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A (NÃO) REALIDADE DA INTERNET

Essa semana li uma porção de textos e reflexões sobre a história de Essana O’Neill, mocinha que ficou famosa com seu canal no Youtube e perfil no Instagram, e depois resolveu se voltar contra tudo isso e mostrar pro mundo a grande farsa por trás das redes sociais – logo, virou polêmica na internet.

Mas é sério que as pessoas ainda acreditam em tudo isso?

Esse foi meu primeiro pensamento, ainda no início da semana, quando comecei a ler os primeiros textos sobre o assunto. Na minha cabeça, era muito óbvio que o que eu via sendo compartilhado no meu feed não era um registro 100% autêntico da realidade de outra pessoa, afinal, se eu estou aqui, ficando na ponta dos pés na frente do espelho pra parecer mais magra numa foto, quem me garante que a pessoa do outro lado não está? Nós queremos parecer melhores, mais bonitos e bem vestidos, registrar momentos que, de alguma forma, foram especiais, e sinceramente não vejo como isso pode ser ruim.

O negócio é que essa é uma visão bem simplista da história e foi depois de uma longa conversa com minhas amigas que eu me dignei a olhar pro outro lado e pensar: mas óbvio pra quem?

they think they know me

Algum tempo atrás, li um artigo que falava sobre como as pessoas estão frequentemente atuando. O autor não dizia isso como uma acusação (mais ou menos), mas mais como uma constatação de que todos nós agimos conforme certos protocolos e que mostramos aquilo que é conveniente mostrar, quando é conveniente mostrar, de acordo com a impressão que queremos passar – o que até que faz bastante sentido. Isso não acontece sempre de forma consciente, mas ainda que a gente perca muito tempo pensando na impressão que vamos passar, seja num jantar com a família do namorado ou no primeiro dia de trabalho, não acho que nossa vida seja uma farsa ou menos real por isso.

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o tipo de coisa que ninguém precisa saber

Da mesma forma, na internet, as pessoas escolhem o que querem mostrar e quando querem mostrar, e é natural que o que elas escolham seja exatamente aquilo que elas têm de melhor. Eu até posso aparecer descabelada, de pijama e mostrar a pia cheia de louça, mas eu não vou fazer isso se posso aparecer bonitinha, com o cabelo no lugar, e mostrar a sobremesa maravilhosa que comi naquele restaurante incrível. Não é má vontade, não é que eu queira que alguém acredite que minha vida é perfeita 24/7 (só pra deixar claro, ela não é), mas se eu posso me lembrar da melhor parte de ser eu, então é isso que eu vou mostrar. Já basta a vida (e o espelho) me lembrando o tempo inteiro que eu não sou exatamente como queria ser, que meu cabelo não acorda bonito todo dia, que minha bunda é cheia de celulite e que eu não ganho meu próprio dinheiro. Não é errado querer editar um pouco nossa vida, não é falsidade, não é viver uma mentira.

Só que por mais que muita gente pense dessa forma, não dá pra generalizar e achar que vai bater assim pra todo mundo, porque a real é que eu nunca vou ter controle sobre o que os outros vão pensar daquilo que eu posto. Ao contrário da nossa geração, que já é macaca velha de internet e tem um pouquinho mais de senso crítico sobre o que a gente vê ou não por aqui, eu não posso exigir que uma pessoa que já nasceu na era das redes sociais e não conhece um mundo onde isso não exista, tenha o mesmo discernimento. Não digo que a gente, que conheceu a internet discada, a época de ouro do Orkut e do Fotolog, não tenha tido nossas questões também. A diferença é que existia um certo distanciamento que hoje não existe mais. Não digo nem só do distanciamento da nossa realidade pra vida de uma celebridade, por exemplo, mas da própria internet em si. Por mais que eu quisesse ser a Marimoon e mais uma porção de meninas que já eram famosinhas nesse meio, eu só tinha contato com elas naquele espaço de tempo em que eu sentava na frente do computador e ia ver as mil fotos mais ou menos iguais que elas tinham postado ao longo da semana (tive internet discada por muito tempo, então basicamente só usava o computador nos fins de semana). Ou seja, ainda que elas fossem referências mais próximas do que uma celebridade, por exemplo, existia um certo limite, uma consciência de que elas estavam distantes apesar de tudo, que hoje é praticamente inexistente. Já pararam pra pensar que louco é a proximidade aparente que a gente tem com as pessoas da internet hoje em dia? Sei lá, eu pelo menos acho louco demais.

i cant go around without a phone thats like going around without a brain

Não acho errado esse discurso que as celebridades da internet pregam de que são pessoas normais e que todo mundo pode chegar lá, mas ao mesmo tempo acho que é uma filosofia bem perigosa, em especial pra uma geração que já vem carregada de expectativas. Imaginem só que pra mim já é bem difícil lidar com a frustração quando vejo a Bruna Vieira, mais nova que eu, já construindo uma casa e ganhando muito dinheiro enquanto eu ainda vivo de mesada, agora pensem como é na cabeça de uma menina que vê outra da mesma idade, tão bem sucedida, dizendo que ela também pode chegar lá com esforço e dedicação, e mesmo assim não conseguir chegar em lugar nenhum? Não acho que a intenção de mostrar que qualquer um pode conseguir a vida dos sonhos seja ruim, muito pelo contrário. Mas a gente às vezes esquece que não é todo mundo que chega lá. Não é todo mundo que, mesmo depois de tanto esforço, vai virar uma celebridade na internet, e encher de expectativas uma geração que já vem carregada delas é problemático em tantos níveis que não sei nem por onde começar.

