Browsing Category

BOOKWORM

BOOKWORM

TIGRES À BEIRA MAR

Comecei a ler Tigres Em Dia Vermelho ainda no aeroporto, enquanto esperava um voo para o Rio de Janeiro. Sozinha embaixo do ar-condicionado gelado do aeroporto de Brasília e sem qualquer previsão de quando finalmente embarcaria rumo a um fim de semana de praia, sol e vinho rosê ao lado do meu amorzinho, Paloma Engelke, permiti que a história de Liza Klaussmann me engolisse inteira; uma história que, ironicamente, também se passa em um cenário idílico de sol e praia, onde o vinho era substituído por infinitas doses de gim. Logo no primeiro capítulo, Helena e Nick, as protagonistas, rodopiam sob o céu escuro de uma noite de verão, bebem gim em copos de geleia e celebram o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de anos de incertezas, o futuro finalmente se tornara uma realidade palpável, e não mais uma promessa distante, instável e pouco razoável. Nick e Helena fazem planos, riem em voz alta e dançam, dançam, dançam, como se nada fosse mais importante – e não era -, mas também choram a distância, lamentam separar-se uma da outra.

Em uma história onde a relação mais importante e complexa é desenvolvida por e entre duas mulheres, não é uma surpresa que o que acontece ou deixa de acontecer com Nick ou Helena tenham um peso tão grande para a outra; antes de se casarem, formarem a própria família e se tornarem mulheres independentes, Nick e Helena são primas e, sobretudo, amigas, e desde a infância dividem uma história complexa em que são, ao mesmo tempo, confidentes e ruína uma da outra. Nick é a mulher de traços sisudos, de personalidade hipnotizante, expansiva, por quem todos se apaixonam, embora ninguém saiba exatamente o motivo. Helena é o contrário. Ela é doce e introvertida, bonita com seus cachos cor de areia e a pela macia, mas mais suscetível à submissão. Helena é o clichê da mulher comum e banal das décadas de 40, 50 e 60, exatamente o que Nick jamais desejou ser, mas que, ao seu próprio modo, também o é. A história constrói essas mulheres de modo que elas sejam capazes de levantar questões e trazer à tona sentimentos muito específicos da existência feminina. Não é uma história universal, não há como ser. Às vezes, temos acesso ao ponto de vista de outros personagens, e esses personagens às vezes são homens, mas ainda é uma história essencialmente feminina, que trata de dramas e conflitos que conversam muito de perto, de forma direta ou indireta, com a experiência de ser mulher numa sociedade ocidental; um fato que, por si só, já muda absolutamente tudo. Nick e Helena são mulheres, logo possuem experiências e sentimentos que muitas vezes também nos dizem respeito – o que nem sempre é bom, mas que alívio descobrir que não estamos sozinhas nesse mundo.

Em 1945, a maior preocupação de Nick era voltar a viver com o marido – Hughes, que estava na guerra – e não viver mais em um mundo controlado por cartões de racionamento. Helena, por sua vez, tinha planos de ir para Hollywood casar-se com Avery Lewis – um produtor cinematográfico picareta que vendia seguros e adorava contar vantagem – após seu primeiro marido ser morto em combate. Ter alguém para chamar de “meu” parecia ser a única ambição daquelas mulheres, que se satisfaziam com a ideia de casamento, filhos e a vida de dona de casa, mas não é uma surpresa que, pouco tempo depois, ambas estejam frustradas com seus maridos, filhos e uma com a outra, mas principalmente consigo mesmas. O futuro que lhes fora prometido, afinal, não era tão bonito assim na prática. Tanto Helena quanto Nick projetam nos outros e em si mesmas expectativas irreais, é por isso que elas se decepcionam. Assim, quando Nick se entrega à romances extraconjugais que não significam nada, absolutamente nada, ela não está dizendo que não ama seu marido; ela só está em busca de uma fuga de um casamento que parece perfeito na teoria, mas não na prática. Quando Helena bebe, bebe, bebe sem parar, quando toma uma porção de remédios, quando foge da própria realidade, ela está fazendo exatamente a mesma coisa – a fuga de uma mulher torturada por um mundo de homens. São mulheres machucadas demais, complexas demais, e o grande trunfo da história é a construção dessas personagens não como pessoas limpinhas demais, boazinhas demais, mas seres humanos que vivem coisas desagradáveis o tempo inteiro e são complicadas, muito complicadas. São mulheres irritantes, dramáticas, mesquinhas, invejosas, falhas; todas características muito humanas, mas que ainda são ignoradas quando falamos sobre a experiência feminina, porque é muito mais simples lidar com uma mulher que no máximo vai derrubar o café na blusa ou deixar um monte de coisas caírem na frente do cara gato do trabalho. Ser mulher é complicado pra cacete.

Tenho pensado bastante sobre essa coisa de ser mulher e como, por muito tempo, vivi em uma bolha em que era preciso fingir o tempo todo ser uma pessoa quando, na realidade, eu era outra – às vezes radicalmente diferente. Como eu neguei tantos sentimentos na tentativa de me adequar e como hoje parece quase impossível lidar com esse turbilhão, porque ninguém me ensinou o que isso significava ou o que eu devia fazer quando essas coisas acontecessem. Ao longo da vida, tive muito mais contato com a produção artística de mulheres – exceto, muito provavelmente, pelo cinema -, ao contrário de muitas amigas, que primeiro conheceram e consumiram o cânone cultural construído e moldado por homens, dentro de um contexto em que nos dizem que o masculino é universal, uma experiência que me deu a noção de que mulheres poderiam ocupar quaisquer espaços e estar em literalmente qualquer lugar. Contudo, ainda que eu me identificasse com essas mulheres e entendesse muito do que elas estavam dizendo, na prática, eu ainda me limitava; eu jamais poderia ser como elas – ao menos, não de uma forma tão aberta e vulnerável.

Quando constrói duas personagens (três, se também considerarmos Daisy, a filha de Nick) tão ambíguas, Klaussmann está dizendo que esses sentimentos são possíveis, que eles existem; não somos as garotas boazinhas e unidimensionais que um dia nos disseram que deveríamos ser. É um convite a pensar nos papéis que estamos desempenhando, sobre quem somos e qual, afinal de contas, é nosso lugar no mundo, mas sobretudo sobre nos reconhecermos como pessoas que às vezes são boas, às vezes são más, mas jamais são uma coisa só – um reconhecimento brutal, mas também libertador. No título, os tigres são uma referência a Tiger House, a casa de veraneio localizada na ilha de Martha’s Vineyard onde a maior parte da trama e do drama se desenvolvem; mas gosto especialmente como, de maneira menos óbvia, ele também faz referência a suas personagens, que amam, desejam, brigam de forma furiosa, como tigres. E sentem, sentem, sentem o tempo todo. Existem várias coisas acontecendo, inclusive um assassinato, mas a resolução dele se torna bem menos importante quando há tanto a ser dito sobre essas mulheres, seus sentimentos e as relações que estabelecem entre si; um lugar em que inveja, ressentimento, amor, cuidado e carinho coexistem como iguais.

Algum tempo atrás, me vi em uma situação bastante delicada, que envolvia sentimentos com os quais eu não estava acostumada a lidar, que não sabia nomear. “Então isso é inveja?”, eu me perguntei um milhão de vezes enquanto tentava entender o que estava acontecendo comigo, qual era a natureza daquele sentimento, como eu podia ficar tão feliz por uma pessoa e ao mesmo tempo tão frustrada, sem conseguir deixar de pensar “por que não eu? por que não comigo?”. Eu me senti suja, mesquinha e egoísta como poucas vezes na vida, mas quando conversei com outras mulheres sobre isso, ninguém me fez sentir mal ou culpada, ninguém disse que eu era a pior pessoa do mundo. Todas elas fizeram com que eu me sentisse acolhida e amada, sem jamais invalidar meus sentimentos. Porque elas entendiam. Porque muitas delas já haviam pisado nesse lugar antes. Foi uma experiência surpreendente, mas triste também, porque me lembrou que o mesmo mundo que nos cria para sermos criaturas delicadas, sensíveis e, de preferência, invisíveis, é o mesmo que nos ensina a utilizar o sucesso de outra mulher como prova do nosso fracasso. A grama do vizinho é sempre mais verde, mas ela é especialmente verde quando falamos da grama de outra mulher. É algo que tentamos quebrar todos os dias, e eu sei disso porque vejo mulheres todos os dias tentando romper com esse padrão, mulheres que tentam subverter a regra, mudar tudo, começar de novo. Mas ainda são as mesmas mulheres que choram na frente do espelho porque não são quem deveriam ser, porque queriam trocar de lugar com outra pessoa, porque se perguntam o tempo inteiro “por que não eu? por que não eu?”, que se ressentem por aquilo que todas as outras são. Eu sou uma dessas mulheres – e é irônico, contraditório e difícil, mas jamais dissemos que não seria.

