JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

ANTES QUE DEZEMBRO ACABE

É possível que eu tenha prometido postar outra coisa hoje, mas a essa altura vocês já perceberam que eu raramente cumpro as coisas que prometo. É só que eu nunca consigo pensar em uma coisa de cada vez e quando dou por mim já estou pronta pra falar da vida, do que eu tenho feito quando não estou escrevendo (ou tendo crises de insônia) (ou dormindo 13h por dia) (eu sei que não faz o menor sentido). Acontece que dezembro tem sido um mês bem estranho, com coisas muito boas acontecendo ao mesmo tempo que coisas muito ruins, e eu nunca sei se deveria estar comemorando, se deveria estar chorando, ou se o melhor mesmo é não fazer nada e seguir com a vida. Sonhei essa semana com vacas pulando de um precipício (uma cena tão horrorosa quanto vocês podem imaginar), e numa tentativa frustrada de me ajudar a interpretar meu sonho maluco, minha vó me disse que sonhar com gado é sempre um bom sinal, mas que ela realmente não sabe o que significa quando essas mesmas vacas começam a se suicidar. São tempos estranhos.

ai meredith

O engraçado é que só agora chegamos na metade do mês, mas tanta coisa aconteceu em tão pouco tempo que de vez em quando eu ainda preciso me lembrar que ainda não acabou e que eu ainda preciso continuar colocando um pé na frente do outro, mesmo quando minha vontade sincera é passar o dia inteiro na cama. Sei lá, eu só queria poder assistir “Friends” o dia inteiro e começar de novo quando acabar. Mas aí tem o cachorro que ficou doente, tem o banco que não para de encher o saco, tem as festas de fim de ano, tem todo o sono do mundo, uma auto-estima que obviamente não vai se levantar sozinha, a dieta que foi pro espaço antes mesmo de começar, a viagem que não vai rolar, as pessoas que sempre deixam tudo um pouquinho mais difícil. Se eu pudesse pedir qualquer coisa de Natal, pediria um pouco mais de calma, e uma pessoa pra resolver todos os pepinos da vida adulta por mim, então eu poderia respirar um pouquinho até achar que tudo bem, já posso cuidar de tudo sozinha de novo.

Achei que depois que as aulas acabassem seria mais fácil colocar minha vida de novo nos trilhos e dar atenção pra tudo que andei negligenciando enquanto estava muito ocupada tentando não pirar de vez. Só que aí a vida aconteceu, tão rápido quanto eu devia esperar, e antes que eu pudesse pensar em colocar o papo em dia com minhas amigas, eu já estava elencando uma lista de prioridades na minha cabeça, ignorando tudo que prometi resolver assim que o semestre acabasse, caminhando em círculos pelo quarto pensando que estava muito certa a amiga que disse uma vez que eu precisava aprender a administrar melhor meu tempo. Porque mais uma vez, é isso que está acontecendo: a vida não para nunca e só uma vez eu queria chegar no fim do dia sem essa sensação de que eu podia ter feito mais e mais, e por algum motivo não fiz – ou então aceitar de uma vez que eu nunca vou conseguir fazer tudo mesmo e paciência, ninguém é perfeito.

Eu realmente gosto de ter o que fazer e ainda prefiro que a vida aconteça dessa forma do que ficar parada no mesmo lugar. O problema é que a essa altura eu já não tenho mais fôlego pra continuar nesse ritmo, por mais que eu tente, tente de verdade. Disse uma vez que a sensação que tenho quando as coisas começam a se atropelar dessa forma é mais ou menos a mesma de estar vendo um filme que parece muito bonito e interessante, mas que não posso participar de verdade. Logo na primeira semana de dezembro, recebi um e-mail dizendo que minha mudança de habilitação tinha sido aceita, e depois recebi outro perguntando se eu tinha certeza que era aquilo mesmo que eu queria – o que me deixou com um medo tão sincero que até agora não tive coragem de contar pra quase ninguém sobre a mudança, muito menos comemorar. Em questão de horas eu saí da vibe “estou morrendo de medo, mas acho que tenho um motivo pra comemorar” pra “eu não faço a menor ideia do que estou fazendo, então talvez eu passe as próximas horas chorando no meu quarto”, até que de repente eu estava no carro com a minha cachorrinha gritando de dor, tentando a todo custo deixar ela o mais confortável possível mesmo sem ter a menor ideia se aquilo mais ajudava ou só piorava (podia ser uma metáfora da vida, mas era só eu tentando carregar minha cachorra doente). É possível que amanhã meus netos estejam correndo pela sala. Não sei como isso aconteceu.

