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COM AMOR

COM AMOR

8. YOUR FAVORITE INTERNET FRIEND

Inspirado nesse desafio incrível aqui.

Querida Y.

A primeira vez que escrevi pra você foi em abril, logo após meu retorno de São Paulo. Eu tinha pisado na cidade pela primeira vez e, naqueles dias, nós tínhamos feito planos, muitos planos, mas não concretizamos nenhum; ainda que precisássemos desesperadamente uma da outra. Não é preciso te lembrar de nenhuma dessas coisas: cada uma delas está registradas na carta que te enviei naquela época, e você sabe, como eu sei, porque as viveu também. Mas o que eu nunca disse é que temi muito pelo futuro; o nosso futuro. Temi que a culpa que insistíamos em tomar pra nós se tornasse um obstáculo no nosso caminho, que a gente construísse muros alto demais, numa tentativa de evitar a mágoa e a frustração, e que eventualmente esses muros se tornassem intransponíveis. Eu lembro de me sentir profundamente culpada, e lembro de você se sentir também, não porque existia uma culpa real, mas porque somos humanas e insistimos em encontrá-la em algum lugar. Não havia como culpar uma à outra, então culpamos nós mesmas. Então, quando minha caixa chegou até você, eu soube que ficaria tudo bem. De um jeito bobo, mas muito honesto, eu me senti conectada com você, como se o fato de você estar segurando aquela caixa, aquela carta, aquele presente que um dia estava aqui comigo e de repente estava aí com você, mudasse absolutamente tudo. E mudava.

Eu gosto dessa história porque acho que ela sintetiza perfeitamente um medo que, pra mim, sempre foi muito real: o de que, eventualmente, eu estragaria tudo. Não é como se nunca tivesse acontecido, como se eu nunca tivesse sido corroída pela culpa de estragar algo que parecia tão perfeito, bonito e especial; naquele momento, parecia uma questão de tempo até que acontecesse de novo. Até que você apareceu e, do jeito mais doce possível, me mostrou que as coisas podiam ser diferentes. Uma das coisas que mais me surpreendem até hoje é a forma e a velocidade com que nos aproximamos, porque parecia improvável que, depois de tanta coisa, eu pudesse me doar novamente de uma forma tão honesta e vulnerável para outra pessoa, que eu pudesse confiar em uma amizade que não me deixaria de lado assim que meu lado mais feio e sujo viesse à tona, mas as barreiras que construí ao meu redor e que me protegiam do mundo jamais pareceram funcionar com você; o que é, ao mesmo tempo, muito doido e especial. Acho que nunca cheguei a te dizer isso, bichinha, mas em nossas primeiras conversas, era assustador ver nossas mensagens ficarem tão grandes e, de repente, assuntos banais do nosso dia-a-dia se transformarem em imensos textos sobre a vida, o universo e tudo mais. Não se engane, eu sempre gostei de falar sobre a vida, o universo e tudo mais – sou pisciana, afinal, nós gostamos desse tipo de coisa -, mas eu jamais conseguira ser tão profunda e expor coisas tão complexas sobre a minha personalidade e minha vida para alguém que eu conhecia há tão pouco tempo. Numa via de mão dupla, também me surpreendia o fato de você retribuir na mesma intensidade, e falar sobre a sua vida de forma tão aberta para uma pessoa que, até pouco tempo atrás, não estava ali. Sempre brincamos com isso, mas hoje, me parece impossível imaginar uma vida sem as nossas longas conversas que jamais têm fim, sem sua presença constante na minha vida.