Liza Klaussmann parte da experiência de mulheres das décadas de 40, 50 e 60, um período em que, depois de serem incentivadas a saírem de suas casas e desempenharem funções antes reservadas exclusivamente aos homens (porque não haviam homens para fazê-las, eles estavam na guerra, pelo amor de deus), elas são novamente convidadas a se retirarem e voltarem aos afazeres domésticos, ao marido, ao lar, aos filhos, a coisa toda. É um contexto diferente do nosso, é claro, embora ainda exista um abismo quando pensamos na realidade de homens e mulheres no mercado de trabalho, mas ainda que a História nos separe dessas mulheres, existe o universal de feminilidade que nos unem à elas. Um universal que está longe de ser bonito e que jamais é preto e branco. Ao mesmo tempo, existe algo de ordinário ali, confortável porque já é muito conhecido. Nick e Helena são mulheres extraordinárias em sua própria banalidade. Elas sofrem muito, o tempo inteiro, mas seu sofrimento jamais ganha contornos mirabolantes. A complexidade dessas mulheres jamais é posta à prova, mas seus conflitos não são originados a partir de histórias cabeludas; tudo se encaixa perfeitamente no nosso universal de feminilidade. O ressentimento, a inveja, o casamento fracassado, o abandono, o abuso, a raiva. Existe muita raiva ali, em todos os lugares. Em determinado momento do livro, Helena, em um fluxo de consciência terrivelmente íntimo e visceral, confessa que odeia Nick; mas num reconhecimento de sua própria ambiguidade, também diz que sente falta da prima, porque ela é uma pessoa encantadora, divertida e insuportável, características ambíguas que coexistem numa só pessoa e que, em contrapartida, gera sentimentos contraditórios, difíceis de lidar. Tudo isso em um cenário tão, tão bonito que parece óbvio que aquelas pessoas sejam felizes, lindas, mas elas são apenas humanas, atormentadas por uma porção de fantasmas. Existem os romances de verão, mas eles jamais são perfeitos, simples; existem as festas, mas elas são apenas uma forma mais ambiciosa de encenação. É tudo extremamente banal e, ainda assim, é em meio ao banal que coisas extraordinárias acontecem.

Ainda falamos muito pouco sobre mulheres banais, sobre o valor que essas histórias têm. Sobre como é importante se reconhecer em algo além do extraordinário, ou de, pelo contrário, reconhecer o extraordinário dentro das nossas vidinhas comuns. Essas histórias têm ganhado muita força nos últimos tempo, e é revolucionário que isso esteja acontecendo, mas se me perguntassem, ainda acho que existe muito espaço para ser ocupado. Que ainda existem muitas histórias esperando para serem trazidas à tona, muitas mulheres com as quais podemos nos identificar. Já conhecemos homens comuns demais. Um dos pontos negativos do livro que muita gente apontou é o fato do assassinato ser resolvido de um jeito meio morno e o final perder força por causa da revelação que parece óbvia a partir de determinado ponto. E eu concordo, mas ainda acho que existe mais sobre essa história, e que esse mais é menos sobre quem matou quem, e mais sobre os dramas vividos por Nick, Helena e, em alguma medida, também Daisy; que é o que existe de mais poderoso no livro e o que me faz gostar tanto, tanto dele, ao ponto de sempre olhá-lo com carinho e sonhar com o dia que terei tempo de retornar à Tiger House, apesar dos pesares. Ainda há um caminho imenso pela frente, mas me permito admirar quem ao menos tenta contar essas histórias e dizer em voz alta que estamos longe de sermos perfeitas – graças a Deus.

 

BOOKWORM

QUEM TEM MEDO DE CLÁSSICOS?

O primeiro livro de gente grande que eu li foi Robinson Crusoé, um romance sobre um náufrago que passa vinte e oito anos perdido numa ilha deserta. O livro foi publicado em 1719, mas curiosamente foi uma das coisas mais legais que eu já tinha lido até ali, uma obra que abriu espaço para muitas outras dali em diante numa época em que eu ainda não tinha medo de livros antigos demais, distantes demais da minha realidade, dos grandes clássicos da literatura e todo o resto. Crescer aparentemente me transformou numa pessoa ridiculamente idiota, porque desde o início da minha adolescência, a leitura de clássicos se tornou um grande tabu na minha vida e não é por acaso que, até hoje, minha formação literária nesse sentido é tão falha. Eu criei um medo irracional de muitos livros e de muitos autores, ao ponto de só muito recentemente ter passado a correr atrás do prejuízo – meio por interesse, meio porque não aguentava mais dizer que nunca tinha lido Machadão ou Jane Austen.

É uma situação ridícula essa, especialmente quando falamos de clássicos, que são os livros populares de outrora, os tais best-sellers que a gente tanto ouve falar. Embora a escrita mais rebuscada às vezes seja um problema, ela nem sempre é a regra, e no final das contas esses livros acabam sendo experiências maravilhosas, além de retratos de épocas que não vivemos. Tirando uma ou outra leitura que até agora eu não consegui superar o medo – Machadão, estou olhando pra você #spoiler – a maior parte das minhas experiências foram maravilhosas, e eu acabei conhecendo histórias que se tornaram favoritas de uma vida inteira. Orgulho e Preconceito é uma grande novela das seis, deliciosa de acompanhar e absolutamente cativante; O Retrato de Dorian Gray se tornou um verdadeiro favorito, desses que eu indico pra qualquer pessoa sem nem pensar duas vezes; e embora já faça muito tempo desde que o li, Lucíola ainda é um dos meus clássicos favoritos da literatura brasileira. Então por que diabos a gente – e quando digo a gente, estou falando principalmente de mim mesma – continuamos com esse medo ridículo de… livros?

Foi pensando nisso que a Mia, essa adorável criatura e parceira de crime, sugeriu que falássemos sobre livros clássicos que nos dão medo, muito medo, que nos intimidam em tempo integral mesmo que a vontade de lê-los seja imensa. Imediatamente pensei em uma porção de títulos que se encaixariam perfeitamente na proposta, mas preferi focar nos principais, aqueles que me dão mais medo entre todos os clássicos que estão na minha lista de futuras leituras há anos, mas seguem me assombrando em tempo integral.

1. Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski.
Aparentemente existe um consenso sobre os russos, que não são apenas os russos, mas os RUSSOoOoOoOoOoS, esses caras diferentões e difíceis de lidar, que escrevem uma literatura igualmente diferentona e difícil de lidar. São livros imensos, vindos de uma terra que nos causa, ao mesmo tempo, fascínio e receio, um lugar de gente diferentona e, reza a lenda, difícil de lidar, e eu não acho que seja puro acaso que esses livros evoquem os mesmos sentimentos. Crime e Castigo acaba sendo ainda pior por se tratar de um livro imenso com uma temática pesada; a história de um ex-estudante de Direito que comete um assassinato (!) e se torna incapaz de lidar com sua própria vida após o delito. Outras histórias se desenvolvem em paralelo, mas o livro dedica boa parte de suas infinitas páginas aos conflitos psicológicos do personagem principal, e isso por si só já é suficiente para que eu tenha certeza de que uma bad fenomenal caminha em minha direção só de passar os dedos pela capa do livro, enquanto vivemos um relacionamento platônico e destrutivo numa livraria qualquer.

2. Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Minha relação com Machadão começou no ensino médio, quando eu fui gentilmente obrigada a ler algumas de suas obras para o vestibular e…não li nenhuma. Eu passava horas, na sala de aula mesmo, lendo tudo que fosse possível, menos aquilo que eu efetivamente deveria estar lendo; meu jeitinho de ser rebelde, mas nem tanto assim. A verdade é que eu sempre tive um preconceito sincero em relação aos clássicos da literatura nacional, algo que mais tarde evoluiu para um medo muito honesto de lê-los. As pessoas diziam que todos eram insuportáveis, difíceis, e meio sem querer, meio já querendo, eu acreditava, mesmo que nunca tivesse realmente tentado dar uma chance pra eles. Alguns anos mais tarde, conheci pessoas que me fizeram mudar completamente de ideia e que me mostraram que Machado de Assis não era um autor chato e difícil, como passei boa parte da minha vida ouvindo. Assim, tentei ler uma edição feiosa que ganhei na época do vestibular, junto com uma porção de outros clássicos – todos em edições igualmente horrorosas, para o meu completo horror -, mas infelizmente não consegui passar da primeira página. Foi a primeira tentativa frustrada de algumas, não muitas, mas que imagino serem uma consequência de todos aqueles anos que eu passei ouvindo que o livro era o maior pavor de todos os tempos. Ainda pretendo dar uma nova chance, mas quando isso vai acontecer é realmente uma questão.

3. Drácula, de Bram Stoker.
Sendo uma pessoa apaixonada por vampiros e toda a mitologia que os envolve, chega a ser ridículo que até hoje eu não tenha lido Drácula, também conhecido como o livro que moldou nosso imaginário coletivo e que nos deu de presente a figura misteriosa e repulsiva do vampiro mais famoso do mundo, etc etc. Tenho certeza que vou amar cada minuto da leitura e foi justamente por isso que, no ano passado (!) finalmente comprei uma edição pra chamar de minha – uma que não é exatamente bonita, mas também não é exatamente feia, bear with me -, decidida a iniciar a leitura assim que possível; um possível que, por algum motivo, nunca chega. Já perdi as contas de quantas vezes tirei o livro da estante, determinada a mergulhar na história, mas aparentemente não trabalhamos com vergonha na cara, porque até hoje foi o máximo que já aconteceu. Numa medida desesperada, enfiei o livro na minha lista do Desafio Luxuoso, genialmente criado pela menina Analu e sua amiga, creiça Karina, mas até o fechamento desta edição, o livro segue “””intocado””” na minha estante. Vai entender.

4. Este Lado do Paraíso, de Scott Fitzgerald.
Não sei se já falei sobre isso, mas desde que conheci a Fer, tenho nutrido uma obsessão descompromissada pelo casal Fitzgerald. Amor descompromissado foi a forma que eu encontrei de chamar essa admiração e interesse que tenho pelos dois e sua história de vida curta e conturbada, mas sem realmente mergulhar na vida & obra de ambos. Este Lado do Paraíso foi o primeiro livro do Scott a ser publicado, o responsável por colocar o selo “top” de aprovação na testa do homem, e desde que assisti a primeira temporada de Z: The Beginning of Everything – que na verdade é sobre a Zelda, mas bear with me – tenho me sentido especialmente interessada. Mas meu primeiro contato com a literatura de Scott Fitzgerald não foi das melhores. Embora ainda tenha vontade de lê-lo em outro momento, O Grande Gatsby não me disse absolutamente nada, o que me faz ter um medo especial de encarar uma nova obra sem um bom preparo psicológico antes. Não é uma leitura difícil, muito pelo contrário, mas eu realmente gostaria de me apaixonar pelas histórias e não apenas lê-las e seguir com a vida depois, como se nada tivesse acontecido.

5. Moby Dick, de Herman Melville.
Um milhão de páginas sobre uma baleia, pesca, arpões e métodos de caça que, por algum motivo, se tornou um dos livros mais importantes da literatura mundial. Curiosamente, meu medo de Moby Dick não é exatamente em relação ao livro em si – que como acontece com muitos clássicos, foi mal recebido pela crítica da época, até se tornar O Livro Respeitado™ que é hoje -, mas sobre a história, sobre o fato de ser uma questão – no caso, a caça de baleias – que pra mim ainda é muito delicada. Realmente, não sei se algum dia conseguirem ler, mas a vontade, ironicamente, é bem real, apesar dos pesares.

6. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.
Falo de Cem Anos de Solidão porque é o primeiro que me vem à cabeça, mas poderia ser qualquer livro do Gabo. Eu tenho pavor de Gabriel García Márquez – um pavor que também não é nada senão uma consequência das aulas de literatura e de todas as pessoas que me disseram que eu deveria ter medo, muito medo, da literatura de um cara tão incrível. E eu tenho, até hoje. Não ajuda em nada que o livro seja considerado uma das obras mais importantes da literatura latino-americana, a segunda mais importante de toda a literatura hispânica, ou seja né. O medo, ele é muito real.

7. Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
Aparentemente existe um consenso de que esse livro é o pavor maior entre todos os pavores gigantes que fazem parte desse período maravilhoso chamado ensino médio, vestibular a dar com pau, etc etc. Como todos os clássicos que deveria ter feito parte do meu currículo (cof, cof), mas foram gentilmente ignorados, Grande Sertão: Veredas acabou ficando esquecido no tempo; até, claro, o dia que decidi que queria compensar o tempo perdido, mesmo que fosse para me sentir burra o tempo inteiro – o que, tenho certeza, inevitavelmente irá acontecer. Embora seja um livro que, reza a lenda, é difícil pra caramba, ele ainda é uma obra muito rica, que utiliza um cenário muito específico para tratar de temas universais, e uma vez ultrapassadas as barreiras que me afastam dele, tenho certeza que a experiência pode ser verdadeiramente incrível.

BOOKWORM

RORY GILMORE APROVARIA ESSE POST

Muito antes de ser uma pessoa que escreve, eu já era uma pessoa que lê. Desde muito cedo, minha mãe – que nunca foi uma pessoa que escreve, muito menos uma pessoa que lê – me incentivou a gostar de livros e encontrar na leitura de páginas e páginas e mais páginas um prazer genuíno, que mantenho até hoje. A gente passava tardes inteiras explorando livrarias, lendo um livro atrás do outro até não aguentarmos mais, perdidas entre estantes que escondiam tantas histórias, infinitas histórias; e continuávamos tudo isso em casa, quando ela contava uma história diferente a cada noite até o dia que eu pude lê-las por conta própria e ela, então, passou a apenas financiar meu gosto por livros, rumo a uma biblioteca como a da Bela e a Fera (que ainda está bem longe da realidade, mas um dia chegamos lá), etc etc.

Gosto de livros porque, muito mais do que histórias, registro e preservação, e a capacidade de nos transportar para realidades tão diferentes da nossa, eles são capazes de evocar sensações antes mesmo do início da leitura: livros são cheiro, textura, peso, dor nas costas, e dizem um bocado sobre nós só por estarem ali. Olhar a estante de outra pessoa é, ao mesmo tempo, explorar seus gostos literários, mas também descobrir quem é aquela pessoa para além da leitura – seus gostos, ídolos, manias, preferências e hábitos. Um exemplar é suficiente para revelar os hábitos alimentares de alguém – uma mancha vermelha pode indicar sopa de tomate e uma verde macarrão ao molho pesto -, se a pessoa utiliza as orelhas como marcadores, se ela é do tipo que usa flags para marcar suas passagens favoritas ou se é do tipo que risca páginas inteiras sem dó. Ou seja, um universo inteiro e extraordinário que se esconde no simples ato de observar os livros (e estantes) dos outros.

