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JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

NÃO ERA PRETO E BRANCO

Cada Um Com Seu Cinema é um filme de 2007 que reúne curta-metragens de diretores renomados do mundo inteiro, onde cada um tem a oportunidade de contar pequenas anedotas de amor ao cinema; histórias minúsculas que, pouco a pouco, constroem uma obra que, ao mesmo tempo, critica, celebra e lamenta o futuro da sétima arte. Na aula de direção dessa semana, tiramos o tempo para assistir e analisar alguns desses curtas, um exercício de crítica e compreensão de linguagem, estética e técnicas tão distintas; uma experiência que seria maravilhosa, não estivesse eu mais preocupada em fingir que estava tudo bem.

Fingir que está tudo bem é, aparentemente, o que mais tenho feito nos últimos meses; uma tentativa ridícula e desesperada de provar pra mim mesma que as coisas não estão tão ruins assim, mesmo que elas de fato estejam. Como disse para uma amiga esses dias, é como se o tempo inteiro eu tentasse equilibrar uma porção de pratos que precisam de cuidado e atenção, mas que ao mesmo tempo exigem uma agilidade constante no trato: o tempo que dedico a um prato pode ser fatal para outro, e é preciso me desdobrar em muitas para dar conta de tudo. Mas tudo isso é feito com um sorriso no rosto porque, do contrário, eu não estaria fingindo tão bem, ninguém compraria o que minha boca diz, quase sem pensar: está tudo bem, eu respondo quando alguém se mostra preocupado demais com a situação; mas não está. É exaustivo tentar dar conta de tanto, sabendo que, no momento, sequer sou capaz de dar conta de mim mesma, mas não dá simplesmente para deixar que todos os pratos caíam no chão porque as consequências seriam muitas, imensas, desastrosas, e eu não consigo pensar numa forma razoável de lidar com cada uma delas. Existe uma vida acontecendo; existem responsabilidades, problemas, pessoas. Não é como se eu pudesse sair correndo cada vez que um dos meus fantasmas escapassem pela porta e começassem a me assombrar, mas não é, também, como se eu pudesse segurar essa onda por muito mais tempo.

Ontem, em determinado momento da aula, comecei a chorar em silêncio, sozinha no escuro – ainda que não estivesse sozinha de verdade. Na tela, a história de uma mulher cega que ia ao cinema com o namorado ganhava forma e traduzia de forma sensível e muito delicada uma porção de sensações e sentimentos – as mãos que se entrelaçam, os movimentos que se alteram de forma sutil à medida que o filme avança, a revelação de que a protagonista é cega, uma mulher que ouve e sente profundamente aquilo que é projetado na tela, mas não enxerga absolutamente nada, a câmera que não nos permite enxergar com clareza nada além da própria personagem também -, detalhes que pouco a pouco constroem uma narrativa curta e objetiva cujo o grande mote não é o cinema em si, mas todas as sensações que ele provoca; sensações essas que estão muito além da visão ou da compreensão humana. Ironicamente, o filme se chama Anna, e foi dirigido por ninguém mais, ninguém menos, que Alejandro González Iñárritu, um diretor que gosto bem pouco na maior parte do tempo, para não dizer coisa pior, mas que naquele pequeno momento conseguiu dizer muito mais (pra mim, ao menos) do que seus longa-metragens de três horas de duração.

Um momento particularmente tocante é quando, após sair da sala de cinema, visivelmente abalada, Anna pergunta ao namorado se o filme era preto e branco. Não era. Então ela chora, certa de que, ainda que seja capaz de ouvir e sentir, física e emocionalmente, cada uma daquelas histórias, jamais será capaz de viver aquela experiência de forma plena; e é assim que o filme chega ao fim. Tenho pensado muito sobre ele desde então, sobre Anna e também sobre mim, e quase sempre chego à conclusão de que, embora existamos em realidades muito distintas, existe algo terrivelmente familiar em sua narrativa. Eu me sinto um pouco como essa mulher: como se estivesse sentada na poltrona de um grande cinema, enquanto minha vida é projetada na tela; uma experiência que jamais sou capaz de experienciar em sua totalidade. Existe o choro e o carinho, existem as palavras trocadas no escuro, as mãos que se movimentam de forma sutil, expressando tudo aquilo que é grande demais para ser posto num intervalo de palavras; mas ainda é preciso que alguém me diga que as cores estão ali e sussurrar no meu ouvido o que está acontecendo. Existe essa regra – que às vezes é quebrada, às vezes não – clássica, tão velha quanto o mundo é mundo, de que no cinema nada se conta, tudo se mostra. Mas o que fazer quando a visão, esse sentido tão básico e fundamental, é arrancado – literal ou metaforicamente – de nós?

