QUERIDO DIÁRIO

A TAL MAGIA DO ESPORTE

Título roubado descaradamente desse texto incrível aqui.

Eu nunca gostei de esportes. Eu não tenho time de futebol, sempre odiei as aulas de educação física (se eu preferia ficar de recuperação por não fazer as provas práticas e depois recuperar a nota numa prova escrita? hell yeah!) e até onde eu me lembro, boa parte da minha infância foi marcada pelas tentativas frustradas da minha mãe – uma mulher super ativa, que está sempre pronta para fazer discursos sobre o poder da endorfina e os benefícios dos exercícios físicos – de me fazer gostar de alguma atividade física, qualquer que fosse. Foram anos de natação, alguns de vôlei, outros de ginástica rítmica – essa sim, eu adorava e era incrivelmente boa, mas infelizmente tive que sair depois que minha treinadora se mudou para outro estado e eu não tinha mais quem me treinar -, uma quase-tentativa de tênis, sem contar todas as vezes que me vi obrigada a jogar futebol, basquete ou handball na escola. Por fim, minha mãe acabou aceitando a derrota e entregou minha carta de alforria, me dando a chance de fazer a atividade que eu quisesse – ou não fizer atividade nenhuma, que foi mais ou menos o que eu acabei fazendo no final das contas.

Digo mais ou menos porque, como eu não sou idiota e sei que todo mundo precisa praticar algum tipo de atividade física para viver uma vida longa e feliz, corro de vez em quando e tenho tentado fazer pilates ou exercícios localizados em casa mesmo, sempre que possível – que é muito menos do que eu deveria, infelizmente -, mas essas são atividades muito solitárias e que nunca rendem uma boa história para contar, e eu sempre fico um pouco frustrada por nunca ter me apaixonado por um esporte o suficiente para me dedicar e ter histórias para contar. Não é como se eu tivesse algum talento, mas de qualquer forma fica aquela frustraçãozinha, aquele “e se” que não me deixa fingir que as coisas talvez pudessem ter sido diferentes se eu tivesse persistido um pouco mais.

Lembro que, no ensino médio, enquanto eu ficava batendo papo com minhas amigas na aula de educação física, observava Guilherme jogar futebol, basquete, vôlei ou handball – dependia do que estávamos estudando naquele bimestre -, e morria de inveja por não ser como ele, que se adaptava incrivelmente bem à qualquer esporte. Ele, que fez anos de natação e inclusive chegou a competir em provas regionais, também era incrivelmente bom em outras modalidades, e eu, no alto de toda a falta de habilidade do mundo, me perguntava se algum dia conseguiria saltar para bloquear uma bola no vôlei ou se daria um salto para marcar um ponto no handball sem me embolar inteira  e acabar dando com a cara no chão (spoiler: nunca consegui nenhuma das duas coisas). Eu queria ser boa em alguma coisa, eu ficava feliz quando por acaso fazia alguma coisa certa, mas eram casos isolados e no final do dia eu continuava sendo a adolescente inadequada que ninguém queria ter no próprio time.

Assim, segui minha vidinha me mantendo alheia a qualquer tipo de competição esportiva e odiando tudo quando não conseguia. Eu me transformei no tipo de pessoa que revirava os olhos para um jogo de futebol e que só topava assistir um jogo de basquete ou vôlei na casa de alguém se tivesse comida no meio. A coisa mudava um pouco de figura na Copa do Mundo, quando eu realmente me transformava numa torcedora dessas de carteirinha e me divertia um bocado. No entanto, depois de acompanhar o Brasil 2006, 2010 e 2014, até mesmo a Copa deixou de ser tão divertida. Eu ainda torcia e me divertia, é claro, mas não era mais a mesma coisa quando eu já não acreditava mais naqueles caras que tentavam defender nosso país com uma bola no pé. Eu não ia começar a xingar muito no twitter e queimar a bandeira do meu país (!), mas a cada ano que passava eu sentia que me importava menos. Eu não tinha nada a ver com aquilo. Eu não ia sofrer por esporte nenhum, quem dirá por futebol. Sem chance.

Com as Olimpíadas no Rio de Janeiro cada vez mais próximas, minha reação foi mais ou menos a mesma. Quer dizer, eu não me importava. Eu sabia de todos os problemas que estavam acontecendo no nosso país, eu sabia como um evento desse porte nesse momento específico era uma ideia equivocada, e não me importava nem um pouco com o esporte em si. Não me importava se o Brasil tinha chances reais de ganhar medalhas, quem viria e quem ficaria de fora, não me importava com absolutamente nada, exceto, talvez, se o evento causaria algum tipo de interferência no meu semestre letivo – coisa que aconteceu na época da Copa e avacalhou com o aproveitamento geral de algumas disciplinas. Eu não me importava com nada – até, claro, começar a me importar demais.

