JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

AOS TREZE

Quando assisti Aos Treze pela primeira vez eu tinha vinte e três anos. Isso mesmo: depois de passar aproximadamente 19023890183 bilhões de anos fantasiando sobre a histórias das meninas com piercing na língua na capa do dvd, minha adolescência inteira pautada pelas irrealidades provocadas pela expectativa, finalmente, no ano passado, tomei vergonha na cara e assisti o filme – e odiei.

Odiei, na realidade, é o jeito exagerado de dizer que eu não gostei tanto assim, que ele não chegou perto de suprir minhas expectativas adolescentes; eu esperava um filme sobre jovens adoravelmente lindas e loucas, curtindo seus treze anos como se não houvesse amanhã e se enfiando em algumas furadas de um jeito limpinho e destemido que não incomoda ninguém. Aos treze anos, meu sonho era ser uma jovem destemida e adoravelmente louca, além de linda, de um jeito que não incomoda justamente porque tem o efeito oposto: causa admiração. Eu cruzei com essas meninas um milhão de vezes durante minha adolescência, na escola, no shopping, lugares que naquela época eram o ponto de encontro de todos os adolescentes de Brasília; sempre sonhando em ser um pouco como elas, sem considerar que, por trás das roupas bonitas e da atitude blasé, existiam garotas com uma porção de questões mal resolvidas – que eu também tinha, ou talvez não -, que não viviam vidas tão divertidas assim, muito menos eram tão limpinhas quanto nosso olhar idealizado e os jeans rasgados de butique nos faziam enxergar.

A amizade entre Tracy e Evie começa num misto de admiração e curiosidade que a primeira dispensa à segunda, os mesmos sentimentos que eu tinha em relação às meninas mais velhas que eram minha referência na época. Evie é a garota mais popular do colégio, estilosa, destemida, admirada pelos garotos, linda e louca de um jeito adoravelmente inconsequente que não parece suficiente para machucar ninguém, e Tracy enxerga tudo isso de longe, querendo fazer parte daquele mundo de alguma forma, mas ao mesmo tempo muito distante dele. As duas se tornam amigas de um jeito absolutamente ridículo, com a primeira descaradamente tentando se enturmar; mas elas são jovens e ser jovem também significa ser ridículo e cara de pau de um jeito que adultos às vezes deveriam ser, mas não são. Assim, as duas se tornam amigas; dividem roupas, cigarros, namorados, dramas, a casa e a vida, uma relação que a princípio não parece tão diferente do padrão, até as duas entrarem juntas numa montanha-russa que só vai pra baixo. A amizade das duas se torna cada vez mais problemática e auto-destrutiva à medida que a história avança, e elas passam a ter contato com universos que idealmente deveriam passar longe da realidade de qualquer adolescente. Ambas constroem uma relação que não é exatamente de autodescoberta, sobre pertencimento, sobre ser jovem e descobrir qual o seu lugar no mundo – embora, em algum nível, seja sobre essas coisas também -, mas sobre drogas, sexo, roubo e automutilação; uma sucessão irrealística de fatos a não ser que você tenha vivido coisas muito parecidas… aos treze anos. O roteiro é baseado nas experiências reais da própria Nikki Reed – que além de interpretar Evie no longa, também ajudou a escrever o roteiro -, alguém que viu e viveu algo muito similar enquanto era pré-adolescente, e decidiu que precisava contar essa história.

Em 2003, quando o filme foi lançado, eu tinha dez anos e era a mesma criança certinha ao ponto de ser idiota que eu ia me esforçar para subverter não muito tempo depois. Eu tirava boas notas, era educada, usava roupas fofas e muito cor-de-rosa, brincava de Barbie e tinha um fã-clube de Sandy & Júnior, minhas maiores preocupações na vida. Mas era uma realidade muito frágil, construída sobre uma perfeição que não existe, e bastou que minha tia caísse de cama em depressão para que todas as minhas certezas caíssem junto com ela. 2004 é um ano que não tenho muitas recordações, um grande vácuo na minha linha cronológica, composta por pequenos flashes de um ou outro momento mais marcante; mas aos doze anos eu já começava a nutrir uma certa revolta interna, já começava a me questionar o por quê da minha vida não ser mais aquele mundo cor-de-rosa no qual eu tinha sido criada. Para quem via de fora, eu ainda era a menina doce e delicada de sempre, mas dentro de casa a narrativa era outra. No filme, Tracy também é uma garota doce, talvez não exatamente delicada, mas meiga e bondosa o suficiente para fazer o que tem que ser feito, para fingir que aceita a situação em que vive e não incomodar ninguém. Ela não aceita o padrasto, se incomoda com a falta de dinheiro da mãe e com a ausência do pai, mas finge que está tudo bem. Fingir que está tudo bem foi algo que eu aprendi a fazer desde muito cedo e que ainda tenho dificuldades em não fazer, algo que, aos poucos, minha psicóloga tenta me ensinar que é possível. Mas é uma situação extremamente complicada, nociva, e também delicada, algo que te corrói por dentro, mas que continua impossível de ser exorcizado.

