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CINEMA & TV

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Nas terras de Lorde Grantham

Comecei a assistir Downton Abbey em meados de junho, sem saber que, em pouco menos de um mês, estaria completamente obcecada pela trama & o drama da família Crawley, bastiões da honra e propriedade de Downton Abbey, e seus empregados. O momento não podia ser mais inapropriado: era fim de semestre, eu estava atolada até o pescoço de trabalho, textos e artigos para escrever, prazos a cumprir, pepinos para resolver, etc etc, mas de repente fui levada para o interior da Inglaterra e de lá não pude mais sair; eu não queria mais sair. Parecia improvável que naquele momento eu pudesse me envolver tanto com uma série, mas foi entre a correria diária e a sensação de estar sempre tão sobrecarregada que descobri novamente o prazer de passar horas na frente da televisão sem tratar a atividade como trabalho ou fazê-lo com culpa, algo que não sentia propriamente desde que terminei a sexta temporada de Call The Midwife, ainda no início do ano. O que eu mais precisava naquele momento era de uma história, qualquer história, que me abraçasse com carinho e me oferecesse uma xícara de chá quentinho e doce, me levando de volta para aquele lugar de prazer e entretenimento genuíno que parecia inacessível há tanto tempo.

Downton Abbey faz exatamente isso, mas existe algo mais sobre aquelas pessoas, sobre aquelas histórias, que não são sempre um conto de fadas, mas ainda nos dão algum conforto. Sempre me sinto meio idiota quando falo que a série salvou minha vida, num momento em que o que eu mais precisava era ser salva, porque parece meio retardado levar as coisas a sério desse jeito, mas é verdade; e quando penso em tudo que estava vivendo naquele momento, nas coisas que estava fazendo e nos fantasmas que inevitavelmente estava enfrentando, nada disso me parece idiota ou retardado. Assisti a série duas vezes e emendei uma terceira – que em breve se transformará numa quarta – e não acho que seja por acaso que em todas elas eu tenha sentido as mesmas coisas, tenha rido e chorado exatamente nas mesmas cenas, e amado com um pouco mais de intensidade os mesmos episódios, me identificado profundamente com os mesmos personagens. Mais de um século me separam daquelas pessoas – e a língua, a cultura, o dinheiro, o título -, mas continuamos sendo apenas humanos, nos identificando uns com os outros mesmo nos cenários mais improváveis. O que mais gosto sobre Downton Abbey é justamente essa capacidade de nos transportar para uma realidade completamente deslocada da nossa própria, mas como dramas muito atuais continuam a fazer sentido numa via de mão dupla – o que às vezes é deprimente, é verdade, mas às vezes é um alívio também.

Não é difícil entender porque tem sido tão difícil superar a série, ao ponto de já ter assistido a mesma história três vezes, certa de que absolutamente nada ia mudar, e mesmo assim não conseguir parar de pensar em todos os seus personagens, e querer falar sobre eles, e escrever sobre eles, e torcer pelo dia em que eles finalmente vão voltar pra mim em um filme com duas horas de duração – o que vai acontecer, embora ninguém saiba exatamente como ou quando. Minhas amigas definitivamente criaram um monstro, e eu já passei tempo demais pedindo desculpas nessa vida para me desculpar agora por ser um monstro tão bonzinho e empolgado. Tem sido maravilhoso redescobrir esse lado fangirl, abusar da boa vontade e paciência das pessoas, e embora eu saiba que essa fase eventualmente irá acabar, queria poder registrá-la de alguma forma, quase como um lembrete daquilo que um dia significou tanto pra mim. Naturalmente, este texto estará repleto de spoilers (independente do que vocês consideram spoiler, risos).

1) PRIMEIRA TEMPORADA

A história começa em 1912, no interior da Inglaterra, mais especificamente no condado de Yorkshire, onde está localizada Downton Abbey, propriedade que dá título à série e cujo direito pertence aos Crawley, uma tradicional família da aristocracia inglesa. É ali que conhecemos Robert, detentor do título de conde de Grantham, herdado após a morte de seu pai; sua esposa, Cora, e suas três belas filhas – Mary, Edith e Sybil. Mas é também onde conhecemos a criadagem, as pessoas que mantém a propriedade em pleno funcionamento e que contribuem para que aquele modo de vida continue existindo. Somos apresentados primeiro a eles, e só depois à família, o que faz bastante sentido, sobretudo quando pensamos que Downton jamais existiria sem aquelas pessoas. É um universo paralelo e são eles que explicam o funcionamento e costumes da casa e da família. Já no primeiro episódio, descobrimos porque os jornais são passados à ferro antes de serem entregues à família, que cada um possui uma leitura de preferência, e que mulheres casadas ou viúvas tomam café da manhã ainda na cama, enquanto as solteiras fazem a refeição à mesa. São pequenos hábitos e detalhes que pouco a pouco constroem essa realidade tão distante da nossa, e nos convida a permanecer naquele lugar, mesmo que, do outro lado, o mundo nos convide a fazer qualquer outra coisa. O primeiro episódio tem a ambiciosa duração de uma hora, mas não é preciso que se passe nem quinze minutos para que o tempo pareça suspenso e a história seja a única coisa que importa.

Além de ser um episódio introdutório, onde somos apresentados aos personagens, costumes e tradições tipicamente inglesas à época, o piloto de Downton Abbey é, também, o primeiro contato que temos com o conflito central daquela temporada: sem um filho homem para herdar a propriedade, o título e o dinheiro de Cora, o clã vê seus planos caírem por terra quando Patrick, filho do futuro herdeiro de Downton, e seu pai morrem no naufrágio do Titanic. Assim, a fortuna, outrora reservada às mãos de parentes próximos – e de sua filha mais velha, Mary, noiva de Patrick à época – passariam a ser direito de Matthew, um parente distante e desconhecido que ganhava a vida como advogado. Ainda no primeiro episódio, Matthew recebe uma carta de Lorde Grantham e, quando questionado pela sua mãe sobre o que se trata, ele diz que Robert vai mudar suas vidas; e é verdade. Algo bastante curioso sobre assistir os mesmos episódios várias vezes é que situações que parecem acontecer de forma lenta e gradual num primeiro momento, se desenvolvem e são resolvidas rapidamente, às vezes num mesmo episódio, quando vistas novamente. Em Downton Abbey, isso jamais significa que elas sejam mal desenvolvidas, mas que muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, e é incrível pensar que todas elas coexistam em harmonia. Grande parte da primeira temporada se dedica ao desenrolar do relacionamento de Mary e Matthew, mas não se restringe a ele: é ali que vemos nascer o romance de Anna e Bates, que acompanhamos Gwen buscar um futuro melhor e Sybil se interessar por política e questionar o status quo.

Gosto especialmente da primeira temporada porque ela traça de forma brilhante um estilo de vida que se torna cada vez mais antiquado e que pouco a pouco se transforma em algo impraticável num mundo que muda com tamanha velocidade. No início, parece quase natural como as coisas funcionam, mas o que Downton Abbey faz é justamente questionar se ainda existe espaço para esse tipo vida e segurança, e mostra que mesmo os Crawley não estão livres das mudanças que surgem com o tempo. É um questionamento que ganha força no futuro, mas que, pra mim, é anunciado ao fim dessa temporada, quando Robert recebe um telegrama informando que a Inglaterra acabara de entrar na Primeira Guerra Mundial; um evento que muda absolutamente tudo.

2) SEGUNDA TEMPORADA

Não estamos mais em Downton, mas sim no front. Bombas, gritos e corações que batem com força são os únicos sons que ouvimos, o que faz bastante sentido. Embora não goste tanto assim dessas cenas, são elas que dão o tom da temporada e traçam uma linha muito bem definida entre passado e presente. O futuro já não é exatamente uma questão; ninguém sabe se ele vai existir ou não, de modo que a única coisa que resta é tentar sobreviver aos tempos difíceis. Em determinado momento, Matthew comenta que o que viveu em Downton parece ter acontecido em outra vida se comparado ao que ele via e vivia tão de perto no front; uma verdade dura, mas ainda uma verdade, muito embora não seja a única. Na propriedade, as coisas também se transformam radicalmente: criados são convocados para lutarem pelo país, mulheres passam a assumir funções antes reservadas aos homens e todos começam a ajudar como podem. Até mesmo a propriedade se transforma em uma casa de repouso para soldados que receberam alta do hospital quando, após o suicídio de um ex-combatente, fica claro que mesmo que seus corpos já não precisem mais de cuidados, aqueles homens não estão prontos para ter uma vida normal.

