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CINEMA E TV

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NAS TERRAS DE LORDE GRANTHAM

Comecei a assistir Downton Abbey em meados de junho, sem saber que, em pouco menos de um mês, estaria completamente obcecada pela trama & o drama da família Crawley, bastiões da honra e propriedade de Downton Abbey, e seus empregados. O momento não podia ser mais inapropriado: era fim de semestre, eu estava atolada até o pescoço de trabalho, textos e artigos para escrever, prazos a cumprir, pepinos para resolver, etc etc, mas de repente fui levada para o interior da Inglaterra e de lá não pude mais sair; eu não queria mais sair. Parecia improvável que naquele momento eu pudesse me envolver tanto com uma série, mas foi entre a correria diária e a sensação de estar sempre tão sobrecarregada que descobri novamente o prazer de passar horas na frente da televisão sem tratar a atividade como trabalho ou fazê-lo com culpa, algo que não sentia propriamente desde que terminei a sexta temporada de Call The Midwife, ainda no início do ano. O que eu mais precisava naquele momento era de uma história, qualquer história, que me abraçasse com carinho e me oferecesse uma xícara de chá quentinho e doce, me levando de volta para aquele lugar de prazer e entretenimento genuíno que parecia inacessível há tanto tempo.

Downton Abbey faz exatamente isso, mas existe algo mais sobre aquelas pessoas, sobre aquelas histórias, que não são sempre um conto de fadas, mas ainda nos dão algum conforto. Sempre me sinto meio idiota quando falo que a série salvou minha vida, num momento em que o que eu mais precisava era ser salva, porque parece meio retardado levar as coisas a sério desse jeito, mas é verdade; e quando penso em tudo que estava vivendo naquele momento, nas coisas que estava fazendo e nos fantasmas que inevitavelmente estava enfrentando, nada disso me parece idiota ou retardado. Assisti a série duas vezes e emendei uma terceira – que em breve se transformará numa quarta – e não acho que seja por acaso que em todas elas eu tenha sentido as mesmas coisas, tenha rido e chorado exatamente nas mesmas cenas, e amado com um pouco mais de intensidade os mesmos episódios, me identificado profundamente com os mesmos personagens. Mais de um século me separam daquelas pessoas – e a língua, a cultura, o dinheiro, o título -, mas continuamos sendo apenas humanos, nos identificando uns com os outros mesmo nos cenários mais improváveis. O que mais gosto sobre Downton Abbey é justamente essa capacidade de nos transportar para uma realidade completamente deslocada da nossa própria, mas como dramas muito atuais continuam a fazer sentido numa via de mão dupla – o que às vezes é deprimente, é verdade, mas às vezes é um alívio também.

Não é difícil entender porque tem sido tão difícil superar a série, ao ponto de já ter assistido a mesma história três vezes, certa de que absolutamente nada ia mudar, e mesmo assim não conseguir parar de pensar em todos os seus personagens, e querer falar sobre eles, e escrever sobre eles, e torcer pelo dia em que eles finalmente vão voltar pra mim em um filme com duas horas de duração – o que vai acontecer, embora ninguém saiba exatamente como ou quando. Minhas amigas definitivamente criaram um monstro, e eu já passei tempo demais pedindo desculpas nessa vida para me desculpar agora por ser um monstro tão bonzinho e empolgado. Tem sido maravilhoso redescobrir esse lado fangirl, abusar da boa vontade e paciência das pessoas, e embora eu saiba que essa fase eventualmente irá acabar, queria poder registrá-la de alguma forma, quase como um lembrete daquilo que um dia significou tanto pra mim. Naturalmente, este texto estará repleto de spoilers (independente do que vocês consideram spoiler, risos).

1) PRIMEIRA TEMPORADA

A história começa em 1912, no interior da Inglaterra, mais especificamente no condado de Yorkshire, onde está localizada Downton Abbey, propriedade que dá título à série e cujo direito pertence aos Crawley, uma tradicional família da aristocracia inglesa. É ali que conhecemos Robert, detentor do título de conde de Grantham, herdado após a morte de seu pai; sua esposa, Cora, e suas três belas filhas – Mary, Edith e Sybil. Mas é também onde conhecemos a criadagem, as pessoas que mantém a propriedade em pleno funcionamento e que contribuem para que aquele modo de vida continue existindo. Somos apresentados primeiro a eles, e só depois à família, o que faz bastante sentido, sobretudo quando pensamos que Downton jamais existiria sem aquelas pessoas. É um universo paralelo e são eles que explicam o funcionamento e costumes da casa e da família. Já no primeiro episódio, descobrimos porque os jornais são passados à ferro antes de serem entregues à família, que cada um possui uma leitura de preferência, e que mulheres casadas ou viúvas tomam café da manhã ainda na cama, enquanto as solteiras fazem a refeição à mesa. São pequenos hábitos e detalhes que pouco a pouco constroem essa realidade tão distante da nossa, e nos convida a permanecer naquele lugar, mesmo que, do outro lado, o mundo nos convide a fazer qualquer outra coisa. O primeiro episódio tem a ambiciosa duração de uma hora, mas não é preciso que se passe nem quinze minutos para que o tempo pareça suspenso e a história seja a única coisa que importa.

Além de ser um episódio introdutório, onde somos apresentados aos personagens, costumes e tradições tipicamente inglesas à época, o piloto de Downton Abbey é, também, o primeiro contato que temos com o conflito central daquela temporada: sem um filho homem para herdar a propriedade, o título e o dinheiro de Cora, o clã vê seus planos caírem por terra quando Patrick, filho do futuro herdeiro de Downton, e seu pai morrem no naufrágio do Titanic. Assim, a fortuna, outrora reservada às mãos de parentes próximos – e de sua filha mais velha, Mary, noiva de Patrick à época – passariam a ser direito de Matthew, um parente distante e desconhecido que ganhava a vida como advogado. Ainda no primeiro episódio, Matthew recebe uma carta de Lorde Grantham e, quando questionado pela sua mãe sobre o que se trata, ele diz que Robert vai mudar suas vidas; e é verdade. Algo bastante curioso sobre assistir os mesmos episódios várias vezes é que situações que parecem acontecer de forma lenta e gradual num primeiro momento, se desenvolvem e são resolvidas rapidamente, às vezes num mesmo episódio, quando vistas novamente. Em Downton Abbey, isso jamais significa que elas sejam mal desenvolvidas, mas que muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, e é incrível pensar que todas elas coexistam em harmonia. Grande parte da primeira temporada se dedica ao desenrolar do relacionamento de Mary e Matthew, mas não se restringe a ele: é ali que vemos nascer o romance de Anna e Bates, que acompanhamos Gwen buscar um futuro melhor e Sybil se interessar por política e questionar o status quo.

Gosto especialmente da primeira temporada porque ela traça de forma brilhante um estilo de vida que se torna cada vez mais antiquado e que pouco a pouco se transforma em algo impraticável num mundo que muda com tamanha velocidade. No início, parece quase natural como as coisas funcionam, mas o que Downton Abbey faz é justamente questionar se ainda existe espaço para esse tipo vida e segurança, e mostra que mesmo os Crawley não estão livres das mudanças que surgem com o tempo. É um questionamento que ganha força no futuro, mas que, pra mim, é anunciado ao fim dessa temporada, quando Robert recebe um telegrama informando que a Inglaterra acabara de entrar na Primeira Guerra Mundial; um evento que muda absolutamente tudo.

2) SEGUNDA TEMPORADA

Não estamos mais em Downton, mas sim no front. Bombas, gritos e corações que batem com força são os únicos sons que ouvimos, o que faz bastante sentido. Embora não goste tanto assim dessas cenas, são elas que dão o tom da temporada e traçam uma linha muito bem definida entre passado e presente. O futuro já não é exatamente uma questão; ninguém sabe se ele vai existir ou não, de modo que a única coisa que resta é tentar sobreviver aos tempos difíceis. Em determinado momento, Matthew comenta que o que viveu em Downton parece ter acontecido em outra vida se comparado ao que ele via e vivia tão de perto no front; uma verdade dura, mas ainda uma verdade, muito embora não seja a única. Na propriedade, as coisas também se transformam radicalmente: criados são convocados para lutarem pelo país, mulheres passam a assumir funções antes reservadas aos homens e todos começam a ajudar como podem. Até mesmo a propriedade se transforma em uma casa de repouso para soldados que receberam alta do hospital quando, após o suicídio de um ex-combatente, fica claro que mesmo que seus corpos já não precisem mais de cuidados, aqueles homens não estão prontos para ter uma vida normal.

