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COM AMOR

COM AMOR

4. Your siblings

Inspirado nesse desafio incrível aqui

Queridos A., G. e F.,

Como vocês estão? Espero que esteja tudo bem. Não sei quanto tempo faz que a gente não se fala, mas sei que faz bastante tempo. Tempo suficiente para que vocês tenham crescido e se tornado pessoas que eu muito provavelmente não sei quem são, e para que a maioria das pessoas que estão na minha vida não saibam da existência de vocês. Não é uma pena que as coisas tenham acontecido dessa forma? Embora nosso pai tenha se esforçado para que nos tornássemos próximos e até hoje tente criar algum tipo de laço entre nós, a vida nunca permitiu que eu fizesse meu papel de irmã mais velha e fosse uma figura presente na vida de vocês. Não sei se vocês alguma vez sentiram falta dessa presença (não sei se é possível sentir falta de algo que nunca tivemos) ou se tiveram curiosidade de me conhecer melhor, mas me entristece um bocado que eu não tenha tido a oportunidade de fazer parte da vida de vocês.

Eu sempre quis ter irmãos. Sei que esse é, muito provavelmente, o mantra de quase todo filho único, que pede à exaustão por uma companhia. Quero ter um irmão, quero ter um irmão, quero ter um irmão. Mas eu sempre quis mesmo ter um irmão (ou irmã), alguém com quem eu pudesse dividir uma casa, uma família, uma vida. Por mais que meus primos sempre tenham sido muito próximos e tenham suprido essa necessidade imediata de ter alguém com quem dividir a casa, a família e a vida – brigas e muitas histórias pra contar aí no meio -, sei que não é a mesma coisa, e é por isso que eu sinto tanto por não ter tido a chance de construir uma relação assim com vocês. Mesmo que não tenhamos a mesma mãe, mesmo que nossas realidades sejam tão diferentes, eu queria ter, desde o início, construído uma relação de amor e apoio mútuo, a mesma que hoje tenho com meus primos mais queridos.

Lembro da primeira vez que conheci vocês (menos F., que nessa época ainda não tinha nascido). Eu tinha mais ou menos 10 anos e quase não podia me conter de tanta empolgação quando nosso pai sugeriu que eu passasse um fim de semana na casa de vocês. Lembro também que minha mãe não gostou muito da ideia, não porque ela tivesse algum ressentimento com nosso pai ou tivesse qualquer receio de me deixar passar alguns dias com vocês, mas porque ela nunca se sentiu muito confortável com essa história de não me ter dormindo sob o mesmo teto que ela, talvez porque, desde o início, tenhamos sido só nós duas, e não ter a outra ali sempre tenha sido um troço complicado pras duas. Mas ela deixou e com isso eu ganhei um dos fins de semana mais especiais da minha vida, um fim de semana que, embora eu não lembre totalmente hoje, ainda me traz lembranças fragmentadas que são suficientes para me fazer sorrir. Nós brincando juntos, dormindo na mesma cama, fazendo as refeições e dividindo confidências com uma facilidade que só crianças conseguem ter, algo que, muito provavelmente, a gente nunca mais vai ter de novo.

Não é que agora seja tarde demais para construir algum tipo de relação e recuperar o tempo que não tivemos, mas também não é como se não fosse. É uma contradição proposital essa, que torna toda a situação infinitamente mais complexa, mas não é muito real também? Vocês sabem, talvez muito melhor do que eu, que a essa altura já não é mais tão fácil nos aproximarmos. Somos adultos – pelo menos a maioria de nós – e infelizmente somos seres-humanos muito mais complexos e cheios de nuances do que fomos um dia. Aos 10 anos, eu podia simplesmente sentar e brincar com vocês e tudo ficaria bem, mas hoje, quando vejo vocês pelas fotos, eu já não sei mais quem vocês são. Eu não sei o que vocês gostam, que tipo de música escutam, se já estão trabalhando, se estão estudando, o que fazem no tempo livre. São coisas bobinhas, se a gente parar pra pensar, mas são essas coisas bobinhas, tão pequenas que às vezes parecem dispensáveis, que falam muito sobre quem somos e que, justamente por isso, se tornam tão importantes. Muitos anos se passaram desde que nos vimos pela última vez (exceto você, F., que eu não conheço pessoalmente até hoje) e muita coisa aconteceu nesse meio tempo: A. se tornou mãe de uma menininha linda; G. se tornou um homem e F. é um dos meninos mais inteligentes dos quais eu já ouvi falar. Fico feliz de verdade que vocês tenham seguido com a vida de vocês e que, mesmo com todas as dificuldades, tenham se tornado pessoas tão boas – incríveis até -, mas todas essas coisas vividas longe um do outro são coisas que, de um jeito ou de outro, me separam de vocês cada vez mais e eu realmente não sei se hoje seria possível recuperar o tempo que perdemos, nem se eu estou disposta a isso, muito menos se vocês estão.

Não se sintam pessoas horríveis só porque vocês não têm o menor interesse em saber quem é a irmã mais velha de vocês. Esse é um direito de vocês – assim como também é um direito meu -, que não faz de vocês pessoas melhores ou piores, mas humanos, e eu não vou ficar chateada. Demorou muito até que eu aceitasse isso e foi só quando me vi condenando a personagem de uma série do qual gosto muito por não querer conhecer sua irmã por parte de pai que eu me dei conta de que eu e ela não éramos muito diferentes, e que ela, embora parecesse dura e fria num primeiro momento, estava no seu direito. Isso não quer dizer que eu esteja fechada pra vocês, muito pelo contrário, mas fica um pouco mais fácil quando a gente não sente essa obrigação de ser irmã e se fazer presente só porque divide laços sanguíneos com alguém, e é essa obrigação que eu não quero sentir em relação à vocês – muito menos que vocês sintam em relação à mim. Eu estou aqui e vou estar ainda por bastante tempo (pelo menos, assim espero), mas vocês não precisam me procurar por isso, não precisam se sentir confortáveis na minha (quase inexistente) presença ou qualquer coisa assim. Vocês não têm obrigação nenhuma de me amar ou sentir qualquer coisa por mim, e ninguém, nem o nosso pai, pode obrigar vocês a sentirem qualquer coisa. Sei que ele gostaria que nós tivéssemos uma relação mais próxima, mas a vida nem sempre acontece como planejamos, e ele também sabe disso melhor do que ninguém.