Todos precisam, então, encontrar uma nova forma de lidar com essas mudanças – o que significa extrapolar a própria zona de conforto, desconhecer limites e permitir-se adaptar às novas mudanças. Alguns enfrentam a situação com mais dificuldade, mas outros encontram a si mesmos justamente nas novas funções que passam a assumir. Cora passa a administrar a casa de repouso, Edith cuida do bem-estar dos pacientes e Sybil, que estudou enfermagem, é quem assume a responsabilidade pelo cuidado médico dessas pessoas, e todas se satisfazem profundamente nessas atividades. O funcionamento da casa muda completamente e a privacidade de outrora deixa de existir. Contudo, quando Sybil diz que quer ser útil, que não quer voltar àquele mundo que vivia antes, ela não está dizendo que deseja estar em guerra para sempre, mas que experimentou uma vida, teve uma oportunidade, e não quer limitar-se novamente a uma realidade de jantares e romances arranjados, algo que também reverbera nos arcos de sua mãe e de Edith. Faz sentido: Sybil, assim como Edith e, em partes, a própria Lady Crawley, descobriu uma nova versão de si mesma e sua capacidade de ocupar espaços que, até então, lhe haviam sido negados. Quando foge com Tom, o motorista, Sybil não está tentando confrontar a própria família, não está sendo uma garota rebelde que deseja tão somente chamar atenção e negar as próprias origens, muito pelo contrário. A união dos dois marca, também, a ruptura de Sybil com o mundo que conhecera antes do conflito – ela deixa de ser Lady Sybil para tornar-se Mrs. Branson, como confidencia à Mary no ano seguinte, algo que a enche de orgulho e satisfação, e abre um mundo de novas possibilidades.

Mas ela não é a única. Para o bem ou para o mal, todos os personagens são afetados pela guerra, de maneira direta ou indireta. Existe a morte, a perda, o luto e o medo, mas muitas das histórias se desenvolvem de modo a nos lembrar que ainda existem questões puramente humanas naquele cenário, como o relacionamento de Matthew e Mary, que já não é mais uma realidade, visto que ambos estão noivos de outras pessoas, ainda que o sentimento continue tão forte quando antigamente. São questões complexas, ambíguas e que não são tão facilmente resolvidas, embora muitos tentem enxergar assim. Além disso, é nessa temporada que conhecemos Ethel, uma criada ambiciosa e petulante, que deseja uma vida melhor para si até o dia que todos os seus sonhos caem por terra. A antes criada de uma respeitada família é demitida sem ter direito a uma carta de referência após se envolver com um major que estava hospedado na casa, de quem, conforme descobrimos mais tarde, Ethel engravida. Ela, então, sofre as consequência por ser uma mãe solteira, se prostitui e vive na miséria, enquanto ao major nada acontece. Em uma temporada onde tantas coisas tristes acontecem – são muitas mortes, muitos (muitos!) dramas -, a história de Ethel recorda, sobretudo, o que significa ser mulher numa sociedade patriarcal.

Contudo, nem só de desgraças é feito o segundo ano da série, que após virar a vida de seus personagens de cabeça para baixo, nos presenteia com um episódio especial de Natal que é, muito provavelmente, o melhor episódio de toda a série. É nesse episódio que Mary e Matthew finalmente se entendem e decidem se casar, num dos meus pedidos favoritos da ficção; com direito à neve e duas pessoas belíssimas se amando demais. É minha temporada favorita, aquela que realmente me prendeu e foi uma divisora de águas entre a Ana que simplesmente gostava de Downton Abbey e o monstro que virei depois, risos.

3) TERCEIRA TEMPORADA

Muito provavelmente a mais polêmica das temporadas, o terceiro ano de Downton Abbey é marcado por uma série de mudanças e tragédias que, mais uma vez, mudam radicalmente os rumos da série. Tudo parece bem até que, numa sucessão terrível de fatos, não está mais. É triste como as coisas mudam de uma hora para outra e presenças que acreditávamos certas se tornam apenas uma lembrança de tempos distantes. Contudo, é em meio à tristeza que muitas das cenas mais bonitas acontecem – e, talvez por isso, goste tanto dessa temporada. Assim como na vida, as alegrias coexistem com a tragédia, formando um grande balaio de coisas boas e ruins que transformam os personagens em novas versões de si mesmos.

O casamento de Mary e Matthew é um dos grandes acontecimentos da temporada, mas não é o único. Bates está na prisão, acusado de assassinar a ex-mulher; Edith é abandonada no altar; Sybil e Tom retornam à Downton; e Robert precisa lidar com a perspectiva de perder a propriedade e o trabalho de sua vida após um investimento que lhe custou toda a fortuna. É aqui que os Crawley finalmente entendem que o mundo está mudando, e que, talvez, eles devam mudar junto com ele. Resistir não parece uma saída, pelo contrário. Assim, quando Matthew salva a propriedade com a herança deixada pelo pai de sua antiga noiva, ele se torna não apenas o herdeiro de Downton, mas passa a dividir a administração da propriedade com Robert que, por sua vez, precisa aprender a lidar com as ideias inovadoras do genro – que são, no final das contas, as grandes responsáveis por salvar Downton da possível ruína. Tom, que até então acreditava não ter um lugar para ocupar ali, passa a desempenhar o papel de mediador entre os dois, e pouco a pouco se aproxima da família, mas principalmente de Matthew, que se torna um verdadeiro amigo e suporte. Da mesma forma, o relacionamento com Matthew traz à tona um lado de Mary que não conhecemos: da mulher que ri, é generosa, e expõe os próprios sentimentos com mais facilidade. As picuinhas com Edith, outrora regra no casarão, se tornam cada vez mais raras. Elas não gostam uma da outra, uma verdade que jamais irá mudar, mas elas aprender a lidar com a presença uma da outra e, pouco a pouco, se desvinculam do inveja e frustração geradas pela relação conturbada e de constante disputa. Mary está feliz com o casamento, ama profundamente o marido e sua maior preocupação passa a ser a vontade de ter um filho e, finalmente, gerar o herdeiro que Downton precisa. Edith, por sua vez, não utiliza o abandono como desculpa para se tornar a vítima da própria história, mas encontra formas assumir as rédeas da sua vida e voltar a ter um espaço todo seu. Ela passa a escrever para um jornal, se envolve com o editor do jornal e pouco a pouco passa a vislumbrar um futuro cada vez mais promissor para si mesma.

Mas há, ainda, as verdadeiras tragédias; aquelas para as quais não há nenhuma solução. Mesmo tendo começado a série já sabendo o que viria a acontecer, existe algo de muito único em ver essas coisas, de fato, acontecerem, sobretudo quando a relação entre espectador e personagens é construída de forma tão íntima e delicada, como é o caso aqui. Existe o apego, existe o carinho, existe o profundo desejo de aquelas pessoas sejam felizes. Matthew e Sybil partem, ironicamente, em momentos de muita alegria; mais uma vez, a alegria que coexiste com a tristeza e a tragédia. A morte de Matthew é a que pega todos de surpresa; não é por acaso que, à época em que o episódio foi ao ar pela primeira vez, muita gente se revoltou, se questionou o que aconteceria depois. É uma morte que muda absolutamente tudo e essas mudanças são palpáveis. Mas a morte de Sybil é mais dramática, mais carregada de tristeza. Ela não causa tantas mudanças na série de forma prática, mas ainda é a morte que, todas as vezes, me faz chorar como se estivesse assistindo pela primeira vez. E que faz todos os personagens chorarem juntos. Ao contrário de Matthew, que não temos acesso ao que aconteceu em sequência à notícia de sua morte, no caso de Sybil, acompanhamos todo o processo de luto. Toda dor, todos os momentos de carinho que surgiam em meio à tristeza, mas também a mágoa. Algumas cenas são tão fortes que jamais saíram da minha cabeça, como quando Mary corre para acordar os pais de madrugada; quando Lady Crawley pede para ficar sozinha com Sybil para se despedir do seu bebê; quando Thomas chora copiosamente ao receber a notícia e é consolado por Anna; quando Mrs. Hughes, ao ver os dois, diz que o espírito mais doce da casa partiu; quando Violet diz a Carson que eles viveram muitas coisas juntos, mas nada tão triste quanto aquilo, e então sai andando sozinha, com dificuldade. É uma tristeza imensa, que extrapola a tela e chega do outro lado, tornando-se um dos momentos mais marcantes de toda a série.