Quer dizer, não saber é um pouco de exagero, claro, mas vocês entendem a diferença entre agir de forma automática diante de todas as nossas questões existenciais ou se permitir viver cada parte dessa piada cósmica. Sei lá, às vezes eu só queria me sentir menos um robô e parar dois minutos pra pensar se eu realmente estou fazendo as escolhas certas, se aquela é mesmo a melhor opção. Nunca dá pra ter certeza, mas ajuda um bocado se pelo menos eu pudesse ser um pouco mais honesta comigo mesma e procurar entender o que eu realmente quero e o que eu não quero pra minha vida no momento. Tipo, sério mesmo, será que eu nunca vou conseguir viver uma coisa de cada vez?

complicated

There’s so many things I want to do and I end up  doing not much pode facilmente resumir os últimos dias de um mês que eu jurei que viria carregado de um ânimo que eu não via desde o final de agosto. Porque o tempo não para e eu tenho pressa, uma vontade enorme de fazer as coisas darem certo, mas pouca força pra de fato correr atrás, mesmo sabendo que nada nessa vida realmente cai do céu. Faço um milhão de coisas ao mesmo tempo, sem no entanto sentir que elas estão efetivamente me levando a algum lugar, então eu simplesmente ignoro e continuo fazendo mesmo assim – ou então paro tudo e vou assistir uns episódios de “Friends”, porque pelo menos na ficção eu ainda posso acreditar que as coisas dão certo de verdade -, mas no fundo eu só estou mesmo morrendo de medo do que posso encontrar quando virar na próxima esquina.

Mas como o medo nunca é suficiente, nesse meio tempo também teve espaço pra comemorar o emprego novo do meu padrasto, ficar gripada, 13h de sono seguidas, uma dieta e uma rotina séria de exercícios que deixei de lado antes mesmo de começar, discutir relação, ganhar presentes incríveis, ler vários livros, ligações do banco me cobrando R$0,08 (oito fucking centavos) (parece piada, mas juro que é verdade) (a crise, ela chega pra todos), muitas idas ao veterinário, uma possível viagem para o litoral, todos os episódios de “Friends” que fui capaz de assistir, uma vontade bem sincera de cancelar toda a programação de fim de ano e pular logo pra 2016, e todo o choro do mundo porque that’s how we roll. Disse pra minha mãe outro dia que queria passar o Natal de pijama, assistindo “Meninas Malvadas” dublado na tv, e com uma taça de vinho na mão, e quando ela concordou comigo, tive que sair correndo e me esconder no quarto pra ela não me ver chorando. Era de alegria, mas ela não ia entender. Essa sou eu em dezembro.

crap

Não sei se esse post faz sentido em alguma cabeça além da minha (era pra ter sido um diário das últimas semanas, mas aparentemente a ideia foi esquecida meio do caminho) (mas confesso que ele não faz muito sentido na minha cabeça também), mas se eu pudesse definir as últimas semanas numa única palavra, eu diria que elas foram, acima de tudo, intensas. Ainda não sei se gosto que as coisas aconteçam nesse ritmo, mas tenho tentado tirar algum aprendizado disso tudo e posso adiantar que não acho que essa versão de mim mesma meio louca e descabelada seja de todo ruim. Eu ainda preciso daqueles dias com os pés na areia e a maresia destruindo meu cabelo, mas só o suficiente pra eu me sentir conectada comigo mesma e com todas as coisas que amo e me fazem bem, e poder pensar na vida enquanto vejo o sol tocar o mar – até sentir saudades e admitir pra mim mesma que tudo bem, já é hora de voltar.

De todas as coisas que podiam ter acontecido, dezembro me mostrou que a vida muda numa velocidade insana, e que isso nem sempre quer dizer que ela muda de um jeito bom, mas que eu posso aguentar muito mais do que acreditava. Eu ainda me sinto horrorosa, tenho problemas com meu corpo, com minha família, com meu namorado, não faço a menor ideia do que estou fazendo na maior parte do tempo, choro muito e tenho pavor do futuro – e tudo bem. É bem possível que eu queira morrer nos próximos dias e Deus me segure quando a Simone começar a cantar, e talvez eu nunca saiba o que significa sonhar com vacas suicidas, mas a vida é boa mesmo assim.

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6 Comments

  • Reply ingrid 17 de dezembro de 2015 at 6:06 PM

    eu super te entendo emrelação ao dezembro, muita coisa boa aconteceu, mas muita coisa corrida e ruim tb q ate agora não sei se sorrio ou choro. achei q as aulas acabando ia aliviar, mas ta tudo tao corrido quanto e tenho certeza que quando eu notar, minhas férias já passaram, e fudeu. mas menina, vamo dar um respiro, aí…sei que coisas são intensas, e quando quiser chama lá no facebook, snapchat, no blog, sei lá…conversar sempre faz bem. todo mundo passa uns problemas loucos, porém no fim tudo vai dar certo. quando rola comigo eu sempre tento pensar nisso mesmo xingando deus e o mundo, q no final tem q dar certo, nao é possível hahahaha

    sei q é foda, mas nao fica se sentindo horrorosa nao…você é linda, menina. cai nessa, não <3 tenta fazer uns exercicios (quando vc tiver tempo claro) q ajude no equilibrio tipo blogilates, alongamento, coisas que dão concentração, alivio, segurança…super me ajudou <3

  • Reply Fernanda 18 de dezembro de 2015 at 1:25 AM

    Eu acho que entendi o que você quer dizer. Eu tenho feito tudo no automático esse ano (esse ano foi a pior coisa que já me aconteceu de longe, e eu ainda tô tentando voltar a ser eu mesma) – e, sei lá, eu preciso fazer, eu decidi que quero fazer coisa x, que tenho que, e vou lá, faço, e nem ao menos me pergunto se elas tão efetivamente me levando a algum lugar, como você colocou. E eu sigo sem saber.