A postura de Tracy muda quando ela conhece Evie, que é quem mostra pra ela um outro lado da vida – mais sujo e cruel, é verdade, mas onde ela ainda pode ser quem quiser. Ela abandona a imagem de garota certinha para assumir uma versão de si mesma que é admirada e idealizada por quem vê de fora, que não aceita a realidade que lhe é concedida e se sente no direito de questionar e quebrar tudo se necessário, e apontar o dedo na cara de quem se colocar em seu caminho como se isso fosse algo natural. É uma garota muito mais destemida do que a que conhecemos no início e muito mais livre também, mas ironicamente, é essa mesma liberdade aparente que a permite sucumbir de vez. Quem a atenta inicialmente para esse fato é sua mãe (não curiosamente, a primeira pessoa a quem Tracy vira as costas), mas mesmo que seu irmão e seu pai (que despenca sabe-se lá de onde só para entender que diabos está acontecendo com sua filha perfeita que ele nunca se preocupou em amar e dar a devida atenção) conversem com ela posteriormente, é só quando realmente vê a situação sair completamente do controle que Tracy percebe que é só uma adolescente que precisa desesperadamente de amor e proteção. A grande mensagem do filme é justamente a que nossos pais ainda vão ser as pessoas a segurar cada uma das pontas das nossas vidas quando tudo ameaçar desabar – um clichê tão grande que parece deslocado num filme que se esforça tanto para construir uma imagem tão subversiva de jovens de treze anos -, mas o que existe no meio me parece muito mais importante, fundamental.

Minha postura também mudou radicalmente aos treze anos – foi a época em que eu comecei a usar roupas pretas, ouvir rock e passar lápis preto no olho; mas foi também quando eu comecei a pensar na morte, a me revoltar contra minha realidade, a ter problemas com minha mãe, tirar notas baixas no colégio e escrever desabafos na parede do meu quarto -, mas não foi preciso que uma garota popular e prafrentex entrasse na minha vida pra virar meu mundo de cabeça pra baixo. Eu conheci alguém, é verdade, uma pessoa que me apresentou a um mundo com o qual eu não estava acostumada, que eu nem sabia direito que existia mesmo que, racionalmente, eu soubesse que existia em algum lugar; mas nós o exploramos juntas, não separadas.

A B., que é como vou chamá-la aqui, era uma garota muito parecida comigo: nós duas vinhamos de famílias imperfeitas, não éramos exatamente populares, mas andávamos com esse grupo de meninas que eram populares e perfeitas, exatamente o oposto de nós duas. Eram meninas legais até, gente boa e de bom coração, mas que ainda eram as mesmas meninas lindas e populares de sempre, o lembrete de tudo que eu e B. poderíamos ser, mas não éramos. Ninguém precisava nos dizer o contrário, ninguém precisava sequer dizer alguma coisa; nós tínhamos plena consciência de aquele não era nosso lugar, não exatamente, e isso já era o suficiente. Quando nos afastamos – com uma briga que explodiu do nada, como naturalmente acontece entre pessoas que tentam com força demais manter uma relação que já não existe -, nós assumimos que jamais seríamos como aquelas garotas; não de um jeito arrogante de quem se acha superior, mas com a certeza confortadora de que não precisávamos mais usar aquelas máscaras. Nós tínhamos caído da corda bamba, é verdade, mas a cama elástica que nos esperava no final era incrivelmente mais divertida.

Meio sem querer, nós nos tornamos exatamente as pessoas que queríamos ser: garotas misteriosas e destemidas que pareciam viver numa dimensão paralela onde nada, nem ninguém, era capaz de nos atingir – que as pessoas estivessem falando não era o problema, desde que continuassem falando sobre a gente.