Minha estante não é tão bonita ou memorável como algumas que existem por aí. Minha tia, por exemplo, tem uma em casa que é meu sonho de consumo: paredes de tijolinhos, pequenininha, mas cheia de estantes lotadas de livros lindos, enormes exemplares em capa dura. Mas ela, a minha estante, ainda é única e especial, algo que diz mais sobre mim do que sobre todos os livros presentes nela, o que por si só, eu já acho incrível demais. É por isso que vira e mexe eu abro as portinhas dela e fico ali, admirando minhas aquisições, lembrando das histórias que elas contam, mas principalmente das que construíram comigo. Não é por acaso que um dos meus maiores sonhos é morar num lugar em que eu possa ter um quarto inteiro vago para transformar numa biblioteca; e que eu fique tão apavorada só de pensar em me mudar para outro estado ou país e precisar deixar todos os meus livros para trás – o que é meio problemático, mas bear with me, podemos conversar sobre isso em outra hora.

Talvez por isso, eu nunca tenha me interessado tanto assim por e-readers. Embora consiga reconhecer todas as vantagens de ter uma biblioteca inteira na palma da mão, com toda a mobilidade e economia de espaço que isso dá, sem drama e sem dor nas costas – e, muito provavelmente, a um custo bem mais em conta -, elas não são o suficiente para me fazerem abrir mão da ideia de continuar comprando meus livros sempre que possível, ocupando espaços que não tenho, mas ainda garantindo a possibilidade de poder abraçar, cheirar, folhear, marcar e construir uma história com cada um deles que só existe quando temos um livro nas mãos.

Muita gente já me disse que comprar um e-reader é um caminho sem volta porque você naturalmente se encanta com todas as possibilidades, mas principalmente com a praticidade de tudo aquilo – e eu acredito. Quando uma das minhas melhores amigas da faculdade comprou um, ainda no nosso primeiro ano de curso, nós pulamos juntas no meio de um monte de pessoas, e nos abraçamos e celebramos aquela conquista, e foi ali, admirando aquele pequeno quadradinho branco e suas milhões de possibilidades que eu quase – eu disse, quase – pensei em adquirir um também. Mas bastou que eu voltasse para casa e olhasse a minha pequena, mas amada e idolatrada estante, para esquecer toda essa ideia maluca de enfiar tudo num quadradinho eletrônico pouco maior que a minha mão. E foi exatamente nisso que eu pensei enquanto lia a reportagem sobre o renascimento do livro impresso.

Eu não acho que o livro digital deva morrer, muito pelo contrário. Mas em tempos como o que vivemos, talvez continuar comprando livros físicos seja, também, uma forma de resistência, aquele jeitinho de continuar com um pézinho no passado, preservando certos costumes, enquanto continuamos inevitavelmente seguindo em frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BOOKWORM

STARSHIPS & QUEENS AWARDS 2016 #1: RETROSPECTIVA LITERÁRIA

Então estamos naquela época do ano. Os perus foram comidos, os presentes foram trocados e finalmente podemos respirar aliviados – ou quase isso. Ainda falta menos de uma semana para o fim de 2016 e não sei exatamente como me sinto em relação ao fim de um ano que, mesmo estranho pra cacete, trouxe coisas incríveis para minha vida. Acompanhem cenas dos próximos capítulos. Enquanto isso não acontece, no entanto, gostaria de informá-los que já estamos autorizados a iniciar mais uma edição do Starships & Queens Awards, a maior premiação deste blog que vocês respeitam demais, risos.

Ao contrário dos outros anos, preferi começar falando sobre os livros que li em 2016. Foram poucos, bem poucos (16, se vocês estiverem se perguntando), quase nenhum livro lido esse ano, mas se quantidade não é sinônimo de qualidade, os poucos livros que li foram suficientes para me lembrar porque a literatura continua sendo uma das minhas coisas favoritas nesse mundo. São histórias incríveis, algumas que me ensinaram um bocado, e é justamente por isso que decidi quebrar as minhas próprias regras e começar por aí. Assim como no ano passado, decidi fazer uma retrospectiva mais livre, usando algumas categorias daquele questionário da Tary e outras da retrospectiva que a Manu fez este ano, de acordo com o que andei lendo nesse meio tempo. Por favor, coloquem o champagne na geladeira, puxem uma cadeira e venham comigo.

LIVROS LIDOS (E RELIDOS) EM 2016

Os Garotos CorvosCartas de Amor Aos MortosA Arte de PedirO Oceano No Fim do CaminhoGuerra CivilA Garota da BandaNoites de AlfaceTigres em Dia VermelhoA Redoma de VidroAs Aventuras de Wonder Woman na Super Hero HighTá Todo Mundo Mal: O Livro das CrisesOrgulho e PreconceitoGirlboss – Harry Potter e A Pedra FilosofalHarry Potter e a Câmara SecretaHarry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

1) MAIOR LIVRO

Orgulho e Preconceito. Tão grande que eu ainda nem consegui terminar, mas tenho fé que concluo as quase 500 páginas antes do ano acabar. Orgulho e Preconceito foi também o único clássico que li este ano, além de ser o meu primeiro contato com uma autora que eu já admirava um bocado: Jane Austen. Embora eu já conhecesse a história de cabo a rabo (risos), a experiência de finalmente ler o livro que originou tantas adaptações foi uma das coisas mais preciosas do meu ano, que me deu um pouco mais de paz e me ajudou a enfrentar as complicações que inevitavelmente surgiram em 2016. Acompanhar a trajetória de Lizzie Bennet e Mr. Darcy tem deixado meu coração quentinho, quase como se alguém estivesse me abraçando de dentro pra fora.

“Há tanta gratidão ou vaidade em quase todos os relacionamentos amorosos, que não é seguro deixar nenhum deles entregue a si mesmo. Todos podem começar espontaneamente (uma ligeira preferência é muito natural); mas pouquíssimos de nós somos corajosos o suficiente para nos apaixonarmos de verdade sem um incentivo.”

2) MELHOR AQUISIÇÃO

Tigres em Dia Vermelho. Uma aquisição meio inconsequente em uma promoção da Amazon que se mostrou uma escolha super acertada, Tigres em Dia Vermelho foi um dos melhores livros que li este ano. Um drama familiar que percorre diferentes épocas e apresenta diferentes pontos de vista, enquanto pouco a pouco nos mostra a verdadeira face de cada um de seus personagens. Liza Klaussmann, a autora, consegue construir protagonistas que são extremamente complexas e nunca são uma coisa só, e que nunca se contentam com a vida que têm, muito pelo contrário. O relacionamento entre Nick e Helena, duas primas criadas muito de perto, cresce ao longo da narrativa só para entrar em decadência à medida que a história avança. O que nasce como uma relação sadia entre duas mulheres, aos poucos dá lugar aos dramas, conflitos e diferenças, e é possível compreender, pouco a pouco, os sentimentos equivocados que nascem dessa relação e que muitas vezes ficam apenas nas entrelinhas. Ao mesmo tempo, a complexidade de ambas se estende para além da relação entre uma e outra, contemplando também os personagens secundários – e também com pontos de vista -, como os filhos de cada uma e o marido de Nick. Embora o final não seja tão bom quanto todo o livro, é uma leitura que de fato vale à pena, e que eu recomendaria de olhos fechados.

“Tia Nick não fazia parte do mar de mesmice. Ela exercia certo fascínio sobre mim, era algo em seu jeito de andar, mas eu não gostava muito dela. E, em muitos aspectos, por baixo de sua aparência incomum, ela era exatamente igual a todo mundo. O mundo parecia formado por dois tipos de pessoas: os como eu e Daisy, que viviam o mais honestamente que podiam, e o resto, pessoas que por variadas razões não conseguiam deixar de mentir para si mesmas.”

