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Ana Luiza

MEMES

60 perguntas que ninguém perguntou

Tenho certeza de que não é nenhuma surpresa quando digo que adoro falar sobre a minha vida – o que não significa que eu me sinta confortável para falar sobre ela o tempo inteiro, só que gosto bastante quando isso acontece. Tive uma infância marcada por programas aleatórios da TV aberta dos anos 90, que levavam celebridades do Brasil e do mundo para darem entrevistas e falarem abertamente sobre suas vidas, de modo que meu maior sonho era um dia poder dar entrevistas e falar abertamente sobre minha vida pessoal, risos eternos.

Infelizmente, cresci e não me tornei celebridade, mas encontrei um jeito de continuar falando sobre a minha vida assim mesmo, sobretudo quando as pessoas não estavam tão interessadas assim em ouvir; o que sem dúvida deixaria a pequena Sharon orgulhosa. Sempre me perguntam se não me importo em me expor dessa forma, e a verdade é que, embora eu seja reservada em muitos lugares, a internet definitivamente não é um deles – o que é bastante contraditório, mas bear with me. Assim sendo, aproveito a minha momentânea falta de assunto para celebrar as maravilhas de ter um espaço só meu, onde posso falar qualquer abobrinha e responder perguntas que ninguém jamais me faria, não fossem esses memes maravilhosos que, tenho certeza absoluta, são inventados pelas mesmas crianças que passaram os anos 90 assistindo televisão demais.

(O meme saiu do blog da Michas, amor da minha vida que segue salvando a vida desse blog como se não houvesse amanhã. Jesus conserve.)

1) Quais são as suas três músicas preferidas?
No momento, a tríade “Perfect Places“, “Liability” e “The Louvre“, todas da Lorde. Aparentemente, jamais superarei Melodrama, risos. Menção honrosa pra “Something Just Like This“, do The Chainsmokers com o Coldplay, que se tornou uma favorita fácil demais até pra mim.  

2) Se você pudesse conhecer alguém nesta terra, quem seria?
É uma questão. Muito embora tenha vontade de conhecer muitas pessoas, de atores famosos até amigos de amigos, vivo uma contradição de não querer conhecê-las de verdade, sobretudo porque pode ser meio decepcionante e isso certamente me mataria. Ao mesmo tempo, não tenho vontade de simplesmente conhecer essas pessoas, mas também me tornar amiga delas, o que muda absolutamente tudo; conhecê-las não basta, é preciso me relacionar com elas, do jeito que for. O mundo é um lugar bem pequeno e às vezes não acho que isso seja tão impossível assim, em alguns casos menos do que em outros, mas não sei se realmente gostaria que esses encontros acontecessem. De qualquer forma, adoraria conhecer o Harry Styles, o Johnny Massaro e a Tavi Gevinson.      

3) Pegue o livro que você esta lendo, vire a página 23, o que tem na linha 17?
Estou agarrada à minha tigela de batatas chips já vazia, e chupo os dedos cheios de sal quando uma tia passa e me vê“. 

4) O que você pensa sobre a maioria das pessoas?
Prefiro cachorros.

5) Já teve um poema ou canção escrita sobre você?
Não.

6) Você tem fobias estranhas?
Não que eu me lembre. Tenho bastante medo de aranhas e baratas, e também de morrer, mas nada muito fora do normal, né? 

7) Qual é a sua religião?
Católica. 

8) Se você estiver na rua, o que você provavelmente está fazendo?
Pensando em alguma coisa aleatória e/ou mexendo no celular.

9) Simples, mas extremamente complexo. Banda favorita?
Scorpions. Não tenho ouvido com a frequência que já ouvi em outros momentos, mas acho que é exatamente isso: uma questão de momento. Eles sempre vão ser minha banda favorita da vida, ainda que nem sempre sejam a banda favorita do momento.

10) Qual foi a última mentira que você contou?
Não uma mentira, mas uma meia-mentira: disse pro meu pai que não o tinha visitado no dia dos pais porque acordei passando mal. Não era de todo uma mentira, mas não era a verdade completa. 

11) Você acredita em karma?
Acredito.  

12) O que o seu URL significa?
O nome do meu blog? Já contei essa história em outro momento, mas o nome do blog foi escolhido de modo bem aleatório: o “queen” eu já usava desde os meus primórdios como blogueira de moda, enquanto o “starships” surgiu enquanto eu assistia Star Wars. O nome não faz o menor sentido, mas já são quase quatro anos com ele, de modo que não consigo desapegar, muito menos pensar em algo melhor.  

13) Qual é a sua maior fraqueza, a sua maior força?
As pessoas que amo.

14) Qual é a sua estrela do cinema preferida?
Anna Karina, amor da minha vida, inspiração eterna.

15) Como você extravasa a sua raiva?
Chorando e/ou ouvindo música. Às vezes também escrevo, mas no auge da raiva é meio complicado colocar as palavras no papel de um jeito que elas façam algum sentido.

16) Livro preferido?
Estação Onze, da Emily St. John Mandel.

17) Você está feliz com a pessoa que você se tornou?
Com certeza. Ainda tenho muitas questões mal resolvidas, sentimentos que não entendo muito bem e nuances da minha personalidade que gostaria de compreender melhor, mas cada vez mais tenho feito as pazes com a pessoa que me tornei, que não é alguém perfeito, mas ser perfeita jamais foi uma possibilidade real. Nesse sentido, a terapia tem me ajudado muito, mas acho que as experiências e relacionamentos que tive até agora também me moldaram. Apesar dos pesares, quando me olho no espelho, me sinto muito em paz com a pessoa que me olha de volta e isso já tem sido suficiente.         

18) Qual é a música que você odeia?
A maioria das músicas que os jovens de hoje escutam e passam na rádio 24/7, pois velha & chata demais.  

19) Qual é o tipo de arte que você mais gosta?
Qualquer tipo, mas sobretudo o cinema, a música e a literatura; as três produções artísticas que tenho mais proximidade e que, não por acaso, sempre falaram mais de perto comigo. Embora o cinema seja aquela que decidi fazer e tomar como minha, não consigo deixar a música e a literatura de fora, porque foram elas que abriram esse espaço de compreensão e entendimento sobre mim, mas principalmente sobre o mundo, de um jeito que às vezes eu não era capaz de ver por conta própria. Se hoje procuro significado em toda e qualquer coisa, é muito porque esses três me fizeram as perguntas certas e me mostraram um mundo completamente diferente daquele com o qual eu estava acostumada, onde existia muito mais do que eu acreditava ser possível. É o tipo de experiência que muda uma vida inteira, e por mais que muita gente ache idiota, eu só consigo ser infinitamente grata por ver o mundo através dessas lentes ao invés de enxergar e aceitar as coisas como mais simples do que elas realmente são.      

20) Você acredita em fantasmas? E alienígenas?
Acredito, mas menos de um jeito óbvio e mais como uma metáfora para outras coisas, ao menos no caso dos fantasmas. Nós somos assombrados por muitas coisas, que nos assustam e permanecem vivas na gente até que sejamos capazes de exorcizá-las, esses são nossos fantasmas. Já acreditei por muito tempo na possibilidade de pessoas mortas também habitarem a Terra e não sei até que ponto desacredito, mas acho que como a maior parte das criaturas que criamos para nos aterrorizarem durante a noite, fantasmas também são uma representação de medos mais complexos. Já alienígenas, gosto de acreditar que existem sim, porque o Universo é grande demais para sermos os únicos seres vivos e pensantes que existem.      

21) Quem te inspira?
Minha mãe, as mulheres da minha família; minhas amigas e amigos; meus professores; artistas que não conheço de verdade, mas comunicam muito com suas produções; alguns personagens, etc etc.

22) Que cheiro você esta sentindo agora?
Nenhum, pois nariz entupido. 

