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COM AMOR

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8. Your favorite internet friend

Inspirado nesse desafio incrível aqui.

Querida Y.

A primeira vez que escrevi pra você foi em abril, logo após meu retorno de São Paulo. Eu tinha pisado na cidade pela primeira vez e, naqueles dias, nós tínhamos feito planos, muitos planos, mas não concretizamos nenhum; ainda que precisássemos desesperadamente uma da outra. Não é preciso te lembrar de nenhuma dessas coisas: cada uma delas está registradas na carta que te enviei naquela época, e você sabe, como eu sei, porque as viveu também. Mas o que eu nunca disse é que temi muito pelo futuro; o nosso futuro. Temi que a culpa que insistíamos em tomar pra nós se tornasse um obstáculo no nosso caminho, que a gente construísse muros alto demais, numa tentativa de evitar a mágoa e a frustração, e que eventualmente esses muros se tornassem intransponíveis. Eu lembro de me sentir profundamente culpada, e lembro de você se sentir também, não porque existia uma culpa real, mas porque somos humanas e insistimos em encontrá-la em algum lugar. Não havia como culpar uma à outra, então culpamos nós mesmas. Então, quando minha caixa chegou até você, eu soube que ficaria tudo bem. De um jeito bobo, mas muito honesto, eu me senti conectada com você, como se o fato de você estar segurando aquela caixa, aquela carta, aquele presente que um dia estava aqui comigo e de repente estava aí com você, mudasse absolutamente tudo. E mudava.

Eu gosto dessa história porque acho que ela sintetiza perfeitamente um medo que, pra mim, sempre foi muito real: o de que, eventualmente, eu estragaria tudo. Não é como se nunca tivesse acontecido, como se eu nunca tivesse sido corroída pela culpa de estragar algo que parecia tão perfeito, bonito e especial; naquele momento, parecia uma questão de tempo até que acontecesse de novo. Até que você apareceu e, do jeito mais doce possível, me mostrou que as coisas podiam ser diferentes. Uma das coisas que mais me surpreendem até hoje é a forma e a velocidade com que nos aproximamos, porque parecia improvável que, depois de tanta coisa, eu pudesse me doar novamente de uma forma tão honesta e vulnerável para outra pessoa, que eu pudesse confiar em uma amizade que não me deixaria de lado assim que meu lado mais feio e sujo viesse à tona, mas as barreiras que construí ao meu redor e que me protegiam do mundo jamais pareceram funcionar com você; o que é, ao mesmo tempo, muito doido e especial. Acho que nunca cheguei a te dizer isso, bichinha, mas em nossas primeiras conversas, era assustador ver nossas mensagens ficarem tão grandes e, de repente, assuntos banais do nosso dia-a-dia se transformarem em imensos textos sobre a vida, o universo e tudo mais. Não se engane, eu sempre gostei de falar sobre a vida, o universo e tudo mais – sou pisciana, afinal, nós gostamos desse tipo de coisa -, mas eu jamais conseguira ser tão profunda e expor coisas tão complexas sobre a minha personalidade e minha vida para alguém que eu conhecia há tão pouco tempo. Numa via de mão dupla, também me surpreendia o fato de você retribuir na mesma intensidade, e falar sobre a sua vida de forma tão aberta para uma pessoa que, até pouco tempo atrás, não estava ali. Sempre brincamos com isso, mas hoje, me parece impossível imaginar uma vida sem as nossas longas conversas que jamais têm fim, sem sua presença constante na minha vida.

As pessoas percebem que há algo de especial entre a gente, que há uma conexão profunda e única, porque o modo como falo de você é diferente, assim como nossa amizade é diferente de qualquer outro relacionamento que eu já tenha tido. Tenho a sorte de ter muitas amigas, e todas elas são minhas melhores amigas, sem qualquer traço de cinismo ou ironia, mas quando coloco em perspectiva, sempre me parece que estamos em uma página diferente do resto do mundo, quase como se existisse algo realmente complexo e único acontecendo aqui, e não há explicação alguma pra isso além de que algumas coisas parecem predestinadas a ser – mas não deixa de ser curioso que, em tantas oportunidades para acontecer, nossa amizade tenha se construído justamente no momento em que mais precisávamos uma da outra; o que me faz acreditar menos no acaso e mais em uma força divina que faz as coisas acontecerem como devem, ainda que de um jeito meio torto, como nunca nos cansamos de dizer. Às vezes, tenho a sensação de que somos nós contra um mundo inteiro de coisas horríveis e monstros e fantasmas e dragões. Talvez seja isso mesmo, mas me parece muito mais possível olhar esse mundo de frente e encará-lo quando tenho você segurando minha mão. É mágico – e eu sou retardada o suficiente para acreditar que algumas coisas só podem ser superadas com um pouquinho de mágica; o que nós temos de sobra aqui.

