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COM AMOR

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6. A STRANGER

Inspirado nesse desafio incrível aqui

Hello stranger,

Antes de mais nada, me perdoe por ser tão brega. Falhei miseravelmente em fugir do clichê de Closer – um filme que, a propósito, nunca assisti. Vontade não me falta, mas talvez uma dose extra de tempo e um pouquinho menos de coisas pra fazer me fariam bem. Por enquanto, só posso torcer para que você entenda a referência e que, de preferência, não desista de mim já na largada.

Talvez você esteja se perguntando por que diabos uma pessoa que você não conhece, de repente, resolveu escrever uma carta pra você. Eu estaria me perguntando a mesma coisa se estivesse no seu lugar. A verdade no entanto é que, embora pareça que eu estou escrevendo diretamente para você, quando comecei esta carta a ideia era justamente que eu escrevesse para qualquer pessoa – você só foi sortuda ou sortudo o suficiente para a encontrar do outro lado. Aliás, eu adoraria saber como ela foi chegar em suas mãos, mesmo que esse seja uma coisa que, muito provavelmente, eu jamais vou saber. Queria saber quem é você, o que você faz, quais são suas opiniões sobre a vida, o universo e tudo mais. Infelizmente, são coisas que eu não vou descobrir e isso talvez seja o mais difícil em escrever para você: não existe uma troca, não existe essa via de mão dupla que é o que transforma estranhos em conhecidos, para então se tornarem amigos ou qualquer outra coisa, se for o caso. Por isso é tão difícil escrever pra você.

Às vezes fico pensando como, até algum tempo atrás, algumas das pessoas mais importantes da minha vida eram mero estranhos pra mim. Pessoas sem as quais hoje eu sou absolutamente incapaz de viver, mas que em algum momento não estiveram na minha vida. Eu olho para trás e tento lembrar de como era a minha vida sem elas ali, como foi que nós nos conhecemos, qual foi o nosso primeiro contato, mas a maior parte dessas lembranças ficaram perdidas no tempo – às vezes longo, às vezes nem tanto – e dão lugar ao sentimento que é construído aos poucos ou muito rapidamente. Eu consigo lembrar de coisas que aconteceram antes, como a primeira vez que eu entrei no blog daquela amiga que mais tarde se tornaria minha irmã de alma e descobri que tínhamos gostos tão parecidos, ou então da primeira conversa que tive com aquela que hoje sei que é a mesma pessoa que eu – com quem eu até divido o nome -, só com um cabelo diferente e olhos azuis. Mas eu nunca consigo lembrar quando é que nós ficamos amigas de verdade, quando foi que eu comecei a me sentir segura o suficiente para dizer que elas eram minhas amigas e compartilhar minha vida com um honestidade que, infelizmente, reservo para poucos.

Recentemente, em uma sessão com a minha psicóloga, fui obrigada a ouvir que boa parte das minhas inseguranças com as pessoas nasceram de um rompimento que tive no ano passado, com alguém que eu acreditava ser a minha amiga até, de repente, não ser mais. Era algo que eu já sabia, é claro, mas que foi difícil de ouvir de uma pessoa que me conhece faz tão pouco tempo e que não conhece a outra metade envolvida. Desde então, tenho pensado um bocado na minha relação com essa pessoa e como antes de ser minha amiga, ela também já tinha sido uma estranha pra mim. Então a vida aconteceu: nos tornamos amigas, depois muito amigas até o dia que nossa amizade acabou e, mais uma vez, ela se tornou uma estranha, alguém que eu não sei do que gosta, quem são os amigos, se está feliz, triste. Às vezes vejo suas fotos em alguma rede social e é com uma tristeza genuína que eu me dou conta de que já não conheço aquela pessoa. Que embora ela me procure às vezes para falar de coisas pontuais, não sabemos mais quem são as pessoas do outro lado, quem elas se tornaram nesse meio tempo em que nos afastamos e deixamos de ser amigas.

Eu sempre tento dizer pra mim mesma que isso é algo natural. Que as pessoas passam pela nossa vida e nem sempre estão destinadas a ficar por muito tempo. Mas eu fico triste de saber que, entre todas as coisas pelas quais ela poderia ser lembrada, a memória que ficou pra mim não foram apenas dos dias bons, das tardes comendo gelatina, das conversas que duravam um dia inteiro, da vez que eu passei mal no shopping e nós voltamos pra casa e assistimos Clube dos Cinco, eu deitada enquanto ela mexia no meu cabelo; mas dos dias ruins, do dia em que brigamos feio pela primeira e última vez, das palavras duras que ouvi, do expediente que precisei interromper para chorar cinco minutos no banheiro. Eu não queria que nosso relacionamento ficasse na minha memória como aquele que fez com que eu me perdesse, aquele que fez com que eu pensasse duas vezes antes de me abrir completamente com outra pessoa porque eu nunca teria nenhuma garantia de que ela não sairia correndo na primeira oportunidade, tão logo descobrisse quem eu verdadeiramente era.

Uma amiga me disse uma vez que nosso maior erro é achar que as pessoas são muito mais do que simplesmente pessoas, e que elas erram, metem os pés pelas mãos, fazem besteiras e nos magoam, que tudo isso é absolutamente normal. Eu tento pensar nisso o tempo inteiro e é assim que tenho tratado meus relacionamentos – não como se eu devesse fazer o papel de idiota que perdoa tudo, mas perceber que, entre as mágoas que invariavelmente surgem pelo caminho, os laços que eu tenho construído são muito mais fortes e que mesmo aquelas pessoas mais especiais também contam com uma dose de sentimentos que nem sempre são os melhores possíveis. Entretanto, eu jamais vou ter a garantia de que as pessoas do outro lado vão me aceitar da mesma forma, que vão me enxergar como o ser humano que sou e não como uma pessoa idealizada, perfeita até a página dois. Porque eu não sou assim, ninguém é, e acredito que ninguém nunca vai ser.

