CINEMA E TV

BREAKING BAD, LITERALMENTE

(Talvez tenha alguns spoilers)

Ainda foge à minha compreensão o que de fato acontece quando uma série acaba, mas já vivi (e assisti) fins suficientes pra entender que a maioria deles fatalmente dá errado e que é sempre melhor baixar as expectativas e pensar que, tudo bem, pelo menos a jornada foi legal, valeu à pena, mas acabou, boa sorte. Meu dedo podre não me deixa mentir que tenho uma inclinação peculiar para escolher acompanhar histórias que invariavelmente terminarão mal, mas nada justifica e muito menos me prepara para esses injustificáveis e terríveis desfechos.

breakingbad2

Foi exatamente por esse motivo que, depois de mergulhar de cabeça em Breaking Bad, eu comecei a adiar o fatídico fim. Tudo bem se o final de Dexter tinha sido o horror, tudo bem House ter terminado de um jeito tão preguiçoso, mas não estaria tudo bem se logo no fim Breaking Bad desandasse e botasse a perder tudo que tinha entregado até então. Adiei enquanto pude, talvez tivesse adiado pra sempre, mas a vida acontece e então meu namorado já não aguentava mais minhas infindáveis desculpas e de repente, não mais que de repente, me convence de que precisávamos enfrentar juntos aquele momento difícil da vida. Então demos as mãos, nos encolhemos embaixo do edredom e apertamos aquele que seria o último play dessa jornada que trilhamos ao lado de Walter e Jesse e tantos outros personagens incríveis que ajudaram a construir essa história.

breakin bad walter

A essa altura do campeonato acho que todos vocês já sabem do que se trata a história. Se não, aqui vai um resuminho rápido e descompromissado: Walter White é um professor de química fracassado que descobre um câncer e resolve fazer algo mais lucrativo na vida do que dar aula para um bando de adolescentes – no caso, produzir e vender metanfetamina junto com um ex-aluno meio perdido na vida que calhou de estar no lugar errado na hora errada. A partir daí a história sobe no carrinho de uma montanha-russa que só vai pra baixo e temos essa trama incrível que me derrubou e descaralhou a cabeça de todas as formas possíveis.

E aí que o mínimo que eu podia esperar, diante de tudo isso, é que o final fosse minimamente fiel ao que tinha me feito amar tanto aquela série, mesmo quando ela era cruel demais e me fazia ter reações inesperadas que traduziam tanto a raiva genuína que eu sentia de alguns personagens (Walter White, estou olhando pra você) como a tristeza honesta e profunda que me dominava em certos episódios. Por mais que eu tentasse me desassociar daquelas pessoas e encarar tudo ali como ficção, que acabava assim que eu desligava a tv, era absolutamente impossível não me importar com as mancadas do Walter ou não querer abraçar o Jesse e falar que tudo ia ficar bem mesmo quando eu sabia que não, as coisas não iam melhorar muito dali pra frente.

skyler

A vida não é só preto no branco e se tem alguma certeza que podemos ter além da de que vamos todos morrer mesmo, é que se nem pequenos delitos são perdoados imagina os grandes, e que esse mundo é cruel e traiçoeiro demais. Mesmo assim ele ainda nos presenteia com pequenos momentos insanos e maravilhosos, que fazem a gente dar uma respirada no meio do clima pesado que é regra. Breaking Bad é uma série que não perdoa nada,  que faz sofrer e faz sofrer muito, até que dois marmanjos resolvem deitar num monte de dinheiro e eu já estou gargalhando, lembrando que quando eu era pequena sonhava em literalmente nadar numa piscina de dinheiro igual o tio Patinhas, e que aquela cena só podia ser uma versão adulta do meu sonho infantil. Isso é importante na medida que não me deixa chegar no limite do esgotamento emocional, mas ainda assim não dá pra esquecer aquele inferno particular que os personagens estão vivendo.

Esperar um final feliz era forçar uma barra grande demais que eu tenho certeza que ninguém ia conseguir engolir depois. Principalmente porque Breaking Bad nunca se preocupou em mostrar um mundo cor-de-rosa onde você vende drogas, ganha rios de dinheiro e vive feliz pra sempre, olha só que coisa boa, porque no mundo real não é assim que a banda toca. Quando eu entrei nesse barco e comecei a acompanhar a série, num momento de pura ingenuidade, imaginei que realmente se tratasse de uma história simples, sobre um cara meio fracassado profissionalmente que resolve ser bem-sucedido no mundo das drogas, mas a gente sabe que não é só isso. O trabalho técnico, por exemplo, é assombrosamente impecável. Cada elemento, por menor que seja, conversa com a história e é incrível ver cores, sombras e objetos ajudando a contar essa história, construindo metáforas de fazer o mais cínico dos espectadores acreditar no poder de boas obras audiovisuais.

Sentir raiva das circunstâncias da vida é natural na medida que a gente pensa que, não fosse o câncer e a frustração, Walter não teria se metido em tanta confusão e nem puxado tanta gente pro buraco junto com ele, mas no fundo nada disso justifica o que ele fez com a própria vida nem com a dos outros ao seu redor, especialmente com sua família, porque nossas escolhas revelam mais do que somos do que nossas qualidades e, por Deus, Walter White é uma pessoa horrível.