Muito se fala sobre almas gêmeas de um jeito romântico, mas nunca me disseram que era possível encontrar esse tipo de conforto e completude em uma… amizade. Me sinto sortuda o suficiente por ter encontrado minha outra metade, que não fosse a internet, talvez estivesse perdida até hoje nesse mundo tão grande, mas olha só que coisa maravilhosa vivermos no tempo em que vivemos. Em você, baby girl, eu encontrei alguém capaz de desenhar um mundo junto comigo, um mundo em que a gente precisa de muito pouco para ser feliz, onde a gente passa horas flutuando no mar, com a barriga pra cima, os dedos pra fora da água, as mãos dadas e os olhos fechados por causa do sol; um lugar perfeito que não precisa ser físico – embora, eu espere que um dia seja -, mas que ainda vai existir no único lugar que importa: dentro da gente. Gosto que tanto eu quanto você somos de signos de água e que o mar seja o nosso lar, porque por mais diferente que sejamos – e você sabe que nós somos -, nossa essência continua a mesma. São muito sentimentos, tantos que às vezes não somos sequer capazes de lidar com eles, mas então passamos duas horas no telefone com a outra e, de repente, o mundo parece um lugar melhor; mais seguro, confortável. Um lugar onde podemos rolar com o Logan ou enfiar referências de Call The Midwife em conversas aleatórias, onde somos Jenny e Trixie, Eve e Cassie, e ninguém pode nos dizer que não.

Existe uma infinidade de coisas que eu gostaria de dizer nessa carta – algumas, eu sequer poderia -, mas falar sobre elas me parece muito pequeno quando vivemos e fizemos tanto, como crescemos nesse período e como, pouco a pouco, temos nos tornado mais fortes. Um ano parece pouco tempo, e talvez seja de fato, mas cada vez mais tenho entendido que tempo é algo muito relativo – e o nosso é apenas nosso. Você é como um passarinho que voa comigo, o barquinho que jamais deixa meu coraçãozinho se afogar, a luz que me faz enxergar o melhor em mim e que me inspira todos os dias a ser uma pessoa melhor. Obrigada por dividir sua história comigo e permitir que, nessa vida tão efêmera, pudéssemos dividir uma jornada tão bonita e especial. Que nesse mar de incertezas em que navegamos, as dúvidas sejam sempre infinitas, e que sempre encontremos na outra um lugar para chamar de lar.

Com todo o amor do mundo,

Ana Lee

COM AMOR

Formas de voltar para casa

De Brasília até Correntina percorre-se pouco mais de 530km; mais ou menos cinco horas se você estiver de carro, um pouco mais se estiver de ônibus. Não é uma viagem longa, tampouco cansativa, e não exige muito mais do que vontade e alguns trocados para ir até lá. Quando era pequena, qualquer feriado era motivo para sair de Brasília rumo à Correntina, e eu sempre gostei como, mesmo muito nova e impaciente, as coisas se moviam do lado de fora. De dia, o céu muito azul se desloca, acompanha, faz desenhos com suas nuvens brancas como algodão, enquanto a estrada, o cerrado e as imensas plantações que até hoje não sei bem do que é, são as únicas coisas no chão. Minha mãe sempre dizia para não olhar as árvores por muito tempo, nem tão fixamente; do contrário, eu poderia passar mal; mas eu desobedecia todas as vezes porque parecia injusto deixar aquela paisagem tão bonita passar batido. Eu imaginava quem morava ali, quem cuidava de tudo aquilo, se existiam pessoas, casas, vida depois daquelas pequenas estradas de chão feitas no meio do nada, e gostava de imaginar como seria morar ali, como seria estar tão distante de tudo. Na época, internet ainda era algo muito restrito, uma mordomia limitada aos moradores das grandes capitais, mas nem mesmo o telefone, uma coisa tão básica, parecia funcionar naquela terra de ninguém.

À noite, são as estrelas que acompanham tudo isso e iluminam a paisagem que, do contrário, desapareceria em meio à escuridão. O céu do interior é sempre mais bonito, mais limpo, é muito fácil enxergar as estrelas ali. Da última vez que viajamos, eu e Guilherme procuramos estrelas, constelações, satélites, e era possível ver tudo ali de baixo. Ao mesmo tempo, eu pensava em filmes de terror; espantalhos que acordavam no meio da noite em uma plantação qualquer e se alimentavam de viajantes desavisados, zumbis que passeavam sozinhos como aquele da abertura de The Walking Dead. Como seria viver em um mundo destruído pela praga? Como seria caminhar por aquelas estradas rumo a lugar nenhum? Como seria viver no meio de um apocalipse zumbi? Sempre lembro do Hershel, que morava no meio do nada e, por muito tempo, conseguiu manter a família afastada da realidade, mais ou menos alheia ao que acontecia fora da fazenda. Mas a que preço? Nunca disse que não tinha uma imaginação fértil, mas são esses pensamentos e essas histórias cabeludas que me confortam enquanto, pouco a pouco, me entrego ao sono.