Em Aos Treze, a amizade de Tracy e Evie eventualmente entra numa espiral de problemas, auto-destruição e pequenos crimes que são descobertos e terminam por colocar um ponto final no relacionamento das duas. É algo que acontece aos poucos, até assumir proporções incontroláveis, ao ponto de respingar em todas as pessoas que não deveriam estar sabendo de nada, e enquanto uma acusa a outra de ser a culpada por tudo o que está acontecendo, as responsáveis se desentendem sem saber em quem acreditar. É um desfecho ridículo, mas muito verossímil também, justamente porque mostra o quando ambas são apenas garotas, vulneráveis e machucadas até dizer chega, que só precisavam de amor, carinho e um pouco de atenção. O fim da amizade das duas é exatamente o que teria acontecido comigo e B. se as coisas tivessem saído do nosso controle: existiram pequenos delitos, existiram drogas (que nunca usamos, é verdade, mas ainda assim), existiram momentos estranhos em que tivemos absoluta certeza de que tudo ia dar errado e nós íamos morrer, existiram nomes pichados nos muros de Brasília quase como uma declaração de amor de devoção, existiu um presidiário que tirou a própria vida na cadeia e, numa sucessão estranha de fatos, seu corpo surgiu no nosso caminho, existiram festas, álcool, brigas, e mentiras, uma porção de mentiras; fora todos os problemas que estavam em casa, ou muito perto de casa, dos quais a gente nunca podia fugir.

Não é preciso falar sobre cada uma dessas coisas porque mencioná-las já é suficiente, qualquer pessoa entende que nenhuma adolescente deveria estar lidando com elas; não é preciso de detalhes para entender que elas são absurdas, irrealistas demais, não fossem exatamente o contrário. E curiosamente, ninguém percebeu. Assim como os pais de Tracy demoraram a descobrir que algo estava errado, e a responsável por Evie jamais percebeu, sequer se perguntou quando todos os problemas vieram à tona, ninguém nunca se perguntou o que estava acontecendo comigo ou com B. As pessoas falavam sobre nossas notas, sobre nosso mau comportamento, sobre as fugas da escola, sobre um possível relacionamento que nunca tivemos; mas elas nunca se perguntaram o que realmente estavam acontecendo. Ninguém queria saber sobre a tia maníaco-depressiva, não queria ouvir sobre o pai ausente; sobre uma mãe igualmente ausente e alcoólatra, e sobre um outro pai que passava o dia inteiro fora porque precisava trabalhar, mas também porque não fazia a menor ideia de como lidar com uma filha adolescente.

Tenho pensado muito em todas essas coisas ultimamente, revirando meu passado como se de repente despejasse uma imensa caixa cheia de papéis no chão em busca de alguma resposta, mas só consigo pensar que, embora as pessoas ainda pareçam muito preocupadas, elas nunca se importam o suficiente. É um assunto que me deixa muito sensível, que me faz olhar de frente para fantasmas dos quais até hoje não consegui me livrar, esqueletos que deveriam ter sido queimados com sal grosso há muito tempo, mas que continuam trancados no meu armário a sete chaves, e eu tenho certeza que muito disso teria sido evitado se as pessoas tivessem feito as perguntas certas, se tivessem olhado para dentro, e não só para o que estava fora.

Aos Treze continua não sendo o filme que eu achei que seria, mas talvez sua grande sacada não seja mostrar como pais são pessoas importantes na vida de um adolescente e sim como adolescentes são pessoas complexas e com problemas muito, muito reais.

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1 Comment

  • Reply Manu 7 de abril de 2017 at 4:00 AM

    Amiga <3
    Eu quero pegar você e botar num potinho depois desse post. Também assisti Aos Treze depois dos vinte e odiei, embora agora me lembre (assim como todos os outros filmes que já vi na vida) muito pouco da história, mas esse gif que ce pos aí no final serviu pra refrescar minhas memórias. Minha psicóloga já me disse umas quinhentas vezes que a gente só odeia aquilo que faz eco na gente e que a gente não consegue entender e eu sei que esse filme fala disso pra mim, porque odiei ele desde que vi aquele pôster num cinema lá em 2000 e bolinha, onde eu provavelmente fui pra assistir Harry Potter. A adolescência é essa fase dramática e horrível onde a gente sente demais e acha que sabe demais quando não sabe de nada, essa colcha de paradoxos doida, onde a gente teima em não precisar de ninguém mas precisa mais do que tudo de alguém que bote a gente no colo, e eu acho que se revoltar diante disso, diante das primeiras compreensões verdadeiras de que o mundo não é uma bolha cor-de-rosa, é inevitável. Eu estive bem longe de ter uma Evie na vida, odiei todas as Evies que conheci, mas me revoltei à minha maneira e assim como no seu caso, ninguém parou por tempo suficiente pra olhar – por não querer ou por não ter a capacidade de entender. Eu não sei dizer até que ponto os adultos responsáveis deviam ter feito algo por mim na época, ou se não é exigir demais maturidade dessas pessoas – que agora, aos vinte e tantos, a gente vê que são tão ou mais perdidas do que a gente na adolescência. Tento me confortar com a ideia de quem sabe agora, que de algum jeito, a Manu de vinte talvez consiga dar esse amparo atrasado pra Manu de treze. Paciência, né. :** <3

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