As pessoas percebem que há algo de especial entre a gente, que há uma conexão profunda e única, porque o modo como falo de você é diferente, assim como nossa amizade é diferente de qualquer outro relacionamento que eu já tenha tido. Tenho a sorte de ter muitas amigas, e todas elas são minhas melhores amigas, sem qualquer traço de cinismo ou ironia, mas quando coloco em perspectiva, sempre me parece que estamos em uma página diferente do resto do mundo, quase como se existisse algo realmente complexo e único acontecendo aqui, e não há explicação alguma pra isso além de que algumas coisas parecem predestinadas a ser – mas não deixa de ser curioso que, em tantas oportunidades para acontecer, nossa amizade tenha se construído justamente no momento em que mais precisávamos uma da outra; o que me faz acreditar menos no acaso e mais em uma força divina que faz as coisas acontecerem como devem, ainda que de um jeito meio torto, como nunca nos cansamos de dizer. Às vezes, tenho a sensação de que somos nós contra um mundo inteiro de coisas horríveis e monstros e fantasmas e dragões. Talvez seja isso mesmo, mas me parece muito mais possível olhar esse mundo de frente e encará-lo quando tenho você segurando minha mão. É mágico – e eu sou retardada o suficiente para acreditar que algumas coisas só podem ser superadas com um pouquinho de mágica; o que nós temos de sobra aqui.

Muito se fala sobre almas gêmeas de um jeito romântico, mas nunca me disseram que era possível encontrar esse tipo de conforto e completude em uma… amizade. Me sinto sortuda o suficiente por ter encontrado minha outra metade, que não fosse a internet, talvez estivesse perdida até hoje nesse mundo tão grande, mas olha só que coisa maravilhosa vivermos no tempo em que vivemos. Em você, baby girl, eu encontrei alguém capaz de desenhar um mundo junto comigo, um mundo em que a gente precisa de muito pouco para ser feliz, onde a gente passa horas flutuando no mar, com a barriga pra cima, os dedos pra fora da água, as mãos dadas e os olhos fechados por causa do sol; um lugar perfeito que não precisa ser físico – embora, eu espere que um dia seja -, mas que ainda vai existir no único lugar que importa: dentro da gente. Gosto que tanto eu quanto você somos de signos de água e que o mar seja o nosso lar, porque por mais diferente que sejamos – e você sabe que nós somos -, nossa essência continua a mesma. São muito sentimentos, tantos que às vezes não somos sequer capazes de lidar com eles, mas então passamos duas horas no telefone com a outra e, de repente, o mundo parece um lugar melhor; mais seguro, confortável. Um lugar onde podemos rolar com o Logan ou enfiar referências de Call The Midwife em conversas aleatórias, onde somos Jenny e Trixie, Eve e Cassie, e ninguém pode nos dizer que não.

Existe uma infinidade de coisas que eu gostaria de dizer nessa carta – algumas, eu sequer poderia -, mas falar sobre elas me parece muito pequeno quando vivemos e fizemos tanto, como crescemos nesse período e como, pouco a pouco, temos nos tornado mais fortes. Um ano parece pouco tempo, e talvez seja de fato, mas cada vez mais tenho entendido que tempo é algo muito relativo – e o nosso é apenas nosso. Você é como um passarinho que voa comigo, o barquinho que jamais deixa meu coraçãozinho se afogar, a luz que me faz enxergar o melhor em mim e que me inspira todos os dias a ser uma pessoa melhor. Obrigada por dividir sua história comigo e permitir que, nessa vida tão efêmera, pudéssemos dividir uma jornada tão bonita e especial. Que nesse mar de incertezas em que navegamos, as dúvidas sejam sempre infinitas, e que sempre encontremos na outra um lugar para chamar de lar.

Com todo o amor do mundo,

Ana Lee

COM AMOR

THANK YOU NOTE

Inspirado nesse projeto incrível aqui.