Anna lamenta pela cegueira, que pode ter surgido em seu caminho ou já nascido junto com ela; eu choro pela minha própria, que não nasceu junto comigo, mas apareceu no meio do meu caminho e ali ficou, sem nunca ir embora. Nós não pedimos por isso, nem eu nem ela, e seria muito mais fácil se fosse diferente, mas não é. “Você vai lidar com isso de uma forma boa ou ruim?”, pergunta uma voz no meu ouvido. Não sei, eu penso em resposta, por mais óbvia que a escolha pareça – entre o certo e o errado existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, afinal. O filme não era preto e branco; era em cores vivas, bonitas e cheias de tons de cinza, que se entrelaçavam aos tons luminosos e vibrantes, formando algo único e complexo, assim como a vida. Talvez em algum momento, sejamos capazes de enxergá-las de novo.

(Esse texto não faz o menor sentido, mas bear with me; nada na minha vida faz o menor sentido no momento.)

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

AOS TREZE

Quando assisti Aos Treze pela primeira vez eu tinha vinte e três anos. Isso mesmo: depois de passar aproximadamente 19023890183 bilhões de anos fantasiando sobre a histórias das meninas com piercing na língua na capa do dvd, minha adolescência inteira pautada pelas irrealidades provocadas pela expectativa, finalmente, no ano passado, tomei vergonha na cara e assisti o filme – e odiei.

Odiei, na realidade, é o jeito exagerado de dizer que eu não gostei tanto assim, que ele não chegou perto de suprir minhas expectativas adolescentes; eu esperava um filme sobre jovens adoravelmente lindas e loucas, curtindo seus treze anos como se não houvesse amanhã e se enfiando em algumas furadas de um jeito limpinho e destemido que não incomoda ninguém. Aos treze anos, meu sonho era ser uma jovem destemida e adoravelmente louca, além de linda, de um jeito que não incomoda justamente porque tem o efeito oposto: causa admiração. Eu cruzei com essas meninas um milhão de vezes durante minha adolescência, na escola, no shopping, lugares que naquela época eram o ponto de encontro de todos os adolescentes de Brasília; sempre sonhando em ser um pouco como elas, sem considerar que, por trás das roupas bonitas e da atitude blasé, existiam garotas com uma porção de questões mal resolvidas – que eu também tinha, ou talvez não -, que não viviam vidas tão divertidas assim, muito menos eram tão limpinhas quanto nosso olhar idealizado e os jeans rasgados de butique nos faziam enxergar.

A amizade entre Tracy e Evie começa num misto de admiração e curiosidade que a primeira dispensa à segunda, os mesmos sentimentos que eu tinha em relação às meninas mais velhas que eram minha referência na época. Evie é a garota mais popular do colégio, estilosa, destemida, admirada pelos garotos, linda e louca de um jeito adoravelmente inconsequente que não parece suficiente para machucar ninguém, e Tracy enxerga tudo isso de longe, querendo fazer parte daquele mundo de alguma forma, mas ao mesmo tempo muito distante dele. As duas se tornam amigas de um jeito absolutamente ridículo, com a primeira descaradamente tentando se enturmar; mas elas são jovens e ser jovem também significa ser ridículo e cara de pau de um jeito que adultos às vezes deveriam ser, mas não são. Assim, as duas se tornam amigas; dividem roupas, cigarros, namorados, dramas, a casa e a vida, uma relação que a princípio não parece tão diferente do padrão, até as duas entrarem juntas numa montanha-russa que só vai pra baixo. A amizade das duas se torna cada vez mais problemática e auto-destrutiva à medida que a história avança, e elas passam a ter contato com universos que idealmente deveriam passar longe da realidade de qualquer adolescente. Ambas constroem uma relação que não é exatamente de autodescoberta, sobre pertencimento, sobre ser jovem e descobrir qual o seu lugar no mundo – embora, em algum nível, seja sobre essas coisas também -, mas sobre drogas, sexo, roubo e automutilação; uma sucessão irrealística de fatos a não ser que você tenha vivido coisas muito parecidas… aos treze anos. O roteiro é baseado nas experiências reais da própria Nikki Reed – que além de interpretar Evie no longa, também ajudou a escrever o roteiro -, alguém que viu e viveu algo muito similar enquanto era pré-adolescente, e decidiu que precisava contar essa história.