3) SÃO QUESTÕES

Noites de Alface. Sabe um daqueles livros em que a gente se apaixona pela escrita da autora, mas não necessariamente pela história que está sendo contada? Pois então, Noites de Alface foi esse livro pra mim. Não conhecia o trabalho da Vanessa Barbara e acho que não teria ouvido por tão cedo não fosse a Analu me puxando pelo braço e gentilmente convidando para bicharmos. Ela precisava ler uma autora nacional para um trabalho da pós e eu não estava fazendo nada melhor mesmo, então pensei “por que não?”, e de repente estava com esse livro – curtinho que só – em mãos. Nele, conhecemos a história de um senhor que, após mais de 50 anos de casado, perde a esposa de forma repentina e se vê completamente sozinho. Eles não tiveram filhos e ele nunca fez questão de interagir com outras pessoas – muito diferente de sua esposa, que era amiga de todos na vizinhança. Ao mesmo tempo, existe um mistério rolando, mas que não é tão forte ao ponto de segurar a história e que hoje, alguns meses depois da leitura, eu nem me lembro mais do que se tratava. O relacionamento de Ada e Otto, por outro lado, é uma coisa realmente preciosa e as reflexões que ele faz sobre o casamento e a morte são muito, muito especiais.

“Em quatro horas sem sono, é possível fazer uma viagem de ida até o inferno e por lá ficar, ruminando ansiedades e coisas terríveis, antecipando a morte de entes queridos e rasgando coisas que deviam ficar bem enterradas no passado, como brigas que nunca se resolveram, raivas represadas de gente que sumiu há tempos, coisas ouvidas e não compreendidas, tragédias, notícias ruins. Em quatro horas, dá para repassar os piores episódios da sua vida, na ordem, derretendo-se em dor de garganta, taquicardia e suor.”

4) MELHOR PERSONAGEM

Gansey, de Os Garotos Corvos. Sei que Ronan é a unanimidade, mas enquanto lia o primeiro livro da saga dos Garotos Corvos, eu não conseguia lidar com o amor que crescia, página depois de página, pelo Gansey. Esse garoto rico que não se contenta apenas em ser um garoto rico, esse garoto que busca umas coisas bizarras e que nunca deixa seus amigos na mão. Sinto uma inveja bem sincera da Blue por ter um lugar garantido em seu coração e só não sofro mais porque aquele papo do beijo faz meu coração doer de verdade. Ainda preciso ler os outros três livros pra saber o que acontece, mas se o primeiro já foi suficiente pra me fazer ficar de quatro pelo moço (risos), não quero nem imaginar o que vai acontecer nos próximos.

“– Talvez – disse Gansey. De alguma maneira, ver os pais sempre o lembrava de quão pouco ele havia conquistado, quão parecidos ele e Helen eram, quantas gravatas vermelhas ele tinha, como ele estava lentamente amadurecendo para se tornar tudo que Ronan tinha medo de se tornar.”

5) HOMÃO DA PORRA

Mr. Darcy, de Orgulho e Preconceito. Porque lógico, né? Como lidar com esse homem que não é apenas um bom partido com o qual qualquer mocinha em sã consciência adoraria casar, mas uma pessoa justa, honesta e com um coração tão grande? Descobrir o verdadeiro homem que reside por trás da máscara esnobe que ele não se cansa de exibir é uma viagem sem volta e com destino certo. É impossível não se apaixonar por Mr. Darcy e, depois que isso acontece, impossível é voltar atrás – e dona Elizabeth Bennet que o diga. Aliás, os dois também foram o melhor ship desse ano, aquele que fez meu coração doer de tão maravilhoso, mesmo já sabendo o final.

6) O MAIS IMPORTANTE

A Redoma de Vidro. Todo mundo sempre me falou como era assustadora a sensação de ler A Redoma de Vidro e se enxergar inteiramente na Esther, personagem principal do livro, que é também uma semi-biografia de sua autora, Sylvia Plath, que se suicidou aos 30 anos de idade em decorrência da depressão. A leitura do livro coincidiu com um período muito específico da minha vida, em que eu mesma fui diagnosticada com depressão e ansiedade, e precisava acima de tudo de alguém que me entendesse nos termos mais difíceis. A Redoma de Vidro fez esse papel na minha vida. Não vou dizer que é uma leitura fácil, mas fui surpreendida por não ficar tão pior do que eu já estava, ao mesmo tempo que me senti inteiramente compreendida. Se para tantas pessoas é tão difícil entender porque pessoas que têm aparentemente tudo acabam apresentando doenças mentais, Esther foi a prova mais clara de que não existe justificativa e que qualquer pessoa está sujeito a sofrer com esse tipo de problema, independente de cor, classe e oportunidades que teve na vida. Diferente do que acontece na tv e principalmente no cinema, mas na ficção de um modo geral, o livro não romantiza a doença, mas mostra o sofrimento que uma tristeza tão profunda pode trazer para a vida de uma pessoa de uma forma muito honesta e visceral. Foi um livro que realmente mudou a minha vida, que me deu muito sobre o que pensar e que, de um jeito meio torto, me ajudou a levantar do buraco em que eu tinha me metido.

“Acontece que eu não estava conduzindo nada, nem a mim mesma. Eu só pulava do meu hotel para o trabalho e para as festas, e das festas para o hotel e então de volta ao trabalho, como um bonde entorpecido. Imagino que eu deveria estar entusiasmada como a maioria das outras garotas, mas eu não conseguia me comover com nada. (Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.)”

7) NÃO-FIÇÃO

Do ano passado pra cá, tenho tentado explorar mais livros de não-ficção – um gênero que até pouco tempo atrás eu ignorava completamente. Comecei devagar, no ano passado, e consegui ler um pouco mais esse ano (e já tenho alguns na estante esperando para serem lidos no ano que vem). Ajuda muito o fato de que, finalmente, pessoas pelas quais eu me interesso profundamente – seja pelo trabalho, seja pela pessoa em si – estejam escrevendo sobre a vida, o universo e tudo mais. É por isso que minha lista de desejados não para de crescer e é justamente por isso que é bem possível que ela não pare nunca mesmo. Bless my little heart.

Tá Todo Mundo Mal: O Livro das Crises foi uma leitura de praticamente uma sentada, que eu bichei com a Analu sem ninguém saber (não que fosse segredo, só não foi uma bichice anunciada, risos) e que me fez pagar a língua por sempre dizer que eu jamais leria livro de youtuber, mesmo que a youtuber em questão fosse a Jout Jout, uma mulher que eu gosto bastante do trabalho e admiro um bocado. Seu livro é quase como extensão do seu trabalho na internet, e como a Analu colocou muito bem em uma das nossas conversas, lê-lo é quase como ouvir a voz da Jout Jout contando cada um dos causos como se estivesse na frente das câmeras. Gosto de como ela parte de situações muito pessoais para falar de questões que são universais, e como consegue manter sempre o bom humor. Eu me identifiquei o tempo inteiro e quis dar um abraço na moça ao final, com a certeza de que, embora todo mundo esteja de fato muito mal, nós nunca estaremos sozinhas nesse barco.

“É engraçado como chegamos a conclusões muito diferentes quando questionamos um costume que já está arraigado em nossas entranhas. Você percebe que nem concorda com grande parte deles e que só continua fazendo algumas dessas coisas porque nunca as questionou. Tipo não tomar banho depois de comer, porque pode levar à morte. Alguém disse que não podia em uma época que outras pessoas formavam o seu caráter, em que você não tinha opiniões formadas sobre nada. Tinha certos e errados muito bem definidos e ditados por outros. E aí você cresce e vê que mocinhas não têm que ser mais comportadas do que mocinhos. Que comer manga com leite não mata ninguém. Que suas celulites não são um impeditivo para movimentos naturais como cruzar as pernas.”

A Garota da Banda, por sua vez, foi o tipo de leitura certa, num momento meio errado, mas que ao mesmo tempo me ensinou uma porção de coisas importantes e me transformou em fã de uma mulher que eu nunca tinha procurado saber quem era para além da sua carreira no Sonic Youth – uma banda que, a propósito, eu nunca fui muito fã. Kim Gordon é uma dessas mulheres que nos inspiram de uma forma muito profunda e que consegue subverter muito da imagem que se tem de uma rockstar. Entrar em seu mundo é como passear por um corredor imenso e cheio de portas que escondem diferentes momentos da sua vida e pelos quais podemos aprender muito sobre a vida, o universo e tudo mais. Amo especialmente quando ela fala da sua relação com a música, sobre feminismo e como era, de fato, ser a – única – garota de uma banda. Para alguém que romantizou a música a vida inteira, seu relato tão visceral é como um convite para visitar os bastidores de um mundo em que eu sempre quis estar, e reconhecer que nem tudo é perfeito quando as luzes se apagam.

