Browsing Category

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

O ABISMO NO MEIO DO CAMINHO

Não lembro exatamente quando, tampouco por quê, mas em algum ponto em meados de setembro, comecei a assistir Gilmore Girls pela segunda vez. Era pra ser um rewatch banal e descompromissado, minha companhia em dias difíceis, noites insones e horas de almoço – às vezes, meu único momento de paz e sossego real ao longo do dia -, mas de repente as coisas começaram a ficar meio estranhas e já não fazia mais sentido assistir qualquer outra coisa ou fazer qualquer outra coisa quando eu simplesmente poderia fugir para Stars Hollow e me deliciar com a existência daquelas pessoas, me solidarizar com seus conflitos, erros e mágoas, e viver uma realidade que parecia tão melhor.

Assim como Downton Abbey, Gilmore Girls se transformou num bote salva-vidas, cujo maior objetivo era me manter sã; o barquinho que impedia meu coração de se afogar. A grande diferença entre as duas, no entanto, é que enquanto em Downton tudo parecia pertencer a uma realidade tão, tão distante – estamos, afinal, falando de uma história que gira em torno uma família aristocrata inglesa e seus empregados, tudo isso ambientado no século passado, um mundo que definitivamente não existe mais -, Gilmore Girls sempre me forneceu um conforto muito mais próximo, como o abraço apertado de alguém que sabe exatamente o que você está passando e entende o quanto pode ser difícil, doloroso e traumático, mas que também reconhece que vai ficar tudo bem. Rory Gilmore, sobretudo na faculdade, sou eu em todos os níveis possíveis, sejam eles bons ou ruins (principalmente os ruins), e existe algo de muito confortável – num nível totalmente pessoal – em ver outra pessoa que não uma amiga, colega ou conhecida viver coisas tão parecidas e ainda encontrar uma saída em meio ao caos.

Não é por acaso que tantas amigas, colegas e conhecidas se identificam com a Rory – e se inspiram nela, e querem ser como ela, e sentem-se profundamente incomodadas pelos erros dela. Ainda que a experiência esteja longe de ser universal, porque contempla uma bolha muito específica de mulheres brancas e privilegiadas, com acesso à educação de qualidade, que nunca tiveram que se preocupar com muito além de serem boas alunas, boas filhas e entrar numa faculdade de prestígio, a trajetória da Rory representa muito dos nossos conflitos internos, que derivam em grande parte por esse estigma de perfeição (a filha perfeita, a aluna perfeita, a namorada perfeita, a neta perfeita, etc etc) que não corresponde à realidade. Crescer significa ser constantemente confrontada pela perspectiva de que ser um floquinho de neve especial é uma missão fadada ao fracasso, que por mais perfeitas que sejamos, jamais vamos chegar lá. É por isso que gosto tanto da quarta temporada em diante, quando Rory finalmente vai para Yale e começa a caminhar por conta própria. Sem a presença constante da Lorelai – que, talvez pela primeira vez, também já não tem mais todas as respostas – Rory precisa descobrir sozinha por que e como resolver aquilo que acontece em sua vida, e mesmo que nem sempre tome as decisões certas, ela ao menos está tentando. Muita gente odeia essa nova versão da personagem, que é intensificada no revival, mas eu adoro justamente porque é quando ela se permite ser mais humana. Nos acostumamos a ter esse referencial de perfeição e é por isso que vê-la errar chega a ser tão incômodo, mas é, ao mesmo tempo – e ironicamente, e contraditoriamente – tão libertador.

As coisas dão errado. Elas dão tão errado que às vezes a gente se pergunta se algum dia elas já deram certo, porque não pode ser possível que algo dê tão errado sem que exista um histórico de erros cabeludos por trás. E ainda assim elas dão, porque, bom, essa é a vida. Um dos grandes motivos que me levaram à terapia foi minha incapacidade de lidar com o futuro e o fato de não poder ter uma vida inteira planejada, perfeita, estável, com todos os movimentos calculados previamente. Desde muito nova, eu sabia exatamente o que fazer, como fazer, e mesmo que não soubesse com precisão a carreira que gostaria de seguir – tinha um fraco por algumas áreas -, a certeza de que dali alguns anos eu estaria na faculdade já era suficiente. Estar na faculdade transformou tudo, no entanto: de repente, o próximo passo já não parecia tão óbvio – eu estava num penhasco, à frente havia apenas uma neblina densa e horrível -, me desestruturando por completo. O que vai acontecer depois? se tornou uma das minhas perguntas favoritas – e também a mais desesperadora delas – e ninguém te conta o quanto pode ser angustiante pensar num futuro que, embora repleto de opções, sempre parece tão abstrato.

“Pra onde eu vou agora?”, ela perguntou, sentou na estrada e começou a chorar sozinha.