Em 2003, quando o filme foi lançado, eu tinha dez anos e era a mesma criança certinha ao ponto de ser idiota que eu ia me esforçar para subverter não muito tempo depois. Eu tirava boas notas, era educada, usava roupas fofas e muito cor-de-rosa, brincava de Barbie e tinha um fã-clube de Sandy & Júnior, minhas maiores preocupações na vida. Mas era uma realidade muito frágil, construída sobre uma perfeição que não existe, e bastou que minha tia caísse de cama em depressão para que todas as minhas certezas caíssem junto com ela. 2004 é um ano que não tenho muitas recordações, um grande vácuo na minha linha cronológica, composta por pequenos flashes de um ou outro momento mais marcante; mas aos doze anos eu já começava a nutrir uma certa revolta interna, já começava a me questionar o por quê da minha vida não ser mais aquele mundo cor-de-rosa no qual eu tinha sido criada. Para quem via de fora, eu ainda era a menina doce e delicada de sempre, mas dentro de casa a narrativa era outra. No filme, Tracy também é uma garota doce, talvez não exatamente delicada, mas meiga e bondosa o suficiente para fazer o que tem que ser feito, para fingir que aceita a situação em que vive e não incomodar ninguém. Ela não aceita o padrasto, se incomoda com a falta de dinheiro da mãe e com a ausência do pai, mas finge que está tudo bem. Fingir que está tudo bem foi algo que eu aprendi a fazer desde muito cedo e que ainda tenho dificuldades em não fazer, algo que, aos poucos, minha psicóloga tenta me ensinar que é possível. Mas é uma situação extremamente complicada, nociva, e também delicada, algo que te corrói por dentro, mas que continua impossível de ser exorcizado.

A postura de Tracy muda quando ela conhece Evie, que é quem mostra pra ela um outro lado da vida – mais sujo e cruel, é verdade, mas onde ela ainda pode ser quem quiser. Ela abandona a imagem de garota certinha para assumir uma versão de si mesma que é admirada e idealizada por quem vê de fora, que não aceita a realidade que lhe é concedida e se sente no direito de questionar e quebrar tudo se necessário, e apontar o dedo na cara de quem se colocar em seu caminho como se isso fosse algo natural. É uma garota muito mais destemida do que a que conhecemos no início e muito mais livre também, mas ironicamente, é essa mesma liberdade aparente que a permite sucumbir de vez. Quem a atenta inicialmente para esse fato é sua mãe (não curiosamente, a primeira pessoa a quem Tracy vira as costas), mas mesmo que seu irmão e seu pai (que despenca sabe-se lá de onde só para entender que diabos está acontecendo com sua filha perfeita que ele nunca se preocupou em amar e dar a devida atenção) conversem com ela posteriormente, é só quando realmente vê a situação sair completamente do controle que Tracy percebe que é só uma adolescente que precisa desesperadamente de amor e proteção. A grande mensagem do filme é justamente a que nossos pais ainda vão ser as pessoas a segurar cada uma das pontas das nossas vidas quando tudo ameaçar desabar – um clichê tão grande que parece deslocado num filme que se esforça tanto para construir uma imagem tão subversiva de jovens de treze anos -, mas o que existe no meio me parece muito mais importante, fundamental.

Minha postura também mudou radicalmente aos treze anos – foi a época em que eu comecei a usar roupas pretas, ouvir rock e passar lápis preto no olho; mas foi também quando eu comecei a pensar na morte, a me revoltar contra minha realidade, a ter problemas com minha mãe, tirar notas baixas no colégio e escrever desabafos na parede do meu quarto -, mas não foi preciso que uma garota popular e prafrentex entrasse na minha vida pra virar meu mundo de cabeça pra baixo. Eu conheci alguém, é verdade, uma pessoa que me apresentou a um mundo com o qual eu não estava acostumada, que eu nem sabia direito que existia mesmo que, racionalmente, eu soubesse que existia em algum lugar; mas nós o exploramos juntas, não separadas.

