VIDA DE FANGIRL

À PROCURA DE KATY

Desde o último show da Katy Perry no Rock in Rio, tenho ocupado minha cabeça com coisas inúteis sobre sua vida e carreira de forma quase obsessiva. Acordo ouvindo suas músicas, vou dormir ouvindo suas músicas, e hoje mesmo resolvi matar aula só pra assistir o Part Of Me, documentário maravilhoso que conta um pouco da sua trajetória e acompanha a turnê de 2011, a maior da sua carreira até então. Logo no início vemos os fãs da Katy dando pequenos depoimentos de como ela mudou a vida deles, de como ela foi importante no processo de aceitação deles, e de como a gente deve se divertir acima de tudo, e nunca levar a vida a sério demais. Isso tudo foi dito nos idos de 2011, ou talvez até um pouco antes disso, mas o que mais me incomodou foi perceber que em 2015 eu não só não reconheço mais essa Katy Perry, como acredito que ela nunca, em todo esse tempo, se levou tão a sério.

katyperrygifs16

Aos 18 anos, Katy diz que não quer ser uma pessoa comum. Ela não diz isso como uma pessoa pretensiosa, que se acha especial demais perto dos outros, mas como uma pessoa que sonha alto e que, ao contrário de todos nós que sempre sonhamos em ter uma banda de rock, mas nunca levamos isso muito a sério, ela foi lá e correu atrás. Isso já ficava claro quando, aos 14 anos, eu a via em cima de palcos minúsculos e muito diferentes dos de agora, de hot pants e óculos com armação de coração, e sonhava em ser igual a ela. Como bem coloca seu stylist durante o filme, ela é uma garota normal que de repente virou uma popstar e se vê no topo do mundo, uma prova que contos de fadas existem e que podem acontecer com qualquer pessoa, seja você uma mocinha que casou com um príncipe ou que se mudou pra Los Angeles em busca de um sonho e prometeu, junto com suas amigas, que faria coisas incríveis com a própria vida.

Fico me perguntando se esse não é um discurso muito manjado, e sempre chego à conclusão de que é sim, o que de forma alguma o invalida. Muito pelo contrário, ele acaba como um incentivo pra quem tem sonhos e às vezes precisa de um empurrãozinho pra correr atrás – seja de um mestrado, uma graduação em medicina ou o sonho de popstar. Katy, por exemplo, ralou muito antes de conseguir chegar onde está agora. Ela teve que provar pra muita gente que era boa de verdade, que podia fazer aquilo pelo resto da vida, sem no entanto precisar ser outra pessoa. Num dos momentos mais marcantes do filme, uma moça que não lembro o nome agora, mas que trabalhou com Katy no início da carreira, diz que ela, ao ouvir os produtores tentando enquadrá-la dentro de estereótipos já estabelecidos, ah você vai ser a próxima Avril Lavigne ou quem sabe a nova Kelly Clarkson, responde que só queria a chance de ser ela, e apenas ela, a primeira e única Katy Perry.

Sempre que penso na mulher que disse isso, lembro imediatamente das fotos do The Cobrasnake e daquela versão dela mesma recém-saída da casa dos pais, se descobrindo enquanto pessoa, se permitindo experimentar e viver num mundo que não era mais tão pequeno pros seus sonhos. Aquela menina que aos 18 anos se perguntava se nunca seria a mulher independente e feminista que sempre sonhou só porque os pais acreditavam que isso era coisa do capeta, de repente tinha ganhado liberdade, asas pra voar pra onde quisesse, mesmo que isso incluísse uma porção de responsabilidades. Eu, aos 14 anos, observava tudo isso sonhando com o dia que seria assim também, um pouquinho como ela, enquanto me contentava em ostentar a mesma franja, o mesmo delineador gatinho e ocasionais hot pants.

A gente sabe que uma pessoa extrapolou todos os limites do fanatismo quando começa a usar hot pants.

tumblr_mqprvmUCuK1syeslvo1_500

De lá pra cá Katy mudou, pintou o cabelo, cresceu, fez uma turnê gigantesca atrás da outra, emplacou uma porção de hits, casou e viu seu conto de fadas acabar por uma mensagem de celular, e isso, obviamente, refletiu nas suas composições, no seu trabalho. De repente ela já não cantava mais sobre quebrar moldes e esterótipos, sobre não ter medo de se apaixonar e já não precisava mais chamar a mãe quando as coisas começavam a ficar estranhas. Fui obrigada a reconhecer que, por mais que One Of The Boys continue sendo meu álbum favorito, sua nova versão não era de todo ruim. Mesmo hoje, quando torço o nariz pra alguma música (tá pra nascer música mais insuportável que Dark Horse), o faço estritamente por gosto, nunca porque ela arriscou e chegou bem mais longe do que imaginou um dia. A gente tem mais é que bater palmas pra uma mulher dessa, e se no final do dia a música não for mais tão boa, pelo menos sempre vamos ter aquele álbum antiguinho pra onde voltar.