“Eu sempre achei que há algo geneticamente incutido e inato nos californianos – que a Califórnia é um lugar de morte, um lugar para o qual as pessoas são atraídas porque não percebem, no fundo, que elas na verdade têm medo do que querem. Tudo é novidade, e elas estão fugindo de suas histórias enquanto ao mesmo tempo correm em direção à sua própria extinção.”

Leitura dos 45 do segundo tempo, Girlboss é um desses livros que você é absolutamente incapaz de largar e prova disso é que eu, também conhecida como a pessoa mais enrolada do mundo, consegui lê-lo inteiro em, literalmente, uma sentada. A verdade é que a história de Sophia Amoruso, CEO da Nasty Gal, é leve, inspiradora e incrivelmente fácil de ler mesmo que nem sempre trate de assuntos fáceis. Embora não concorde com todas as suas lições muito menos com toda a sua forma de enxergar o mundo ao seu redor, acho incrível que Sophia não impõe regras à ninguém, mas conta sua história enquanto pede de joelhos que a gente quebre todas as regras se assim tivermos vontade de fazer. Ela mesma, que foi uma pessoa tão fora da curva, que nunca se deu bem ao tentar se encaixar em padrões, que nunca tirou boas notas e que nunca conseguiu ficar muito tempo nos empregos ao longo da vida, é a inteira representação da quebra de regras, e acho importante que, enquanto muita gente venda sua trajetória como o conto de fadas moderno, ela recusa completamente essa visão. Muitas de suas lições acabam sendo realmente valiosas e um relato tão honesto é, no mínimo, um empurrãozinho muito bem vindo pra quem sempre sonhou em conduzir o próprio negócio ou tem uma porção de sonhos esperando para serem tirados da gaveta.

“Fique acordada e fique viva. Não existe Corretor Automático na vida – pense antes de enviar mensagens ao universo. Quebrar as regras só por diversão é fácil demais – o verdadeiro desafio está em aperfeiçoar a arte de saber que regras aceitar e quais reescrever. Quanto mais você experimentar, enfrentar riscos e errar, mais poderá se conhecer, mais poderá conhecer o mundo, e mais focada estará.”

8) OS MELHORES DE 2016

Num ano tão estranho quanto 2016, não é exatamente uma surpresa que minhas leituras favoritas tenham sido um reflexo muito honesto do que eu vivi nesse ano que passou. Foram leituras que, embora muito diferentes entre si, falam muito sobre a vida em diferentes perspectivas, e que de alguma forma foram capazes de me segurar em pé quando o mundo inteiro parecia desabar na minha cabeça.

Cartas de Amor Aos Mortos, da Ava Dellaria, não costuma ser uma unanimidade, muito pelo contrário. Sua presença na minha estante, aliás, só aconteceu porque eu sou muito, muito, muito cabeça dura e comprei mesmo com as recomendações das minhas melhores amigas, que juravam de pé junto que esse livro era pavoroso, um repeteco mal feito com personagem feminina de As Vantagens de Ser Invisível – um livro que, contrariando todas as expectativas, eu não gostei tanto assim. Eu acredito muito que alguns livros surgem na nossa vida quando mais precisamos deles e, de certa forma, acho que foi isso que aconteceu aqui. Embora Laurel, a personagem principal, esteja vivendo um momento muito diferente do meu na sua vida e enfrente problemas que não são, à primeira vista, tão similares assim aos meus, suas cartas deram voz a muitos sentimentos com os quais eu ainda não sabia lidar completamente – a perda, o luto, o medo, a confusão, o inevitável amadurecimento – e me ajudaram a exorcizar alguns demônios que eu vinha tentando ignorar há tempo demais e me perdoar por erros que me assombravam de um jeito que não fazia mais o menor sentido. É um livro realmente delicado e sensível, que me fez chorar um bocado, e que transmitiu uma força fundamental para que eu continuasse colocando um pé na frente do outro nesse ano e tivesse esperanças.

“Talvez ao contar histórias, por pior que sejam, não deixemos de pertencer a elas. Elas se tornam nossas. E talvez amadurecer signifique que você não precisa ser uma personagem seguindo um roteiro. É saber que você pode ser a autora.” 

Oceano no Fim do Caminho, por sua vez, foi meu primeiro contato com um autor que eu já admirava de monte: Neil Gaiman. A surpresa, no entanto, foi descobrir que, muito mais do que uma fábula sobre experiências que temos na infância, a história do livro me fez pensar muito na vida – na minha vida – e que levanta algumas questões que são fundamentais na vida de qualquer pessoa. Não se trata apenas de uma história que você termina e segue com a vida, porque é absolutamente impossível seguir com a vida depois de ter um monte de pequenas porradas sendo jogadas na sua cara em doses homeopáticas, fingindo como se nada tivesse acontecido. Não é por acaso que a história é considerada um romance adulto: embora apresente a jornada de uma criança, todos os assuntos contidos ali conversam muito de perto com questões que, em algum medida, se tornam muito mais próximas à medida que crescemos e tomamos consciência de coisas que, até então, não nos faziam perder o sono. Eu tive inúmeros pesadelos e várias noites mal dormidas durante a leitura, mas foram coisas essenciais para a experiência de ler uma história tão diferente de tudo aquilo com o qual eu já tinha tido contato até então e que me conectou tanto com a minha própria infância.

“Existem monstros de todos os formatos e tamanhos. Alguns deles são coisas que as pessoas têm medo. Alguns são coisas que se parecem com outras das quais as pessoas costumavam ter medo muito tempo atrás. Algumas vezes os monstros são coisas das quais as pessoas deveriam ter medo, mas não têm.”

De todos os livros que li este ano, no entanto, A Arte de Pedir, da Amanda Palmer, foi de longe o meu favorito, aquele que me fez sentir o tempo inteiro e que me ensinou lições que, embora ainda sejam muito difíceis de serem colocadas em prática, são coisas que eu pretendo levar para a vida inteira. Embora o título de autoajuda engane um pouco no início, as quase 300 páginas do livro escondem a história preciosa de uma mulher, artista, mãe, esposa, amiga, filha e tudo mais que possa existir aí no meio, em busca do seu sonho de ser artista e a importância dos laços e conexões em sua vida, bem como a necessidade de aprender a se permitir ser vulnerável. Por mais que pedir seja uma parte importante de sua trajetória, é a vulnerabilidade que está por trás de tudo, e pouco a pouco ela nos mostra que, embora seja difícil pra cacete se permitir ser vulnerável no mundo em que vivemos, essa é uma parte essencial das nossas vidas – uma parte que vai nos encarar quando a gente menos esperar e que, por mais que a gente tente com força, nem sempre vamos ser capazes de fugir. Amanda foi a ajuda que eu precisava para encarar os ciclos que se fecharam no ano passado e com os quais eu não sabia lidar completamente ou que ainda me recusava a aceitar, porque era difícil demais imaginar minha vida sem as pessoas x, y ou z. Hoje, no entanto, por mais que não coloque em prática todos os seus ensinamentos, já não me fecho mais para o mundo como costumava fazer no passado, mas abraço cada possibilidade, cada relação, cada novo caminho, com o que quer que esteja incluso no pacote. É como a Brené Brown diz no prefácio do livro: Passei a maior parte da vida tentando ficar a uma distância segura de qualquer coisa que parecesse incerta ou qualquer pessoas que pudesse me ferir. Porém, como Amanda, aprendi que a melhor maneira de encontrar a luz nas trevas não é afastando as pessoas, mas caindo nos braços delas. É isso aí.

