WALK OF SHAME

AQUELE EM QUE EU FUI BARRADA NA BALADA

Na primeira vez que coloquei meus pés no Rio de Janeiro, eu tinha 17 anos. Era também a primeira vez que eu viajava sem alguém da minha família, a segunda com o Guilherme, e tão logo minha visão foi tomada pelos morros e o ar passou a ter aquele cheiro característico de mar, eu soube que tinha encontrado meu lugar. Ainda que eu já tivesse viajado pra muitos lugares incríveis, estar no Rio de Janeiro era como estar num universo paralelo – e continua sendo assim toda vez que bato meu ponto por lá. Pela primeira vez eu conheci um lugar que me encantava de verdade, mesmo eu sendo essa pessoa chata, nascida e criada numa cidade toda planejada, acostumada com todo um trabalho arquitetônico como plano de fundo da minha rotina, e que sempre está pronta para encontrar defeito na cidade dos outros (desculpa, é mais forte que eu).

Eu estava no paraíso e de lá não queria sair nunca mais.

Passar uns dias em terras cariocas foi uma invenção de última hora do pai do Gui, para o terror da minha mãe que jurou que eu só estava indo passar uns dias na casa da avó do meu namorado, no interior de Minas Gerais. Imaginem só minha mãe, que foi passar a lua de mel no Rio de Janeiro e voltou literalmente no dia seguinte porque a vizinha do apartamento em que ela estava com meu pai disse que a cidade era o horror!, o horror!, e que eles sem dúvida iriam morrer tão logo colocassem o pé no calçadão, tendo que lidar com o fato da própria filha estar colocando os pés naquele ambiente hostil do qual ela jurou por toda a vida que conseguiria me proteger? Não preciso dizer que ela só sossegou quando coloquei meus pés em casa, sã e salva, com histórias emocionantes sobre passeios de barco (pior que ir para o Rio de Janeiro, na cabeça da minha mãe, só andar de barco no Rio de Janeiro) e mergulhos com tartarugas em mar aberto (“VOCÊ PERDEU O JUÍZO DE VEZ?!?!”). A ideia era ir direto pra Cabo Frio, mas nós chegamos no Rio já quase no fim da tarde, com tempo suficiente só pra dar um mergulho no mar gelado e assistir o pôr do sol das areias de Copacabana, então preferimos nos hospedar em um hotel por ali mesmo e aproveitar um pouco mais a cidade antes de pegarmos a estrada de novo. Foi um fim de tarde bastante agradável, que entre a quantidade vergonhosa de fotos de turista (quem nunca) e a Coca-Cola gentilmente roubada por pirralhos que surgiram do além (“ei, tio, me dá um gole da sua Coca?”), nos deu um aperitivo daquele lugar maravilhoso de onde eu jamais aprendi a dizer adeus, apenas até logo.   

Teria eu ficado satisfeita com nosso fim de tarde com o pé na areia, nosso jantar à beira mar e o passeio no dia seguinte pelos principais pontos turísticos da cidade? Sem dúvida. Mas quem tá no inferno beija a boca do capeta, já diria alguém, e uma vez no Rio, nós precisávamos conhecer a noite carioca, é claro, mesmo que fosse coisa rápida. Aliás, minha cara de baladeira não nega que sair pra ~conhecer a noite~ de qualquer lugar não é lá um programa que eu aprecie de todo. Vamos ali jogar conversa fora ao redor de uma mesa cheia de comida e dividir umas caipirinhas é muito mais a minha vibe de moça brejeira e deveras preguiçosa, mas se tem uma coisa que as terras cariocas me mostraram é que não existe lugar melhor no mundo para quebrar regras e encarar o desconhecido como lá, de modo que, quando o pai do Gui sugeriu que fossemos pra Lapa, eu aceitei sem nem pensar duas vezes e fazer toda uma análise de prós e contras.

Então, por volta das 22h saímos do hotel, deixando Gustavo, o irmão do Gui que hoje já tem quase duas vezes meu tamanho, mas que na época ainda era um bebê (parece que foi ontem, mas já faz uns cinco anos), curtindo a televisão e a comida do hotel, enquanto a gente se aventurava num táxi meio capenga e, posteriormente, pela noite carioca. Aliás, o táxi foi todo um episódio à parte, uma das coisas mais esquisitas que já vi na vida, com um buraco enorme no chão do carro escondido apenas por um tapetinho meio vagabundo que o Gui, sendo essa pessoa super discreta e, acima de tudo, sutil, fez questão de levantar e desembestar com o repertório de piadas sobre o carro dos Flintstones e coisas desse tipo. Sinceramente, achei que fosse morrer ali mesmo. Felizmente todos saíram vivos do carro e, sob os arcos belíssimos, demos gostosas gargalhadas e tiramos mais uma porção de fotos ridículas para a posteridade. Que adorável o papel de turista, risos. Caminhamos por algum tempo até perceber que as opções de baladas e barzinhos eram infinitas, de modo que, sem grandes análises de prós e contras, escolhemos uma boate qualquer pra entrar.

