THE ROAD SO FAR

NOBODY LIKES YOU WHEN YOU’RE 23

Eu sempre gostei de fazer aniversário – até, claro, o dia que não gostei mais tanto assim. Desde que eu fiz vinte anos – longe de casa pela primeira vez, sem a minha mãe e a maior parte dos meus amigos, mas de frente pro mar, com meu namorado, com direito a um “parabéns pra você” tocado num imenso piano de cauda – minha relação com essa coisa de fazer aniversário mudou muito. Os dias que antecedem a data são sempre meio estranhos; meio triste, meio alegres, meio já cansei de tentar entender. Mas é também uma época que vem carregadas de uma expectativa que eu não sinto em qualquer outra época do ano, que é meio o que me mantém viva nesse período conturbado.

Eu sempre digo que março é o meu mês num tom de brincadeira, como quem pede pra que nada dê muito errado e que as pessoas pelo amor de Deus façam o favor de não forçarem muito a barra e serem mais gentis comigo do que o normal, mas esse é um mês que eu sinto muito meu justamente porque é quando um novo ciclo na minha vida começa de fato e eu me sinto no direito de pedir o que quiser, mesmo que não receba de volta. Minha mãe sempre me diz que querer não é poder e eu acredito nisso demais, mas foi essa mesma mãe que me disse que a gente precisa querer as coisas e pensar positivo, porque os pensamentos têm poder. Por mais que eu tenha revirado os olhos depois, preocupada demais em não morrer (risos eternos), eu sei exatamente do que ela estava falando porque na maior parte do tempo eu acredito nisso também: querer não é poder, mas é preciso querer antes de saber se é possível tê-las ou não. Então eu me permito desejar muitas coisas, ser mais abusada que o normal e ver no que dá, o máximo que eu posso receber é um “não”. É uma tática maravilhosas, e numa dessas eu já convenci muita gente que me ama a fazer coisas meio absurdas – mas não tão absurdas assim – só porque era o meu mês.

Só que secretamente, março é também um mês que eu costumo me recolher com mais frequência, ficar mais reservada que o normal, e refletir sobre minha vida, minhas escolhas, meus sonhos e como eu quero continuar minha caminhada dali em diante. É um momento que quase sempre envolve muito choro e também algum sofrimento, porque é difícil olhar pra trás e pisar de novo em lugares que já não existem mais no aqui e no agora, lembrar de sonhos que ficaram no meio da estrada e foram pisoteados por quem veio depois, e encarar de perto meus demônios só pra tentar diferenciar aqueles que já me sinto capaz de exorcizar daqueles que ainda precisam passar algum tempo comigo. Então eu choro: pela raiva, pela perda, pela saudade daquilo que já foi e, em algum momento, por tudo que não foi, pelo o que ainda está por vir. Nunca é fácil, mas é algo que faz total sentido na minha cabeça e que é absolutamente necessário – pelo menos, pra mim. Eu fico muito sensível e vulnerável depois, mas ironicamente é justamente assim que eu consigo me levantar mais forte e confiante mais tarde, e aí sim, ter forças pra celebrar mais um ciclo que se inicia.

O que não aconteceu esse ano – ou aconteceu e eu estava ocupada demais para perceber. Desde o início de março, ou talvez desde o final de fevereiro, minha vida virou uma bagunça tão grande que eu não tive tempo, quiçá vontade, de me acostumar com a ideia de mais um aniversário, refletir sobre a data e tentar entender tantos sentimentos que tomavam conta de mim de uma vez só. Eu passei dias inteiros deitada na cama, olhando pro teto do meu quarto sem a menor vontade de fazer qualquer coisa, porque qualquer coisa exigia uma força que eu não tinha e honestamente não queria ter. Era o meu mês e eu podia chorar se quisesse – mas também podia passar o dia inteiro na cama, e faltar todas as aulas do mundo, me afastar do mundo e fantasiar sobre cenários em que eu invariavelmente morria. Eu, que sempre tive pavor de morrer, de repente encantada com a perspectiva de por um fim em tudo. Foda-se, é o meu mês e eu posso morrer se quiser.

Verdade seja dita, eu achei que fosse morrer de verdade. Enquanto revirava na cama, dessa vez fisicamente doente, sentindo a febre e a dor me consumirem, eu alternava momentos de muito choro e outros em que simplesmente desejava que aquilo acabasse o mais rápido possível. O antibiótico não fez efeito, meu médico não podia me atender, e eu não tinha coragem de sair de casa para ir em qualquer outro. Era óbvio que eu ia acabar morrendo como uma camponesa da Idade Média. Quando disse isso pra minha mãe, ela respondeu que todo mundo ia morrer mesmo, mas que ninguém morre de amigdalite no século XXI. Era questão de tempo até eu melhorar e eu deveria parar de ser tão pessimista; mas ela não entendia que era impossível não ser. De repente, era o meu mês e eu estava fazendo uma porção de coisas, coisas demais para sequer aproveitar a vantagem, consumida pela depressão e pela ansiedade, até cair de cama de vez. Ficar doente foi como um pedido de ajuda do meu corpo, mas me magoava que justamente quando as coisas deveriam estar dando tão certo, elas estavam dando tão errado. O universo não deve nada, nem pra mim nem pra ninguém, mas me parecia injusto demais passar meu aniversário de cama, com um pijama velho e o cabelo sujo, sem nem conseguir ter uma refeição gostosa e especial. Eu queria ter um dia bacana, como qualquer pessoa deve querer em seu aniversário, mas a única coisa na minha frente era a morte lenta e dolorosa de uma camponesa medieval.

