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Ana Luiza

LITERATURA

Considerações sobre literatura, arte e consumo

A primeira coisa que você precisa ter em mente quando faz parte de uma bolha em que praticamente todo mundo lê e boa parte também escreve, é que as chances de que ambas as coisas eventualmente se transformem em debates e opiniões exaltadas são imensas. Como tudo nessa vida, existem basicamente duas formas de enxergar essas discussões, mas porque sou uma pessoa bem pouco engajada nesse tipo de coisa — e, pra ser honesta, em qualquer tipo de debate de internet —, no fim das contas isso não importa realmente; não sou eu que vou perder meu tempo pensando a respeito.

O problema é que, vez ou outra, algumas discussões quebram essa barreira e eu começo a não apenas refletir sobre elas, mas também a querer conversar a respeito e destrinchar o assunto até dizer chega. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando a Kylie Jenner recebeu a alcunha de self-made woman ou quando absolutamente todas as pessoas do meu círculo começaram a falar, ao mesmo tempo, sobre como a nossa geração era a menos provável de conseguir realizar o sonho da casa própria (e esse texto foi apenas a cereja do bolo), e de repente, e não mais que de repente, eu estava obcecada, conversando com qualquer pessoa que demonstrasse o mínimo interesse em discutir o assunto e chorar algumas pitangas comigo. “Quais são suas considerações?”, eu perguntava, ou, ainda “o que você pensa sobre x, y ou z?”; claros sinais de que o ciclo estava prestes a começar mais uma vez. Desde grupos de amigas, até minha mãe e meu namorado, todos tiveram o seu momento para pensar sobre essas questões (“junto comigo!!! vamos lá!!!”), em momentos cada vez menos apropriados, fosse no meio do café da manhã ou antes da hora de dormir — limites que naturalmente não trabalhamos.

São casos isolados, é claro, e que tornam-se cada vez mais raros à medida que meu interesse por polêmicas de internet diminui em proporção ao meu desgaste com a internet de modo geral. O fato de ter encontrado formas de blindar esse tipo de conteúdo me mantiveram longe de muitas discussões, mas porque essa não é uma alternativa infalível, existem debates que eventualmente chegam até mim, simples assim, e não há muito que se possa fazer para desviar. O caso mais recente foi quando, na última semana, alguém me perguntou sobre uma questão bastante velha, que é a sobre pirataria de livros — uma história que de tempos em tempos renasce das cinzas para plantar alguma discórdia. Da última vez em que isso aconteceu, não me pareceu muito justificável que eu perdesse algum tempo do meu dia — e talvez alguma paz — para dar minha opinião não requisitada sobre algo que, embora me dissesse respeito em alguma medida (porque elas sempre falam sobre nós em alguma medida), não conhecia — e nem queria — o suficiente para me sentir confortável em lhe dispensar meus dois centavos. Mas dessa vez foi diferente, e bastou que alguém perguntasse quais eram minhas considerações sobre o assunto para que eu imediatamente ficasse obcecada.

Porque esse é um debate bastante complexo, existem mais lados nessa história do que opiniões exaltadas nos permitem perceber, e a maioria dos argumentos até agora são plausíveis o suficiente para serem levados em consideração. Isso significa que, até o momento, não tenho uma opinião 100% formada — ainda que, obviamente, tenha uma opinião — e estou disposta a entender de verdade quantos argumentos mais surgirem na minha frente. Ainda assim, muitos dos pontos levantados têm me feito pensar sobre a nossa relação com a literatura, com o aspecto do livro como bem de consumo, e sobre o que significa ser leitora em um país onde quase metade da população não lê, enquanto muitos nem sequer chegaram a comprar um livro alguma vez na vida — e é sobre esses aspectos que quero conversar agora.

1. Nem todo mundo pode comprar livros

De todos os argumentos, esse talvez seja o mais simples e óbvio (ou o que aparenta ser mais simples e óbvio), e também o mais importante — embora também seja o mais fácil de se perder de vista quando se está cercado por pessoas que leem mais de 50 livos num ano, muitos dos quais são comprados por elas mesmas, com o dinheiro que ganham com o próprio trabalho, dos pais ou de ambos. A impressão que dá é a de que todo mundo está lendo e, mais do que isso, comprando livros com alguma frequência. Esse, contudo, é apenas um recorte, e dificilmente seria compatível com a realidade de muitos brasileiros. Mais do que uma questão cultural, em um país como nosso, onde taxas de desemprego são enormes e o salário mínimo não chega a mil reais, comprar livros é um privilégio para poucos. O mesmo serve para a compra de e-readers e serviços de assinatura como o Kindle Unlimited, que naturalmente não vão caber no orçamento de uma pessoa que precisa viver um mês inteiro com um salário mínimo — ou até menos.

Assim, quando alguém sem quaisquer outras fontes de acesso à literatura, e também nenhum incentivo, baixa ilegalmente uma obra em pdf, ela já está, sozinha, ultrapassando uma barreira. Limitar esse tipo de acesso serviria apenas para tornar a literatura mais restrita e elitista, o que ela já é de qualquer forma, e essa é uma questão tão complexa quanto problemática. De imediato, é muito fácil colocar todo mundo no mesmo balaio e dizer que quem baixa o que quer que seja ilegalmente é criminoso. Mas será que o fato de essas pessoas estarem baixando livros online é mesmo o maior dos problemas ou apenas o reflexo de uma questão maior e muito mais complicada?

2. Bibliotecas, infelizmente, não são a solução de todos os problemas

Dentre os muitos argumentos que surgiram como uma alternativa à pirataria, as bibliotecas talvez tenham sido a opção mais recorrente. Não é difícil entender por que elas de fato parecem uma solução milagrosa, que não é utilizada com tanta frequência mais por uma questão de pouca informação, costume e às vezes falta de interesse nas obras disponíveis, do que qualquer outra coisa, o que poderia ser facilmente revertido com programas ou projetos de incentivo. Na última semana, por exemplo, a Tati deu início ao projeto Rata de Biblioteca, que nada mais é do que uma forma de desmistificar velhos preconceitos e incentivar mais pessoas a frequentar bibliotecas públicas. No texto de abertura, a própria Tati conta que, embora tenha crescido com acesso a uma biblioteca na escola quando mais nova, ela mesma tinha certo preconceito com bibliotecas públicas em geral, e foi só quando passou a frequentá-las que percebeu que o estereótipo do lugar velho, com livros empoeirados que não interessavam ninguém não era uma realidade.

É um projeto muito válido e realmente sugiro que vocês o acompanhem daqui pra frente. No entanto, como eu, ela e um grupo de amigas também conversamos essa semana, bibliotecas não são uma solução infalível, tampouco possível para todo mundo. Além de muitas não disponibilizarem um acervo atualizado, com livros que interessem faixas etárias e gostos mais abrangentes, o simples fato de se deslocar pode se tornar um empecilho para muita gente, que tampouco pode gastar com transporte para buscar e devolver livros sempre que necessário. Por mais difícil que seja visualizarmos essa realidade, o que pode não ser muito pra nós é, com alguma frequência, essencial para quem vive com dinheiro contado todos os meses e que não têm a possibilidade de gastar com nada além do essencial — seja um exame, uma comida diferente, uma passagem de ônibus ou um livro.

O que não quer dizer que bibliotecas públicas não sejam importantes, pelo contrário. Em outra polêmica mais recente, uma proposta de por fim às bibliotecas como são hoje nos Estados Unidos balançaram muitos norte-americanos que reconheciam a importância desses espaços, não só porque eles são o único acesso que muitos têm à literatura, mas também porque os serviços oferecidos são muito mais abrangentes. Em um dos muitos textos que li, uma bibliotecária de Washington contava que a biblioteca na qual trabalhava era o único espaço em que pessoas em situação de rua, por exemplo, podiam ter um pouco mais de dignidade, além de conseguirem acesso à internet, o que possibilitava que elas pudessem encontrar empregos, imprimir currículos e outros serviços gratuitos que não seriam oferecidos em outros lugares. As bibliotecas também se tornaram o espaço em que muitas pessoas mais velhas, que não cresceram na era da internet, puderam aprender a utilizar computadores, realizar pesquisas e todo tipo de conteúdo que lhes interessasse. Ou seja: bibliotecas são muito importantes, só não são a solução para os problemas de todo mundo.

3. Pessoas que baixam livros dificilmente investiriam em literatura se essa opção deixasse de existir

Existem muitos motivos que fazem com que uma pessoa prefira baixar um livro ao invés de adquiri-lo de maneira tradicional. Além da já citada falta de recursos, outra justificativa bastante comum é a de que algumas pessoas simplesmente não querem correr o risco de gastar dinheiro com um livro de que não vão gostar tanto assim, preferindo ler antes e comprar depois. É um argumento que faz sentido, sobretudo se você tem dinheiro, mas não muito, para investir nesse tipo de coisa. Além disso, mesmo que você possa gastar uma quantia razoável todos os meses, a velocidade com que novos livros são lançados, quase sempre a um valor altíssimo, barram o acesso a essas obras. Assim, em uma comparação tosca, ler o livro em pdf seria quase como ir à livraria todos os dias e ler um livro até o fim, só para ter certeza de que realmente valeria o investimento antes de finalmente comprá-lo — a única diferença é que isso deixa de acontecer no estabelecimento em si para existir no conforto de nossos lares.