Mas eu estou aqui e vocês podem me procurar sempre que quiserem. Não se sintam intimidados e não acreditem em tudo que nosso pai diz. Ele não é mentiroso, claro que não, mas ele só conhece uma versão de mim mesma e essa é, muito provavelmente, a versão que ele apresenta pra vocês – da mesma forma que eu só conheço uma única versão de vocês, que é a que ele me mostra. No fundo, somos todos humanos, e eu acredito que, independente da escolha que fizermos, pelo menos sempre vamos ter as poucas memórias da nossa infância pra onde voltar. Mas eu estou aqui e, no fundo, eu sei que vocês estão aí também – e isso, por enquanto, vai ser o suficiente. 

Com carinho,
Ana. 

COM AMOR

3. Your parents

Inspirado nesse desafio incrível aqui

Queridos mamãe e papai,

Uma vez me disseram que uma família não é formada por pessoas que dividem o mesmo sangue e sobrenome, mas por aquelas que dividem a vida – e uma casa – com você, e que todo o resto eram apenas parentes. Na época, eu provavelmente sorri e acenei, meu jeitinho (como vocês bem sabem) de evitar qualquer conflito desnecessário, mas eu nunca concordei muito com essa definição, embora eu concorde que uma família vai muito além de sobrenome e laços sanguíneos.

Nós nunca fomos uma família tradicional. Não tradicional no estilo comercial de televisão, dessas famílias que aparecem juntas tomando café da manhã juntos e sorrindo o tempo inteiro, perfeitos até a página três. Mas nós também nunca moramos na mesma casa (pelo menos não o suficiente pra eu me lembrar disso), nunca fizemos refeições juntos, nunca fomos ao médico juntos e vocês nunca discutiram juntos as minhas notas ou o meu futuro ou seja lá o que pais discutem sobre a vida dos filhos. Essa, muito provavelmente, foi a intenção de vocês quando se casaram, quase dez anos antes de me trazerem ao mundo, mas coisas acontecem o tempo inteiro e nós nem sempre temos controle suficiente para levar exatamente a vida que queremos e planejamos ter. Eu não sei se vocês se arrependem de alguma escolha que fizeram no passado ou se teriam feito algo diferente se pudessem, mas eu queria que vocês soubessem desde já que eu, nem por um minuto sequer, mudaria o que nós temos.

Sempre que alguém descobre que sou filha de pais separados, a primeira reação é imediatamente achar que eu sofri um bocado e que essa é, muito provavelmente, uma grande questão na minha vida. É verdade que nem sempre foi fácil (especialmente pra você, mãe) e é bem possível que eu tenha tido alguma dificuldade ao ter que explicar todo ano por quê eu não dava presente de dia das mães pra minha mãe ou por quê meu pai nunca ia me buscar na escola, mas isso não quer dizer que eu tenha tido uma infância ruim, muito menos que tenha crescido traumatizada, muito pelo contrário. Talvez nós sejamos infelizes à nossa própria maneira, como em “Anna Karenina”, mas nós também sempre fomos muito felizes, e o amor, que é o mais importante, sempre esteve ali. Em todos esses anos, eu nunca, nem por um minuto sequer, me senti menos amada por não ter vocês dois juntos o tempo inteiro do meu lado, porque estar junto não é físico e vocês sempre estiveram ao meu lado do jeito que puderam.

Eu não tento explicar nossa dinâmica para outras pessoas porque, a não ser que elas tenham vivido algo muito parecido, a maioria realmente não entende. Nas histórias que as pessoas contam sobre separações, sempre existe uma parte que sai mais machucada do que a outra e eu acho que isso não foi diferente aqui. Mas vocês passaram por cima de tudo isso e conseguiram construir uma relação de amizade, ainda que distante. Vocês nunca brigaram pra ver quem ia ficar comigo (eu sei que você jamais faria isso com minha mãe, pai) e nunca discutiram na minha frente, nem uma vezinha sequer, e talvez por isso eu tenha crescido tão tranquila em relação à nossa realidade. Hoje eu sei que vocês não são perfeitos, porque vocês são, antes de mais nada, seres-humanos, mas eu agradeço por terem sido tão maduros e colocado meu bem-estar sempre em primeiro lugar. Parece óbvio quando a gente fala assim, mas eu sei que existem muitas pessoas por aí que não têm a mesma sorte, e eu me sinto verdadeiramente privilegiada por ser filha de duas pessoas tão especiais.

É por isso que eu jamais seria capaz de não chamar vocês de minha família. Porque vocês são a minha família. Vocês foram as primeiras pessoas que eu conheci nesse mundo e são, talvez, as únicas pessoas que eu tenho certeza absoluta que sempre vão estar ao meu lado, não importa o que aconteça. Aqueles que vão torcer sempre por mim e que jamais vão querer o meu mal, que sempre estarão prontos para me defender de qualquer coisa. Vocês são o meu refúgio, aqueles em quem eu mais confio nesse mundo inteirinho – e não é porque a gente não divide uma casa ou uma rotina que isso vai mudar.