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jesse

É claro que eu torci pra ele no início, porque ninguém merecia tanta porrada da vida, porque a família claramente precisava dele apesar de Skyler ser uma mulher forte e muito determinada, porque ele amava aquelas pessoas e fazia aquilo por elas, porque ele estava com câncer e ia morrer a qualquer momento e mesmo assim ainda tentava fazer alguma coisa com o tempo que lhe restava em prol da família ao invés de sentar num canto e chorar e aguardar pelo fim como eu certamente faria. Só que em algum momento, talvez na terceira temporada mas não lembro bem, fica difícil demais acreditar nessa posição nobre que ele assume para justificar tudo que faz de errado e aí a gente percebe que não se trata da família, não se trata de amor. Se trata apenas de um babaca frustrado alimentando o próprio ego, e olha, que puxado é assistir ele ferrar com o que resta da própria vida só para provar pra si mesmo que consegue fazer algo grande com o tempo que lhe resta.

Tenho pra mim que histórias sobre ganância rendem sempre bons personagens porque eles são, na maioria das vezes, muito complexos e ambíguos. Vejam bem, é mesmo complexo pra caramba ver uma pessoa destruir a própria vida, ver o mundo explodir na sua frente, e ainda continuar batendo na mesma tecla errada, numa obsessão muitas vezes maçante que não tem fim. É algo que eu acho difícil demais de entender, porque ser cabeça dura nunca foi meu forte, mas também é muito cruel porque desconstrói a perspectiva de que protagonistas estão sempre num ponto em que tudo é aceitável, que a gente ignora as merdas que eles fazem porque eventualmente o fim chega e tudo fica bem, ignorando o fato de que talvez estejamos todos sendo manipulados por um personagem que não passa de um vilão na pele do bom moço.

E isso, amigos, é incrível demais.

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É por isso que eu entendo quando vejo as pessoas colocando Walter num pedestal. Me assusta? É óbvio que assusta. Tudo isso me faz questionar os valores das pessoas, que bosta de mundo é esse que estamos vivendo, quando é que se tornou aceitável matar pessoas a sangue frio, etc etc. Mas eu também entendo porque é muito fácil se identificar com um cara que parece muito bom e cheio de boas intenções em um primeiro momento, mas que é podridão pura por dentro, e no fundo a gente sabe que ninguém é um poço de nobreza o tempo todo e que o inferno está cheio de boas intenções.

Breaking Bad mostra da forma mais real e cruel como um cara absolutamente normal pode se tornar o vilão da própria história, que vendeu a própria alma só para alimentar as próprias motivações egocêntricas. Como Heisenberg, Walter fez muito dinheiro, tocou o terror na vida de muita gente, destruiu a própria família e qualquer pessoa mais que estivesse ao seu redor, e fez coisas com Jesse que me fazem acreditar que só um rapaz muito forte seria capaz de suportar tudo aquilo, mas se tivéssemos um vislumbre do futuro que o aguarda, eu não diria que as coisas ficam muito melhores como meu otimismo tenta me fazer acreditar.

O último episódio foi um golpe tão pesado e necessário que eu chorei e chorei muito, não porque senti pena do Walter, não porque o sofrimento do Jesse era desesperador demais (era), não pela morte de alguém que eu gostava muito ou que não merecia morrer, mas estava no lugar errado na hora errada e foi engolido pelas circunstâncias, e também não foi pela claustrofóbica vida que Skyler tinha agora. Chorei porque, acima de tudo, eu recebi o final que tanto sonhei e esperei que alguma série tivesse culhões para entregar. Obrigada Braking Bad pela graça alcançada. Vai ser difícil demais superar.

breaking bad

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3 Comments

  • Reply Analu 17 de abril de 2015 at 2:02 AM

    Amiga, eu fiquei enrolando pra mimar, primeiro porque seu blog fica me pedindo autenticação (?) e segundo porque NUNCA VI BB e não faço ideia do que comentar, tudunts. Parece uma trama interessante, mas morro de preguiça? Preciso tomar vergonha na cara.
    Te amo <3
    Beijo!!

  • Reply Fernanda 18 de abril de 2015 at 2:00 PM

    Ana, eu já prometi pra Deus e o mundo que ia assistir Breaking Bad um dia, mas a verdade é que não tive vontade até hoje. Eu já vi uns episódios perdidos quando meu irmão estava assistindo e a coisa toda não me pegou, sabe? (Eu também costumo dizer que tenho preguiça de BB porque num determinado momento ela começou a roubar todos os prêmios de Mad Men, olha que absurdo!)

    Mas eu gostei demais do seu post. Primeiro porque eu sei como é isso de querer adiar o fim e querer assistir ao mesmo tempo, e *precisar* escrever depois. Segundo porque tem uma análise bem legal da questão do anti-herói. Você tem razão: ao mesmo tempo que é assustador ver as pessoas colocando esse tipo de personagem num pedestal, *faz* sentido.

    Beijo!

  • Reply Jessica 1 de maio de 2015 at 1:53 PM

    Opa, então eu que fui salva por BB num momento em que eu não queria fazer outra coisa na minha vida vou comentar! haha

    E as coisas que vc colocou realmente é o que fazem essa série valer a pena. É uma montanha-russa de emoções em cada episódio, é ver que o mundo não é nada cor-de-rosa, que todo mundo se ferra no final, inclusive por quem a gente mais torce, que é o maior vilão da história. Essa é ou não é uma série original? Te faz pensar, te coloca na linha de fogo junto. Não dá pra não se apaixonar.

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