Foram necessárias horas e horas de conversas com minhas amigas, pequenos rituais de exorcismo que me ajudaram a manter a cabeça no lugar, superando de pouco em pouco cada um dos obstáculos que apareciam na minha frente: a amigdalite, a ansiedade, a depressão, as questões com o futuro, a falta de ânimo e de apetite, a pouca vontade de viver. Eu chorava muito em todas essas conversas, mas ao fim de cada uma delas eu me sentia incrivelmente renovada, um pouco mais forte e amada, especialmente amada. Foi assim que aprendi, do jeito mais difícil, uma lição que eu já acreditava ser muito verdadeira, mas que foi preciso muito tempo para finalmente colocar em prática: a melhor maneira de encontrar a luz nas trevas não é afastando as pessoas, mas caindo nos braços delas. A distância é enganadora porque ela nos dá essa aparente sensação de controle, como se nossos problemas se tornassem mais reais à medida que falamos em voz alta sobre eles. Mas eles estão ali e tentar lidar com tudo sozinha é terrível demais, além de enlouquecedor. Pela primeira vez em anos, talvez em décadas, eu permiti que meus problemas fossem o centro de todas as minhas conversas, permiti que as pessoas me dessem colo e palavras de conforto, e que entendessem o que estava acontecendo comigo. Era uma exposição até então inédita – ironicamente, já que eu me exponho em tempo integral por aqui – e também assustadora, porque foram anos criando barreiras e lidando sozinha com minhas questões. Mas foi assustador justamente por ser tão especial. A sensação foi como estar submersa, mas dessa vez numa enorme onda de amor e carinho, do qual eu não podia e nem queria fugir.

Quando meu aniversário chegou, eu estava incrivelmente em paz. E foi com esse sentimento de paz e profunda gratidão que eu recebi de braços abertos uma nova onda de amor e carinho, vinda dos mais diferentes lugares, de pessoas que eu sequer podia esperar. Eu recebi mensagens lindas, delicadas e carinhosas, mesmo depois da data; assisti minhas amigas fazerem festa e meus amigos escreverem coisas ridículas, mas absolutamente sensacionais sobre mim; tirei fotos ridículas e me senti bela em cada uma delas. Aproveitei cada minuto da minha ceia de Natal fora de época, feita especialmente pro meu aniversário, só porque era meu aniversário e eu queria uma ceia de Natal – um pedido que minha mãe não pensou duas vezes em atender. À noite, fui ao cinema assistir A Bela e a Fera, porque, de novo, era meu aniversário e ninguém me impediria de assistir a um dos meus filmes favoritos ganhar uma versão com gente de verdade. Cada minuto da sessão foi como um pequeno presente, e eu ri, chorei, cantei e me emocionei o tempo inteiro.

Eu não ganhei muitos presentes, mas foi como se cada parte do dia fosse um presente por si só. Diferente do que eu esperava, os vinte e quatro chegaram leves, especiais, coloridos como um arco-íris depois de uma tempestade; um adorável lembrete de como a vida pode ser bela, mesmo que nunca seja fácil. Quando soprei minhas velas – cor de rosa (!), com glitter (!) – no último dia 18, eu pedi um pouco mais de saúde, mas também que a vida se tornasse mais gentil e mais leve do que foi no ano anterior. Os vinte e três me ensinaram demais e foram, de longe, um dos melhores anos da minha vida, mas talvez seja a hora de voltar a respirar fundo e devagar – e que seja assim, então.

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1 Comment

  • Reply Larissa Assunção 27 de março de 2017 at 6:49 PM

    Oi, Ana!

    Sou uma leitora secreta do seu blog (agora nem tanto, porque acabei de inserir meu nome aqui embaixo) e gostaria de permanecer assim, como o faço em outros blogs.
    Porém, diante de um texto deste, eu não pude apenas abrir outra aba do navegador e ler outra coisa. Esse texto me envolveu de tal forma que tive a impressão de que, a cada linha lida, eu saberia o que leria na próxima.
    Ana, eu me sinto exatamente como você e não sei o que isso quer dizer. Tenho sentido umas coisas estranhas e também não sei se isso é bom ou ruim. Mas tudo bem.
    Queria que soubesse que há alguém te lendo que compartilha de medos bem parecidos com os seus, e, por favor, não pare de escrever. Não tenho ninguém próximo que entenderia dessas coisas e ler o que escreves é muito acolhedor.
    Um beijo cheio de carinho!

    Larissa

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