Porque estou longe de ser santa, alguns anos atrás baixei dois livros que ilustram muito bem esse caso: Big Little Lies, da Liane Moriarty, e Bling Ring, da Nancy Jo Sales. Ao passo que o primeiro se tornou um favorito e não demorou a vir morar na minha estante (porque eu precisava, porque esse livro é perfeito, porque a Liane Moriarty é incrível, etc etc), comprar Bling Ring só teria me feito passar raiva, como aconteceu com Garoto Encontra Garoto, um livro que até hoje está largado na minha penteadeira esperando o dia que eu finalmente tomarei vergonha na cara para doá-lo ou trocar por outra coisa em um sebo — que são opções super válidas, é verdade, mas seria muito mais fácil não ter que olhar todos os dias pra um livro que só me trouxe desgosto quando eu podia simplesmente não tê-lo comprado e seguido com a minha vida em relativa paz. Se a opção de baixá-los não existisse, no entanto, não teria acontecido nem uma coisa nem outra, e eu tanto não teria odiado Bling Ring como Big Little Lies não viria parar na minha estante por tão cedo. Em comparação, é verdade que sou uma pessoa bastante privilegiada e que não necessariamente precisa baixar livros, quaisquer que sejam. Entretanto, isso não significa que eu não precise fazer escolhas de tempos em tempos, que livros encham a minha barriga ou que qualquer obra está dentro do meu orçamento — como a maioria dos livros que uso na faculdade, por exemplo, que chegam aos três dígitos com facilidade e muitas vezes não são tampouco encontrados em livrarias, sebos e bibliotecas, ou qualquer outro lugar que não plataformas online de download ilegal; às vezes, nem mesmo brasileiras. Não considerar essas nuances é ignorar uma realidade que também existe, e acreditar que não é tão babaca quanto o argumento que diz que uma pessoa que nem sempre pode comprar os livros que deseja ler também não pode fazer outra coisa da vida, tipo comprar roupas ou ir no McDonald’s de vez em quando.

Em outra instância, comprar livros físicos é a única opção pra muita gente que não tem como bancar um Kindle (ou qualquer outro e-reader de sua preferência), seja por falta de grana ou pelas formas limitadas de pagamento (a Amazon, por exemplo, só aceita cartão de crédito), o que significa que comprar algo que não vai ser do seu agrado, além de ser um gasto que poderia ser evitado, também não é lá a opção mais sustentável do mundo. Outro ponto interessante é que, por pior que seja na cabeça de muita gente, o download de livros segue o mesmo molde de outras alternativas já citadas, como bibliotecas e o empréstimo em geral — é preciso que alguém o compre antes de disponibilizá-lo onde quer que seja. Então, se alguém ainda está comprando essas obras e se pessoas que baixam dificilmente as comprariam se lê-las online ou baixar em pdf não fosse uma opção, tampouco estão usando essa disponibilidade para ganhar dinheiro, qual é realmente o ponto?

4. Autores, blogueiros e booktubers não estão fazendo muito para mudar esse cenário

Como escritora e como alguém que trabalha com livros na internet, que mantém parcerias e responsabilidades, mas que pessoalmente não ganha um centavo com isso, é muito fácil entender o lado de quem argumenta contra a distribuição não-autorizada de obras literárias. Mais do que o trabalhoso processo de escrita, pesquisa e edição, e a dificuldade em conseguir que seu material seja publicado, culturalmente não somos um país acostumado a valorizar produções artísticas. Isso significa que para cada autor brasileiro que consegue viver muito bem, obrigada, com os frutos de sua obra, a maioria esmagadora de escritores ainda precisa dividir o seu tempo em jornadas duplas ou triplas de trabalho, em profissões alternativas capazes de fornecer a estabilidade que a escrita, sozinha, não dá. Para muitos, a arte continua a ser um supérfluo que qualquer um poderia realizar se quisesse, de modo que o fato de algumas pessoas ganharem dinheiro com isso é tanto um absurdo quanto uma afronta, para dizer o mínimo.

É uma realidade dura e é uma realidade que precisa mudar. Entretanto, minha sensação é a de que as mesmas pessoas que reclamam sobre a distribuição ilegal de livros são as mesmas que muito pouco fazem para mudar esse cenário. Autores merecem receber pelo seu trabalho e eu jamais diria que não. Mas quem são os autores que sugerem que as pessoas voltem a frequentar bibliotecas e que estão doando exemplares para esses lugares? Ou que estão ativamente tentando promover uma literatura mais inclusiva? Qual a diferença entre distribuir exemplares gratuitos para esses lugares e para jornais, revistas, sites, blogs e canais no YouTube? A resposta mais óbvia é a de que, naturalmente, esses veículos e as pessoas por trás deles têm um alcance maior do que o de um leitor padrão. Mas será mesmo? O boca a boca é, muito provavelmente, a tática mais antiga de marketing, e é também bastante eficiente. Qual a melhor forma de alcançar determinado público senão deixando que ele próprio fale sobre a sua obra?

O mesmo pode ser dito sobre as pessoas que recebem esses livros gratuitamente no conforto de suas casas. As parcerias firmadas com grandes editoras variam de veículo para veículo, o que significa que nem todo mundo os recebe como presente, mas como parte de um trabalho com prazos e obrigações a serem cumpridos — como qualquer outro. Além disso, nem todos os livros são escolhidos por quem os recebe, e isso não anula a obrigação de escrever e gerar conteúdo sobre eles. Na maior parte do tempo, esse ainda é o trabalho mais legal do mundo, mas nem sempre. Existem pessoas, é claro, que os recebem como presentes e que não têm qualquer obrigação em falar sobre eles, mas elas ainda são uma minoria — normalmente pessoas com muitos seguidores e um poder de influência gigantesco. Não é uma surpresa que muitas delas terminem acumulando uma quantidade insana de livros, muitos dos quais jamais serão lidos, mas que não necessariamente são repassados para outras pessoas, e muitas vezes são edições diferentes da mesma obra, o que, conscientemente ou não, também cria uma cultura bastante problemática de consumo. Mas até que ponto isso é válido? Qual o propósito de ter uma biblioteca no ano 2018 do nosso senhor? Qual a necessidade de manter três ou quatro edições diferentes do mesmo livro?

Como muitos autores, essas pessoas não parecem particularmente interessadas em doar parte daquilo que recebem para bibliotecas ou escolas, tampouco promovem iniciativas com o mesmo objetivo e utilizam sua visibilidade para algo mais do que longos hauls e bookshelf tours. É verdade que elas não têm nenhuma obrigação de fazer qualquer uma dessas coisas, mas até que ponto o argumento se torna válido quando nem mesmo elas estão dispostas a facilitar o consumo legal de obras literárias por qualquer pessoa e não apenas uma parcela privilegiada que tem dinheiro para investir em literatura com alguma facilidade? Mais do que isso: como julgar as pessoas quererem sempre mais quando essa é, justamente, a cultura que estamos promovendo? Todas essas perguntas me levam ao próximo tópico, que é:

5. Literatura como arte versus literatura como bem de consumo

Esse semestre voltei a estudar um assunto que muito me interessa, que é a questão da reprodutibilidade da arte e seu aspecto como bem de consumo, e o conceito de indústria cultural — que não é novo, é verdade, mas continua sendo bastante relevante em análises sobre cultura e mídia de modo geral. A multiplicidade da arte e seu valor como bem de consumo ajudam a explicar por que a produção artística hoje não mantém a mesma aura sacralizada de décadas atrás. Você ainda precisa ir até o Louvre para ver a Monalisa ao vivo, por exemplo, mas não precisa ir até o Louvre para saber como a Monalisa se parece; existem fotos, vídeos e até mesmo réplicas que são suficientes para te dar, senão a dimensão completa dela, pelo menos uma noção de como ela é de verdade.

Isso fica ainda mais evidente hoje, quando o acesso a esse tipo de trabalho está literalmente ao alcance de um clique, e porque a indústria cultural é, antes de mais nada, um mercado, e o lucro é o fator mais importante, essa facilidade também cria novas relações e formas de consumo. Não é por acaso que vivemos um momento em que o ato de consumir o que quer que seja está mais atrelado ao pertencimento e tendências sociais do que o interesse genuíno em determinadas obras. É um fenômeno que não acontece apenas na literatura, mas em outros setores como a moda, o cinema e até mesmo a música, mas porque estamos inseridos em uma bolha de gente que lê e escreve, a indústria editorial acaba sendo o exemplo mais notório disso. Há uma inversão de valores e é essa inversão que faz com que o objeto livro torne-se consideravelmente mais relevante do que seu conteúdo ou até mesmo o aspecto intelectual da obra. O que é interessante não é querer algo porque genuinamente se tem interesse naquilo, mas o que possuir determinado bem de consumo significa na sociedade em que vivemos.

Desnecessário dizer que, para quem trabalha com isso, a venda de livros é uma questão tão importante quanto prática, e que obviamente deve ser levada em consideração. Todo mundo precisa comer e todo mundo precisa pagar contas, e trabalhar com o que se ama, com arte, não anula nada disso. Mas esse é realmente o aspecto mais importante? Uma coisa que muito me incomoda é que a forma como muitos autores (e editores, e youtubers, e pessoas que trabalham com livros de modo geral) atribuem valor àquilo que comercializam sugere que a compra é o último passo desse processo, quase como se tudo que acontece depois não fosse relevante — que você queime, doe, rasgue, use como objeto de decoração e jamais leia aquela história não é realmente importante. O trabalho do escritor, portanto, perde valor de um jeito ou de outro — receber por isso não significa necessariamente que seu trabalho está sendo consumido, tampouco valorizado. A pergunta que sempre me faço nesse caso é: aceitar esse molde é a única saída para ser artista e não morrer de fome em uma sociedade capitalista? Infelizmente, essa é uma pergunta para a qual ainda não tenho uma resposta.

6. Consumir algo ilegalmente também pode ser um ato político

A primeira vez que tive contato com esse argumento não foi em uma discussão sobre literatura, mas em um texto sobre cinema. Nele, a autora tentava justamente encontrar uma forma razoável de continuar consumindo certas produções sem, necessariamente, contribuir para que artistas horríveis continuassem trabalhando. Como uma pessoa que estuda cinema e, mais do que isso, escreve sobre cultura pop e produções artísticas variadas em 90% do tempo, tenho essa discussão em um âmbito tão pessoal quanto profissional. E, ainda assim, é difícil encontrar uma resposta definitiva sobre qual é a melhor maneira de lidar com o fato inexorável de que artistas horríveis continuarão a ser responsáveis por obras incríveis.