Sou grata por ter passado a última noite em claro, ainda que eu tivesse que estar de pé às 9:00, porque isso não aconteceria se não amasse tanto o que faço, se não me realizasse tão profundamente no meu trabalho. Sou grata por ter o privilégio de trabalhar com o que gosto, de poder escolher meus caminhos, mas principalmente por poder mudá-los sempre que necessário. Sou grata pelas pessoas que encontrei nessa jornada, que me surpreendem todos os dias, que acreditam em mim quando fazê-lo parece impossível e me lembram que, por mais difícil que seja, o impossível, na verdade, não existe. Depois de uma semana difícil, de chegar muito perto de desistir, foram essas pessoas que me seguraram no lugar. Sou grata por todo o suporte do mundo, por ter uma família que não cobra, incentiva; por ter amigos que às vezes não sabem exatamente o que faço, mas confiam no meu potencial; pelo namorado que mesmo quando não sabe a cilada em que está se metendo, ainda assim, mete a mão na massa. Junto comigo, sempre comigo.

Sou grata pelas viagens que fiz, pelas pessoas que conheci, pelas tristezas que dividimos porque só elas nos possibilitaram aproveitar os momentos de felicidade. Sou grata por todas as casas que ganhei ao redor do Brasil, um país tão grande, mas onde eu, inevitavelmente, sempre terei um lugar pra chamar de lar. Sou grata pelas lágrimas de saudade daquilo que é especial demais para ser deixado para trás sem algumas lágrimas pelo caminho, sem o vazio imenso que fica no peito quando a gente se despede. Sou grata pelas pessoas que foram, porque precisavam seguir novos caminhos, porque cumpriram aquilo que precisavam no meu caminho; mas sou, sobretudo, grata àquelas que, mesmo depois de ficar longe, encontraram um caminho para voltar. E quiseram voltar, o que talvez seja mais importante. Sou grata pelas cartas, enviadas ou não, pelos gestos de carinho, pelos telefonemas de duas horas em que mesmo o silêncio se torna um quentinho no coração. Pelas músicas que gritamos, pelas mágoas que dividimos, pelas confidências que fizemos, pelos segredos que hoje guardo comigo e também são parte de mim.

Sou grata pela minha família, que mesmo tão diferente de mim, sempre permitiu que eu fosse quem eu desejasse, que me ensinou a pensar por conta própria, que me permitiu sonhar e sonhar grande, mesmo que todas as pessoas fossem rir de mim. Eu não era idiota, eles me disseram, e eu acreditei. Sou grata pela minha mãe, que de todas as pessoas maravilhosas que estão na minha vida, é a maior e mais importante delas. A mulher que me ensinou tudo, me deu tudo e que sempre vai ser minha maior inspiração e referência. Por ser a minha única certeza; meu início, meu meio e, inevitavelmente, meu fim. Sou grata pela sorte de ser filha de quem sou, por dividir e pra sempre carregar uma parte dessa mulher em mim. Sou grata por ter um teto sobre a minha cabeça. Sou grata por todas as oportunidades. Sou grata por todos os “nãos” que fizeram os “sims” terem um gosto infinitamente mais doce. Pelas coisas boas e pelas ruins. Pela vida. Pelo o agora. Pelo passado, pelas raízes, por tudo aquilo que aconteceu e me permitiu estar aqui hoje. Sou grata por continuar a encontrar motivos para ser grata, mesmo em uma semana bosta. Que continue sendo assim, sempre.

 

COM AMOR

FORMAS DE VOLTAR PARA CASA

De Brasília até Correntina percorre-se pouco mais de 530km; mais ou menos cinco horas se você estiver de carro, um pouco mais se estiver de ônibus. Não é uma viagem longa, tampouco cansativa, e não exige muito mais do que vontade e alguns trocados para ir até lá. Quando era pequena, qualquer feriado era motivo para sair de Brasília rumo à Correntina, e eu sempre gostei como, mesmo muito nova e impaciente, as coisas se moviam do lado de fora. De dia, o céu muito azul se desloca, acompanha, faz desenhos com suas nuvens brancas como algodão, enquanto a estrada, o cerrado e as imensas plantações que até hoje não sei bem do que é, são as únicas coisas no chão. Minha mãe sempre dizia para não olhar as árvores por muito tempo, nem tão fixamente; do contrário, eu poderia passar mal; mas eu desobedecia todas as vezes porque parecia injusto deixar aquela paisagem tão bonita passar batido. Eu imaginava quem morava ali, quem cuidava de tudo aquilo, se existiam pessoas, casas, vida depois daquelas pequenas estradas de chão feitas no meio do nada, e gostava de imaginar como seria morar ali, como seria estar tão distante de tudo. Na época, internet ainda era algo muito restrito, uma mordomia limitada aos moradores das grandes capitais, mas nem mesmo o telefone, uma coisa tão básica, parecia funcionar naquela terra de ninguém.