A B., que é como vou chamá-la aqui, era uma garota muito parecida comigo: nós duas vinhamos de famílias imperfeitas, não éramos exatamente populares, mas andávamos com esse grupo de meninas que eram populares e perfeitas, exatamente o oposto de nós duas. Eram meninas legais até, gente boa e de bom coração, mas que ainda eram as mesmas meninas lindas e populares de sempre, o lembrete de tudo que eu e B. poderíamos ser, mas não éramos. Ninguém precisava nos dizer o contrário, ninguém precisava sequer dizer alguma coisa; nós tínhamos plena consciência de aquele não era nosso lugar, não exatamente, e isso já era o suficiente. Quando nos afastamos – com uma briga que explodiu do nada, como naturalmente acontece entre pessoas que tentam com força demais manter uma relação que já não existe -, nós assumimos que jamais seríamos como aquelas garotas; não de um jeito arrogante de quem se acha superior, mas com a certeza confortadora de que não precisávamos mais usar aquelas máscaras. Nós tínhamos caído da corda bamba, é verdade, mas a cama elástica que nos esperava no final era incrivelmente mais divertida.

Meio sem querer, nós nos tornamos exatamente as pessoas que queríamos ser: garotas misteriosas e destemidas que pareciam viver numa dimensão paralela onde nada, nem ninguém, era capaz de nos atingir – que as pessoas estivessem falando não era o problema, desde que continuassem falando sobre a gente.

Em Aos Treze, a amizade de Tracy e Evie eventualmente entra numa espiral de problemas, auto-destruição e pequenos crimes que são descobertos e terminam por colocar um ponto final no relacionamento das duas. É algo que acontece aos poucos, até assumir proporções incontroláveis, ao ponto de respingar em todas as pessoas que não deveriam estar sabendo de nada, e enquanto uma acusa a outra de ser a culpada por tudo o que está acontecendo, as responsáveis se desentendem sem saber em quem acreditar. É um desfecho ridículo, mas muito verossímil também, justamente porque mostra o quando ambas são apenas garotas, vulneráveis e machucadas até dizer chega, que só precisavam de amor, carinho e um pouco de atenção. O fim da amizade das duas é exatamente o que teria acontecido comigo e B. se as coisas tivessem saído do nosso controle: existiram pequenos delitos, existiram drogas (que nunca usamos, é verdade, mas ainda assim), existiram momentos estranhos em que tivemos absoluta certeza de que tudo ia dar errado e nós íamos morrer, existiram nomes pichados nos muros de Brasília quase como uma declaração de amor de devoção, existiu um presidiário que tirou a própria vida na cadeia e, numa sucessão estranha de fatos, seu corpo surgiu no nosso caminho, existiram festas, álcool, brigas, e mentiras, uma porção de mentiras; fora todos os problemas que estavam em casa, ou muito perto de casa, dos quais a gente nunca podia fugir.

Não é preciso falar sobre cada uma dessas coisas porque mencioná-las já é suficiente, qualquer pessoa entende que nenhuma adolescente deveria estar lidando com elas; não é preciso de detalhes para entender que elas são absurdas, irrealistas demais, não fossem exatamente o contrário. E curiosamente, ninguém percebeu. Assim como os pais de Tracy demoraram a descobrir que algo estava errado, e a responsável por Evie jamais percebeu, sequer se perguntou quando todos os problemas vieram à tona, ninguém nunca se perguntou o que estava acontecendo comigo ou com B. As pessoas falavam sobre nossas notas, sobre nosso mau comportamento, sobre as fugas da escola, sobre um possível relacionamento que nunca tivemos; mas elas nunca se perguntaram o que realmente estavam acontecendo. Ninguém queria saber sobre a tia maníaco-depressiva, não queria ouvir sobre o pai ausente; sobre uma mãe igualmente ausente e alcoólatra, e sobre um outro pai que passava o dia inteiro fora porque precisava trabalhar, mas também porque não fazia a menor ideia de como lidar com uma filha adolescente.

Tenho pensado muito em todas essas coisas ultimamente, revirando meu passado como se de repente despejasse uma imensa caixa cheia de papéis no chão em busca de alguma resposta, mas só consigo pensar que, embora as pessoas ainda pareçam muito preocupadas, elas nunca se importam o suficiente. É um assunto que me deixa muito sensível, que me faz olhar de frente para fantasmas dos quais até hoje não consegui me livrar, esqueletos que deveriam ter sido queimados com sal grosso há muito tempo, mas que continuam trancados no meu armário a sete chaves, e eu tenho certeza que muito disso teria sido evitado se as pessoas tivessem feito as perguntas certas, se tivessem olhado para dentro, e não só para o que estava fora.

