JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

BAD NEWS, BLAIR

Uma coisa que ninguém te diz quando você entra na faculdade é que entre o emprego dos sonhos e quatro ou cinco anos de estudo intenso (ou não, risos), existem uma porção de “nãos” e portas fechadas na cara com as quais você inevitavelmente vai ter que aprender a lidar. Na teoria, parece o tipo de coisa óbvia. Nada cai do céu, você precisa batalhar por aquilo que deseja, etc etc. Na prática, no entanto, a coisa toda não é tão simples assim.

Mês passado, enviei o roteiro para uma seleção de estágio. Era uma oportunidade rara em Brasília, para trabalhar como roteirista, e eu achei que não custava nada tentar, especialmente quando era algo que eu queria com tanta força. Por mais que eu não esperasse realmente ser aprovada – a concorrência era enorme e acho que essa altura já estamos todos de acordo que floquinhos de neve não existem, risos -, lá no fundo, uma vozinha me dizia pra ir em frente. Eu não tinha nada a perder, certo? O máximo que podia acontecer era eu receber um “não” – e isso, eu meio que já esperava mesmo. De repente, tudo parecia ter se encaixado e o universo pareceu agir em meu favor. Eu tirei uma ideia da gaveta que se encaixava perfeitamente nos requisitos da seleção, consegui transformar a ideia em roteiro dentro do prazo e enviei tudo naquele dia mesmo, feliz de, pelo menos uma vez na vida, não me autossabotar. É uma pena, então, que as coisas tenham dado tão errado depois.

Tão errado é o jeito exagerado que eu encontrei de dizer que não fui selecionada. Mas curiosamente – ou, talvez, nem tão curiosamente assim -, ler a resposta não foi tão dramático quando eu esperava que fosse – e continua não sendo, mesmo agora. Compartilhei com a Yuu o que tinha acontecido logo em seguida e ela me respondeu que era uma pena, é claro, mas que ficava orgulhosa que eu ao menos tivesse tentado. Ela, que acompanhou todas as fases do processo, se sentia orgulhosa da minha tentativa – e no fundo eu me sentia da mesma forma. De um jeito meio tosco, mas ainda assim. Li o e-mail de novo, numa tentativa de entender o que eu estava sentindo, e foi com alívio que eu percebi que, num dia tão errado quanto hoje, eu só conseguia sentir paz. É como se um peso tivesse sido tirado das minhas costas. Eu tinha tentado, não tinha dado certo, mas tudo bem. Não é como se eu fosse morrer por causa disso ou qualquer coisa assim.

De certa forma, isso me fez pensar na minha relação com meus próprios fracassos. Porque eu demorei tempo demais pra entender que, embora eles fizessem parte da vida de qualquer pessoa, eu jamais deveria deixar que eles me desmotivassem ou me fizessem questionar e ter medo dos meus sonhos – que são grandes, enormes, gigantes, como vocês já estão carecas de saber. Por mais que muitas vezes eu dissesse que ia ficar tudo bem e que eu estava me sentindo bem, bastava que eu me virasse para perceber que as coisas não estavam tão bem assim, e me jogar no chão do meu quarto e chorar até não aguentar mais. Foi exatamente o que aconteceu quando eu perdi a vaga de um estágio para uma menina da minha sala, tão mais talentosa que eu, ou então quando fui demitida do meu segundo estágio e enviei uma mensagem pra um grupo de amigas contando o que tinha acontecido, mas que estava tudo bem, só pra depois entrar no carro e chorar desesperadamente porque eu era um fracasso completo. Demorou até que eu percebesse que todas essas coisas não faziam de mim um fracasso, como eu adorava acreditar, mas só uma pessoa 100% humana, que às vezes falha e que nem sempre é a melhor em tudo. Até chegar nesse ponto, no entanto, foram necessárias muitas horas de choro e decepções a rodo, e eu estaria mentindo se dissesse que não passo um tempo considerável conversando sobre todas essas coisas com minha psicóloga até hoje porque o medo de falhar ainda é presente demais.

Não é como se hoje eu não sofresse pelas portas que levo na cara, mas se antes eu era uma Rory Gilmore de frente para uma dezena de Mitchums Huntzberger, pronta para abandonar o barco tão logo alguém dissesse que eu não era boa o suficiente, hoje eu consigo olhar para todos os “nãos”, não com a arrogância de quem se acha boa demais ou que está acima de qualquer crítica, mas como uma pessoa que admite não ser perfeita e que eventualmente vai quebrar a cara, porque tudo isso faz parte de quem somos ou queremos ser. Não é uma porta na cara que vai invalidar todos os anos que eu tenho passado estudando e me dedicando, muito pelo contrário. Não ser selecionada não me diz que eu não sou boa o suficiente, só me diz que existiam pessoas melhores do que eu concorrendo à vaga naquele momento e que talvez, da próxima, eu precise me esforçar um pouco mais. Ou que talvez, em algum momento, meu roteiro vai ser perfeito e não o daquela outra pessoa – e aí vai ser a minha vez de chegar aqui e vir celebrar porque tudo deu certo dessa vez. Eu até posso ficar chateada de vez em quando, chorar um pouquinho quando achar necessário, mas só pra depois seguir em frente e continuar tentando até não aguentar mais. Porque uma coisa é certa: enquanto isso não acontece, a gente pelo menos pode continuar tentando. E aí, uma hora vai dar certo. A gente só precisa acreditar.

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1 Comment

  • Reply Natália Oliveira 22 de dezembro de 2016 at 11:05 AM

    Acho que a principal origem do nosso medo de falhar é um mito bem estúpido que enfiam na gente, principalmente nas empresas. Eles falam que nosso sucesso só depende da gente. É muito comum ouvir isso em empresas onde os funcionários tem que bater metas: bater a meta só depende de você, do seu esforço, dá sua dedicação. Só que, na real, isso é a maior mentira do mundo. Nós somos seres que vivem em sociedade, rodiados das decisões de outras pessoas, como é que podemos ter autonomia total pra moldar nosso destino? Voltando ao exemplo da meta, de que adianta você trabalhar 16 horas por dia e se matar pra tentar vender um produto que ninguém quer comprar? Não importa o quanto a gente se esforce, não dá pra forçar o impossível.
    Sei que esse discurso pode ser meio desmotivador, do tipo “nem vou tentar, porque não depende de mim e não vou conseguir”, mas não é isso. Você pode até ter falhado no objetivo principal, mas todo seu esforço te agregou de alguma forma.
    Espero que esse comentário te ajude a passar por isso de uma forma melhor. Mesmo que você já tenha aprendido a lidar melhor com isso, acho que essas situações sempre deixam a gente meio na bad.
    Bjs

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