À noite, são as estrelas que acompanham tudo isso e iluminam a paisagem que, do contrário, desapareceria em meio à escuridão. O céu do interior é sempre mais bonito, mais limpo, é muito fácil enxergar as estrelas ali. Da última vez que viajamos, eu e Guilherme procuramos estrelas, constelações, satélites, e era possível ver tudo ali de baixo. Ao mesmo tempo, eu pensava em filmes de terror; espantalhos que acordavam no meio da noite em uma plantação qualquer e se alimentavam de viajantes desavisados, zumbis que passeavam sozinhos como aquele da abertura de The Walking Dead. Como seria viver em um mundo destruído pela praga? Como seria caminhar por aquelas estradas rumo a lugar nenhum? Como seria viver no meio de um apocalipse zumbi? Sempre lembro do Hershel, que morava no meio do nada e, por muito tempo, conseguiu manter a família afastada da realidade, mais ou menos alheia ao que acontecia fora da fazenda. Mas a que preço? Nunca disse que não tinha uma imaginação fértil, mas são esses pensamentos e essas histórias cabeludas que me confortam enquanto, pouco a pouco, me entrego ao sono.

Estar na estrada é diferente de chegar ao destino. Em Correntina não existem zumbis, não existem espantalhos assassinos, não existem celeiros lotados de monstros que comeriam meu cérebro na primeira oportunidade. Mas existem histórias. Boa parte dessas histórias são o que me motivam a voltar pra lá sempre que possível, a entrar em contato com minhas memórias, mas principalmente com um passado que não é diretamente meu. Eu sei que estou em casa muito antes de ver as luzes da cidade, muito antes de sequer entrar na rua Coronel Flores ou na casa dos meus avós, mas quando desço a ladeira de paralelepípedo e ouço o barulho do rio, é quando me lembro que boa parte da minha história começa ali. Mais de um século atrás, meu avô nascia naquela mesma cidade, e antes disso sua família – que eventualmente se tornaria minha – já habitava aquelas ruas, construíam suas próprias narrativas. Estamos em todos os lugares. Quando viajo de ônibus, só o fato de estar parada na rodoviária me lembra que tudo está carregado de história: antes de ser a rodoviária da cidade, aquele terreno pertenceu ao meu avô, e foi ele que o vendeu para a prefeitura da cidade muito, muito tempo atrás construir um lugar onde as pessoas pudessem embarcar e desembarcar de forma apropriada, e os ônibus não precisassem parar em lugares aleatórios no meio da cidade. Guilherme sempre brinca que meu avô era dono da cidade, porque nas histórias ele sempre conhece todo mundo e é dono de todos os lugares, mas isso não é verdade, muito embora ele de fato conhecesse muitas pessoas e fosse dono de muitos lugares.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que teve início a Primeira Guerra Mundial; dois acontecimentos que parecem muito, muito distantes, mas não tão distantes assim. Ele nasceu e cresceu na cidade, assim como seus irmãos e seus filhos depois dele, e não é difícil entender por quê ele sempre esteve tão presente, como ele conhecia tantas pessoas, como praticamente todos os moradores daquela pequena cidade no interior da Bahia dividiam algum tipo de parentesco com ele e, consequentemente, com todo o resto da família. Minha prima Renata costumava dizer que sempre que íamos pra Correntina, a gente descobria a existência de um novo parente, e é verdade. Se não fossem parentes legítimos, eram amigos suficientemente próximos para serem considerados parte da família; amigos dos meus avós que viram seus filhos crescerem e se tornarem amigos, brincarem nas mesmas ruas e das mesmas coisas até o dia que começaram a sair da cidade em busca de uma vida melhor e ter os próprios filhos. A minha geração não é tão próxima justamente porque somos fruto de outros lugares – Brasília, Salvador, Goiânia -; mesmo nas férias, era difícil forçar uma amizade que durava no máximo algumas semanas. Foi um laço que, inevitavelmente, se perdeu com o tempo, ainda que, daqui alguns anos, as únicas pessoas que vão se lembrar dessas histórias e dessas pessoas seremos nós. Eu tenho medo do esquecimento, eu tenho medo de pensar que meus filhos jamais vão conhecer meu avô, que tudo que eles vão saber sobre ele será a partir de memórias minhas e da minha mãe, e essas jamais terão o mesmo significado, porque não fazem parte daquilo que eles viveram. Mas tudo vai continuar ali, na cidade.