Estou te dizendo tudo isso não para te fazer acreditar que devemos perdoar tudo, muito pelo contrário. Mas que reduzir as expectativas e encarar o outro como um ser humano e não como uma pessoa perfeita é essencial. Porque por trás das lentes cor de rosa, sempre existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, e talvez o maior erro em nossos relacionamentos seja, justamente, acreditar que pessoas são muito mais do que elas realmente são. É como escreveu John Green, naquele livro que também não li: What a treacherous thing to believe a person is more than a person. E é mesmo. Ser estranho ao outro é enxergar sua vida de uma forma que muitas vezes ela não o é. Por outro lado, relacionamentos são o convite para que a gente entre em toda a complexidade do outro e perceba que, por trás de todos os sorrisos, existe um mundo inteiro a ser descoberto, um mundo com inúmeros tons de cinza, é verdade, mas nem por isso menos especial. Nem sempre a jornada termina bem, mas isso não significa que ela não tenha valido à pena.

Com carinho.

COM AMOR

5. YOUR DREAMS

Inspirado nesse desafio incrível aqui.

Queridos sonhos,

Escrever pra vocês é, ao mesmo tempo, muito fácil e muito difícil – uma contradição que é totalmente proposital. Logo que descobri que a próxima carta do desafio seria pra vocês, achei que ela seria, possivelmente, uma das mais fáceis até agora, talvez porque falar sobre algo que faz tão parte de mim, ao ponto de se tornar uma parte tão fundamental da minha vida e da pessoa que sou hoje, mas principalmente daquela que eu quero ser um dia, realmente pareça muito fácil à primeira vista. Nós nos conhecemos muito profundamente e eu sou a única pessoa nesse mundo inteiro que conhece a dimensão real de vocês – que às vezes são pequenos, como um grãozinho de feijão; ora são enormes, ao ponto de me dar medo e paralisar minhas pernas. No início deste ano, um professor perguntou quais eram meus sonhos e eu travei, mesmo que a resposta estivesse o tempo inteiro na minha cabeça – algo que acontece com mais frequência do que vocês gostariam de imaginar. O tempo, no entanto, foi suficiente pra mostrar que, muito além das coisas boas que vocês me trouxeram em todos esses anos, escrever pra vocês – e, principalmente, sobre vocês – também exigia que eu desenterrasse fracassos, coisas que ficaram no passado e que eu talvez não tenha superado tanto quanto gosto de acreditar, além de escancarar fantasmas que ainda me aterrorizam e com os quais eu ainda não sei se sou capaz de lidar.

Ou seja, fácil, mas também difícil.

A maior parte de vocês cresceu junto comigo. São sonhos que eu guardo com muito carinho, mas que já ficaram para trás há muito tempo, e isso não é de modo algum algo ruim, muito pelo contrário. Vocês são sonhos que, a essa altura do campeonato, eu já consigo ter uma relação mais saudável, que não é de cobrança ou decepção, mas que me fazem olhar pra trás e perceber que tudo bem que as coisas não tenham saído exatamente como meu plano de quinze anos atrás e que, pelo menos, eu vou ter vocês sempre guardados na minha memória, como uma lembrança boa da criança que eu fui um dia. Se hoje eu sou essa pessoa que leva sonhos tão a sério e que sonha até demais é só porque, lá atrás, vocês já me ensinaram que sonhar é importante, que acreditar é essencial, e que se não tivermos algo pelo o que almejar, a vida perde muito da sua graça.

Entretanto, existem muitos de vocês com as quais eu ainda preciso fazer as pazes. Sonhos de dez, às vezes menos, anos atrás que foram deixados de lado por questões diversas – pela falta de dinheiro, principalmente, mas também por falta de foco e persistência. Vocês ainda passeiam pela minha cabeça, como uma promessa não cumprida que, no fundo, no fundo, ninguém prometeu, e por mais que eu tente, às vezes é difícil não encará-los com uma certa mágoa. Porque eu queria que cada um de vocês se tornasse realidade, mesmo que ter absolutamente tudo nunca tenha sido uma opção. Seria injusto não admitir que, por trás de todo o ressentimento do mundo, vocês ainda fazem meu olho brilhar com força e meu coração bater mais forte, e que em uma realidade alternativa seriam vocês a minha realidade, porque é assim que eu gosto de pensar. Mas, a essa altura, eu já tenho a capacidade de compreender que mesmo o fracasso também foi importante e que a frustração de não ter todos os meus sonhos realizados também me ensinou um bocado. Por mais que a Ana de dez anos atrás nem sempre me olhe com um sorriso no rosto, mas com a descrença com a qual jovens adolescentes, em toda a sua complexidade, olham para adultos que se tornaram pessoas tão comuns, eu consigo entender que isso foi necessário para que eu quebrasse muitas das minhas próprias expectativas e entendesse que o mundo não é uma máquina de realizar desejos, mas uma caixinha de surpresa, que reserva inúmeras reviravoltas pelo caminho – algumas incríveis, outras nem tanto – e são essas reviravoltas, no final das contas, que constroem nossas histórias. Se soubéssemos exatamente como seria o caminho, de nada valeria a jornada.

A maior parte das minhas questões com a vida adulta são justamente fruto dessa bolha privilegiada que eu vivi durante muitos anos e que, quando estourou, me jogou em um mundo com o qual eu nunca fui inteiramente capaz de lidar. Embora eu ainda esteja bem longe do ideal que criei de mim mesma aos 23 anos, foram vocês os responsáveis por, de certo modo, me prepararem para o mundo que esperava – um mundo muito maior do que aquele em que eu cresci e com pessoas com sonhos tão importantes quanto os meus. Mesmo assim, vocês encontraram espaço para crescer para além de qualquer fronteira e foram capazes de me mostrar que, se tantas pessoas chegaram lá – onde quer que esse tal “lá” seja – então eu também sou capaz de chegar onde quiser. Meu esforço nem sempre vai ser capaz de me fazer chegar nos lugares onde eu sonho em estar um dia, mas isso não significa que eles não me ajudem a chegar num lugar – um lugar que talvez seja muito melhor do que aquele que eu e vocês imaginamos juntos.