Um dos meus momentos favoritos de Gilmore Girls é quando Rory vai para Stars Hollow com Lucy e Olivia, suas novas amigas da faculdade, e elas jogam conversa fora, riem, pintam os cabelos de rosa, roxo e verde, vasculham álbuns de fotos, fazem doces de flocos de arroz, e se divertem de verdade. Mas é ali, em meio a uma banal girl’s night out, que Rory tem seu momento e despenca, confessa que não sabe o que fazer em seguida, chora o fim da faculdade que se aproxima mais e mais, lamenta sua saída da editoria do Yale Daily News, se entrega à todas as dúvidas que a destroem por dentro. Ela sente muito, naturalmente e intensamente, e chora no chão do banheiro com os cabelos pintados de rosa, numa dicotomia que faz todo o sentido do mundo; tão, tão adulta e, ainda assim, tão ridiculamente vulnerável. Ela não é uma pessoa de verdade, não ainda, assim como a personagem principal de Frances Ha, e há algo de reconfortante ali – não somos também, afinal. Quando permite que suas angústias se transformem em palavras, ganhando forma e tamanhos reais, Rory é um pouco (muito) como nós. Em qualquer outra circunstância, ela permitiria que esses monstros a consumissem por dentro, tornando-os uma ilusão menos real, ainda que tão maléfica quanto; mas quando os expõe, ela os confronta realmente – e encontra de volta amor, apoio, carinho e uma compreensão que parte, principalmente do entendimento de que não é a única naquele barco. Lucy e Olivia também se sentem assim; e eu, e vocês aí do outro lado, e todas as garotas do mundo que foram criadas para serem lindos floquinhos de neve especiais, até descobrirem que o mundo era um lugar grande demais para nos limitarmos  a uma caixa. Rory Gilmore não está sozinha justamente porque nós também não estamos.

As últimas semanas foram um processo doloroso de ser muito adulta, o que significa que na maior parte do tempo eu só queria me esconder embaixo das minhas cobertas, fingir que jamais tinha existido e que todas as merdas que já havia feito não eram problemas meus, tampouco minha responsabilidade. Foram tombos atrás de tombos, atrás de outros tantos tombos, até que eu não quisesse mais me levantar, mas ser adulto é levantar uma, duas, três vezes – e levantar rápido -, só para cair de novo, dessa vez por um motivo completamente diferente. Foi preciso me lembrar constantemente que falhar não era o fim do mundo – nem da minha carreira ou da minha vida -, que errar era humano e que não fazia o menor sentido chorar por erros que chegaram muito perto de acontecer, mas não aconteceram de verdade. Tive a sorte de contar com pessoas nesse meio tempo que tinham a paciência e firmeza necessárias para lembrarem que nem tudo estava perdido e me mandar engolir o choro e voltar ao trabalho, mas que também me abraçaram e confortaram, que me lembraram que todos os êxitos pesavam mais do que as falhas que sempre pareciam monstros tão maiores e assustadores com os quais lidar na minha cabeça.

Ao mesmo tempo, quando tudo acabou, foi preciso lidar com o fim de algo que vinha me consumindo por inteiro, pro bem e pro mal, e ao qual me apeguei profundamente; chegar ao fim foi como me sentir órfã e descobrir que, embora o cansaço e o desgraçamento fossem reais, e não sobrasse uma roupa limpa no meu armário, eu não queria que aquilo terminasse. Eu sentia falta da rotina, das pessoas, dos problemas que pareciam impossíveis de serem resolvidos, até acontecerem como num passe de mágica, porque a magia do cinema existe também – e principalmente – nos bastidores. No último dia, nós nos abraçamos longa e fortemente, trocamos mensagens fofas, celebramos o quanto aquela experiência havia sido incrível, mas dois dias depois, sozinha e de pijamas no meu quarto, eu só conseguia me sentir terrivelmente perdida, como se um pedaço grande e importante de mim tivesse ido embora. Eu tinha mergulhado em um oceano inteiro de emoções, conflitos, altos e baixos, sem que tivesse tempo de respirar antes de enfiar cabeça e corpo inteiros na água – o que poderia ter sido traumático, é verdade, mas foi uma das melhores experiências que eu podia ter tido, mas principalmente vivido; e eu vivi, cada segundo. Eu coloquei não apenas os pés na água, mas me joguei inteira, sem saber direito o que me esperava, e foi incrível. Estar de volta no meu quarto escuro foi como me sentir presa depois de experienciar a imensidão azul incontrolável, totalmente sem limites do mar, e depois sequer poder sentir o vento na cara.

Em “French Twist”, é a saída do Yale Daily News que faz a Rory ter essa percepção de que as coisas estão acabando; ela saíra do jornal, em breve saíra da faculdade e, de repente, não tem nenhum emprego para ir, nenhuma pós-graduação para começar. Pra mim, o fim das gravações é o que marca esse momento. Porque tudo está acabando. Ainda faltam alguns semestres para o fim da faculdade, mas ela já está em sua reta final – o fim parece mais próximo do que o início, afinal – e muito embora exista uma porção de coisas a serem feitas, projetos a serem produzidos, experiências a serem vividas, toda a perspectiva do fim já começa a fazer seu estrago. E ainda assim, ela não deixa de ser natural – terrivelmente, mas ainda assim. Minhas crises de ansiedade voltaram com força total; meu cabelo jaz no chão do meu quarto enquanto, pouco a pouco, um buraco começa a ser aberto na minha cabeça; e uma atrás da outra, embalagens de comida chinesa começam a ser empilhadas no lixo da minha cozinha, e ainda assim, a única certeza é que tudo isso passa – só para começar de novo e de novo em outro lugar. Eu sou Rory Gilmore de cabelos cor-de-rosa, chorando no chão do banheiro, apavorada demais com o que me reserva o futuro – mas isso também vai passar.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

FLUXO DE CONSCIÊNCIA E OUTRAS INUTILIDADES

Inspirado nesse post aqui

1. Perdi completamente o filtro na hora de falar sobre minha cabeça desgraçada. Ninguém perguntou, mas estou falando mesmo assim. Meu nome é Ana Luíza, tenho 24 anos, tenho depressão, ansiedade, não sei lidar com lugares lotados, arranco meus cabelos nas horas vagas, mas juro que sou uma boa pessoa. Complicada, mas legal. Desgraçada demais, mas com bom coração.

