de lidar com o fracasso, mas não demorou muito para que eu mesma reconhecesse na preocupação dela um motivo pra que eu mesma desse mais atenção ao que estava acontecendo e procurasse ajuda antes que fosse tarde demais. Eu amo cada um de vocês, com uma força que nem sempre parece existir em mim, mas eu também preciso admitir que lidar com alguns de vocês sozinha era exaustivo e que eu precisava passar por isso de forma apropriada antes que toda essa situação levasse embora de vez a minha sanidade. Por mais que vocês sejam uma parte importante – enorme, fundamental – da pessoa que sou hoje, alguns de vocês cresceram ao ponto de se tornarem monstros e é preciso que eu aprenda a lidar com vocês da melhor forma possível antes que vocês se tornem os vilões da minha história, e não meus aliados, aqueles que me motivam a colocar um pé na frente do outro e seguir o meu próprio caminho mesmo quando as coisas ficam difíceis, que é o papel que vocês sempre desempenharam na minha vida.

Talvez vocês fiquem chateados e eu entendo. Mas eu precisei reunir um bocado de coragem para escrever sobre isso e eu espero que vocês saibam reconhecer isso também – e aí, abram um sorriso, mesmo que meio a contragosto, ao perceber que a garotinha que cresceu junto com vocês está tomando as rédeas da própria vida, ganhando perspectiva e seguindo seu caminho como deve ser. No final das contas, eu sempre vou ser a mesma pessoa que acredita e tem muita fé – em Deus, nas pessoas, na vida, em vocês – e isso é algo que não vai mudar jamais. Se Izzie Stevens, que sempre foi minha spirit animal, continua acreditando em tantas coisas mesmo depois do caos se instalar em sua vida, nada mais justo que eu faça jus à ela e siga meu caminho de mãos dadas com vocês, acreditando que juntos somos capazes de conquistar o mundo. Eu acredito, acredito, acredito. Obrigada por continuarem comigo, fazendo meu coração bater com força mesmo depois de todos esses anos.

Com amor.

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1 Comment

  • Reply Tany 5 de dezembro de 2016 at 1:46 AM

    Esse foi um dos textos mais bonitos que li nos últimos tempos. Sério.

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