4) QUARTA TEMPORADA

Seis meses se passaram desde a morte de Matthew quando a temporada tem início, com a saída furtiva de O’Brien na madrugada, que abandona a propriedade para viajar pela Índia ao lado da marquesa de Flintshire. Rose, filha da marquesa, está passando um tempo em Downton, a pedido de seu pai, e toda uma torta de climão é servida quando O’Brien vai embora; roubar criados de outra pessoa, afinal, era um negócio muito sério à época. Logo fica claro que Rose não tinha qualquer conhecimento prévio sobre a atitude da mãe, que a pegou de surpresa tanto quanto à família. Numa tentativa de consertar o erro da mãe, Rose sai em busca de uma nova dama de companhia para Lady Crawley, o que eventualmente se torna um problema: a candidata escolhida é Edna Braithwaite (também conhecida como a personagem mais odiosa da série), que fora despedida justamente por forçar uma aproximação problemática com Tom – algo que apenas ele e Mrs. Hughes possuíam conhecimento. Motivada a tirar algum proveito da situação, Edna e Tom acabam se envolvendo, o que dá margem para que ela forje uma gravidez falsa, até a mentira ser descoberta e ela ser mandada novamente embora.

Contudo, nem só de damas de companhia mala é feita a temporada. A grande questão sobre a temporada, tanto para os personagens, quanto para quem assiste do outro lado é: o que vai acontecer agora? As mudanças geradas a partir da morte de Matthew são palpáveis, a começar pela própria Mary, que se recusa a voltar a viver e se torna uma pessoa cada vez mais difícil de lidar, enfiada num buraco do qual ninguém consegue tirá-la. É só após ter contato com uma carta de Matthew, escrita pouco antes da sua morte, onde ele expressa o desejo de deixar toda a herança para Mary, que as coisas mudam e ela volta a ter… vida. Mary assume seu lugar como proprietária majoritária de Downton, passa a exercer funções administrativas ao lado do seu pai e de Tom. Embora pretendentes apareçam nesse meio tempo, Mary os dispensa, porque não se sente pronta para tal, de modo que o momento se torna ótimo para termos contato com uma nova faceta da personagem, tão incrível quanto a mulher sedutora e determinada que apresentara no passado. Uma das minhas cenas favoritas, aliás, é quando Mary se suja inteira de lama para salvar seus porcos ao lado de Charles Blake (também conhecido como o melhor ship que nunca aconteceu); uma prova de que ela está de volta, e nunca esteve em tão boa forma. Ao mesmo tempo, Edith começa a viver seu drama pessoal ao lado do editor, Michael Gregson, que desaparece após ir para a Alemanha numa tentativa de conseguir um divórcio para casar-se com Edith. Ela, por sua vez, descobre-se grávida pouco tempo após a partida de Michael, e muito embora sua realidade a impeça de ter o mesmo destino de Ethel (um ponto que a Michas levantou em uma de nossas conversas sobre a série e achei super pertinente), até mesmo para uma mulher rica e de nome, tonar-se mãe solteira é um problema.

Além disso, essa é, também, a temporada em que Anna sofre um estupro, o que até hoje me questiono se era realmente necessário. Que Anna & Bates são o casal mais sofrido da ficção não é exatamente uma novidade, mas existe algo de muito incômodo num crime tão bárbaro que serve tão somente para adicionar mais sofrimento a uma história já tão sofrida. É uma cena perturbadora por demais, com direito à ópera, que abafa os gritos de Anna, que é violentada no andar de baixo, e mesmo sem nada ver além de uma porta (graças a Deus), nós sofremos com ela, choramos por ela. Essa, definitivamente, foi uma virada que jamais vi vindo e, quando aconteceu, pareceu demais até pra mim. Um limite é definitivamente ultrapassado, o que fica ainda mais evidente quando Anna é acusada injustamente pelo assassinato do estuprador; mas, mais uma vez, esse é apenas um lembrete do que é ser mulher numa sociedade que ainda nos nega o papel de sujeito. Não é por acaso que, para a maioria das pessoas, a quarta temporada seja a menos favorita – um fato que até mesmo eu, que gosto bastante dela, apesar dos pesares, sou obrigada a reconhecer.

5) QUINTA TEMPORADA

Estou exatamente no primeiro episódio da quinta temporada pela terceira vez, mas por algum motivo, essa é a temporada do qual menos tenho recordações. Ao contrário de suas antecessoras, que permanecem frescas na minha mente, a quinta temporada é aquele momento em que as coisas ficam meio estranhas e, de repente, você já não se lembra de muita coisa, não sabe bem o que aconteceu – que não significa que seja uma temporada ruim, só não tão emocionante quanto as outras. Após uma temporada em Londres, quando Rose é devidamente apresentada à sociedade, os Crawley estão de volta a Yorkshire e, pouco a pouco, as coisas voltam aos seus devidos lugares: Mary vive um momento da sua vida em que já não precisa estar casada, ela apenas quer estar casada, o que faz toda diferença, e permite que ela seja criteriosa em sua escolha, demorando todo o tempo necessário e toda prova possível para garantir um casamento feliz. Edith, por outro lado, passar a tocar a própria vida, dividindo-se entre o jornal deixado para ela por Michael e o drama de estar tão perto e tão longe da própria filha, a pequena Marigold, que passa a ser criada por Mrs. Drewe, mulher de um fazendeiro local, sem saber que se trata da filha de Edith. Naturalmente, é um arranjo fadado ao fracasso e que eventualmente faz suas vítimas, mas adiciona novos contornos à trajetória de Edith, que se vê definitivamente sozinha quando descobre que Michael foi assassinado em um motim liderado por (à época, um tal de) Hitler.

O foco é momentaneamente tirado das Crawley mais jovens para se voltarem para personagens a quem, até então, a possibilidade de romance não parecia uma realidade. Isobel, mãe de Matthew, passa a ser cortejada por Lorde Merton, padrinho de Mary, com quem tem um romance conturbado, com direito a filhos que não aceitam o novo relacionamento do pai e servem tortas de climão por onde passam (definitivamente, as piores pessoas do mundo). Também é na quinta temporada que descobrimos o passado pouco convencional da condessa viúva, Violet Crawley, que quando jovem quase fugira com um príncipe russo, mas fora impedida pela princesa, que literalmente a puxou para fora da carruagem e a enviou de volta ao marido. Quando os dois se reencontram, o príncipe Kuragin já não é sequer um príncipe, mas um refugiado, que perdera tudo, absolutamente tudo, após a Revolução Russa. Ele, contudo, ainda deseja viver seus últimos dias ao lado de Violet, que recusa, porque naquele momento, já não acredita que a proposta faça algum sentido. Mas é ao relembrar o passado da condessa viúva que Downton Abbey subverte a imagem da senhora dura, racional e indissociavelmente alinhada aos valores tradicionais para mostrar que, antes de tudo isso, Violet é humana, o que significa que mesmo ela teve a sua cota de agir com impulsividade e coração. Quando compartilha sua história com Isobel, ela fala sobre o incidente de um lugar em que o abandono dos filhos e do título lhe parecem absurdos, mas Violet jamais se condena; ela também fora jovem, muito jovem, e abandonar sua família para viver ao lado do homem que amava parecia fazer todo o sentido do mundo. É essa mesma Violet que, no ano seguinte, diz à Mary que acredita em muitas coisas, mas sobretudo no amor, e é algo que faz muito sentido, ainda que essa seja uma faceta reservada a poucos.

Há, ainda, Cora, que passa a ser cortejada pelo historiador Simon Bricker, amigo de Charles Blake, que passa a frequentar a propriedade da condessa por causa de uma obra de arte. Logo o interesse muda de figura, quando Bricker passa a flertar com Cora. Ela aprecia sua companhia, mas a amizade chega ao fim quando, numa noite, Bricker aparece sem ser convidado em seu quarto, o que termina em uma briga com Robert, que chega de surpresa, porque lógico. Robert e Cora passam algum tempo sem se falar, até que ele seja lembrado de seus erros do passado e volte atrás, mas o mais interessante sobre essa história é que Cora, antes a mulher à sombra do marido, mostra que é muito mais do que uma mulher preocupada com roupas e criadagem, ou o cardápio do jantar. Ela é uma mulher interessante e inteligente; algo que Robert, depois de tantos anos, veio a esquecer. Cora passa a ganhar mais autonomia dentro do próprio casamento; o que às vezes incomoda o marido, mas que lhe dá cada vez mais certeza e segurança sobre seu valor. À medida que se encaminha para o seu final, a série começa a traçar o desfecho de seus personagens; e o de Cora é assim: seguro, confiante, bonito. Ainda que não seja minha favorita, a quinta temporada é um lembrete do por quê gostamos tanto de Downton Abbey e porque somos tão apaixonados por todos aqueles personagens – o que, inevitavelmente, nos faz lamentar o iminente fim. É nessa temporada, ainda, que Rose e Atticus se conhecem, talvez o casal mais adorável da série; que aparecem pouco, muito pouco depois de casados, mas se podemos ter alguma certeza é a de que, independente de onde estejam, Rose e Atticus estarão felizes.