Sabem, vocês sempre estão prontos pra dizer o quanto eu sou importante e como vocês me amam tão incondicionalmente, mas acho que eu nunca disse que vocês são as pessoas mais preciosas da minha vida e que eu agradeço todos os dias por ter nascido exatamente nessa família e por ser justamente filha de vocês. Sei que se não fossem vocês, também não seria eu, mas eu gosto de acreditar que nesse universo enorme e cheio de possibilidades, alguma força superior fez com que eu viesse parar justamente na vida de vocês, e aí sim, eu pudesse me tornar a pessoa que sou hoje.

Eu demorei muito tempo para valorizar o que vocês fizeram por mim em todos esses anos e demorei muito mais tempo tentando ser uma pessoa completamente diferente de vocês, praguejando na frente do espelho por todas as características herdadas, só pra crescer e me dar conta que, afinal de contas, não somos tão diferentes assim. E que eu não consigo me imaginar sendo uma pessoa diferente, mesmo com todos os defeitos, mesmo que eu tenha sonhado tantas vezes em ser loira e ter os olhos claros. Nós somos muito diferentes, mas somos também muito iguais, e quando eu me olho no espelho eu tenho, mais uma vez, a certeza de que vocês sempre vão estar comigo. No meu cabelo que não é liso nem enrolado, no nariz que deveria ser reto, mas que tem um ossinho ali no meio que muda absolutamente tudo, na sobrancelha fininha ou na cor dos meus olhos. Vocês sempre vão estar comigo, não importa onde eu esteja e eu espero que, quando vocês estiverem preocupados demais com o caminho que eu estou trilhando – não porque estou fazendo alguma coisa errada (não estou), mas porque eu sempre quis voar pra longe, bem longe, e vocês nunca souberam lidar muito bem com isso -, se lembrem disso também e, acima de tudo, confiem na criação que vocês me deram, nos valores que vocês me ensinaram. O resto parece muito pequeno quando a gente lembra dessas coisas, prometo.

Hoje, no entanto, eu queria agradecer. Agradecer por todas as vezes que vocês me confortaram e me deram colo, por todas as vezes que vocês confiaram em mim e no meu potencial, por todo o amor do mundo – que não foi pouco. Por todos os presentes, por todos os passeios, por todas as conversas e por todas as brigas também, porque elas me ensinaram demais. Por terem me incentivado a ser a pessoa que sou hoje e por se orgulharem da mulher que eu me tornei, mesmo que eu seja tão diferente de vocês às vezes. Obrigada por terem me dado limites, por me ensinarem que a vida é muito mais do que aquilo que é socialmente esperado da gente e que o mundo não gira ao redor do meu umbigo. Obrigada por me darem a oportunidade de fazer minhas próprias escolhas, por nunca me forçarem a seguir um caminho que não era meu, mesmo que vocês tenham sonhado com ele desde que eu nasci. Obrigada por respeitarem meus sonhos, por nunca ridicularizarem minhas vontades e por sempre celebrarem minhas conquistas. Por nunca terem tentado me limitar de alguma forma, por nunca terem desvalorizado meus sentimentos e por sempre acreditarem em mim, mesmo quando eu já não acreditava mais.

Obrigada por terem, principalmente, me dado asas para voar pra onde eu quisesse, mas muito obrigada, também, por terem me ensinado o caminho de volta pra casa. A vida pode não ser perfeita e talvez nós não tenhamos sido a família que vocês sonharam um dia, mas eu tenho certeza que tirei a sorte grande por ter pais como vocês. Muito obrigada por tudo, hoje e sempre.

Com (muito) amor.

COM AMOR

Querida Ana,

Como você está? Sei que hoje é o seu – nosso – aniversário, então achei que seria legal escrever pra você te dar os parabéns, e falar sobre a vida – a minha vida, a sua vida – o universo e tudo mais. Eu sei que você deve ter outros planos, mas por favor, sente um minuto, não seja uma adolescente mimada e preste um pouco de atenção.

Não lembro como foi o nosso aniversário de 13 anos (eu não lembro nem do meu aniversário do ano passado, então por favor, me dê uma ajudinha aqui), mas posso adiantar que esse vai ser um ano marcante na sua – nossa – vida, intenso, maluco, no bom e no mau sentido. 2006 foi um ano de muitas mudanças, mudanças que de alguma forma moldaram a pessoa que eu sou hoje e que você será um dia. Sei que falando assim parece assustador, e é mesmo – só não o tempo todo. Mas eu acredito em você, acredito que você pode fazer o melhor com isso, então segure firme e respire fundo, você vai precisar.

A essa altura você se acha muito dona do mundo e principalmente do seu nariz. Eu te diria para ir com calma, que você ainda não é completamente independente e precisa respeitar isso (e as pessoas que te disserem isso), mas acho que muito da sua coragem reside exatamente nessa confiança inabalável em si mesma e coragem é uma coisa que anda faltando por aqui. Eu tenho muito medo de muitas coisas. Crescer é tão difícil quanto todas as pessoas te disseram e é bem menos divertido do que você acredita agora, mas eu estaria mentindo se te dissesse que não gosto do lugar onde estamos. Você vai viver coisas incríveis nesses anos – únicas, especiais, preciosas. No entanto, preciso te pedir: não viva tanto no futuro. Eu sei quais são os seus sonhos agora, sei o quanto eles são importantes pra você e sei também que é essa vontade de fazer as coisas darem certo que te coloca em movimento, que te dá forças pra correr atrás, mas você também está vivendo coisas únicas, especiais, preciosas, e às vezes eu daria qualquer coisa para ser você de novo. Não me leve a mal, não é que nossa vida seja ruim, muito pelo contrário. Ela é muito boa, boa de verdade. Mas um dia você vai sentir falta da vida que leva agora, de todas as possibilidades, da cobrança que ainda não era tão grande, da chance de poder errar sem muitas consequências. Você ainda não sabe disso, mas uma de nossas músicas favoritas fala exatamente sobre essa pressa de viver, de fazer as coisas acontecerem, e como isso nem sempre é bom, então vá com calma. O presente também é importante e viver no futuro, às vezes, faz mais mal do que bem. Não deixe de acreditar em você, muito menos nos nossos sonhos (todos eles são válidos, não importa o que as pessoas digam), mas saiba aproveitar o que você está vivendo agora da melhor forma possível. São essas lembranças que vão te segurar quando, daqui alguns anos, as coisas ficarem difíceis demais.