Todos precisam, então, encontrar uma nova forma de lidar com essas mudanças – o que significa extrapolar a própria zona de conforto, desconhecer limites e permitir-se adaptar às novas mudanças. Alguns enfrentam a situação com mais dificuldade, mas outros encontram a si mesmos justamente nas novas funções que passam a assumir. Cora passa a administrar a casa de repouso, Edith cuida do bem-estar dos pacientes e Sybil, que estudou enfermagem, é quem assume a responsabilidade pelo cuidado médico dessas pessoas, e todas se satisfazem profundamente nessas atividades. O funcionamento da casa muda completamente e a privacidade de outrora deixa de existir. Contudo, quando Sybil diz que quer ser útil, que não quer voltar àquele mundo que vivia antes, ela não está dizendo que deseja estar em guerra para sempre, mas que experimentou uma vida, teve uma oportunidade, e não quer limitar-se novamente a uma realidade de jantares e romances arranjados, algo que também reverbera nos arcos de sua mãe e de Edith. Faz sentido: Sybil, assim como Edith e, em partes, a própria Lady Crawley, descobriu uma nova versão de si mesma e sua capacidade de ocupar espaços que, até então, lhe haviam sido negados. Quando foge com Tom, o motorista, Sybil não está tentando confrontar a própria família, não está sendo uma garota rebelde que deseja tão somente chamar atenção e negar as próprias origens, muito pelo contrário. A união dos dois marca, também, a ruptura de Sybil com o mundo que conhecera antes do conflito – ela deixa de ser Lady Sybil para tornar-se Mrs. Branson, como confidencia à Mary no ano seguinte, algo que a enche de orgulho e satisfação, e abre um mundo de novas possibilidades.

Mas ela não é a única. Para o bem ou para o mal, todos os personagens são afetados pela guerra, de maneira direta ou indireta. Existe a morte, a perda, o luto e o medo, mas muitas das histórias se desenvolvem de modo a nos lembrar que ainda existem questões puramente humanas naquele cenário, como o relacionamento de Matthew e Mary, que já não é mais uma realidade, visto que ambos estão noivos de outras pessoas, ainda que o sentimento continue tão forte quando antigamente. São questões complexas, ambíguas e que não são tão facilmente resolvidas, embora muitos tentem enxergar assim. Além disso, é nessa temporada que conhecemos Ethel, uma criada ambiciosa e petulante, que deseja uma vida melhor para si até o dia que todos os seus sonhos caem por terra. A antes criada de uma respeitada família é demitida sem ter direito a uma carta de referência após se envolver com um major que estava hospedado na casa, de quem, conforme descobrimos mais tarde, Ethel engravida. Ela, então, sofre as consequência por ser uma mãe solteira, se prostitui e vive na miséria, enquanto ao major nada acontece. Em uma temporada onde tantas coisas tristes acontecem – são muitas mortes, muitos (muitos!) dramas -, a história de Ethel recorda, sobretudo, o que significa ser mulher numa sociedade patriarcal.

Contudo, nem só de desgraças é feito o segundo ano da série, que após virar a vida de seus personagens de cabeça para baixo, nos presenteia com um episódio especial de Natal que é, muito provavelmente, o melhor episódio de toda a série. É nesse episódio que Mary e Matthew finalmente se entendem e decidem se casar, num dos meus pedidos favoritos da ficção; com direito à neve e duas pessoas belíssimas se amando demais. É minha temporada favorita, aquela que realmente me prendeu e foi uma divisora de águas entre a Ana que simplesmente gostava de Downton Abbey e o monstro que virei depois, risos.

3) TERCEIRA TEMPORADA

Muito provavelmente a mais polêmica das temporadas, o terceiro ano de Downton Abbey é marcado por uma série de mudanças e tragédias que, mais uma vez, mudam radicalmente os rumos da série. Tudo parece bem até que, numa sucessão terrível de fatos, não está mais. É triste como as coisas mudam de uma hora para outra e presenças que acreditávamos certas se tornam apenas uma lembrança de tempos distantes. Contudo, é em meio à tristeza que muitas das cenas mais bonitas acontecem – e, talvez por isso, goste tanto dessa temporada. Assim como na vida, as alegrias coexistem com a tragédia, formando um grande balaio de coisas boas e ruins que transformam os personagens em novas versões de si mesmos.

O casamento de Mary e Matthew é um dos grandes acontecimentos da temporada, mas não é o único. Bates está na prisão, acusado de assassinar a ex-mulher; Edith é abandonada no altar; Sybil e Tom retornam à Downton; e Robert precisa lidar com a perspectiva de perder a propriedade e o trabalho de sua vida após um investimento que lhe custou toda a fortuna. É aqui que os Crawley finalmente entendem que o mundo está mudando, e que, talvez, eles devam mudar junto com ele. Resistir não parece uma saída, pelo contrário. Assim, quando Matthew salva a propriedade com a herança deixada pelo pai de sua antiga noiva, ele se torna não apenas o herdeiro de Downton, mas passa a dividir a administração da propriedade com Robert que, por sua vez, precisa aprender a lidar com as ideias inovadoras do genro – que são, no final das contas, as grandes responsáveis por salvar Downton da possível ruína. Tom, que até então acreditava não ter um lugar para ocupar ali, passa a desempenhar o papel de mediador entre os dois, e pouco a pouco se aproxima da família, mas principalmente de Matthew, que se torna um verdadeiro amigo e suporte. Da mesma forma, o relacionamento com Matthew traz à tona um lado de Mary que não conhecemos: da mulher que ri, é generosa, e expõe os próprios sentimentos com mais facilidade. As picuinhas com Edith, outrora regra no casarão, se tornam cada vez mais raras. Elas não gostam uma da outra, uma verdade que jamais irá mudar, mas elas aprender a lidar com a presença uma da outra e, pouco a pouco, se desvinculam do inveja e frustração geradas pela relação conturbada e de constante disputa. Mary está feliz com o casamento, ama profundamente o marido e sua maior preocupação passa a ser a vontade de ter um filho e, finalmente, gerar o herdeiro que Downton precisa. Edith, por sua vez, não utiliza o abandono como desculpa para se tornar a vítima da própria história, mas encontra formas assumir as rédeas da sua vida e voltar a ter um espaço todo seu. Ela passa a escrever para um jornal, se envolve com o editor do jornal e pouco a pouco passa a vislumbrar um futuro cada vez mais promissor para si mesma.

Mas há, ainda, as verdadeiras tragédias; aquelas para as quais não há nenhuma solução. Mesmo tendo começado a série já sabendo o que viria a acontecer, existe algo de muito único em ver essas coisas, de fato, acontecerem, sobretudo quando a relação entre espectador e personagens é construída de forma tão íntima e delicada, como é o caso aqui. Existe o apego, existe o carinho, existe o profundo desejo de aquelas pessoas sejam felizes. Matthew e Sybil partem, ironicamente, em momentos de muita alegria; mais uma vez, a alegria que coexiste com a tristeza e a tragédia. A morte de Matthew é a que pega todos de surpresa; não é por acaso que, à época em que o episódio foi ao ar pela primeira vez, muita gente se revoltou, se questionou o que aconteceria depois. É uma morte que muda absolutamente tudo e essas mudanças são palpáveis. Mas a morte de Sybil é mais dramática, mais carregada de tristeza. Ela não causa tantas mudanças na série de forma prática, mas ainda é a morte que, todas as vezes, me faz chorar como se estivesse assistindo pela primeira vez. E que faz todos os personagens chorarem juntos. Ao contrário de Matthew, que não temos acesso ao que aconteceu em sequência à notícia de sua morte, no caso de Sybil, acompanhamos todo o processo de luto. Toda dor, todos os momentos de carinho que surgiam em meio à tristeza, mas também a mágoa. Algumas cenas são tão fortes que jamais saíram da minha cabeça, como quando Mary corre para acordar os pais de madrugada; quando Lady Crawley pede para ficar sozinha com Sybil para se despedir do seu bebê; quando Thomas chora copiosamente ao receber a notícia e é consolado por Anna; quando Mrs. Hughes, ao ver os dois, diz que o espírito mais doce da casa partiu; quando Violet diz a Carson que eles viveram muitas coisas juntos, mas nada tão triste quanto aquilo, e então sai andando sozinha, com dificuldade. É uma tristeza imensa, que extrapola a tela e chega do outro lado, tornando-se um dos momentos mais marcantes de toda a série.