Mesmo durante sua turnê em 2011, ela continuava a mesma. Com roupas melhores, uma conta bancária cada vez mais recheada, um império nas mãos e um marido à tiracolo, é claro, mas ainda a mesma Katy de riso fácil, que fazia graça o tempo inteiro, que era fofa com os fãs e se divertia o tempo todo, mesmo quando estava cansada demais pra tudo isso. Quis demais ser amiga dela, rolar naquele palco maravilhoso e brincar com aquela bazuca (?) de espuma, e acho demais que qualquer pessoa em sã consciência ia querer também.

katy-perry-banana-phone-singer-celebrity-600x400

sempre quis uma foto assim, risos

O negócio é que alguma coisa aconteceu ali entre o fim da turnê do filme e o show do último domingo porque, eu não sei vocês, mas pra mim, a Katy de 2011 e a Katy que vi pisar no Rio de Janeiro no dia 27 eram radicalmente diferentes. Fiquei muito triste ao perceber que o cabelo, os olhos e os cílios continuavam iguais, mas que faltava aquele brilho no olho da menina que realizou o sonho de se apresentar na frente de uma porção de gente com uma roupa cheia de brilhos.

Eu estava disposta a vir aqui escrever um post inflamado, de como ela tinha traído o movimento (?), de como um dia ela foi boa e como sua música de repente tinha se tornado mais do mesmo (?) e tal, mas o documentário acabou quebrando minhas pernas nesse sentido. Apesar de tudo ser meio montadinho-bonitinho-olha-só-nosso-mundinho-cor-de-rosa, chega um ponto que a gente percebe que nada é tão perfeito, nem quando tudo indica o contrário. Gosto de documentários sobre celebridades especialmente porque, por mais forçados que eles sejam, a gente consegue enxergar a pessoa por trás do nome. Parece muito óbvio, e é mesmo, mas foi só quando eu vi a Katy ali deitada, totalmente desolada com o fim do casamento, que eu fui entender isso de verdade. Que por mais que ela fosse uma mulher incrível e linda 24/7, ela também era um ser humano como qualquer outro, que vive dias bons, mas que também tem seus dias ruins, e que por mais que a gente tente acreditar no contrário, às vezes ser a Katy não é  tão incrível assim.

A cena mais marcante pra mim, de longe, foi antes do show do Brasil. O público gritando por ela, chamando seu nome, e ela ali, ainda sem saber se vai conseguir fazer o show ou não. De repente ela decide que sim, ela vai, e aí, naqueles dois minutos que antecedem sua subida, ela dá uma choradinha, só pra depois limpar as lágrimas, dar um sorriso e vai fazer o que tem que ser feito, mais ou menos como a gente aqui, chorando no banheiro do trabalho porque a vida é uma merda, só pra depois limpar as lágrimas e voltar pro batente como se nada tivesse acontecido. E se eu, que sou eu (!), às vezes morro de medo de me tornar uma pessoa dura, que não sorri com tanta naturalidade, nem leva a vida com tanta leveza, mas também acho que eu sou bem menos espontânea e tranquila do que já fui um dia, não consigo sequer abrir a boca pra julgar que ela também tenha se fechado, de alguma forma, pra se proteger, mas principalmente pra se preservar. Foi ruim, passou, mas vamos cuidar pra não acontecer de novo ou qualquer coisa assim.

tumblr_m1o91rzXHB1qzbagvo1_500

Sei que esse texto não faz muito sentido fora da minha cabeça, mas eu precisava escrever sobre isso porque passei os últimos cinco dias com essas coisas rodando na cabeça e precisava colocar pra fora de alguma forma. A Katy Perry que eu assisti no último domingo me parecia uma pessoa infinitamente mais triste, que se leva a sério demais, que trabalhava muito mais do que se diverte, mesmo por trás de todos os sorrisos e piadas forçadas. No fundo, só espero que em algum momento ela volte a ser aquela moça de antes, ou pelo menos uma versão mais leve de si mesma, que sorri com a mesma naturalidade de três anos atrás, que se diverte horrores enquanto trabalha e esteja sempre pronta pra fazer uma boa piada. Que, acima de tudo, ela volte a viver o conto de fadas que ela mesma sempre acreditou, e que é o que ela merece viver.

Previous Post Next Post

3 Comments

  • Reply Leticia 2 de outubro de 2015 at 4:15 PM

    adorei esse post. Eu não iria comentar nada pq vc já cobriu o assunto e eu nem tenho o que acrescentar, mas precisei parar e dizer que gostei. A gente coloca a vida alheia num pedestal e esquece que todo mundo tem dias ruins, épocas ruins e ninguém é tão feliz quanto parece ser (especialmente artistas que tem obrigação de estar sempre sorrindo). Bjs!

  • Reply Manu 3 de outubro de 2015 at 2:36 AM

    Nunca tinha dado moral pra Katy Perry, mas esse seu post me fez pensar, e cheguei aqui na caixa de comentários me empatizando mil com ela. Nunca tinha pensado em como ser Katy Perry era divertido, sabe? Afinal, uma pessoa que coloca nos peitos desde fogos até chantilly só pode ser uma pessoa incrível, e o mundo definitivamente precisa de mais ícones assim. Eu to aqui também torcendo pra que ela reencontre isso, porque né, por mais que acontecam merdas que obriguem a gente a ver que a vida não é maravilhosa o tempo todo, acho que todo mundo merece viver se divertindo. Némesmo?
    beijos <333

  • Reply Alessandra Rocha 3 de outubro de 2015 at 10:13 PM

    Que coisa linda gatinha, conheço quase nada sobre a vida e a carreira da moça mas eu vi pelas mesmas fotos a falta de brilho nos olhos que ela mudou, ainda mais quando aquela fã maluca subiu lá no palco – e menina perdeu a noção né? Achei feio, achei micão – e ela tava MUITO incomodada! =/

    A separação dela foi um baque mesmo né? Até porque lembro daquele babaca dando a vida pra ela e de repente, puff! Muito triste!

    Beijo!

  • Leave a Reply