A urgência de fazer sua vida dar certo continua igual mesmo 10 anos depois, mas algumas coisas são mais difíceis de fazer agora e você vai descobrir que o tempo é bem menos generoso com você do que já foi um dia. Alguns meses atrás, escrevi para a nossa versão de 32 anos e uma coisa que disse para ela foi que a gente não pode se deixar abalar pelos efeitos dele. Temos nosso próprio tempo, diz uma música que amamos demais, e é verdade, então respeite o seu próprio tempo e não pense nunca que é tarde demais. Eu realmente acredito nisso e espero que você também, mas se quiser me poupar um pouquinho o trabalho, eu diria para você começar a correr atrás agora. Como eu disse, você ainda não tem sua independência, mas você tem braços, pernas e um coração batendo com força pra correr atrás de algumas coisas. Comece já a tocar bateria e leve a sério as aulas de violão. Você nunca vai ter tanto tempo quanto tem agora, então faça algo com isso.

Aliás, a música vai ser sempre muito importante nas nossas vidas e é o que vai nos segurar nos momentos mais difíceis. Grite suas letras favoritas, dance sozinha no quarto, encha suas paredes com posteres e chore quando for necessário. Nenhuma das suas bandas vai dar certo (desculpa, preciso ser sincera aqui), mas valorize o que a música pode te ensinar. Você não entende a maioria das letras que canta agora, mas um dia elas vão dizer muito sobre o que você sente e sobre quem você é. Ah, e não empreste seu cd do Blink 182. Você nunca mais vai ter ele de volta e, acredite, faz uma falta enorme dirigir (a gente dirige pra cima e pra baixo, olha que loucura!) sem poder ouvir esses caras de vez em quando.

Não acredite que suas amizades são eternas. Infelizmente (ou felizmente, vai saber) as pessoas mudam, você também vai mudar demais, e de repente alguns relacionamentos deixam de fazer sentido na nossa vida. É triste quando isso acontece, mas quase sempre é necessário, então paciência. Eu poderia te dizer para escolher melhor as suas pessoas, mas a gente não tem como prever o futuro, e se aos 23 nós ainda erramos e colocamos nossa fé em gente que dali cinco minutos (ou cinco anos) vai nos dar um pé na bunda, então não tem mesmo muito o que fazer. Aprenda desde já que as pessoas são complexas, difíceis, e que se relacionar com elas é tão difícil e complexo quanto, mas nunca, jamais deixe de acreditar que pessoas boas vão cruzar o seu caminho, porque elas vão. Eu sei que às vezes parece que é o fim do mundo, sempre parece assim, mas até aqui nós superamos tudo muito bem, obrigada. Pode demorar até essas pessoas aparecerem, você vai errar um bocado no processo, mas se tem uma coisa que a vida me ensinou é que cedo ou tarde a gente acaba encontrando nossas pessoas no mundo. Às vezes é quem a gente menos imagina, às vezes não. Você precisa pagar pra ver.

Também não acredite que o fato de não ser eterno anula tudo de bom que você viveu ao lado do outro, porque não anula. Uma amiga me disse uma vez que as pessoas às vezes aparecem na nossa vida com uma missão específica, para ensinar ou nos mostrar uma ou duas coisas, e então vão embora. É triste, mas a vida acontece, e quase sempre você vai perceber que ela te leva por caminhos melhores, que dá pra tirar muito aprendizado desse sofrimento. Então não se culpe por coisas que estão fora do seu controle. Dói quando isso acontece, mas ninguém morre por um coração partido. Pense nisso e siga em frente. Falando assim, até parece que estou falando na nossa vida amorosa, mas saiba desde já que você vai ter muito mais questões com seus amigos do que com seus namorados. Aliás, você vai ter bastante sorte no amor, então não se preocupe, as coisas acontecem quando têm que acontecer. De novo: não tenha pressa. E se valorize sempre, em primeiro lugar. Eu sei que você já faz isso, mas em algum momento as coisas vão ficar um poucos estranhas e você vai aprender que dizer “não” nem sempre é o suficiente. Saiba se defender quando isso acontecer. Não faça nada que você não quiser.

Ainda sobre amizades, uma coisa importante: não dê atenção para as pessoas que não acreditarem que suas amizades de internet são verdadeiras. Eu sei o quanto elas são importantes pra você, muitas delas inclusive são mais importantes do que a amizade de muita gente que está ali imediatamente do seu lado, e acredite que ainda é assim até hoje. Mas não se desespere porque você não poder ter um contato “””real””” com essas pessoas. Eu sei que faz falta, muita falta, e que às vezes parece insuportável continuar tendo relações tão íntimas com gente que mora tão longe, mas lembra que um dia você vai ser independente e ter o seu próprio dinheiro e vai poder fazer o que quiser com ele. Não queria te dar nenhum spoiler, mas aos 22 você vai viajar sozinha pro Rio de Janeiro para conhecer as melhores pessoas do mundo, amigas maravilhosas que você conheceu graças à internet, e vai ser uma das coisas mais bonitas e importantes que você vai viver. Então sossega porque em algum momento as coisas começam a acontecer. De verdade, elas realmente acontecem.

