TOO COOL FOR SCHOOL

ABRAÇANDO O OVERSHARE

Vira e mexe alguém me pergunta se não é incômodo ou meio esquisito esse negócio de compartilhar a vida na internet. Sempre fico sem saber o que responder, especialmente porque, na maioria das vezes, quem pergunta não está realmente interessado numa resposta, mas em dar sua opinião. Eu jamais aguentaria expor minha vida desse jeito, é o que eles normalmente dizem, enquanto eu sorrio e aceno de um jeito mais ou menos simpático. Escrever sobre a própria vida e permitir que outras pessoas tenham acesso é, como qualquer outra coisa na vida, bom e ruim. Na maior parte do tempo, o bom pesa muito mais, e é por isso que continuo fazendo isso – ainda que o ruim também exista. É esquisito e às vezes incômodo, mas é incrível pra caramba na maior parte do tempo.

Na semana passada, conversando sobre isso com Guilherme, descobri que ele também acha meio desconfortável esse negócio de namorar alguém que não apenas escreve, mas que expõe, em alguma medida, a própria vida na internet, e eu entendo, da mesma forma que ele me entende e respeita de volta; que é o que importa, no final das contas. Muita gente diz que minha escrita é, ao mesmo tempo, muito pessoal e muito sentimental, e eu concordo. Ainda existem barreiras, é claro, mas elas são muito tênues e são muito mais uma orientação do que, necessariamente, um muro intransponível. Me expor um pouco além da conta é o preço. Tenho certeza que, depois de descobrir e ficar horrorizado com a existência do Gato Curioso (Deus tenha misericórdia da alma inocente do meu homem) (me sigam), ele certamente teria um ataque com a ideia de um post que não serve pra nada – absolutamente nada – além de expor fatos aleatórios sobre a minha pessoa e minha vidinha sem graça, mas ainda bem que a Pessoa Que Escreve™ nessa relação ainda sou eu, risos.

1. Embora não me importe com o fato de ter cabelos brancos, me incomoda profundamente a necessidade que as pessoas têm de me lembrar que eles estão ali. Eu já sei, disso. Eu me olho no espelho todo santo dia, pelo menos duas vezes ao dia. Eu realmente não preciso que ninguém me lembre da existência deles o tempo inteiro.

2. Quando era mais nova, as pessoas costumavam dizer que eu era parecidíssima com meu pai. Hoje, elas costumam me achar mais parecida com minha mãe.

3. Pijama é um dos meus presentes favoritos da vida, ainda que eu dificilmente vá usá-los. A verdade é que, em casa prefiro dormir com camisetas imensas e meio velhas, quase sempre roubadas do guarda-roupa de Guilherme, e um shortinho xexelento de mil anos atrás já até ganhou pernas e passeia sozinho pela casa, como minha mãe costuma dizer. Pijamas só são usados quando durmo fora de casa ou quando viajo com pessoas que não estão acostumadas com meus trajes pouco convencionais.

4. Entre as coisas que mais odeio sobre a megalomania da Marvel, a principal é a nova abertura dos filmes, que sintetiza muito bem o conceito de: farofa. Kevin Feige claramente perdeu completamente a noção do ridícula e agora só nos resta sentir saudade das páginas passando que eram suficientes para fazer nossos corações sofredores baterem mais forte.

5. Já dormir falando no telefone, risos.

6. Um dos incisivos (?) centrais (???) precisou de ajuda para nascer. A verdade é que meus dentes são relativamente grandes e, quando os dentes de leite começaram a cair, o incisivo – qual é realmente uma questão – decidiu que não daria conta de nascer sozinho. Foi preciso que minha mãe me levasse ao dentista para resolver a situação, mas hoje todos os envolvidos passam bem e, embora meus dentes estejam longe de serem perfeitos (dois anos de aparelho pra nada, etc etc), eu gosto bastante de todos eles.

7. Adoro conversar sozinha na frente do espelho e dar entrevistas na hora do banho ou quando estou dirigindo sozinha. A maioria dessas conversas são feitas em inglês, risos.

8. Foi só no ano passado que comecei a tomar café de verdade, num misto de desespero para me manter acordada e vontade. Hoje não consigo viver sem, ao ponto de sentir falta quando fico muito tempo sem beber um cafézinho sequer. Além disso, uma das minhas horas favoritas do dia é, justamente, quando paro para tomar café – seja de manhã, após o almoço ou no final da tarde.