Aos Treze continua não sendo o filme que eu achei que seria, mas talvez sua grande sacada não seja mostrar como pais são pessoas importantes na vida de um adolescente e sim como adolescentes são pessoas complexas e com problemas muito, muito reais.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

ALERTA DE CILADA

Minha mãe vive dizendo que eu preciso aprender a dizer “não”. Normalmente, ela diz isso quando eu estou exausta, descabelada e chorando de raiva e ansiedade, porque eu ainda sou o tipo de pessoa que não se contém diante de ideias legais demais para não serem postas em prática, o que, cedo ou tarde, se transforma num punhado de prazos e tarefas que eu nem sempre tenho tempo suficiente para cumprir. A vida não é fácil pra ninguém, mas é especialmente difícil com pessoas que não sabem dizer “não” e de repente se veem soterradas por todas as coisas que precisam ser feitas, mesmo que já não exista mais tempo para, de fato, fazê-las. É uma conta que não fecha, e minha mãe sabe disso muito melhor do que eu.

Chega a ser ridícula a frequência com que isso acontece, mesmo – e principalmente – que eu saiba como cada uma dessas bolas de neve surgem; mas ainda sou eu, e ainda é minha mãe, e nós sabemos exatamente qual papel estamos interpretando – graças a Deus. Então, sempre que possível, ela faz questão de me lembrar que eu preciso aprender a falar “não”, caso queira manter minha sanidade, enquanto eu, por outro lado, sigo determinada a fazer o contrário, mesmo que sempre prometa fazer diferente da próxima vez.

A última semana foi um ótimo exemplo disso; o ápice da minha tragédia particular que vem se desenrolando desde o final de fevereiro ou início de março, quando eu perdi completamente o controle da minha vida. A sensação que eu tenho é a de que soltei momentaneamente as rédeas do cavalo e desde então tento equilibrar minha carroça cheia de tralhas com dificuldade, enquanto ele corre desgovernado por aí, com alguns momentos de calmaria no meio do caminho em que eu juro que vai ficar tudo bem, mas não fica tudo tão bem assim. Seria cômico se não fosse trágico; mas ao mesmo tempo, acho meio injusto olhar tudo isso só por esse cenário ridículo, sem levar em consideração que todas essas furadas me movem em algum nível. Eu não inventei de estudar cinema só porque era minha única opção, ninguém me obrigou a criar um site com minhas amigas ou manter um blog pessoal, e eu nunca topei entrar em um projeto (ou dois, ou três, ou quatro) que eu não acreditasse e amasse profundamente desde o início. Existe um critério quando eu digo “sim”, que não é o melhor critério do mundo, mas ainda é alguma coisa; não é algo completamente aleatório. Ainda sou eu quem fica louca e descabelada no final, jurando de pé junto que da próxima vez não vou fazer isso, aceitando que talvez eu devesse mesmo ir com mais calma e aprender a dizer “não”, mas é essa mesma louca descabelada que sustenta um sorriso de orelha à orelha quando as coisas dão certo no final – e modéstia à parte, aos trancos e barrancos, quase sempre elas dão.

Tenho pensado muito em como é importante a gente acreditar que pode fazer as coisas antes de realmente fazê-las, por mais impossíveis que sejam, porque, do contrário, não existe motivo para sair do lugar. É verdade que querer não é sinônimo de poder, mas a mesma mãe que me disse que eu preciso aprender a dizer “não” é a mesma mulher que me ensinou que nossos pensamentos têm poder, e que a gente precisa pensar positivo e acreditar que podemos fazer qualquer coisa, mesmo que não agora. Ela, assim como eu, acredita que a gente é capaz de construir um meio termo entre o querer e o poder, e que ninguém é obrigado a nascer e morrer no mesmo lugar – a diferença básica entre nós duas é que, enquanto eu sou uma pisciana sonhadora, sem nenhum senso prático; ela é uma canceriana com os dois pés fincados no chão, que sabe reconhecer seus limites e a hora certa de dizer “não”. Mas nós acreditamos, algo tão fundamental para nós quanto respirar e ter o coração no lugar.