23) Qual é o pior lugar que você já foi?
Correndo o risco de soar cafona, acho que lugares são mais um estado de espírito do que necessariamente um lugar físico. Eu já estive em lugares – físicos – terríveis, que qualquer pessoa em sã consciência teria saído correndo assim que colocasse os pés, mas eu tinha as companhias certas, de modo que toda a situação ganhou ares muito mais interessantes e divertidos do que teriam sido em qualquer outro caso. Talvez por isso, seja muito difícil lembrar de lugares realmente horríveis que eu tenha estado. Acho que a última vez que realmente senti isso foi há uns 2 anos atrás, quando fui na festa de aniversário de um amigo e me senti completamente deslocada. 

24) Qual é a sua cantora ou seu cantor preferido?
Para todos os efeitos, Taylor Swift é minha cantora favorita, mas tenho estado particularmente apaixonada pela Lorde. De homem, tenho me apaixonado cada vez mais pelo Harry Styles, que vai salvar o rock e fazê-lo valer à pena de novo, risos.

25) Para você, qual é o sentido da vida?
É uma boa pergunta. Não tenho uma resposta para ela, mas cada vez mais tenho me importado menos em encontrar um sentido em tudo isso e me preocupado mais em viver a jornada; o que é bem brega, mas nunca me pareceu tão real. 

26) Você dirige? Se sim, já sofreu um acidente?
Dirijo desde os 18 anos e é algo que amo profundamente, ainda que já tenha tido alguns problemas, inclusive pequenos acidentes. O pior deles foi quando, na faculdade, fui fazer um retorno e não vi uma moto, que acabou batendo na parte da frente do meu carro. Nada aconteceu com o rapaz de moto ou comigo, mas o mesmo não pôde ser dito da moto, menos ainda do carro, que ficaram suficiente destruídos para que uma pequena fortuna fosse gasta no conserto dos dois. Toda a situação acabou me deixando bastante assustada e eu passei meses sem conseguir pegar num carro. Eventualmente o trauma foi superado e hoje dirijo sem grandes problemas.    

27) Qual foi o último filme que você viu?
A Torre Negra“, do Nikolaj Arcel; que é um cara muito bem intencionado, mas o filme infelizmente é uma bosta.

28) Qual é a pior lesão que você já teve?
Até segunda ordem, nunca sofri nenhum acidente sério, muito menos tive lesões, fraturas ou qualquer coisa que merecesse muita atenção, mas quando era pequena, prendi meu dedo mindinho do pé embaixo da portaria do meu prédio, o que me fez passar semanas sem conseguir caminhar direito, tamanha a dor. Na época, lembro de tentar fingir que não estava doendo tanto assim, que aquilo era besteira, da mesma forma que tentei fingir que não tinha doído na hora, com medo que os outros meninos começassem a me zoar, quando minha vontade sincera era chorar até não aguentar mais, mas minha mãe percebeu que algo estava errado e até considerou me levar ao médico. No final das contas, isso acabou não acontecendo porque melhorei por conta própria, mas se no médico tivesse ido, talvez tivesse descoberto algo mais grave do que pareceu num primeiro momento. Outra história mais ou menos assim, que acabou não dando em nada, mas deixou minha mãe bastante assustada foi quando eu sentei em uma taturana, ou lagarta-de-fogo. Minha amiga, que estava comigo na hora, riu horrores, e de novo eu me vi naquela situação de dor e sofrimento em que tudo que eu queria era chorar, mas não podia fazê-lo pra não passar vergonha – pré-adolescentes, não sejam. Parecia bobagem, mas quando cheguei em casa, minha bunda estava toda roxa, de um jeito que deixou minha mãe apavorada. Acabei conseguindo convencê-la a não me levar ao médico, mas foi por pouco, bem pouco, e por sorte minha bunda voltou sozinha ao normal, risos. Lendo sobre isso depois, descobri que tocar em uma taturana pode ser um troço realmente sério, e minha sorte foi que eu estava de calça jeans, de modo que o tecido acabou me protegendo de potenciais consequências mais sérias. 

29) Você tem obsessões por algo?
Obsessão é meu nome do meio, mas nos últimos meses tenho estado particularmente obcecada por Downton Abbey, como vocês já estão carecas de saber. 

30) Já teve um rumor sobre você?
Alguns, quase sempre quando era adolescente porque adolescentes são esse tipo maravilhoso de ser que adora criar rumores uns sobre os outros. O primeiro deles foi quando eu ainda estava no ensino fundamental e, depois de terminar com meu primeiro namorado, as pessoas começaram a questionar minha sexualidade. O rumor ganhou força quando fiz 14 anos e uma menina roubou (!) uma página que eu tinha com minhas amigas no Orkut e afirmou que eu era lésbica, algo que estava muito longe de ser verdade. A segunda vez foi quando, chegando na escola, passei mal e vomitei na lixeira em frente ao colégio. Era só o suco de graviola que eu tinha tomado de manhã e não tinha batido muito bem no meu estômago, e eu me senti infinitamente melhor depois de colocá-lo pra fora, mas muita gente viu a cena e achou que aquilo era a óbvia confirmação de que eu estava… grávida. Contudo, cheguei aos 24 com um total de zero bebês, de modo que vocês podem imaginar a veracidade do rumor. Já mais velha, algumas pessoas se questionaram quando eu e a Ju nos afastamos, inclusive fazendo perguntas de tempos em tempos sobre o assunto, mas nesse caso, como diria nossa melhor amiga famosa: the rumors are terrible and cruel but honey most of them are true. A maioria era mesmo verdade, mas tudo isso ficou no passado.     

31) Você tende a guardar rancor de pessoas que te magoaram?
Já quis muito fazer isso, mesmo sabendo que não me faria bem algum, mas eventualmente descobri que não tenho dom para ser rancorosa – o que nem sempre é muito bom, mas acho que prefiro assim.

32) Qual é o seu signo?
Peixes com ascendente em gêmeos e lua em aquário.

33) Qual é a última coisa que você comprou?
Um yakissoba pra me consolar. 

34) Amor ou luxúria?
Amor.

35) Está em um relacionamento sério?
Yep.

36) Quantos relacionamentos você já teve?
Namoro de verdade, só dois. Mas já me enrolei com outras pessoas por mais tempo do que seria saudável admitir.

37) Qual é a sua arma secreta para conseguir que alguém goste de você?
Não sei se tenho exatamente uma arma secreta, especialmente porque confio muito pouco nas minhas qualidades para sentir que alguma delas possa fazer com que as pessoas gostem de mim com mais facilidade. Mas sempre tento ser honesta, sorrir e dar a atenção que gostaria de receber de volta. A máxima de tratar os outros como você gostaria de ser tratado não se aplica em todas as situações, mas acho que esse é um caso em que ela funciona bem. 

38) Onde está o seu melhor amigo (a)?
Provavelmente em casa, mas são questões.

39) O que você estava fazendo ontem à meia-noite?
Escrevendo.

40) Você é o tipo de amigo que você gostaria de ter como amigo?
Embora eu seja uma pessoa complicada e meio relapsa, gosto de acreditar que compenso essas falhas sendo uma boa amiga, com quem as pessoas podem contar sempre que precisarem e alguém em quem sempre vão encontrar honestidade e carinho. Então, sim, provavelmente eu gostaria de me ter como amiga.  

41) Você está andando pela rua no seu caminho para o trabalho. Há um cão se afogando no canal no lado da rua. Seu chefe lhe disse que se você chegasse atrasado mais uma vez você seria demitido. O que você faz?
Existem muitos empregos no mundo, talvez até melhores e com um chefe menos escroto; mas bichinhos são únicos. Sem dúvida salvaria o cão.

