JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

ALERTA DE CILADA

Minha mãe vive dizendo que eu preciso aprender a dizer “não”. Normalmente, ela diz isso quando eu estou exausta, descabelada e chorando de raiva e ansiedade, porque eu ainda sou o tipo de pessoa que não se contém diante de ideias legais demais para não serem postas em prática, o que, cedo ou tarde, se transforma num punhado de prazos e tarefas que eu nem sempre tenho tempo suficiente para cumprir. A vida não é fácil pra ninguém, mas é especialmente difícil com pessoas que não sabem dizer “não” e de repente se veem soterradas por todas as coisas que precisam ser feitas, mesmo que já não exista mais tempo para, de fato, fazê-las. É uma conta que não fecha, e minha mãe sabe disso muito melhor do que eu.

Chega a ser ridícula a frequência com que isso acontece, mesmo – e principalmente – que eu saiba como cada uma dessas bolas de neve surgem; mas ainda sou eu, e ainda é minha mãe, e nós sabemos exatamente qual papel estamos interpretando – graças a Deus. Então, sempre que possível, ela faz questão de me lembrar que eu preciso aprender a falar “não”, caso queira manter minha sanidade, enquanto eu, por outro lado, sigo determinada a fazer o contrário, mesmo que sempre prometa fazer diferente da próxima vez.

A última semana foi um ótimo exemplo disso; o ápice da minha tragédia particular que vem se desenrolando desde o final de fevereiro ou início de março, quando eu perdi completamente o controle da minha vida. A sensação que eu tenho é a de que soltei momentaneamente as rédeas do cavalo e desde então tento equilibrar minha carroça cheia de tralhas com dificuldade, enquanto ele corre desgovernado por aí, com alguns momentos de calmaria no meio do caminho em que eu juro que vai ficar tudo bem, mas não fica tudo tão bem assim. Seria cômico se não fosse trágico; mas ao mesmo tempo, acho meio injusto olhar tudo isso só por esse cenário ridículo, sem levar em consideração que todas essas furadas me movem em algum nível. Eu não inventei de estudar cinema só porque era minha única opção, ninguém me obrigou a criar um site com minhas amigas ou manter um blog pessoal, e eu nunca topei entrar em um projeto (ou dois, ou três, ou quatro) que eu não acreditasse e amasse profundamente desde o início. Existe um critério quando eu digo “sim”, que não é o melhor critério do mundo, mas ainda é alguma coisa; não é algo completamente aleatório. Ainda sou eu quem fica louca e descabelada no final, jurando de pé junto que da próxima vez não vou fazer isso, aceitando que talvez eu devesse mesmo ir com mais calma e aprender a dizer “não”, mas é essa mesma louca descabelada que sustenta um sorriso de orelha à orelha quando as coisas dão certo no final – e modéstia à parte, aos trancos e barrancos, quase sempre elas dão.

Tenho pensado muito em como é importante a gente acreditar que pode fazer as coisas antes de realmente fazê-las, por mais impossíveis que sejam, porque, do contrário, não existe motivo para sair do lugar. É verdade que querer não é sinônimo de poder, mas a mesma mãe que me disse que eu preciso aprender a dizer “não” é a mesma mulher que me ensinou que nossos pensamentos têm poder, e que a gente precisa pensar positivo e acreditar que podemos fazer qualquer coisa, mesmo que não agora. Ela, assim como eu, acredita que a gente é capaz de construir um meio termo entre o querer e o poder, e que ninguém é obrigado a nascer e morrer no mesmo lugar – a diferença básica entre nós duas é que, enquanto eu sou uma pisciana sonhadora, sem nenhum senso prático; ela é uma canceriana com os dois pés fincados no chão, que sabe reconhecer seus limites e a hora certa de dizer “não”. Mas nós acreditamos, algo tão fundamental para nós quanto respirar e ter o coração no lugar.

Curiosamente, foi nisso também que eu pensei enquanto assistia Punho de Ferro e, mais tarde, enquanto escrevia sobre a primeira temporada da série para o Valkirias. Como qualquer outra série de super-herói, os pilares de Punho de Ferro se estabelecem naquele mesmo contexto do qual já estamos saturados (vamos lá: homem branco dado como morto volta do além em busca de vingança, etc etc), mas ela apresenta um protagonista com uma visão radicalmente diferente de mundo, mais esperançosa e menos sofrida, o que acho absolutamente sensacional. É verdade que Danny Rand não é a melhor pessoa do mundo – como nenhum de nós o é -, mas ele possui uma certa ingenuidade e uma credulidade quase infantis que nos fazem muita falta. Muito se falou sobre suas certezas partirem de uma certa arrogância, mas não acho que seja esse o caso: quando questionado sobre sua certeza de que vai vencer determinado desafio, que vai vencer determinado vilão, que vai conseguir provar sua identidade, ele diz que acredita em tudo isso porque se não acreditar, então isso jamais vai acontecer. Antes que os outros acreditem em nós, é preciso que a gente se dê esse crédito, do contrário, é muito mais fácil ficar com o computador no colo assistindo alguma coisa do que sair em busca do que quer que seja.

