COM AMOR

6. A STRANGER

Inspirado nesse desafio incrível aqui

Hello stranger,

Antes de mais nada, me perdoe por ser tão brega. Falhei miseravelmente em fugir do clichê de Closer – um filme que, a propósito, nunca assisti. Vontade não me falta, mas talvez uma dose extra de tempo e um pouquinho menos de coisas pra fazer me fariam bem. Por enquanto, só posso torcer para que você entenda a referência e que, de preferência, não desista de mim já na largada.

Talvez você esteja se perguntando por que diabos uma pessoa que você não conhece, de repente, resolveu escrever uma carta pra você. Eu estaria me perguntando a mesma coisa se estivesse no seu lugar. A verdade no entanto é que, embora pareça que eu estou escrevendo diretamente para você, quando comecei esta carta a ideia era justamente que eu escrevesse para qualquer pessoa – você só foi sortuda ou sortudo o suficiente para a encontrar do outro lado. Aliás, eu adoraria saber como ela foi chegar em suas mãos, mesmo que esse seja uma coisa que, muito provavelmente, eu jamais vou saber. Queria saber quem é você, o que você faz, quais são suas opiniões sobre a vida, o universo e tudo mais. Infelizmente, são coisas que eu não vou descobrir e isso talvez seja o mais difícil em escrever para você: não existe uma troca, não existe essa via de mão dupla que é o que transforma estranhos em conhecidos, para então se tornarem amigos ou qualquer outra coisa, se for o caso. Por isso é tão difícil escrever pra você.

Às vezes fico pensando como, até algum tempo atrás, algumas das pessoas mais importantes da minha vida eram mero estranhos pra mim. Pessoas sem as quais hoje eu sou absolutamente incapaz de viver, mas que em algum momento não estiveram na minha vida. Eu olho para trás e tento lembrar de como era a minha vida sem elas ali, como foi que nós nos conhecemos, qual foi o nosso primeiro contato, mas a maior parte dessas lembranças ficaram perdidas no tempo – às vezes longo, às vezes nem tanto – e dão lugar ao sentimento que é construído aos poucos ou muito rapidamente. Eu consigo lembrar de coisas que aconteceram antes, como a primeira vez que eu entrei no blog daquela amiga que mais tarde se tornaria minha irmã de alma e descobri que tínhamos gostos tão parecidos, ou então da primeira conversa que tive com aquela que hoje sei que é a mesma pessoa que eu – com quem eu até divido o nome -, só com um cabelo diferente e olhos azuis. Mas eu nunca consigo lembrar quando é que nós ficamos amigas de verdade, quando foi que eu comecei a me sentir segura o suficiente para dizer que elas eram minhas amigas e compartilhar minha vida com um honestidade que, infelizmente, reservo para poucos.

Recentemente, em uma sessão com a minha psicóloga, fui obrigada a ouvir que boa parte das minhas inseguranças com as pessoas nasceram de um rompimento que tive no ano passado, com alguém que eu acreditava ser a minha amiga até, de repente, não ser mais. Era algo que eu já sabia, é claro, mas que foi difícil de ouvir de uma pessoa que me conhece faz tão pouco tempo e que não conhece a outra metade envolvida. Desde então, tenho pensado um bocado na minha relação com essa pessoa e como antes de ser minha amiga, ela também já tinha sido uma estranha pra mim. Então a vida aconteceu: nos tornamos amigas, depois muito amigas até o dia que nossa amizade acabou e, mais uma vez, ela se tornou uma estranha, alguém que eu não sei do que gosta, quem são os amigos, se está feliz, triste. Às vezes vejo suas fotos em alguma rede social e é com uma tristeza genuína que eu me dou conta de que já não conheço aquela pessoa. Que embora ela me procure às vezes para falar de coisas pontuais, não sabemos mais quem são as pessoas do outro lado, quem elas se tornaram nesse meio tempo em que nos afastamos e deixamos de ser amigas.

Eu sempre tento dizer pra mim mesma que isso é algo natural. Que as pessoas passam pela nossa vida e nem sempre estão destinadas a ficar por muito tempo. Mas eu fico triste de saber que, entre todas as coisas pelas quais ela poderia ser lembrada, a memória que ficou pra mim não foram apenas dos dias bons, das tardes comendo gelatina, das conversas que duravam um dia inteiro, da vez que eu passei mal no shopping e nós voltamos pra casa e assistimos Clube dos Cinco, eu deitada enquanto ela mexia no meu cabelo; mas dos dias ruins, do dia em que brigamos feio pela primeira e última vez, das palavras duras que ouvi, do expediente que precisei interromper para chorar cinco minutos no banheiro. Eu não queria que nosso relacionamento ficasse na minha memória como aquele que fez com que eu me perdesse, aquele que fez com que eu pensasse duas vezes antes de me abrir completamente com outra pessoa porque eu nunca teria nenhuma garantia de que ela não sairia correndo na primeira oportunidade, tão logo descobrisse quem eu verdadeiramente era.

Uma amiga me disse uma vez que nosso maior erro é achar que as pessoas são muito mais do que simplesmente pessoas, e que elas erram, metem os pés pelas mãos, fazem besteiras e nos magoam, que tudo isso é absolutamente normal. Eu tento pensar nisso o tempo inteiro e é assim que tenho tratado meus relacionamentos – não como se eu devesse fazer o papel de idiota que perdoa tudo, mas perceber que, entre as mágoas que invariavelmente surgem pelo caminho, os laços que eu tenho construído são muito mais fortes e que mesmo aquelas pessoas mais especiais também contam com uma dose de sentimentos que nem sempre são os melhores possíveis. Entretanto, eu jamais vou ter a garantia de que as pessoas do outro lado vão me aceitar da mesma forma, que vão me enxergar como o ser humano que sou e não como uma pessoa idealizada, perfeita até a página dois. Porque eu não sou assim, ninguém é, e acredito que ninguém nunca vai ser.

Estou te dizendo tudo isso não para te fazer acreditar que devemos perdoar tudo, muito pelo contrário. Mas que reduzir as expectativas e encarar o outro como um ser humano e não como uma pessoa perfeita é essencial. Porque por trás das lentes cor de rosa, sempre existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, e talvez o maior erro em nossos relacionamentos seja, justamente, acreditar que pessoas são muito mais do que elas realmente são. É como escreveu John Green, naquele livro que também não li: What a treacherous thing to believe a person is more than a person. E é mesmo. Ser estranho ao outro é enxergar sua vida de uma forma que muitas vezes ela não o é. Por outro lado, relacionamentos são o convite para que a gente entre em toda a complexidade do outro e perceba que, por trás de todos os sorrisos, existe um mundo inteiro a ser descoberto, um mundo com inúmeros tons de cinza, é verdade, mas nem por isso menos especial. Nem sempre a jornada termina bem, mas isso não significa que ela não tenha valido à pena.

Com carinho.

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