Outra coisa muito importante: aprenda a ser mais gentil com você mesma. É sério, você não é perfeita, ninguém é, então não perca seu tempo tentando alcançar o inalcançável. Você é linda do jeitinho que é e quem te disser o contrário não sabe de nada. Sei que a adolescência não é um período fácil e você vai se sentir deslocada o tempo inteiro – porque não tem a barriga chapada das suas amigas, porque suas coxas são moles demais, porque você é mais alta que todos os meninos – mas acredite quando eu te digo que ninguém tem a vida toda no lugar, ninguém. O calo aperta pra todo mundo, mas ninguém vai assumir isso assim, em voz alta. Eventualmente você vai aprender a lidar com seus defeitos e principalmente a aceitá-los, não como uma coisa ruim, mas como uma parte importante da pessoa que você é. Por hora, tente não cobrar tanto de si mesma, não se compare com as suas amigas, se cerque de pessoas positivas, use o que tiver vontade e aprenda a aceitar elogios. Você pode se achar horrível na maior parte do tempo, mas isso não significa que o mundo inteiro tem que achar a mesma coisa. Aprenda também a aceitar as críticas que você recebe. Não é fácil, nem sempre é legal, mas muita gente está fazendo isso porque realmente quer o melhor pra você. Nem todo mundo quer te colocar pra baixo, nem todo mundo quer o seu mal. E por favor, não beba tanto refrigerante, sério mesmo, esse troço faz mal.

Agora, preciso levar um papo muito sério com você. Porque eu disse no início desta carta que seus – nossos – 13 anos seriam marcantes, intensos, especiais, mas não só no bom sentido, e é verdade. Mas você já sabe do que eu estou falando, não é?

Sua tia nunca vai melhorar. Você vai passar a sua adolescência inteira sonhando com o dia que isso vai acontecer até descobrir que não vai. E aí vai aceitar que tudo bem as coisas serem assim – não sem antes quebrar uns pratos, riscar as paredes, bater portas e gritar pela casa. Como em todos esses anos desde os seus 10 anos, ela vai ter momentos bons e momentos ruins também, bem ruins (algo realmente terrível vai acontecer ali por 2011 ou 2012, segure firme), mas todos sobrevivem no final das contas. A depressão não é uma doença fácil, é muito mais séria do que a gente imagina, então tente ser compreensiva e fazer o melhor que você puder para ajudar. Eu sei que isso é o que todo mundo diz e que você não aguenta mais essa discurso porque um dia eu fui você e eu sei como dói precisar tanto de alguém, de um colo, e não ter pra onde correr. Mas tenha paciência e reconheça uma vez na vida que os adultos estão certos dessa vez. E seja forte. Eu realmente acredito que você consegue – se não acreditasse, talvez eu nem estivesse aqui agora escrevendo pra você (por favor, segure as pontas).

Seja gentil com sua mãe e acredite que ela também está sofrendo com tudo isso. Pense antes de dizer coisas que você vai se arrepender pelo resto da vida. Você pode ser cruel quando quiser e pode magoar as pessoas de verdade com suas palavras, mas desde já aprenda que o gosto da crueldade é terrível, amargo. Imagine o que a sua mãe sente quando você diz que preferia estar morta, que preferia não viver, que odeia a sua vida. As palavras têm força, querida Ana, tome muito cuidado com elas. E pense sempre que você não quer magoar a pessoa mais importante da sua vida. Também seja mais compreensível com o Bruno. Ele não tem culpa do que está acontecendo – é só uma criança, no olho do furacão. Eu sei que ele é insuportável às vezes, que ninguém acredita no quanto ele é mimado, mas elas vão enxergar isso eventualmente, e aí você vai poder dizer que já sabia. Mas não diga isso, você realmente não ganha nada. Daqui alguns anos, quando ele tiver a sua idade, você vai ser a prima cool que busca ele nos lugares, que conversa sobre tudo, de cultura pop até coisas aleatórias sobre a vida, e ele vai ser um dos seus melhores amigos. Eu sei, eu sei, é difícil imaginar que isso vai acontecer algum dia, mas vai. Os arranca-rabos, no entanto, continuam os mesmos, a diferença é que agora ninguém se importa com quem vai sair apanhando (não se preocupe, você é boa de briga, ele continua apanhando mais). E, principalmente, ame sua tia. Eu sei que você sente raiva, muita raiva agora, mas ela não tem culpa de nada do que está acontecendo, ninguém tem. Pegue toda essa raiva e transforme em amor (não revire os olhos), isso é o que ela mais precisa no momento. Lembre-se que ela é uma das pessoas que mais te amam no mundo inteiro, então tenha paciência e a ame de volta.

Lembre-se também de pedir ajuda quando precisar. Não finja que não precisa: você SABE que PRECISA, e tudo bem. Não existe nada de errado nisso, você não vai ser menos corajosa só porque admitiu que precisa se apoiar em alguém, não é vergonhoso, muito pelo contrário. É difícil pra cacete, aliás. Eu, por exemplo, estou te dizendo tudo isso mas ainda tenho uma dificuldade enorme de admitir quando preciso de um ombro pra chorar, quando preciso ter alguém para conversar. É aquela história: ah, não quero incomodar, que é isso, tá tudo certo. Sabe como? É, eu sei que você sabe. Por favor, seja melhor que eu. Suas amigas realmente não vão querer ouvir você falar sobre os seus problemas, não agora. Mas entenda que elas não fazem isso por mal – você também não gosta muito de falar sobre isso, a diferença é que você precisa e elas realmente não podem ter a dimensão do que você vive, não aos 13 anos. É pra isso que serve a ajuda – e por ajuda, entenda qualquer coisa, um terapeuta, uma prima mais velha, um padre, sei lá. Mas peça ajuda. Li, num dos livros da nossa vida (você ainda não sabe qual é, mas vai descobrir quando for a hora) que a melhor maneira de encontrar a luz nas trevas não é afastando as pessoas, mas caindo nos braços dela, e é verdade. Não demore tanto para descobrir isso. Peça ajuda e não tenha medo de ser vulnerável.