4) QUARTA TEMPORADA

Seis meses se passaram desde a morte de Matthew quando a temporada tem início, com a saída furtiva de O’Brien na madrugada, que abandona a propriedade para viajar pela Índia ao lado da marquesa de Flintshire. Rose, filha da marquesa, está passando um tempo em Downton, a pedido de seu pai, e toda uma torta de climão é servida quando O’Brien vai embora; roubar criados de outra pessoa, afinal, era um negócio muito sério à época. Logo fica claro que Rose não tinha qualquer conhecimento prévio sobre a atitude da mãe, que a pegou de surpresa tanto quanto à família. Numa tentativa de consertar o erro da mãe, Rose sai em busca de uma nova dama de companhia para Lady Crawley, o que eventualmente se torna um problema: a candidata escolhida é Edna Braithwaite (também conhecida como a personagem mais odiosa da série), que fora despedida justamente por forçar uma aproximação problemática com Tom – algo que apenas ele e Mrs. Hughes possuíam conhecimento. Motivada a tirar algum proveito da situação, Edna e Tom acabam se envolvendo, o que dá margem para que ela forje uma gravidez falsa, até a mentira ser descoberta e ela ser mandada novamente embora.

Contudo, nem só de damas de companhia mala é feita a temporada. A grande questão sobre a temporada, tanto para os personagens, quanto para quem assiste do outro lado é: o que vai acontecer agora? As mudanças geradas a partir da morte de Matthew são palpáveis, a começar pela própria Mary, que se recusa a voltar a viver e se torna uma pessoa cada vez mais difícil de lidar, enfiada num buraco do qual ninguém consegue tirá-la. É só após ter contato com uma carta de Matthew, escrita pouco antes da sua morte, onde ele expressa o desejo de deixar toda a herança para Mary, que as coisas mudam e ela volta a ter… vida. Mary assume seu lugar como proprietária majoritária de Downton, passa a exercer funções administrativas ao lado do seu pai e de Tom. Embora pretendentes apareçam nesse meio tempo, Mary os dispensa, porque não se sente pronta para tal, de modo que o momento se torna ótimo para termos contato com uma nova faceta da personagem, tão incrível quanto a mulher sedutora e determinada que apresentara no passado. Uma das minhas cenas favoritas, aliás, é quando Mary se suja inteira de lama para salvar seus porcos ao lado de Charles Blake (também conhecido como o melhor ship que nunca aconteceu); uma prova de que ela está de volta, e nunca esteve em tão boa forma. Ao mesmo tempo, Edith começa a viver seu drama pessoal ao lado do editor, Michael Gregson, que desaparece após ir para a Alemanha numa tentativa de conseguir um divórcio para casar-se com Edith. Ela, por sua vez, descobre-se grávida pouco tempo após a partida de Michael, e muito embora sua realidade a impeça de ter o mesmo destino de Ethel (um ponto que a Michas levantou em uma de nossas conversas sobre a série e achei super pertinente), até mesmo para uma mulher rica e de nome, tonar-se mãe solteira é um problema.

Além disso, essa é, também, a temporada em que Anna sofre um estupro, o que até hoje me questiono se era realmente necessário. Que Anna & Bates são o casal mais sofrido da ficção não é exatamente uma novidade, mas existe algo de muito incômodo num crime tão bárbaro que serve tão somente para adicionar mais sofrimento a uma história já tão sofrida. É uma cena perturbadora por demais, com direito à ópera, que abafa os gritos de Anna, que é violentada no andar de baixo, e mesmo sem nada ver além de uma porta (graças a Deus), nós sofremos com ela, choramos por ela. Essa, definitivamente, foi uma virada que jamais vi vindo e, quando aconteceu, pareceu demais até pra mim. Um limite é definitivamente ultrapassado, o que fica ainda mais evidente quando Anna é acusada injustamente pelo assassinato do estuprador; mas, mais uma vez, esse é apenas um lembrete do que é ser mulher numa sociedade que ainda nos nega o papel de sujeito. Não é por acaso que, para a maioria das pessoas, a quarta temporada seja a menos favorita – um fato que até mesmo eu, que gosto bastante dela, apesar dos pesares, sou obrigada a reconhecer.

5) QUINTA TEMPORADA

Estou exatamente no primeiro episódio da quinta temporada pela terceira vez, mas por algum motivo, essa é a temporada do qual menos tenho recordações. Ao contrário de suas antecessoras, que permanecem frescas na minha mente, a quinta temporada é aquele momento em que as coisas ficam meio estranhas e, de repente, você já não se lembra de muita coisa, não sabe bem o que aconteceu – que não significa que seja uma temporada ruim, só não tão emocionante quanto as outras. Após uma temporada em Londres, quando Rose é devidamente apresentada à sociedade, os Crawley estão de volta a Yorkshire e, pouco a pouco, as coisas voltam aos seus devidos lugares: Mary vive um momento da sua vida em que já não precisa estar casada, ela apenas quer estar casada, o que faz toda diferença, e permite que ela seja criteriosa em sua escolha, demorando todo o tempo necessário e toda prova possível para garantir um casamento feliz. Edith, por outro lado, passar a tocar a própria vida, dividindo-se entre o jornal deixado para ela por Michael e o drama de estar tão perto e tão longe da própria filha, a pequena Marigold, que passa a ser criada por Mrs. Drewe, mulher de um fazendeiro local, sem saber que se trata da filha de Edith. Naturalmente, é um arranjo fadado ao fracasso e que eventualmente faz suas vítimas, mas adiciona novos contornos à trajetória de Edith, que se vê definitivamente sozinha quando descobre que Michael foi assassinado em um motim liderado por (à época, um tal de) Hitler.

O foco é momentaneamente tirado das Crawley mais jovens para se voltarem para personagens a quem, até então, a possibilidade de romance não parecia uma realidade. Isobel, mãe de Matthew, passa a ser cortejada por Lorde Merton, padrinho de Mary, com quem tem um romance conturbado, com direito a filhos que não aceitam o novo relacionamento do pai e servem tortas de climão por onde passam (definitivamente, as piores pessoas do mundo). Também é na quinta temporada que descobrimos o passado pouco convencional da condessa viúva, Violet Crawley, que quando jovem quase fugira com um príncipe russo, mas fora impedida pela princesa, que literalmente a puxou para fora da carruagem e a enviou de volta ao marido. Quando os dois se reencontram, o príncipe Kuragin já não é sequer um príncipe, mas um refugiado, que perdera tudo, absolutamente tudo, após a Revolução Russa. Ele, contudo, ainda deseja viver seus últimos dias ao lado de Violet, que recusa, porque naquele momento, já não acredita que a proposta faça algum sentido. Mas é ao relembrar o passado da condessa viúva que Downton Abbey subverte a imagem da senhora dura, racional e indissociavelmente alinhada aos valores tradicionais para mostrar que, antes de tudo isso, Violet é humana, o que significa que mesmo ela teve a sua cota de agir com impulsividade e coração. Quando compartilha sua história com Isobel, ela fala sobre o incidente de um lugar em que o abandono dos filhos e do título lhe parecem absurdos, mas Violet jamais se condena; ela também fora jovem, muito jovem, e abandonar sua família para viver ao lado do homem que amava parecia fazer todo o sentido do mundo. É essa mesma Violet que, no ano seguinte, diz à Mary que acredita em muitas coisas, mas sobretudo no amor, e é algo que faz muito sentido, ainda que essa seja uma faceta reservada a poucos.

Há, ainda, Cora, que passa a ser cortejada pelo historiador Simon Bricker, amigo de Charles Blake, que passa a frequentar a propriedade da condessa por causa de uma obra de arte. Logo o interesse muda de figura, quando Bricker passa a flertar com Cora. Ela aprecia sua companhia, mas a amizade chega ao fim quando, numa noite, Bricker aparece sem ser convidado em seu quarto, o que termina em uma briga com Robert, que chega de surpresa, porque lógico. Robert e Cora passam algum tempo sem se falar, até que ele seja lembrado de seus erros do passado e volte atrás, mas o mais interessante sobre essa história é que Cora, antes a mulher à sombra do marido, mostra que é muito mais do que uma mulher preocupada com roupas e criadagem, ou o cardápio do jantar. Ela é uma mulher interessante e inteligente; algo que Robert, depois de tantos anos, veio a esquecer. Cora passa a ganhar mais autonomia dentro do próprio casamento; o que às vezes incomoda o marido, mas que lhe dá cada vez mais certeza e segurança sobre seu valor. À medida que se encaminha para o seu final, a série começa a traçar o desfecho de seus personagens; e o de Cora é assim: seguro, confiante, bonito. Ainda que não seja minha favorita, a quinta temporada é um lembrete do por quê gostamos tanto de Downton Abbey e porque somos tão apaixonados por todos aqueles personagens – o que, inevitavelmente, nos faz lamentar o iminente fim. É nessa temporada, ainda, que Rose e Atticus se conhecem, talvez o casal mais adorável da série; que aparecem pouco, muito pouco depois de casados, mas se podemos ter alguma certeza é a de que, independente de onde estejam, Rose e Atticus estarão felizes.