Meus avós se casaram na mesma igreja branca com detalhes azuis que fica em frente à praça, ao lado da antiga delegacia e do Hotel de Vivi, que há muito já não hospeda ninguém. Minha avó se casou de preto, porque esse era o único vestido de festa no seu armário, já com quase 30 anos, numa época em que mulheres da idade dela já eram consideradas velhas demais para o casamento. Tudo foi feito às pressas, no dia do aniversário dela; meu avô também já não era nenhum menino e os dois se conheceram de maneira inesperada, quando minha avó ainda não morava em Correntina e estava noiva de outro rapaz. Ela rompeu o noivado para se casar com meu avô e, cinquenta anos depois, os dois celebrariam bodas de ouro naquela mesma igreja – dessa vez, com minha vó usando um belo conjunto nude e dourado. Foi uma noite linda, que se estendeu madrugada adentro, numa imensa festa no hotel, e eu percebi o quanto minha família era importante e amada na cidade. Eu não conhecia aquelas pessoas, muitas delas também não me conheciam, mas todos estavam ali pelo mesmo motivo: celebrar o amor de duas pessoas que eles amavam profundamente. Ao longo da festa, muitas dessas pessoas subiram no palco e homenagearam meus avós – com músicas, poesia, discursos e histórias – e a cada uma delas eu sentia mais e mais orgulho de pertencer a essa família, de ser fruto dessas narrativas.

A última vez que entrei naquela igreja foi em 2009, na missa de corpo presente do meu avô. Tudo aconteceu muito rápido e de repente; nós fomos todos pegos de surpresa. Ele não estava doente, na verdade ele não poderia estar melhor, até que, de repente, não estava mais. Eu nunca chorei tanto em toda a minha vida, ou sofri tanto e quis tanto poder voltar no tempo. Mas foi no meio da tristeza que, mais uma vez, senti orgulho por fazer parte dessa família, por não apenas ter conhecido um homem tão especial quanto o meu avô, mas por tê-lo chamado de avô e ouvido de volta ele me chamar de passarinho. Todas as pessoas que o amavam estavam ali mais uma vez, e elas relembraram histórias, choraram, disseram palavras lindas e nos encheram de… amor. Eu nunca me senti tão triste em toda a minha vida e, ainda assim, poucas vezes me senti tão amada e confortada. Nunca mais entrei naquela igreja – menos por uma decisão consciente, mais porque as oportunidades se tornaram cada vez mais escassas -, mas quando penso em casar no religioso, penso em fazê-lo lá, numa tentativa ambiciosa e meio ridícula de continuar a escrever essa história e ligar o passado a um presente que parece se importar cada vez menos com aqueles que vieram antes dele.