Estar na estrada é diferente de chegar ao destino. Em Correntina não existem zumbis, não existem espantalhos assassinos, não existem celeiros lotados de monstros que comeriam meu cérebro na primeira oportunidade. Mas existem histórias. Boa parte dessas histórias são o que me motivam a voltar pra lá sempre que possível, a entrar em contato com minhas memórias, mas principalmente com um passado que não é diretamente meu. Eu sei que estou em casa muito antes de ver as luzes da cidade, muito antes de sequer entrar na rua Coronel Flores ou na casa dos meus avós, mas quando desço a ladeira de paralelepípedo e ouço o barulho do rio, é quando me lembro que boa parte da minha história começa ali. Mais de um século atrás, meu avô nascia naquela mesma cidade, e antes disso sua família – que eventualmente se tornaria minha – já habitava aquelas ruas, construíam suas próprias narrativas. Estamos em todos os lugares. Quando viajo de ônibus, só o fato de estar parada na rodoviária me lembra que tudo está carregado de história: antes de ser a rodoviária da cidade, aquele terreno pertenceu ao meu avô, e foi ele que o vendeu para a prefeitura da cidade muito, muito tempo atrás construir um lugar onde as pessoas pudessem embarcar e desembarcar de forma apropriada, e os ônibus não precisassem parar em lugares aleatórios no meio da cidade. Guilherme sempre brinca que meu avô era dono da cidade, porque nas histórias ele sempre conhece todo mundo e é dono de todos os lugares, mas isso não é verdade, muito embora ele de fato conhecesse muitas pessoas e fosse dono de muitos lugares.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que teve início a Primeira Guerra Mundial; dois acontecimentos que parecem muito, muito distantes, mas não tão distantes assim. Ele nasceu e cresceu na cidade, assim como seus irmãos e seus filhos depois dele, e não é difícil entender por quê ele sempre esteve tão presente, como ele conhecia tantas pessoas, como praticamente todos os moradores daquela pequena cidade no interior da Bahia dividiam algum tipo de parentesco com ele e, consequentemente, com todo o resto da família. Minha prima Renata costumava dizer que sempre que íamos pra Correntina, a gente descobria a existência de um novo parente, e é verdade. Se não fossem parentes legítimos, eram amigos suficientemente próximos para serem considerados parte da família; amigos dos meus avós que viram seus filhos crescerem e se tornarem amigos, brincarem nas mesmas ruas e das mesmas coisas até o dia que começaram a sair da cidade em busca de uma vida melhor e ter os próprios filhos. A minha geração não é tão próxima justamente porque somos fruto de outros lugares – Brasília, Salvador, Goiânia -; mesmo nas férias, era difícil forçar uma amizade que durava no máximo algumas semanas. Foi um laço que, inevitavelmente, se perdeu com o tempo, ainda que, daqui alguns anos, as únicas pessoas que vão se lembrar dessas histórias e dessas pessoas seremos nós. Eu tenho medo do esquecimento, eu tenho medo de pensar que meus filhos jamais vão conhecer meu avô, que tudo que eles vão saber sobre ele será a partir de memórias minhas e da minha mãe, e essas jamais terão o mesmo significado, porque não fazem parte daquilo que eles viveram. Mas tudo vai continuar ali, na cidade.

Meus avós se casaram na mesma igreja branca com detalhes azuis que fica em frente à praça, ao lado da antiga delegacia e do Hotel de Vivi, que há muito já não hospeda ninguém. Minha avó se casou de preto, porque esse era o único vestido de festa no seu armário, já com quase 30 anos, numa época em que mulheres da idade dela já eram consideradas velhas demais para o casamento. Tudo foi feito às pressas, no dia do aniversário dela; meu avô também já não era nenhum menino e os dois se conheceram de maneira inesperada, quando minha avó ainda não morava em Correntina e estava noiva de outro rapaz. Ela rompeu o noivado para se casar com meu avô e, cinquenta anos depois, os dois celebrariam bodas de ouro naquela mesma igreja – dessa vez, com minha vó usando um belo conjunto nude e dourado. Foi uma noite linda, que se estendeu madrugada adentro, numa imensa festa no hotel, e eu percebi o quanto minha família era importante e amada na cidade. Eu não conhecia aquelas pessoas, muitas delas também não me conheciam, mas todos estavam ali pelo mesmo motivo: celebrar o amor de duas pessoas que eles amavam profundamente. Ao longo da festa, muitas dessas pessoas subiram no palco e homenagearam meus avós – com músicas, poesia, discursos e histórias – e a cada uma delas eu sentia mais e mais orgulho de pertencer a essa família, de ser fruto dessas narrativas.