2. Por que eu me importo tanto?

3. Thor: Ragnarok é um bom filme, mas a Marvel devia parar de tentar ser tão engraçada o tempo inteiro. E fazer cenas pós-créditos melhores. Eu odeio cenas pós-créditos. Quem inventou que era legal fazer cenas pós-créditos?

4. Não sei o que acontece com a minha cara quando alguém aponta uma câmera na minha direção. Não é possível que eu seja assim tão feia, não é isso que vejo quando me olho no espelho. Se bem que já me disseram que a gente se enxerga algumas vezes mais bonitos do que realmente somos. O que isso quer dizer? Talvez eu não seja bonita, afinal. Eu queria ser bonita. Queria acreditar quando as pessoas dizem que sou bonita. Só queria sair bonita em uma foto espontânea. Só isso.

5. É uma falta emocional ou técnica? As duas. Mais emocional ou mais técnica? Não sei.

6. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa. Ninguém se importa.

7. Odeio ficar sozinha. Será que alguém vai vir ficar comigo? Será que alguém vai sentir a minha falta e vai me procurar? Provavelmente não, mas seria legal se acontecesse. Mas não vai acontecer. Infelizmente. Eu deveria me importar tanto? Provavelmente não. Mas eu me importo. Não queria ficar sozinha. No escuro. Sozinha. Queria abraçar alguém. Precisava abraçar alguém. Mas está calor. Ninguém quer ser abraçado no calor. Eu quero. Qual o meu problema? Por que diabos eu preciso de carinho o tempo inteiro? Daqui a pouco alguém vai confundir carência com outra coisa. Que coisa? Eu gosto de abraçar meus amigos. Eu gosto de cuidar deles, gosto de dar beijo, carinho. Eu durmo de conchinha com minhas amigas. Gosto de me sentir segura, amada. Ninguém tem nada a ver com isso. Ou tem? Por que eu preciso tão desesperadamente ser amada? É patético, mas talvez eu seja patética. E é por isso que eu quero abraçar as pessoas no escuro, no calor; porque sou tão legal com todo mundo o tempo inteiro. Porque evito conflitos. Eu só quero aprovação. Amor. Pertencimento. Carinho. Patético.

8. Por que as pessoas continuam aqui? Por que elas não saem correndo? Elas deveriam sair correndo. Seria mais fácil, mais seguro – pra mim, pra todas elas. Não consigo sair correndo. Não confiem em mim. Não entrem na minha tempestade, não dancem nela. Era disso que a Lorde estava falando, não é? Por que diabos estou chorando de novo? Sempre foi assim. Quer dizer, não sempre, sempre, mas quase sempre. Dói, dói, dói. Por que tem que doer tanto? Merda, será que não podia ser um pouquinho mais fácil? Claro que não podia. A vida. A porra da vida. Eu só queria um yakissoba e um episódio de Gilmore Girls pra me consolar.

9. Escrever. Eu preciso voltar a escrever. E lavar roupas. Meu Deus, eu realmente preciso lavar minhas roupas.

10. Se eu estiver em um carro com os vidros abertos, mas não completamente abertos, e acontecer um acidente, é provável que esse vidro venha parar diretamente na minha bochecha. Quão aberto o vidro precisa estar para ser seguro que ele não venha parar no meio da minha cara se qualquer coisa acontecer?

11. Eu não sou o apêndice de ninguém. Eu tenho uma VIDAAAAAAAA. A porra de uma VIDAAAAAAAA. Não dependo de um homem pra ter a porra de uma vida. Eu também trabalho pra caralho. Porra, eu trabalho PRA CARALHO. Tenho todo o direito de estar cansada, ninguém pode me julgar por preferir passar o fim de semana em casa depois de uma semana escrota. Eu não preciso inventar uma desculpa pra isso, não preciso me justificar pra ninguém. Quem essa mulher pensa que é pra falar sobre mim dessa forma? E ODIAR PESSOAS? De onde ela tirou que eu odiaria pessoas? Eu mal tenho tempo pra lidar com as pessoas que amo, pra que caçar gente pra odiar? Eu não aguento mais.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

YOU JUMP, I JUMP

“It’ll be fun, it’ll be a thrill. Something stupid, something bad for you. Just something different.”