Quando eu me proponho a fazer alguma coisa, eu estou dizendo pra mim mesma que eu consigo, mesmo que seja difícil demais, mesmo que eu não tenha tanto tempo assim, mesmo que as chances de dar tudo errado sejam imensas. Pode ser que dê, pode ser que não, mas eu jamais vou saber se não tentar e, principalmente, acreditar que pode dar certo. As coisas mais sensacionais que já fiz nessa vida foram consequências desse acreditar meio inconsequente, situações que eu tinha medo, absoluto medo, mas que eu precisava acreditar que podiam dar certo. Qualquer pessoa teria me dito pra não fazer, mas eu fui lá e fiz assim mesmo: porque sim, porque eu queria, porque foda-se, a vida é minha e eu ainda faço o que quiser – e foi exatamente assim que, no mês passado, eu me topando entrar em mais uma cilada, que dessa vez consiste em postar todos os dias de abril, ou quase isso.

A última vez que eu inventei de postar todos os dias durante um mês inteiro foi em dezembro, uma empreitada que, superando todas as expectativas, deu muito, muito certo. Não cheguei aos tão sonhados 31 posts, mas cheguei bem perto da marca e foi incrível poder redescobrir esse prazer em escrever qualquer bobagem, em manter um blog pessoal quando ninguém mais parece se importar com isso. Antes disso, ensaiei participar de um BEDA que terminou antes mesmo de começar, já na primeira semana, e de outro, no ano anterior, que deu bastante certo. Foram experiências completamente distintas, algumas deram certo, algumas nem tanto, mas todas foram especiais ao seu próprio modo e me ensinaram uma ou duas coisas sobre acreditar que eu posso fazer alguma coisa – mesmo que seja atualizar o blog (quase) todos os dias do mês. O blog não é uma obrigação na minha vida – e eu nunca quis que fosse -, mas eu gosto de me desafiar de vez em quando, eu gosto de poder tentar fazer alguma coisa que parece impossível até que não é mais, especialmente quando não se está sozinha nesse barco, então tudo bem. Tentar não custa nada.

Obviamente, postar todos os dias – ou quase todos os dias, que é o que eu e minhas parceiras de cilada nos propomos a fazer – durante um mês muda radicalmente todo o meu planejamento (sim, eu tenho planejamentos mensais): tem a faculdade, que mal começou e já está um absoluto terror; tem o site; tem o TCC de uma amiga que eu, sem juízo nenhum, me propus a ajudar – e tenho amado cada segundo da experiência; tem os textos que precisam ser escritos e claramente não vão fazer isso sozinhos; os 1379123 vídeos para serem editados; livros para serem lidos; séries para serem assistidas; projetos paralelos sobre os quais eu talvez comente em algum momento, mas não agora; roteiros para serem escritos; uma viagem no meio do caminho; e não é nem preciso falar sobre a minha vida pessoal inteira, que não precisa do menor incentivo para sumir do mapa de vez. Mas eu ainda quero fazer assim, ainda quero tentar, porque eu acredito que pode dar muito certo, e se não der, pelo menos eu vou ter me divertido um bocado. Ninguém me obrigou, eu só sou maluca assim mesmo.

Não prometo que vamos ter posts novos todos os dias porque tenho trabalhado melhor com a ideia de respeitar o meu tempo e meus limites, mesmo no meio dessa loucura. Mas eu ainda vou tentar dar o meu melhor, que é o que eu faço sempre, mesmo que alguns cabelos fiquem no meio do caminho – pelo menos, eles crescem depois. Não valeria à pena se eu não imaginasse que pudesse dar certo, mas acho que as chances disso acontecer são imensas também, e se não der, pelo menos vai ter sido divertido – e torço pra que vocês se divirtam junto comigo também.

(Eu tenho a força, sou invencível… Não, pera.)

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1 Comment

  • Reply Mia 2 de abril de 2017 at 1:04 PM

    Miga, a gente é muito louca, mas como diria Jodorowsky: a loucura em conjunto é mais sagrada. Sempre tive problemas em saber dizer não pras pessoas. Aí, um dia, aprendi; só que a vida ficou meio boring. Decidi balancear e dizer mais sim novamente porque é isso o que faz a vida ser divertida e completamente louca.

    A gente vai pirar loucamente, mas vamos pirar juntas o/

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