JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

ALGUNS DIAS SÃO MELHORES QUE OUTROS

Hoje foi meu primeiro dia tomando um remédio novo. Depois das noites agitadas, a falta de apetite seguida de enjoos, e todas as crises de choro fora de hora que fizeram parte do período de adaptação ao primeiro, meu psiquiatra resolveu trocar o remédio por uma versão em gotas – infinitamente mais prática para quem vai começar a reduzir a dosagem do que ficar partindo comprimidos minúsculos em um milhão de pedacinhos. Em tese, é o mesmo remédio: nome e embalagens diferentes, mas igual em todo o resto (mesmo composto, mesma dose, etc etc); na prática, foi quase como estar de volta àqueles dias de noites agitadas, falta de apetite e crises de choro que poderiam explodir em qualquer momento, bastava alguém apertar o botão certo. Mas nada disso tem realmente a ver com o remédio – pelo menos não nesse caso, acredito. Achei justo registrar esse detalhe, no entanto, porque logo que acordei e pela eternidade que durou a minha manhã, fez todo o sentido do mundo culpar o remédio novo, que além de pouco prático, ainda tinha gosto ruim; e o médico que achou uma boa ideia me receitar aquele troço ao invés de me deixar ser feliz picando comprimidos em casa.

Mas o fato é que eu estava diante de um dia ruim, que já era ruim antes mesmo de eu colocar o remédio na boca e tentar espantar o gosto horrível com um café requentado e um cuscuz meio sem gosto. E não havia muito o que entender sobre isso, embora eu tenha passado boa parte do meu dia deitada na cama (quando deveria estar fazendo um milhão de coisas) tentando entender que necessidade maluca era aquela de ficar andando em círculos no meu quarto, ao ponto de precisar deitar para parar de uma vez, e o que, afinal de contas, me fazia ficar tão agitada e inteiramente incapaz de usar meu tempo livre para algo útil ou me concentrar numa atividade qualquer. Enviei uma mensagem pra Guilherme, meio desesperada, mas sem conseguir dizer exatamente o que estava acontecendo. Ele me mandou pular ou fazer polichinelos pra dispersar um pouco da tensão. Não fiz nenhuma das duas coisas, embora devesse ter feito. Alguns diriam que é falta de força de vontade. Eu diria que é só minha cabeça tornando minha vida um pouquinho mais difícil. Cada um acredita no que quiser.

Não sei explicar porque a minha cabeça funciona assim. Quer dizer, cientificamente existe uma justificativa, mas é uma forma que me parece distante demais e que nem sempre é suficiente pra que as pessoas tenham a real dimensão do que de fato está acontecendo ao ponto de me fazer querer passar um dia – uma semana, um mês – inteiro trancada no quarto, completamente incapaz de levantar da cama e fazer qualquer coisa. É algo que nem eu consigo entender, porque parece impossível e improvável, e eu ainda tenho certa resistência em aceitar que algo tão abstrato possa ter consequências tão concretas e exercer uma influência tão forte no que faço ou deixo de fazer – principalmente no que deixo de fazer. Por mais que eu continue buscando respostas melhores para explicar pra quem quer que seja que diabos estou sentindo e porque eu estou agindo desse jeito tão estranho de novo, nunca consigo encontrar uma justificativa que seja suficiente, só um vazio enorme e meio assustador, que me consome inteiramente. Muita gente acredita que o fato de tomar remédios me faz ter dias sempre bons, independente das coisas ruins que acontecem, mas isso é uma mentira deslavada. Se a vida de ninguém é feita só de alegrias, por que a minha deveria ser?