É uma questão bastante complexa, não apenas porque entre consumir e deixar de fazê-lo existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, mas porque esse consumo muitas vezes está atrelado a coisas das quais não podemos abrir mão, seja por causa de um trabalho, estudo ou vontade. Mesmo que por gosto, o argumento continua válido, sobretudo porque muitas obras artísticas adquirem valor sentimental, tornam-se parte da nossa história, e é difícil abrir mão de algo com tamanho significado. Polanski nos deu de presente O Bebê de Rosemary, mas ele continua a ser o homem que abusou sexualmente de uma menina de 13 anos. Animais Fantásticos e Onde Habitam é um ótimo filme, mas ainda é a mesma produção cuja equipe preferiu defender a permanência de um agressor em seu elenco a tomar uma atitude mais drástica, porque essa era a opção mais cômoda. Mas eu não vou deixar de consumir nem uma coisa nem outra — a produção do Polanski, por causa da faculdade; qualquer coisa da saga Harry Potter porque essas ainda são histórias que cresceram comigo ou que sempre vão remeter a um período importante da minha vida. Então, como continuar a consumir essas obras sem, no entanto, promover as pessoas por trás delas?

Sempre que penso nisso, lembro de uma vez em que a Olivia Wilde contou que, em uma conversa com a Gloria Steinem, ela ouviu que, se realmente quisesse protestar contra o governo de forma eficiente, que deixasse de pagar seus impostos. É uma posição drástica, é verdade, mas gosto desse exemplo porque ele sintetiza de forma bastante óbvia como o manifesto sobre qualquer que seja a causa pode acontecer de diversas formas. E é por isso que, de certa forma, o download ilegal também pode ter um peso de manifesto; por mais errado que seja aos olhos da lei, existe algo de subversivo entre fazê-lo com esse fim, que é totalmente diferente de utilizar a disponibilidade dessas obras para ganhar dinheiro, por exemplo. O fato de que muitas pessoas não têm dinheiro para pagar para consumir essas produções de formas legais, a ausência de cinema em várias cidades do país e a falta de programas de incentivo de acesso e consumo à cultura são apenas mais nuances que devem ser levadas em consideração.

No caso da literatura, não é tão diferente: além de existirem autores detestáveis, que utilizam sua visibilidade e sucesso de maneiras igualmente detestáveis (pensem no autor que cobra 700 golpes por pessoa para dar uma palestra), livros são bens de consumo, nem todo mundo tem dinheiro para comprá-los e bibliotecas nem sempre são acessíveis. Muitas vezes, baixar ilegalmente é a única forma que determinados grupos podem ter acesso à literatura e, consequentemente, ultrapassar barreiras que lhe são impostas a vida inteira. Se tanto falamos sobre a importância de  termos oportunidades equivalentes, sejamos homens ou mulheres, negros ou brancos, ricos ou pobres, negar as limitações que lhe são impostas é, também, uma forma de subversão. Então talvez, e só talvez, consumir arte ilegalmente seja, também, um ato político.

PESSOAL

O abismo no meio do caminho

Não lembro exatamente quando, tampouco por quê, mas em algum ponto em meados de setembro, comecei a assistir Gilmore Girls pela segunda vez. Era pra ser um rewatch banal e descompromissado, minha companhia em dias difíceis, noites insones e horas de almoço — às vezes, meu único momento de paz e sossego real ao longo do dia —, mas de repente as coisas começaram a ficar meio estranhas e já não fazia mais sentido assistir qualquer outra coisa ou fazer qualquer outra coisa quando eu simplesmente poderia fugir para Stars Hollow e me deliciar com a existência daquelas pessoas, me solidarizar com seus conflitos, erros e mágoas, e viver uma realidade que parecia tão melhor.

Assim como Downton Abbey, Gilmore Girls se transformou num bote salva-vidas, cujo maior objetivo era me manter sã; o barquinho que impedia meu coração de se afogar. A grande diferença entre as duas, no entanto, é que enquanto em Downton tudo parecia pertencer a uma realidade tão, tão distante — estamos, afinal, falando de uma história que gira em torno uma família aristocrata inglesa e seus empregados, tudo isso ambientado no século passado, um mundo que definitivamente não existe mais —, Gilmore Girls sempre me forneceu um conforto muito mais próximo, como o abraço apertado de alguém que sabe exatamente o que você está passando e entende o quanto pode ser difícil, doloroso e traumático, mas que também reconhece que vai ficar tudo bem. Rory Gilmore, sobretudo na faculdade, sou eu em todos os níveis possíveis, sejam eles bons ou ruins (principalmente os ruins), e existe algo de muito confortável — num nível totalmente pessoal — em ver outra pessoa que não uma amiga, colega ou conhecida viver coisas tão parecidas e ainda encontrar uma saída em meio ao caos.

Não é por acaso que tantas amigas, colegas e conhecidas se identificam com a Rory — e se inspiram nela, e querem ser como ela, e sentem-se profundamente incomodadas pelos erros dela. Ainda que a experiência esteja longe de ser universal, porque contempla uma bolha muito específica de mulheres brancas e privilegiadas, com acesso à educação de qualidade, que nunca tiveram que se preocupar com muito além de serem boas alunas, boas filhas e entrar numa faculdade de prestígio, a trajetória da Rory representa muito dos nossos conflitos internos, que derivam em grande parte por esse estigma de perfeição (a filha perfeita, a aluna perfeita, a namorada perfeita, a neta perfeita, etc etc) que não corresponde à realidade. Crescer significa ser constantemente confrontada pela perspectiva de que ser um floquinho de neve especial é uma missão fadada ao fracasso, que por mais perfeitas que sejamos (ou pareçamos ser), jamais vamos chegar lá. É por isso que gosto tanto da quarta temporada em diante, quando Rory finalmente vai para Yale e começa a caminhar por conta própria. Sem a presença constante da Lorelai — que, talvez pela primeira vez, também já não tem mais todas as respostas —, Rory precisa descobrir sozinha por que e como resolver aquilo que acontece em sua vida, e mesmo que nem sempre tome as decisões certas, ela ao menos está tentando. Muita gente odeia essa nova versão da personagem, que é intensificada no revival, mas eu adoro justamente porque é quando ela se permite ser mais humana. Nos acostumamos a ter esse referencial de perfeição e é por isso que vê-la errar chega a ser tão incômodo, mas é, ao mesmo tempo — e ironicamente, e contraditoriamente — tão libertador.

As coisas dão errado. Elas dão tão errado que às vezes a gente se pergunta se algum dia elas já deram certo, porque não pode ser possível que algo dê tão errado sem que exista um histórico de erros cabeludos por trás. E ainda assim elas dão, porque, bom, essa é a vida. Um dos grandes motivos que me levaram à terapia foi minha incapacidade de lidar com o futuro e o fato de não poder ter uma vida inteira planejada, perfeita, estável, com todos os movimentos calculados previamente. Desde muito nova, eu sabia exatamente o que fazer, como fazer, e mesmo que não soubesse com precisão a carreira que gostaria de seguir — tinha um fraco por algumas áreas —, a certeza de que dali alguns anos eu estaria na faculdade já era suficiente. Mas estar na faculdade transformou tudo: de repente, o próximo passo já não parecia tão óbvio. O que vai acontecer depois? se tornou uma das minhas perguntas favoritas — e também a mais desesperadora delas — e ninguém te conta o quanto pode ser angustiante pensar num futuro que, embora repleto de opções, sempre parece tão abstrato.

Um dos meus momentos favoritos de Gilmore Girls é quando Rory vai para Stars Hollow com Lucy e Olivia, suas novas amigas de faculdade, e elas jogam conversa fora, riem, pintam os cabelos de rosa, roxo e verde, vasculham álbuns de fotos, fazem doces de flocos de arroz, e se divertem de verdade. Mas é ali, em meio a uma banal girl’s night out, que Rory tem seu momento e despenca, confessa que não sabe o que fazer em seguida, chora o fim da faculdade que se aproxima mais e mais, lamenta sua saída da editoria do Yale Daily News, se entrega à todas as dúvidas que a destroem por dentro. Ela sente muito, naturalmente e intensamente, e chora no chão do banheiro com os cabelos pintados de rosa, numa dicotomia que faz todo o sentido do mundo; tão, tão adulta e, ainda assim, tão ridiculamente vulnerável e infantil. Ela não é uma pessoa de verdade, não ainda, assim como a personagem principal de Frances Ha, e há algo de reconfortante ali. Quando permite que suas angústias se transformem em palavras, ganhando forma e tamanhos reais, Rory é um pouco como nós. Em qualquer outra circunstância, ela permitiria que esses monstros a consumissem por dentro, tornando-os uma ilusão menos real, ainda que tão maléfica quanto; mas quando os expõe, ela os confronta realmente — e encontra de volta amor, apoio, carinho e uma compreensão que parte, principalmente do entendimento de que não é a única naquele barco. Lucy e Olivia também se sentem assim; e eu, e vocês aí do outro lado, e todas as garotas do mundo que foram criadas para serem lindos floquinhos de neve especiais, até descobrirem que o mundo era um lugar grande demais para nos limitarmos  a uma caixa. Rory Gilmore não está sozinha justamente porque nós também não estamos.

As últimas semanas foram um processo doloroso de ser muito adulta, o que significa que na maior parte do tempo eu só queria me esconder embaixo das minhas cobertas, fingir que jamais tinha existido e que todas as merdas que já havia feito não eram problemas meus, tampouco minha responsabilidade. Foram tombos atrás de tombos, atrás de outros tantos tombos, até que eu não quisesse mais me levantar, mas ser adulto é levantar uma, duas, três vezes — e levantar rápido —, só para cair de novo, dessa vez por um motivo completamente diferente. Foi preciso me lembrar constantemente que falhar não era o fim do mundo — nem da minha carreira ou da minha vida —, que errar era humano e que não fazia o menor sentido chorar por erros que chegaram muito perto de acontecer, mas não aconteceram de verdade. Tive a sorte de contar com pessoas nesse meio tempo que tinham a paciência e firmeza necessárias para lembrarem que nem tudo estava perdido e me mandar engolir o choro e voltar ao trabalho, mas que também me abraçaram e confortaram, que me lembraram que todos os êxitos pesavam mais do que as falhas que sempre pareciam monstros tão maiores e assustadores com os quais lidar na minha cabeça.