Mesmo assim eu ainda acho que a internet é um lugar muito muito legal, e o que acontece aqui, muito especial. Acho um saco aquelas pessoas que dizem que sumiram da internet porque estão vivendo demais a vida real, como se o que acontecesse aqui não fosse legítimo. Sei lá, cada um acha o que quiser e vive do jeito que quiser, mas não consigo pensar que o que eu vivo aqui é menos real só porque não está acontecendo na minha cara. É importante que a gente se questione, mas ao mesmo tempo (e sei que isso vai ser contraditório, mas bear with me) acho que a forma como a gente trata a internet é uma extensão daquilo que somos fora dela. Existe uma diferença? É óbvio. Mas por trás do computador ou da tela do celular, existe uma pessoa, e é claro que as perspectivas dessa pessoa vai refletir na forma como ela trata e age nas redes sociais.

A própria Essena diz, em seu vídeo, que antes de ficar famosa, ela já se sentia vazia, e que aquela foi a forma que ela encontrou de preencher sua vida – com likes, visualizações e seguidores. Então muito antes dela se virar contra a internet e as redes sociais, ela já tinha uma porção de questões mal resolvidas, que vão continuar sendo questões mal resolvidas esteja ela online ou não. Não acho que ela esteja fazendo tudo isso pra chamar atenção. Aliás, ela abriu uma discussão muito importante, pra um público que não sou eu (pelo menos não diretamente), e que bom que estamos falando sobre isso – mas se me perguntassem se eu acho que isso vai ser suficiente pra resolver todos os problemas da moça, eu diria sinceramente que não.

Ainda não tenho uma opinião 100% formada (acho que já deu pra perceber), mas queria aproveitar a discussão porque acho ela bem pertinente e o resultado foi isso aqui. Tá todo mundo mal, sempre bom lembrar, e a grama do vizinho ainda é mais verde que a nossa, mas não vamos esquecer que, por trás das fotos bonitas e muito bem editadas, todo mundo tem problemas. Eles podem não ser os mesmos que os nossos, mas aí são outros quinhentos.

hate my horrible life

Como li muita coisa bacana de gente que falou sobre o assunto infinitamente melhor que eu, deixo vocês com alguns links pra ajudar na discussão:

> Aparentemente o servidor achou massa engolir alguns comentários desse post, sem nenhuma explicação. A notícia boa é que eu lembro quem comentou, então vocês continuam no meu coração de qualquer jeito (?). A ruim é que eu não sei se vou conseguir recuperar, mas enfim, tô tentando. Obrigada de qualquer forma. Mimos são sempre apreciados.

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2 Comments

  • Reply Passara 9 de novembro de 2015 at 12:15 PM

    Oi, Sharolinda. Adorei seu texto, como sempre. Acho você uma pessoa muito sensata e acho que as nossas opiniões sobre isso são muito parecidas, muito provavelmente porque a gente já discutiu isso antes. Concordo com tudo o que você colocou, que racionalmente a gente sabe que aquilo ali não é TODA a verdade e tem muita maquiagem, mas às vezes é difícil lembrar disso, até para a gente.

    Também não acho que todo ruim a iniciativa da Essena. Claro que tem um grande sensacionalismo e muita gente agindo como se ela tivesse revelado a fórmula da coca-cola, mas pode ser que ajude a abrir a mente de algumas meninas mais novas e ajudar todos nós a lembrar de manter o senso crítico acordado.

    Concordo demais que todos nós atuamos o tempo todo. Diria que até mesmo quando estamos sozinhos. Mas não mentimos realmente. Acho que todos os dias a gente luta para conhecer um pouco melhor nós mesmos, e encaixar esses novos elementos dentro dos personagens que somos nós, porque sem esses personagens somos só um monte de características desencontradas que não fazem nenhum sentido. E também não é errado lutar para ser alguém melhor, ou todo mundo ia se acomodar e foda-se tentar ser uma pessoa melhor. A questão é o limite: SER uma pessoa melhor, não DIZER que somos. Não é mentira se você realmente viver o que você prega.

    Te amo <3

  • Reply Thay 9 de novembro de 2015 at 10:09 PM

    Não sei se eu que vivo no mundo da imaginação, mas eu não conhecia essa moça até que estourou essa polêmica, HAHA, totalmente perdida.

    No primeiro texto que li sobre o tema já fiquei com a pulga atrás da orelha, pensando exatamente isso: mas quem é que acreditava que tudo aquilo era, de fato, a vida da menina? É como eu li por aí nos mais diversos jeitos: nossa vida online é editada para ser do jeito que a gente quer, independente do número de seguidores que a gente tenha. E não tem nada de errado nisso, e não tem nada de errado em ganhar dinheiro com isso (contanto que haja o mínimo de transparência).

    E eu vou pegar um pedacinho do seu texto pra frisar aquilo que a gente conversou no FB (e que nem é exatamente o foco do post, mas preciso): tem MUITAS coisas incríveis na internet, só que nem todo mundo tem a sorte de encontrá-las. Deslegitimar o que acontece aqui só por ser virtual me ferve o sangue. A gente vive, compartilha, dá risadas e faz amigos pra vida.

    Teus textos são sempre incríveis, Ana. ♥

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