6) SEXTA TEMPORADA

É a última temporada, aquela em que todos os arcos começam a ser concluídos e todos os episódios passam a ter um gostinho de despedida. Por ser a única que tenho baixada – na época que assisti, ela ainda não tinha chegado na Netflix – foi, também, a que assisti mais vezes: qualquer tempinho era motivo para dar um passeio por aquelas histórias, caminhar com aquelas pessoas e relembrar que apesar de todos os pesares, fica tudo bem. E é lindo. A série não se esquiva do que acontece de ruim, daquilo que é difícil, das personalidades complexas demais com as quais está lidando, mas não utiliza isso como uma desculpa para transformar a si mesma numa série séria & sombria; ela, afinal, nunca teve a pretensão de ser séria, menos ainda sombria (Downton Abbey sombria kkk). Assim, mesmo os dramas mais complicados ganham desfechos satisfatórios e são encarados de forma mais natural, quase como se a arte fosse, de fato, um retrato de nossas próprias vidas (exceto que não somos nobres da Inglaterra do século XX, mas bear with me).

Não é por acaso que, embora eu goste muito de muitas coisas nessa temporada, uma das minhas cenas favoritas seja, justamente, uma cena em que personagens são finalmente confrontados pelos seus próprios demônios e tentam se redimir, não pedindo desculpas por ser quem são, mas numa tentativa de se tornarem versões melhores de si mesmos. Mary erra demais. Mary erra tanto que desgraça a vida da própria irmã, que teve literalmente um único momento de felicidade na vida inteira. Que chegou tão, tão perto de ser feliz, e de repente, Mary lhe tirara aquilo, do jeito mais mesquinho possível. É uma cena dolorosa porque a gente vê quanto o ser humano pode ser feio, pequeno e complexo do jeito mais horrível possível, e é exatamente sobre isso que Tom fala pra Mary, naquela que é uma das minhas cenas favoritas da série inteira. Então ela pode ser mesmo uma pessoa horrível, Mary pensa. E não podemos todos? Mary destrói Edith porque ela é, sim, uma pessoa horrível, como a própria Edith foi uma pessoa horrível quando, lá na primeira temporada, expôs o segredo de Mary sobre a morte de Mr. Pamuk para a embaixada Turca, como eu fui uma pessoa horrível quando me ressenti pelas conquistas de pessoas que amo profundamente, mas ainda assim fui incapaz de não pensar “por que ela e não eu?”. Gosto de como Mary não é condenada por ser uma pessoa horrível, mas encontra uma forma de subverter essa narrativa e se tornar uma pessoa melhor, por tentar consertar as coisas, ainda que não se possa desfazer o passado; o que todos deveríamos fazer, mas poucos são realmente capazes de concretizar. Gosto de como Edith, contrariando todas as expectativas, se torna marquesa, é aceita por ser quem é e com Marigold à tiracolo, tem o casamento digno da pessoa maravilhosa que se tornou.

E gosto de como os criados também ganham seus momentos de alegria. Gosto de como Thomas encontra uma luz depois de tanta tristeza. De como Anna finalmente consegue realizar o desejo de ser mãe. De como Gwen aparece de novo e janta com seus antigos patrões, na casa que um dia ela limpou e trocou os lençóis da cama. Como mesmo após se casar, Rose continua sendo a mulher expansiva e sorridente de sempre, e como Atticus continua encantado pela sua luz, rindo como bobo o tempo inteiro. De como Mr. Molesley se realiza como professor. Como Daisy se torna uma mulher iluminada, consciente, com um futuro não mais limitado à cozinha. Como Mrs. Hughes e Mr. Carson se casam, são felizes juntos. Na última cena, todos os personagens se unem e cantam juntos, numa cena linda, linda de morrer, deixando todos os corações aquecidos. É o fim, até que se prove o contrário, e é o fim que sempre sonhamos; como um quentinho no coração e o gosto doce do chocolate. Amém.

CINEMA & TV

Maratona Oscar 2017: Parte III

Antes tarde do que nunca, cá estou para a terceira e última parte da minha maratona. Infelizmente, não consegui cobrir todos os filmes que queria, mas foi o ano que consegui cobrir mais categorias e fico feliz por ter superado minhas expectativas, embora o cansaço seja muito, muito real. Não confirmo nem nego que minha vontade sincera era ficar alguns meses sem assistir filme nenhum – o que será absolutamente impossível, mas bear with me. A maior parte dos filmes desse ano são maravilhosos, então apesar do cansaço, a maior parte da maratona foi igualmente maravilhosa – eu só estou feliz demais que acabou e depois de hoje vou poder dormir em #paz.

Como de costume, mais tarde vou estar lá no twitter comentando, me revoltando e dando pitacos não requisitados sobre os indicados. Sigam-me os bons e não me deixem falando sozinha. Grata.

LION – UMA JORNADA PARA CASA (Garth Davis)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Dev Patel), Melhor Atriz Coadjuvante (Nicole Kidman), Melhor Roteiro Adaptado (Luke Davis), Melhor Fotografia (Greig Fraser) e Melhor Trilha Sonora (Dustin O’Halloran e Hauschka).

Sobre o que é? Um jovem indiano que se perde da família e acaba indo viver na Austrália com uma família adotiva. Vinte anos depois, ela tenta reencontrar a mãe, redescobrir suas raízes e entender o que aconteceu naquele dia em que ele saiu de casa com seu irmão mais velho para nunca mais voltar.

Prestou? Muito, muito, muito! A história é realmente linda, as atuações são impecáveis e você se emociona sem nem fazer força. Embora o filme não se dê o luxo de passar tempo demais explorando os vários aspectos da vida de Saroo, o personagem principal, você consegue entender as relações que ele constrói com cada pessoa, entender suas necessidades, suas frustrações, e se importar verdadeiramente com tudo o que está acontecendo. Por mais que eu nem sempre concordasse com sua atitudes, era impossível ficar com raiva de uma pessoa que perdeu tanto, mas que ao mesmo tempo era tão adorável, simples, com um sorriso enorme no rosto e que realmente valorizava as oportunidades que teve – e num filme que fala tanto de raízes quanto fala de privilégio, é realmente incrível ver um personagem que entende os privilégios que adquiriu, entende que aquilo não é a regra, mas sim a exceção, e que nunca cospe no prato que comeu. É um filme delicado demais, sensível demais, bonito demais, e que despertou em mim sentimentos muito preciosos. Então sim, é um filme que eu recomendo e recomendo com força.

Sinceramente? O que esse filme me destruiu não tá escrito. Queria dar um abraço no Dev Patel, pedir pra ser amiga, colega, pinguim de geladeira, qualquer coisa; e levar pra casa o pequeno Sunny Pawar, a criança mais adorável que você respeita. Infelizmente, numa disputa que só existe pra cumprir protocolo como a desse ano, acho bem difícil que leve alguma coisa. No entanto, se eu pudesse dizer alguma coisa é: assistam Lion, se apaixonem pela história e me agradeçam depois.

LOVING (Jeff Nichols)

Indicações: Melhor Atriz (Ruth Negga).

Sobre o que é? O casal Loving que se casou na década de 50, quando o casamento inter-racial ainda era proibido no estado da Virgínia, onde ambos residiam. Como punição, os dois são exilados do estado e só podem voltar separados, e é dessa forma que eles vivem durante alguns anos – pelo menos até que Mildred Loving, cansada de viver longe da família e em um lugar tão pouco favorável para se criar uma criança, escreve para Bobby Kennedy, que passa o caso dos Loving para a UCLA. A partir daí, o casal entra em uma briga na justiça contra o estado da Virgínia em busca do direito de viverem felizes onde bem entenderem.

Prestou? Horrores. A história de Mildred e Richard Loving é real e eles foram responsáveis por mudar toda a constituição dos Estados Unidos, estabelecendo que sim, o casamento inter-racial era um direito de todos os cidadãos norte-americanos, onde quer que eles estivessem – uma luta que não só beneficiou os dois, mas muitos outros casais que se viram contemplados pela decisão da Suprema Corte. Ruth Negga faz um trabalho espetacular como Mildred, uma mulher tímida, mas cheia de vontade de viver uma vida plena ao lado do marido e dos filhos, e com uma força que quase nunca está associada à mulher no cinema. É um filme lindo de verdade.

Sinceramente? O fato de ter recebido tão poucas indicações já diz um bocado sobre a opinião da Academia. Por mais que seja um filme lindo, sensível do início ao fim e com uma personagem tão fundamental em um momento que tanto se fala sobre a representatividade da mulher no cinema, é realmente uma pena que Loving não tenha sido indicado em mais categorias, e que saia de mãos abanando logo mais.

MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR (Barry Jenkins)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Barry Jenkins), Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Melhor Atriz Coadjuvante (Naomie Haris), Melhor Roteiro Adaptado (Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney), Melhor Fotografia (James Laxton), Melhor Edição (Nat Sanders e Joi McMillon) e Melhor Trilha Sonora (Nicholas Britell).