Ao mesmo tempo, quando tudo acabou, foi preciso lidar com o fim de algo que vinha me consumindo por inteiro, pro bem e pro mal, e ao qual me apeguei profundamente; chegar ao fim foi como me sentir órfã e descobrir que, embora o cansaço e o desgraçamento fossem reais, e não sobrasse uma roupa limpa no meu armário, eu não queria que aquilo terminasse. Eu sentia falta da rotina, das pessoas, dos problemas que pareciam impossíveis de serem resolvidos, até acontecerem como num passe de mágica, porque a magia do cinema existe também — e principalmente — nos bastidores. No último dia, nós nos abraçamos longa e fortemente, trocamos mensagens fofas, celebramos o quanto aquela experiência havia sido incrível, mas dois dias depois, sozinha e de pijamas no meu quarto, eu só conseguia me sentir terrivelmente perdida, como se um pedaço grande e importante de mim tivesse ido embora. Eu tinha mergulhado em um oceano inteiro de emoções, conflitos, altos e baixos, sem que tivesse tempo de respirar antes de enfiar cabeça e corpo inteiros na água — o que poderia ter sido traumático, é verdade, mas foi uma das melhores experiências que eu podia ter tido, e principalmente vivido; e eu vivi, cada segundo. Eu coloquei não apenas os pés na água, mas me joguei inteira, sem saber direito o que me esperava, e foi incrível. Estar de volta ao meu quarto escuro foi como me sentir presa depois de experienciar a imensidão azul incontrolável, totalmente sem limites do mar, e depois sequer poder sentir o vento na cara.

Em “French Twist”, é a saída do Yale Daily News que faz a Rory ter essa percepção de que as coisas estão acabando; ela saíra do jornal, em breve sairá da faculdade e, de repente, não tem nenhum emprego para ir, nenhuma pós-graduação para começar. Pra mim, o fim das gravações é o que marca esse momento. Porque tudo está acabando. Ainda existem projetos a serem produzidos, experiências a serem vividas, mas o fim parece mais próximo do que o início. Há uma melancolia sobre o fim, que começa muito antes do efetivo ponto final. E mesmo assim, nada disso deixa de ser extremamente natural — terrivelmente, dolorosamente, mas ainda assim. Como um reflexo pouco surpreendente, a ansiedade voltou com força total, voltei ao antigo e reconfortante — porém problemático — hábito de arrancar meus cabelos e uma atrás da outra, embalagens de comida chinesa começam a se empilhar no lixo da minha cozinha. Nada parece casual, no entanto. Que tudo passa é uma certeza com a qual posso sobreviver — só para começar de novo e de novo em outro lugar. Eu sou Rory Gilmore de cabelos cor-de-rosa, chorando no chão do banheiro, apavorada demais com aquilo que me reserva o futuro — mas isso também vai passar.

PESSOAL

8. Your favorite internet friend

Inspirado nesse desafio incrível aqui.

Querida Y.

A primeira vez que escrevi pra você foi em abril, logo após meu retorno de São Paulo. Eu tinha pisado na cidade pela primeira vez e, naqueles dias, nós tínhamos feito planos, muitos planos, mas não concretizamos nenhum; ainda que precisássemos desesperadamente que eles se realizassem. Não é preciso lembrá-la de nenhuma dessas coisas: cada uma delas foi registrada na carta que te enviei naqueles dias, e você sabe, como eu sei, porque as viveu também. Mas o que eu nunca disse é que, naquela época, cheguei a temer pelo nosso futuro. Temi que a culpa que insistíamos em tomar para nós se tornasse um obstáculo em nosso caminho; que construíssemos muros altos demais, numa tentativa de evitar a mágoa e a frustração, até que eventualmente eles se tornassem intransponíveis. Lembro de me sentir profundamente culpada, e lembro de você se sentir também, não porque havia uma culpa real, mas porque somos humanas e insistimos em encontrá-la em algum lugar. Não havia como culparmos uma à outra, então culpamos a nós mesmas. Quando minha carta chegou até você, no entanto, eu soube que ficaria tudo bem. De um jeito bobo, porém muito honesto, ela fez com que eu me sentisse conectada com você, como se o fato de você estar finalmente segurando aquela caixa, aquela carta, aquele presente que um dia esteve comigo e de repente estava com você, mudasse absolutamente tudo. E mudava.

Gosto dessa história porque acredito que ela sintetiza perfeitamente um medo que, pra mim, sempre foi muito real: o de que, eventualmente, eu estragaria tudo. Não é como se nunca tivesse acontecido, como se eu nunca tivesse sido corroída pela culpa de estragar algo que parecia tão perfeito e precioso até não ser mais, e naquele momento parecia uma questão de tempo até que acontecesse de novo. Então você apareceu e, do jeito mais doce possível, me mostrou que as coisas podiam ser diferentes. Me surpreende até hoje a forma e a velocidade com que nos aproximamos – parecia improvável que após tanta coisa, eu pudesse me doar novamente de forma tão honesta, que eu pudesse confiar em uma amizade que não me deixaria de lado assim que aquilo que existe de mais feio em mim viesse à tona. Mas as barreiras que construí ao meu redor e que me mantinham protegida do mundo nunca pareceram funcionar com você. Talvez nunca tenha te dito isso, mas em nossas primeiras conversas, era assustador ver nossas mensagens ficarem tão grandes e como, de repente, assuntos banais do nosso dia a dia ganhavam contornos mais densos e se tornavam textos enormes sobre a nossa vida, nossas angústias, nossos medos. Nunca antes consegui ser tão profunda ou expor detalhes tão complexos da minha personalidade e da minha vida para alguém que conhecia há tão pouco tempo. De forma parecida, também era fascinante o fato de você retribuir na mesma intensidade e falar sobre a sua vida de forma tão aberta para uma pessoa que, até pouco tempo, não estava ali. Hoje, me parece impossível imaginar uma vida sem nossas longas conversas que jamais têm fim, sem a sua presença constante na minha vida.

As pessoas percebem que há algo de especial entre nós, que existe uma conexão profunda e única. Tenho a sorte de ter muitas amigas e todas elas são minhas melhores amigas, mas quando coloco em perspectiva, sempre me parece que estamos em uma página diferente do resto do mundo, quase como se nossa amizade existisse em uma realidade paralela que é apenas nossa, e não há explicação alguma para isso exceto de que algumas coisas estão predestinadas a ser. Não deixa de ser curioso, no entanto, que nossa amizade tenha se construído justamente no momento em que mais precisávamos uma da outra – o que me faz acreditar cada vez menos em acaso e mais em uma força divina que faz com que as coisas aconteçam quando e como devem. Tenho a sensação de que somos nós contra um mundo inteiro de coisas horríveis e monstros, fantasmas e dragões – o que talvez seja verdade, mas me parece muito mais possível encarar esse mundo de frente quando tenho você para segurar minha mão.

Muito é dito sobre almas gêmeas de um jeito romântico, mas nunca me disseram que era possível encontrar esse tipo de conforto e completude em uma… amizade. Me sinto muito sortuda por ter encontrado a minha metade, que não fosse a internet, talvez estivesse perdida até hoje nesse vasto mundo. Em você, baby girl, eu encontrei alguém capaz de desenhar um mundo junto comigo, um mundo onde a gente precisa de muito pouco para ser feliz, onde passamos horas flutuando no mar, a barriga pra cima e os dedos fora da água, as mãos dadas, os olhos fechados por causa do sol; um lugar perfeito que não precisa ser físico para existir onde realmente importa: dentro de cada uma de nós.

Existe uma infinidade de coisas que eu gostaria de dizer nessa carta – algumas, eu tampouco poderia -, mas falar sobre elas me parece muito pequeno quando vivemos e fizemos tanto, como crescemos nesse período e como, pouco a pouco, temos nos tornado mais fortes. Um ano parece pouco tempo, e talvez seja de fato, mas cada vez mais tenho entendido que tempo é algo muito relativo – e o nosso é apenas nosso. Você é como um passarinho que voa comigo, o barquinho que jamais deixa meu coraçãozinho se afogar, a luz que me faz enxergar o melhor em mim e que me inspira todos os dias a ser uma pessoa melhor. Obrigada por dividir sua história comigo e permitir que, nessa vida tão efêmera, possamos dividir uma jornada tão bonita e especial. Que nesse mar de incertezas em que navegamos, as dúvidas sejam sempre infinitas, e que sempre encontremos na outra um lugar para chamar de lar.

Com todo o amor do mundo,

Ana Lee

LITERATURA

Tigres à beira-mar

Comecei a ler Tigres Em Dia Vermelho ainda no aeroporto, enquanto esperava um voo para o Rio de Janeiro. Sozinha embaixo do ar-condicionado gelado do aeroporto de Brasília e sem qualquer previsão de quando finalmente embarcaria rumo a um fim de semana de praia, sol e vinho rosê ao lado do meu amorzinho, Paloma Engelke, permiti que a história de Liza Klaussmann me engolisse inteira; uma história que, ironicamente, também se passa em um cenário idílico de sol e praia, onde o vinho era substituído por infinitas doses de gim. Logo no primeiro capítulo, Helena e Nick, as protagonistas, rodopiam sob o céu escuro de uma noite de verão, bebem gim em copos de geleia e celebram o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de anos de incertezas, o futuro finalmente se tornara uma realidade palpável, e não mais uma promessa distante, instável e pouco razoável. Nick e Helena fazem planos, riem em voz alta e dançam, dançam, dançam, como se nada fosse mais importante – e não era -, mas também choram a distância, lamentam separar-se uma da outra.