Enterrei meu avô no mesmo lugar em que meus bisavós estão enterrados, e acho que foi naquele momento que me dei conta da quantidade de histórias que moravam ali. Eu podia ou não assumir aquelas histórias como minhas, podia ou não dar continuidade à elas, mas elas continuariam existindo naquele lugar – nas ruas de paralelepípedo, nas casinhas coloridas com piso cimentado, nas ladeiras, tantas ladeiras, no rio que corta a cidade ao meio, nas pessoas, principalmente nas pessoas. São muitas histórias, e ainda que a vida tenha me ensinado que o tempo é capaz de apagar muitas coisas, talvez o esquecimento não seja a regra. Talvez exista uma maneira de preservar esse passado, talvez eu não seja a única preocupada em resgatar e registrar essas lembranças.

Faz muito tempo que não coloco meus pés em Correntina, mas cada vez que estou lá, é como estar novamente em casa. Gosto, especialmente, quando viajo à noite e de ônibus porque sempre chegamos de madrugada, num horário cedo demais para alguém estar acordado, mas tarde o suficiente para ninguém perambular pelas ruas, e é enquanto caminhamos no escuro e em silêncio até a casa da minha avó, que eu sinto a vida que existe ali e, inevitavelmente, me sinto muito viva também. Viva de um jeito idiota. Viva de um jeito que só a ideia de herança e passado e todas essas bobagens que ninguém se importa, mas eu me importo demais, te dá. Então eu penso no meu avô, e penso na minha mãe brincando com filhotes de ratos naquelas ruas, dando os primeiros beijos, indo às primeiras festas. Na minha avó brigando com minha tia avó que esse ano completou cem (!) anos e a cidade inteira comemorou junto com ela. Penso no rato que caiu do telhado em cima da cama quando minha avó estava grávida do seu primeiro filho e meu avô, que disse que aquilo obviamente não ia acontecer, ficou desesperado. Nos quartos que hoje têm vídeo game e computador, mas que um dia tiveram posteres do Roberto Carlos cobrindo as paredes. Na minha mãe correndo apavorada de uma vaca. Do meu avô distribuindo leite, cuidando com carinho do gado, admirando o canto do sabiá. Tudo isso é também uma parte de mim – indireta e distante, mas ainda assim. Eu, que brinquei naquelas ruas, que chorei olhando aquelas estrelas, que corri com galinhas, nadei naquele rio; que vivi coisas realmente horríveis, mas outras incríveis, especiais.

Quando era mais nova, me ressentia por não ter origens mais interessantes, por minha vida começar numa cidadezinha no interior da Bahia, pelo meu sobrenome não ser tão único e diferente. Hoje, no entanto, só posso dizer que estar ali é como estar de volta ao lar – e eu nunca senti tantas saudades desse lar.

COM AMOR

DEAR SANTA,

Já faz mais de dez anos desde que escrevi pra você pela última vez. Não sei se deveria pedir desculpas ou não, embora no fundo tenha quase certeza de que isso não é realmente necessário. Crianças crescem, afinal de contas, e assim como bonecas e carrinhos de controle remoto são deixados de lado, é natural que a sua figura caia na descrença, a lembrança de uma ingenuidade tão característica. Embora hoje eu já não acredite mais num Papai Noel concreto, de roupa vermelha e um trenó puxados por renas, eu continuo acreditando na sua existência e, principalmente, em tudo que sua figura representa.