6) SEXTA TEMPORADA

É a última temporada, aquela em que todos os arcos começam a ser concluídos e todos os episódios passam a ter um gostinho de despedida. Por ser a única que tenho baixada – na época que assisti, ela ainda não tinha chegado na Netflix – foi, também, a que assisti mais vezes: qualquer tempinho era motivo para dar um passeio por aquelas histórias, caminhar com aquelas pessoas e relembrar que apesar de todos os pesares, fica tudo bem. E é lindo. A série não se esquiva do que acontece de ruim, daquilo que é difícil, das personalidades complexas demais com as quais está lidando, mas não utiliza isso como uma desculpa para transformar a si mesma numa série séria & sombria; ela, afinal, nunca teve a pretensão de ser séria, menos ainda sombria (Downton Abbey sombria kkk). Assim, mesmo os dramas mais complicados ganham desfechos satisfatórios e são encarados de forma mais natural, quase como se a arte fosse, de fato, um retrato de nossas próprias vidas (exceto que não somos nobres da Inglaterra do século XX, mas bear with me).

Não é por acaso que, embora eu goste muito de muitas coisas nessa temporada, uma das minhas cenas favoritas seja, justamente, uma cena em que personagens são finalmente confrontados pelos seus próprios demônios e tentam se redimir, não pedindo desculpas por ser quem são, mas numa tentativa de se tornarem versões melhores de si mesmos. Mary erra demais. Mary erra tanto que desgraça a vida da própria irmã, que teve literalmente um único momento de felicidade na vida inteira. Que chegou tão, tão perto de ser feliz, e de repente, Mary lhe tirara aquilo, do jeito mais mesquinho possível. É uma cena dolorosa porque a gente vê quanto o ser humano pode ser feio, pequeno e complexo do jeito mais horrível possível, e é exatamente sobre isso que Tom fala pra Mary, naquela que é uma das minhas cenas favoritas da série inteira. Então ela pode ser mesmo uma pessoa horrível, Mary pensa. E não podemos todos? Mary destrói Edith porque ela é, sim, uma pessoa horrível, como a própria Edith foi uma pessoa horrível quando, lá na primeira temporada, expôs o segredo de Mary sobre a morte de Mr. Pamuk para a embaixada Turca, como eu fui uma pessoa horrível quando me ressenti pelas conquistas de pessoas que amo profundamente, mas ainda assim fui incapaz de não pensar “por que ela e não eu?”. Gosto de como Mary não é condenada por ser uma pessoa horrível, mas encontra uma forma de subverter essa narrativa e se tornar uma pessoa melhor, por tentar consertar as coisas, ainda que não se possa desfazer o passado; o que todos deveríamos fazer, mas poucos são realmente capazes de concretizar. Gosto de como Edith, contrariando todas as expectativas, se torna marquesa, é aceita por ser quem é e com Marigold à tiracolo, tem o casamento digno da pessoa maravilhosa que se tornou.

E gosto de como os criados também ganham seus momentos de alegria. Gosto de como Thomas encontra uma luz depois de tanta tristeza. De como Anna finalmente consegue realizar o desejo de ser mãe. De como Gwen aparece de novo e janta com seus antigos patrões, na casa que um dia ela limpou e trocou os lençóis da cama. Como mesmo após se casar, Rose continua sendo a mulher expansiva e sorridente de sempre, e como Atticus continua encantado pela sua luz, rindo como bobo o tempo inteiro. De como Mr. Molesley se realiza como professor. Como Daisy se torna uma mulher iluminada, consciente, com um futuro não mais limitado à cozinha. Como Mrs. Hughes e Mr. Carson se casam, são felizes juntos. Na última cena, todos os personagens se unem e cantam juntos, numa cena linda, linda de morrer, deixando todos os corações aquecidos. É o fim, até que se prove o contrário, e é o fim que sempre sonhamos; como um quentinho no coração e o gosto doce do chocolate. Amém.

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ÚLTIMOS FILMES ASSISTIDOS

Já faz algum tempo desde que falei sobre os últimos filmes que assisti aqui, em partes porque não tenho mesmo assistido muita coisa. A última vez aconteceu, muito provavelmente, no ano passado; um termômetro bem fiel da minha vontade de também escrever sobre cinema por aqui. Eu amo falar sobre cinema, amo escrever sobre cinema, e esse parece o grande resumo da minha vida nos últimos anos; mas queria fazer algo diferente aqui. O BEDA, entretanto, é aquele momento em que literalmente qualquer coisa acaba funcionando como pauta, o que me fez abrir uma pequena exceção. Em todo o resto do ano, acessem o Valkirias e leiam minha opinião não-requisitada sobre cinema, televisão e outras coisinhas mais. Obrigada, de nada.

O Filme da Minha Vida (Selton Mello, 2017): Não assisti Mad Men, mas tem uma frase do Don Draper que ele diz o seguinte: “Nostalgia – it’s delicate, but potent. Teddy told me that in Greek, “nostalgia” literally means “the pain from an old wound.” It’s a twinge in your heart far more powerful than memory alone. This device isn’t a spaceship, it’s a time machine. It goes backwards, and forwards… it takes us to a place where we ache to go again. It’s not called the wheel, it’s called the carousel. It let’s us travel the way a child travels – around and around, and back home again, to a place where we know are loved“. Se pudesse descrever O Filme da Minha Vida em uma quote, seria essa. É um filme lindo de morrer, de um jeito quentinho e absolutamente adorável, poético, mas também doloroso, onde a nostalgia move tudo e todos pro bem e pro mal. Virou favorito sem muito esforço; o lembrete de que nem só de piadas sem graça e machismo é feito o cinema brasileiro.

Capitão Fantástico (Matt Ross, 2016): Na correria para cobrir o Oscar, Capitão Fantástico acabou ficando de fora; em partes, porque a história de um pai que literalmente vivia com os filhos no meio do mato não me interessou tanto assim de cara, mas também porque precisava priorizar outros filmes mais relevantes pro tipo de trabalho que eu estava fazendo. Foi só em julho, quando minha vida estava uma verdadeira bagunça, que pude assistir ao filme, e foi uma surpresa gostar tanto de uma história que parecia não ter nada a ver comigo. Eu precisei parar em determinado momento porque não aguentava mais de tanto chorar, não porque ele é um filme triste, mas porque é um filme tão belo, que bateu tão forte e tão gostoso, que eu só conseguia chorar sem parar. Amo, especialmente, o fato dele se aproveitar de temas tão atuais para construir uma história sobre pessoas adoráveis e onde ninguém está exatamente livre de mudar de opinião. Queria eu viver com aquela família e ser feliz demais no meio do mato.

Upstream Colour (Shane Carruth, 2013): O Shane Carruth revolucionou o cinema independente por fazer filmes de ficção científica com um orçamento limitado para os padrões já limitados do cinema independente, e entregar um trabalho tão diferentão e cheio de personalidade. Upstream Color (ou As Cores do Destino, título brega que ganhou na tradução) é seu segundo filme e foi uma dessas produções que caem no gosto de gente que entende de cinema – críticos, estudiosos, etc etc -, mas que nunca se sabe como chegou no público, se é que chegou. Nele, Shane não só dirigiu como atuou, escreveu o roteiro, compôs a trilha sonora e cuidou da fotografia, e talvez de todo o resto. Dá pra entender como ele faz a mágica acontecer com tão pouco dinheiro, e isso é incrível. Eu realmente queria amar esse filme como todas as pessoas que conheço, mas a única coisa que ficou na minha cabeça foi uma grande interrogação e imagens de porquinhos fofinhos e cor-de-rosa.

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar (Jon Watts, 2017): Eu gosto de filmes de super-heróis. Gosto deles o suficiente para assisti-los na estreia, mesmo com os preços exorbitantes dos cinemas de Brasília; para comprar toda a parafernalha igualmente cara que vendem no cinema e fazer folia com as pessoas que, assim como eu, aguardam ansiosamente esses lançamentos. Com Spider-Man: Homecoming isso não aconteceu: eu ainda não havia superado o fiasco de O Espetacular Homem-Aranha e parecia uma ideia ridícula tentar emplacar outro filme do cabeça de teia com pessoas diferentes. Eu estava exausta, não queria mais saber de super-heróis com pintos, querem contar histórias de adolescente, façam um filme sobre a Kamala Khan, etc etc, mas aí eu assisti ao filme e foi como ver mágica acontecer pela primeira vez. Era lindo. Era especial. Me lembrou porque a gente ainda paga tanto dinheiro pra ver essas merdas. Tom Holland, casa comigo.