    Mas fico feliz que você tenha terminado concluindo que ‘a vida é boa mesmo assim’, porque é, né? Não é fácil pra quase ninguém (você não se pergunta às vezes como pode parecer tão fácil pra algumas pessoas? Eu me pergunto. Não sei se é – mas parece), mas é boa. Tem seus momentos, às vezes até vários. E a gente respira fundo e vai em frente (e se precisar de um ou dez episódios de Friends no meio, que seja assim mesmo).

    Amiga, força. Espero que sua cachorrinha esteja melhor. Que você se sinta mais segura com a mudança de habilitação (duvido que você tenha feito sem pensar muito antes, então acredito mesmo que vai ser pra melhor). Que você tenha uns momentos de paz. E, como a Pixar ensinou: just keep swimming. Que bom que você descobriu que pode aguentar muito mais do que achava que podia.

    Beijo!

  • Reply Maria 18 de dezembro de 2015 at 1:45 PM

    Esse texto, ele se aplica a mim de uma maneira tão absurda que eu nem sei o que comentar.

    “Eu ainda preciso daqueles dias com os pés na areia e a maresia destruindo meu cabelo, mas só o suficiente pra eu me sentir conectada comigo mesma e com todas as coisas que amo e me fazem bem, e poder pensar na vida enquanto vejo o sol tocar o mar – mas só até sentir saudades e admitir pra mim mesma que já é hora de voltar.”
    Quando eu penso que você tá falando da minha vida, vem você e fecha com chave de ouro descrevendo EXATAMENTE O QUE EU SINTO TODO FINAL DE ANO. Eu PRECISO ir pra praia, preciso olhar o mar, PRECISO dessa conexão… Mas só até certo ponto porque uma hora eu tenho que voltar pro meu mundinho de sonhos no qual vivo todos os outros (quase) 365 dias do ano.

    Eu só tenho uma dica pra te dar, e não precisa seguir se não quiser porque é uma coisa realmente muito pessoal: ouve o teu lado espiritual. Não precisa acreditar em nada, mas tenta ouvir teu coração, tenta se conectar com aquela parte transcedental de você. Esse é o primeiro ano que tô correndo atrás disso e o primeiro dezembro da minha vida que tá tudo de boa. Faz um bem danado. :)

    Beijinhos.

  • Reply Isa 18 de dezembro de 2015 at 2:39 PM

    nada foi mais certeiro a respeito desse ano de 2015 do que dizer que ele foi escrito e dirigido pela Shonda Rhimes. a sequência dos gifs que você escolheu me lembrou apenas isso, que foi um ano em ritmo de série, com o episódio do amor seguido do episódio do drama seguido do episódio da tragédia seguido do episódio estranho seguido do episódio da tristeza seguido do episódio do amor e agora vem o especial de natal. tudo meio apressado, mesmo, estilo binge-watch, e no final a gente só ficou com um flashes aleatórios do que aconteceu.

    doido, né?

    mas a gente vai conseguir sobreviver!

  • Reply Alessandra Rocha 24 de dezembro de 2015 at 12:23 AM

    Primeiramente: SIM pro comentário da Isa.
    Segundamente: da cá um abraço porque rolou uma identificação absurda com esse post todo e toda a vibe dele e… É.
    Queria poder fazer um comentário legal e pertinente mas to tomada de feels aqui, desculpa.

    Mas ó *abraço* <3

    beijo!

  • Reply Ana 24 de dezembro de 2015 at 1:46 PM

    Meu d, vacas suicidas, SOCORRO. HHAHAHAHAH
    Mas assim, Ana, eu te entendo. Um pouco. É uma sensação de querer fazer mil coisas, mas ao mesmo tempo se negligenciar ao ponto de fazer 0. Acho que o melhor a se fazer é parar, respirar fundo, talvez fazer uma tabela e outra, e começar a colocar um pé atrás do outro enquanto busca seja lá o que tu quer.
    E assim, sobre mudar de habilitação: sempre vai ter alguém que acha que tu não tá fazendo a coisa certa, e olha, se tu sentiu no fundo do teu estomago que tu queria mudar, provavelmente é porque teve um motivo pra isso. E, se ainda assim tu se arrepender… Foda-se. Tu se arrependeu. Troca de novo. Começa de novo.
    De qualquer forma, boa sorte, miga. ♥ É só uma fase ruim.

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