É engraçado como nossa opinião pode mudar tão rápido, mas às vezes acontece e eu fico feliz que tenha acontecido comigo dessa vez. Em questão de dias, eu fui da pessoa desacreditada, para uma torcedora de esportes que eu jamais imaginei me interessar; de uma pessoa que se irritava com a inconveniência do evento, para uma pessoa que saía mais cedo da aula só para acompanhar a final da ginástica artística; de uma pessoa que simplesmente não se importava, para uma pessoa que se importava demais, e que chorou por vitórias e derrotas como se cada uma delas fossem verdadeiramente suas, e que não queria que esse evento terminasse nunca, nunquinha, que chorou quando teve que ir embora. Eu me apaixonei por pessoas e por esportes, me diverti, me envolvi, gritei, xinguei, ri e chorei, e tudo isso por causa de um evento que eu jurei de pé junto que seria um porre. Não é como se eu já não estivesse acostumada a pagar minha língua, mas algumas vezes são mais divertidas que outras, e essa sem dúvida é uma que eu quero me lembrar sempre.

Eu continuo sendo a pessoa que não pratica esportes, continuo sendo a pessoa que não tem time de futebol e que revira os olhos para o Campeonato Brasileiro, mas pela primeira vez eu pude experimentar a tal magia do esporte, e foi incrível enquanto durou. Ontem, enquanto eu me desesperava com o vôlei masculino, Guilherme me perguntou porque eu me importava tanto se, na prática, eu não ganhava nada – e acho que essa é justamente a beleza de tudo isso. Na prática, a gente não ganha mesmo nada por se importar tanto. Medalhas não vão brotar nas nossas parede e nossos nomes não vão entrar para a história, e mesmo assim nós nos importamos. Não é bonito isso? Não é especial? São tempos estranhos esse que vivemos e não é como se todos os problemas do Brasil e do mundo fossem sumir de repente, mas ver tanta gente unida por uma razão comum, se importando com pessoas que elas sequer conhecem, com esportes que elas nem entendem, me dá mais esperanças, um motivo para continuar acreditando na beleza do mundo em que vivemos, acreditando na força que temos juntos, acreditando no esporte, nas pessoas.

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Obrigada, Olimpíadas, por me lembrar, acima de tudo, que a gente precisa continuar acreditando sempre. Foi muito bom enquanto durou.

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2 Comments

  • Reply Manu 22 de agosto de 2016 at 7:53 PM

    AMIGA VAMOS PRA TÓQUIO 2020 PASSAGENS BARATAS PESQUISAR

    Que fofo você linkando meu post ali, porque sinto que tudo isso que você escreveu podia muito bem ser uma continuação pro que eu escrevi. Nunca fui uma pessoa esportista, atlética, na pira das endorfinas; falei mal da escolha da sede como boa #hater que sou, achei ruim e tudo o mais, mas bastou ver quinze minutos da cerimônia de abertura que tudo aquilo foi varrido pro fundo da minha alma e a #fangirl em mim tomou conta. Ontem, vendo o encerramento, acho que Galvão Bueno cantou a pedra: essa festa toda elevou demais a nossa autoestima como povo. Ver essas cerimônias maravilhosas que enalteceram todos os povos e regiões do país, acompanhar os atletas que eram até então desconhecidos mas que vimos que podiam muito bem ser gente como a gente (se não como a gente, podiam ser nossos colegas de sala HAHAHA), a vontade de virar a melhor amiga da gangue da ginástica olímpica e as surpresas com o desempenho da nossa equipe também me transformaram na mais fervorosa das torcedoras. Continuo não sendo atlética, mas acho que não dá pra negar a BENDITA MAGIA que o esporte causa, transformando a vida dos indivíduos que participam dele e fazendo a gente se identificar e amar tanto esses atletas que a gente nem conhece mas já considera pakas. <3

  • Reply Thay 26 de agosto de 2016 at 9:26 PM

    Quando li seu texto pensei em uma coisa aleatória, tipo, o quanto nossas aulas de educação físicas são fracas. Aí depois, em ano de Olimpíada, fica todo mundo reclamando que não tem atleta disso, daquilo e que ninguém ganha nada. Mas como ganhar se nossa base de ensino de esporte é essa bagunça? Lembro de professor de Educação Física que só jogava a bola pra gente e sumia, jogava quem queria, quem não queria podia fazer o que quisesse e todo mundo levava 10 no boletim. TIPO??? Enfim, divaguei, mas pensei nisso enquanto li seu texto, haha. E ó, vamo pra Tokyo que tá tudo certo (não, sério, IMAGINA A GENTE EM TOKYO?? ahh, QUERO).

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