The Runaways (Floria Sigismondi, 2010): Adoro o fato de que esse filme seja não só sobre mulheres no rock, numa época em que esse clubinho era tão mais restrito do que é hoje, mas sobretudo que ele seja dirigido por uma mulher. A ideia ao assisti-lo era, justamente, escrever sobre o The Runaways como uma singela homenagem ao rock, mas principalmente às mulheres do rock; contudo, fiquei tão obcecada pela história e por essas mulheres, que foi impossível terminar o trabalho a tempo, de modo que até hoje esse texto não viu a luz do dia. Em partes, a história do filme – e da banda – é triste pra cacete, e reforça alguns estereótipos que tentamos a muito custo subverter; mas isso não é realmente um problema quando sabemos que foi o que de fato aconteceu. Além disso, Floria não tem medo de mostrar o lado sujo que existe nesse universo, ainda que com uma fotografia lindíssima que nos faz querer viver nos anos 70.

O Mínimo Para Viver (Marti Noxon, 2017): Gente, esse filme. Meu Deus do céu, esse filme. Tenho certeza absoluta que quando a Marti Noxon pensou em fazer um Filme Sobre Anorexia™ que subvertesse todas as narrativas que já conhecemos de cor e salteado, não era esse filme que ela queria fazer. Muito já foi discutido sobre ele, ao ponto de eu não ter a menor paciência de fazê-lo agora (inclusive, porque já fiz isso antes), mas fiquei verdadeiramente chateada que um filme com um potencial tão grande e uma importância gigantesca seja tão, tão ruim. Sinto muito pela Noxon, que certamente acreditou nessa história e acreditou que conseguiria fazer o melhor com ela, e também pela Lily Collins, que colocou uma fé imensa no projeto; mas não foi dessa vez. De boas intenções o inferno está cheio – e o cinema, aparentemente, também.

Colossal (Nacho Vigalondo, 2016): Quando ouvi falar sobre Colossal pela primeira vez, eu literalmente revirei os olhos e segui com a vida, porque que porra é essa, que filme esquisito é esse, mas que diabos a Anne Hathaway decidiu fazer com a própria vida, etc etc. Mas eu gostei. Surpreendentemente. Antes disso, já havia lido bastante sobre o filme, o que motivou meu interesse, mas foi uma surpresa constatar que, de fato, ele era tão bom quanto todas as pessoas estavam dizendo, e que sua mensagem principal era importante & relevante; de um jeito que o cinema deveria fazer com mais frequência, mas nem sempre o faz. Parece pouca coisa quando colocamos assim, mas ainda precisamos caminhar muito para estarmos em pé de igualdade em representação e todo o resto, então é realmente revolucionário quando assistimos a história de uma mulher que não precisa ser salva e não termina com nenhum cara no final.

Shangri-La Suite (Eddie O’Keefe, 2016): Sei que vocês amam odiar a Emily Browning, mas eu amo a Emily Browning e vou defendê-la. Dito isso, Shangri-La Suite apareceu por acaso na minha timeline, e de repente eu estava baixando o filme e me apaixonando por uma história completamente maluca e esteticamente impecável, cheio de gente linda e umas cenas realmente tocantes. Ele acabou se tornando uma referência para o roteiro que eu estava escrevendo – menos uma referência narrativa, mais uma referência estética – e se tornou um dos meus favoritos da Emily. Não é um filme pra qualquer pessoa; não é um filme sempre bonitinho, merdas acontecem e o final nem sempre é aquilo que a gente espera, mas ainda é o meu tipo de filme, o tipo de cinema que eu gostaria de fazer e que me encanta ao mesmo tempo, e amo o fato de que a Emily esteja nele – o que só o torna ainda melhor.

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OS CINCO FILMES DA MINHA VIDA

Bom, acho justo começar dizendo que a essa altura já está claro que a cilada BEDA em abril 2k17 foi um verdadeiro flop, que só não foi pior porque eu tive a decência de pelo menos tentar fazer com que ele acontecesse. Não aconteceu, mas não foi de todo um desperdício de tempo: longe de render todos os textos que eu esperava, pelo menos foi uma bagunça divertida, ao lado de gente A+, o que por si só já faz essa zona valer à pena. Mas a verdade é que o mês só acaba quando termina, de modo que eu ainda tenho alguns poucos dias para brincar e rir na cara do perigo, exatamente o que devia ter feito nas semanas anteriores e não fiz. Não tem textão (não ainda), mas tem blogagem coletiva – uma ideia da Mia, que gentilmente salvou o dia – e tem euzinha falando sobre os meus filmes da vida.

A principal diferença entre filmes da vida e favoritos é que, enquanto os favoritos podem ser, literalmente, qualquer coisa, os filmes da vida têm aquele apelo especial, aquele detalhe que parece conversar diretamente com a gente, de uma maneira profunda e especial que só a ficção é capaz de fazer. Não dá pra explicar, apenas sentir, etc etc. Tenho certeza absoluta que a maior parte dos filmes que vão me dizer coisas profundas e especiais ainda nem foram assistidos, mas tudo bem. Por enquanto, essa é a minha lista (que era pra eu ter postado ontem, mas tudo bem porque não se pode ter tudo mesmo).

1. REALITY BITES


Reality Bites é um filme dirigido pelo Ben Stiller, que ainda era um jovem ambicioso em início de carreira, e que em português ganhou o nome absolutamente ridículo de Caindo na Real (pois é) – que é um título que até faz sentido, mas que soa bem ridículo se você parar pra pensar. Acontece que, contrariando todas as expectativas, a história que ele conta é realmente muito, muito ótima, e reúne numa só narrativa questões que abordam, ao mesmo tempo, carreira, romances, amizade, relações familiares, crises existenciais, doenças mentais e aids. Lelaina, Vickie, Sammy e Troy são jovens de vinte e poucos anos que se veem naquele limbo do fim da faculdade – todos os sonhos tão perto e tão longe – e se apoiam num discurso bastante idealizado sobre a vida adulta; que negam o tempo todo suas origens e tentam se afastar o mais radicalmente possível dos próprios pais até que, numa sucessão óbvia de fatos, são confrontados pela realidade que não é assim tão interessante quanto eles imaginaram. Um dos meus momentos favoritos do filme é quando, frustrada com a própria vida e a dificuldade em conseguir um emprego na área que sempre sonhou em trabalhar – cinema ou televisão, ironicamente, risos -, Lelaina diz que imaginava que seria algo mais aos vinte e três anos, ao que Troy responde que a única coisa que ela deveria ser aos vinte e três é ela mesma; o que não deixa de ser uma verdade. Embora a história termine sendo mais sobre o romance entre Troy e Lelaina no final das contas, eu ainda consigo me enxergar em cada plano, em cada cena – às vezes de um jeito besta e idealizado, mas é pra isso mesmo que serve a ficção.

2. CLUBE DOS CINCO

Lembro exatamente da primeira vez que assisti esse filme: eu tinha acabado de voltar do shopping com minha então melhor amiga, passando mal adoidado, e nós decidimos assistir esse filme pra matar o resto de tempo que a gente ainda tinha – eu, com a cabeça no colo dela, enquanto ela mexia no meu cabelo em silêncio. De lá pra cá, já assisti Clube dos Cinco aproximadamente 192873891273 vezes, e todas elas foram exatamente como a primeira: um festival de reflexões e amor verdadeiro e eterno. Embora ele não converse diretamente com minha faixa etária – os personagens, afinal, estão no ensino médio e já faz bastante tempo que eu saí do ensino médio, risos -, é curioso como os conflitos e questões que eles têm continuam muito próximos e atuais, ao ponto de conversar não só com adolescentes, mas com faixas etárias mais abrangentes. Embora os filmes do John Hughes sejam problemáticos em muitos níveis, amo a forma como ele não trata adolescentes como jovens rebeldes e insatisfeitos sem causa ou motivo algum, mas como os seres humanos complexos que verdadeiramente são, algo que eu gostaria muito de conseguir imprimir na tela também. Me perguntaram algum tempo atrás no curious cat (favor, me sigam) qual filme eu gostaria de ter feito, e não foi preciso pensar muito para dar uma resposta: Clube dos Cinco it is!

