JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

BASKETCASE

Tem esse trecho de A Redoma de Vidro em que a Esther, personagem principal do livro, diz que se ser neurótico é querer ao mesmo tempo duas coisas mutuamente excludentes, ela é uma baita neurótica e vai passar a vida inteira correndo atrás de uma coisa mutuamente excludente para a outra. Acho que nunca me identifiquei tanto com alguém – ou com uma imagem – na vida.

Recentemente, tive um episódio mais ou menos sério de ansiedade. Mais ou menos sério é o jeito legal que eu encontrei de falar sobre o assunto sem parecer dramática demais, uma misto de não querer preocupar ninguém além do necessário e aquela coisa de fazer graça da desgraça, etc etc. Foi um episódio sério. Sério o suficiente para que outras pessoas percebessem que algo estava errado comigo e decidissem me levar num médico. Sério o suficiente pra que esse mesmo médico, um psiquiatra, acreditasse que algo realmente estava errado comigo e me receitasse uma medicação, fora sessões de terapia uma vez por semana. Pois é. Desde então, tenho me sentido muito melhor (caso você esteja se perguntando), mas não é exatamente sobre isso que quero falar agora, embora eu ainda queira voltar aqui e escrever sobre isso em algum momento.

Acontece que tudo começou – tudo começou é maneira de dizer, já que as coisas vinham se encaminhando pra isso há algum tempo – depois que eu me dei conta de que a faculdade vai terminar em algum momento (dã) e que, ao contrário do que as pessoas imaginavam (vejam bem, que pessoas eu realmente imaginavam isso eu não sei, fora eu mesma), o que fazer quando ela terminar é algo que eu não só não sei, como sei muito menos agora do que quando entrei na faculdade, quatro anos atrás. E é uma sensação terrível essa, sabe? Por muito, muito tempo eu acreditei que, quando chegasse a hora de fechar esse ciclo, minha vida já estaria mais ou menos no lugar. No entanto, cada vez que ela se aproxima, a sensação é justamente o contrário. Nada esteve tão fora do lugar quanto agora e eu realmente não faço a menor ideia do que fazer com o que eu tenho – ou não tenho – em mãos.

Tenho pensado muito sobre qual vai ser meu próximo passo – me mudar?, fazer um mestrado?, virar cineasta independente?, crítica de cinema?, casar?, ter filhos?, comprar uma bicicleta? são questões -, mas nunca consigo chegar em lugar nenhum porque escolher sempre implica abrir mão de coisas que eu não sei até que ponto estou disposta a largar. Algum tempo atrás, comentei no twitter que, embora as pessoas não me imaginem muito como esse tipo de pessoa, um dos meus maiores sonhos era ter uma família e dar almoços espetaculares de domingo, desses que a gente reúne família e amigos em casa e joga conversa fora enquanto divide enormes travessas de comida. Eu imagino meus filhos correndo pela casa com os filhos dos meus amigos e primos, eu imagino as risadas ao redor da mesa, eu imagino os olhares cúmplices que vou trocar com meu marido entre uma garfada e outra de comida, naqueles cinco segundos em que ninguém está olhando. Chega a ser ridícula a clareza com que eu consigo visualizar essa cena na minha cabeça, ao ponto de quase ouvir o tilintar dos talheres nos pratos e das conversas ao fundo enquanto o mundo para por um minuto só para eu contemplar tudo ao meu redor por um segundo e ser grata, infinitamente grata.

O negócio é que, ao mesmo tempo que eu sonho com tudo isso, uma parte – grande, imensa, assustadora – de mim também quer bater as asas e voar pra longe e explorar as tantas possibilidades que esse mundão enorme tem para oferecer. Muito disso, claro, se deve ao fato de que, embora Brasília ofereça algumas oportunidades na minha área, não é aqui que eu vou conseguir fazer o que realmente quero. Mas eu estaria mentindo se dissesse pra vocês que eu também não quero isso, porque eu quero, demais até. Eu quero sair de Brasília, eu quero construir uma carreira fora daqui, eu quero conhecer pessoas, lugares, viver experiências. Eu quero aprender a caminhar com minhas próprias pernas e me virar sozinha quando necessário, mesmo com todas as coisas ruins que eventualmente podem vir no pacote. Quero poder morar com alguém que não seja um namorado ou um parente, quero fazer um intercâmbio, quero viajar, quero aprender a ser dona do meu nariz e descobrir quem eu sou de verdade e qual, afinal de contas, é a história que estou escrevendo.