42) Você está no consultório médico e acaba de ser informado de que só tem cerca de um mês para viver. a) Você não diz a ninguém que você vai morrer? b) O que você faz com os seus dias restantes? c) Você teria medo?
Esse negócio de contar ou não é uma grande questão. Contar mudaria absolutamente tudo; as pessoas passariam a ter pena de mim, me tratariam de um jeito diferente, e eu não gostaria que isso acontecesse, sobretudo se estivesse em vias de morrer. Contudo, ao mesmo tempo, não me imagino guardando um segredo tão sério sem sentir o peso disso, o que provavelmente afetaria meus últimos dias de um jeito bastante negativo. No final das contas, acho que não contaria pra todo mundo, mas escolheria algumas pessoas com quem dividir esse segredo, na tentativa de tornar o momento menos pesado e tentaria vivê-los da melhor forma possível. Um mês é pouco tempo para fazer coisas grandes, mas isso não significa que eles não possam ser extraordinários ao seu próprio modo. Então tentaria me cercar de amor e experiências novas, que pudessem fazer com que eu sentisse que minha vida tivesse realmente valido à pena. Ao mesmo tempo, sou idiota o suficiente para me importar em deixar uma marca e ter absoluto pavor de que minha existência tenha sido algo banal, de modo que tentaria deixar alguma coisa para trás; provavelmente, um livro ou um diário, mas poderia ser um filme também, ou só o roteiro dele. Eu teria muito, muito medo, mas aí algumas vezes na vida, a gente precisa aceitar e seguir em frente com medo mesmo; é isso que diferencia as verdadeiras pessoas de coragem, acho, e gosto de pensar que nesse momento, eu seria uma delas.    

43) Qual a música que sempre faz você se sentir feliz quando ouve?
Perfect Places“, da Lorde. É uma música que me faz querer dançar, de um jeito bastante honesto, ao mesmo tempo que me fez fazer as pazes com a minha vida e a pessoa que eu me tornei. Lugares perfeitos não existem, mas talvez a gente possa forjar um espaço que chegue perto de ser. 

44) Na sua opinião, o que faz um grande relacionamento?
Acho que isso varia de pessoa pra pessoa, mas de um modo geral, os clichês quase sempre se aplicam: honestidade, confiança e parceria. As pessoas se surpreendem quando não falo do amor logo de cara, mas acho que, embora eu acredite demais nele, nem sempre o amor é capaz de segurar um relacionamento que não tenha uma base sólida – o que não significa que ele não seja importante (we’re just humans drunk in the idea love can fixes everything), só que não é a única coisa importante. Ao mesmo tempo, acho que a gente não deve levar a vida muito a sério, e isso também se aplica aos relacionamentos. Deve ser muito chato viver ao lado de alguém que está o tempo inteiro muito sério e não consegue rir das situações absurdas que inevitavelmente acontecem, então esse é um ponto importante também. O mundo já é um lugar difícil demais pra se viver, então a gente não precisa transformá-lo em algo pior.

45) O que alguém deve fazer para ganhar o seu coração?
A tríade de carinho, atenção e risadas não falha, e acho que ainda são a melhor forma de ganhar meu coração, seja de um jeito romântico ou não.

46) A “loucura” traz mais criatividade?
Não necessariamente. Acho que as pessoas tidas como loucas saem da caixa com mais facilidade, o que a gente normalmente atribui como criatividade, mas não acho que seja pré-requisito, pelo contrário. Muitas pessoas que conheço e são extremamente criativas não tem sequer um traço de loucura, inclusive não podiam estar mais distantes disso. Pra elas, muitas vezes, a criatividade é um instrumento de trabalho e elas não dependem dela como uma graça divina, mas vão exercitando esse lado até que possam utilizá-la independente do momento que estão vivendo ou qualquer coisa assim. Ao mesmo tempo, acho difícil encontrar uma definição para loucura, porque existem mais nuances do que a gente muitas vezes é capaz de ver, assim como existem muitas formas diferentes de ser louca. Até algum tempo atrás, transtornos como a depressão eram vistos como loucura, mulheres que saiam um pouquinho da linha eram vistas como histéricas, condenadas a viver eternamente em manicômios, e a homossexualidade, por muito tempo, foi considerado um desvio de conduta gravíssimo; mas eu jamais diria que sou louca por ter depressão, por exemplo, muito embora a tristeza me torne mais produtiva e criativa em alguma medida. Então não sei se existe uma resposta correta nesse caso, muito menos uma que chegue perto de dizer com alguma certeza se a criatividade é ou não uma característica de loucos; talvez só sejamos meio loucos, todos, e alguns um pouco mais criativos que outros.        

47) Qual é a melhor decisão individual que você fez em sua vida até agora?
Começar a estudar audiovisual. Não foi a mais memorável, mas foi a que abriu todas as portas para decisões que vieram depois – ter um site, arriscar um edital, essas coisas. 

48) O que você quer que seja escrito em sua lápide?
Já passei muito tempo pensando sobre isso, e por mais que tenha encontrado algumas respostas, ainda não encontrei a certa. Espero ainda ter bastante tempo para pensar nos assunto, risos. 

49) Diga a primeira coisa que vem à mente quando você ouve a palavra “coração”.
Minha mãe.

50) Pergunta básica: qual é a sua cor preferida.
Azul, acho.

51) Qual é a imagem atual no seu desktop?
Um céu estralado, com os dizeres no meio “she believed she could, so she did”. Faz séculos que uso a mesma imagem, mas ela continua sendo meu lembrete favorito de que posso qualquer coisa, desde que jamais deixe de acreditar. 

52) Se você pudesse apertar um botão e fazer qualquer pessoa no mundo explodir instantaneamente, quem seria?
O Temer.

53) Qual seria a pergunta que você teria medo de dizer a verdade?
Não exatamente medo de dizer a verdade, mas medo de descobrir a verdade: o que eu quero para o meu futuro. Eu tenho uma noção do que quero, mas muitas dessas coisas são excludentes, e eu não posso ter tudo. Me dá medo ser obrigada a pensar em quais são minhas prioridades e dizê-las em voz alta, porque no fundo eu queria tudo, absolutamente tudo. 

54) Se pudesse ter super-poderes, qual seria?
Não um, mas dois: me teletransportar, porque a maior parte das minhas amigas mora longe e eu gostaria de ter um modo mais fácil de vê-las; e ser capaz de ler o pensamento das pessoas. Sou um serzinho naturalmente encucado com a opinião alheia e com aquilo que os outros pensam sobre mim, de modo que facilitaria um bocado ter certeza do que elas pensam ao invés de me deixar levar pelos meus próprios pensamentos devastadores.

55) Se você pudesse reviver qualquer acontecimento em sua vida, que momento seria?
Primeiro, pensei no show do Scorpions, que foi extremamente especial. Depois, pensei no meu primeiro Encontrão, igualmente especial. Mas no fundo, acho que o momento que eu mais gostaria de viver seria algo mais banal, mas nem por isso menos especial. Era 2008, minha casa estava em reforma e eu estava morando na casa da minha tia. Meus avós estavam passando um tempo com a gente à época, e enquanto minha vó dava banho no meu avô, no banheiro do quarto onde eu dormia, eu usava o computador e ouvia os dois discutirem de um jeito absolutamente adorável, como só meus avós conseguiam. Em determinado momento, daquele seu jeito bravo, minha vó mandou o meu avô lavar o cu, ao que ele respondeu, falsamente chocado “o cu??????????”. Acho que nunca ri tanto na minha vida, e continuei rindo depois que meu vô saiu do banho e continuou fazendo graça, enquanto minha vó fingia se estressar. Sinto uma saudade profunda desses momentos e realmente daria qualquer coisa pra poder vivê-los de novo. 

56) Se você pudesse apagar qualquer experiência horrível de seu passado, o que seria?
A noite de Natal de 2007.

57) Você tem a oportunidade de dormir com a celebridade de sua escolha. Quem seria?
No momento, o Harry Styles, porque estou vivendo esse momento. Mas também adoraria dormir com o Sebastian Stan ou o Jensen Ackles ou, ainda, o Chris Evans. Em comum, todos são pessoas absolutamente adoráveis, então acho que temos um tipo, risos.

58) Qual é o seu ringtone?
O toque padrão do iPhone.

59) Você já viajou para o exterior?
Não, mas adoraria.

60) Se pudesse viajar para qualquer lugar com um amigo/a, para onde seria e com quem?
É difícil responder essa pergunta porque tenho os melhores amigos do mundo e adoraria viajar com qualquer um deles. Contudo, podendo escolher apenas um, eu possivelmente escolheria a Yuu, amor da minha vida, porque acho que já vivemos longe por tempo demais e precisamos muito ter a oportunidade de viver esse momento. O lugar importa menos tendo ela como companhia, de modo que deixaria que ela escolhesse o destino.

