COM AMOR

8. YOUR FAVORITE INTERNET FRIEND

Inspirado nesse desafio incrível aqui.

Querida Y.

A primeira vez que escrevi pra você foi em abril, logo após meu retorno de São Paulo. Eu tinha pisado na cidade pela primeira vez e, naqueles dias, nós tínhamos feito planos, muitos planos, mas não concretizamos nenhum; ainda que precisássemos desesperadamente uma da outra. Não é preciso te lembrar de nenhuma dessas coisas: cada uma delas está registradas na carta que te enviei naquela época, e você sabe, como eu sei, porque as viveu também. Mas o que eu nunca disse é que temi muito pelo futuro; o nosso futuro. Temi que a culpa que insistíamos em tomar pra nós se tornasse um obstáculo no nosso caminho, que a gente construísse muros alto demais, numa tentativa de evitar a mágoa e a frustração, e que eventualmente esses muros se tornassem intransponíveis. Eu lembro de me sentir profundamente culpada, e lembro de você se sentir também, não porque existia uma culpa real, mas porque somos humanas e insistimos em encontrá-la em algum lugar. Não havia como culpar uma à outra, então culpamos nós mesmas. Então, quando minha caixa chegou até você, eu soube que ficaria tudo bem. De um jeito bobo, mas muito honesto, eu me senti conectada com você, como se o fato de você estar segurando aquela caixa, aquela carta, aquele presente que um dia estava aqui comigo e de repente estava aí com você, mudasse absolutamente tudo. E mudava.

Eu gosto dessa história porque acho que ela sintetiza perfeitamente um medo que, pra mim, sempre foi muito real: o de que, eventualmente, eu estragaria tudo. Não é como se nunca tivesse acontecido, como se eu nunca tivesse sido corroída pela culpa de estragar algo que parecia tão perfeito, bonito e especial; naquele momento, parecia uma questão de tempo até que acontecesse de novo. Até que você apareceu e, do jeito mais doce possível, me mostrou que as coisas podiam ser diferentes. Uma das coisas que mais me surpreendem até hoje é a forma e a velocidade com que nos aproximamos, porque parecia improvável que, depois de tanta coisa, eu pudesse me doar novamente de uma forma tão honesta e vulnerável para outra pessoa, que eu pudesse confiar em uma amizade que não me deixaria de lado assim que meu lado mais feio e sujo viesse à tona, mas as barreiras que construí ao meu redor e que me protegiam do mundo jamais pareceram funcionar com você; o que é, ao mesmo tempo, muito doido e especial. Acho que nunca cheguei a te dizer isso, bichinha, mas em nossas primeiras conversas, era assustador ver nossas mensagens ficarem tão grandes e, de repente, assuntos banais do nosso dia-a-dia se transformarem em imensos textos sobre a vida, o universo e tudo mais. Não se engane, eu sempre gostei de falar sobre a vida, o universo e tudo mais – sou pisciana, afinal, nós gostamos desse tipo de coisa -, mas eu jamais conseguira ser tão profunda e expor coisas tão complexas sobre a minha personalidade e minha vida para alguém que eu conhecia há tão pouco tempo. Numa via de mão dupla, também me surpreendia o fato de você retribuir na mesma intensidade, e falar sobre a sua vida de forma tão aberta para uma pessoa que, até pouco tempo atrás, não estava ali. Sempre brincamos com isso, mas hoje, me parece impossível imaginar uma vida sem as nossas longas conversas que jamais têm fim, sem sua presença constante na minha vida.