Já disse isso uma ou duas vezes por aqui, mas uma coisa que minha mãe – e meu namorado, e minhas amigas, e aparentemente todas as pessoas do mundo – repete desde que me entendo por gente é que eu preciso aprender a dizer “não” com mais frequência. Na maioria das vezes, ela diz isso depois de um longo suspiro, enquanto me observa arrancar os cabelos e correr desesperada pela casa, chorando por algum prazo ou trabalho não cumprido que pareceu uma ótima ideia, mas que até aquele momento era só uma fonte inesgotável de desgosto e frustração, como quem já não aguenta mais repetir as mesmas coisas em vão, mas continua assim mesmo pois: mãe. Ela conhece a filha que tem bem demais e tem total consciência de que essa é uma cena que vai se repetir até o fim dos tempos; dizer “não”, afinal de contas, nunca foi mesmo o meu forte.

Mas o que pouca gente sabe – e minha mãe sabe melhor do que ninguém – é que, no meio de todo o desgosto e frustração do mundo, existe algo que me preenche e me completa de um jeito totalmente equivocado. Eu gosto disso. Longe de ser uma pessoa corajosa (embora minha psicóloga sempre diga o contrário), projetos, ciladas e ideias malucas demais para serem levadas a sério são o que me mantém em movimento e fazem com que minha vidinha efêmera e sem graça tenha um pouquinho mais de sentido. Por mais esgotada que eu esteja, mesmo com todas as lágrimas e a vontade constante de arrancar os cabelos e amaldiçoar todos os projetos que aceitei e todas as ideias que topei fazer acontecer porque pareciam a coisa mais legal do mundo até que não era mais, eu gosto de participar e me meter em todas as merdas possíveis, especialmente quando elas dão certo ou rendem uma boa história para contar no final. Muitas das coisas mais legais que já vivi nessa vida só aconteceram porque eu disse “sim” e me dei de presente a chance de vivê-las, e é bom que seja assim – e continue sempre sendo assim; não porque é sempre bom, mas porque ainda é melhor desse jeito.

Talvez por isso, faça todo o sentido do mundo que 2017 tenha sido o ano em que elevei esse negócio de dizer “sim” aos extremos; menos por medo de magoar os outros, mais por uma vontade intrínseca de arriscar – o que exige uma confiança extrema nas Forças do Universo™ e na minha própria capacidade de fazer as coisas darem certo. Sempre que converso sobre isso com a Yuu, chegamos à conclusão que isso é, de alguma forma, um reflexo da ansiedade e da depressão, numa espécie de euforia que antecipa a queda; mas também uma consequência do momento que estou vivendo, que é sim, um prato cheio para novas experiências. Não sou uma pessoa corajosa – pelo menos, não de um jeito óbvio -, muito menos destemida, mas talvez o segredo sobre fazer as coisas acontecerem não seja sair por aí sem medo algum, mas caminhar apesar do medo. Ao mesmo tempo, li em algum lugar que, depois de todas as coisas horríveis que aconteceram nos dois últimos anos, 2017 finalmente seria o ano em que trabalharíamos duro e faríamos coisas importantes acontecerem. Não sei até que ponto vocês acreditam nesse tipo de coisa, mas como alguém que crê fortemente que a culpa quase sempre é das estrelas, todas essas coisas têm se provado incrivelmente reais.

Às vezes é incômodo pra caralho, porque significa dar passos imensos e fazer várias coisas ao mesmo tempo, ainda que todas elas sejam assustadoras, e continuar seguindo em frente assim mesmo, mas, mais uma vez, é no meio dessa loucura que eu encontro algum conforto e significado. Estou de férias desde o dia sete de julho e acho que a coisa que mais repeti nesse meio tempo foi que minhas férias tinham sido uma mentira e eu não tinha parado um minuto sequer, o que não deixa de ser verdade. Desde que me vi livre dos trabalhos da faculdade, minha sensação é a de que continuo sempre tendo um texto para escrever, um e-mail para responder, um formulário para preencher, uma consulta ou evento inadiável para ir; mas entre todos os compromissos, todas as noites em claro na frente do computador, as crises de choro no banheiro e a vontade constante de passar dias só olhando pro teto, dançando sozinha no meu quarto, assistindo episódios de Downton Abbey em looping como se nada mais importasse na vida e lendo todos os livros do mundo, também existe a satisfação de saber que todo o esforço, dedicação e tempo aparentemente perdido estão alimentando sonhos e ambições maiores até do que eu mesma. Já disse mais de uma vez que preciso me apaixonar por qualquer coisa que eu faça, e minha maior sorte é que, no momento, todas as coisas que tenho feito e que têm ocupado meu tempo me fascinam e enchem de orgulho de um jeito que parece bobo – e talvez até seja -, mas que ainda é justamente o que me faz colocar um pé na frente do outro dia após dia.

As pessoas percebem o quanto esses projetos, ambições e sonhos – que podem ou não ter começado como algo meu, mas que a essa altura já se tornaram tão meus quanto de quem as idealizou – têm um significado imenso só de me ouvirem falar sobre elas; algo tão incrível, único e especial que às vezes preciso parar e me perguntar se realmente está acontecendo ou se simplesmente não vou acordar em algum momento e descobrir que tudo não passava de um sonho meio maluco. Sempre existe essa possibilidade, mas acho que dificilmente seria o caso.