♥ 

MEMES

A cara da riqueza… se eu fosse rica

A Manu, essa pessoa lindíssima que amo demais, me indicou para responder um meme sobre o que faria se eu fosse… rica. O meme foi criado pela Jessica, do blog “Sem Drama” (que eu não conheço, me desculpem) e achei a ideia absolutamente genial, não só porque amo responder memes, mas principalmente porque boa parte dos meus dias é gasto imaginando como seria minha realidade se herdeira fosse. Eu queria ser rica, mas não apenas rica, eu queria ser princesa, e esse meme é apenas a realização de um pequeno sonho – que não vai se tornar realidade, mas ninguém se importa, não é mesmo. Como sempre, existem algumas regras, mas eu sou uma princesa rebelde e vou ignorar todas elas. Sorry not sorry.

1. Por qual motivo ou situação você gostaria de se tornar rico?
Sendo bem sincera, meu sonho era ter nascido em uma família de gente rica e famosa, ou na realeza, e ser herdeira, nunca precisar me preocupar com dinheiro, etc etc. Como isso não vai acontecer, gosto de pensar que ficaria rica com o meu trabalho, seja ele como escritora ou cineasta, já que ser uma rockstar também não é mais uma possibilidade.   

2. Todo famoso e/ou rico tem uma frase única que ao escutá-la lembramos dele. Qual seria a sua?
Feelings are the only facts – mas essa já é meio que meu lema da vida de qualquer jeito.  

3. Quem são os ricos que você gostaria de conhecer?
Assim como a Manu, não tenho a pretensão de me tornar rica para enturmar com outras pessoas igualmente ricas. Eu sou a pior pessoa do mundo para enturmar, o que por si só já é um obstáculo enorme. Enturmar com pessoas ricas exigiria um pouco mais porque, provavelmente, eu me sentiria muito desconfortável, os papos talvez não fossem exatamente a minha vibe, e eu talvez preferisse estar na cozinha confraternizando com os empregados do que na sala de jantar conversando sobre qualquer coisa. Ao mesmo tempo, não gosto dessa imposição de sou rica, logo sou amiga de pessoas ricas, porque me parece pouco genuíno relações que se estabelecem por algum tipo de acordo social. Eu adoraria conhecer algumas pessoas famosas, por exemplo, que também são bastante ricas, mas gostaria de fazê-los de um jeito natural, não porque somos ricas, não porque eu posso e fim de papo.     

4. Onde você teria suas mansões?
Também não tenho a pretensão de ter uma mansão, quem dirá várias. Se rica fosse, teria um apartamento de tijolinhos em Nova Iorque, uma casinha gracinha e de aspecto meio antigo em Londres, e possivelmente um apartamento em algum lugar do Brasil e um sítio na cidade dos meus avós. Uma das coisas que eu mais gostaria de fazer se tivesse dinheiro sobrando é passar algum tempo em vários lugares diferentes, de modo que escolheria alguns lugares estratégicos para ter uma casinha para chamar de minha; Londres e Nova Iorque são esses lugares. No Brasil, levaria em consideração o lugar que fosse mais viável morar – Brasília ou São Paulo, provavelmente -, enquanto o sítio seria uma forma de manter minhas raízes e ter sempre um lugar para onde voltar e ficar em paz.

5. Quais os produtos que jamais poderiam faltar pra você?
Cosméticos!  

6. E os que você não compraria mais só porque se tornou rico?
Sei lá? Acho que deixaria de comprar coisas porque simplesmente estão na promoção ao invés de comprar algo que eu quero, mas é infinitamente mais caro; ou então coisas que pretendo não precisar mais, tipo cera pra depilar, porque a essa altura já não ia precisar sofrer com depilação nunca mais (kkk).  

7. O que você gostaria de provar que só os ricos podem?
Viajar horrores e gastar bastante dinheiro conhecendo restaurantes. Não é nem questão de “só os ricos podem”; acho que qualquer pessoa poderia fazer qualquer uma dessas coisas, desde que reserve um dinheiro só pra isso ou junte de vez em quando, mas sendo rica, eu não precisaria economizar, o que muda totalmente o cenário. Tive uma colega na faculdade que em 24h organizou uma viagem pra Disney com uma amiga e foi, simples assim, porque ela podia, e acho que se eu pudesse também, esse seria o tipo de coisa que eu faria.    

8. Que local você faria sua primeira entrevista, sessão de fotos e autógrafos?
Depende. Provavelmente num lugar confortável e intimista, em que eu pudesse colocar os pés no sofá e conversar com as pessoas como se estivesse recebendo amigos em casa.   

9. Que local você fecharia um dia inteiro só pra você?
Só pra mim, lugar nenhum porque deve ser chato pra cacete ficar sozinha onde quer que seja. Queria muito poder ter a Disney só pra mim e meus amigos por um dia, e poder fazer o que quisesse sem enfrentar filas e poder tirar foto de tudo quanto é jeito sem ninguém pra me julgar ou passar no meio. 

10. Quais seriam seus passeios preferidos?
Restaurante, restaurante, restaurante. Viajar, viajar, viajar, conhecer todos os lugares do mundo, esse tipo de coisa.

11. Como gastaria seu dinheiro?
Com comida, viagens, sapatos (!), livros, equipamentos que jamais saberemos se realmente vou usar, mas tudo bem, tranqueiras, presentes pras pessoas que amo, esse tipo de coisa. Transformaria o Valkirias numa empresa de verdade, com sede em algum lugar do Brasil, expediente e funcionários de verdade, do jeitinho que sempre sonhamos em fazer um dia. Também compraria um jeep, porque é meu sonho de consumo automobilístico, e um apartamento pra poder morar em paz e chamar de meu, além de um café, que é meu sonho bocó. O resto provavelmente deixaria guardado ou tentaria investir de alguma forma.   

12. Por qual motivo ajudaria e lembraria de um pobre?
Porque sim? Não acho que a gente precise se justificar por ajudar quem quer que seja e nesse caso não seria diferente. Adoraria poder ser rica e ajudar pessoas, bichinhos e causas importantes, porque eu acredito em muitas coisas e queria poder ajudar quantas fosse capaz. 

13. Você acha que seria humilde ou deixaria a fama e o dinheiro subir à cabeça?
Acho difícil deixar o dinheiro subir à cabeça porque seria quase como negar a pessoa que eu sou e minhas origens. Eu não sou essa pessoa, o que eu ganho tentando enganar os outros? É diferente de ser famosa, por exemplo, algo que eu acharia legal demais porque seria a realização de um sonho besta e infantil; mas só ao ponto de sentir o gostinho da coisa toda, de ser reconhecida, de ter pessoas agradecendo ou elogiando meu trabalho. De resto, não gostaria de ostentar meu dinheiro e realmente não me enxergo fazendo isso.

14. Tem algo que você faria ou não faria só porque é rico? O quê?
Mais uma vez, acho que não sairia por aí ostentando meu dinheiro ou me sentindo melhor que os outros por causa da minha conta bancária; isso não diz absolutamente nada sobre o caráter de ninguém. Ao mesmo tempo, não acho que o fato de ser rica me faria fazer coisas diferentes das que já faço: eu continuaria trabalhando demais, porque essa sou eu; continuaria frequentando os mesmos lugares, usando roupas no mesmo estilo de sempre, convivendo com as mesmas pessoas, etc etc. Provavelmente viajaria mais e sairia com mais frequência, mas é meio que isso aí.

15. Deixe uma frase/mensagem para todos os ricos e uma para as pessoas pobres para finalizar a tag.
Cuidado com o que vocês desejam, RISOS.