O grande dilema reside no fato de que uma parte muito grande de mim está em Brasília e vai continuar em Brasília se eu for embora, porque viver tudo isso significa, em grande parte, abrir mão do que eu tenho aqui, mas isso não significa que as coisas vão parar simplesmente porque eu vou embora – e perceber isso, às vezes, machuca demais. E eu não sei até que ponto estou realmente disposta a abrir mão de tudo isso pra priorizar minha carreira, embora essa seja, de fato, minha prioridade no momento. Por mais sedutora que pareça a ideia de sair em busca dos próprios sonhos na teoria, na prática isso significa abrir mão da minha mãe, do meu afilhado, do meu namorado, da minha família e dos meus amigos, dos meus bichinhos, das minhas coisas e de toda uma dinâmica que, em suma, formam uma vida inteira – uma vida que eu venho construindo nessa cidade desde o dia que nasci. Vocês precisam concordar que abandonar tudo assim não é a decisão mais fácil do mundo, mesmo que talvez seja a mais certa, a necessária, sei lá.

Conversando sobre isso com a Analu – uma pessoa tão diferente de mim nesse sentido, embora sejamos a mesma pessoa em todos os outros -, ouvi que a vida não é feita de viagens a Viena, mas sim de festinhas de aniversário. Quem escreveu isso, na verdade, foi a Isa Sinay, mas a verdade é que eu nem precisei de contexto pra concordar completamente com aquilo. Não é que viagens não sejam importantes, muito pelo contrário. Mas às vezes, acho que a gente passa tanto tempo idealizando esse sonho dourado de bater as asas por aí que se esquece de que, talvez, o mais importante esteja ali, o tempo todo do nosso lado. E aí, invariavelmente, eu começo a me perguntar se toda essa vontade de sair de Brasília não é uma decisão precipitada de quem cresceu se achando especial demais e ainda não teve a chance de quebrar a cara o suficiente pra ter uma verdadeira noção do que realmente me espera nesse mundo enorme em que a gente vive. Porque no fundo – ou talvez nem tão fundo assim -, eu sei que, embora eu goste de acreditar que sou essa pessoa livre, desprendida, que deixa as coisas irem com facilidade e que precisa ter o próprio espaço em tempo integral (ascendente em gêmeos e lua em aquário, sabe como é), eu também sou essa pessoa apegada, que morre de medo de tomar uma decisão errada, que já tem um pé no acumuladores e que custa a deixar que as pessoas saiam da própria vida – pro bem e pro mal.

São questões contraditórias que a essa altura eu já desisti de tentar ignorar e abracei como uma parte essencial da pessoa que sou hoje. Mas, por mais que eu não precise pensar em nenhuma dessas coisas agora, é impossível deixar pra lá quando o futuro, de repente, parece estar batendo na porta e você simplesmente não faz a menor ideia do que fazer. Abro a porta e deixo entrar? Ignoro até ir embora? Dou uma espiada pelo olho mágico e só então me decido sobre o que fazer depois? Agarro a barra da saia da minha mãe e peço pelo amor de Deus que ela mande esse tal Futuro (assim, com “f” maiúsculo) ir embora? Ninguém sabe o que vai acontecer na virada da próxima esquina, mas se alguém é capaz de decidir virar ou não, esse alguém sou eu e só eu, e ficar nessa eterna briga comigo mesma para saber qual lado pesa mais é desgastante demais, pra dizer o mínimo. No fundo, eu sei que a vida não é perfeita e que algumas pessoas continuarão comigo independente da distância – mas, mais uma vez, isso não significa que a vida dessas pessoas vão parar por minha causa. Sair de Brasília significa, muito provavelmente, me distanciar de várias pessoas. Perder, talvez, o amor da minha vida. Abrir mão de ver o meu afilhado crescer e de todos os futuros almoços de domingo. Fora todas as coisas ruins que podem acontecer e que, embora eu não tenha nenhum controle, ficam muito mais difíceis de serem digeridas à distância.

Não sei se isso faz sentido em alguma cabeça além da minha, mas tentar lidar com essas questões e encontrar respostas sozinha (embora tenha muitas pessoas segurando minha mão nesse momento, a única pessoa capaz de tomar alguma atitude sou eu) tem sido exaustivo demais e eu não sei até que ponto vou conseguir segurar a onda, mesmo que agora eu tenha ajuda de todos os lados, o que tem, sim, me ajudado um bocado a continuar seguindo em frente, colocando um pé na frente do outro ainda que pareça a coisa mais difícil a se fazer. Se escrever, no entanto, ainda é uma das melhores formas que eu encontrei de colocar os pensamentos em ordem – fora as infinitas e incansáveis conversas com minhas amigas, tão tão preciosas -, então talvez eu consiga encontrar alguma luz nesse meio tempo.

Aguardem cenas dos próximos capítulos.

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