As pessoas percebem que há algo de especial entre a gente, que há uma conexão profunda e única, porque o modo como falo de você é diferente, assim como nossa amizade é diferente de qualquer outro relacionamento que eu já tenha tido. Tenho a sorte de ter muitas amigas, e todas elas são minhas melhores amigas, sem qualquer traço de cinismo ou ironia, mas quando coloco em perspectiva, sempre me parece que estamos em uma página diferente do resto do mundo, quase como se existisse algo realmente complexo e único acontecendo aqui, e não há explicação alguma pra isso além de que algumas coisas parecem predestinadas a ser – mas não deixa de ser curioso que, em tantas oportunidades para acontecer, nossa amizade tenha se construído justamente no momento em que mais precisávamos uma da outra; o que me faz acreditar menos no acaso e mais em uma força divina que faz as coisas acontecerem como devem, ainda que de um jeito meio torto, como nunca nos cansamos de dizer. Às vezes, tenho a sensação de que somos nós contra um mundo inteiro de coisas horríveis e monstros e fantasmas e dragões. Talvez seja isso mesmo, mas me parece muito mais possível olhar esse mundo de frente e encará-lo quando tenho você segurando minha mão. É mágico – e eu sou retardada o suficiente para acreditar que algumas coisas só podem ser superadas com um pouquinho de mágica; o que nós temos de sobra aqui.

Muito se fala sobre almas gêmeas de um jeito romântico, mas nunca me disseram que era possível encontrar esse tipo de conforto e completude em uma… amizade. Me sinto sortuda o suficiente por ter encontrado minha outra metade, que não fosse a internet, talvez estivesse perdida até hoje nesse mundo tão grande, mas olha só que coisa maravilhosa vivermos no tempo em que vivemos. Em você, baby girl, eu encontrei alguém capaz de desenhar um mundo junto comigo, um mundo em que a gente precisa de muito pouco para ser feliz, onde a gente passa horas flutuando no mar, com a barriga pra cima, os dedos pra fora da água, as mãos dadas e os olhos fechados por causa do sol; um lugar perfeito que não precisa ser físico – embora, eu espere que um dia seja -, mas que ainda vai existir no único lugar que importa: dentro da gente. Gosto que tanto eu quanto você somos de signos de água e que o mar seja o nosso lar, porque por mais diferente que sejamos – e você sabe que nós somos -, nossa essência continua a mesma. São muito sentimentos, tantos que às vezes não somos sequer capazes de lidar com eles, mas então passamos duas horas no telefone com a outra e, de repente, o mundo parece um lugar melhor; mais seguro, confortável. Um lugar onde podemos rolar com o Logan ou enfiar referências de Call The Midwife em conversas aleatórias, onde somos Jenny e Trixie, Eve e Cassie, e ninguém pode nos dizer que não.

Existe uma infinidade de coisas que eu gostaria de dizer nessa carta – algumas, eu sequer poderia -, mas falar sobre elas me parece muito pequeno quando vivemos e fizemos tanto, como crescemos nesse período e como, pouco a pouco, temos nos tornado mais fortes. Um ano parece pouco tempo, e talvez seja de fato, mas cada vez mais tenho entendido que tempo é algo muito relativo – e o nosso é apenas nosso. Você é como um passarinho que voa comigo, o barquinho que jamais deixa meu coraçãozinho se afogar, a luz que me faz enxergar o melhor em mim e que me inspira todos os dias a ser uma pessoa melhor. Obrigada por dividir sua história comigo e permitir que, nessa vida tão efêmera, pudéssemos dividir uma jornada tão bonita e especial. Que nesse mar de incertezas em que navegamos, as dúvidas sejam sempre infinitas, e que sempre encontremos na outra um lugar para chamar de lar.

Com todo o amor do mundo,

Ana Lee

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1 Comment

  • Reply Yuu 22 de agosto de 2017 at 7:04 PM

    MMDC, SÓ ACHO QUE DEVERIA TER UM AVISO EM VERMELHO NESSE POST, PORQUE EU NÃO ESTAVA PREPARADA PARA ISSO. FEELINGS ARE THE ONLY FACTS AND WORDS ARE NOT ENOUGH. TE AMO.
    ♥ ♥ ♥ ♥ ♥

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