VIDA DE FANGIRL

Um pequeno registro de sonhos

Há coisas nessa vida que podemos tomar como certas – uma delas é que piscianos sonham demais. Quando digo que piscianos sonham demais, estou dizendo isso de forma literal e também metafórica; me parece o tipo de coisa com chances altíssimas de se tornar problemática, principalmente porque sonhos são perfeitos de um jeito que a realidade jamais vai ser, e é muito fácil se deixar levar por esse infinito de possibilidades. Um dos meus filmes favoritos conta, não por acaso, a história de um casal (na verdade, do cara, mas o relacionamento dos dois é central na narrativa) cujo casamento é destruído por… sonhos. Nele, Don é um ladrão que literalmente invade os sonhos das pessoas para roubar segredos ou implantar ideias, em um universo diegético em que isso não apenas é permitido como muita gente literalmente paga pra sonhar. A história é bastante complexa e se ambienta em mais de uma dimensão, mas a grande questão da vida de Don, desenvolvida em paralelo, é que o trabalho que paga suas contas foi o mesmo que tirou a vida de sua mulher, Mal, e ele se culpa, não sem alguma razão, por tê-la jogado naquele mundo e por não ter se atentado ao momento em que ela deixou de ser capaz de distinguir fantasia e realidade.

Gosto de como o Nolan (se não ele, quem?) constrói esse universo de um jeito meio cínico, que não enxerga sonhos como algo necessariamente bom. Desde muito cedo a gente aprende que sonhos são importantes, preciosos, etc etc. Mas e se não? E se eles também forem perigosos pra caralho? Por mais assustador que seja, é um ponto que muita gente deixa passar; ninguém te diz que esse outro lado existe, ninguém conta como nossa mente pode ser perigosa. O que não significa que sonhos não sejam importantes, é claro, apenas que existe mais sobre eles do que normalmente acredita nossa vã filosofia. De maneira mais ampla, sonhos também são capazes de comunicar outras coisas, desde uma crush pelo Harry Styles até medos mais profundos e que normalmente não ficam evidentes no dia-a-dia. Não conheço tanto sobre sonhos em teoria quanto gostaria, mas tenho uma memória bastante boa para lembrar deles e um apego emocional por outros mais, de modo que hoje o post de hoje nada mais é do que um registro daquilo que se passa em minha cabeça quando estou dormindo.

Rolando na grama com Sam Winchester

É uma verdade universalmente conhecida que a melhor forma de confirmar uma crush é… sonhando com ela. Não tem erro: você acha a pessoa bonita, tem uma quedinha por ela, mas então, e só então, sonha com ela e aquilo que antes era uma atração meio besta se transforma na crush do milênio – ou da semana. Dizem que nosso cérebro não é capaz de criar rostos, de modo que as pessoas com as quais sonhamos possuem características já conhecidas, que podem passar despercebidos para nós, mas não pra nossa mente. Eu sonho bastante com celebridades, o que significa que muito tempo da minha vida é gasto olhando fotos dessas pessoas; é parte do meu trabalho e também da diversão. Meu sonho com o Sam Winchester foi assim: a descoberta de uma crush que eu nem sabia que existia. Jared Padalecki é lindo. Jared Padalecki é tão lindo que meu estômago dá cambalhotas só de pensar naquele homem enorme e maravilhoso. Mas Sam Winchester sempre foi aquela pessoa cuja minha admiração e atenção estavam muito mais voltadas para o fato de parecer uma pessoa muito gente boa do que para a verdade inexorável, que é a de que ele é lindo de morrer – o que só foi mudar quando sonhei com ele pela primeira vez. No sonho, a versão do Sam ainda era a mesma das primeiras temporadas de Supernatural, o jovem de vinte e poucos anos com cabelo bonito e sorriso encantador, que queria ir para uma boa faculdade e viver uma vida normal. Era uma versão que eu odiava, sobretudo por ser tão distante da família, por negar o family business e querer ter uma vida diferente. O que é um desejo muito genuíno, é claro, mas que me parecia idiota pra alguém que vinha de uma família tão maneira apesar de todos os pesares. Então o sonho mudou tudo. Nele, eu e Sam estávamos deitados em um gramado imenso, longe de tudo e todos, e ele sorria pra mim e me olhava de um jeito que imagino que seja a mesma forma como o Jared olha pra Gwen. E eu me senti profundamente amada, de um jeito lindo e meio idiota, e tentava devolver esse mesmo amor em forma de sorrisos sinceros e olhares apaixonados. E só. Não teve confusão, não teve romance proibido, não teve demônio querendo estragar tudo; só nós dois num gramado nos amando demais.

Casando com Dean Winchester

Eu me apaixonei pelo Dean, nas palavras de Hazel Grace, do mesmo jeito que alguém cai no sono: gradativamente e de repente, de uma hora pra outra. E, ainda assim, foi só depois de anos, literalmente anos, que sonhei com ele pela primeira vez. No sonho, eu chegava na porta de uma igreja abandonada, vestindo moletom, jeans e um tênis, o cabelo preso meio de qualquer jeito, e quando finalmente entrava na igreja, o Dean estava lá, me esperando, com seu combo de camiseta/camisa/parka e o sorriso mais lindo do mundo estampado no rosto. “Você estava me esperando?”, eu me perguntava enquanto um sorriso começava a surgir no meu rosto; e ele respondia de volta, apenas com o olhar, como quem diz “sim, sim, sim”. Então o tempo pareceu suspenso, e mesmo que na minha cabeça uma voz repetisse que aquilo não poderia ser verdade, que aquilo jamais aconteceria sob qualquer circunstância, eu não me importei. Eu não me importei e fiquei ali, pelo o que pareceu um pequeno infinito, sorrindo feito idiota, quase sem conseguir me conter de tanta felicidade. O sonho acabou antes mesmo que eu tivesse a chance de walk down the aisle e ter uma aliança colocada no meu dedo, mas naquele pequeno espaço de tempo, eu acreditei estar vivendo aquela cena, e foi eterno enquanto durou – um eterno precioso e pequenino, que guardei com carinho no meu coração.

Fugindo de alguma coisa com o Jared Leto

Um dos meus maiores medos nessa vida é ser perseguida – pelo menos, é o que dizem meus sonhos. Desde pequena, tenho pesadelos horrorosos com pessoas estranhas que me perseguem, e quando tento gritar por socorro, minha voz jamais sai; ou então com situação mais dramáticas em que literalmente alguém quer me matar – geralmente, o Voldemort – e eu preciso tentar sobreviver. Já perdi as contas de quantas vezes sonhei que um vilão das trevas queria me pegar ou que fugia de regimes totalitários que queriam me ver morta e enterrada. Às vezes, dou a sorte de encontrar nesses cenários pessoas que me ajudam ou simplesmente decidem percorrer essa jornada macabra comigo, que foi mais ou menos o que o Jared fez. Sem saber como ou por quê, ele estava ao meu lado, me ajudando enquanto fugíamos, os dois, de algo que a essa altura já não me lembro mais (um bruxo das trevas? um ditador maluco? um assassino de aluguel? são questões). O medo era um sentimento real e constante, e nós fugíamos, pulávamos telhados (!), nos escondíamos em lugares improváveis e escuros, numa aventura com hora certa para acabar. Como num filme B, eventualmente nós acabávamos nos apaixonando, e foi lindo e intenso enquanto durou, mas como todo sonho, chegou ao fim – tal qual minha crush, que foi perdendo força à medida que eu descobria que o Jared da vida real era um babaca, pra dizer o mínimo.

Filha do David Bowie

Uma das maiores falhas da minha formação musical foi nunca ter tido um contato mais profundo com a vida & obra de David Bowie. Em uma família que sempre me apresentou artistas de décadas passadas e me incentivou a curtir essas coisas, independente do que fosse dito fora de casa, é irônico que Bowie nunca tenha aparecido de forma significativa nessa construção de gostos que me acompanham até hoje. Estou cercada de pessoas completamente obcecadas por ele e pelo seu trabalho; o fato de nunca ter me aproximado, então, não fazia o menor sentido. Quando ele faleceu, vi meus amigos e pessoas próximas lamentarem, e eu lamentei também; um sentimento totalmente gratuito que fazia com que eu me sentisse uma mentira perto dos verdadeiros fãs. À época, lembro de ver uma foto lindíssima dele com a Iman e a filha dos dois, ainda bebê, o que me fez lamentar profundamente. Não era só o mundo que perdia um grande artista, não eram só os meus amigos que perdiam um ídolo; era uma família que perdia um membro, uma filha que perdia um pai, a mulher que perdia o marido. Na mesma semana, eu tive um sonho muito bonito em que o Bowie era meu pai, e ele era um pai tão, tão legal e amoroso que foi difícil acordar e, de repente, ter a realidade jogada na minha cara: eu não apenas não era filha do David Bowie como ele nem sequer estava vivo. O sonho, entretanto, fez com que minha admiração gratuita por ele crescesse; se ele foi ou não o pai amoroso e dedicado com o qual eu sonhei, é uma coisa que nunca vou saber, mas no fundo, não consigo imaginá-lo de forma diferente.