Curiosamente, foi nisso também que eu pensei enquanto assistia Punho de Ferro e, mais tarde, enquanto escrevia sobre a primeira temporada da série para o Valkirias. Como qualquer outra série de super-herói, os pilares de Punho de Ferro se estabelecem naquele mesmo contexto do qual já estamos saturados (vamos lá: homem branco dado como morto volta do além em busca de vingança, etc etc), mas ela apresenta um protagonista com uma visão radicalmente diferente de mundo, mais esperançosa e menos sofrida, o que acho absolutamente sensacional. É verdade que Danny Rand não é a melhor pessoa do mundo – como nenhum de nós o é -, mas ele possui uma certa ingenuidade e uma credulidade quase infantis que nos fazem muita falta. Muito se falou sobre suas certezas partirem de uma certa arrogância, mas não acho que seja esse o caso: quando questionado sobre sua certeza de que vai vencer determinado desafio, que vai vencer determinado vilão, que vai conseguir provar sua identidade, ele diz que acredita em tudo isso porque se não acreditar, então isso jamais vai acontecer. Antes que os outros acreditem em nós, é preciso que a gente se dê esse crédito, do contrário, é muito mais fácil ficar com o computador no colo assistindo alguma coisa do que sair em busca do que quer que seja.

Quando eu me proponho a fazer alguma coisa, eu estou dizendo pra mim mesma que eu consigo, mesmo que seja difícil demais, mesmo que eu não tenha tanto tempo assim, mesmo que as chances de dar tudo errado sejam imensas. Pode ser que dê, pode ser que não, mas eu jamais vou saber se não tentar e, principalmente, acreditar que pode dar certo. As coisas mais sensacionais que já fiz nessa vida foram consequências desse acreditar meio inconsequente, situações que eu tinha medo, absoluto medo, mas que eu precisava acreditar que podiam dar certo. Qualquer pessoa teria me dito pra não fazer, mas eu fui lá e fiz assim mesmo: porque sim, porque eu queria, porque foda-se, a vida é minha e eu ainda faço o que quiser – e foi exatamente assim que, no mês passado, eu me topando entrar em mais uma cilada, que dessa vez consiste em postar todos os dias de abril, ou quase isso.

A última vez que eu inventei de postar todos os dias durante um mês inteiro foi em dezembro, uma empreitada que, superando todas as expectativas, deu muito, muito certo. Não cheguei aos tão sonhados 31 posts, mas cheguei bem perto da marca e foi incrível poder redescobrir esse prazer em escrever qualquer bobagem, em manter um blog pessoal quando ninguém mais parece se importar com isso. Antes disso, ensaiei participar de um BEDA que terminou antes mesmo de começar, já na primeira semana, e de outro, no ano anterior, que deu bastante certo. Foram experiências completamente distintas, algumas deram certo, algumas nem tanto, mas todas foram especiais ao seu próprio modo e me ensinaram uma ou duas coisas sobre acreditar que eu posso fazer alguma coisa – mesmo que seja atualizar o blog (quase) todos os dias do mês. O blog não é uma obrigação na minha vida – e eu nunca quis que fosse -, mas eu gosto de me desafiar de vez em quando, eu gosto de poder tentar fazer alguma coisa que parece impossível até que não é mais, especialmente quando não se está sozinha nesse barco, então tudo bem. Tentar não custa nada.

Obviamente, postar todos os dias – ou quase todos os dias, que é o que eu e minhas parceiras de cilada nos propomos a fazer – durante um mês muda radicalmente todo o meu planejamento (sim, eu tenho planejamentos mensais): tem a faculdade, que mal começou e já está um absoluto terror; tem o site; tem o TCC de uma amiga que eu, sem juízo nenhum, me propus a ajudar – e tenho amado cada segundo da experiência; tem os textos que precisam ser escritos e claramente não vão fazer isso sozinhos; os 1379123 vídeos para serem editados; livros para serem lidos; séries para serem assistidas; projetos paralelos sobre os quais eu talvez comente em algum momento, mas não agora; roteiros para serem escritos; uma viagem no meio do caminho; e não é nem preciso falar sobre a minha vida pessoal inteira, que não precisa do menor incentivo para sumir do mapa de vez. Mas eu ainda quero fazer assim, ainda quero tentar, porque eu acredito que pode dar muito certo, e se não der, pelo menos eu vou ter me divertido um bocado. Ninguém me obrigou, eu só sou maluca assim mesmo.