Naturalmente, muitas dessas coisas envolvem enfrentar medos imensos e confrontar fantasmas que ficariam no meu armário por muitos anos, não fosse a necessidade imediata de tirá-los de lá. Recentemente, ouvi de uma pessoa que nem me conhece muito bem, que eu tinha escolhido um jeito bastante traumático de sair da minha concha, e foi engraçado ouvir isso dessa forma, como uma verdade que não precisava de um pano de fundo complicado para se tornar real. Ele não precisava saber de toda a minha história para reconhecer o tamanho dos desafios que tenho pela frente; eis aí uma verdade incontestável. No entanto, ao invés de correr para o banheiro e chorar na frente do espelho, só para perguntar para o meu reflexo onde diabos eu estava com a cabeça quando aceitei todas aquelas propostas e querer jogar tudo pro alto, isso só me fez ter ainda mais certeza do que eu quero. Uma das minhas cenas favoritas de Gilmore Girls é justamente quando a Rory topa pular de mãos dadas com o Logan, segurando um guarda-chuva e usando um lindo vestido de princesa, daquela enorme estrutura que não sei como chama, mas vocês sabem exatamente qual é. Ela só estava ali para escrever uma matéria, mas então o Logan diz pra ela que as pessoas podem viver cem anos sem terem vivido por um minuto sequer, e de repente, não mais que de repente, os dois estão lá em cima, apavorados e de mãos dadas. Minha sensação, em todos esses desafios, é exatamente a de estar em cima dessa imensa estrutura, esperando para pular – e a euforia da Rory pós-salto é exatamente como eu me sinto quando as coisas finalmente acontecem.

Apavorada é como tenho me sentido desde que decidi participar do BEDA, mesmo já tendo tanto pra fazer (site? newsletter? filmes? vida pessoal? HÁ!), mesmo com tanto para me preocupar. No sábado, passei quase duas horas no telefone com dona Yuriko Yogi, e quando ela me perguntou se eu iria participar e eu respondi que sim, é óbvio, nós rimos horrores – eu, de nervoso; ela, provavelmente porque sabe a amiga maluca que tem. Lógico. Quais as chances disso não acontecer? Que eu sou completamente maluca não é nenhuma novidade, mas talvez seja a hora de abraçar de vez meu lado overachiever e pular de uma vez nesse barco. As chances de que dê tudo muito, muito errado são imensas, mas já tenho alguns posts programados e um calendário mais ou menos organizado para me orientar – que não vai servir pra absolutamente nada quando a coisa ficar feia, mas essa é outra história. No entanto, como dizem por aí, o que importa não é realmente o destino, mas a jornada, e essa talvez seja a oportunidade perfeita para provar que a máxima nunca foi tão real.

Quem vamos?

>> Como sou maluca, mas raramente estou sozinha, não esqueçam de acompanhar meus amores Manu, Tati, Michas e Mia que estão de mãos dadas nessa cilada comigo e também participarão do famigerado BEDA. Partiu, é nóis. <3

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

NÃO ERA PRETO E BRANCO

Cada Um Com Seu Cinema é um filme de 2007 que reúne curta-metragens de diretores renomados do mundo inteiro, onde cada um tem a oportunidade de contar pequenas anedotas de amor ao cinema; histórias minúsculas que, pouco a pouco, constroem uma obra que, ao mesmo tempo, critica, celebra e lamenta o futuro da sétima arte. Na aula de direção dessa semana, tiramos o tempo para assistir e analisar alguns desses curtas, um exercício de crítica e compreensão de linguagem, estética e técnicas tão distintas; uma experiência que seria maravilhosa, não estivesse eu mais preocupada em fingir que estava tudo bem.

Fingir que está tudo bem é, aparentemente, o que mais tenho feito nos últimos meses; uma tentativa ridícula e desesperada de provar pra mim mesma que as coisas não estão tão ruins assim, mesmo que elas de fato estejam. Como disse para uma amiga esses dias, é como se o tempo inteiro eu tentasse equilibrar uma porção de pratos que precisam de cuidado e atenção, mas que ao mesmo tempo exigem uma agilidade constante no trato: o tempo que dedico a um prato pode ser fatal para outro, e é preciso me desdobrar em muitas para dar conta de tudo. Mas tudo isso é feito com um sorriso no rosto porque, do contrário, eu não estaria fingindo tão bem, ninguém compraria o que minha boca diz, quase sem pensar: está tudo bem, eu respondo quando alguém se mostra preocupado demais com a situação; mas não está. É exaustivo tentar dar conta de tanto, sabendo que, no momento, sequer sou capaz de dar conta de mim mesma, mas não dá simplesmente para deixar que todos os pratos caíam no chão porque as consequências seriam muitas, imensas, desastrosas, e eu não consigo pensar numa forma razoável de lidar com cada uma delas. Existe uma vida acontecendo; existem responsabilidades, problemas, pessoas. Não é como se eu pudesse sair correndo cada vez que um dos meus fantasmas escapassem pela porta e começassem a me assombrar, mas não é, também, como se eu pudesse segurar essa onda por muito mais tempo.