Em Brasília, sair à noite nunca foi um problema, mesmo quando eu ainda era menor de idade e sentia mais vontade de colocar minhas asinhas pra fora do ninho do que agora. Quase nada consegue ser tão efetivo quanto a cara-de-pau adolescente, e era mais ou menos nesse esquema que eu sempre conseguia o que queria e entrava nos lugares sem a menor cerimônia, mesmo naqueles que juravam de pé junto que só permitiam a entrada de maiores de 18 anos. Foi com isso em mente e com essa tal cara de pau que infelizmente não possuo mais, que encarei o segurança na boate, um cara enorme e de voz grossa, que me fez querer desistir de imediato daquela ideia terrível que era entrar num lugar proibido fingindo ter uma idade que eu certamente não tinha e que ainda ia demorar um tempo pra ter (chutem aí pelo menos uns 7 meses). Mesmo assim resolvi arriscar, ainda que na minha cabeça uma voz gritasse miga sai daí; miga isso tá errado; alguém tira essa menina daí pelo amor de deus!11!1 e tal. O segurança me avaliou da cabeça aos pés, bem como meu pequeno grupo, e claramente sem a menor paciência, perguntou:

– Moça, você é maior de idade?

Novamente o universo me dando uma chance de sair correndo. Olhei pra ele e, sem muita convicção, respondi:

– Sou, uai.

O segurança assentiu em silêncio, visivelmente contrariado, com aquela cara de quem sabe que está sendo enganado mas não pode fazer nada senão fazer parte daquela mentira até que o contrário fosse provado. Imaginei que naquele instante ele pediria minha identidade e o jogo estaria acabado, mas daí ele puxou a corda que fechava a entrada da boate e fez sinal pra que eu seguisse em frente, e eu segui, já imaginando as histórias cabeludas que contaria pras minhas amigas quando colocasse meus pés de volta em Brasília. Minha cabeça fervia de expectativa quando surge um pequeno balcão na minha frente, uma moça lindíssima e com um black power tão belo que jamais serei capaz de esquecer me olhando por trás do vidro, e ela era tão simpática que eu quase pedi ali mesmo pra sermos amiga, vejam só que coisa, mal imaginando o que me esperava dali pra frente. Quer dizer, as boates de Brasília normalmente também têm essas pessoas atrás do balcão localizado logo na entrada, uma espécie de bilheteria onde compramos os ingressos ou pegamos nossas pulseiras ou qualquer outra coisa que nos dê o direito de permanecer na festa pelo tempo que quisermos, às vezes com direito à uma ou duas bebidas de graça, esse tipo de coisa. Raramente essas pessoas estão preocupadas com a idade das pessoas que adentram o recinto, provavelmente acreditando que, se passaram pelo segurança é porque, e só porque, já provaram que podem estar ali. Mas acontece que eu estava no Rio de Janeiro, ou talvez apenas numa boate com regras muitos específicas, sei lá. Então a moça do black power sorriu pra mim, um sorriso sincero, desses que parecem um abraço quentinho, e pediu minha identidade.

E esse, amigos, era o começo do fim, o sonho da noite carioca indo pro ralo tão rápido quanto eu pude me imaginar rodopiando pelo salão. Porque a moça simpática tinha pedido minha identidade e eu, meio sem querer meio sem saber o que fazer, entreguei, torcendo pra que naquele breu ela não enxergasse direito o ano que nasci e me deixassem passar sem muitas perguntas. Mas o que se seguiu foi mais ou menos o seguinte diálogo:

– Moça, em que ano você nasceu?

– Hmmmmmmmmmmm.

– Moça, aqui tá dizendo que você é de 93.

– Q? 83?

– Não, 93. Aqui tá dizendo que você nasceu em 93.

– Ah, sim, eu sei.

– Mas moça, você tem o quê, 16?

– 17.

– Desculpa, não posso deixar você entrar.

 – Ai moça, mas daqui a pouco eu faço 18, não tem problema não.

– Desculpa, não posso mesmo.

surprise

Obviamente sei reconhecer quando perdi uma batalha, então peguei de volta meu documento, agradeci a moça de qualquer forma e saí de lá, com o rabinho entre as pernas, morrendo de vergonha, minha sogra logo atrás, quase morrendo de tanta vergonha. Já bastava a zoação que eu teria que aguentar do Guilherme e do pai dele, que muito espertinhos, deixaram as moças entrarem na frente pra ver se o negócio ia dar certo ou não. Mas pior que ser barrada, só mesmo ter que aguentar o segurança – aquele mesmo que me olhou desconfiado – gargalhar alto e dizer “isso que dá inventar mentira”. É claro que essa risada ecoa na minha cabeça até hoje.

No final, acabamos passando a noite num barzinho, dividindo caipirinhas e pastéis de camarão, o que não posso dizer que foi ruim, mas acho que se hoje eu esbarrasse com aquele segurança de novo, um buraco seria o único lugar que eu realmente me esforçaria pra entrar.

(Pelo menos eu tive uma história pra contar quando voltei)

(Mas por favor, não façam isso em casa)

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2 Comments

  • Reply Wanila 15 de setembro de 2015 at 8:13 PM

    Hahaha, já passei pelo mesmo problema! Eu estava com uma amiga e a mãe dela, pra piorar, elas entraram e eu fiquei de fora. Se não fosse um amigo passando de carro na hora, nem sei o que ia fazer, já que nem dinheiro pra taxi eu tinha.

  • Reply Alessandra Rocha 16 de setembro de 2015 at 2:43 AM

    MAS GEMT BARZINHO >>>>>>>>>>>>>>>> BALADA, minha vida meu clube, mas nas poucas vezes que fui nunca fui barrada… Inclusive, fun fact: uma vez saí com a minha irmã e pediram o rg DELA e não o meu, e ela é quatro anos mais velha hahaha

    mas ah, pelo menos tudo vira post pro blog né? \o/

    beijo <3

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