Lembro quando minha mãe me contou a verdade sobre você. Na realidade, ela não me contou que você não existia: um belo dia, ela simplesmente resolveu que não me levaria no shopping. Eu pedi. Ela disse que eu já era grandinha demais. Eu devia ter 11 anos. Sei que parece cruel quando coloco as coisas dessa forma e é possível que na época eu tenha chorado um bocadinho por conta disso. Hoje, no entanto, reconheço que ela tentava fazer o melhor, e naquele momento, colocar meus pés no chão e jogar a real parecia a coisa certa a se fazer. E eu não guardo nenhuma mágoa, muito pelo contrário. Todos esses anos de infinitas visitas e presentes serviram para me deixar com o coração mais quentinho sempre que me lembro de cada Natal, e que ainda me fazem sentir incrivelmente amada e privilegiada quando essa época chega. Não é por acaso que o Natal é minha época favorita do ano inteiro, aquela que eu espero com mais ansiedade e que me faz começar uma contagem regressiva assim que vai embora. Eu me lembro da minha infância, me lembro de todos os dias que esperecei você chegar só para cair no sono em seguida, e de todas as vezes que acordei com um presente novo embaixo da árvore e, feliz da vida, ouvia minha mãe contar, pela milésima vez, como você era capaz de entrar por uma janela com grades. São lembranças importantes, o tipo de coisa que me mantém viva quando o mundo se torna difícil demais, e que me faz ter esperanças mesmo quando tudo parece perdido. Eu te agradeço por isso, do fundo do meu coração.

Sabe Papai Noel, uma coisa que a vida me ensinou é que a gente precisa acreditar sempre. Talvez por isso, mesmo depois de todo esse tempo, eu continue acreditando em você de alguma forma, com tanta força que, a essa altura, nada é capaz de me provar o contrário. É por isso que até hoje eu morro de amores por quem me dá presente em seu nome ou então porque eu me esforço tanto pra criar momentos tão especiais pra JG, porque no final das contas, os presentes até podem ir embora, mas as lembranças, essas ficam conosco para todo o sempre. Ontem, quando o relógio marcou meia-noite e todos desejamos feliz Natal, eu olhei pra carinha dele, tão feliz em ver suas pessoas favoritas reunidas, e me senti incrivelmente feliz. Foi o mesmo sentimento quando vi seus olhinhos brilhando quando o seu tio, vestido como você, bateu na porta trazendo a bicicleta que ele tanto queria. Foram momentos especiais demais e, embora ele ainda seja muito novo para se lembrar de cada um deles quando crescer, essas memórias estarão sempre comigo – e aí eu vou me sentir infinitamente feliz de novo, o suficiente para conjurar um patrono.

E é por isso que, se eu ainda pudesse te pedir alguma coisa, eu pediria por mais memórias como essa. Por mais felicidade, mais momentos ao lado das pessoas que amamos, mais carinho, mais amor. Por mais sorrisos e olhinhos brilhando, e por mais pessoas que acreditem em você, mesmo que não de um jeito idealizado. A vida já é complicada demais, e o mundo cheio de coisas horríveis, para que a gente não se permita acreditar no que quer que seja. Enquanto escrevo essa carta, estou com a barriga cheia e o coração quentinho como nunca, como se tivesse recebido um abraço que vem de dentro – e é sobre isso que é o Natal. Obrigada por me ensinar tanto, mesmo agora, e por me lembrar, ano após ano, porque essa data importa – e importa muito.

Feliz Natal!
Com carinho.

COM AMOR

7. YOUR EX-BOYFRIEND

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Querido T.,

Como você está? Sei que de todas as pessoas do mundo, talvez eu seja a de quem você menos espera receber uma carta. Já faz mais de dez anos desde a última vez que nos falamos e eu sinto muito que as coisas tenham terminado da forma como terminaram. Minha intenção nunca foi magoar você.

Talvez você não acredite em mim e no seu lugar, acho que eu não acreditaria também. Mas tudo aconteceu há muito tempo e naquela época eu era nova demais para entender o que um namoro realmente significava, o que era se comprometer com outra pessoa num nível tão íntimo e especial. Nos poucos meses que ficamos juntos, você se mostrou uma pessoa linda e verdadeiramente especial – algo que eu só pude enxergar alguns anos depois do nosso término. É uma pena que eu nunca tenha correspondido seus sentimentos à altura.