Ontem, em determinado momento da aula, comecei a chorar em silêncio, sozinha no escuro – ainda que não estivesse sozinha de verdade. Na tela, a história de uma mulher cega que ia ao cinema com o namorado ganhava forma e traduzia de forma sensível e muito delicada uma porção de sensações e sentimentos – as mãos que se entrelaçam, os movimentos que se alteram de forma sutil à medida que o filme avança, a revelação de que a protagonista é cega, uma mulher que ouve e sente profundamente aquilo que é projetado na tela, mas não enxerga absolutamente nada, a câmera que não nos permite enxergar com clareza nada além da própria personagem também -, detalhes que pouco a pouco constroem uma narrativa curta e objetiva cujo o grande mote não é o cinema em si, mas todas as sensações que ele provoca; sensações essas que estão muito além da visão ou da compreensão humana. Ironicamente, o filme se chama Anna, e foi dirigido por ninguém mais, ninguém menos, que Alejandro González Iñárritu, um diretor que gosto bem pouco na maior parte do tempo, para não dizer coisa pior, mas que naquele pequeno momento conseguiu dizer muito mais (pra mim, ao menos) do que seus longa-metragens de três horas de duração.

Um momento particularmente tocante é quando, após sair da sala de cinema, visivelmente abalada, Anna pergunta ao namorado se o filme era preto e branco. Não era. Então ela chora, certa de que, ainda que seja capaz de ouvir e sentir, física e emocionalmente, cada uma daquelas histórias, jamais será capaz de viver aquela experiência de forma plena; e é assim que o filme chega ao fim. Tenho pensado muito sobre ele desde então, sobre Anna e também sobre mim, e quase sempre chego à conclusão de que, embora existamos em realidades muito distintas, existe algo terrivelmente familiar em sua narrativa. Eu me sinto um pouco como essa mulher: como se estivesse sentada na poltrona de um grande cinema, enquanto minha vida é projetada na tela; uma experiência que jamais sou capaz de experienciar em sua totalidade. Existe o choro e o carinho, existem as palavras trocadas no escuro, as mãos que se movimentam de forma sutil, expressando tudo aquilo que é grande demais para ser posto num intervalo de palavras; mas ainda é preciso que alguém me diga que as cores estão ali e sussurrar no meu ouvido o que está acontecendo. Existe essa regra – que às vezes é quebrada, às vezes não – clássica, tão velha quanto o mundo é mundo, de que no cinema nada se conta, tudo se mostra. Mas o que fazer quando a visão, esse sentido tão básico e fundamental, é arrancado – literal ou metaforicamente – de nós?

Anna lamenta pela cegueira, que pode ter surgido em seu caminho ou já nascido junto com ela; eu choro pela minha própria, que não nasceu junto comigo, mas apareceu no meio do meu caminho e ali ficou, sem nunca ir embora. Nós não pedimos por isso, nem eu nem ela, e seria muito mais fácil se fosse diferente, mas não é. “Você vai lidar com isso de uma forma boa ou ruim?”, pergunta uma voz no meu ouvido. Não sei, eu penso em resposta, por mais óbvia que a escolha pareça – entre o certo e o errado existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, afinal. O filme não era preto e branco; era em cores vivas, bonitas e cheias de tons de cinza, que se entrelaçavam aos tons luminosos e vibrantes, formando algo único e complexo, assim como a vida. Talvez em algum momento, sejamos capazes de enxergá-las de novo.

(Esse texto não faz o menor sentido, mas bear with me; nada na minha vida faz o menor sentido no momento.)

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

AOS TREZE

Quando assisti Aos Treze pela primeira vez eu tinha vinte e três anos. Isso mesmo: depois de passar aproximadamente 19023890183 bilhões de anos fantasiando sobre a histórias das meninas com piercing na língua na capa do dvd, minha adolescência inteira pautada pelas irrealidades provocadas pela expectativa, finalmente, no ano passado, tomei vergonha na cara e assisti o filme – e odiei.

Odiei, na realidade, é o jeito exagerado de dizer que eu não gostei tanto assim, que ele não chegou perto de suprir minhas expectativas adolescentes; eu esperava um filme sobre jovens adoravelmente lindas e loucas, curtindo seus treze anos como se não houvesse amanhã e se enfiando em algumas furadas de um jeito limpinho e destemido que não incomoda ninguém. Aos treze anos, meu sonho era ser uma jovem destemida e adoravelmente louca, além de linda, de um jeito que não incomoda justamente porque tem o efeito oposto: causa admiração. Eu cruzei com essas meninas um milhão de vezes durante minha adolescência, na escola, no shopping, lugares que naquela época eram o ponto de encontro de todos os adolescentes de Brasília; sempre sonhando em ser um pouco como elas, sem considerar que, por trás das roupas bonitas e da atitude blasé, existiam garotas com uma porção de questões mal resolvidas – que eu também tinha, ou talvez não -, que não viviam vidas tão divertidas assim, muito menos eram tão limpinhas quanto nosso olhar idealizado e os jeans rasgados de butique nos faziam enxergar.