Em uma história onde a relação mais importante e complexa é desenvolvida por e entre duas mulheres, não é uma surpresa que o que acontece ou deixa de acontecer com Nick ou Helena tenham um peso tão grande para a outra; antes de se casarem, formarem a própria família e se tornarem mulheres independentes, Nick e Helena são primas e, sobretudo, amigas, e desde a infância dividem uma história complexa em que são, ao mesmo tempo, confidentes e ruína uma da outra. Nick é a mulher de traços sisudos, de personalidade hipnotizante, expansiva, por quem todos se apaixonam, embora ninguém saiba exatamente o motivo. Helena é o contrário. Ela é doce e introvertida, bonita com seus cachos cor de areia e a pela macia, mas mais suscetível à submissão. Helena é o clichê da mulher comum e banal das décadas de 40, 50 e 60, exatamente o que Nick jamais desejou ser, mas que, ao seu próprio modo, também o é. A história constrói essas mulheres de modo que elas sejam capazes de levantar questões e trazer à tona sentimentos muito específicos da existência feminina. Não é uma história universal, não há como ser. Às vezes, temos acesso ao ponto de vista de outros personagens, e esses personagens por vezes são homens, mas ainda é uma história muito feminina, que trata de dramas e conflitos que conversam com a experiência de ser mulher numa sociedade ocidental. Nick e Helena são mulheres, logo possuem experiências e sentimentos que muitas vezes também nos dizem respeito – o que nem sempre é bom, mas que alívio descobrir que não estamos sozinhas nesse mundo.

Em 1945, a maior preocupação de Nick era voltar a viver com o marido – Hughes, que estava na guerra – e não viver mais em um mundo controlado por cartões de racionamento. Helena, por sua vez, tinha planos de ir para Hollywood casar-se com Avery Lewis – um produtor cinematográfico picareta que vendia seguros e adorava contar vantagem – após seu primeiro marido ser morto em combate. Ter alguém para chamar de “meu” parecia ser a única ambição daquelas mulheres, que se satisfaziam com a ideia de casamento, filhos e a vida de dona de casa, mas não é uma surpresa que, pouco tempo depois, ambas estejam frustradas com seus maridos, filhos e uma com a outra, mas principalmente consigo mesmas. O futuro que lhes fora prometido, afinal, não era tão bonito assim na prática. Tanto Helena quanto Nick projetam nos outros e em si mesmas expectativas irreais, é por isso que elas se decepcionam. Assim, quando Nick se entrega à romances extraconjugais que não significam nada, ela não está dizendo que não ama seu marido; ela só está em busca de uma fuga para um casamento que parece perfeito na teoria, mas não na prática. Quando Helena bebe, bebe, bebe sem parar, quando toma uma porção de remédios, quando foge da própria realidade, ela está fazendo exatamente a mesma coisa – a fuga de uma mulher torturada por um mundo de homens. São mulheres machucadas demais, complexas demais, e o grande trunfo da história é a construção dessas personagens não como pessoas limpinhas demais, boazinhas demais, mas seres humanos que vivem coisas desagradáveis o tempo inteiro e são complicadas, muito complicadas. São mulheres irritantes, dramáticas, mesquinhas, invejosas, falhas; todas características muito humanas, mas que ainda nos são negadas. Ser mulher é complicado pra cacete.

Tenho pensado bastante sobre essa coisa de ser mulher e como, por muito tempo, vivi em uma bolha em que era preciso fingir o tempo todo ser uma pessoa quando, na realidade, eu era outra – às vezes radicalmente diferente. Como neguei tantos sentimentos na tentativa de me adequar e como hoje parece quase impossível lidar com esse turbilhão, porque ninguém me ensinou o que isso significava ou o que eu devia fazer quando essas coisas acontecessem. Ao longo da vida, tive muito mais contato com a produção artística de mulheres – exceto, muito provavelmente, pelo cinema -, ao contrário de muitas amigas, que primeiro conheceram e consumiram o cânone cultural construído e moldado por homens. Contudo, ainda que me identificasse com essas mulheres e entendesse muito do que elas estavam dizendo, na prática, eu ainda me limitava; eu jamais poderia ser como elas – ao menos, não de uma forma tão aberta.

Quando constrói duas personagens (três, se também considerarmos Daisy, a filha de Nick) tão ambíguas, Klaussmann está dizendo que esses sentimentos são possíveis, que eles existem; não somos as garotas boazinhas e unidimensionais que um dia nos disseram que deveríamos ser. É um convite a pensar nos papéis que estamos desempenhando, sobre quem somos e qual, afinal de contas, é nosso lugar no mundo, e principalmente sobre nos reconhecermos como pessoas que às vezes são boas, às vezes são más, mas jamais são uma coisa só – um reconhecimento brutal, mas também libertador. No título, os tigres são uma referência a Tiger House, a casa de veraneio localizada na ilha de Martha’s Vineyard onde a maior parte da trama se desenvolve; mas gosto especialmente como, de maneira menos óbvia, ele também referencia a suas personagens, que amam, desejam, brigam de forma furiosa, como tigres. E sentem, sentem, sentem o tempo todo. Existem várias coisas acontecendo, inclusive um assassinato, mas a resolução dele se torna bem menos importante quando há tanto a ser dito sobre essas mulheres, seus sentimentos e as relações que estabelecem entre si; um lugar em que inveja, ressentimento, amor, cuidado e carinho coexistem como iguais.

Algum tempo atrás, me vi em uma situação bastante delicada, que envolvia sentimentos com os quais eu não estava acostumada a lidar, que não sabia nomear. “Então isso é inveja?”, eu me perguntei um milhão de vezes enquanto tentava entender o que estava acontecendo comigo, qual era a natureza daquele sentimento, como eu podia ficar tão feliz por uma pessoa e ao mesmo tempo tão frustrada, sem conseguir deixar de pensar “por que não eu? por que não comigo?”. Eu me senti suja, mesquinha e egoísta como poucas vezes na vida, mas quando conversei com outras mulheres sobre isso, ninguém me fez sentir mal ou culpada, ninguém disse que eu era a pior pessoa do mundo. Todas elas fizeram com que eu me sentisse acolhida e amada, sem jamais invalidar meus sentimentos. Porque elas entendiam. Porque muitas delas já haviam pisado nesse lugar antes. Foi uma experiência surpreendente, mas triste também porque me lembrou que o mesmo mundo que nos cria para sermos criaturas delicadas, sensíveis e, de preferência, invisíveis, é o mesmo que nos ensina a utilizar o sucesso de outra mulher como prova do nosso fracasso. A grama do vizinho é sempre mais verde, mas ela é especialmente verde quando falamos da grama de outra mulher. É algo que tentamos quebrar todos os dias, e eu sei disso porque vejo mulheres todos os dias tentando romper com esse padrão, mulheres que tentam subverter a regra, mudar tudo, começar de novo. Mas ainda são as mesmas pessoas que choram na frente do espelho porque não são quem deveriam ser, porque queriam trocar de lugar com outra pessoa, porque se perguntam o tempo inteiro “por que não eu? por que não eu?”, que se ressentem por aquilo que todas as outras são.

Liza Klaussmann parte da experiência de mulheres das décadas de 40, 50 e 60, um período em que, depois de serem incentivadas a saírem de suas casas e desempenharem funções antes reservadas exclusivamente aos homens, elas são novamente convidadas a se retirarem e voltarem aos afazeres domésticos, ao marido, ao lar, aos filhos, a coisa toda. É um contexto diferente do nosso, é claro, embora ainda exista um abismo quando pensamos na realidade de homens e mulheres no mercado de trabalho, mas ainda que a História nos separe dessas mulheres, existe o universal de feminilidade que nos une à elas. Um universal que está longe de ser bonito e que jamais é preto e branco. Ao mesmo tempo, existe algo de ordinário ali, confortável porque já é muito conhecido. Nick e Helena são mulheres extraordinárias em sua própria banalidade. Elas sofrem muito, o tempo inteiro, mas seu sofrimento jamais ganha contornos mirabolantes. A complexidade dessas mulheres jamais é posta à prova, mas seus conflitos não são originados a partir de histórias cabeludas. O ressentimento, a inveja, o casamento fracassado, o abandono, o abuso, a raiva. Existe muita raiva ali, em todos os lugares. Em determinado momento do livro, Helena, em um fluxo de consciência terrivelmente íntimo e visceral, confessa que odeia Nick; mas num reconhecimento de sua própria ambiguidade, também diz que sente falta da prima, porque ela é uma pessoa encantadora, divertida e insuportável, características ambíguas que coexistem numa só pessoa e que, em contrapartida, gera sentimentos igualmente contraditórios. Tudo isso em um cenário tão, tão bonito que parece óbvio que aquelas pessoas sejam felizes, lindas, mas elas são apenas humanas, atormentadas demais para se deixarem levar pela beleza do lugar. Existem os romances de verão, mas eles jamais são perfeitos, simples; existem as festas, mas elas são apenas uma forma mais ambiciosa de encenação. Em meio ao banal, coisas extraordinárias acontecem.

Ainda falamos muito pouco sobre mulheres banais, sobre o valor que essas histórias têm. Sobre como é importante se reconhecer em algo além do extraordinário, ou de, pelo contrário, reconhecer o extraordinário dentro das nossas vidinhas comuns. Essas histórias têm ganhado muita força nos últimos tempo, e é revolucionário que isso esteja acontecendo, mas se me perguntassem, ainda acho que existe muito espaço para ser ocupado. Que ainda existem muitas histórias esperando para serem trazidas à tona, muitas mulheres com as quais podemos nos identificar. Já conhecemos homens comuns demais. Um dos pontos negativos do livro que muita gente apontou é o fato do assassinato ser resolvido de um jeito meio morno e o final perder força por causa da revelação que parece óbvia a partir de determinado ponto. E eu concordo, mas ainda acho que existe mais sobre essa história, que ela é menos sobre quem matou quem, e mais sobre os dramas vividos por Nick, Helena e, em alguma medida, também Daisy; que é o que existe de mais poderoso no livro e o que me faz gostar tanto, tanto dele, ao ponto de sempre olhá-lo com carinho e sonhar com o dia que terei tempo de retornar à Tiger House, apesar dos pesares. Ainda há um caminho imenso pela frente, mas me permito admirar quem ao menos tenta contar essas histórias e dizer em voz alta que estamos longe de sermos perfeitas – graças a Deus.