9. Passei a maior parte da minha vida morando em apartamento, o que significa que toda a minha infância foi vivida embaixo do prédio e boa parte das minhas primeiras amizades e memórias foram construídas ali. Uma das minhas brincadeiras preferias nessa época era tocar campainhas aleatórias e sair correndo depois. Em uma dessas vezes, no entanto, eu toquei a campainha e, em algum momento entre tocar e sair correndo, acabei fazendo xixi no corredor. Não foi a primeira vez que fiz xixi na roupa e fora de casa, porque achei mais fácil prender do que correr de volta pra casa ou pedir para ir ao banheiro. Aos seis anos, na escola, fiz xixi no meio da aula e me molhei inteira na frente de todos os meus colegas porque fiquei com vergonha de pedir para a professora para usar o banheiro. Lembro como se fosse ontem de ser levada pra casa mais cedo pela minha mãe, que teve que sair correndo para me buscar e trocar minha roupa, e da minha professora dizendo que eu não precisava ter vergonha, que era só pedir da próxima vez e tudo bem. Curiosamente, tive bem menos vergonha de estar mijada do que de pedir permissão – o que diz muito sobre a pessoa que eu sou até hoje -, e mesmo que meus colegas nunca tenham esquecido essa história, nunca me incomodei quando ela era desenterrada – pelo contrário.

10. A primeira vez que fui ao cinema sozinha foi no mês passado, numa cabine para imprensa do novo filme do Selton Mello. Foi uma experiência realmente incrível – eu e a tela, completamente sozinhos, embora existissem outras pessoas na sala – e o tempo todo me perguntei por que diabos não tinha feito aquilo antes; uma pergunta pra qual eu sei exatamente a resposta, mas que não vem ao caso agora.

11. Minha primeira grande festa de aniversário aconteceu quando eu fui fazer três anos. O tema foi Branca de Neve e Os Sete Anões e eu me vesti de Branca de Neve, com direito a diadema e vestido de baile, e dancei a noite inteira, literalmente. Aos quatro e aos cinco anos eu me vesti de Cinderela e Bela, respectivamente. A partir daí minha mãe cansou, o dinheiro acabou, e minhas festas de aniversário deixaram de ter temas definidos.

12. Sinto cheio de sangue com MUITA facilidade – o que normalmente me faz parecer muito esquisita aos olhos da maioria das pessoas. Nada como dizer “mas que cheiro de sangue é esse?” para as pessoas começarem a te olhar torto e trocarem de calçada, risos.

13. Ainda sobre cheiros, álcool e água sanitária são dois que me incomodam profundamente; me lembram hospitais e, consequentemente, todas as injeções que já tomei nessa vida.

14. Um dos meus sonhos megalomaníacos é dirigir um filme de super-herói. Sempre me sinto meio idiota quando falo isso porque as pessoas normalmente encaram como um sonho distante e impossível, mas ainda que seja, de fato, distante e semi-impossível, a dificuldade não me faz abrir mão de… sonhar. No mais, sonho em conseguir ganhar dinheiro suficiente para me sustentar produzindo/dirigindo filmes independentes e de orçamento mais modesto, escrever um livro, ter um filho, e fazer um mestrado (e, posteriormente, um doutorado).

15. Nunca trabalhei em set de longa-metragem. Todos os filmes que fiz até hoje foram curtas e quase sempre fiquei em funções como direção de arte, fotografia ou assistente de direção.

16. Se em Hogwarts estivesse, eu veria testrálios; cavalos alados de corpo esquelético que são invisíveis para a maioria das pessoas. Não é preciso que eu diga o que vê-los significa: quem é fã ou simplesmente assistiu aos filmes certamente sabe o que separa as pessoas que veem essas criaturas das que não os veem ou simplesmente supõe que as carruagens que levam os alunos de Hogwarts até o castelo são puxadas por… nada.

17. Downton Abbey foi a única série que consegui assistir do início ao fim mais de uma vez. Além dela, também recomecei Penny Dreadful e Call The Midwife, mas não cheguei a terminar nenhuma. Friends, Supernatural e Gilmore Girls são outras duas séries que já assisti episódios repetidos, mas só no modo aleatório.

18. Antes de ter um blog pessoal e dividir um site sobre cultura pop com minhas amigas, já tive outros dois blogs de moda e dividi um blog – também de moda – com uma outra amiga. Hoje não me importo com moda tanto quanto antigamente, mas ainda é um assunto que me interessa em algum nível, especialmente enquanto forma de expressão e identidade, e como elemento capaz de contar histórias inteiras por conta própria.