Não prometo que vamos ter posts novos todos os dias porque tenho trabalhado melhor com a ideia de respeitar o meu tempo e meus limites, mesmo no meio dessa loucura. Mas eu ainda vou tentar dar o meu melhor, que é o que eu faço sempre, mesmo que alguns cabelos fiquem no meio do caminho – pelo menos, eles crescem depois. Não valeria à pena se eu não imaginasse que pudesse dar certo, mas acho que as chances disso acontecer são imensas também, e se não der, pelo menos vai ter sido divertido – e torço pra que vocês se divirtam junto comigo também.

(Eu tenho a força, sou invencível… Não, pera.)

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

THE FOOLS WHO DREAM

Here’s to the ones who dream
Foolish as they may seem
Here’s to the hearts that ache
Here’s to the mess we make

Lembro como se fosse ontem da primeira vez que pensei em estudar cinema: o ano era 2008, eu tinha quinze anos e estava no primeiro ano do ensino médio, e enquanto considerava uma carreira na moda, li o livro que mudou completamente a minha vida.

O livro, no caso, era Los Angeles, da Marian Keyes – uma história adorável e absurdamente engraçada sobre uma mulher que, após ser a filha certinha, a esposa certinha, a funcionária certinha, etc etc, descobre que sua vida inteira era uma mentira e vai morar com a melhor amiga em Los Angeles; uma melhor amiga que é roteirista e que trabalha duro para deixar sua marca no cinema norte-americano. O livro não idealiza Hollywood em momento algum – na verdade, muito pelo contrário -, mas foi ali, enquanto desvendava os absurdos da terra das estrelas que eu me interessei pela carreira de roteirista e achei que aquilo pudesse ser um caminho profissional viável, ainda que difícil pra caramba. Eu gostava de contar histórias, é algo que gosto de fazer até hoje, e a perspectiva de poder fazer disso uma profissão era tudo que eu precisava para sonhar e acreditar que aquilo era realmente possível.

Demorou até que eu finalmente entrasse na faculdade de cinema, mas o fato é que, uma vez lá, eu nunca acreditei que aquilo pudesse ser tão possível. Eu estava no caminho certo, eu estava onde eu queria estar desde sempre, e estava começando a correr atrás de verdade daquilo que era meu sonho – e continua sendo. O que antes parecia um desejo distante de adolescente, agora começava a ganhar forma, e eu realmente conseguia acreditar num futuro em que eu não só escreveria filmes, mas também os transformaria em algo real, minhas histórias concretizadas numa enorme tela de projeção. Eu acreditava na mágica do cinema, eu acreditava que sonhos podiam se tornar realidade, eu acreditava que a gente era capaz de fazer o que quisesse e chegar onde quisesse com dedicação e força de vontade. Chegava até a ser meio ridículo, mas era isso que me fazia continuar seguindo em frente, e acho que isso também fazia com que muitas outras pessoas continuassem seguindo em frente também. Era perceptível, numa turma de calouros, que todos ali tinham sonhos grandes, imensos, tão ridículos quanto assustadores. Eram pessoas que, assim como eu, também acreditavam que podiam chegar lá – não porque se achavam especiais demais (às vezes, um pouco disso também), mas porque confiavam no próprio potencial, no amor idealizado que sentiam por essa indústria imensa e na possibilidade de transformar sonhos em realidade.

O que não deixa de ser uma visão meio problemática, é claro. Mas sendo eu mesma uma pessoa que sempre acreditou na força dos sonhos e do amor, e que quase sempre foi movida por essas duas coisas, era importante sentir que existiam outras pessoas no mundo que não iam achar minhas aspirações ridículas, que não iam me julgar por colocar os dois pés pra fora da realidade e que de alguma forma acreditavam no meu potencial. Por mais que nenhuma dessas coisas garantam o sucesso de ninguém, acreditar é fundamental pra que você ao menos se permita tentar – o que talvez seja a principal diferença entre quem realmente tenta e quem simplesmente espera que as coisas caiam do céu.