 

CINEMA & TV

Nas terras de Lorde Grantham

Comecei a assistir Downton Abbey em meados de junho, sem saber que, em pouco menos de um mês, estaria completamente obcecada pela trama & o drama da família Crawley, bastiões da honra e propriedade de Downton Abbey, e seus empregados. O momento não podia ser mais inapropriado: era fim de semestre, eu estava atolada até o pescoço de trabalho, textos e artigos para escrever, prazos a cumprir, pepinos para resolver, etc etc, mas de repente fui levada para o interior da Inglaterra e de lá não pude mais sair; eu não queria mais sair. Parecia improvável que naquele momento eu pudesse me envolver tanto com uma série, mas foi entre a correria diária e a sensação de estar sempre tão sobrecarregada que descobri novamente o prazer de passar horas na frente da televisão sem tratar a atividade como trabalho ou fazê-lo com culpa, algo que não sentia propriamente desde que terminei a sexta temporada de Call The Midwife, ainda no início do ano. O que eu mais precisava naquele momento era de uma história, qualquer história, que me abraçasse com carinho e me oferecesse uma xícara de chá quentinho e doce, me levando de volta para aquele lugar de prazer e entretenimento genuíno que parecia inacessível há tanto tempo.

Downton Abbey faz exatamente isso, mas existe algo mais sobre aquelas pessoas, sobre aquelas histórias, que não são sempre um conto de fadas, mas ainda nos dão algum conforto. Sempre me sinto meio idiota quando falo que a série salvou minha vida, num momento em que o que eu mais precisava era ser salva, porque parece meio retardado levar as coisas a sério desse jeito, mas é verdade; e quando penso em tudo que estava vivendo naquele momento, nas coisas que estava fazendo e nos fantasmas que inevitavelmente estava enfrentando, nada disso me parece idiota ou retardado. Assisti a série duas vezes e emendei uma terceira – que em breve se transformará numa quarta – e não acho que seja por acaso que em todas elas eu tenha sentido as mesmas coisas, tenha rido e chorado exatamente nas mesmas cenas, e amado com um pouco mais de intensidade os mesmos episódios, me identificado profundamente com os mesmos personagens. Mais de um século me separam daquelas pessoas – e a língua, a cultura, o dinheiro, o título -, mas continuamos sendo apenas humanos, nos identificando uns com os outros mesmo nos cenários mais improváveis. O que mais gosto sobre Downton Abbey é justamente essa capacidade de nos transportar para uma realidade completamente deslocada da nossa própria, mas como dramas muito atuais continuam a fazer sentido numa via de mão dupla – o que às vezes é deprimente, é verdade, mas às vezes é um alívio também.

Não é difícil entender porque tem sido tão difícil superar a série, ao ponto de já ter assistido a mesma história três vezes, certa de que absolutamente nada ia mudar, e mesmo assim não conseguir parar de pensar em todos os seus personagens, e querer falar sobre eles, e escrever sobre eles, e torcer pelo dia em que eles finalmente vão voltar pra mim em um filme com duas horas de duração – o que vai acontecer, embora ninguém saiba exatamente como ou quando. Minhas amigas definitivamente criaram um monstro, e eu já passei tempo demais pedindo desculpas nessa vida para me desculpar agora por ser um monstro tão bonzinho e empolgado. Tem sido maravilhoso redescobrir esse lado fangirl, abusar da boa vontade e paciência das pessoas, e embora eu saiba que essa fase eventualmente irá acabar, queria poder registrá-la de alguma forma, quase como um lembrete daquilo que um dia significou tanto pra mim. Naturalmente, este texto estará repleto de spoilers (independente do que vocês consideram spoiler, risos).

1) PRIMEIRA TEMPORADA

A história começa em 1912, no interior da Inglaterra, mais especificamente no condado de Yorkshire, onde está localizada Downton Abbey, propriedade que dá título à série e cujo direito pertence aos Crawley, uma tradicional família da aristocracia inglesa. É ali que conhecemos Robert, detentor do título de conde de Grantham, herdado após a morte de seu pai; sua esposa, Cora, e suas três belas filhas – Mary, Edith e Sybil. Mas é também onde conhecemos a criadagem, as pessoas que mantém a propriedade em pleno funcionamento e que contribuem para que aquele modo de vida continue existindo. Somos apresentados primeiro a eles, e só depois à família, o que faz bastante sentido, sobretudo quando pensamos que Downton jamais existiria sem aquelas pessoas. É um universo paralelo e são eles que explicam o funcionamento e costumes da casa e da família. Já no primeiro episódio, descobrimos porque os jornais são passados à ferro antes de serem entregues à família, que cada um possui uma leitura de preferência, e que mulheres casadas ou viúvas tomam café da manhã ainda na cama, enquanto as solteiras fazem a refeição à mesa. São pequenos hábitos e detalhes que pouco a pouco constroem essa realidade tão distante da nossa, e nos convida a permanecer naquele lugar, mesmo que, do outro lado, o mundo nos convide a fazer qualquer outra coisa. O primeiro episódio tem a ambiciosa duração de uma hora, mas não é preciso que se passe nem quinze minutos para que o tempo pareça suspenso e a história seja a única coisa que importa.

Além de ser um episódio introdutório, onde somos apresentados aos personagens, costumes e tradições tipicamente inglesas à época, o piloto de Downton Abbey é, também, o primeiro contato que temos com o conflito central daquela temporada: sem um filho homem para herdar a propriedade, o título e o dinheiro de Cora, o clã vê seus planos caírem por terra quando Patrick, filho do futuro herdeiro de Downton, e seu pai morrem no naufrágio do Titanic. Assim, a fortuna, outrora reservada às mãos de parentes próximos – e de sua filha mais velha, Mary, noiva de Patrick à época – passariam a ser direito de Matthew, um parente distante e desconhecido que ganhava a vida como advogado. Ainda no primeiro episódio, Matthew recebe uma carta de Lorde Grantham e, quando questionado pela sua mãe sobre o que se trata, ele diz que Robert vai mudar suas vidas; e é verdade. Algo bastante curioso sobre assistir os mesmos episódios várias vezes é que situações que parecem acontecer de forma lenta e gradual num primeiro momento, se desenvolvem e são resolvidas rapidamente, às vezes num mesmo episódio, quando vistas novamente. Em Downton Abbey, isso jamais significa que elas sejam mal desenvolvidas, mas que muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, e é incrível pensar que todas elas coexistam em harmonia. Grande parte da primeira temporada se dedica ao desenrolar do relacionamento de Mary e Matthew, mas não se restringe a ele: é ali que vemos nascer o romance de Anna e Bates, que acompanhamos Gwen buscar um futuro melhor e Sybil se interessar por política e questionar o status quo.

Gosto especialmente da primeira temporada porque ela traça de forma brilhante um estilo de vida que se torna cada vez mais antiquado e que pouco a pouco se transforma em algo impraticável num mundo que muda com tamanha velocidade. No início, parece quase natural como as coisas funcionam, mas o que Downton Abbey faz é justamente questionar se ainda existe espaço para esse tipo vida e segurança, e mostra que mesmo os Crawley não estão livres das mudanças que surgem com o tempo. É um questionamento que ganha força no futuro, mas que, pra mim, é anunciado ao fim dessa temporada, quando Robert recebe um telegrama informando que a Inglaterra acabara de entrar na Primeira Guerra Mundial; um evento que muda absolutamente tudo.

2) SEGUNDA TEMPORADA

Não estamos mais em Downton, mas sim no front. Bombas, gritos e corações que batem com força são os únicos sons que ouvimos, o que faz bastante sentido. Embora não goste tanto assim dessas cenas, são elas que dão o tom da temporada e traçam uma linha muito bem definida entre passado e presente. O futuro já não é exatamente uma questão; ninguém sabe se ele vai existir ou não, de modo que a única coisa que resta é tentar sobreviver aos tempos difíceis. Em determinado momento, Matthew comenta que o que viveu em Downton parece ter acontecido em outra vida se comparado ao que ele via e vivia tão de perto no front; uma verdade dura, mas ainda uma verdade, muito embora não seja a única. Na propriedade, as coisas também se transformam radicalmente: criados são convocados para lutarem pelo país, mulheres passam a assumir funções antes reservadas aos homens e todos começam a ajudar como podem. Até mesmo a propriedade se transforma em uma casa de repouso para soldados que receberam alta do hospital quando, após o suicídio de um ex-combatente, fica claro que mesmo que seus corpos já não precisem mais de cuidados, aqueles homens não estão prontos para ter uma vida normal.

Todos precisam, então, encontrar uma nova forma de lidar com essas mudanças – o que significa extrapolar a própria zona de conforto, desconhecer limites e permitir-se adaptar às novas mudanças. Alguns enfrentam a situação com mais dificuldade, mas outros encontram a si mesmos justamente nas novas funções que passam a assumir. Cora passa a administrar a casa de repouso, Edith cuida do bem-estar dos pacientes e Sybil, que estudou enfermagem, é quem assume a responsabilidade pelo cuidado médico dessas pessoas, e todas se satisfazem profundamente nessas atividades. O funcionamento da casa muda completamente e a privacidade de outrora deixa de existir. Contudo, quando Sybil diz que quer ser útil, que não quer voltar àquele mundo que vivia antes, ela não está dizendo que deseja estar em guerra para sempre, mas que experimentou uma vida, teve uma oportunidade, e não quer limitar-se novamente a uma realidade de jantares e romances arranjados, algo que também reverbera nos arcos de sua mãe e de Edith. Faz sentido: Sybil, assim como Edith e, em partes, a própria Lady Crawley, descobriu uma nova versão de si mesma e sua capacidade de ocupar espaços que, até então, lhe haviam sido negados. Quando foge com Tom, o motorista, Sybil não está tentando confrontar a própria família, não está sendo uma garota rebelde que deseja tão somente chamar atenção e negar as próprias origens, muito pelo contrário. A união dos dois marca, também, a ruptura de Sybil com o mundo que conhecera antes do conflito – ela deixa de ser Lady Sybil para tornar-se Mrs. Branson, como confidencia à Mary no ano seguinte, algo que a enche de orgulho e satisfação, e abre um mundo de novas possibilidades.