A última vez que entrei naquela igreja foi em 2009, na missa de corpo presente do meu avô. Tudo aconteceu muito rápido e de repente; nós fomos todos pegos de surpresa. Ele não estava doente, na verdade ele não poderia estar melhor, até que, de repente, não estava mais. Eu nunca chorei tanto em toda a minha vida, ou sofri tanto e quis tanto poder voltar no tempo. Mas foi no meio da tristeza que, mais uma vez, senti orgulho por fazer parte dessa família, por não apenas ter conhecido um homem tão especial quanto o meu avô, mas por tê-lo chamado de avô e ouvido de volta ele me chamar de passarinho. Todas as pessoas que o amavam estavam ali mais uma vez, e elas relembraram histórias, choraram, disseram palavras lindas e nos encheram de… amor. Eu nunca me senti tão triste em toda a minha vida e, ainda assim, poucas vezes me senti tão amada e confortada. Nunca mais entrei naquela igreja – menos por uma decisão consciente, mais porque as oportunidades se tornaram cada vez mais escassas -, mas quando penso em casar no religioso, penso em fazê-lo lá, numa tentativa ambiciosa e meio ridícula de continuar a escrever essa história e ligar o passado a um presente que parece se importar cada vez menos com aqueles que vieram antes dele.

Enterrei meu avô no mesmo lugar em que meus bisavós estão enterrados, e acho que foi naquele momento que me dei conta da quantidade de histórias que moravam ali. Eu podia ou não assumir aquelas histórias como minhas, podia ou não dar continuidade à elas, mas elas continuariam existindo naquele lugar – nas ruas de paralelepípedo, nas casinhas coloridas com piso cimentado, nas ladeiras, tantas ladeiras, no rio que corta a cidade ao meio, nas pessoas, principalmente nas pessoas. São muitas histórias, e ainda que a vida tenha me ensinado que o tempo é capaz de apagar muitas coisas, talvez o esquecimento não seja a regra. Talvez exista uma maneira de preservar esse passado, talvez eu não seja a única preocupada em resgatar e registrar essas lembranças.

Faz muito tempo que não coloco meus pés em Correntina, mas cada vez que estou lá, é como estar novamente em casa. Gosto, especialmente, quando viajo à noite e de ônibus porque sempre chegamos de madrugada, num horário cedo demais para alguém estar acordado, mas tarde o suficiente para ninguém perambular pelas ruas, e é enquanto caminhamos no escuro e em silêncio até a casa da minha avó, que eu sinto a vida que existe ali e, inevitavelmente, me sinto muito viva também. Viva de um jeito idiota. Viva de um jeito que só a ideia de herança e passado e todas essas bobagens que ninguém se importa, mas eu me importo demais, te dá. Então eu penso no meu avô, e penso na minha mãe brincando com filhotes de ratos naquelas ruas, dando os primeiros beijos, indo às primeiras festas. Na minha avó brigando com minha tia avó que esse ano completou cem (!) anos e a cidade inteira comemorou junto com ela. Penso no rato que caiu do telhado em cima da cama quando minha avó estava grávida do seu primeiro filho e meu avô, que disse que aquilo obviamente não ia acontecer, ficou desesperado. Nos quartos que hoje têm vídeo game e computador, mas que um dia tiveram posteres do Roberto Carlos cobrindo as paredes. Na minha mãe correndo apavorada de uma vaca. Do meu avô distribuindo leite, cuidando com carinho do gado, admirando o canto do sabiá. Tudo isso é também uma parte de mim – indireta e distante, mas ainda assim. Eu, que brinquei naquelas ruas, que chorei olhando aquelas estrelas, que corri com galinhas, nadei naquele rio; que vivi coisas realmente horríveis, mas outras incríveis, especiais.

Quando era mais nova, me ressentia por não ter origens mais interessantes, por minha vida começar numa cidadezinha no interior da Bahia, pelo meu sobrenome não ser tão único e diferente. Hoje, no entanto, só posso dizer que estar ali é como estar de volta ao lar – e eu nunca senti tantas saudades desse lar.

COM AMOR

7. Your ex-boyfriend

Inspirado nesse desafio incrível aqui

Querido T.,

Como você está? Sei que de todas as pessoas do mundo, talvez eu seja a de quem você menos espera receber uma carta. Já faz mais de dez anos desde a última vez que nos falamos e eu sinto muito que as coisas tenham terminado da forma como terminaram. Minha intenção nunca foi magoar você.

Talvez você não acredite em mim e no seu lugar, acho que eu não acreditaria também. Mas tudo aconteceu há muito tempo e naquela época eu era nova demais para entender o que um namoro realmente significava, o que era se comprometer com outra pessoa num nível tão íntimo e especial. Nos poucos meses que ficamos juntos, você se mostrou uma pessoa linda e verdadeiramente especial – algo que eu só pude enxergar alguns anos depois do nosso término. É uma pena que eu nunca tenha correspondido seus sentimentos à altura.