Stalker do Tiago Iorc

A essa altura, chega a ser meio idiota pensar que não só sonhei com o Tiago Iorc como ainda fiz o ridículo papel de stalker, quando tudo o que eu queria era só que ele fosse um artista menos conhecido e que de preferência estivesse bem longe da péssima influência da Tatá Werneck, mas divago. No sonho, Tiago era um rapaz muito, muito legal mesmo, mas cujo interesse não estava na minha pessoa – pelo menos, não o tempo inteiro. Nossa relação era um pouco confusa, porque ao mesmo tempo que me lembro de persegui-lo de um jeito que às vezes fazia com que eu me sentisse num papel realmente ridículo, nós também éramos colegas de trabalho ou conhecidos, que conversavam de forma amigável quando estavam no mesmo ambiente – a única diferença é que eu não queria ser apenas uma colega de trabalho ou mera conhecida, enquanto ele parecia se satisfazer plenamente nesse papel. Lembro de vê-lo se interessar por outra garota cujo rosto não lembro qual é, e eu me sentir trocada e injustiçada por passar tanto tempo sendo legal quando ser legal não me deu nada em troca; então o sonho acabou e eu voltei a viver feliz minha vida em que o amor é um lugar infinitamente mais seguro e gentil.

Show do Harry Styles

Eu, Anna Vitória, Analu Bussular, Paloma Engelke e Michas Borges invadindo o camarim do Harry Styles e fingindo ser da produção do show, observando tudo meio de longe, com o coração batendo com força e nos enturmando com pessoas que nem imaginavam quem a gente era de verdade. Ainda lembro como foi a primeira vez que vi o Harry de pertinho, só o batente da porta separando nós dois enquanto ele dava uma entrevista, e ele me viu ali e sorriu, do jeito lindo como só ele sorriria, e eu sorri de volta meio sem graça, voltando aos meus afazeres logo em seguida. Por algum motivo que não me lembro mais, acabei perdendo o show, mas foi um sonho delicioso e memorável, e eu gosto como na versão da minha cabeça o Harry é sempre uma pessoa doce e absolutamente adorável, algo que, no fundo, acredito que ele seja de verdade também.

Visita do Jensen Ackles e do Jared Padalecki

Supernatural está para minha pessoa como Grey’s Anatomy está para outras tantas mais, o que significa que vivo há anos, literalmente anos, assombrada pelo suposto e eminente fim, que piora a cada temporada, quando a possibilidade se torna ainda mais real: são dez anos de história e tudo nessa vida, eventualmente, precisa encontrar o seu fim. Contudo, tenho me sentido cada vez menos preparada para viver esse momento, o que só piorou quando a coisa toda pareceu ganhar contornos mais sérios e as conversas sobre um possível fim começaram a, de fato, acontecer. De certa forma, a visita de Jensen e Jared, ainda que só em sonho, serviu para acalmar meu coraçãozinho sofredor e dizer que tudo bem a série chegar ao fim, não ia ser o fim do mundo. Os dois estavam no Brasil justamente para uma despedida e passavam na minha casa para passar alguns dias comigo e com a Thay. Não havia qualquer traço de romance dessa vez, mas uma amizade bonita e sincera entre os quatro, e eu me senti profundamente amada o tempo todo. Em comparação, foi um sonho um tanto longo, onde muitas coisas aconteceram – foram horas de conversas jogadas fora, jogos de tabuleiro, expedições a lugares aleatórios, abraços, confidências e risadas – até que eles inevitavelmente precisaram partir. Por mais triste e difícil que tenha sido, no entanto, dizer adeus e fechar esse ciclo me deixou estranhamente em paz, quase como se eu realmente tivesse feito as pazes com algo que eventualmente irá acontecer, e vai ser difícil e triste demais, mas muito especial também. Hoje, consigo ser grata por ter tido a oportunidade de acompanhar e amar a série, e sofrer pelo iminente fim só significa que a jornada foi boa demais enquanto durou.

Harry Styles, o cara mais legal do mundo

Não lembro como, muito menos quando comecei a me interessar pelo Harry, mas sei exatamente por quê isso aconteceu: ele é um bem cara legal – ou, pelo menos, finge muito bem ser. É impossível não se apaixonar: existe algo especial naqueles olhos, nas tatuagens horrorosas e principalmente no sorriso que poucos têm e menos ainda conseguiriam torná-lo especial da mesma forma. Harry me dá a impressão de ser uma pessoa muito gente boa e com a cabeça no lugar, do tipo que eu adoraria ser amiga, colega ou o pinguim da geladeira. Seu álbum de estreia reforçou todas essas impressões, que já existiam desde o One Direction, mas o sonho certamente transformou esse sentimento. Nele, nós nos amávamos demais, de um jeito sincero e poético, que é como eu imagino que amar o Harry seja de fato. Tenho pensado muito nas suas músicas e imaginado histórias que existem entre as letras e melodias, e sonhar com ele foi a concretização dessas histórias meio idiotas que só existem na minha cabeça. Gosto de lembrar que, mesmo sendo um ano mais novo do que eu, ele agia como um cara realmente maduro, gente boa e especial, e como ele era apaixonado – por mim, pela vida, pela arte – e como a fantasia, por alguns segundos, a fantasia foi real.

Jared Padalecki no aeroporto

Ainda que o Jared não seja exatamente uma crush, percebo agora que ele aparece com demasiada frequência nos meus sonhos – o que, muito provavelmente, significa que passo tempo demais com ele na cabeça, risos. De novo, nós éramos apenas bons amigos, que se conheceram de forma casual no aeroporto e decidiram passar algum tempo jogando conversa fora, e mais uma vez era a Thay quem estava comigo, voltando de uma viagem aos Estados Unidos. Nós esbarramos com ele enquanto esperávamos nosso voo e como sempre, Jared foi uma pessoa totalmente adorável, nos convidou para tomar um café (que se transformou em uma conversa de horas e horas) e ainda teve paciência de esperar que eu fizesse compras em uma farmácia. Nós conversamos sobre a Gwen, sobre seus filhos, seu trabalho, e sempre que eu falava alguma bobagem, ele ria alto, como se fosse a coisa mais engraçada que havia ouvido em anos. Eu não sou uma pessoa engraçada; eu sequer me acho assim, uma pessoa interessante. Com o Jared, contudo, eu acreditava que era ambas as coisas, e era com força. O sonho acabou de repente e sem grandes explicações (teria ele ido embora? enchido o saco após minha indecisão sobre qual curvex comprar? questões), mas deixando a sensação maravilhosa de que, ao menos por alguns instantes, eu quase fui a melhor amiga do Jared Padelick.

COM AMOR

8. Your favorite internet friend

Inspirado nesse desafio incrível aqui.

Querida Y.

A primeira vez que escrevi pra você foi em abril, logo após meu retorno de São Paulo. Eu tinha pisado na cidade pela primeira vez e, naqueles dias, nós tínhamos feito planos, muitos planos, mas não concretizamos nenhum; ainda que precisássemos desesperadamente que eles se realizassem. Não é preciso lembrá-la de nenhuma dessas coisas: cada uma delas foi registrada na carta que te enviei naqueles dias, e você sabe, como eu sei, porque as viveu também. Mas o que eu nunca disse é que, naquela época, cheguei a temer pelo nosso futuro. Temi que a culpa que insistíamos em tomar para nós se tornasse um obstáculo em nosso caminho; que construíssemos muros altos demais, numa tentativa de evitar a mágoa e a frustração, até que eventualmente eles se tornassem intransponíveis. Lembro de me sentir profundamente culpada, e lembro de você se sentir também, não porque havia uma culpa real, mas porque somos humanas e insistimos em encontrá-la em algum lugar. Não havia como culparmos uma à outra, então culpamos a nós mesmas. Quando minha carta chegou até você, no entanto, eu soube que ficaria tudo bem. De um jeito bobo, porém muito honesto, ela fez com que eu me sentisse conectada com você, como se o fato de você estar finalmente segurando aquela caixa, aquela carta, aquele presente que um dia esteve comigo e de repente estava com você, mudasse absolutamente tudo. E mudava.