Mas ela não é a única. Para o bem ou para o mal, todos os personagens são afetados pela guerra, de maneira direta ou indireta. Existe a morte, a perda, o luto e o medo, mas muitas das histórias se desenvolvem de modo a nos lembrar que ainda existem questões puramente humanas naquele cenário, como o relacionamento de Matthew e Mary, que já não é mais uma realidade, visto que ambos estão noivos de outras pessoas, ainda que o sentimento continue tão forte quando antigamente. São questões complexas, ambíguas e que não são tão facilmente resolvidas, embora muitos tentem enxergar assim. Além disso, é nessa temporada que conhecemos Ethel, uma criada ambiciosa e petulante, que deseja uma vida melhor para si até o dia que todos os seus sonhos caem por terra. A antes criada de uma respeitada família é demitida sem ter direito a uma carta de referência após se envolver com um major que estava hospedado na casa, de quem, conforme descobrimos mais tarde, Ethel engravida. Ela, então, sofre as consequência por ser uma mãe solteira, se prostitui e vive na miséria, enquanto ao major nada acontece. Em uma temporada onde tantas coisas tristes acontecem – são muitas mortes, muitos (muitos!) dramas -, a história de Ethel recorda, sobretudo, o que significa ser mulher numa sociedade patriarcal.

Contudo, nem só de desgraças é feito o segundo ano da série, que após virar a vida de seus personagens de cabeça para baixo, nos presenteia com um episódio especial de Natal que é, muito provavelmente, o melhor episódio de toda a série. É nesse episódio que Mary e Matthew finalmente se entendem e decidem se casar, num dos meus pedidos favoritos da ficção; com direito à neve e duas pessoas belíssimas se amando demais. É minha temporada favorita, aquela que realmente me prendeu e foi uma divisora de águas entre a Ana que simplesmente gostava de Downton Abbey e o monstro que virei depois, risos.

3) TERCEIRA TEMPORADA

Muito provavelmente a mais polêmica das temporadas, o terceiro ano de Downton Abbey é marcado por uma série de mudanças e tragédias que, mais uma vez, mudam radicalmente os rumos da série. Tudo parece bem até que, numa sucessão terrível de fatos, não está mais. É triste como as coisas mudam de uma hora para outra e presenças que acreditávamos certas se tornam apenas uma lembrança de tempos distantes. Contudo, é em meio à tristeza que muitas das cenas mais bonitas acontecem – e, talvez por isso, goste tanto dessa temporada. Assim como na vida, as alegrias coexistem com a tragédia, formando um grande balaio de coisas boas e ruins que transformam os personagens em novas versões de si mesmos.

O casamento de Mary e Matthew é um dos grandes acontecimentos da temporada, mas não é o único. Bates está na prisão, acusado de assassinar a ex-mulher; Edith é abandonada no altar; Sybil e Tom retornam à Downton; e Robert precisa lidar com a perspectiva de perder a propriedade e o trabalho de sua vida após um investimento que lhe custou toda a fortuna. É aqui que os Crawley finalmente entendem que o mundo está mudando, e que, talvez, eles devam mudar junto com ele. Resistir não parece uma saída, pelo contrário. Assim, quando Matthew salva a propriedade com a herança deixada pelo pai de sua antiga noiva, ele se torna não apenas o herdeiro de Downton, mas passa a dividir a administração da propriedade com Robert que, por sua vez, precisa aprender a lidar com as ideias inovadoras do genro – que são, no final das contas, as grandes responsáveis por salvar Downton da possível ruína. Tom, que até então acreditava não ter um lugar para ocupar ali, passa a desempenhar o papel de mediador entre os dois, e pouco a pouco se aproxima da família, mas principalmente de Matthew, que se torna um verdadeiro amigo e suporte. Da mesma forma, o relacionamento com Matthew traz à tona um lado de Mary que não conhecemos: da mulher que ri, é generosa, e expõe os próprios sentimentos com mais facilidade. As picuinhas com Edith, outrora regra no casarão, se tornam cada vez mais raras. Elas não gostam uma da outra, uma verdade que jamais irá mudar, mas elas aprender a lidar com a presença uma da outra e, pouco a pouco, se desvinculam do inveja e frustração geradas pela relação conturbada e de constante disputa. Mary está feliz com o casamento, ama profundamente o marido e sua maior preocupação passa a ser a vontade de ter um filho e, finalmente, gerar o herdeiro que Downton precisa. Edith, por sua vez, não utiliza o abandono como desculpa para se tornar a vítima da própria história, mas encontra formas assumir as rédeas da sua vida e voltar a ter um espaço todo seu. Ela passa a escrever para um jornal, se envolve com o editor do jornal e pouco a pouco passa a vislumbrar um futuro cada vez mais promissor para si mesma.

Mas há, ainda, as verdadeiras tragédias; aquelas para as quais não há nenhuma solução. Mesmo tendo começado a série já sabendo o que viria a acontecer, existe algo de muito único em ver essas coisas, de fato, acontecerem, sobretudo quando a relação entre espectador e personagens é construída de forma tão íntima e delicada, como é o caso aqui. Existe o apego, existe o carinho, existe o profundo desejo de aquelas pessoas sejam felizes. Matthew e Sybil partem, ironicamente, em momentos de muita alegria; mais uma vez, a alegria que coexiste com a tristeza e a tragédia. A morte de Matthew é a que pega todos de surpresa; não é por acaso que, à época em que o episódio foi ao ar pela primeira vez, muita gente se revoltou, se questionou o que aconteceria depois. É uma morte que muda absolutamente tudo e essas mudanças são palpáveis. Mas a morte de Sybil é mais dramática, mais carregada de tristeza. Ela não causa tantas mudanças na série de forma prática, mas ainda é a morte que, todas as vezes, me faz chorar como se estivesse assistindo pela primeira vez. E que faz todos os personagens chorarem juntos. Ao contrário de Matthew, que não temos acesso ao que aconteceu em sequência à notícia de sua morte, no caso de Sybil, acompanhamos todo o processo de luto. Toda dor, todos os momentos de carinho que surgiam em meio à tristeza, mas também a mágoa. Algumas cenas são tão fortes que jamais saíram da minha cabeça, como quando Mary corre para acordar os pais de madrugada; quando Lady Crawley pede para ficar sozinha com Sybil para se despedir do seu bebê; quando Thomas chora copiosamente ao receber a notícia e é consolado por Anna; quando Mrs. Hughes, ao ver os dois, diz que o espírito mais doce da casa partiu; quando Violet diz a Carson que eles viveram muitas coisas juntos, mas nada tão triste quanto aquilo, e então sai andando sozinha, com dificuldade. É uma tristeza imensa, que extrapola a tela e chega do outro lado, tornando-se um dos momentos mais marcantes de toda a série.

4) QUARTA TEMPORADA

Seis meses se passaram desde a morte de Matthew quando a temporada tem início, com a saída furtiva de O’Brien na madrugada, que abandona a propriedade para viajar pela Índia ao lado da marquesa de Flintshire. Rose, filha da marquesa, está passando um tempo em Downton, a pedido de seu pai, e toda uma torta de climão é servida quando O’Brien vai embora; roubar criados de outra pessoa, afinal, era um negócio muito sério à época. Logo fica claro que Rose não tinha qualquer conhecimento prévio sobre a atitude da mãe, que a pegou de surpresa tanto quanto à família. Numa tentativa de consertar o erro da mãe, Rose sai em busca de uma nova dama de companhia para Lady Crawley, o que eventualmente se torna um problema: a candidata escolhida é Edna Braithwaite (também conhecida como a personagem mais odiosa da série), que fora despedida justamente por forçar uma aproximação problemática com Tom – algo que apenas ele e Mrs. Hughes possuíam conhecimento. Motivada a tirar algum proveito da situação, Edna e Tom acabam se envolvendo, o que dá margem para que ela forje uma gravidez falsa, até a mentira ser descoberta e ela ser mandada novamente embora.

Contudo, nem só de damas de companhia mala é feita a temporada. A grande questão sobre a temporada, tanto para os personagens, quanto para quem assiste do outro lado é: o que vai acontecer agora? As mudanças geradas a partir da morte de Matthew são palpáveis, a começar pela própria Mary, que se recusa a voltar a viver e se torna uma pessoa cada vez mais difícil de lidar, enfiada num buraco do qual ninguém consegue tirá-la. É só após ter contato com uma carta de Matthew, escrita pouco antes da sua morte, onde ele expressa o desejo de deixar toda a herança para Mary, que as coisas mudam e ela volta a ter… vida. Mary assume seu lugar como proprietária majoritária de Downton, passa a exercer funções administrativas ao lado do seu pai e de Tom. Embora pretendentes apareçam nesse meio tempo, Mary os dispensa, porque não se sente pronta para tal, de modo que o momento se torna ótimo para termos contato com uma nova faceta da personagem, tão incrível quanto a mulher sedutora e determinada que apresentara no passado. Uma das minhas cenas favoritas, aliás, é quando Mary se suja inteira de lama para salvar seus porcos ao lado de Charles Blake (também conhecido como o melhor ship que nunca aconteceu); uma prova de que ela está de volta, e nunca esteve em tão boa forma. Ao mesmo tempo, Edith começa a viver seu drama pessoal ao lado do editor, Michael Gregson, que desaparece após ir para a Alemanha numa tentativa de conseguir um divórcio para casar-se com Edith. Ela, por sua vez, descobre-se grávida pouco tempo após a partida de Michael, e muito embora sua realidade a impeça de ter o mesmo destino de Ethel (um ponto que a Michas levantou em uma de nossas conversas sobre a série e achei super pertinente), até mesmo para uma mulher rica e de nome, tonar-se mãe solteira é um problema.