Embora eu tenha custado a admitir isso pra mim mesma, no entanto, é verdade também que muitos de vocês ainda me dão medo. Não só porque vocês são enormes, difíceis, porque cresceram muito além da conta, mas porque eu morro de medo de que, perdida no mundo de vocês, eu termine me perdendo de mim mesma. Dizem que piscianos têm essa tendência a sonhar alto demais e, muitas vezes, ultrapassar os limites daquilo que é considerado saudável até chegar em um ponto em que a realidade se tornou tão brutal, que ligar o modo automático e viver no mundo dos sonhos em tempo integral se torna muito mais fácil, para não dizer a única alternativa válida. Um dos meus filmes favoritos conta justamente a história de um cara que perdeu a mulher porque ela, de repente, se deixou perder nos próprios sonhos de tal modo que, ao se perder em uma realidade construída sob medida, tirou a própria vida para viver aquilo que ela acreditava ser sua única realidade. A primeira vez que assisti ao filme, achei a personagem burra, estúpida, idiota. Aos poucos, no entanto, percebi nela muito de mim mesma, e por mais que doa admitir isso, cada vez mais eu consigo enxergar o quanto eu e ela estamos ligadas – e foi preciso que eu passasse por períodos terríveis na minha própria vida para reconhecer que entre eu e ela existiam muito mais semelhanças do que acreditava minha vã filosofia.

Embora eu nunca tenha pensando em nada tão extremo e o contexto no qual ela está inserida seja cheio de artifícios possíveis apenas na ficção, eu consigo enxergar a linha – às vezes muito tênue – que separa a Ana que sonha alto e corre atrás dos próprios sonhos, mesmo quando morre de medo deles, daquela que prefere rejeitar sua própria realidade em prol do mundo que construiu em sua cabeça. Conversando sobre isso com a Yuu, durante um dos momentos mais difíceis pelos quais passei esse ano, fui pega de surpresa pela genuína – e inevitável – preocupação dela. Até ali, eu não acreditava que vocês pudessem ser um problema na minha vida para além da minha dificuldade nata de lidar com o fracasso, mas não demorou muito para que eu mesma reconhecesse na preocupação dela um motivo pra que eu mesma desse mais atenção ao que estava acontecendo e procurasse ajuda antes que fosse tarde demais. Eu amo cada um de vocês, com uma força que nem sempre parece existir em mim, mas eu também preciso admitir que lidar com alguns de vocês sozinha era exaustivo e que eu precisava passar por isso de forma apropriada antes que toda essa situação levasse embora de vez a minha sanidade. Por mais que vocês sejam uma parte importante – enorme, fundamental – da pessoa que sou hoje, alguns de vocês cresceram ao ponto de se tornarem monstros e é preciso que eu aprenda a lidar com vocês da melhor forma possível antes que vocês se tornem os vilões da minha história, e não meus aliados, aqueles que me motivam a colocar um pé na frente do outro e seguir o meu próprio caminho mesmo quando as coisas ficam difíceis, que é o papel que vocês sempre desempenharam na minha vida.

Talvez vocês fiquem chateados e eu entendo. Mas eu precisei reunir um bocado de coragem para escrever sobre isso e eu espero que vocês saibam reconhecer isso também – e aí, abram um sorriso, mesmo que meio a contragosto, ao perceber que a garotinha que cresceu junto com vocês está tomando as rédeas da própria vida, ganhando perspectiva e seguindo seu caminho como deve ser. No final das contas, eu sempre vou ser a mesma pessoa que acredita e tem muita fé – em Deus, nas pessoas, na vida, em vocês – e isso é algo que não vai mudar jamais. Se Izzie Stevens, que sempre foi minha spirit animal, continua acreditando em tantas coisas mesmo depois do caos se instalar em sua vida, nada mais justo que eu faça jus à ela e siga meu caminho de mãos dadas com vocês, acreditando que juntos somos capazes de conquistar o mundo. Eu acredito, acredito, acredito. Obrigada por continuarem comigo, fazendo meu coração bater com força mesmo depois de todos esses anos.

Com amor.

COM AMOR

4. YOUR SIBLINGS

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Queridos A., G. e F.,

Como vocês estão? Espero que esteja tudo bem. Não sei quanto tempo faz que a gente não se fala, mas sei que faz bastante tempo. Tempo suficiente para que vocês tenham crescido e se tornado pessoas que eu muito provavelmente não sei quem são, e para que a maioria das pessoas que estão na minha vida não saibam da existência de vocês. Não é uma pena que as coisas tenham acontecido dessa forma? Embora nosso pai tenha se esforçado para que nos tornássemos próximos e até hoje tente criar algum tipo de laço entre nós, a vida nunca permitiu que eu fizesse meu papel de irmã mais velha e fosse uma figura presente na vida de vocês. Não sei se vocês alguma vez sentiram falta dessa presença (não sei se é possível sentir falta de algo que nunca tivemos) ou se tiveram curiosidade de me conhecer melhor, mas me entristece um bocado que eu não tenha tido a oportunidade de fazer parte da vida de vocês.

Eu sempre quis ter irmãos. Sei que esse é, muito provavelmente, o mantra de quase todo filho único, que pede à exaustão por uma companhia. Quero ter um irmão, quero ter um irmão, quero ter um irmão. Mas eu sempre quis mesmo ter um irmão (ou irmã), alguém com quem eu pudesse dividir uma casa, uma família, uma vida. Por mais que meus primos sempre tenham sido muito próximos e tenham suprido essa necessidade imediata de ter alguém com quem dividir a casa, a família e a vida – brigas e muitas histórias pra contar aí no meio -, sei que não é a mesma coisa, e é por isso que eu sinto tanto por não ter tido a chance de construir uma relação assim com vocês. Mesmo que não tenhamos a mesma mãe, mesmo que nossas realidades sejam tão diferentes, eu queria ter, desde o início, construído uma relação de amor e apoio mútuo, a mesma que hoje tenho com meus primos mais queridos.