Gosto dessa história porque acredito que ela sintetiza perfeitamente um medo que, pra mim, sempre foi muito real: o de que, eventualmente, eu estragaria tudo. Não é como se nunca tivesse acontecido, como se eu nunca tivesse sido corroída pela culpa de estragar algo que parecia tão perfeito e precioso até não ser mais, e naquele momento parecia uma questão de tempo até que acontecesse de novo. Então você apareceu e, do jeito mais doce possível, me mostrou que as coisas podiam ser diferentes. Me surpreende até hoje a forma e a velocidade com que nos aproximamos – parecia improvável que após tanta coisa, eu pudesse me doar novamente de forma tão honesta, que eu pudesse confiar em uma amizade que não me deixaria de lado assim que aquilo que existe de mais feio em mim viesse à tona. Mas as barreiras que construí ao meu redor e que me mantinham protegida do mundo nunca pareceram funcionar com você. Talvez nunca tenha te dito isso, mas em nossas primeiras conversas, era assustador ver nossas mensagens ficarem tão grandes e como, de repente, assuntos banais do nosso dia a dia ganhavam contornos mais densos e se tornavam textos enormes sobre a nossa vida, nossas angústias, nossos medos. Nunca antes consegui ser tão profunda ou expor detalhes tão complexos da minha personalidade e da minha vida para alguém que conhecia há tão pouco tempo. De forma parecida, também era fascinante o fato de você retribuir na mesma intensidade e falar sobre a sua vida de forma tão aberta para uma pessoa que, até pouco tempo, não estava ali. Hoje, me parece impossível imaginar uma vida sem nossas longas conversas que jamais têm fim, sem a sua presença constante na minha vida.

As pessoas percebem que há algo de especial entre nós, que existe uma conexão profunda e única. Tenho a sorte de ter muitas amigas e todas elas são minhas melhores amigas, mas quando coloco em perspectiva, sempre me parece que estamos em uma página diferente do resto do mundo, quase como se nossa amizade existisse em uma realidade paralela que é apenas nossa, e não há explicação alguma para isso exceto de que algumas coisas estão predestinadas a ser. Não deixa de ser curioso, no entanto, que nossa amizade tenha se construído justamente no momento em que mais precisávamos uma da outra – o que me faz acreditar cada vez menos em acaso e mais em uma força divina que faz com que as coisas aconteçam quando e como devem. Tenho a sensação de que somos nós contra um mundo inteiro de coisas horríveis e monstros, fantasmas e dragões – o que talvez seja verdade, mas me parece muito mais possível encarar esse mundo de frente quando tenho você para segurar minha mão.

Muito é dito sobre almas gêmeas de um jeito romântico, mas nunca me disseram que era possível encontrar esse tipo de conforto e completude em uma… amizade. Me sinto muito sortuda por ter encontrado a minha metade, que não fosse a internet, talvez estivesse perdida até hoje nesse vasto mundo. Em você, baby girl, eu encontrei alguém capaz de desenhar um mundo junto comigo, um mundo onde a gente precisa de muito pouco para ser feliz, onde passamos horas flutuando no mar, a barriga pra cima e os dedos fora da água, as mãos dadas, os olhos fechados por causa do sol; um lugar perfeito que não precisa ser físico para existir onde realmente importa: dentro de cada uma de nós.

Existe uma infinidade de coisas que eu gostaria de dizer nessa carta – algumas, eu tampouco poderia -, mas falar sobre elas me parece muito pequeno quando vivemos e fizemos tanto, como crescemos nesse período e como, pouco a pouco, temos nos tornado mais fortes. Um ano parece pouco tempo, e talvez seja de fato, mas cada vez mais tenho entendido que tempo é algo muito relativo – e o nosso é apenas nosso. Você é como um passarinho que voa comigo, o barquinho que jamais deixa meu coraçãozinho se afogar, a luz que me faz enxergar o melhor em mim e que me inspira todos os dias a ser uma pessoa melhor. Obrigada por dividir sua história comigo e permitir que, nessa vida tão efêmera, possamos dividir uma jornada tão bonita e especial. Que nesse mar de incertezas em que navegamos, as dúvidas sejam sempre infinitas, e que sempre encontremos na outra um lugar para chamar de lar.

Com todo o amor do mundo,

Ana Lee

RORY GILMORE

Tigres à beira-mar

Comecei a ler Tigres Em Dia Vermelho ainda no aeroporto, enquanto esperava um voo para o Rio de Janeiro. Sozinha embaixo do ar-condicionado gelado do aeroporto de Brasília e sem qualquer previsão de quando finalmente embarcaria rumo a um fim de semana de praia, sol e vinho rosê ao lado do meu amorzinho, Paloma Engelke, permiti que a história de Liza Klaussmann me engolisse inteira; uma história que, ironicamente, também se passa em um cenário idílico de sol e praia, onde o vinho era substituído por infinitas doses de gim. Logo no primeiro capítulo, Helena e Nick, as protagonistas, rodopiam sob o céu escuro de uma noite de verão, bebem gim em copos de geleia e celebram o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de anos de incertezas, o futuro finalmente se tornara uma realidade palpável, e não mais uma promessa distante, instável e pouco razoável. Nick e Helena fazem planos, riem em voz alta e dançam, dançam, dançam, como se nada fosse mais importante – e não era -, mas também choram a distância, lamentam separar-se uma da outra.

Em uma história onde a relação mais importante e complexa é desenvolvida por e entre duas mulheres, não é uma surpresa que o que acontece ou deixa de acontecer com Nick ou Helena tenham um peso tão grande para a outra; antes de se casarem, formarem a própria família e se tornarem mulheres independentes, Nick e Helena são primas e, sobretudo, amigas, e desde a infância dividem uma história complexa em que são, ao mesmo tempo, confidentes e ruína uma da outra. Nick é a mulher de traços sisudos, de personalidade hipnotizante, expansiva, por quem todos se apaixonam, embora ninguém saiba exatamente o motivo. Helena é o contrário. Ela é doce e introvertida, bonita com seus cachos cor de areia e a pela macia, mas mais suscetível à submissão. Helena é o clichê da mulher comum e banal das décadas de 40, 50 e 60, exatamente o que Nick jamais desejou ser, mas que, ao seu próprio modo, também o é. A história constrói essas mulheres de modo que elas sejam capazes de levantar questões e trazer à tona sentimentos muito específicos da existência feminina. Não é uma história universal, não há como ser. Às vezes, temos acesso ao ponto de vista de outros personagens, e esses personagens por vezes são homens, mas ainda é uma história muito feminina, que trata de dramas e conflitos que conversam com a experiência de ser mulher numa sociedade ocidental. Nick e Helena são mulheres, logo possuem experiências e sentimentos que muitas vezes também nos dizem respeito – o que nem sempre é bom, mas que alívio descobrir que não estamos sozinhas nesse mundo.