Mais uma coisa: escrever ajuda muito. Talvez você não perceba o quanto agora, mas todos os desabafos na parede do seu quarto não foram escritos por acaso. Você é uma pessoa que escreve, e é na escrita que você consegue colocar os pensamentos em ordem. Então continue escrevendo – na parede, num caderno, no computador, tanto faz. Continue escrevendo suas fanfics, comece um blog e não pare de ler nunca. Leia, leia, leia. E acredite no seu trabalho. Ninguém vai te levar a sério no início, mas hoje já descobri que é possível transformar isso em algo de verdade, concreto. E também não pare de desenhar, sério mesmo. Hoje eu só faço boneco palito e é péssimo, não faço a menor ideia de como isso aconteceu.

O que mais, o que mais, o que mais? Ah, sim. Valorize as pessoas que estão do seu lado. Confie na sua mãe. Não perca a chance de passar o máximo de tempo com seu avô. Acredite em você e no seu potencial. Diga mais “sim” do que “não”. E principalmente, seja feliz.

A vida não vai ser sempre gentil com você, algumas coisas dão errado no meio do caminho, mas acredite que fica tudo bem no final. Eu poderia te pedir desculpas por todos os sonhos – seus, nossos – que não realizei, por ter jogado muitas das suas expectativas no buraco, mas por mais que eu sinta muito de vez em quando, não me sinto realmente culpada por ter feito as escolhas que fiz e por ter chegado no lugar onde cheguei. Aos 23 anos eu ainda moro com a minha mãe, não tenho um emprego, não estou formada e nunca viajei para o exterior. Mas a vida é boa assim mesmo, você vai ver, e acho que, no final das contas, você também vai aprender a se orgulhar disso tudo. Hoje, no seu dia, quero te desejar tudo de mais lindo, do fundo do meu coração. Que você tenha um dia incrível, que esteja ao lado das pessoas que você ama e aproveite cada segundo dessa data tão especial. Aqui do outro lado, estou te esperando com um sorriso no rosto, o cabelo enorme, dois cachorrinhos no colo (dois!), alguns quilos a mais e muito, muito feliz. As coisas dão certo, pequena Ana. Aproveite, viva (sobreviver não é o suficiente), brinque, erre, dance, se divirta, ria, e nunca deixe de sonhar. Eu te amo de verdade. Obrigada por tudo que você me ensinou. Espero que a gente ainda possa aprender muitas coisas por aí.

Com amor,
Ana.

COM AMOR

Dois minutos para agradecer

Uma pequena história: este blog nasceu porque, depois de passar dois anos escrevendo sobre moda e beleza em um outro blog, eu queria ter liberdade para escrever sobre qualquer coisa que me desse na telha, quando me desse na telha. Eu queria um blog, e apenas um blog, onde eu pudesse de alguma forma registrar o que estava acontecendo na minha vida e falar de coisas que às vezes as pessoas ali, do meu lado, não estavam realmente interessadas em ouvir. Eu queria falar sobre coisas boas e às vezes ruins também, coisas que fazem parte de quem eu sou, da pessoa que quero ser e, principalmente, da história que estou tentando escrever. Vocês já sabem de tudo isso, é claro, mas acho sempre importante relembrar porque às vezes é fácil esquecer que existe gente que só entrou nessa pra ter um blog (e apenas um blog), por mais maluca que a ideia possa ser.

Digo isso porque essa semana acompanhei uma discussão no twitter e, embora não tenha participado na hora, fiquei bem incomodada com algumas coisas que li – o suficiente pra ficar remoendo essa história e resolver escrever sobre isso depois. Eu realmente ia escrever sobre isso, sobre como as pessoas se acham donas da internet, sobre como eu odeio essa cagação de regra sem fim, “ah mas não pode isso”, “ah mas também não pode aquilo”, “ah contratem um designer aí, mas Deus me livre ganhar dinheiro com blog”, sobre como as pessoas se acham tão melhores e tão donas da verdade o tempo inteiro, sobre essa mania de apontar o dedo na cara do coleguinha que faz diferente, como se a internet não fosse grande o suficiente pra todo mundo brincar numa boa sem invadir o espaço do outro. Eu realmente estava disposta a fazer um post inflamado sobre pessoas que acham que inventaram os flamingos, que se acham donas do BEDA, que desejam que 2016 seja um ano com menos blogs usando os temas do Solo Pine, que acreditam, mesmo sem se dar conta disso, que “ditadura é quando mandam e eu tenho que obedecer; democracia é quando eu mando e todo mundo obedece”, mas aí eu lembrei de um trecho do último livro que li em que um dos personagens se dá conta de que era um homem que se arrependia de quase tudo na vida, que os arrependimentos se aglomeravam à sua volta como mariposas ao redor de uma lâmpada, mas ao invés de se apegar à tudo de ruim que tinha acontecido – às amizades que tinha negligenciado, ao filho que deixou partir, ao irmão que nunca conheceu – ele preferiu se agarrar àquilo que aconteceu de bom – e incrivelmente eu descobri que prefiro também.