3. PIERROT LE FOU

Longe de ser o meu Godard favorito, Pierrot le Fou acabou se transformando na minha referência favorita do cineasta porque ainda é o que conversa comigo de forma mais profunda, e para o qual eu sempre retorno quando preciso. A história é muito simples: frustrado com a vida que leva, Ferdinand decide fugir com Marianne, uma jovem adorável, romântica e cheia de frases de efeito que o leva por uma aventura sangrenta (!) e de final trágico para ambos. Antes disso, no entanto, os dois dividem momentos de alegria e frustração, passeiam por paisagens belíssimas, cantam como se vivessem num adorável musical e são perseguidos pela máfia, tudo ao mesmo tempo. Eles se envolvem com tráfico de armas e conspirações políticas, mas ainda são pessoas que sonham em viver sob as próprias regras e ideais, negando a realidade que lhes aprisiona. Lançado em 1965, o filme é tido como um dos grandes marcos da nouvelle vague, movimento artístico do cinema francês que, na contramão do que vinha acontecendo na época, buscava transgredir as regras do cinema clássico comercial; e que para muitos ~estudiosos~, teve fim na cena icônica em que Ferdinand explode a própria cabeça, ao final de… Pierrot le Fou. Independente de importância histórica ou qualquer coisa assim, no entanto, o filme é realmente maravilhoso e eu sempre recomendo sem nem pensar duas vezes, pra quem quer que seja.

4. GOD HELP THE GIRL

God Help The Girl não é apenas um dos filmes da minha vida: ele é, também, o meu filme com a Yuu, minha baby girl, uma das minhas melhores amigas e uma das pessoas mais importantes da minha vida; o que por si só já é suficiente pra transformá-lo, senão no mais importante dessa lista, ao menos em um dos mais relevantes dela. Mas ele também é o filme sobre uma jovem com transtornos alimentares e mentais, que encontra na música uma saída para superar os próprios traumas, e constrói amizades lindas e sinceras a partir daí. Entre músicas adoráveis, cenários belíssimos e lukinhos inspiradores, o que essa história – que nasceu de uma música composta pelo próprio diretor, que também calhou de ser vocalista do Belle & Sebastian, por sua vez criada para a banda mas que, segundo o próprio Stuart Murdoch, parecia pertencer a um universo a parte; daí a ideia de criar um musical em cima dessas canções – faz é construir uma história linda e repleta de significado. Gosto principalmente de como, mesmo tratando de temas tão pesados, a narrativa consegue manter-se leve, mas nunca deixa de ser profundamente honesta. Não há nada de bonito em ser assombrada por transtornos mentais e o filme não se esquiva dessa realidade; mas isso não quer dizer que as pessoas que lidam com essas questões não podem também ter uma vida bonita, amizades sinceras, e músicas deliciosas que servem de trilha sonora para suas jornadas, enquanto dançam em seus quartos – ou no meio da rua – com os braços pra cima. Esse filme – e suas músicas – tem me segurado nos momentos mais difíceis, tornando-se um importante lembrete de que, embora a ansiedade e a depressão sejam coisas muito reais, elas jamais serão capazes de definir quem eu sou.

5. A BELA E A FERA

Porque lógico, né. Peguem uma menina de três anos, completamente obcecada por livros e princesas, e a apresentem a uma princesa que seja não apenas gentil e adorável, mas igualmente obcecada por livros, ao ponto de ler infinitas vezes suas histórias favoritas. Pronto. É assim que nasce a identificação. Bela foi a primeira personagem com o qual eu me identifiquei, muito antes de saber que diabos significava se identificar com alguém que não fosse minha própria mãe, a professora, uma coleguinha da escola ou um parente mais próximo; mas foi também uma das minhas primeiras referências, aquela com quem eu desejava parecer de qualquer jeito e me inspirava em tempo integral. Aos cinco anos, eu me vesti de Bela e ganhei uma festa com balões dourados, num salão que não era tão grande quanto o do castelo da Fera, mas que emulava um salão de baile em cada pedacinho. Ali, eu era a Bela, única possível, e desde então nunca deixei de ser – no meu próprio tempo e espaço, mas ainda assim.

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MARATONA OSCAR 2017 – PARTE III

Antes tarde do que nunca, cá estou para a terceira e última parte da minha maratona. Infelizmente, não consegui cobrir todos os filmes que queria, mas foi o ano que consegui cobrir mais categorias e fico feliz por ter superado minhas expectativas, embora o cansaço seja muito, muito real. Não confirmo nem nego que minha vontade sincera era ficar alguns meses sem assistir filme nenhum – o que será absolutamente impossível, mas bear with me. A maior parte dos filmes desse ano são maravilhosos, então apesar do cansaço, a maior parte da maratona foi igualmente maravilhosa – eu só estou feliz demais que acabou e depois de hoje vou poder dormir em #paz.

Como de costume, mais tarde vou estar lá no twitter comentando, me revoltando e dando pitacos não requisitados sobre os indicados. Sigam-me os bons e não me deixem falando sozinha. Grata.

LION – UMA JORNADA PARA CASA (Garth Davis)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Dev Patel), Melhor Atriz Coadjuvante (Nicole Kidman), Melhor Roteiro Adaptado (Luke Davis), Melhor Fotografia (Greig Fraser) e Melhor Trilha Sonora (Dustin O’Halloran e Hauschka).

Sobre o que é? Um jovem indiano que se perde da família e acaba indo viver na Austrália com uma família adotiva. Vinte anos depois, ela tenta reencontrar a mãe, redescobrir suas raízes e entender o que aconteceu naquele dia em que ele saiu de casa com seu irmão mais velho para nunca mais voltar.

Prestou? Muito, muito, muito! A história é realmente linda, as atuações são impecáveis e você se emociona sem nem fazer força. Embora o filme não se dê o luxo de passar tempo demais explorando os vários aspectos da vida de Saroo, o personagem principal, você consegue entender as relações que ele constrói com cada pessoa, entender suas necessidades, suas frustrações, e se importar verdadeiramente com tudo o que está acontecendo. Por mais que eu nem sempre concordasse com sua atitudes, era impossível ficar com raiva de uma pessoa que perdeu tanto, mas que ao mesmo tempo era tão adorável, simples, com um sorriso enorme no rosto e que realmente valorizava as oportunidades que teve – e num filme que fala tanto de raízes quanto fala de privilégio, é realmente incrível ver um personagem que entende os privilégios que adquiriu, entende que aquilo não é a regra, mas sim a exceção, e que nunca cospe no prato que comeu. É um filme delicado demais, sensível demais, bonito demais, e que despertou em mim sentimentos muito preciosos. Então sim, é um filme que eu recomendo e recomendo com força.

Sinceramente? O que esse filme me destruiu não tá escrito. Queria dar um abraço no Dev Patel, pedir pra ser amiga, colega, pinguim de geladeira, qualquer coisa; e levar pra casa o pequeno Sunny Pawar, a criança mais adorável que você respeita. Infelizmente, numa disputa que só existe pra cumprir protocolo como a desse ano, acho bem difícil que leve alguma coisa. No entanto, se eu pudesse dizer alguma coisa é: assistam Lion, se apaixonem pela história e me agradeçam depois.

LOVING (Jeff Nichols)

Indicações: Melhor Atriz (Ruth Negga).

Sobre o que é? O casal Loving que se casou na década de 50, quando o casamento inter-racial ainda era proibido no estado da Virgínia, onde ambos residiam. Como punição, os dois são exilados do estado e só podem voltar separados, e é dessa forma que eles vivem durante alguns anos – pelo menos até que Mildred Loving, cansada de viver longe da família e em um lugar tão pouco favorável para se criar uma criança, escreve para Bobby Kennedy, que passa o caso dos Loving para a UCLA. A partir daí, o casal entra em uma briga na justiça contra o estado da Virgínia em busca do direito de viverem felizes onde bem entenderem.

Prestou? Horrores. A história de Mildred e Richard Loving é real e eles foram responsáveis por mudar toda a constituição dos Estados Unidos, estabelecendo que sim, o casamento inter-racial era um direito de todos os cidadãos norte-americanos, onde quer que eles estivessem – uma luta que não só beneficiou os dois, mas muitos outros casais que se viram contemplados pela decisão da Suprema Corte. Ruth Negga faz um trabalho espetacular como Mildred, uma mulher tímida, mas cheia de vontade de viver uma vida plena ao lado do marido e dos filhos, e com uma força que quase nunca está associada à mulher no cinema. É um filme lindo de verdade.