Sobre o que é? Procurei um milhão de sinopses diferentes, mas nenhuma delas faz jus à história que Moonlight de fato conta. Porque ele não é apenas um filme sobre um jovem negro descobrindo a si mesmo enquanto vive a implacável realidade que o maltrata em tempo integral. É sobre isso também, é claro, mas é muito mais, infinitamente mais – e talvez por isso seja tão difícil escrever sobre ele. É sobre um jovem tentando fugir da criminalidade quando esteve a vida toda no meio dela. É sobre relacionamentos. É sobre pessoas que são boas e más ao mesmo tempo, complexas como qualquer ser humano. É sobre negritude. É sobre a socialização masculina. É sobre o tráfico, sobre bullying. Mas é, principalmente, um filme sobre pessoas, tão delicado quanto deveria ser.

Prestou? Nada que eu diga vai ser suficiente pra dizer o quanto esse filme prestou, então só posso dizer que sim, prestou e prestou demais. A história é extremamente sensível, e embora trate de assuntos pesados como o tráfico de drogas, bullying e o uso de drogas, tudo é contado com uma delicadeza e um cuidado que deveria ser regra no cinema, mas infelizmente ainda é a exceção. Gosto particularmente de como a sexualidade é introduzida na vida de Chiron, das conversas com Juan e Teresa, e da relação com a mãe, que embora seja muito complexa e extremamente conturbada, é tratada com o mesmo cuidado de todo o filme – que não assume uma postura condenatória para com a personagem, dando a dimensão das consequências de suas escolhas não somente na vida do filho, mas na dela própria.      

Sinceramente? Podia sair rapando os prêmios tudo que ia ser bem merecido. Ainda tenho esperanças que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas esteja realmente empenhada em não só indicar negros e negras nas categorias principais, mas também a premiar essas pessoas quando elas merecerem – e Moonlight merece demais. Nada contra La La Land (inclusive, amo profundamente!), mas alguns filmes merecem infinitamente mais levar o prêmio pra casa e é importante que a gente reconheça isso também. Moonlight é um desses – que a Academia não dê mais uma bola fora esse ano.

Pra finalizar, a lista com minhas apostas (lembrando que esses não são, necessariamente, os filmes que estou torcendo para levarem o prêmio, mas aqueles que eu acredito que têm mais chances, mesmo ainda estando MUITO confusa e sem muita certeza de nada. 2017, definitivamente um ano estranho pra cacete).

Melhor Filme: Moonlight – Sob a Luz do Luar
Melhor Diretor: Damien Chazelle
Melhor Atriz: Isabelle Huppert
Melhor Ator: Casey Affleck
Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali
Melhor Atriz Coadjuvante: Viola Davis
Melhor Roteiro Original: La La Land
Melhor Roteiro Adaptado: Moonlight – Sob a Luz do Luar
Melhor Animação: Zootopia: Essa Cidade é o Bicho
Melhor Canção Original: “Audition (The Fools Who Dream)” – La La Land
Melhor Fotografia: A Chegada
Melhor Figurino: La La Land
Melhor Maquiagem e Cabelo: Star Trek: Sem Fronteiras
Melhor Mixagem de Som: Até o Último Homem
Melhor Edição de Som: A Chegada
Melhores Efeitos Visuais: Doutor Estranho
Melhor Design de Produção: La La Land
Melhor Edição: Até o Último Homem
Melhor Trilha Sonora: La La Land

> Esqueci de avisar no último post: agora estou devidamente registrada no Gato Curioso, o que significa que vocês estão liberados para me perguntarem o que quiserem sobre a vida, o universo e tudo mais. Como sou completamente maluca, prometo responder até as perguntas mais cabeludas, então vão lá, deixem suas perguntas, façam confissões e é isso aí.

CINEMA & TV

Maratona Oscar 2017: Parte II

É possível que eu tenha jurado de pé junto que nenhuma temporada de premiações da vida dessa que vos escreve tinha sido tão preguiçosa, mas aí, depois de finalmente começar a assistir aos filmes, me arrependi por não ter começado antes. Porque é uma verdade universalmente conhecida que embora os indicados muitas vezes não pareçam promissores, quase sempre a gente acaba se apaixonando por um ou outro – e a segunda parte da minha maratona está aí pra provar que, por mais que a gente esbarre com alguns filmes bem mais ou menos no meio do caminho, alguns são tão incríveis quanto a gente torce pra ser.

Antes que alguém venha falar alguma coisa (ou a quem interessar possa): a terceira parte da maratona e as minhas apostas (!) entram mais tarde, assim que eu terminar de assistir os filmes que ainda faltam, risos. Ia postar tudo junto dessa vez, mas preferi não abusar da paciência de ninguém e dividir em três posts ao invés de dois pra não ficar grande demais. Por favor, não desistam de mim.

UM LIMITE ENTRE NÓS (Denzel Washington)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Denzel Washington), Melhor Atriz Coadjuvante (Viola Davis) e Melhor Roteiro Adaptado (August Wilson)

Sobre o que é? Um homem negro de meia-idade, pobre e frustrado com a carreira como jogador de beisebol que não decolou, que passa por uma crise no casamento e vive um momento particularmente conturbado de sua vida, que começa a estabelecer limites nas relações que, pouco a pouco, vão se desfazendo – daí o nome do filme. Baseado na peça homônima (que é interpretada pelos mesmos atores do filme), a história se passa no norte dos Estados Unidos e mostra que mesmo num estado onde o racismo era tido como uma questão superada, a realidade ainda estava muito distante disso. Ele não é Um Filme Sobre Racismo™, mas deixa muito claro como essas questões pautavam a vida de seus personagens, colocando um milhão de obstáculos em seus caminhos.

Prestou? São questões. É uma história densa sobre pessoas, relacionamentos, racismo e raiva, principalmente sobre raiva. Existe muita raiva – às vezes contida, às vezes nem tanto – em praticamente todas as relações que o personagem principal estabelece com as pessoas ao seu redor, e quase todas as atitudes dele são pautadas por esse sentimento: seja a fuga de sua própria realidade quando trai a mulher; a frustração, a agressividade, a forma como trata os filhos e a esposa. Gosto particularmente que praticamente todas as cenas mais relevantes se passem no quintal, especialmente quando a câmera nos lembra da própria experiência teatral, quase como se realmente estivéssemos sentados em uma poltrona e tudo aquilo se desenrolasse num palco à nossa frente; e talvez por isso o filme erre tanto ao tentar fazer algo diferente. Além disso, embora a analogia com a cerca construída pelo personagem seja muito boa, ela nunca recebe atenção suficiente pra que a gente realmente entenda aquilo como uma parte que diz muito mais sobre a história do que aquilo que é dito em cena.

Sinceramente? Queria matar o personagem do Denzel Washington de cinco em cinco minutos – e isso não é exagero, considerando que todas as minhas amigas que assistiram ao filme tiveram a mesma reação. É muito difícil gostar de um cara que agride tanto as pessoas ao seu redor, que afasta aqueles que o amam por ser incapaz de superar a própria frustração. A relação que ele tem com Rose, sua mulher, interpretada belamente por Viola Davis, é problemática demais, demais, demais, ao ponto de eu dar graças quando ela finalmente se viu livre daquela sombra horrorosa do marido, sozinha com sua filha – porque sim, Raynell se tornou sua filha também. É uma história que eu realmente tive bastante dificuldade de engolir e, não por acaso, foi um dos filmes que menos gostei de toda a maratona. Viola merece demais o Oscar e acho que esse prêmio dela ninguém tira, mas provavelmente vai ser só isso mesmo.

FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER? (Stephen Frears)

Indicações: Melhor Atriz (Meryl Streep) e Melhor Figurino (Consolata Boyle).

Sobre o que é? Florence Foster Jenkins, uma cantora e socialite norte-americana, apaixonada por música, que ficou famosa na década de 40 pelo seu talento peculiar como cantora, risos. Florence cantava mal, muito mal. Mas isso não a impedia de se apresentar e fazer aquilo que mais amava. Muito além da música, no entanto, a história de Florence é a trajetória emocionante – e por vezes triste – de uma mulher que sofreu demais em vida e ainda assim encontrou um jeito de continuar seguindo seu caminho; que amou, foi amada, e encontrou em meio à dor uma forma de continuar sorrindo.