2015 já foi um ano bem ruim pra todo mundo que conheço (e também pra uma porção de gente que não conheço) (mas, por favor, se manifeste se ele tiver sido um ano bom pra você), e eu não quero chegar no último mês do ano falando mais uma vez sobre as coisas que me incomodam, sobre as pessoas que tentam a todo custo impor regras dentro de um espaço que deveria ser livre, sobre pessoas que acham que são melhores que os outros e que sabem o que é melhor pros outros quando, na verdade, aquilo não é, necessariamente, o melhor pra todo mundo. Eu acho importante que a gente converse sobre isso, que exista um debate, e fico feliz que exista tanta gente bacana disposta a discutir o assunto. Mas nós tivemos um ano inteiro pra falar sobre isso e escrever textos inflamados, e uma vez na vida eu queria só poder olhar pro lado bom e pensar no que faz tudo isso aqui valer à pena.

Porque quando eu penso na internet, eu quero lembrar de todas as coisas maravilhosas que eu vivi aqui, com o blog e por causa do blog. Eu quero lembrar de todos os textos que li, escritos por pessoas que eu nem conhecia (e obviamente das que eu conhecia também) e que de alguma forma me ajudaram a sair das fossas que eu me enfiei neste ano; quero lembrar de todas as coisas que escrevi, mais pra mim do que pra vocês, e que acabaram sendo de vocês também; quero lembrar das mensagens que eu recebi de gente que nem me conhecia e que eu também não conhecia, me agradecendo por ter escrito algo que de alguma forma foi importante pra elas.

Quero lembrar, principalmente, das pessoas que eu conheci.

Das que me fizeram entrar num avião sozinha pro Rio de Janeiro, que dançaram comigo de coroa na balada, que se revoltaram quando eu perdi um avião, que me deram a mão nos momentos que eu mais precisei, que comemoraram minhas vitórias, que cantaram comigo no telefone e, principalmente, me mostraram que querer às vezes é poder; das pessoas que se preocuparam comigo, que me ofereceram colo e receitas de brownie, que não passaram a mão na minha cabeça, mas que ao mesmo tempo me fizeram ver que às vezes a gente erra e tudo bem. Pessoas que estavam ali, dispostas a falar sobre a vida, me ajudar com códigos, e discutir sobre como a terceira temporada de Arrow foi uma bosta, pessoas que me elogiaram mesmo quando eu me sentia horrorosa, pessoas que me fazem comprar roupas que eu não deveria só porque me mostraram suas compras (e eu definitivamente não tenho maturidade pra ver as compras dos outros), pessoas que me deram coragem pra correr atrás dos meus sonhos, que me ensinaram a usar batom vinho, que me chamam pra ir pra casa delas só porque aqui não chove de jeito nenhum, pessoas que eu jamais teria conhecido, não fosse essa vontade maluca de ter um blog e apenas um blog, pra escrever sobre o que desse na telha, quando desse na telha.

Então eu realmente poderia falar de todas as coisas ruins que existem na internet (existem muitas, vocês sabem), mas eu acho que a vida é um eterno processo de aprendizado, e se eu aprendi alguma coisa com tudo que existe de ruim na internet é que também existe algo muito bonito e especial acontecendo nesse mesmo lugar, que as pessoas às vezes são a pior parte, mas às vezes elas podem ser a melhor também, e que é sempre melhor lembrar daquilo que aconteceu de bom e não ficar remoendo mil vezes tudo que existe de ruim. Esse não é meu post de final de ano, não ainda, mas eu queria poder agradecer à todos vocês que fizeram parte disso de alguma forma. Por favor, não parem nunca. E que em 2016 mais pessoas possam enxergar tudo de maravilhoso que acontece aqui. 

group hug

(E por favor, vamos tentar cagar menos regra por aí no ano que vem)

> Notaram alguma coisa de diferente? Sim, estamos com layout novo! Ainda estamos em fase de teste, vira e mexe rola alguma mudança e ainda preciso fazer alguns ajustes (alguém notou o espaçamento bizarro no título dos posts com duas linhas? Risos eternos), mas fiquei bem feliz com o resultado e queria muito agradecer minhas amigas e colegas de blogosfera, Palo e Thay, que me ajudaram a dar uma cara nova pra essa casinha.

COM AMOR

2. Your crush

Inspirado nesse desafio incrível aqui

Querido Dean,

Sonhei com você esses dias. Eu sempre lembro dos meus sonhos, sempre lembro do que acontece neles, onde eu estava, com quem estava, e alguns são tão fortes que viram lembranças que às vezes posso jurar que aconteceram de verdade. Mas com você foi diferente – e ainda não sei se de um jeito bom. Quer dizer, sonhar com você foi incrível, mas eu queria poder lembrar mais, saber o que aconteceu depois da única cena que ainda tenho na cabeça: você me esperando numa igreja abandonada, na cidadezinha que minha mãe nasceu.

Sei que não faz o menor sentido. Até faria, sei lá, se a gente encontrasse um demônio ou espírito maligno ali, mas não era o caso. Porque você estava me esperando no altar de uma igreja vazia, pronto para oficializar algo diante de um Deus que você não confia (eu diria que você não acredita, mas acho que a essa altura já ficou claro que Ele existe – ou, pelo menos, que existiu algum dia), e quando você me viu ali, abriu um sorriso tão lindo e sincero que só posso ser piegas e citar Taylor Swift: you’ve got a smile that could light up this whole town (desculpa ser tão brega, juro que não sou sempre assim). Então, numa reação automática, eu sorri de volta, mesmo que uma voz na minha cabeça dissesse que aquilo não estava acontecendo, que era impossível estar acontecendo. O tempo pareceu suspenso enquanto ficamos ali, sorrindo um pro outro, igual dois idiotas, até que, tão rápido quanto começou, o sonho acabou.