Poucas pessoas sabem desse capítulo da minha história. É possível que menos ainda saibam desse capítulo na sua. Mas eu lembro de tudo como se fosse ontem e de um jeito meio tosco, porém bastante honesto, eu espero que você se lembre também. Das vezes que ficamos juntos depois da escola. Dos fones de ouvido divididos durante o intervalo. Do nosso primeiro beijo, no subsolo do colégio, perto do auditório. De como nós fazíamos um casal tão bonito juntos. Eu lembro da primeira vez que te vi, de como eu queria ser pelo menos sua amiga, ao mesmo tempo que achava improvável que algum dia fosse chegar perto de você. Eu lembro de contar os dias para ir para a escola só pra poder ver você, mesmo que, no início, só de longe; lembro de quando minhas amigas me ligaram dizendo que você ia ficar comigo no dia seguinte; lembro de sentir as pernas bambas enquanto você me beijava pela primeira vez. É irônico olhar para trás agora e pensar que o jogo virou tão radicalmente e eu me transformei na pessoa que quebrou seu coração – se fui a primeira ou não, é algo que eu realmente nunca vou saber.

Não preciso te lembrar o que aconteceu, muito menos como as coisas terminaram – na biblioteca, se você bem se lembra. Desde então, não trocamos nada além de olhares acusadores até que você saísse do colégio de vez. Mas ainda hoje me deixa triste pensar que naquele 12 de junho fatídico, eu já não sentia mais nada por você. E que eu não senti mais nada depois. Enquanto você dizia que era melhor a gente terminar, eu via no seu rosto que aquilo não era exatamente o que você queria, e eu me sinto horrível por ter te deixado ir embora daquela forma, naquele dia, mesmo que eu soubesse que jamais seria capaz de te dar em troca o que você merecia de verdade. Se você me perguntasse o que aconteceu de errado, onde as coisas começaram a desandar, eu realmente não saberia responder. Porque de repente estava tudo bem e, no momento seguinte, não estava mais. A vida, talvez. Mas hoje, enxergo tudo que aconteceu como uma própria consequência da nossa imaturidade – especialmente a minha. Talvez você fosse a pessoa certa, num momento absurdamente errado.

Por algum tempo, eu me senti verdadeiramente culpada pelo o que tinha acontecido. Em outros, eu cheguei a acreditar que tinha feito uma escolha totalmente equivocada e que eu jamais deveria ter te deixado ir. No entanto, hoje eu sei que foi melhor assim. Não foi fácil pra você e eu tenho certeza que, no fundo no fundo, eu sempre vou carregar uma culpa, por menor que seja, por ter te tratado como eu tratei. Mas são coisas que precisavam acontecer pra que a gente crescesse e eu espero de verdade que você tenha aproveitado todas as portas que se abriram depois. Não sei se você continua com a B. ou não, mas se sim, espero que vocês estejam felizes.

Alguns anos atrás, te vi pela faculdade. Fiquei surpresa, porque já não pensava em você há muito tempo e te ver ali, ainda tão bonito, mas ao mesmo tempo tão diferente, desenterrou muitos pensamentos que eu achei já estarem enterrados e esquecidos para sempre. Você me viu também e ali, naqueles cinco segundos que nos encaramos, eu quis ir até você e pedir desculpas por tudo que aconteceu. Infelizmente, eu sei que jamais serei capaz de fazer uma coisa dessas – e é por isso que estou escrevendo essa carta. No fundo, espero que você esteja feliz e realizado, ao lado de uma pessoa que verdadeiramente possa retribuir os sentimentos que você dá com tanta facilidade, que te faça rir e te conforte quando necessário, que goste da sua família e dos seus amigos, mas principalmente de quem você verdadeiramente é. Se algum dia você se perguntar por onde eu estou, saiba que eu estou muito, muito feliz e realizada de uma forma que eu nunca estive antes. Torço para que, a essa altura, você já seja capaz de olhar o passado e não se lembrar apenas das coisas ruins que aconteceram, mas também das lembranças boas que ficaram. É o que eu tento fazer. Espero que você tente também.

Com carinho.

COM AMOR

6. A stranger

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Hello stranger,

Antes de mais nada, me perdoe por ser tão brega. Falhei miseravelmente em fugir do clichê de Closer – um filme que, a propósito, nunca assisti. Vontade não me falta, mas talvez uma dose extra de tempo e um pouquinho menos de coisas pra fazer me fariam bem. Por enquanto, só posso torcer para que você entenda a referência e que, de preferência, não desista de mim já na largada.

Talvez você esteja se perguntando por que diabos uma pessoa que você não conhece, de repente, resolveu escrever uma carta pra você. Eu estaria me perguntando a mesma coisa se estivesse no seu lugar. A verdade no entanto é que, embora pareça que eu estou escrevendo diretamente para você, quando comecei esta carta a ideia era justamente que eu escrevesse para qualquer pessoa – você só foi sortuda ou sortudo o suficiente para a encontrar do outro lado. Aliás, eu adoraria saber como ela foi chegar em suas mãos, mesmo que esse seja uma coisa que, muito provavelmente, eu jamais vou saber. Queria saber quem é você, o que você faz, quais são suas opiniões sobre a vida, o universo e tudo mais. Infelizmente, são coisas que eu não vou descobrir e isso talvez seja o mais difícil em escrever para você: não existe uma troca, não existe essa via de mão dupla que é o que transforma estranhos em conhecidos, para então se tornarem amigos ou qualquer outra coisa, se for o caso. Por isso é tão difícil escrever pra você.