Lembro da primeira vez que conheci vocês (menos F., que nessa época ainda não tinha nascido). Eu tinha mais ou menos 10 anos e quase não podia me conter de tanta empolgação quando nosso pai sugeriu que eu passasse um fim de semana na casa de vocês. Lembro também que minha mãe não gostou muito da ideia, não porque ela tivesse algum ressentimento com nosso pai ou tivesse qualquer receio de me deixar passar alguns dias com vocês, mas porque ela nunca se sentiu muito confortável com essa história de não me ter dormindo sob o mesmo teto que ela, talvez porque, desde o início, tenhamos sido só nós duas, e não ter a outra ali sempre tenha sido um troço complicado pras duas. Mas ela deixou e com isso eu ganhei um dos fins de semana mais especiais da minha vida, um fim de semana que, embora eu não lembre totalmente hoje, ainda me traz lembranças fragmentadas que são suficientes para me fazer sorrir. Nós brincando juntos, dormindo na mesma cama, fazendo as refeições e dividindo confidências com uma facilidade que só crianças conseguem ter, algo que, muito provavelmente, a gente nunca mais vai ter de novo.

Não é que agora seja tarde demais para construir algum tipo de relação e recuperar o tempo que não tivemos, mas também não é como se não fosse. É uma contradição proposital essa, que torna toda a situação infinitamente mais complexa, mas não é muito real também? Vocês sabem, talvez muito melhor do que eu, que a essa altura já não é mais tão fácil nos aproximarmos. Somos adultos – pelo menos a maioria de nós – e infelizmente somos seres-humanos muito mais complexos e cheios de nuances do que fomos um dia. Aos 10 anos, eu podia simplesmente sentar e brincar com vocês e tudo ficaria bem, mas hoje, quando vejo vocês pelas fotos, eu já não sei mais quem vocês são. Eu não sei o que vocês gostam, que tipo de música escutam, se já estão trabalhando, se estão estudando, o que fazem no tempo livre. São coisas bobinhas, se a gente parar pra pensar, mas são essas coisas bobinhas, tão pequenas que às vezes parecem dispensáveis, que falam muito sobre quem somos e que, justamente por isso, se tornam tão importantes. Muitos anos se passaram desde que nos vimos pela última vez (exceto você, F., que eu não conheço pessoalmente até hoje) e muita coisa aconteceu nesse meio tempo: A. se tornou mãe de uma menininha linda; G. se tornou um homem e F. é um dos meninos mais inteligentes dos quais eu já ouvi falar. Fico feliz de verdade que vocês tenham seguido com a vida de vocês e que, mesmo com todas as dificuldades, tenham se tornado pessoas tão boas – incríveis até -, mas todas essas coisas vividas longe um do outro são coisas que, de um jeito ou de outro, me separam de vocês cada vez mais e eu realmente não sei se hoje seria possível recuperar o tempo que perdemos, nem se eu estou disposta a isso, muito menos se vocês estão.

Não se sintam pessoas horríveis só porque vocês não têm o menor interesse em saber quem é a irmã mais velha de vocês. Esse é um direito de vocês – assim como também é um direito meu -, que não faz de vocês pessoas melhores ou piores, mas humanos, e eu não vou ficar chateada. Demorou muito até que eu aceitasse isso e foi só quando me vi condenando a personagem de uma série do qual gosto muito por não querer conhecer sua irmã por parte de pai que eu me dei conta de que eu e ela não éramos muito diferentes, e que ela, embora parecesse dura e fria num primeiro momento, estava no seu direito. Isso não quer dizer que eu esteja fechada pra vocês, muito pelo contrário, mas fica um pouco mais fácil quando a gente não sente essa obrigação de ser irmã e se fazer presente só porque divide laços sanguíneos com alguém, e é essa obrigação que eu não quero sentir em relação à vocês – muito menos que vocês sintam em relação à mim. Eu estou aqui e vou estar ainda por bastante tempo (pelo menos, assim espero), mas vocês não precisam me procurar por isso, não precisam se sentir confortáveis na minha (quase inexistente) presença ou qualquer coisa assim. Vocês não têm obrigação nenhuma de me amar ou sentir qualquer coisa por mim, e ninguém, nem o nosso pai, pode obrigar vocês a sentirem qualquer coisa. Sei que ele gostaria que nós tivéssemos uma relação mais próxima, mas a vida nem sempre acontece como planejamos, e ele também sabe disso melhor do que ninguém.

Mas eu estou aqui e vocês podem me procurar sempre que quiserem. Não se sintam intimidados e não acreditem em tudo que nosso pai diz. Ele não é mentiroso, claro que não, mas ele só conhece uma versão de mim mesma e essa é, muito provavelmente, a versão que ele apresenta pra vocês – da mesma forma que eu só conheço uma única versão de vocês, que é a que ele me mostra. No fundo, somos todos humanos, e eu acredito que, independente da escolha que fizermos, pelo menos sempre vamos ter as poucas memórias da nossa infância pra onde voltar. Mas eu estou aqui e, no fundo, eu sei que vocês estão aí também – e isso, por enquanto, vai ser o suficiente. 

Com carinho,
Ana. 

COM AMOR

3. YOUR PARENTS

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Queridos mamãe e papai,

Uma vez me disseram que uma família não é formada por pessoas que dividem o mesmo sangue e sobrenome, mas por aquelas que dividem a vida – e uma casa – com você, e que todo o resto eram apenas parentes. Na época, eu provavelmente sorri e acenei, meu jeitinho (como vocês bem sabem) de evitar qualquer conflito desnecessário, mas eu nunca concordei muito com essa definição, embora eu concorde que uma família vai muito além de sobrenome e laços sanguíneos.