Prestou? Demais! Meryl Streep dá vida a uma Florence adorável e muito apaixonada – pela música, pelo seu marido e pela vida -, às vezes um tanto inocente, mas também muito determinada. Mesmo lutando contra a sífilis, uma doença que a limitava de várias formas – ela precisou deixar de tocar piano quando a doença atacou os nervos da sua mão, não podia manter relações sexuais com o próprio marido, além da perda dos cabelos e do mal estar físico que sentia por vezes -, Florence não se permitia abater e nem entristecer. Ela se torna luz na vida daqueles que a conhecem e não é difícil que, do outro lado, a gente se sinta tocado da mesma forma. É inevitável não se apaixonar, chorar e se inspirar com essa mulher.

Sinceramente? Amei demais. Embora não seja um filme inovador, a história é muito delicada, sensível, mas cheia de luz e boas energias, assim como a própria Florence. Ao mesmo tempo que chorei horrores com a sua história, Florence me fez rir como nenhum filme dessa temporada de premiações fez e deixou meu coração verdadeiramente aquecido num momento em que tudo que eu mais precisava era justamente disso. Infelizmente, não imagino que ele ganhe alguma coisa. Embora Meryl Streep esteja adorável, só uma zebra muito grande vai tirar a estatueta da mão de Isabelle Huppert – e mesmo que isso aconteça, duvido que Meryl seja a pessoa a fazer isso. Melhor figurino é uma questão, mas sempre há esperança.

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Mel Gibson)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Mel Gibson), Melhor Ator (Andrew Garfield), Melhor Mixagem de Som (Kevin O’Connel, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace), Melhor Edição de Som (Robert Mackenzie e Andy Wright) e Melhor Edição (John Gilbert).

Sobre o que é? A história real do médico Desmond Doss, o homem que se alistou no exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, mas que se recusou a pegar numa arma e não só sobreviveu para contar sua história, como ajudou muitas pessoas a sobreviverem também, mesmo no meio do caos que era o front de batalha.

Prestou? Com força. A história de Doss é realmente incrível, cativante, uma dessas histórias que me fazem crer que, embora a gente ainda fale muito sobre guerra – especialmente sobre a Segunda Guerra – ainda existem muitas histórias por aí que podem e devem ser contadas. Ao mesmo tempo, eu, que não conhecia o trabalho do Mel Gibson como diretor, fiquei realmente sem chão por gostar TANTO de algo feito por um homem que eu não tenho nenhum motivo pra gostar. Seu trabalho é realmente impecável, as cenas de batalha são muito viscerais, sem medo de mostrar a verdadeira face da guerra, e eu admirei o suficiente pra pensar que se algum dia fizesse um filme sobre guerra, queria fazer algo no mesmo estilo, com a mesma força e o mesmo cuidado. Bem triste, mas não deixa de ser verdade.

Sinceramente? É uma verdade universalmente conhecida que Damien Chazelle possivelmente vai levar o prêmio de direção pra casa, mas eu realmente me questiono se Mel Gibson não tem chances reais também. Se ganhar, vai ser aquele prêmio com gosto de derrota: amei o trabalho, mas realmente não vou bater palma pra um maluco desses dançar. Andrew Garfield, por outro lado, é uma figura tão adorável que eu me vi torcendo genuinamente pra ele arrancar o prêmio das mãos do babaca do Cassey Affleck de uma vez e levar essa estatueta pra casa. Ademais, tem chances em edição e mixagem de som, mas acredito que só.

A QUALQUER CUSTO (David Mackenzie) 

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Jeff Bridges), Melhor Roteiro Original (Taylor Sheridan) e Melhor Edição (Jake Roberts).

Sobre o que é? Dois irmãos que, depois da morte da mãe, decidem assaltar uns bancos pra alguma coisa que até agora eu não entendi direito enquanto dois policiais tentam encontrar esses bandidos que roubavam por algum motivo que ninguém conseguiu entender também.

Prestou? Infelizmente, não. O cenário é maravilhoso, a trilha sonora é um primor para quem gosta de música country, fora que Jeff Bridges e Chris Pine são bem ótimos; mas isso não é suficiente pra segurar por quase duas horas uma história que não faz sentido nenhum. O filme nunca engrena de verdade, os personagens não são exatamente interessantes e a história não chega a ser o tipo de coisa que você vai ter vontade de passar quase duas horas da sua vida assistindo. Foi o filme mais fraco dessa temporada de premiações que assisti e, não por acaso, o mais esquecível também.

Sinceramente? Eu queria gostar muito desse filme, de verdade. Eu amo o Jeff Bridges, amo que a trilha sonora seja cheia de pérolas da música country e até consigo ir com a cara do Chris Pine, mas não deu. Fora a última cena e as tomadas no meio da estrada, que mostram as paisagens lindíssimas das estradas americanas ao som da melhor country music que você respeita, não tem nada ali que valha a pena. Não duvido nada que ele termine sendo o Grande Desaplaudido da Noite™, e infelizmente não vai ser uma surpresa quando isso acontecer. Triste, mas tem outros troféu.

LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES (Damien Chazelle)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Damien Chazelle), Melhor Atriz (Emma Stone), Melhor Ator (Ryan Gosling), Melhor Roteiro Original (Damien Chazelle), Melhor Canção Original (“Audition (The Fools Who Dream)” e “City Of Stars”), Melhor Fotografia (Linus Sandgren), Melhor Figurino (Mary Zophres), Melhor Mixagem de Som (Andy Nelson, Ai-Ling e Steve A. Morrow), Melhor Edição de Som (Ai-Ling e Mildred Iatrou Morgan), Melhor Design de Produção (David Wasco e Sandy Reynolds-Wasco), Melhor Edição (Tom Cross) e Melhor Trilha Sonora (Justin Hurwitz).

Sobre o que é? Mia e Sebastian são dois jovens sonhadores que vão para Hollywood atrás daquilo que desejam pra si: ela, se tornar uma grande atriz de cinema; ele, apaixonado por jazz, um respeitado músico. No meio do caminho os dois se conhecem, se odeiam, depois se apaixonam, tudo isso enquanto correm atrás dos seus sonhos e dançam e cantam por uma Los Angeles ensolarada que brilha como as estrelas de uma noite sem nuvens. É um filme lindo, completamente deslocado da realidade, cheio de referências, que celebra não só o jazz, mas principalmente Hollywood, o cinema clássico e os sonhos que sempre foram a força motriz dessa indústria imensa.

Prestou? Demais! Embora ele não seja tudo isso que as pessoas estão dizendo, fico feliz que ele exista pra nos lembrar que ainda existem pessoas nesse mundo que acreditam em sonhos, que são apaixonadas por aquilo que fazem, que acreditam demais numa ideia tão ambiciosa quanto essa, mas principalmente que existam pessoas dispostas a fazer esse sonho – que é o que o filme é, no final das contas – acontecer. É por isso que eu realmente fico desgraçada da cabeça quando as pessoas começam a falar mal do filme e traçar paralelos com a situação atual dos Estados Unidos e a presidência do Trump. La La Land é uma ode ao cinema clássico, à Hollywood, ao sonhos, e também ao american dream, é claro, mas isso não quer dizer perigoso como muita gente se cansou de escrever por aí. Nenhum filme existe no vácuo, eles sempre vão ter uma mensagem além, mas dizer que o filme é o pavor dos nossos tempos é demais pra mim.

Sinceramente? É uma verdade universalmente conhecida que La La Land vai levar todos os prêmios e não sou eu que vou dizer que não. Embora ele não seja tão inovador, é um filme ambicioso, que se arrisca, e que tem a coragem de entregar algo que já não acontecia há bastante tempo. Mesmo que minha torcida não esteja com ele em todas as categorias – existem filmes mais importantes, melhores e que merecem mais levar o prêmio pra casa -, não vou ficar descontente caso ele leve, porque às vezes a gente só precisa lembrar que o cinema é essa fábrica de sonhos linda, imensa e incrível, e que num mundo tão difícil quanto o que vivemos, às vezes é importante ter alguém (ou algo) pra nos lembrar que é possível continuar a sonhar.

CINEMA & TV

Maratona Oscar 2017: Parte I

Desde o ano passado, eu tenho sentido uma preguiça muito particular com o Oscar. Embora ele continue sendo minha premiação favorita, cada ano que passa os filmes me empolgam menos, a premiação em si me empolga menos, e fica difícil levar os resultados realmente a sério quando os bastidores provam que quem ganha e quem perde é muito mais uma questão de contatos e referências do que, necessariamente, uma recompensa por trabalho duro e um atestado de qualidade. Sad but fucking true.