Poucas pessoas sabem desse capítulo da minha história. É possível que menos ainda saibam desse capítulo na sua. Mas eu lembro de tudo como se fosse ontem e de um jeito meio tosco, porém bastante honesto, eu espero que você se lembre também. Das vezes que ficamos juntos depois da escola. Dos fones de ouvido divididos durante o intervalo. Do nosso primeiro beijo, no subsolo do colégio, perto do auditório. De como nós fazíamos um casal tão bonito juntos. Eu lembro da primeira vez que te vi, de como eu queria ser pelo menos sua amiga, ao mesmo tempo que achava improvável que algum dia fosse chegar perto de você. Eu lembro de contar os dias para ir para a escola só pra poder ver você, mesmo que, no início, só de longe; lembro de quando minhas amigas me ligaram dizendo que você ia ficar comigo no dia seguinte; lembro de sentir as pernas bambas enquanto você me beijava pela primeira vez. É irônico olhar para trás agora e pensar que o jogo virou tão radicalmente e eu me transformei na pessoa que quebrou seu coração – se fui a primeira ou não, é algo que eu realmente nunca vou saber.

Não preciso te lembrar o que aconteceu, muito menos como as coisas terminaram – na biblioteca, se você bem se lembra. Desde então, não trocamos nada além de olhares acusadores até que você saísse do colégio de vez. Mas ainda hoje me deixa triste pensar que naquele 12 de junho fatídico, eu já não sentia mais nada por você. E que eu não senti mais nada depois. Enquanto você dizia que era melhor a gente terminar, eu via no seu rosto que aquilo não era exatamente o que você queria, e eu me sinto horrível por ter te deixado ir embora daquela forma, naquele dia, mesmo que eu soubesse que jamais seria capaz de te dar em troca o que você merecia de verdade. Se você me perguntasse o que aconteceu de errado, onde as coisas começaram a desandar, eu realmente não saberia responder. Porque de repente estava tudo bem e, no momento seguinte, não estava mais. A vida, talvez. Mas hoje, enxergo tudo que aconteceu como uma própria consequência da nossa imaturidade – especialmente a minha. Talvez você fosse a pessoa certa, num momento absurdamente errado.

Por algum tempo, eu me senti verdadeiramente culpada pelo o que tinha acontecido. Em outros, eu cheguei a acreditar que tinha feito uma escolha totalmente equivocada e que eu jamais deveria ter te deixado ir. No entanto, hoje eu sei que foi melhor assim. Não foi fácil pra você e eu tenho certeza que, no fundo no fundo, eu sempre vou carregar uma culpa, por menor que seja, por ter te tratado como eu tratei. Mas são coisas que precisavam acontecer pra que a gente crescesse e eu espero de verdade que você tenha aproveitado todas as portas que se abriram depois. Não sei se você continua com a B. ou não, mas se sim, espero que vocês estejam felizes.

Alguns anos atrás, te vi pela faculdade. Fiquei surpresa, porque já não pensava em você há muito tempo e te ver ali, ainda tão bonito, mas ao mesmo tempo tão diferente, desenterrou muitos pensamentos que eu achei já estarem enterrados e esquecidos para sempre. Você me viu também e ali, naqueles cinco segundos que nos encaramos, eu quis ir até você e pedir desculpas por tudo que aconteceu. Infelizmente, eu sei que jamais serei capaz de fazer uma coisa dessas – e é por isso que estou escrevendo essa carta. No fundo, espero que você esteja feliz e realizado, ao lado de uma pessoa que verdadeiramente possa retribuir os sentimentos que você dá com tanta facilidade, que te faça rir e te conforte quando necessário, que goste da sua família e dos seus amigos, mas principalmente de quem você verdadeiramente é. Se algum dia você se perguntar por onde eu estou, saiba que eu estou muito, muito feliz e realizada de uma forma que eu nunca estive antes. Torço para que, a essa altura, você já seja capaz de olhar o passado e não se lembrar apenas das coisas ruins que aconteceram, mas também das lembranças boas que ficaram. É o que eu tento fazer. Espero que você tente também.

Com carinho.