Sinceramente? O fato de ter recebido tão poucas indicações já diz um bocado sobre a opinião da Academia. Por mais que seja um filme lindo, sensível do início ao fim e com uma personagem tão fundamental em um momento que tanto se fala sobre a representatividade da mulher no cinema, é realmente uma pena que Loving não tenha sido indicado em mais categorias, e que saia de mãos abanando logo mais.

MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR (Barry Jenkins)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Barry Jenkins), Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Melhor Atriz Coadjuvante (Naomie Haris), Melhor Roteiro Adaptado (Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney), Melhor Fotografia (James Laxton), Melhor Edição (Nat Sanders e Joi McMillon) e Melhor Trilha Sonora (Nicholas Britell).

Sobre o que é? Procurei um milhão de sinopses diferentes, mas nenhuma delas faz jus à história que Moonlight de fato conta. Porque ele não é apenas um filme sobre um jovem negro descobrindo a si mesmo enquanto vive a implacável realidade que o maltrata em tempo integral. É sobre isso também, é claro, mas é muito mais, infinitamente mais – e talvez por isso seja tão difícil escrever sobre ele. É sobre um jovem tentando fugir da criminalidade quando esteve a vida toda no meio dela. É sobre relacionamentos. É sobre pessoas que são boas e más ao mesmo tempo, complexas como qualquer ser humano. É sobre negritude. É sobre a socialização masculina. É sobre o tráfico, sobre bullying. Mas é, principalmente, um filme sobre pessoas, tão delicado quanto deveria ser.

Prestou? Nada que eu diga vai ser suficiente pra dizer o quanto esse filme prestou, então só posso dizer que sim, prestou e prestou demais. A história é extremamente sensível, e embora trate de assuntos pesados como o tráfico de drogas, bullying e o uso de drogas, tudo é contado com uma delicadeza e um cuidado que deveria ser regra no cinema, mas infelizmente ainda é a exceção. Gosto particularmente de como a sexualidade é introduzida na vida de Chiron, das conversas com Juan e Teresa, e da relação com a mãe, que embora seja muito complexa e extremamente conturbada, é tratada com o mesmo cuidado de todo o filme – que não assume uma postura condenatória para com a personagem, dando a dimensão das consequências de suas escolhas não somente na vida do filho, mas na dela própria.      

Sinceramente? Podia sair rapando os prêmios tudo que ia ser bem merecido. Ainda tenho esperanças que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas esteja realmente empenhada em não só indicar negros e negras nas categorias principais, mas também a premiar essas pessoas quando elas merecerem – e Moonlight merece demais. Nada contra La La Land (inclusive, amo profundamente!), mas alguns filmes merecem infinitamente mais levar o prêmio pra casa e é importante que a gente reconheça isso também. Moonlight é um desses – que a Academia não dê mais uma bola fora esse ano.

Pra finalizar, a lista com minhas apostas (lembrando que esses não são, necessariamente, os filmes que estou torcendo para levarem o prêmio, mas aqueles que eu acredito que têm mais chances, mesmo ainda estando MUITO confusa e sem muita certeza de nada. 2017, definitivamente um ano estranho pra cacete).

Melhor Filme: Moonlight – Sob a Luz do Luar
Melhor Diretor: Damien Chazelle
Melhor Atriz: Isabelle Huppert
Melhor Ator: Casey Affleck
Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali
Melhor Atriz Coadjuvante: Viola Davis
Melhor Roteiro Original: La La Land
Melhor Roteiro Adaptado: Moonlight – Sob a Luz do Luar
Melhor Animação: Zootopia: Essa Cidade é o Bicho
Melhor Canção Original: “Audition (The Fools Who Dream)” – La La Land
Melhor Fotografia: A Chegada
Melhor Figurino: La La Land
Melhor Maquiagem e Cabelo: Star Trek: Sem Fronteiras
Melhor Mixagem de Som: Até o Último Homem
Melhor Edição de Som: A Chegada
Melhores Efeitos Visuais: Doutor Estranho
Melhor Design de Produção: La La Land
Melhor Edição: Até o Último Homem
Melhor Trilha Sonora: La La Land

> Esqueci de avisar no último post: agora estou devidamente registrada no Gato Curioso, o que significa que vocês estão liberados para me perguntarem o que quiserem sobre a vida, o universo e tudo mais. Como sou completamente maluca, prometo responder até as perguntas mais cabeludas, então vão lá, deixem suas perguntas, façam confissões e é isso aí.

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MARATONA OSCAR 2017 – PARTE II

É possível que eu tenha jurado de pé junto que nenhuma temporada de premiações da vida dessa que vos escreve tinha sido tão preguiçosa, mas aí, depois de finalmente começar a assistir aos filmes, me arrependi por não ter começado antes. Porque é uma verdade universalmente conhecida que embora os indicados muitas vezes não pareçam promissores, quase sempre a gente acaba se apaixonando por um ou outro – e a segunda parte da minha maratona está aí pra provar que, por mais que a gente esbarre com alguns filmes bem mais ou menos no meio do caminho, alguns são tão incríveis quanto a gente torce pra ser.

Antes que alguém venha falar alguma coisa (ou a quem interessar possa): a terceira parte da maratona e as minhas apostas (!) entram mais tarde, assim que eu terminar de assistir os filmes que ainda faltam, risos. Ia postar tudo junto dessa vez, mas preferi não abusar da paciência de ninguém e dividir em três posts ao invés de dois pra não ficar grande demais. Por favor, não desistam de mim.

UM LIMITE ENTRE NÓS (Denzel Washington)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Denzel Washington), Melhor Atriz Coadjuvante (Viola Davis) e Melhor Roteiro Adaptado (August Wilson)

Sobre o que é? Um homem negro de meia-idade, pobre e frustrado com a carreira como jogador de beisebol que não decolou, que passa por uma crise no casamento e vive um momento particularmente conturbado de sua vida, que começa a estabelecer limites nas relações que, pouco a pouco, vão se desfazendo – daí o nome do filme. Baseado na peça homônima (que é interpretada pelos mesmos atores do filme), a história se passa no norte dos Estados Unidos e mostra que mesmo num estado onde o racismo era tido como uma questão superada, a realidade ainda estava muito distante disso. Ele não é Um Filme Sobre Racismo™, mas deixa muito claro como essas questões pautavam a vida de seus personagens, colocando um milhão de obstáculos em seus caminhos.

Prestou? São questões. É uma história densa sobre pessoas, relacionamentos, racismo e raiva, principalmente sobre raiva. Existe muita raiva – às vezes contida, às vezes nem tanto – em praticamente todas as relações que o personagem principal estabelece com as pessoas ao seu redor, e quase todas as atitudes dele são pautadas por esse sentimento: seja a fuga de sua própria realidade quando trai a mulher; a frustração, a agressividade, a forma como trata os filhos e a esposa. Gosto particularmente que praticamente todas as cenas mais relevantes se passem no quintal, especialmente quando a câmera nos lembra da própria experiência teatral, quase como se realmente estivéssemos sentados em uma poltrona e tudo aquilo se desenrolasse num palco à nossa frente; e talvez por isso o filme erre tanto ao tentar fazer algo diferente. Além disso, embora a analogia com a cerca construída pelo personagem seja muito boa, ela nunca recebe atenção suficiente pra que a gente realmente entenda aquilo como uma parte que diz muito mais sobre a história do que aquilo que é dito em cena.

Sinceramente? Queria matar o personagem do Denzel Washington de cinco em cinco minutos – e isso não é exagero, considerando que todas as minhas amigas que assistiram ao filme tiveram a mesma reação. É muito difícil gostar de um cara que agride tanto as pessoas ao seu redor, que afasta aqueles que o amam por ser incapaz de superar a própria frustração. A relação que ele tem com Rose, sua mulher, interpretada belamente por Viola Davis, é problemática demais, demais, demais, ao ponto de eu dar graças quando ela finalmente se viu livre daquela sombra horrorosa do marido, sozinha com sua filha – porque sim, Raynell se tornou sua filha também. É uma história que eu realmente tive bastante dificuldade de engolir e, não por acaso, foi um dos filmes que menos gostei de toda a maratona. Viola merece demais o Oscar e acho que esse prêmio dela ninguém tira, mas provavelmente vai ser só isso mesmo.

FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER? (Stephen Frears)

Indicações: Melhor Atriz (Meryl Streep) e Melhor Figurino (Consolata Boyle).