“A percepção de que vulnerabilidade é fraqueza é o mito sobre a vulnerabilidade mais difundido e o mais perigoso. Ao passarmos a vida repelindo e nos protegendo da sensação de vulnerabilidade ou de sermos vistos como emotivos demais, sentimos desprezo quando os outros são menos capazes ou menos dispostos a mascarar os sentimentos, a engolir as coisas e marchar em frente. Chegar ao ponto de, em vez de respeitar e reconhecer a coragem e a ousadia por trás da vulnerabilidade, deixar que nosso medo e nosso desconforto se convertam em juízo e crítica.”

Que sejamos todos mais vulneráveis daqui em diante (e aceitem a porra dos cookies) (ou da flor, risos).   

BOOKWORM

STARSHIPS & QUEENS AWARDS 2015: RETROSPECTIVA LITERÁRIA

Parece piada, mas com muito atraso, preguiça e uma dose de desânimo, finalmente chegamos à última parte deste famigerado prêmio. Sempre deixo pra falar dos livros por último porque a) enquanto blogueira literária, sou uma excelente blogueira de aleatoriedades e coisas irrelevantes em geral; b) eu realmente tenho uma dificuldade enorme para escrever sobre as coisas que leio – mais uma consequência da minha péssima memória do que qualquer outra coisa; e c) de todas as etapas deste prêmio, essa é a que mais exige tempo e paciência, e eu, infelizmente, sou uma pessoa bem preguiçosa. Então sim, apesar de ser um processo divertido, eu morro só de pensar em catar livros, ler sinopses, inventar categorias, escolher quotes e linkar livro por livro.

O engraçado é que, mesmo com toda a preguiça e desânimo do mundo, eu estava realmente ansiosa para escrever esse post, primeiro porque 2015 foi um ano bem produtivo para os meus padrões: 31 livros, no total (vocês que conseguem ler 100 livros no ano, favor valorizar o meu esforço); e segundo porque, apesar de ter lido algumas coisas bem ruins, também li muita (eu disse MUITA) coisa boa e queria compartilhar isso com vocês. De início pensei em usar aquele formato criado pela Tary – que foi o que usei ano passado e foi sucesso -, mas a essa altura minha preguiça já ultrapassa qualquer limite e não ando mesmo com muita paciência, de modo que preferi chutar o balde de vez e apostar num modo mais randômico e completamente descompromissado, de acordo com o que acho mais relevante comentar.

books

LIVROS LIDOS EM 2015

O Duque e EuNão Sou Uma DessasComo Eu Era Antes de VocêÓculos, Aparelho e Rock’n Roll –  ObsessãoAnexosUm DiaGaroto Encontra GarotoPreciso Rodar o MundoA Lista de BrettA Culpa É das Estrelas (releitura) – AmericanahMentirososA Trama do CasamentoAs Vantagens de Ser InvisívelA EsperançaChá de SumiçoA Rainha VermelhaBoneco de NeveContando os DiasDália AzulO Retrato de Dorian GrayO Histórico Infame de Frankie Landau-BanksToda Luz Que Não Podemos VerO Diário Secreto de Lizzie BennetO Grande GatbsyEstação OnzeClube da LutaCanção da RainhaSejamos Todos FeministasFiquei Com Um Famoso

NÃO-FICÇÃO

nãoficção

Acho que a maior novidade de 2015 foi que eu finalmente comecei a dar atenção à livros de não-ficção. Pela primeira vez, pessoas que de fato me interessavam começaram a escrever sobre suas vidas e eu queria saber o que elas tinham para me contar. O primeiro dessa leva foi Não Sou Uma Dessas, da Lena Dunham, um livro mediano, mas com bons momentos. Ele foi meu primeiro contato com a Lena, uma mulher que eu conhecia mais de ouvir falar do que pelo seu trabalho, e realmente não recomendo que vocês façam o mesmo caminho. Algumas partes me incomodaram demais, demais, e eu tenho certeza que isso não teria acontecido se eu já estivesse minimamente acostumada com sua voz. No entanto, algumas partes também são maravilhosas e me fizeram pensar muito sobre várias coisas, inclusive sobre a minha vida. Não chega a ser uma identificação, mas ainda assim.

lena

Não há nada mais corajoso para mim do que uma pessoa anunciar que sua história merece ser contada, sobretudo se essa pessoa é uma mulher. Por mais que tenhamos trabalhado muito e por mais longe tenhamos chegado, ainda existem muitas forças que conspiram para dizer às mulheres que nossas preocupações são fúteis, que nossas opiniões não são relevantes, que não dispomos do grau de seriedade necessário para que nossas histórias tenham importância. 

Além dele, também li Preciso Rodar o Mundo, da Michelli Provensi, e aí a experiência foi completamente diferente. A Michelli é modelo e no livro conta um pouco da sua trajetória na profissão, fala sobre o começo da carreira, as vantagens e desvantagens, compartilha os perrengues que passou e um pouco sobre os lugares que conheceu. É um livro adorável, assim como a Michelli, mas que ao mesmo tempo faz questão de nos lembrar que existe muito mais no mundo da moda do que acredita nossa vã filosofia, e que ser modelo nem sempre significa ser famosa, que nem todo mundo vira Gisele. Mesmo assim é um livro delicioso, e a sensação que eu tive durante toda a leitura (que durou uma noite, no máximo) era a de que eu estava jogada no chão da sala, ouvindo uma amiga que eu não via há muito tempo contar sobre suas aventuras ao redor do mundo.

Contando os Dias foi o livro que me quebrou inteira e deixou meu coração em mil pedacinhos. Ele foi o projeto de conclusão de curso da Analu (!) e traz o relato de mulheres presas em regime semiaberto que tiveram seus filhos no ambiente prisional. Só daí já dá pra ter uma noção do tanto que ele desgraçou minha cabeça. Como a própria Analu diz nas suas primeiras impressões, o que muda entre o que pensamos das pessoas e o que elas realmente são é a distância que nos separa delas. Ler sobre a vida dessas mulheres me fez entender que a gente não sabe de nada mesmo e me lembrou do quanto ter empatia é importante, que somos todos seres humanos, no final das contas.

tumblr_inline_mnjof6ZqZ91qz4rgp

Eu chorei o tempo todo de um jeito que já não chorava há muito tempo, e foi difícil e doeu por cada segundo, mas é pra isso que servem os bons livros.

SÃO QUESTÕES

sãoquestões

São questões, no caso, os livros que ainda não tenho uma opinião muito formada, mas que foram bons o suficiente pra eu considerar uma nova leitura. O primeiro foi A Trama do Casamento, do Jeffrey Eugenides, um livro que eu esperei que me fizesse sentir muitas coisas, mas que não me fez sentir tantas coisas assim. No fundo, acho que foi mais uma questão de ler no momento errado – era fim de semestre, eu estava louca, arrancando os cabelos, tentando (e falhando miseravelmente) conciliar faculdade, estágio e uma vida aí no meio – do que qualquer outra coisa, mas ele também tem seus momentos e o final foi de longe um dos meus favoritos de 2015.

 Mentirosos, da E. Lockhart, é uma grande questão. Porque eu gostei, mas não gostei, sabe assim? Nele acompanhamos Cady, a principal herdeira de uma família muita rica, que sofreu um acidente e agora tenta descobrir o que de fato aconteceu e por quê as pessoas se recusam a contar a verdade sobre o que aconteceu no dia que ela bateu a cabeça. Falando assim, ele é exatamente o tipo de livro que eu mais gosto, mas a quantidade absurda de diálogos me incomodou bastante, assim como o grande mistério que envolve a história que, no final das contas, acaba nem sendo tão grande assim. Por outro lado, a leitura em si foi bem ótima – rápida, fluida, interessante – e o final, apesar de não ser surpreendente, me deixou com a certeza de que esse livro daria um filme sensacional.

O CLÁSSICO

dorian

Desde que comecei a assistir Penny Dreadful, tenho tentado dar mais atenção à personagens clássicos que até então não tinha tido muito interesse em conhecer. Foi assim que O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde, veio parar na minha estante (numa edição horrorosa que eu tenho até vergonha de mostrar, mas ainda assim) e depois acabou virando um dos meus livros favoritos da vida, ainda que seja extremamente misógino (!). Pois é. Não chega a ser uma surpresa (o livro é de 1891), mas causa sim um certo incômodo ler barbaridades mil. O tanto que eu quis jogar esse livro pela janela não tá escrito.