Dizem que nossa cabeça tenta compensar as coisas ruins que acontecem nos dando sonhos bons. Não sei até que ponto isso é verdade, mas até que faz bastante sentido, né? Ou não. Mas tem gente que acredita que eles podem significar alguma coisa, então talvez seja isso. Sonhar com você não significa nada prático, tipo eu não vou me casar por tão cedo e até segunda ordem, não pretendo me casar numa igreja abandonada de moletom e calça jeans (a ideia até que é bem a minha cara, mas acho que no futuro eu bem ia me arrepender por não ter aproveitado a oportunidade de usar um vestido branco e brega até dizer chega), mas talvez signifique alguma coisa, ou talvez só signifique a única coisa que ficou óbvia até agora: que eu realmente me casaria com você, numa igreja abandonada, vestindo uma calça jeans e um moletom velho.

Eu tenho um fraco por caras errados e sorrisos bonitos, então não é exatamente uma surpresa que eu tenha me interessado por você. Até tive uma quedinha pelo seu irmão por algum tempo (sorrisos bonitos definitivamente serão a minha morte), mas daí eu via você ali, com essa pinta de durão, fazendo piadas ruins, ouvindo música boa (acredite, homens com bom gosto pra música são raros) e dirigindo um carro tão tão legal, e imediatamente “I Knew You Were Trouble” começava a tocar na minha cabeça (desculpa citar Taylor de novo, é mais forte que eu) (mas eu realmente não tenho culpa se ela tem uma música perfeita pra tudo nessa vida) e eu simplesmente não tinha mais pra onde fugir. I knew you were trouble when you walked in, mas como resistir?

Não me leva a mal, tá? É só que eu não consigo me imaginar colocando uma aliança no seu dedo e te apresentando pra minha vó. Porque você ainda é o cara escorregadio, que está sempre com uma mulher diferente e com nenhuma, ao mesmo tempo. Mas eu entendo. Entendo, mas não aceito. Entendo, mas não queria que as coisas fossem assim.

Sabe, Dean, você é um cara especial. Sei que você não concorda comigo, mas não conheço muitas pessoas que conseguem ser tão boas e tão fiéis àquilo que acreditam carregando um peso tão grande nas costas. Você consegue – e eu te admiro muito por isso. Admiro o quanto você é fiel à sua família, por mais imperfeita que ela seja; admiro seu trabalho e como você se arrisca para proteger pessoas que você nem conhece, de coisas que eles sequer sabem que existem, sem pedir nada em troca; admiro seu coração enorme, sempre pronto pra acolher alguém e como você pode ir literalmente do céu ao inferno pelas pessoas que ama; admiro que você sempre esteja pronto pra fazer o que tem que ser feito, quando tem que ser feito, mesmo quando isso te enche de medo; e admiro, principalmente, como você ainda se permite agir com o coração, mesmo quando todo mundo te diz pra fazer o contrário. Sei que você já errou um bocado, mas, ao mesmo tempo, acho que poucas coisas são tão corajosas quanto isso, sabe? Você até pode se esconder atrás dessa pinta de durão, mas eu sei que, no fundo no fundo, essa foi só a saída que você encontrou para não sucumbir e não parecer fraco num mundo que sempre exigiu demais e que nunca se preocupou em ser gentil. Por mais que tudo dê errado às vezes, existe algo de muito bonito aí, não acha? Você é um cara especial de verdade – de colocar uma aliança no dedo e apresentar pra vó – e sei lá, se nada der certo, pelo menos você pode fazer uma piada horrível depois.

Aliás, taí outra coisa que admiro em você. Sei que é clichê falar de caras que fazem rir, mas tenho pra mim que nada se torna clichê por acaso, e eu realmente acho que todo mundo merece ter alguém pra segurar a mão e ser idiota também, alguém que nos lembre que a vida é boa – com tudo, por tudo e apesar de tudo. Suas piadas são horríveis, a maioria delas, mas o que eu não sabia é que aparentemente me transformei numa pessoa que ri de piadas ruins, porque não é difícil que, numa noite qualquer te vendo acabar com alguns monstros, eu vá dormir com a barriga doendo e os olhos cheios d’água de tanto rir. É maravilhoso, e queria muito poder te agradecer por isso.

Acho que de todos os seus defeitos, o pior deles é não existir de verdade. No fundo, não acho que nossos caminhos iam se cruzar caso você existisse, mas não deixa de ser uma pena saber que isso, de fato, nunca vai acontecer. A sorte foi que a vida me deu de presente um cara tão especial quanto você, que calhou de ter um excelente gosto musical, que me faz rir o tempo inteiro, que gosta tanto de você quanto eu (eu diria que ele até questiona a própria sexualidade quando te vê, mas acho que ia pegar meio mal), e que me faz muito muito feliz. Um cara de colocar uma aliança no dedo e querer apresentar pra vó, ainda que não de um jeito muito óbvio. Ele não tem os seus olhos verdes, mas ele também não caça monstros, então acho que tudo bem. Não se pode ter tudo (e eu realmente prefiro fingir que não acredito nas coisas que você encontra por aí).

Queria que você pudesse viver isso. Por mais que eu morra de ciúmes, por mais que eu sempre torça o nariz pra qualquer moça que você encontra no meio do caminho. Porque você merece ter alguém que te faça feliz, que te faça querer entrar numa igreja abandonada e oficializar algo diante de um Deus que você não confia, que dance com você sob a luz da geladeira, que cante rock clássico ou Taylor Swift (eu sei que você curte, não tente me enganar), e que te faça rir quando a vida parecer ruim demais. Eu queria que você tivesse a vida que você merece, mas o mundo é injusto o suficiente pra não te dar isso. Eu queria ser essa pessoa, mesmo que fosse perigoso demais, mas, mais uma vez, não se pode ter tudo. Então tudo bem. Acho que o que me resta é torcer pra que fique tudo bem com você.

Com (muito) amor.

P.S: Prometo tentar ser menos brega da próxima vez.