BLAIR WALDORF

A MENINA MAIS BONITA DA FACULDADE

Existem pessoas e pessoas no mundo – eu, certamente, sou uma pessoa de camiseta e calça jeans. Quem disse isso fui eu mesma, em uma conversa com algumas colegas da faculdade, alguns semestre atrás. Recentemente, lembrei dessa conversa, enquanto conversava com a Michas sobre nossa necessidade cada vez menor de investir em peças mirabolantes de roupas e gastar nosso dinheiro naquilo que realmente usamos e que tem a nossa cara. A princípio, esse não foi um movimento consciente, mas algo que surgiu com o tempo, e depois de tentar ser Blair Waldorf com tanta força – quando vestidos infinitos e tiaras e sapatos de salto foram minha realidade -, voltar para minha calça jeans, minhas camisetas e minhas jaquetas de couro e botinhas de todos os dias parece estranhamente reconfortante.

Na conversa, eu e a Michas chegamos à conclusão de que muito disso acontece porque, inevitavelmente, a gente cresce, aprende do que realmente gosta e paramos de tentar ser alguma coisa além de nós mesmos. Não que eu não goste de usar coisas diferentes, pelo contrário: meu armário é uma salada de referências, mas ainda existe uma linha que liga todas elas ao todo, porque a essa altura já conheço meu estilo e meus gostos o suficiente para saber a diferença entre o que acho bonito e aquilo que realmente cabe no meu dia-a-dia e conversa com o resto do meu guarda-roupa. Hoje, quando olho pro meu guarda-roupa, consigo me enxergar inteira ali, e é com um orgulho meio besta que digo isso; foi um longo processo até chegar aqui, que vem acontecendo desde 2009, quando comecei a me interessar de verdade por moda, e foram anos de compras, doações, erros e acertos até que eu finalmente tivesse um acervo inteiro que gritasse meu nome.

Nada disso, no entanto, me impede de admirar outras pessoas e seus estilos tão peculiares de longe, num exercício quase antropológico de observação. Na faculdade, especialmente, isso acontece com demasiada frequência, porque as pessoas são muito estilosas e levam esse negócio de se vestir muito a sério. A gente percebe quando alguém acordou atrasado e pegou a primeira roupa que viu na frente; ou então quando se esforçou um pouco mais, quando tem algum compromisso depois da aula, quando começa a trabalhar, fora todas as camisetas que dizem mais do que muitas palavras vão ser capazes de expressar. São coisas bestas, é claro, mas que são facilmente percebidas quando você passa algumas semanas analisando a roupa de alguém, o que é interessante de um jeito meio tosco, mas ainda bastante honesto. O bom de ser uma pessoa que observa antes de qualquer outra coisa é justamente perceber essas nuances, o suficiente para alimentar uma admiração inusitada que cresce a cada novo lukinho inspirador, o que às vezes me faz, literalmente, ter uma queda por pessoas que nem conheço, me apaixonar e desejar ser amiga delas de um jeito bem bobo e retardado.

Foi mais ou menos assim que conheci a menina mais bonita da faculdade, ou melhor dizendo, comecei a prestar atenção nela. Era o primeiro semestre de 2016 (não confirmo nem nego que abri meu histórico para conferir a data, risos) e uma das disciplinas que peguei naquele período – que agora parece tão distante – era estética. Era um horário duplo de quase quatro horas, com um intervalo de vinte minutos no meio, nas manhãs de segunda-feira, um dia que, por si só, evoca preguiça e má vontade na hora de se vestir. A maioria das pessoas se vestia de um jeito meio preguiçoso, com variações de moletons e jeans, que era mais ou menos o que eu costumava – e costumo até hoje – usar também. A menina mais bonita da faculdade não. Diferente de todos nós, meros estudantes e nossas roupas que mais pareciam pijamas, ela sempre parecia ter saído diretamente de um mangá com garotas estilosas ou de alguma série como Gossip Girl, onde todas as pessoas se vestem incrivelmente bem, mas nem sempre de um jeito óbvio de quem segue tendências à risca. Suas composições sempre mesclavam peças muito comuns com outras que pareceriam estranhas em qualquer outra pessoa; mas não nela, que era estilosa o suficiente para segurar cada uma com louvor. Laços imensos e vermelhos ganhavam espaço em meio ao jeans e camiseta de todos os dias, tiaras de gatinho eram combinadas com vestidos e meias coloridas, enquanto botinhas e saias midi davam as mãos e rodopiavam de um jeito inesperado e incrivelmente certos, quase como se tivessem nascido para viver ao lado um do outro para sempre. Tenho certeza que se fosse eu usando uma combinação daquelas, qualquer uma delas, o fracasso seria certo, mas isso não me impedia de todas as manhãs de segunda-feira – e às terças, quando pegávamos história do cinema juntas; e depois cinema brasileiro, todas as sextas no semestre seguinte – admirar aquela pessoa e suas roupas sempre tão bonitas e curiosamente despretensiosas, quase como se fosse a coisa mais óbvia do mundo amarrar o cabelo com um laço vermelho gigantesco. Como não pensei nisso antes?