Nós nunca fomos uma família tradicional. Não tradicional no estilo comercial de televisão, dessas famílias que aparecem juntas tomando café da manhã juntos e sorrindo o tempo inteiro, perfeitos até a página três. Mas nós também nunca moramos na mesma casa (pelo menos não o suficiente pra eu me lembrar disso), nunca fizemos refeições juntos, nunca fomos ao médico juntos e vocês nunca discutiram juntos as minhas notas ou o meu futuro ou seja lá o que pais discutem sobre a vida dos filhos. Essa, muito provavelmente, foi a intenção de vocês quando se casaram, quase dez anos antes de me trazerem ao mundo, mas coisas acontecem o tempo inteiro e nós nem sempre temos controle suficiente para levar exatamente a vida que queremos e planejamos ter. Eu não sei se vocês se arrependem de alguma escolha que fizeram no passado ou se teriam feito algo diferente se pudessem, mas eu queria que vocês soubessem desde já que eu, nem por um minuto sequer, mudaria o que nós temos.

Sempre que alguém descobre que sou filha de pais separados, a primeira reação é imediatamente achar que eu sofri um bocado e que essa é, muito provavelmente, uma grande questão na minha vida. É verdade que nem sempre foi fácil (especialmente pra você, mãe) e é bem possível que eu tenha tido alguma dificuldade ao ter que explicar todo ano por quê eu não dava presente de dia das mães pra minha mãe ou por quê meu pai nunca ia me buscar na escola, mas isso não quer dizer que eu tenha tido uma infância ruim, muito menos que tenha crescido traumatizada, muito pelo contrário. Talvez nós sejamos infelizes à nossa própria maneira, como em “Anna Karenina”, mas nós também sempre fomos muito felizes, e o amor, que é o mais importante, sempre esteve ali. Em todos esses anos, eu nunca, nem por um minuto sequer, me senti menos amada por não ter vocês dois juntos o tempo inteiro do meu lado, porque estar junto não é físico e vocês sempre estiveram ao meu lado do jeito que puderam.

Eu não tento explicar nossa dinâmica para outras pessoas porque, a não ser que elas tenham vivido algo muito parecido, a maioria realmente não entende. Nas histórias que as pessoas contam sobre separações, sempre existe uma parte que sai mais machucada do que a outra e eu acho que isso não foi diferente aqui. Mas vocês passaram por cima de tudo isso e conseguiram construir uma relação de amizade, ainda que distante. Vocês nunca brigaram pra ver quem ia ficar comigo (eu sei que você jamais faria isso com minha mãe, pai) e nunca discutiram na minha frente, nem uma vezinha sequer, e talvez por isso eu tenha crescido tão tranquila em relação à nossa realidade. Hoje eu sei que vocês não são perfeitos, porque vocês são, antes de mais nada, seres-humanos, mas eu agradeço por terem sido tão maduros e colocado meu bem-estar sempre em primeiro lugar. Parece óbvio quando a gente fala assim, mas eu sei que existem muitas pessoas por aí que não têm a mesma sorte, e eu me sinto verdadeiramente privilegiada por ser filha de duas pessoas tão especiais.

É por isso que eu jamais seria capaz de não chamar vocês de minha família. Porque vocês são a minha família. Vocês foram as primeiras pessoas que eu conheci nesse mundo e são, talvez, as únicas pessoas que eu tenho certeza absoluta que sempre vão estar ao meu lado, não importa o que aconteça. Aqueles que vão torcer sempre por mim e que jamais vão querer o meu mal, que sempre estarão prontos para me defender de qualquer coisa. Vocês são o meu refúgio, aqueles em quem eu mais confio nesse mundo inteirinho – e não é porque a gente não divide uma casa ou uma rotina que isso vai mudar.

Sabem, vocês sempre estão prontos pra dizer o quanto eu sou importante e como vocês me amam tão incondicionalmente, mas acho que eu nunca disse que vocês são as pessoas mais preciosas da minha vida e que eu agradeço todos os dias por ter nascido exatamente nessa família e por ser justamente filha de vocês. Sei que se não fossem vocês, também não seria eu, mas eu gosto de acreditar que nesse universo enorme e cheio de possibilidades, alguma força superior fez com que eu viesse parar justamente na vida de vocês, e aí sim, eu pudesse me tornar a pessoa que sou hoje.

Eu demorei muito tempo para valorizar o que vocês fizeram por mim em todos esses anos e demorei muito mais tempo tentando ser uma pessoa completamente diferente de vocês, praguejando na frente do espelho por todas as características herdadas, só pra crescer e me dar conta que, afinal de contas, não somos tão diferentes assim. E que eu não consigo me imaginar sendo uma pessoa diferente, mesmo com todos os defeitos, mesmo que eu tenha sonhado tantas vezes em ser loira e ter os olhos claros. Nós somos muito diferentes, mas somos também muito iguais, e quando eu me olho no espelho eu tenho, mais uma vez, a certeza de que vocês sempre vão estar comigo. No meu cabelo que não é liso nem enrolado, no nariz que deveria ser reto, mas que tem um ossinho ali no meio que muda absolutamente tudo, na sobrancelha fininha ou na cor dos meus olhos. Vocês sempre vão estar comigo, não importa onde eu esteja e eu espero que, quando vocês estiverem preocupados demais com o caminho que eu estou trilhando – não porque estou fazendo alguma coisa errada (não estou), mas porque eu sempre quis voar pra longe, bem longe, e vocês nunca souberam lidar muito bem com isso -, se lembrem disso também e, acima de tudo, confiem na criação que vocês me deram, nos valores que vocês me ensinaram. O resto parece muito pequeno quando a gente lembra dessas coisas, prometo.