Às vezes fico pensando como, até algum tempo atrás, algumas das pessoas mais importantes da minha vida eram mero estranhos pra mim. Pessoas sem as quais hoje eu sou absolutamente incapaz de viver, mas que em algum momento não estiveram na minha vida. Eu olho para trás e tento lembrar de como era a minha vida sem elas ali, como foi que nós nos conhecemos, qual foi o nosso primeiro contato, mas a maior parte dessas lembranças ficaram perdidas no tempo – às vezes longo, às vezes nem tanto – e dão lugar ao sentimento que é construído aos poucos ou muito rapidamente. Eu consigo lembrar de coisas que aconteceram antes, como a primeira vez que eu entrei no blog daquela amiga que mais tarde se tornaria minha irmã de alma e descobri que tínhamos gostos tão parecidos, ou então da primeira conversa que tive com aquela que hoje sei que é a mesma pessoa que eu – com quem eu até divido o nome -, só com um cabelo diferente e olhos azuis. Mas eu nunca consigo lembrar quando é que nós ficamos amigas de verdade, quando foi que eu comecei a me sentir segura o suficiente para dizer que elas eram minhas amigas e compartilhar minha vida com um honestidade que, infelizmente, reservo para poucos.

Recentemente, em uma sessão com a minha psicóloga, fui obrigada a ouvir que boa parte das minhas inseguranças com as pessoas nasceram de um rompimento que tive no ano passado, com alguém que eu acreditava ser a minha amiga até, de repente, não ser mais. Era algo que eu já sabia, é claro, mas que foi difícil de ouvir de uma pessoa que me conhece faz tão pouco tempo e que não conhece a outra metade envolvida. Desde então, tenho pensado um bocado na minha relação com essa pessoa e como antes de ser minha amiga, ela também já tinha sido uma estranha pra mim. Então a vida aconteceu: nos tornamos amigas, depois muito amigas até o dia que nossa amizade acabou e, mais uma vez, ela se tornou uma estranha, alguém que eu não sei do que gosta, quem são os amigos, se está feliz, triste. Às vezes vejo suas fotos em alguma rede social e é com uma tristeza genuína que eu me dou conta de que já não conheço aquela pessoa. Que embora ela me procure às vezes para falar de coisas pontuais, não sabemos mais quem são as pessoas do outro lado, quem elas se tornaram nesse meio tempo em que nos afastamos e deixamos de ser amigas.

Eu sempre tento dizer pra mim mesma que isso é algo natural. Que as pessoas passam pela nossa vida e nem sempre estão destinadas a ficar por muito tempo. Mas eu fico triste de saber que, entre todas as coisas pelas quais ela poderia ser lembrada, a memória que ficou pra mim não foram apenas dos dias bons, das tardes comendo gelatina, das conversas que duravam um dia inteiro, da vez que eu passei mal no shopping e nós voltamos pra casa e assistimos Clube dos Cinco, eu deitada enquanto ela mexia no meu cabelo; mas dos dias ruins, do dia em que brigamos feio pela primeira e última vez, das palavras duras que ouvi, do expediente que precisei interromper para chorar cinco minutos no banheiro. Eu não queria que nosso relacionamento ficasse na minha memória como aquele que fez com que eu me perdesse, aquele que fez com que eu pensasse duas vezes antes de me abrir completamente com outra pessoa porque eu nunca teria nenhuma garantia de que ela não sairia correndo na primeira oportunidade, tão logo descobrisse quem eu verdadeiramente era.

Uma amiga me disse uma vez que nosso maior erro é achar que as pessoas são muito mais do que simplesmente pessoas, e que elas erram, metem os pés pelas mãos, fazem besteiras e nos magoam, que tudo isso é absolutamente normal. Eu tento pensar nisso o tempo inteiro e é assim que tenho tratado meus relacionamentos – não como se eu devesse fazer o papel de idiota que perdoa tudo, mas perceber que, entre as mágoas que invariavelmente surgem pelo caminho, os laços que eu tenho construído são muito mais fortes e que mesmo aquelas pessoas mais especiais também contam com uma dose de sentimentos que nem sempre são os melhores possíveis. Entretanto, eu jamais vou ter a garantia de que as pessoas do outro lado vão me aceitar da mesma forma, que vão me enxergar como o ser humano que sou e não como uma pessoa idealizada, perfeita até a página dois. Porque eu não sou assim, ninguém é, e acredito que ninguém nunca vai ser.