Logo descobri que não era a única que admirava o estilo pouco convencional – para o padrão já pouco convencional das pessoas de humanas – da menina mais bonita da faculdade: conversando com a Nayara, minha parceira de ideias cabeludas e entusiasta de crushes esquisitos, descobri que ela também a observava de longe e admirava seu estilo, e queria ser amiga dela, e queria ser como ela. Longe de ser uma pessoa de camiseta e calça jeans (ao menos, não o tempo inteiro) ou de moletom, mas alguém cujo estilo me inspira profundamente, ela também estava encantada pela beleza daquela garota, pelas suas roupas bonitas demais e tão fora da nossa curva de gente de humanas. Ela realmente parecia ter saído das páginas de um mangá ou de uma série cheia de jovens ricos e estilosos, e era incrível poder assisti-la acontecer na nossa frente. Somos tão idiotas que chegamos ao ponto de realmente soltar gritinhos de admiração todas as manhãs de um jeito bem retardado. Pegamos outras matérias juntas e quase sempre era um repeteco do dia anterior: nós literalmente soltávamos gritinhos de empolgação a cada novo lukinho e confidenciávamos o quanto era incrível que, naquele antro de gente maluca e descolada, era incrível que ainda existissem pessoas capazes de se vestirem de um jeito tão original e lindo de morrer.

Dividi todas essas impressões com a Yuu, minha guru de estilo e de todas as outras coisas importantes da vida, e foi maravilhoso ter alguém que, mesmo à distância, entendia essa obsessão idiota por roupas bonitas e estilos tão diferentes do meu, ainda que na prática eu não fosse efetivamente usar nada daquilo. A Yuu é uma pessoa que também tem um estilo muito diferente do meu, mas é incrível como a gente se entende e muitas vezes gosta das mesmas coisas, muito embora as usemos de formas completamente distintas. Mesmo sem ver, ela também se encantou pela menina mais bonita da faculdade e dividiu aquele momento comigo sem nem pensar duas vezes. Eventualmente, ela me perguntou se eu não tinha uma foto ou o link de uma rede social que pudesse dar um rosto à pessoa e ilustrar melhor os lukinhos que ela só conhecia de tanto me ouvir falar. Como pessoas da internet que somos, parecia meio óbvio que pessoas bonitas e descoladas ostentassem redes sociais à altura, mas a verdade é que isso nem sempre acontece, não é? Porque as pessoas nem sempre estão interessadas em manter um feed bonito ou dirigir artisticamente suas vidas e só mostrar aquilo que é impecavelmente bonito e agradável, como num filme do Wes Anderson. Eu sou essa pessoa – de moletom e pijama, mas bear with me – e a maioria das pessoas que conheço também são; mas essa é só a bolha que eu vivo, e não necessariamente a mesma que vivem todas as pessoas que cruzam meu caminho.

Não há nada de errado em viver nessa bolha – exceto, talvez, pela limitação meio tosca que a gente se impõe em nome da estética -, em pensar no look do dia já mirando na foto pro instagram, em pensar numa paleta de cores para o próprio feed, etc etc, mas não deixa de ser meio engraçado (de um jeito mais ou menos curioso) que existam pessoas por aí que não dão a mínima pra nada disso, que estão muito bem e felizes vivendo suas vidinhas sem a necessidade de um registro artístico que capte esses momentos de um jeito ou de outro, ainda que de uma forma pouco genuína ou natural; que, na realidade, não poderiam se importar menos. Eu me importo um bocado com esse tipo de coisa, de um jeito que às vezes beira o inconveniente. Minha psicóloga riu alto quando comentei o desgosto que era ver uma menina tão bonita e estilosa desperdiçar sua existência na internet com tantas fotos ruins e mal ajambradas, umas iluminações cagadas e uns filtros toscos que qualquer pessoa em sã consciência preferiria fingir que nunca existiu, mas conversando com ela naquela mesma sessão, cheguei à conclusão que esse outro lado também podia ser bacana e interessante, ainda que não fosse o meu tipo de bacana e interessante. Continuava frustrada por não ter o registro daquelas combinações inusitadas e maravilhosas de roupas, assim como me irrito sempre que vejo uma pessoa linda demais para o seu próprio bem que não mantém um perfil decente nas redes sociais ou então uma celebridade que se preocupa tanto com essa coisa de, hm, internet, que nem sequer se dá ao trabalho de abrir uma conta no instagram (Eva Green, estou olhando pra você). Mas será que isso realmente importa?