Hoje, no entanto, eu queria agradecer. Agradecer por todas as vezes que vocês me confortaram e me deram colo, por todas as vezes que vocês confiaram em mim e no meu potencial, por todo o amor do mundo – que não foi pouco. Por todos os presentes, por todos os passeios, por todas as conversas e por todas as brigas também, porque elas me ensinaram demais. Por terem me incentivado a ser a pessoa que sou hoje e por se orgulharem da mulher que eu me tornei, mesmo que eu seja tão diferente de vocês às vezes. Obrigada por terem me dado limites, por me ensinarem que a vida é muito mais do que aquilo que é socialmente esperado da gente e que o mundo não gira ao redor do meu umbigo. Obrigada por me darem a oportunidade de fazer minhas próprias escolhas, por nunca me forçarem a seguir um caminho que não era meu, mesmo que vocês tenham sonhado com ele desde que eu nasci. Obrigada por respeitarem meus sonhos, por nunca ridicularizarem minhas vontades e por sempre celebrarem minhas conquistas. Por nunca terem tentado me limitar de alguma forma, por nunca terem desvalorizado meus sentimentos e por sempre acreditarem em mim, mesmo quando eu já não acreditava mais.

Obrigada por terem, principalmente, me dado asas para voar pra onde eu quisesse, mas muito obrigada, também, por terem me ensinado o caminho de volta pra casa. A vida pode não ser perfeita e talvez nós não tenhamos sido a família que vocês sonharam um dia, mas eu tenho certeza que tirei a sorte grande por ter pais como vocês. Muito obrigada por tudo, hoje e sempre.

Com (muito) amor.

COM AMOR

QUERIDA ANA,

Como você está? Sei que hoje é o seu – nosso – aniversário, então achei que seria legal escrever pra você te dar os parabéns, e falar sobre a vida – a minha vida, a sua vida – o universo e tudo mais. Eu sei que você deve ter outros planos, mas por favor, sente um minuto, não seja uma adolescente mimada e preste um pouco de atenção.

Não lembro como foi o nosso aniversário de 13 anos (eu não lembro nem do meu aniversário do ano passado, então por favor, me dê uma ajudinha aqui), mas posso adiantar que esse vai ser um ano marcante na sua – nossa – vida, intenso, maluco, no bom e no mau sentido. 2006 foi um ano de muitas mudanças, mudanças que de alguma forma moldaram a pessoa que eu sou hoje e que você será um dia. Sei que falando assim parece assustador, e é mesmo – só não o tempo todo. Mas eu acredito em você, acredito que você pode fazer o melhor com isso, então segure firme e respire fundo, você vai precisar.

A essa altura você se acha muito dona do mundo e principalmente do seu nariz. Eu te diria para ir com calma, que você ainda não é completamente independente e precisa respeitar isso (e as pessoas que te disserem isso), mas acho que muito da sua coragem reside exatamente nessa confiança inabalável em si mesma e coragem é uma coisa que anda faltando por aqui. Eu tenho muito medo de muitas coisas. Crescer é tão difícil quanto todas as pessoas te disseram e é bem menos divertido do que você acredita agora, mas eu estaria mentindo se te dissesse que não gosto do lugar onde estamos. Você vai viver coisas incríveis nesses anos – únicas, especiais, preciosas. No entanto, preciso te pedir: não viva tanto no futuro. Eu sei quais são os seus sonhos agora, sei o quanto eles são importantes pra você e sei também que é essa vontade de fazer as coisas darem certo que te coloca em movimento, que te dá forças pra correr atrás, mas você também está vivendo coisas únicas, especiais, preciosas, e às vezes eu daria qualquer coisa para ser você de novo. Não me leve a mal, não é que nossa vida seja ruim, muito pelo contrário. Ela é muito boa, boa de verdade. Mas um dia você vai sentir falta da vida que leva agora, de todas as possibilidades, da cobrança que ainda não era tão grande, da chance de poder errar sem muitas consequências. Você ainda não sabe disso, mas uma de nossas músicas favoritas fala exatamente sobre essa pressa de viver, de fazer as coisas acontecerem, e como isso nem sempre é bom, então vá com calma. O presente também é importante e viver no futuro, às vezes, faz mais mal do que bem. Não deixe de acreditar em você, muito menos nos nossos sonhos (todos eles são válidos, não importa o que as pessoas digam), mas saiba aproveitar o que você está vivendo agora da melhor forma possível. São essas lembranças que vão te segurar quando, daqui alguns anos, as coisas ficarem difíceis demais.

A urgência de fazer sua vida dar certo continua igual mesmo 10 anos depois, mas algumas coisas são mais difíceis de fazer agora e você vai descobrir que o tempo é bem menos generoso com você do que já foi um dia. Alguns meses atrás, escrevi para a nossa versão de 32 anos e uma coisa que disse para ela foi que a gente não pode se deixar abalar pelos efeitos dele. Temos nosso próprio tempo, diz uma música que amamos demais, e é verdade, então respeite o seu próprio tempo e não pense nunca que é tarde demais. Eu realmente acredito nisso e espero que você também, mas se quiser me poupar um pouquinho o trabalho, eu diria para você começar a correr atrás agora. Como eu disse, você ainda não tem sua independência, mas você tem braços, pernas e um coração batendo com força pra correr atrás de algumas coisas. Comece já a tocar bateria e leve a sério as aulas de violão. Você nunca vai ter tanto tempo quanto tem agora, então faça algo com isso.

Aliás, a música vai ser sempre muito importante nas nossas vidas e é o que vai nos segurar nos momentos mais difíceis. Grite suas letras favoritas, dance sozinha no quarto, encha suas paredes com posteres e chore quando for necessário. Nenhuma das suas bandas vai dar certo (desculpa, preciso ser sincera aqui), mas valorize o que a música pode te ensinar. Você não entende a maioria das letras que canta agora, mas um dia elas vão dizer muito sobre o que você sente e sobre quem você é. Ah, e não empreste seu cd do Blink 182. Você nunca mais vai ter ele de volta e, acredite, faz uma falta enorme dirigir (a gente dirige pra cima e pra baixo, olha que loucura!) sem poder ouvir esses caras de vez em quando.

