NOVELA MEXICANA

A COSTELINHA DA DISCÓRDIA

Então, ontem eu resolvi fazer uma costela com molho barbecue pro almoço.

Não sou nenhuma gênia da culinária, mas tem dias que acordo inspirada. A inspiração ontem foi tão maravilhosa (só que não), que eu não só resolvi me oferecer para fazer o almoço, como também fiz o favor de inventar moda e arriscar uma receita que eu nunca tinha feito antes. A cilada era certa, mas tudo bem, porque eu estava de muito bom humor e nada iria dar errado. Doce ilusão.

O primeiro motivo de discórdia foi o ponto da carne. Minha intenção era deixar ela bem molinha, dessas que soltam fácil e desmancham na boca, coisa que só uma boa panela de pressão pode fazer por você. Bastou eu deixar clara minha intenção para dar largada à temporada do nariz torcido. Além da minha mãe, que confiou nos meus dotes e não deu um pitaco sequer, todo mundo se sentiu no direito de dar uma opinada. “Ah, mas a carne não pode ficar molenga, tem que ficar firme”; “ah, mas você vai colocar papel alumínio em cima, né?”; “cuidado pra não cozinhar demais”; ” mas você já vai assar com o molho?”.

Meu humor deu uma ligeira azedada. Não é que eu não aceite a opinião dos outros, vejam bem, porque de fato o que eu mais queria era ver todo mundo feliz e contente como só uma refeição dessas bem maravilhosas conseguem fazer com a gente. Mas não me peçam pra cozinhar na frente de uma platéia e não me sentir ligeiramente pressionada. E eu não gosto de cozinhar sob pressão. Não gosto mesmo. Fiz o que o pessoal me mandou fazer e fui esperar no quarto.

Pra ficar pronto foi uma eternidade, mas o resultado compensou demais. Minha expectativa ainda era a carne molinha que desmanchasse na boca, mas a realidade tinha ficado tão boa e o molho tão, mas tão gostoso, que eu admiti que o estresse tinha valido à pena. Eu e o Gui comemos quantidades absurdas de comida, e quando nos demos por satisfeitos, rimos sem nenhum motivo aparente, porque a vida é boa demais pra ser verdade.

Foi quando levei os pratos na cozinha que vi a cena que me fez querer sair correndo para as colinas. Minha vó e meu padrasto, unidos contra minha costela, não só estavam despedaçando a bichinha, como fizeram questão de virar ela todinha de cabeça pra baixo, tirando todo o barbecue da carne. Mas o pior só veio mesmo quando minha vó colocou a costela de volta no forno e deixou lá, esturricando até o milênio seguinte. O resultado foi uma carne torradinha, sem uma gota de molho sequer pra contar história. Outback chora, migos. Eu chorei também.

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2 Comments

  • Reply Fernanda 26 de outubro de 2014 at 8:52 PM

    HAHAHAHA é por essas e outras que eu não cozinho mais NADA aqui em casa, só sei fazer brigadeiro e ovo frito. Eu realmente sou péssima, uma negação, só sei fazer arroz de microondas. Mas detesto as pessoas dando pitaco nas coisas SENDO QUE elas não moveram uma palha pra cozinhar. Só aceito críticas da minha mãe porque ela é a masterchef daqui de casa, então…….

    Boa sorte na próxima vez que for fazer a costela, espero que dê tudo certo ;)
    Beijos!!

  • Reply Rayani 27 de outubro de 2014 at 5:44 PM

    Eu odeio cozinhar com pessoas por perto. Sério, eu gosto de cozinhar completamente sozinha, sem pitacos. Se cozinho com pessoas por perto me sinto vigiada. Não gosto!
    Ainda mais que não sou nada habilidosa com as panelas.

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