A amizade entre Tracy e Evie começa num misto de admiração e curiosidade que a primeira dispensa à segunda, os mesmos sentimentos que eu tinha em relação às meninas mais velhas que eram minha referência na época. Evie é a garota mais popular do colégio, estilosa, destemida, admirada pelos garotos, linda e louca de um jeito adoravelmente inconsequente que não parece suficiente para machucar ninguém, e Tracy enxerga tudo isso de longe, querendo fazer parte daquele mundo de alguma forma, mas ao mesmo tempo muito distante dele. As duas se tornam amigas de um jeito absolutamente ridículo, com a primeira descaradamente tentando se enturmar; mas elas são jovens e ser jovem também significa ser ridículo e cara de pau de um jeito que adultos às vezes deveriam ser, mas não são. Assim, as duas se tornam amigas; dividem roupas, cigarros, namorados, dramas, a casa e a vida, uma relação que a princípio não parece tão diferente do padrão, até as duas entrarem juntas numa montanha-russa que só vai pra baixo. A amizade das duas se torna cada vez mais problemática e auto-destrutiva à medida que a história avança, e elas passam a ter contato com universos que idealmente deveriam passar longe da realidade de qualquer adolescente. Ambas constroem uma relação que não é exatamente de autodescoberta, sobre pertencimento, sobre ser jovem e descobrir qual o seu lugar no mundo – embora, em algum nível, seja sobre essas coisas também -, mas sobre drogas, sexo, roubo e automutilação; uma sucessão irrealística de fatos a não ser que você tenha vivido coisas muito parecidas… aos treze anos. O roteiro é baseado nas experiências reais da própria Nikki Reed – que além de interpretar Evie no longa, também ajudou a escrever o roteiro -, alguém que viu e viveu algo muito similar enquanto era pré-adolescente, e decidiu que precisava contar essa história.

Em 2003, quando o filme foi lançado, eu tinha dez anos e era a mesma criança certinha ao ponto de ser idiota que eu ia me esforçar para subverter não muito tempo depois. Eu tirava boas notas, era educada, usava roupas fofas e muito cor-de-rosa, brincava de Barbie e tinha um fã-clube de Sandy & Júnior, minhas maiores preocupações na vida. Mas era uma realidade muito frágil, construída sobre uma perfeição que não existe, e bastou que minha tia caísse de cama em depressão para que todas as minhas certezas caíssem junto com ela. 2004 é um ano que não tenho muitas recordações, um grande vácuo na minha linha cronológica, composta por pequenos flashes de um ou outro momento mais marcante; mas aos doze anos eu já começava a nutrir uma certa revolta interna, já começava a me questionar o por quê da minha vida não ser mais aquele mundo cor-de-rosa no qual eu tinha sido criada. Para quem via de fora, eu ainda era a menina doce e delicada de sempre, mas dentro de casa a narrativa era outra. No filme, Tracy também é uma garota doce, talvez não exatamente delicada, mas meiga e bondosa o suficiente para fazer o que tem que ser feito, para fingir que aceita a situação em que vive e não incomodar ninguém. Ela não aceita o padrasto, se incomoda com a falta de dinheiro da mãe e com a ausência do pai, mas finge que está tudo bem. Fingir que está tudo bem foi algo que eu aprendi a fazer desde muito cedo e que ainda tenho dificuldades em não fazer, algo que, aos poucos, minha psicóloga tenta me ensinar que é possível. Mas é uma situação extremamente complicada, nociva, e também delicada, algo que te corrói por dentro, mas que continua impossível de ser exorcizado.

A postura de Tracy muda quando ela conhece Evie, que é quem mostra pra ela um outro lado da vida – mais sujo e cruel, é verdade, mas onde ela ainda pode ser quem quiser. Ela abandona a imagem de garota certinha para assumir uma versão de si mesma que é admirada e idealizada por quem vê de fora, que não aceita a realidade que lhe é concedida e se sente no direito de questionar e quebrar tudo se necessário, e apontar o dedo na cara de quem se colocar em seu caminho como se isso fosse algo natural. É uma garota muito mais destemida do que a que conhecemos no início e muito mais livre também, mas ironicamente, é essa mesma liberdade aparente que a permite sucumbir de vez. Quem a atenta inicialmente para esse fato é sua mãe (não curiosamente, a primeira pessoa a quem Tracy vira as costas), mas mesmo que seu irmão e seu pai (que despenca sabe-se lá de onde só para entender que diabos está acontecendo com sua filha perfeita que ele nunca se preocupou em amar e dar a devida atenção) conversem com ela posteriormente, é só quando realmente vê a situação sair completamente do controle que Tracy percebe que é só uma adolescente que precisa desesperadamente de amor e proteção. A grande mensagem do filme é justamente a que nossos pais ainda vão ser as pessoas a segurar cada uma das pontas das nossas vidas quando tudo ameaçar desabar – um clichê tão grande que parece deslocado num filme que se esforça tanto para construir uma imagem tão subversiva de jovens de treze anos -, mas o que existe no meio me parece muito mais importante, fundamental.

Minha postura também mudou radicalmente aos treze anos – foi a época em que eu comecei a usar roupas pretas, ouvir rock e passar lápis preto no olho; mas foi também quando eu comecei a pensar na morte, a me revoltar contra minha realidade, a ter problemas com minha mãe, tirar notas baixas no colégio e escrever desabafos na parede do meu quarto -, mas não foi preciso que uma garota popular e prafrentex entrasse na minha vida pra virar meu mundo de cabeça pra baixo. Eu conheci alguém, é verdade, uma pessoa que me apresentou a um mundo com o qual eu não estava acostumada, que eu nem sabia direito que existia mesmo que, racionalmente, eu soubesse que existia em algum lugar; mas nós o exploramos juntas, não separadas.