Em dias como hoje eu só queria comer uma yakissoba quentinho e dar uma choradinha entre um episódio e outro de uma série qualquer. Não é preciso que meu mundo esteja desabando pra que eu queira ter esses momentos, nem que alguma coisa realmente ruim tenha acontecido pra eu me permitir cancelar tudo: só a cruel, mas libertadora noção de que alguns dias são melhores que outros, e que às vezes é muito melhor admitir a derrota e seguir com o baile, do que continuar tentando fazer alguma coisa e se frustrar ainda mais por não conseguir fazer nada. É preciso parar e se permitir não fazer nada, olhar pro teto, se esconder embaixo do edredom, dar uma choradinha e comer uma comida quentinha que parece um abraço por dentro, e esquecer dos prazos, esquecer da vida, esquecer de todos os textos a serem escritos, livros a serem lidos e filmes a serem assistidos. Aceitar a tristeza não como algo definitivo, mas como uma parte intrínseca da nossa existência, e aprender a conviver com ela da forma mais natural possível.

Em Alucinadamente Feliz, a Jenny Lawson diz que existem muitas coisas erradas na cabeça dela, mas que existem muitas certas também, e a partir daí começa a listar coisas boas que não existiriam sem as ruins: a alegria sem a tristeza, a luz sem a escuridão, a dor sem o alívio, a sorte de viver momentos tão maravilhosos quando não se conhecem os ruins. E eu concordo com cada parte disso. Dias ruins continuarão existindo, independente do que eu faça ou deixe de fazer, independente dos meus problemas, dos meus fantasmas, da minha realidade – eles existem pra todo mundo, em maior ou menor intensidade; e ninguém pode vencer o tempo inteiro. Então talvez, muito mais honesto do que tentar fugir ou lutar contra eles, seja encará-los de frente, tomar uma xícara de café e dormir de conchinha até o dia que eles finalmente decidam ir embora. Enquanto isso não acontece, no entanto, são as lembranças de todos os momentos felizes que eu já vivi e a promessa de todos que eu ainda viverei, que me fazem continuar seguindo em frente quando a depressão distorce a realidade e tenta me convencer do contrário. Alguns dias são melhores que outros, mas pelo menos ainda podemos contar com a certeza de que em algum momento, esses outros também irão embora – ainda bem.

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4 Comments

  • Reply Marina Matos 21 de fevereiro de 2017 at 2:56 AM

    Tão real, tão intenso viver isso, né. Te entendo perfeitamente.
    Mas sim, isso também vai passar.

    Abraço apertado,
    Marina

  • Reply Alessandra Rocha 21 de fevereiro de 2017 at 8:45 PM

    Eu li em algum lugar alguma vez que os dias ruins existem, e que o mundo é injusto e que a gente tem que aprender a lidar com isso, mas não quer dizer que a gente não possa se sentir overwhelmed e sucumbir de vez em quando. Gosto e odeio esse tipo de texto porque não gosto de ver pessoas de quem eu gosto na bad, mas isso é prova de que somos humanos capazes de coisas incríveis e tudo tudo tudo passa <3
    e você não ta sozinha <3
    e existem dias e coisas e pessoas muito maravilhosas na vida e você é uma delas <3

  • Reply Debora Pizolito 22 de fevereiro de 2017 at 12:36 AM

    Oi, Ana!
    Tudo sobre esse texto é tão sensível, e por ora, duro, que me puxa de volta para a realidade.
    Sabe, esses dias o meu professor de fotografia resolveu nos mostrar um “experimento” sobre a luz. Ele pediu para que apagássemos a luz da sala de aula, ficássemos no escuro e então, aos poucos (e ao mesmo tempo de repente), já observávamos a luz natural entrar no ambiente. Estava tudo claro de novo.
    Acredito que em alguns momentos a nossa vida tenha que ser um pouco como essa luz. Precisa ser interrompida e renovada. E nós, como o escuro. Precisamos de um tempo para nós mesmos. No fim, tudo volta aos eixos e a vida segue se renovando em algum momento que seja necessário.

    Devo dizer que a luz que entrou depois do escuro, era muito mais bonita do que aquela que saiu!
    Um beijo enorme – e um abraço quentinho. Força sempre! <3

  • Reply Aline Amorim 23 de fevereiro de 2017 at 7:14 PM

    Meu marido sempre diz que assim como coisas boas passam, as ruins também passam!

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