19. Quando era criança, pensei algumas vezes em me tornar freira, quase sempre inspirada pelas novelas mexicanas ou pelos filmes água com açúcar que eu assistia na época. Nessas histórias, as freiras sempre eram mocinhas lindas e adoráveis, que se apaixonavam por homens lindos e igualmente adoráveis, que se apaixonavam por elas de volta, mas não podiam viver esse amor por motivos óbvios. A ideia de viver um amor proibido sempre me pareceu muito atraente e até hoje essas são histórias que me fascinam, ainda que na prática eu não deseje de modo algum viver algo parecido.

20. Não costumo assistir muitos filmes de terror com frequência – em partes, porque me impressiono muito fácil e odeio sentir medo -, mas tenho um interesse muito particular pelo terror enquanto gênero e pela mitologia por trás dessas histórias. É um interesse muito particular e meio esquisito, porque me aproxima e repele ao mesmo tempo, mas bastante real.

21. Minha personagem favorita de Orgulho e Preconceito é Jane Bennet; em partes, porque me identifico muito com ela, mas principalmente por ser um exemplo de como não é preciso que uma personagem feminina tenha uma língua ferina ou chutar bundas – metafórica ou literalmente falando – para ser considerada incrível. Jane é doce, delicada e carinhosa, uma mulher que enfrenta os problemas que surgem em seu caminho com muita calma, mas ainda com a cabeça erguida, mesmo que esteja profundamente machucada, e que sempre busca ver o melhor nas pessoas – muito mais do que muita gente consegue fazer. Elizabeth é uma mulher igualmente incrível, ao seu próprio modo, e muitas vezes fiquei chateada quando meus testes para saber quem eu seria num romance de Jane Austen sempre davam a Jane Bennet, Jane Bennet, Jane Bennet. Hoje, no entanto, sei que se numa história escrita por Jane Austen eu vivesse, Jane Bennet seria com muito orgulho e amor.

22. Ultimamente, tenho tido o sonho dourado de fazer um a dois filmes por ano e me sustentar com o dinheiro deles, vivendo em uma casinha no meio do mato, com piso de taco, um monte de livros e lareiras para esquentar. Também queria ter uma criação de bichos, uma horta e me alimentar das coisas que a natureza… dá. Parece meio idiota quando a gente fala assim – e talvez até seja -, mas diferente de quando eu era mais nova e sonhava em viver na Cidade Grande, cada vez mais esse ritmo insano e essa obsessão pelo consumo tem me deixado esgotada, e eu não quero, de modo algum, viver essa vida. Ao mesmo tempo, não quero criar meus filhos dentro dessa bolha em que o celular que você tem é mais importante do que a pessoa que você é. Deus me livre viver sem internet, ou Netflix, ou meus filmes, minhas séries, minha câmera e um vídeo game, mas tudo nessa vida tem limite e eu realmente gostaria de ensinar pros meus filhos o que realmente importa, antes de soltar meus passarinhos para voarem por aí. (Contei essas coisas pra minha mãe e ela me olhou com horror, certa de que sua filha, seu bebê, estava fumando alguma coisa nas horas vagas, risos.)

23. Eu sou uma pessoa bastante contraditória, que acredita em várias coisas ao mesmo tempo, e que muda de opinião com certa facilidade. Não é algo que me incomode particularmente, mas às vezes tenho medo de que isso me faça parecer fraca. Ou influenciável. Ou sem personalidade, falsa e mentirosa.

24. Meu primeiro show sem a presença de um adulto responsável foi do Nx Zero, em 2007. O show foi organizado por alguns amigos da minha prima – que na época tinha 22 anos, mas estava longe de ser responsável – e me deixou livre, leve e solta para curtir o show com meus amigos na época. Eu estava doente, com a garganta inflamada e febre, mas foi um dia memorável, que eu curti como se fosse estar morta no dia seguinte. Ironicamente, foi mais ou menos isso que aconteceu e na segunda-feira, lá estava eu no hospital, com a bunda dolorida depois de tomar injeção. Bons tempos, risos.