Estou te dizendo tudo isso não para te fazer acreditar que devemos perdoar tudo, muito pelo contrário. Mas que reduzir as expectativas e encarar o outro como um ser humano e não como uma pessoa perfeita é essencial. Porque por trás das lentes cor de rosa, sempre existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, e talvez o maior erro em nossos relacionamentos seja, justamente, acreditar que pessoas são muito mais do que elas realmente são. É como escreveu John Green, naquele livro que também não li: What a treacherous thing to believe a person is more than a person. E é mesmo. Ser estranho ao outro é enxergar sua vida de uma forma que muitas vezes ela não o é. Por outro lado, relacionamentos são o convite para que a gente entre em toda a complexidade do outro e perceba que, por trás de todos os sorrisos, existe um mundo inteiro a ser descoberto, um mundo com inúmeros tons de cinza, é verdade, mas nem por isso menos especial. Nem sempre a jornada termina bem, mas isso não significa que ela não tenha valido à pena.

Com carinho.

COM AMOR

5. Your dreams

Inspirado nesse desafio incrível aqui.

Queridos sonhos,

Escrever pra vocês é, ao mesmo tempo, muito fácil e muito difícil – uma contradição que é totalmente proposital. Logo que descobri que a próxima carta do desafio seria pra vocês, achei que ela seria, possivelmente, uma das mais fáceis até agora, talvez porque falar sobre algo que faz tão parte de mim, ao ponto de se tornar uma parte tão fundamental da minha vida e da pessoa que sou hoje, mas principalmente daquela que eu quero ser um dia, realmente pareça muito fácil à primeira vista. Nós nos conhecemos muito profundamente e eu sou a única pessoa nesse mundo inteiro que conhece a dimensão real de vocês – que às vezes são pequenos, como um grãozinho de feijão; ora são enormes, ao ponto de me dar medo e paralisar minhas pernas. No início deste ano, um professor perguntou quais eram meus sonhos e eu travei, mesmo que a resposta estivesse o tempo inteiro na minha cabeça – algo que acontece com mais frequência do que vocês gostariam de imaginar. O tempo, no entanto, foi suficiente pra mostrar que, muito além das coisas boas que vocês me trouxeram em todos esses anos, escrever pra vocês – e, principalmente, sobre vocês – também exigia que eu desenterrasse fracassos, coisas que ficaram no passado e que eu talvez não tenha superado tanto quanto gosto de acreditar, além de escancarar fantasmas que ainda me aterrorizam e com os quais eu ainda não sei se sou capaz de lidar.

Ou seja, fácil, mas também difícil.

A maior parte de vocês cresceu junto comigo. São sonhos que eu guardo com muito carinho, mas que já ficaram para trás há muito tempo, e isso não é de modo algum algo ruim, muito pelo contrário. Vocês são sonhos que, a essa altura do campeonato, eu já consigo ter uma relação mais saudável, que não é de cobrança ou decepção, mas que me fazem olhar pra trás e perceber que tudo bem que as coisas não tenham saído exatamente como meu plano de quinze anos atrás e que, pelo menos, eu vou ter vocês sempre guardados na minha memória, como uma lembrança boa da criança que eu fui um dia. Se hoje eu sou essa pessoa que leva sonhos tão a sério e que sonha até demais é só porque, lá atrás, vocês já me ensinaram que sonhar é importante, que acreditar é essencial, e que se não tivermos algo pelo o que almejar, a vida perde muito da sua graça.

Entretanto, existem muitos de vocês com as quais eu ainda preciso fazer as pazes. Sonhos de dez, às vezes menos, anos atrás que foram deixados de lado por questões diversas – pela falta de dinheiro, principalmente, mas também por falta de foco e persistência. Vocês ainda passeiam pela minha cabeça, como uma promessa não cumprida que, no fundo, no fundo, ninguém prometeu, e por mais que eu tente, às vezes é difícil não encará-los com uma certa mágoa. Porque eu queria que cada um de vocês se tornasse realidade, mesmo que ter absolutamente tudo nunca tenha sido uma opção. Seria injusto não admitir que, por trás de todo o ressentimento do mundo, vocês ainda fazem meu olho brilhar com força e meu coração bater mais forte, e que em uma realidade alternativa seriam vocês a minha realidade, porque é assim que eu gosto de pensar. Mas, a essa altura, eu já tenho a capacidade de compreender que mesmo o fracasso também foi importante e que a frustração de não ter todos os meus sonhos realizados também me ensinou um bocado. Por mais que a Ana de dez anos atrás nem sempre me olhe com um sorriso no rosto, mas com a descrença com a qual jovens adolescentes, em toda a sua complexidade, olham para adultos que se tornaram pessoas tão comuns, eu consigo entender que isso foi necessário para que eu quebrasse muitas das minhas próprias expectativas e entendesse que o mundo não é uma máquina de realizar desejos, mas uma caixinha de surpresa, que reserva inúmeras reviravoltas pelo caminho – algumas incríveis, outras nem tanto – e são essas reviravoltas, no final das contas, que constroem nossas histórias. Se soubéssemos exatamente como seria o caminho, de nada valeria a jornada.