Ao contrário de 2016 – o ano dos caras brancos de óculos, como todos os outros -, 2017 trouxe algumas novidades que deveriam, em tese, me animar um bocado: muitos filmes protagonizados por mulheres, vários desses protagonizados por mulheres negras, e uma diversidade de indicados que, embora ainda não seja suficiente, foi bastante significativo se comparado aos anos anteriores. Mas mesmo assim eu continuei desanimada, continuei a ter uma dificuldade ridícula de sentar a bunda na cadeira e assistir algum indicado, e principalmente escrever sobre ele depois. Não por acaso, todos que eu assisti até o momento foram os filmes que precisei assistir para escrever sobre depois e que envolviam prazos que eu precisa, na medida do possível, cumprir – o que diz muito sobre minha boa vontade (ou falta de) para com o cinema no momento, de modo geral.

A maratona desse ano é uma tentativa possivelmente frustrada de tentar dar conta dos principais indicados e enfrentar toda a preguiça do mundo – que é o que toma conta do meu corpo cada vez que penso no assunto – e dar minha opinião não requisitada sobre cada um deles, mantendo a tradição deste maravilhoso blog. Assim como no ano passado, resolvi usar o formato que a Anna Vitória usou em 2015 – o mesmo que usei em 2016 e foi sucesso. Apertem os cintos e vamos lá.

A CHEGADA (Denis Villeneuve)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Denis Villeneuve), Melhor Roteiro Adaptado (Eric Heisserer), Melhor Fotografia (Bradford Young), Melhor Mixagem de Som (Bernard Gariépy Strobl e Claude La Haye), Melhor Edição de Som (Sylvain Bellemare), Design de Produção (Patrice Vermette e Paul Hotte) e Melhor Edição (Joe Walker).

Sobre o que é? Baseado no conto de Ted Chiang, o filme conta a história de Louise Banks, uma doutora em linguística que passa a trabalhar em conjunto com o governo norte-americano para descobrir uma forma de se comunicar com alienígenas que chegaram na Terra sabe-se lá vindos de onde, mas aparentemente não estão interessados em começar uma guerra ou qualquer coisa assim.

Prestou? DEMAIS! A princípio, ele parece só mais um filme de ficção científica, mas ele é muito, muito mais, o tipo de filme que capaz de construir uma experiência verdadeiramente única, que te faz refletir sobre a nossa própria histórica e arranca lágrimas sinceras, sem nunca se tornar piegas – o tipo de filme que eu adoraria fazer se algum dia fosse trabalhar com direção. Amy Adams traz à tona uma Louise Banks assustadoramente real, que é corajosa, determinada e de uma força inestimável, mas que também sente medo e também se sente insegura. Sua história nos atinge em um nível muito profundo, mas com a mesma delicadeza com que sua relação com os extraterrestres é construída. Não foi por acaso que ele se tornou um dos meus filmes favoritos da vida inteira, que possui um significado enorme pra mim e do qual eu jamais vou ser capaz de esquecer.

Sinceramente? Acho um absurdo que Amy Adams não esteja concorrendo à Melhor Atriz porque o que aquela mulher faz em cena é um troço absurdo (!) de tão bom e eu queria de verdade vê-la pelo menos concorrendo ao prêmio. Além das categorias técnicas, que acho que o filme tem chances reais de levar a maioria, não imagino que leve nenhum outro prêmio – fora o de roteiro que, embora a briga esteja acirrada, acho que ainda tem chances reais de levar.

JACKIE (Pablo Larraín)

Indicações: Melhor Atriz (Natalie Portman), Melhor Figurino (Madeline Fontaine) e Melhor Trilha Sonora (Mica Levi).

Sobre o que é? O assassinato do presidente John F. Kennedy, em 1963, e o que aconteceu no período entre sua morte e o velório, tudo pela perspectiva da ex-primeira dama, Jacqueline Kennedy. Ele vai e volta a partir das memórias de Jackie, como ela era conhecida em seu círculo mais íntimo de pessoas, ao mesmo tempo que, no presente, ela conversa sobre os eventos com o jornalista da revista Life, responsável pela primeira entrevista da primeira-dama após o assassinato do marido.

Prestou? São questões. Assisti ao filme duas vezes e ainda não consegui identificar o que me incomoda particularmente. Na teoria, Jackie é um filme incrível: ele realmente mostra como é feita a construção do mito, como a mídia manipula fatos, histórias e principalmente a imagem das pessoas, e como por trás das figuras imortalizadas de celebridades e pessoas públicas, existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia. Jackie era uma mulher inteligentíssima, que tinha plena consciência disso, e mesmo após a morte do marido, cuidou para que seu legado nunca fosse destruído. Mas na prática, ele não é tão incrível assim. De todas as coisas que me incomodaram, no entanto, acho que a trilha sonora é a pior: eficiente em construir o clima do filme, mas ao mesmo tempo precisa em destruí-la. Vai entender.

Sinceramente? Provavelmente leva figurino, talvez leve trilha sonora, mas só uma zebra muito grande faz Natalie Portman levar essa estatueta pra casa.

ELLE (Paul Verhoeven)

Indicações: Melhor Atriz (Isabelle Huppert).

Sobre o que é? Um thriller protagonizado por uma mulher que, após ser estuprada dentro da própria casa, passa a receber ameaças do seu abusador enquanto tenta lidar com o trauma que sofreu e descobrir quem é o criminoso por trás do abuso.

Prestou? Elle é um filme intenso, controverso, polêmico, e que joga algumas ideias que eu não sei se são realmente boas ou se são um desserviço completo, mas eu gostei demais. Ainda que seja a história de uma mulher contada por um homem, ele desconstrói radicalmente o estereótipo do estuprador em um beco escuro, e mostra que, na maioria dos casos, quem comete o crime é uma pessoa próxima à vítima. Ao mesmo tempo, ele constrói uma protagonista que não se deixa definir pelo trauma, e que embora possua sentimentos conflituosos em relação ao que sofreu, alguns dos quais eu questionei o tempo inteiro, se torna muito humana justamente por isso. Foi uma representação completamente nova pra mim, que me surpreendeu horrores e que, por mais que não seja um filme fácil de assistir, eu recomendo com força pra todo mundo.

Sinceramente? Isabelle Huppert é rainha e só não leva essa estatueta pra casa se um repeteco de 2013 acontecer. Minha torcida é dela e eu realmente vou tacar uma bomba nessa Academia fajuta se ela não for a vencedora. Ao mesmo tempo, queria muito que o filme concorresse nas demais categorias, por ser um filme fora do eixo norte-americano, mas principalmente por dar visibilidade – e uma nova interpretação – para uma questão tão importante. Infelizmente, não vai ser dessa vez, mas tem outros troféu.

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO  (Theodore Melfi)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) e Melhor Roteiro Adaptado (Allison Schroeder e Theodore Melfi).

Sobre o que é? A trajetória de Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson, três cientistas negras da NASA que foram absolutamente fundamentais na corrida espacial travada entre Estados Unidos e União Soviética, durante a Guerra Fria. O filme é um retrato do privilégio branco, que oprime e silencia inúmeras pessoas até hoje, mas que é amplamente ignorado por quem dele usufrui; pessoas que fizeram com que essas mulheres – assim como muitas outras – se tornassem figuras até então desconhecidas pelo grande público, mesmo exercendo papéis tão fundamentais na história norte-americana.

Prestou? Prestou tanto que dizer que ele é, muito provavelmente, o melhor filme dessa temporada de premiações não é exagero. É absolutamente impossível não se emocionar com a história de Katherine, Dorothy e Mary, e se identificar com elas, torcer por elas, querer ser como elas, chorar suas derrotas e celebrar suas vitórias. É um filme construído com um cuidado e delicadeza impressionantes, que não desumaniza suas personagens, mas apresenta mulher complexas e multifacetadas, cheias de nuances, com personalidades muito distintas e que traçam trajetórias muito diferentes, enfrentando cada uma a sua própria batalha. É lindo, lindo, lindo demais, mas acima de tudo um filme importante, que todo mundo deveria parar para assistir.

Sinceramente? É quando filmes como Estrelas Além do Tempo não recebem todas as indicações que merecia, que eu perco totalmente a minha fé no Oscar. Acho um abuso muito grande que Octavia Spencer tenha sido a única indicada, quando tanto Taraji P. Henson quanto Janelle Monáe fizeram trabalhos tão sensíveis e excelentes. Além disso, o fato de concorrer apenas em três categorias continua dizendo muito mais sobre o Oscar e seus critérios que ninguém entende, do que sobre a qualidade de um filme – ou, no caso, de uma preciosidade como Estrelas Além do Tempo. Espero de verdade que Octavia Spender leve a estatueta pra casa, mas já me preparo psicologicamente para decepções futuras.  

MANCHESTER À BEIRA-MAR (Kenneth Lonergan)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Direção (Kenneth Lonergan), Melhor Ator (Casey Affleck), Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Melhor Roteiro Original (Kenneth Lonergan) e Melhor Fotografia (James Laxton).