A B., que é como vou chamá-la aqui, era uma garota muito parecida comigo: nós duas vinhamos de famílias imperfeitas, não éramos exatamente populares, mas andávamos com esse grupo de meninas que eram populares e perfeitas, exatamente o oposto de nós duas. Eram meninas legais até, gente boa e de bom coração, mas que ainda eram as mesmas meninas lindas e populares de sempre, o lembrete de tudo que eu e B. poderíamos ser, mas não éramos. Ninguém precisava nos dizer o contrário, ninguém precisava sequer dizer alguma coisa; nós tínhamos plena consciência de aquele não era nosso lugar, não exatamente, e isso já era o suficiente. Quando nos afastamos – com uma briga que explodiu do nada, como naturalmente acontece entre pessoas que tentam com força demais manter uma relação que já não existe -, nós assumimos que jamais seríamos como aquelas garotas; não de um jeito arrogante de quem se acha superior, mas com a certeza confortadora de que não precisávamos mais usar aquelas máscaras. Nós tínhamos caído da corda bamba, é verdade, mas a cama elástica que nos esperava no final era incrivelmente mais divertida.

Meio sem querer, nós nos tornamos exatamente as pessoas que queríamos ser: garotas misteriosas e destemidas que pareciam viver numa dimensão paralela onde nada, nem ninguém, era capaz de nos atingir – que as pessoas estivessem falando não era o problema, desde que continuassem falando sobre a gente.

Em Aos Treze, a amizade de Tracy e Evie eventualmente entra numa espiral de problemas, auto-destruição e pequenos crimes que são descobertos e terminam por colocar um ponto final no relacionamento das duas. É algo que acontece aos poucos, até assumir proporções incontroláveis, ao ponto de respingar em todas as pessoas que não deveriam estar sabendo de nada, e enquanto uma acusa a outra de ser a culpada por tudo o que está acontecendo, as responsáveis se desentendem sem saber em quem acreditar. É um desfecho ridículo, mas muito verossímil também, justamente porque mostra o quando ambas são apenas garotas, vulneráveis e machucadas até dizer chega, que só precisavam de amor, carinho e um pouco de atenção. O fim da amizade das duas é exatamente o que teria acontecido comigo e B. se as coisas tivessem saído do nosso controle: existiram pequenos delitos, existiram drogas (que nunca usamos, é verdade, mas ainda assim), existiram momentos estranhos em que tivemos absoluta certeza de que tudo ia dar errado e nós íamos morrer, existiram nomes pichados nos muros de Brasília quase como uma declaração de amor de devoção, existiu um presidiário que tirou a própria vida na cadeia e, numa sucessão estranha de fatos, seu corpo surgiu no nosso caminho, existiram festas, álcool, brigas, e mentiras, uma porção de mentiras; fora todos os problemas que estavam em casa, ou muito perto de casa, dos quais a gente nunca podia fugir.

Não é preciso falar sobre cada uma dessas coisas porque mencioná-las já é suficiente, qualquer pessoa entende que nenhuma adolescente deveria estar lidando com elas; não é preciso de detalhes para entender que elas são absurdas, irrealistas demais, não fossem exatamente o contrário. E curiosamente, ninguém percebeu. Assim como os pais de Tracy demoraram a descobrir que algo estava errado, e a responsável por Evie jamais percebeu, sequer se perguntou quando todos os problemas vieram à tona, ninguém nunca se perguntou o que estava acontecendo comigo ou com B. As pessoas falavam sobre nossas notas, sobre nosso mau comportamento, sobre as fugas da escola, sobre um possível relacionamento que nunca tivemos; mas elas nunca se perguntaram o que realmente estavam acontecendo. Ninguém queria saber sobre a tia maníaco-depressiva, não queria ouvir sobre o pai ausente; sobre uma mãe igualmente ausente e alcoólatra, e sobre um outro pai que passava o dia inteiro fora porque precisava trabalhar, mas também porque não fazia a menor ideia de como lidar com uma filha adolescente.

Tenho pensado muito em todas essas coisas ultimamente, revirando meu passado como se de repente despejasse uma imensa caixa cheia de papéis no chão em busca de alguma resposta, mas só consigo pensar que, embora as pessoas ainda pareçam muito preocupadas, elas nunca se importam o suficiente. É um assunto que me deixa muito sensível, que me faz olhar de frente para fantasmas dos quais até hoje não consegui me livrar, esqueletos que deveriam ter sido queimados com sal grosso há muito tempo, mas que continuam trancados no meu armário a sete chaves, e eu tenho certeza que muito disso teria sido evitado se as pessoas tivessem feito as perguntas certas, se tivessem olhado para dentro, e não só para o que estava fora.

Aos Treze continua não sendo o filme que eu achei que seria, mas talvez sua grande sacada não seja mostrar como pais são pessoas importantes na vida de um adolescente e sim como adolescentes são pessoas complexas e com problemas muito, muito reais.