Em 1945, a maior preocupação de Nick era voltar a viver com o marido – Hughes, que estava na guerra – e não viver mais em um mundo controlado por cartões de racionamento. Helena, por sua vez, tinha planos de ir para Hollywood casar-se com Avery Lewis – um produtor cinematográfico picareta que vendia seguros e adorava contar vantagem – após seu primeiro marido ser morto em combate. Ter alguém para chamar de “meu” parecia ser a única ambição daquelas mulheres, que se satisfaziam com a ideia de casamento, filhos e a vida de dona de casa, mas não é uma surpresa que, pouco tempo depois, ambas estejam frustradas com seus maridos, filhos e uma com a outra, mas principalmente consigo mesmas. O futuro que lhes fora prometido, afinal, não era tão bonito assim na prática. Tanto Helena quanto Nick projetam nos outros e em si mesmas expectativas irreais, é por isso que elas se decepcionam. Assim, quando Nick se entrega à romances extraconjugais que não significam nada, ela não está dizendo que não ama seu marido; ela só está em busca de uma fuga para um casamento que parece perfeito na teoria, mas não na prática. Quando Helena bebe, bebe, bebe sem parar, quando toma uma porção de remédios, quando foge da própria realidade, ela está fazendo exatamente a mesma coisa – a fuga de uma mulher torturada por um mundo de homens. São mulheres machucadas demais, complexas demais, e o grande trunfo da história é a construção dessas personagens não como pessoas limpinhas demais, boazinhas demais, mas seres humanos que vivem coisas desagradáveis o tempo inteiro e são complicadas, muito complicadas. São mulheres irritantes, dramáticas, mesquinhas, invejosas, falhas; todas características muito humanas, mas que ainda nos são negadas. Ser mulher é complicado pra cacete.

Tenho pensado bastante sobre essa coisa de ser mulher e como, por muito tempo, vivi em uma bolha em que era preciso fingir o tempo todo ser uma pessoa quando, na realidade, eu era outra – às vezes radicalmente diferente. Como neguei tantos sentimentos na tentativa de me adequar e como hoje parece quase impossível lidar com esse turbilhão, porque ninguém me ensinou o que isso significava ou o que eu devia fazer quando essas coisas acontecessem. Ao longo da vida, tive muito mais contato com a produção artística de mulheres – exceto, muito provavelmente, pelo cinema -, ao contrário de muitas amigas, que primeiro conheceram e consumiram o cânone cultural construído e moldado por homens. Contudo, ainda que me identificasse com essas mulheres e entendesse muito do que elas estavam dizendo, na prática, eu ainda me limitava; eu jamais poderia ser como elas – ao menos, não de uma forma tão aberta.

Quando constrói duas personagens (três, se também considerarmos Daisy, a filha de Nick) tão ambíguas, Klaussmann está dizendo que esses sentimentos são possíveis, que eles existem; não somos as garotas boazinhas e unidimensionais que um dia nos disseram que deveríamos ser. É um convite a pensar nos papéis que estamos desempenhando, sobre quem somos e qual, afinal de contas, é nosso lugar no mundo, e principalmente sobre nos reconhecermos como pessoas que às vezes são boas, às vezes são más, mas jamais são uma coisa só – um reconhecimento brutal, mas também libertador. No título, os tigres são uma referência a Tiger House, a casa de veraneio localizada na ilha de Martha’s Vineyard onde a maior parte da trama se desenvolve; mas gosto especialmente como, de maneira menos óbvia, ele também referencia a suas personagens, que amam, desejam, brigam de forma furiosa, como tigres. E sentem, sentem, sentem o tempo todo. Existem várias coisas acontecendo, inclusive um assassinato, mas a resolução dele se torna bem menos importante quando há tanto a ser dito sobre essas mulheres, seus sentimentos e as relações que estabelecem entre si; um lugar em que inveja, ressentimento, amor, cuidado e carinho coexistem como iguais.

Algum tempo atrás, me vi em uma situação bastante delicada, que envolvia sentimentos com os quais eu não estava acostumada a lidar, que não sabia nomear. “Então isso é inveja?”, eu me perguntei um milhão de vezes enquanto tentava entender o que estava acontecendo comigo, qual era a natureza daquele sentimento, como eu podia ficar tão feliz por uma pessoa e ao mesmo tempo tão frustrada, sem conseguir deixar de pensar “por que não eu? por que não comigo?”. Eu me senti suja, mesquinha e egoísta como poucas vezes na vida, mas quando conversei com outras mulheres sobre isso, ninguém me fez sentir mal ou culpada, ninguém disse que eu era a pior pessoa do mundo. Todas elas fizeram com que eu me sentisse acolhida e amada, sem jamais invalidar meus sentimentos. Porque elas entendiam. Porque muitas delas já haviam pisado nesse lugar antes. Foi uma experiência surpreendente, mas triste também porque me lembrou que o mesmo mundo que nos cria para sermos criaturas delicadas, sensíveis e, de preferência, invisíveis, é o mesmo que nos ensina a utilizar o sucesso de outra mulher como prova do nosso fracasso. A grama do vizinho é sempre mais verde, mas ela é especialmente verde quando falamos da grama de outra mulher. É algo que tentamos quebrar todos os dias, e eu sei disso porque vejo mulheres todos os dias tentando romper com esse padrão, mulheres que tentam subverter a regra, mudar tudo, começar de novo. Mas ainda são as mesmas pessoas que choram na frente do espelho porque não são quem deveriam ser, porque queriam trocar de lugar com outra pessoa, porque se perguntam o tempo inteiro “por que não eu? por que não eu?”, que se ressentem por aquilo que todas as outras são.

Liza Klaussmann parte da experiência de mulheres das décadas de 40, 50 e 60, um período em que, depois de serem incentivadas a saírem de suas casas e desempenharem funções antes reservadas exclusivamente aos homens, elas são novamente convidadas a se retirarem e voltarem aos afazeres domésticos, ao marido, ao lar, aos filhos, a coisa toda. É um contexto diferente do nosso, é claro, embora ainda exista um abismo quando pensamos na realidade de homens e mulheres no mercado de trabalho, mas ainda que a História nos separe dessas mulheres, existe o universal de feminilidade que nos une à elas. Um universal que está longe de ser bonito e que jamais é preto e branco. Ao mesmo tempo, existe algo de ordinário ali, confortável porque já é muito conhecido. Nick e Helena são mulheres extraordinárias em sua própria banalidade. Elas sofrem muito, o tempo inteiro, mas seu sofrimento jamais ganha contornos mirabolantes. A complexidade dessas mulheres jamais é posta à prova, mas seus conflitos não são originados a partir de histórias cabeludas. O ressentimento, a inveja, o casamento fracassado, o abandono, o abuso, a raiva. Existe muita raiva ali, em todos os lugares. Em determinado momento do livro, Helena, em um fluxo de consciência terrivelmente íntimo e visceral, confessa que odeia Nick; mas num reconhecimento de sua própria ambiguidade, também diz que sente falta da prima, porque ela é uma pessoa encantadora, divertida e insuportável, características ambíguas que coexistem numa só pessoa e que, em contrapartida, gera sentimentos igualmente contraditórios. Tudo isso em um cenário tão, tão bonito que parece óbvio que aquelas pessoas sejam felizes, lindas, mas elas são apenas humanas, atormentadas demais para se deixarem levar pela beleza do lugar. Existem os romances de verão, mas eles jamais são perfeitos, simples; existem as festas, mas elas são apenas uma forma mais ambiciosa de encenação. Em meio ao banal, coisas extraordinárias acontecem.

Ainda falamos muito pouco sobre mulheres banais, sobre o valor que essas histórias têm. Sobre como é importante se reconhecer em algo além do extraordinário, ou de, pelo contrário, reconhecer o extraordinário dentro das nossas vidinhas comuns. Essas histórias têm ganhado muita força nos últimos tempo, e é revolucionário que isso esteja acontecendo, mas se me perguntassem, ainda acho que existe muito espaço para ser ocupado. Que ainda existem muitas histórias esperando para serem trazidas à tona, muitas mulheres com as quais podemos nos identificar. Já conhecemos homens comuns demais. Um dos pontos negativos do livro que muita gente apontou é o fato do assassinato ser resolvido de um jeito meio morno e o final perder força por causa da revelação que parece óbvia a partir de determinado ponto. E eu concordo, mas ainda acho que existe mais sobre essa história, que ela é menos sobre quem matou quem, e mais sobre os dramas vividos por Nick, Helena e, em alguma medida, também Daisy; que é o que existe de mais poderoso no livro e o que me faz gostar tanto, tanto dele, ao ponto de sempre olhá-lo com carinho e sonhar com o dia que terei tempo de retornar à Tiger House, apesar dos pesares. Ainda há um caminho imenso pela frente, mas me permito admirar quem ao menos tenta contar essas histórias e dizer em voz alta que estamos longe de sermos perfeitas – graças a Deus.