As pessoas viveram anos, séculos, se vestindo muito bem e sendo muito maravilhosas sem a menor preocupação em manter um registro disso, e por mais que esses registros existam, quase nunca se trata de mostrar para outras pessoas o que se está usando, mas guardar para si aquilo que importa: o momento; e os sorrisos, e as lágrimas, e as coisas bonitas demais para serem colocadas em palavras. Sem saber, a menina mais bonita da faculdade me ensinou que a gente deve se vestir primeiro pra si e só depois pros outros – se é que devemos mesmo nos vestir pros outros – e que muito melhor do que manter registros das nossas roupas propositalmente descoladas é lembrar dos momentos em que elas foram usadas. O vestido comprado especialmente para ver sua amiga casar. A blusa que você estava usando quando beijou seu namorado pela primeira vez. O tênis que voltou para casa todo sujo depois do show da sua banda favorita. Ainda sou a pessoa que se importa demais com fotos bonitas, que registra os próprios lukinhos na frente do espelho (e gosta disso), e que apaga sem dó uma foto que não combina com o resto do feed; mas cada vez menos tenho me importado no que mostrar para os outros e sim naquilo que aquelas fotos – aqueles registros – significam pra mim.

Hoje, a menina mais bonita da faculdade já não é mais uma mera desconhecida que admiro à distância: não somos exatamente amigas, mas já não somos distantes também e até dividimos alguns trabalhos juntas e conversas banais, o que é mais do que posso dizer de muita gente que estuda comigo. No final do semestre passado, dei um abraço apertado nela quando, depois da minha apresentação, ela disse que votaria no meu filme e pediu para ser diretora de arte nele, caso fosse o vencedor. O filme não ganhou, mas a confiança dela no meu roteiro foi uma das coisas mais preciosas que podia receber naquele momento e significou muito, muito mesmo – daí o abraço. A essa altura, já sei que ela também tem seus dias de moletom e calça jeans, que nasceu no Japão e é um ano mais velha do que eu, e que não é exatamente a pessoa mais fofa do mundo como seu visual e sua voz doce às vezes entrega, mas pra mim ela ainda é a menina mais bonita da faculdade, e vai continuar sendo até o dia que vestirmos uma beca para pegar nossos diplomas, e ela inevitavelmente se destacar no meio de todo mundo, mesmo usando uma roupa bizarra e cafona. Mal posso esperar.

 

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2 Comments

  • Reply Michas 4 de agosto de 2017 at 3:13 AM

    Que texto delicioso de ler, Sharon <3
    Apesar de não dar muita bola para essa coisa de estética de feed, entendo um pouco o que você sente. Não sei muito bem como colocar em palavras, mas creio que essa preocupação faz parte do que é existir na internet. E acho que tudo bem ter essa preocupação, sabe? O importante é não deixar que ela nos consuma ou nos impeça de viver e registrar bons momentos :)
    Sobre a menina mais bonita da faculdade, digo que fiquei curiosa e também fascinada. Quero ver fotos hehe
    E aaaaaah, a nossa conversa sobre estilo e comprar apenas peças que nos representem <3
    Cada vez mais penso sobre isso. Ainda preciso fazer um super organização no meu guarda-roupa para ter certeza de que não tô guardando algumas peças apenas porque as acho bonitas, sabe? O que você falou sobre aprender a conhecer aquilo que nos representa e aquilo que apenas admiramos faz muito sentido; e acho que para entender isso, a gente precisa mesmo se conhecer e saber do que gostamos. :)

  • Reply Marina Menezes 9 de agosto de 2017 at 10:18 PM

    Que texto gostoso de ler! Quando vi já tava no final, nem tinha percebido que era grandão.

    Fiquei aqui admirando a imagem da menina mais bonita da faculdade que imaginei, achando que ia ter alguma foto de algum look dela no final. Fiquei super curiosa, mas imaginei ela como aquelas meninas fofas que os fãs de animes chama de “kawaii” haha’ Adorei o texto! Super votaria nele se existisse alguma votação igual teve do roteiro XD

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