Não acredite que suas amizades são eternas. Infelizmente (ou felizmente, vai saber) as pessoas mudam, você também vai mudar demais, e de repente alguns relacionamentos deixam de fazer sentido na nossa vida. É triste quando isso acontece, mas quase sempre é necessário, então paciência. Eu poderia te dizer para escolher melhor as suas pessoas, mas a gente não tem como prever o futuro, e se aos 23 nós ainda erramos e colocamos nossa fé em gente que dali cinco minutos (ou cinco anos) vai nos dar um pé na bunda, então não tem mesmo muito o que fazer. Aprenda desde já que as pessoas são complexas, difíceis, e que se relacionar com elas é tão difícil e complexo quanto, mas nunca, jamais deixe de acreditar que pessoas boas vão cruzar o seu caminho, porque elas vão. Eu sei que às vezes parece que é o fim do mundo, sempre parece assim, mas até aqui nós superamos tudo muito bem, obrigada. Pode demorar até essas pessoas aparecerem, você vai errar um bocado no processo, mas se tem uma coisa que a vida me ensinou é que cedo ou tarde a gente acaba encontrando nossas pessoas no mundo. Às vezes é quem a gente menos imagina, às vezes não. Você precisa pagar pra ver.

Também não acredite que o fato de não ser eterno anula tudo de bom que você viveu ao lado do outro, porque não anula. Uma amiga me disse uma vez que as pessoas às vezes aparecem na nossa vida com uma missão específica, para ensinar ou nos mostrar uma ou duas coisas, e então vão embora. É triste, mas a vida acontece, e quase sempre você vai perceber que ela te leva por caminhos melhores, que dá pra tirar muito aprendizado desse sofrimento. Então não se culpe por coisas que estão fora do seu controle. Dói quando isso acontece, mas ninguém morre por um coração partido. Pense nisso e siga em frente. Falando assim, até parece que estou falando na nossa vida amorosa, mas saiba desde já que você vai ter muito mais questões com seus amigos do que com seus namorados. Aliás, você vai ter bastante sorte no amor, então não se preocupe, as coisas acontecem quando têm que acontecer. De novo: não tenha pressa. E se valorize sempre, em primeiro lugar. Eu sei que você já faz isso, mas em algum momento as coisas vão ficar um poucos estranhas e você vai aprender que dizer “não” nem sempre é o suficiente. Saiba se defender quando isso acontecer. Não faça nada que você não quiser.

Ainda sobre amizades, uma coisa importante: não dê atenção para as pessoas que não acreditarem que suas amizades de internet são verdadeiras. Eu sei o quanto elas são importantes pra você, muitas delas inclusive são mais importantes do que a amizade de muita gente que está ali imediatamente do seu lado, e acredite que ainda é assim até hoje. Mas não se desespere porque você não poder ter um contato “””real””” com essas pessoas. Eu sei que faz falta, muita falta, e que às vezes parece insuportável continuar tendo relações tão íntimas com gente que mora tão longe, mas lembra que um dia você vai ser independente e ter o seu próprio dinheiro e vai poder fazer o que quiser com ele. Não queria te dar nenhum spoiler, mas aos 22 você vai viajar sozinha pro Rio de Janeiro para conhecer as melhores pessoas do mundo, amigas maravilhosas que você conheceu graças à internet, e vai ser uma das coisas mais bonitas e importantes que você vai viver. Então sossega porque em algum momento as coisas começam a acontecer. De verdade, elas realmente acontecem.

Outra coisa muito importante: aprenda a ser mais gentil com você mesma. É sério, você não é perfeita, ninguém é, então não perca seu tempo tentando alcançar o inalcançável. Você é linda do jeitinho que é e quem te disser o contrário não sabe de nada. Sei que a adolescência não é um período fácil e você vai se sentir deslocada o tempo inteiro – porque não tem a barriga chapada das suas amigas, porque suas coxas são moles demais, porque você é mais alta que todos os meninos – mas acredite quando eu te digo que ninguém tem a vida toda no lugar, ninguém. O calo aperta pra todo mundo, mas ninguém vai assumir isso assim, em voz alta. Eventualmente você vai aprender a lidar com seus defeitos e principalmente a aceitá-los, não como uma coisa ruim, mas como uma parte importante da pessoa que você é. Por hora, tente não cobrar tanto de si mesma, não se compare com as suas amigas, se cerque de pessoas positivas, use o que tiver vontade e aprenda a aceitar elogios. Você pode se achar horrível na maior parte do tempo, mas isso não significa que o mundo inteiro tem que achar a mesma coisa. Aprenda também a aceitar as críticas que você recebe. Não é fácil, nem sempre é legal, mas muita gente está fazendo isso porque realmente quer o melhor pra você. Nem todo mundo quer te colocar pra baixo, nem todo mundo quer o seu mal. E por favor, não beba tanto refrigerante, sério mesmo, esse troço faz mal.

Agora, preciso levar um papo muito sério com você. Porque eu disse no início desta carta que seus – nossos – 13 anos seriam marcantes, intensos, especiais, mas não só no bom sentido, e é verdade. Mas você já sabe do que eu estou falando, não é?

Sua tia nunca vai melhorar. Você vai passar a sua adolescência inteira sonhando com o dia que isso vai acontecer até descobrir que não vai. E aí vai aceitar que tudo bem as coisas serem assim – não sem antes quebrar uns pratos, riscar as paredes, bater portas e gritar pela casa. Como em todos esses anos desde os seus 10 anos, ela vai ter momentos bons e momentos ruins também, bem ruins (algo realmente terrível vai acontecer ali por 2011 ou 2012, segure firme), mas todos sobrevivem no final das contas. A depressão não é uma doença fácil, é muito mais séria do que a gente imagina, então tente ser compreensiva e fazer o melhor que você puder para ajudar. Eu sei que isso é o que todo mundo diz e que você não aguenta mais essa discurso porque um dia eu fui você e eu sei como dói precisar tanto de alguém, de um colo, e não ter pra onde correr. Mas tenha paciência e reconheça uma vez na vida que os adultos estão certos dessa vez. E seja forte. Eu realmente acredito que você consegue – se não acreditasse, talvez eu nem estivesse aqui agora escrevendo pra você (por favor, segure as pontas).