25. Sempre gostei muito de história, mas tenho estado particularmente obcecada por ela desde que passei a consumir mais produções de épocas mais recentes – mas nem tão recentes assim – e adquirir a consciência de que muitos dos fatos históricos apresentados na tela foram vividos, de algum modo, por pessoas que fazem parte da minha história pessoal. Adoro assistir Downton Abbey e pensar que a série se passa mais ou menos na época em que meu avô nasceu, e termina dois anos antes do nascimento da minha vó; ou Call The Midwife, em que a última temporada foi ambientada mais ou menos no ano do nascimento da minha mãe. Ao mesmo tempo, gosto de pensar que minha história começou ali, com aquelas pessoas, e que se não fossem elas, não seria eu, e acho bonito como a vida simplesmente acontece e vai se desenrolando, como um novelo, construindo histórias e mais histórias em diferentes épocas e contextos. Desculpa ser tão brega.

 

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3 Comments

  • Reply Natália Oliveira 2 de agosto de 2017 at 9:16 PM

    A graça do overshare na internet é que ele é divertido e, na maioria das vezes, nem é tão over assim. A menos que você poste um vídeo mergulhada numa banheira de nutela, etc.
    Fiquei bem triste quando você disse que veria os testrálios :(
    Fui ao cinema sozinha pela primeira vez esse ano também e, cara, eu nunca ia imaginar que era tão bom. Ainda mais quando a seção é vazia, é tão confortável e não tem ninguém pra perguntar “aquele cara ali vai morrer, não vai?”
    Quanto a parte de fazer xixi na calça, tenho uma história parecida. Uma vez fui pra escola usando uma jardineira. Me deu vontade de ir ao banheiro (e eu fui), mas quando cheguei lá, uma vontade de vomitar apareceu do nada e eu vomitei dentro da jardineira. O que uma criança faz quando vomita na roupa? Isso mesmo, veste a roupa como se nada tivesse acontecido. Minha mãe só foi descobrir quando cheguei em casa e eu não sei como ninguém reparou que eu estava fedendo à vômito ¯\_(ツ)_/¯

  • Reply Nicas 3 de agosto de 2017 at 2:49 AM

    O que eu acho mais engraçado sobre expor a vida na internet, é que normalmente expomos para as pessoas ~da internet~ que tem muito mais notação de limites, privacidade e protocolo que as pessoas ~da vida real~ que perguntam sobre a gente se expor na internet.

    O que você comentou sobre os cabelos brancos, por exemplo, eu sinto a mesma coisa com meu peso. Eu vario muito de peso (é muito emocional) e lido bem com isso, segue o jogo, mas as pessoas, elas precisam comentar O MEU CORPO, como se a calça não estivesse apertando e o espelho não estivesse me mostrando coisas. Eu me sinto mil vezes mais invadida com esse tipo de comentário do que com qualquer coisa que eu possa ouvir sobre um texto meu Na Internet.

    E que trocas maravilhosas a gente tem aqui, né? Fico feliz que você não tenha virado freira pra gente poder ficar aqui discutindo esse tipo de coisa.

  • Reply Michas 3 de agosto de 2017 at 4:34 PM

    “7. Adoro conversar sozinha na frente do espelho e dar entrevistas na hora do banho ou quando estou dirigindo sozinha. A maioria dessas conversas são feitas em inglês, risos.”

    AMIGAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA, te amo muito! POR FAVOR, NUNCA MUDE!

    “12. Sinto cheio de sangue com MUITA facilidade – o que normalmente me faz parecer muito esquisita aos olhos da maioria das pessoas. Nada como dizer “mas que cheiro de sangue é esse?” para as pessoas começarem a te olhar torto e trocarem de calçada, risos.”

    SHARON: VAMPIRA CAÇADORA DE MONSTROS DAS TREVAS! <3 <3 <3

    Adorei saber mais sobre você e muito obrigada pelo overshare, hehe. Acho lindo o seu sonho de viver dos seus filmes e das coisas que a natureza dá. Também fico meio exausta só de pensar em como vivemos o tempo todo influenciadas pelo consumo e ~agito~ da cidade grande. Um ambiente mais tranquilo deve resultar na criação de crianças mais conscientes das coisas que realmente importam. Não sei muito bem se quero embarcar na aventura da maternidade, mas se quiser, acho que vou seguir essa mesma linha de pensamento, hehe. E sobre viver sem internet: JAMAIS. Acho que já estamos muito acostumadas com ela para simplesmente largar. O importante, penso eu, é saber usar com ~responsabilidade~, até porque tem muita coisa boa, né? Como a Netflix e a quantidade de textos de qualidade que encontramos.

    E AS AMIZADEEEEEEEEEEEEES <3

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