A maior parte das minhas questões com a vida adulta são justamente fruto dessa bolha privilegiada que eu vivi durante muitos anos e que, quando estourou, me jogou em um mundo com o qual eu nunca fui inteiramente capaz de lidar. Embora eu ainda esteja bem longe do ideal que criei de mim mesma aos 23 anos, foram vocês os responsáveis por, de certo modo, me prepararem para o mundo que esperava – um mundo muito maior do que aquele em que eu cresci e com pessoas com sonhos tão importantes quanto os meus. Mesmo assim, vocês encontraram espaço para crescer para além de qualquer fronteira e foram capazes de me mostrar que, se tantas pessoas chegaram lá – onde quer que esse tal “lá” seja – então eu também sou capaz de chegar onde quiser. Meu esforço nem sempre vai ser capaz de me fazer chegar nos lugares onde eu sonho em estar um dia, mas isso não significa que eles não me ajudem a chegar num lugar – um lugar que talvez seja muito melhor do que aquele que eu e vocês imaginamos juntos.

Embora eu tenha custado a admitir isso pra mim mesma, no entanto, é verdade também que muitos de vocês ainda me dão medo. Não só porque vocês são enormes, difíceis, porque cresceram muito além da conta, mas porque eu morro de medo de que, perdida no mundo de vocês, eu termine me perdendo de mim mesma. Dizem que piscianos têm essa tendência a sonhar alto demais e, muitas vezes, ultrapassar os limites daquilo que é considerado saudável até chegar em um ponto em que a realidade se tornou tão brutal, que ligar o modo automático e viver no mundo dos sonhos em tempo integral se torna muito mais fácil, para não dizer a única alternativa válida. Um dos meus filmes favoritos conta justamente a história de um cara que perdeu a mulher porque ela, de repente, se deixou perder nos próprios sonhos de tal modo que, ao se perder em uma realidade construída sob medida, tirou a própria vida para viver aquilo que ela acreditava ser sua única realidade. A primeira vez que assisti ao filme, achei a personagem burra, estúpida, idiota. Aos poucos, no entanto, percebi nela muito de mim mesma, e por mais que doa admitir isso, cada vez mais eu consigo enxergar o quanto eu e ela estamos ligadas – e foi preciso que eu passasse por períodos terríveis na minha própria vida para reconhecer que entre eu e ela existiam muito mais semelhanças do que acreditava minha vã filosofia.

Embora eu nunca tenha pensando em nada tão extremo e o contexto no qual ela está inserida seja cheio de artifícios possíveis apenas na ficção, eu consigo enxergar a linha – às vezes muito tênue – que separa a Ana que sonha alto e corre atrás dos próprios sonhos, mesmo quando morre de medo deles, daquela que prefere rejeitar sua própria realidade em prol do mundo que construiu em sua cabeça. Conversando sobre isso com a Yuu, durante um dos momentos mais difíceis pelos quais passei esse ano, fui pega de surpresa pela genuína – e inevitável – preocupação dela. Até ali, eu não acreditava que vocês pudessem ser um problema na minha vida para além da minha dificuldade nata de lidar com o fracasso, mas não demorou muito para que eu mesma reconhecesse na preocupação dela um motivo pra que eu mesma desse mais atenção ao que estava acontecendo e procurasse ajuda antes que fosse tarde demais. Eu amo cada um de vocês, com uma força que nem sempre parece existir em mim, mas eu também preciso admitir que lidar com alguns de vocês sozinha era exaustivo e que eu precisava passar por isso de forma apropriada antes que toda essa situação levasse embora de vez a minha sanidade. Por mais que vocês sejam uma parte importante – enorme, fundamental – da pessoa que sou hoje, alguns de vocês cresceram ao ponto de se tornarem monstros e é preciso que eu aprenda a lidar com vocês da melhor forma possível antes que vocês se tornem os vilões da minha história, e não meus aliados, aqueles que me motivam a colocar um pé na frente do outro e seguir o meu próprio caminho mesmo quando as coisas ficam difíceis, que é o papel que vocês sempre desempenharam na minha vida.

Talvez vocês fiquem chateados e eu entendo. Mas eu precisei reunir um bocado de coragem para escrever sobre isso e eu espero que vocês saibam reconhecer isso também – e aí, abram um sorriso, mesmo que meio a contragosto, ao perceber que a garotinha que cresceu junto com vocês está tomando as rédeas da própria vida, ganhando perspectiva e seguindo seu caminho como deve ser. No final das contas, eu sempre vou ser a mesma pessoa que acredita e tem muita fé – em Deus, nas pessoas, na vida, em vocês – e isso é algo que não vai mudar jamais. Se Izzie Stevens, que sempre foi minha spirit animal, continua acreditando em tantas coisas mesmo depois do caos se instalar em sua vida, nada mais justo que eu faça jus à ela e siga meu caminho de mãos dadas com vocês, acreditando que juntos somos capazes de conquistar o mundo. Eu acredito, acredito, acredito. Obrigada por continuarem comigo, fazendo meu coração bater com força mesmo depois de todos esses anos.

Com amor.