Sobre o que é? Florence Foster Jenkins, uma cantora e socialite norte-americana, apaixonada por música, que ficou famosa na década de 40 pelo seu talento peculiar como cantora, risos. Florence cantava mal, muito mal. Mas isso não a impedia de se apresentar e fazer aquilo que mais amava. Muito além da música, no entanto, a história de Florence é a trajetória emocionante – e por vezes triste – de uma mulher que sofreu demais em vida e ainda assim encontrou um jeito de continuar seguindo seu caminho; que amou, foi amada, e encontrou em meio à dor uma forma de continuar sorrindo.

Prestou? Demais! Meryl Streep dá vida a uma Florence adorável e muito apaixonada – pela música, pelo seu marido e pela vida -, às vezes um tanto inocente, mas também muito determinada. Mesmo lutando contra a sífilis, uma doença que a limitava de várias formas – ela precisou deixar de tocar piano quando a doença atacou os nervos da sua mão, não podia manter relações sexuais com o próprio marido, além da perda dos cabelos e do mal estar físico que sentia por vezes -, Florence não se permitia abater e nem entristecer. Ela se torna luz na vida daqueles que a conhecem e não é difícil que, do outro lado, a gente se sinta tocado da mesma forma. É inevitável não se apaixonar, chorar e se inspirar com essa mulher.

Sinceramente? Amei demais. Embora não seja um filme inovador, a história é muito delicada, sensível, mas cheia de luz e boas energias, assim como a própria Florence. Ao mesmo tempo que chorei horrores com a sua história, Florence me fez rir como nenhum filme dessa temporada de premiações fez e deixou meu coração verdadeiramente aquecido num momento em que tudo que eu mais precisava era justamente disso. Infelizmente, não imagino que ele ganhe alguma coisa. Embora Meryl Streep esteja adorável, só uma zebra muito grande vai tirar a estatueta da mão de Isabelle Huppert – e mesmo que isso aconteça, duvido que Meryl seja a pessoa a fazer isso. Melhor figurino é uma questão, mas sempre há esperança.

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Mel Gibson)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Mel Gibson), Melhor Ator (Andrew Garfield), Melhor Mixagem de Som (Kevin O’Connel, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace), Melhor Edição de Som (Robert Mackenzie e Andy Wright) e Melhor Edição (John Gilbert).

Sobre o que é? A história real do médico Desmond Doss, o homem que se alistou no exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, mas que se recusou a pegar numa arma e não só sobreviveu para contar sua história, como ajudou muitas pessoas a sobreviverem também, mesmo no meio do caos que era o front de batalha.

Prestou? Com força. A história de Doss é realmente incrível, cativante, uma dessas histórias que me fazem crer que, embora a gente ainda fale muito sobre guerra – especialmente sobre a Segunda Guerra – ainda existem muitas histórias por aí que podem e devem ser contadas. Ao mesmo tempo, eu, que não conhecia o trabalho do Mel Gibson como diretor, fiquei realmente sem chão por gostar TANTO de algo feito por um homem que eu não tenho nenhum motivo pra gostar. Seu trabalho é realmente impecável, as cenas de batalha são muito viscerais, sem medo de mostrar a verdadeira face da guerra, e eu admirei o suficiente pra pensar que se algum dia fizesse um filme sobre guerra, queria fazer algo no mesmo estilo, com a mesma força e o mesmo cuidado. Bem triste, mas não deixa de ser verdade.

Sinceramente? É uma verdade universalmente conhecida que Damien Chazelle possivelmente vai levar o prêmio de direção pra casa, mas eu realmente me questiono se Mel Gibson não tem chances reais também. Se ganhar, vai ser aquele prêmio com gosto de derrota: amei o trabalho, mas realmente não vou bater palma pra um maluco desses dançar. Andrew Garfield, por outro lado, é uma figura tão adorável que eu me vi torcendo genuinamente pra ele arrancar o prêmio das mãos do babaca do Cassey Affleck de uma vez e levar essa estatueta pra casa. Ademais, tem chances em edição e mixagem de som, mas acredito que só.

A QUALQUER CUSTO (David Mackenzie) 

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Jeff Bridges), Melhor Roteiro Original (Taylor Sheridan) e Melhor Edição (Jake Roberts).

Sobre o que é? Dois irmãos que, depois da morte da mãe, decidem assaltar uns bancos pra alguma coisa que até agora eu não entendi direito enquanto dois policiais tentam encontrar esses bandidos que roubavam por algum motivo que ninguém conseguiu entender também.

Prestou? Infelizmente, não. O cenário é maravilhoso, a trilha sonora é um primor para quem gosta de música country, fora que Jeff Bridges e Chris Pine são bem ótimos; mas isso não é suficiente pra segurar por quase duas horas uma história que não faz sentido nenhum. O filme nunca engrena de verdade, os personagens não são exatamente interessantes e a história não chega a ser o tipo de coisa que você vai ter vontade de passar quase duas horas da sua vida assistindo. Foi o filme mais fraco dessa temporada de premiações que assisti e, não por acaso, o mais esquecível também.

Sinceramente? Eu queria gostar muito desse filme, de verdade. Eu amo o Jeff Bridges, amo que a trilha sonora seja cheia de pérolas da música country e até consigo ir com a cara do Chris Pine, mas não deu. Fora a última cena e as tomadas no meio da estrada, que mostram as paisagens lindíssimas das estradas americanas ao som da melhor country music que você respeita, não tem nada ali que valha a pena. Não duvido nada que ele termine sendo o Grande Desaplaudido da Noite™, e infelizmente não vai ser uma surpresa quando isso acontecer. Triste, mas tem outros troféu.

LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES (Damien Chazelle)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Damien Chazelle), Melhor Atriz (Emma Stone), Melhor Ator (Ryan Gosling), Melhor Roteiro Original (Damien Chazelle), Melhor Canção Original (“Audition (The Fools Who Dream)” e “City Of Stars”), Melhor Fotografia (Linus Sandgren), Melhor Figurino (Mary Zophres), Melhor Mixagem de Som (Andy Nelson, Ai-Ling e Steve A. Morrow), Melhor Edição de Som (Ai-Ling e Mildred Iatrou Morgan), Melhor Design de Produção (David Wasco e Sandy Reynolds-Wasco), Melhor Edição (Tom Cross) e Melhor Trilha Sonora (Justin Hurwitz).

Sobre o que é? Mia e Sebastian são dois jovens sonhadores que vão para Hollywood atrás daquilo que desejam pra si: ela, se tornar uma grande atriz de cinema; ele, apaixonado por jazz, um respeitado músico. No meio do caminho os dois se conhecem, se odeiam, depois se apaixonam, tudo isso enquanto correm atrás dos seus sonhos e dançam e cantam por uma Los Angeles ensolarada que brilha como as estrelas de uma noite sem nuvens. É um filme lindo, completamente deslocado da realidade, cheio de referências, que celebra não só o jazz, mas principalmente Hollywood, o cinema clássico e os sonhos que sempre foram a força motriz dessa indústria imensa.

Prestou? Demais! Embora ele não seja tudo isso que as pessoas estão dizendo, fico feliz que ele exista pra nos lembrar que ainda existem pessoas nesse mundo que acreditam em sonhos, que são apaixonadas por aquilo que fazem, que acreditam demais numa ideia tão ambiciosa quanto essa, mas principalmente que existam pessoas dispostas a fazer esse sonho – que é o que o filme é, no final das contas – acontecer. É por isso que eu realmente fico desgraçada da cabeça quando as pessoas começam a falar mal do filme e traçar paralelos com a situação atual dos Estados Unidos e a presidência do Trump. La La Land é uma ode ao cinema clássico, à Hollywood, ao sonhos, e também ao american dream, é claro, mas isso não quer dizer perigoso como muita gente se cansou de escrever por aí. Nenhum filme existe no vácuo, eles sempre vão ter uma mensagem além, mas dizer que o filme é o pavor dos nossos tempos é demais pra mim.

Sinceramente? É uma verdade universalmente conhecida que La La Land vai levar todos os prêmios e não sou eu que vou dizer que não. Embora ele não seja tão inovador, é um filme ambicioso, que se arrisca, e que tem a coragem de entregar algo que já não acontecia há bastante tempo. Mesmo que minha torcida não esteja com ele em todas as categorias – existem filmes mais importantes, melhores e que merecem mais levar o prêmio pra casa -, não vou ficar descontente caso ele leve, porque às vezes a gente só precisa lembrar que o cinema é essa fábrica de sonhos linda, imensa e incrível, e que num mundo tão difícil quanto o que vivemos, às vezes é importante ter alguém (ou algo) pra nos lembrar que é possível continuar a sonhar.