Sobre o que é? Um cara que, após perder o irmão, é obrigado a voltar para sua cidade natal e desenterrar vários fantasmas do passado, ao mesmo tempo que luta com o próprio luto – pela morte do irmão, mas também por tragédias anteriores que se passaram naquele mesmo cenário. É um filme sobre a dor de perder alguém, as diferentes formas de lidar com o luto, e a morte, de um modo geral.

Prestou? Depende muito do que você avalia. Enquanto produção, Manchester à Beira-Mar é sim um bom filme. Ele trata o luto com uma delicadeza surpreendente, mas ao mesmo tempo o constrói de uma forma muito crua, que se aproxima de uma forma assustadora da realidade: a vida segue, a dor continua, mas precisamos continuar dando um passo depois do outro, esse tipo de coisa. Mas ele é ainda um filme sobre homens brancos, contados sob a perspectiva de um outro homem branco, o que pra mim já é suficiente pra não colocá-lo no pedestal que todas as pessoas do mundo parecem colocar. Além disso, pra mim é impossível ignorar que esse é um filme protagonizado por um casa acusado de tantas coisas absurdas, e isso automaticamente me faz gostar bem menos dele.

Sinceramente? Queria enfiar um murro nas fuças de quem ainda acha que caras como o Cassey Affleck devem ser julgados pelo seu trabalho e que tudo bem ignorar seu comportamento repulsivo na vida pessoal. Entretanto, esse é bem o tipo de mentalidade retrógrada dos caras que compõe a Academia, fora que o filme, por si só, é o tipo de coisa que a Academia ama de paixão premiar, então sim, as chances de que Manchester à Beira-Mar e Cassey Affleck saiam vitoriosos são maiores do que eu gostaria de  admitir. Sad, but true.

CINEMA & TV

Maratona Oscar 2016: Parte I

Então chegamos naquela época do ano. O Carnaval já acabou, as ruas ainda estão cheias de confete, mas o melhor ainda está por vir: falo, claro, do Oscar, nosso amado & odiado prêmio, que acontece no final desse mês. É o momento em que nós, pessoas maravilhosas dessa internet, que fingem que não têm nada melhor para fazer da vida, damos nossas opiniões não-requisitadas sobre os indicados, defendemos nossos favoritos e elegemos os odiados da temporada. É uma época muito maravilhosa essa.

Normalmente essa é uma das minhas épocas favoritas do ano, mas tenho me sentido especialmente preguiçosa em 2016 e bem pouco empolgada com a maioria dos indicados nas categorias principais. Não sei o que aconteceu (na verdade eu sei, mas não vamos falar de coisas ruins), mas como nunca consigo resistir, prometi que, se conseguir assistir todos os indicados a Melhor Filme, já vou me dar por satisfeita. Como não estava muito inspirada, resolvi seguir o formato que a Anna Vitória usou no ano passado e foi sucesso. Espero que seja sucesso aqui também. Por favor, segurem minha mão e vamos lá.

PERDIDO EM MARTE (RIDLEY SCOTT)

the martian

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Matt Damon), Roteiro Adaptado, Mixagem de Som, Edição de Som, Efeitos Visuais e Design de Produção.

Sobre o que é? Um astronauta que é dado como morto durante uma tempestade em Marte e é deixado para trás pelos colegas. O negócio é que, contrariando todas as expectativas, o cara sobrevive e agora precisa dar um jeito de continuar vivo no Planeta Vermelho enquanto espera por resgate.

Prestou? Demais. Apesar de parecer só mais um filme chato sobre o Universo, a história é realmente boa e a experiência toda muito divertida. A atuação do Matt Damon é boa o suficiente pra ter feito com que eu risse, chorasse e genuinamente me importasse com o personagem principal, sem contar a trilha sonora, que é fantástica (lembrando que quem está dizendo isso é uma pessoa que nunca presta atenção em trilhas sonoras no geral).

Sinceramente? Foi meu favorito até agora. Assisti morrendo de preguiça e se não fosse Guilherme me arrastando pro cinema, possivelmente não teria visto até hoje. Eu odeio filmes sobre astronautas e missões que dão errado, e também odeio ficar aflita no cinema, então foi uma surpresa bem ótima essa de ter amado tanto The Martian. Não acho que leve o prêmio principal, muito menos que Matt leve uma estatueta pra casa, no máximo alguma categoria mais técnica e só. Mas recomendo muito fortemente.

PONTE DOS ESPIÕES (STEVEN SPIELBERG)

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Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Mark Rylance), Roteiro Original, Mixagem de Som, Design de Produção e Trilha Sonora.

Sobre o que é? Um advogado do Brooklyn que, durante a Guerra Fria, defendeu um espião soviético e foi duramente criticado pelo povo americano, até ser enviado para Berlim para negociar a troca desse mesmo espião por dois americanos (um piloto meio babaca e um estudante legalzinho que ninguém faz muita questão de raptar além dele próprio) e imediatamente virar o herói da nação.

Prestou? Olha, ruim não é. A história é até bem interessante, principalmente pra quem curte a temática (eu curto bastante), e gosto muito de como não colocaram o personagem do Mark Rylance numa posição de vilão, mas sim como um cara que só estava ali fazendo seu trabalho, um senhorzinho muito tranquilo que só quer voltar pra casa e rever a família, muito diferente da imagem que eu teria de um espião soviético (?). Mas no fundo, não deixa de ser um filme americano sobre Guerra Fria (ainda mais dirigido pelo Spielberg), meio quadradão e limpinho demais.

Sinceramente? Acho que vai ser o grande desaplaudido da noite. É um filme com cara de Oscar, mas ainda não sei muito bem o que ele está fazendo ali (aliás, não sei o que a maioria dos indicados estão fazendo ali). Queria demais que o Mark levasse esse Oscar pra casa, mas a concorrência é forte, então acho bem difícil.

MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA (GEORGE MILLER)

mad max

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Fotografia, Figurino, Maquiagem & Cabelo, Mixagem de Som, Edição de Som, Efeitos Visuais, Design de Produção e Edição.

Sobre o que é? Um bando de gente suja e esquisita correndo no deserto.

Prestou? Depende do referencial. Eu não gosto de filme com gente suja e esquisita, não gosto desses cenários pós-apocalípticos onde tudo vira deserto e odeio filme barulhento, então eu não gostei nem um pouco. Mas é um blockbuster, e enquanto blockbuster acho que sim, deu super certo. Só não é mesmo a minha vibe (mas o maluco tocando guitarra é mesmo sensacional).

Sinceramente? Não faço a menor ideia do que esse filme foi fazer no Oscar. Não é só porque eu não gostei. Eu não gostei, não consegui entender o apelo, não consegui entender qual a grande inovação que ele traz porque até agora ele é só um filme que mostra um bando de maluco correndo de carro no deserto. Não é um filme de Oscar. Não é um filme bom. Mas deve levar alguma coisa, tipo Fotografia ou Efeitos Visuais.

SPOTLIGHT – SEGREDOS REVELADOS (TOM MCCARTHY)

spotlight

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Roteiro Original e Edição.

Sobre o que é? Um grupo de jornalistas que resolve investigar uma série de casos de abuso da Igreja Católica em Boston e, consequentemente, acabam desencadeando uma onda de revelações de novos casos ao redor do mundo, instaurando uma crise numa das instituições mais antigas da história.

Prestou? Bastante. Ele foca no trabalho dos jornalistas, em todo o processo de investigação – correr atrás de fontes, receber uma porrada de “nãos” e dar com a cara na porta várias vezes até conseguir de fato alguma coisa -, e não no escândalo que a publicação deflagra, o que pra mim foi uma novidade. Mesmo assim é uma história bem intensa, que mexeu em níveis comigo, e que dá um exemplo maravilhoso de que é muito possível fazer cinema de qualidade sem enfiar duzentas firulas no pacote.

Sinceramente? Apesar de ter gostado muito e ter me emocionado bastante e me revoltado etc, fiquei com a sensação de que faltou alguma coisa – o que foi mais ou menos a mesma sensação de todo mundo que esperou ver o circo pegar fogo depois da publicação. A verdade é que, por mais que seja muito interessante acompanhar o trabalho dos jornalistas, é meio um balde de água fria não ver o resultado de um trabalho tão polêmico. A gente espera ver isso, a gente quer ver isso, mas não é essa a proposta do filme. Mesmo assim ele é muito muito bom, e já que Perdido em Marte não leva o prêmio principal, minha torcida até agora fica com Spotlight.

> Caso vocês queiram acompanhar minhas amigas maravilhosas que também estão nessa furada, é só clicar: Palo e Cacau
>> Sei que ainda tô devendo a retrospectiva literária, mas eu realmente ando com muita preguiça de falar sobre livros, então vamos adiantando outros assuntos nesse meio tempo. Prometo que uma hora esse post sai.