Seja gentil com sua mãe e acredite que ela também está sofrendo com tudo isso. Pense antes de dizer coisas que você vai se arrepender pelo resto da vida. Você pode ser cruel quando quiser e pode magoar as pessoas de verdade com suas palavras, mas desde já aprenda que o gosto da crueldade é terrível, amargo. Imagine o que a sua mãe sente quando você diz que preferia estar morta, que preferia não viver, que odeia a sua vida. As palavras têm força, querida Ana, tome muito cuidado com elas. E pense sempre que você não quer magoar a pessoa mais importante da sua vida. Também seja mais compreensível com o Bruno. Ele não tem culpa do que está acontecendo – é só uma criança, no olho do furacão. Eu sei que ele é insuportável às vezes, que ninguém acredita no quanto ele é mimado, mas elas vão enxergar isso eventualmente, e aí você vai poder dizer que já sabia. Mas não diga isso, você realmente não ganha nada. Daqui alguns anos, quando ele tiver a sua idade, você vai ser a prima cool que busca ele nos lugares, que conversa sobre tudo, de cultura pop até coisas aleatórias sobre a vida, e ele vai ser um dos seus melhores amigos. Eu sei, eu sei, é difícil imaginar que isso vai acontecer algum dia, mas vai. Os arranca-rabos, no entanto, continuam os mesmos, a diferença é que agora ninguém se importa com quem vai sair apanhando (não se preocupe, você é boa de briga, ele continua apanhando mais). E, principalmente, ame sua tia. Eu sei que você sente raiva, muita raiva agora, mas ela não tem culpa de nada do que está acontecendo, ninguém tem. Pegue toda essa raiva e transforme em amor (não revire os olhos), isso é o que ela mais precisa no momento. Lembre-se que ela é uma das pessoas que mais te amam no mundo inteiro, então tenha paciência e a ame de volta.

Lembre-se também de pedir ajuda quando precisar. Não finja que não precisa: você SABE que PRECISA, e tudo bem. Não existe nada de errado nisso, você não vai ser menos corajosa só porque admitiu que precisa se apoiar em alguém, não é vergonhoso, muito pelo contrário. É difícil pra cacete, aliás. Eu, por exemplo, estou te dizendo tudo isso mas ainda tenho uma dificuldade enorme de admitir quando preciso de um ombro pra chorar, quando preciso ter alguém para conversar. É aquela história: ah, não quero incomodar, que é isso, tá tudo certo. Sabe como? É, eu sei que você sabe. Por favor, seja melhor que eu. Suas amigas realmente não vão querer ouvir você falar sobre os seus problemas, não agora. Mas entenda que elas não fazem isso por mal – você também não gosta muito de falar sobre isso, a diferença é que você precisa e elas realmente não podem ter a dimensão do que você vive, não aos 13 anos. É pra isso que serve a ajuda – e por ajuda, entenda qualquer coisa, um terapeuta, uma prima mais velha, um padre, sei lá. Mas peça ajuda. Li, num dos livros da nossa vida (você ainda não sabe qual é, mas vai descobrir quando for a hora) que a melhor maneira de encontrar a luz nas trevas não é afastando as pessoas, mas caindo nos braços dela, e é verdade. Não demore tanto para descobrir isso. Peça ajuda e não tenha medo de ser vulnerável.

Mais uma coisa: escrever ajuda muito. Talvez você não perceba o quanto agora, mas todos os desabafos na parede do seu quarto não foram escritos por acaso. Você é uma pessoa que escreve, e é na escrita que você consegue colocar os pensamentos em ordem. Então continue escrevendo – na parede, num caderno, no computador, tanto faz. Continue escrevendo suas fanfics, comece um blog e não pare de ler nunca. Leia, leia, leia. E acredite no seu trabalho. Ninguém vai te levar a sério no início, mas hoje já descobri que é possível transformar isso em algo de verdade, concreto. E também não pare de desenhar, sério mesmo. Hoje eu só faço boneco palito e é péssimo, não faço a menor ideia de como isso aconteceu.

O que mais, o que mais, o que mais? Ah, sim. Valorize as pessoas que estão do seu lado. Confie na sua mãe. Não perca a chance de passar o máximo de tempo com seu avô. Acredite em você e no seu potencial. Diga mais “sim” do que “não”. E principalmente, seja feliz.

A vida não vai ser sempre gentil com você, algumas coisas dão errado no meio do caminho, mas acredite que fica tudo bem no final. Eu poderia te pedir desculpas por todos os sonhos – seus, nossos – que não realizei, por ter jogado muitas das suas expectativas no buraco, mas por mais que eu sinta muito de vez em quando, não me sinto realmente culpada por ter feito as escolhas que fiz e por ter chegado no lugar onde cheguei. Aos 23 anos eu ainda moro com a minha mãe, não tenho um emprego, não estou formada e nunca viajei para o exterior. Mas a vida é boa assim mesmo, você vai ver, e acho que, no final das contas, você também vai aprender a se orgulhar disso tudo. Hoje, no seu dia, quero te desejar tudo de mais lindo, do fundo do meu coração. Que você tenha um dia incrível, que esteja ao lado das pessoas que você ama e aproveite cada segundo dessa data tão especial. Aqui do outro lado, estou te esperando com um sorriso no rosto, o cabelo enorme, dois cachorrinhos no colo (dois!), alguns quilos a mais e muito, muito feliz. As coisas dão certo, pequena Ana. Aproveite, viva (sobreviver não é o suficiente), brinque, erre, dance, se divirta, ria, e nunca deixe de sonhar. Eu te amo de verdade. Obrigada por tudo que você me ensinou. Espero que a gente ainda possa aprender muitas coisas por aí.

Com amor,
Ana.