No entanto, eu disse que ele acabou se transformando num dos meus livros favoritos da vida, e é verdade. Apesar de ter essa visão nada gentil sobre as mulheres (pra dizer o mínimo), a história em si é maravilhosa e me fez pensar demais sobre a vida. Aliás, acho que o mais interessante é que, apesar de se passar numa realidade completamente diferente, ele fala de coisas que continuam muito atuais e traz questões que nos faz, de um jeito ou de outro, pensar em nós mesmos – o que é ser jovem e influenciável, nossa relação com a passagem do tempo, etc. Ou seja: os personagens até podem ser uns babacas e talvez o autor seja também, mas recomendo a leitura fortemente mesmo assim.

O MAIS IMPORTANTE

Sempre acho complicadíssimo falar de Americanah, da Chimamanda Ngozi Adichie, porque nada que eu diga vai ser capaz de dar pra vocês a real dimensão da preciosidade que é esse livro e, acima de tudo, o quanto ele é necessário.

Foi um livro que me fez chorar muito, o tempo inteiro, não porque ele conta uma história trágica, mas porque me fez aprender muito, demais, e aprender às vezes dói. Com Ifemelu, a personagem principal, aprendi a reconhecer meus privilégios, a abrir minha cabeça e reconhecer os perigos de uma história única, sobre a importância da representatividade, da diversidade. Ela me ensinou não apenas a ver o outro, mas principalmente a enxergar o outro, e sobre como a gente precisa, sim, ter empatia. Foi um livro que me mostrou que a gente não sabe mesmo de nada e fez com que eu me sentisse burra, muito burra, o tempo inteiro, mas, de novo, é pra isso que servem os bons livros.

Na cultura pop americana, as mulheres bonitas de pele escura são invisíveis (…). Nos filmes, as mulheres de pele escura fazem o papel da empregada gorda e maternal, ou da amiga da protagonista, que é forte, desbocada e às vezes assustadora, e que está sempre ali para dar apoio. Elas falam coisas sábias e têm atitude, enquanto a mulher branca encontra um grande amor. Mas elas nunca podem fazer o papel da mulher gostosa, linda e desejada por todos. 

OS FAVORITOS DE 2015  

osmelhores

No ano mais difícil e maluco e doído e estranho e pesado e intenso da minha vida, é natural que minhas leituras favoritas tenham sido meio assim também: não difíceis ou estranhas, mas intensas, pesadas, doídas e às vezes um pouco malucas também. São livros que, sobretudo, falam sobre a vida – difícil, estranha, doída – de perspectivas muito distintas, é verdade, mas que ainda assim conversaram demais comigo.

O primeiro deles foi Toda Luz Que Não Podemos Ver, do Anthony Doerr, um catatau com mais de 500 páginas sobre a vida de uma jovem francesa cega e um jovem alemão, durante a Segunda Guerra Mundial. Tenho um interesse muito grande por histórias que se passam durante alguma guerra, mas confesso que não esperava gostar desse como acabei gostando – primeiro porque ele é enoooooorme, segundo porque a narrativa é bem lenta, e terceiro porque muita gente eu conheço e que tem um gosto bem parecido com o meu não aguentou e acabou deixando o livro pra lá. Não sei se li no momento certo ou se ele de fato conversou demais comigo (chuto um pouco dos dois), mas foi uma experiência muito preciosa, sabe? É um livro muito delicado, extremamente sensível, triste em alguns momentos, mas bonito na maior parte, que me ensinou lições que não tornaram meu ano mais fácil, mas que me deram mais força pra continuar seguindo em frente.

Às vezes o olho do furacão é o lugar mais seguro para se estar. 

Num extremo oposto, Clube da Luta, do Chuck Palahniuk, veio para desgraçar a minha cabeça já desgraçada, num momento em que a única coisa que eu queria era ler sobre gente escrota caindo na porrada. Era mais um fim de semestre na faculdade, eu tinha perdido o emprego, não tinha mais uma melhor amiga, não suportava mais passar tanto tempo em casa e comecei a descontar minhas frustrações em cima de gente que não tinha nada a ver com o que estava acontecendo. De novo eu estava loucAaAaAaAaAaAa, achando minha vida um bolo inteiro de bostAaAaAaAa. Ver uns macho apanhando era totalmente minha vibe.

fighclub

O livro, no entanto, vai além: apesar de ser uma parte fundamental, a luta não é o mais importante. Por trás de toda a pancadaria, existem discussões bem ótimas sendo feitas (mídia, consumo, a vida, etc etc) e várias questões importantes sendo levantadas enquanto acompanhamos o fluxo de consciência do narrador – e aí foi bem louco perceber que, apesar de estar longe de ser uma história bonitinha-limpinha-a-vida-é-mara, muito do que li ali era exatamente o que eu precisava pra sair do buraco que tinha me enfiado e continuar seguindo em frente com mais calma, sem a necessidade de descontar minhas frustrações em gente que não merecia aguentar as barbaridades que eu andava dizendo. Num livro tenso (e intenso!), sobre gente muito problemática, eu encontrei a calma e a serenidade que me faltavam pra seguir em frente. Vai entender.

Naquela época, a minha vida parecia completa demais, e talvez tenhamos que quebrar tudo para construir algo melhor em nós mesmos.

(I rest my fucking case)

Já o melhor livro de 2015, foi também o melhor livro da minha vida – não por ser impecável ou ter a melhor história do mundo, nem só por ter me feito pensar na minha vida, mas principalmente por tudo que ele me fez sentir. E vocês sabem: os sentimentos são os únicos fatos.

Estação Onze, da Emily St. John Mandel, nos apresenta um mundo distópico dizimado pela Gripe da Geórgia, onde os poucos sobreviventes se esforçam para tentar reconstruir o mundo em que vivem, na medida do possível. Conhecemos, então, seis personagens – Kirsten, Jeevan, Miranda, Clark, o “Profeta”, e Arthur Leander, que é quem une a história de todas essas pessoas. São personagens completos e extremamente complexos, que nos mostram diferentes perspectivas não só sobre o fim do mundo, mas principalmente sobre a vida, independente do cenário. Acho incrível como num livro relativamente curto (ele tem pouco mais de 300 páginas), a Emily consegue construir algo tão forte, único e precioso, que nos faz pensar sobre sobrevivência, família, relacionamentos, memórias, solidão, arte, fama, a efemeridade da vida e a beleza do mundo em que vivemos. Foi a melhor experiência do meu ano e eu realmente espero que vocês me levem a sério dessa vez e leiam Estação Onze.

Ultimamente, ando pensando na imortalidade. No que significa ser lembrado e pelo que desejo ser lembrado, e outras questões relativas à fama e à memória. Adoro filmes antigos. Vejo na tela os rostos de pessoas que morreram muito tempo atrás e penso que elas nunca vão morrer de fato. Sei que isso é um clichê, mas, no caso, é mesmo verdade. Não só os famosos, que todo mundo conhece, os Clark Gable, as Ava Gardner, mas também os atores secundários, a empregada que traz uma bandeja, o mordomo, os caubóis no bar, a terceira garota, da esquerda para a direta, na boate. Todos eles são imortais pra mim. Primeiro, só desejamos ser vistos, porém quando somos vistos, isso já não é mais suficiente. Depois, queremos ser lembrados.

tumblr_nqf1fhGlHo1u9b9ceo1_500

Uma vez a Analu me perguntou se eu tinha um livro da vida, e eu disse que não. Hoje, se ela perguntasse de novo, eu responderia com toda a certeza do mundo: Estação Onze é o livro da minha vida.

Gostaria de agradecer a todos que acreditaram em mim e aguardaram calmamente por esse desfecho. Foram quase quatro meses, mas conseguimos e agora me sinto mais aliviada. Então podemos, oficialmente, voltar com a programação normal deste blog. De novo, agradeço pela paciência, mas prometo não enrolar tanto quando o ano acabar.