Além disso, essa é, também, a temporada em que Anna sofre um estupro, o que até hoje me questiono se era realmente necessário. Que Anna & Bates são o casal mais sofrido da ficção não é exatamente uma novidade, mas existe algo de muito incômodo num crime tão bárbaro que serve tão somente para adicionar mais sofrimento a uma história já tão sofrida. É uma cena perturbadora por demais, com direito à ópera, que abafa os gritos de Anna, que é violentada no andar de baixo, e mesmo sem nada ver além de uma porta (graças a Deus), nós sofremos com ela, choramos por ela. Essa, definitivamente, foi uma virada que jamais vi vindo e, quando aconteceu, pareceu demais até pra mim. Um limite é definitivamente ultrapassado, o que fica ainda mais evidente quando Anna é acusada injustamente pelo assassinato do estuprador; mas, mais uma vez, esse é apenas um lembrete do que é ser mulher numa sociedade que ainda nos nega o papel de sujeito. Não é por acaso que, para a maioria das pessoas, a quarta temporada seja a menos favorita – um fato que até mesmo eu, que gosto bastante dela, apesar dos pesares, sou obrigada a reconhecer.

5) QUINTA TEMPORADA

Estou exatamente no primeiro episódio da quinta temporada pela terceira vez, mas por algum motivo, essa é a temporada do qual menos tenho recordações. Ao contrário de suas antecessoras, que permanecem frescas na minha mente, a quinta temporada é aquele momento em que as coisas ficam meio estranhas e, de repente, você já não se lembra de muita coisa, não sabe bem o que aconteceu – que não significa que seja uma temporada ruim, só não tão emocionante quanto as outras. Após uma temporada em Londres, quando Rose é devidamente apresentada à sociedade, os Crawley estão de volta a Yorkshire e, pouco a pouco, as coisas voltam aos seus devidos lugares: Mary vive um momento da sua vida em que já não precisa estar casada, ela apenas quer estar casada, o que faz toda diferença, e permite que ela seja criteriosa em sua escolha, demorando todo o tempo necessário e toda prova possível para garantir um casamento feliz. Edith, por outro lado, passar a tocar a própria vida, dividindo-se entre o jornal deixado para ela por Michael e o drama de estar tão perto e tão longe da própria filha, a pequena Marigold, que passa a ser criada por Mrs. Drewe, mulher de um fazendeiro local, sem saber que se trata da filha de Edith. Naturalmente, é um arranjo fadado ao fracasso e que eventualmente faz suas vítimas, mas adiciona novos contornos à trajetória de Edith, que se vê definitivamente sozinha quando descobre que Michael foi assassinado em um motim liderado por (à época, um tal de) Hitler.

O foco é momentaneamente tirado das Crawley mais jovens para se voltarem para personagens a quem, até então, a possibilidade de romance não parecia uma realidade. Isobel, mãe de Matthew, passa a ser cortejada por Lorde Merton, padrinho de Mary, com quem tem um romance conturbado, com direito a filhos que não aceitam o novo relacionamento do pai e servem tortas de climão por onde passam (definitivamente, as piores pessoas do mundo). Também é na quinta temporada que descobrimos o passado pouco convencional da condessa viúva, Violet Crawley, que quando jovem quase fugira com um príncipe russo, mas fora impedida pela princesa, que literalmente a puxou para fora da carruagem e a enviou de volta ao marido. Quando os dois se reencontram, o príncipe Kuragin já não é sequer um príncipe, mas um refugiado, que perdera tudo, absolutamente tudo, após a Revolução Russa. Ele, contudo, ainda deseja viver seus últimos dias ao lado de Violet, que recusa, porque naquele momento, já não acredita que a proposta faça algum sentido. Mas é ao relembrar o passado da condessa viúva que Downton Abbey subverte a imagem da senhora dura, racional e indissociavelmente alinhada aos valores tradicionais para mostrar que, antes de tudo isso, Violet é humana, o que significa que mesmo ela teve a sua cota de agir com impulsividade e coração. Quando compartilha sua história com Isobel, ela fala sobre o incidente de um lugar em que o abandono dos filhos e do título lhe parecem absurdos, mas Violet jamais se condena; ela também fora jovem, muito jovem, e abandonar sua família para viver ao lado do homem que amava parecia fazer todo o sentido do mundo. É essa mesma Violet que, no ano seguinte, diz à Mary que acredita em muitas coisas, mas sobretudo no amor, e é algo que faz muito sentido, ainda que essa seja uma faceta reservada a poucos.

Há, ainda, Cora, que passa a ser cortejada pelo historiador Simon Bricker, amigo de Charles Blake, que passa a frequentar a propriedade da condessa por causa de uma obra de arte. Logo o interesse muda de figura, quando Bricker passa a flertar com Cora. Ela aprecia sua companhia, mas a amizade chega ao fim quando, numa noite, Bricker aparece sem ser convidado em seu quarto, o que termina em uma briga com Robert, que chega de surpresa, porque lógico. Robert e Cora passam algum tempo sem se falar, até que ele seja lembrado de seus erros do passado e volte atrás, mas o mais interessante sobre essa história é que Cora, antes a mulher à sombra do marido, mostra que é muito mais do que uma mulher preocupada com roupas e criadagem, ou o cardápio do jantar. Ela é uma mulher interessante e inteligente; algo que Robert, depois de tantos anos, veio a esquecer. Cora passa a ganhar mais autonomia dentro do próprio casamento; o que às vezes incomoda o marido, mas que lhe dá cada vez mais certeza e segurança sobre seu valor. À medida que se encaminha para o seu final, a série começa a traçar o desfecho de seus personagens; e o de Cora é assim: seguro, confiante, bonito. Ainda que não seja minha favorita, a quinta temporada é um lembrete do por quê gostamos tanto de Downton Abbey e porque somos tão apaixonados por todos aqueles personagens – o que, inevitavelmente, nos faz lamentar o iminente fim. É nessa temporada, ainda, que Rose e Atticus se conhecem, talvez o casal mais adorável da série; que aparecem pouco, muito pouco depois de casados, mas se podemos ter alguma certeza é a de que, independente de onde estejam, Rose e Atticus estarão felizes.

6) SEXTA TEMPORADA

É a última temporada, aquela em que todos os arcos começam a ser concluídos e todos os episódios passam a ter um gostinho de despedida. Por ser a única que tenho baixada – na época que assisti, ela ainda não tinha chegado na Netflix – foi, também, a que assisti mais vezes: qualquer tempinho era motivo para dar um passeio por aquelas histórias, caminhar com aquelas pessoas e relembrar que apesar de todos os pesares, fica tudo bem. E é lindo. A série não se esquiva do que acontece de ruim, daquilo que é difícil, das personalidades complexas demais com as quais está lidando, mas não utiliza isso como uma desculpa para transformar a si mesma numa série séria & sombria; ela, afinal, nunca teve a pretensão de ser séria, menos ainda sombria (Downton Abbey sombria kkk). Assim, mesmo os dramas mais complicados ganham desfechos satisfatórios e são encarados de forma mais natural, quase como se a arte fosse, de fato, um retrato de nossas próprias vidas (exceto que não somos nobres da Inglaterra do século XX, mas bear with me).

Não é por acaso que, embora eu goste muito de muitas coisas nessa temporada, uma das minhas cenas favoritas seja, justamente, uma cena em que personagens são finalmente confrontados pelos seus próprios demônios e tentam se redimir, não pedindo desculpas por ser quem são, mas numa tentativa de se tornarem versões melhores de si mesmos. Mary erra demais. Mary erra tanto que desgraça a vida da própria irmã, que teve literalmente um único momento de felicidade na vida inteira. Que chegou tão, tão perto de ser feliz, e de repente, Mary lhe tirara aquilo, do jeito mais mesquinho possível. É uma cena dolorosa porque a gente vê quanto o ser humano pode ser feio, pequeno e complexo do jeito mais horrível possível, e é exatamente sobre isso que Tom fala pra Mary, naquela que é uma das minhas cenas favoritas da série inteira. Então ela pode ser mesmo uma pessoa horrível, Mary pensa. E não podemos todos? Mary destrói Edith porque ela é, sim, uma pessoa horrível, como a própria Edith foi uma pessoa horrível quando, lá na primeira temporada, expôs o segredo de Mary sobre a morte de Mr. Pamuk para a embaixada Turca, como eu fui uma pessoa horrível quando me ressenti pelas conquistas de pessoas que amo profundamente, mas ainda assim fui incapaz de não pensar “por que ela e não eu?”. Gosto de como Mary não é condenada por ser uma pessoa horrível, mas encontra uma forma de subverter essa narrativa e se tornar uma pessoa melhor, por tentar consertar as coisas, ainda que não se possa desfazer o passado; o que todos deveríamos fazer, mas poucos são realmente capazes de concretizar. Gosto de como Edith, contrariando todas as expectativas, se torna marquesa, é aceita por ser quem é e com Marigold à tiracolo, tem o casamento digno da pessoa maravilhosa que se tornou.

E gosto de como os criados também ganham seus momentos de alegria. Gosto de como Thomas encontra uma luz depois de tanta tristeza. De como Anna finalmente consegue realizar o desejo de ser mãe. De como Gwen aparece de novo e janta com seus antigos patrões, na casa que um dia ela limpou e trocou os lençóis da cama. Como mesmo após se casar, Rose continua sendo a mulher expansiva e sorridente de sempre, e como Atticus continua encantado pela sua luz, rindo como bobo o tempo inteiro. De como Mr. Molesley se realiza como professor. Como Daisy se torna uma mulher iluminada, consciente, com um futuro não mais limitado à cozinha. Como Mrs. Hughes e Mr. Carson se casam, são felizes juntos. Na última cena, todos os personagens se unem e cantam juntos, numa cena linda, linda de morrer, deixando todos os corações aquecidos. É o fim, até que se prove o contrário, e é o fim que sempre sonhamos; como um quentinho no coração e o gosto doce do chocolate. Amém.