A faculdade, por outro lado, quebra um pouco desse encantamento. Porque uma vez ali dentro, você descobre que por trás de toda a mágica existem truques que são repetidos à exaustão; entende como eles acontecem, aprende a técnica por trás de cada um deles, constrói e desconstrói essas técnicas para aprender a reproduzi-las e só então construir os seus próprios truques. Por fora, tudo é lindo, colorido, quase sempre impecável; mas essa é uma realidade muito distante daquilo que realmente acontece para fazer com que algo lindo, colorido e impecável surja na tela pra quem quiser ver. De repente, você se vê deixando de acreditar em mágica porque filmes custam muito dinheiro, dão um trabalho imenso que nem sempre compensa, envolvem um milhão de pessoas que no final do dia precisam pagar as contas – e sonhos não pagam as contas de ninguém. Portas são batidas na sua cara, pessoas desacreditam o seu trabalho e você percebe que aquela indústria pautada pelos sonhos de alguém é, na realidade, um universo controverso, quase sempre injusto e cruel, e incrivelmente restrito, que só está interessada em sonhos com potencial de render alguns milhões. É muito fácil se tornar cético quando a realidade bate na porta e você passa a enxergar todas essas coisas, e percebe que sonhos não são suficientes, que a vida real é muito diferente daquilo que a gente vê na tela; e muito difícil acreditar em mágica quando você não tem dinheiro pra pagar as próprias contas, quando vive num lugar decadente, quando tem crises de ansiedade constantes porque não faz a menor ideia do que vai fazer com um diploma em cinema.

Sempre que falo que estudo cinema, as pessoas assumem duas posturas: ou a de achar que eu vou morrer de fome ou que eu tenho uma vida fácil e ultra glamourosa. São duas visões radicalmente opostas, mas que não se distanciam tanto assim da realidade porque a indústria cinematográfica que a gente conhece é, quase sempre, um festival de oitos e oitentas. Não existe um meio termo. Na faculdade, você descobre que esse meio termo até existe, mas que é preciso aprender a se dividir entre sonhos e aquilo que paga as contas – e não é difícil imaginar pra qual lado a balança pende quando a coisa aperta. A maior parte dos meus professores são também cineastas que se dividem entre a carreira acadêmica e a arte que eles acreditam. São pessoas que, com sorte, produzem um filme por ano, mas a maioria desses filmes ficam fora do circuito comercial e raramente rendem dinheiro suficiente para que eles possam se dedicar somente a isso. Ao mesmo tempo, alguns são pessoas completamente desiludidas com a indústria, que tiveram seus sonhos massacrados por ela e que perderam completamente a esperança. Neles, você percebe o olhar de quem já perdeu demais, alguém que um dia foi muito igual à você, mas que não teve tanta sorte, e teme pelo o futuro que lhe aguarda.

Então não é uma surpresa que, semestre após semestre, tanta gente mude de opinião: alguém que antes sonhava em trabalhar com direção de arte agora se contenta em seguir carreira na publicidade, o outro que sempre quis ser diretor decidiu que vai seguir carreira acadêmica ou se tornar crítico de cinema (ou as duas coisas), etc etc. Não é falta de força de vontade: é a percepção de que a vida real é muito diferente daquilo que sonhamos enquanto vivíamos nossas adolescências privilegiadas, é a perda de uma arrogância que precisa ir embora para que a gente aprenda a lidar com a vida como ela é de verdade – perdas, frustrações, raiva, tudo isso incluso no pacote -, não como a gente quer que seja. É um processo doloroso, é claro, mas absolutamente necessário também, e não é por acaso que ao final dele, a maior parte das pessoas desista dessa ideia maluca de ser um Grande Diretor de Cinema™ ou qualquer coisa que o valha. É um baque imenso, uma consciência da realidade que desestrutura completamente e que questiona sem nenhuma cerimônia todas as certezas, sonhos e promessas que tivemos ou fizemos até ali. E é difícil acreditar quando essa realidade bate na porta, quando contas precisam ser pagas, quando dinheiro é o que mais precisa e mesmo assim nenhum oportunidade aparece, nenhuma ideia é comprada, um roteiro é rejeitado atrás do outro.

Em cinco semestres de faculdade, eu desisti de alguns sonhos, guardei outros para momentos mais oportunos, e priorizei aquilo que parecia mais viável dentro da minha própria realidade. Descobri que, embora eu quisesse muito trabalhar com ficção, a escrita poderia ser uma saída justa e agradável quando meus sonhos grandiosos começaram a se tornar a lembrança de um passado ambicioso que já não dizia mais tanto assim sobre mim. Mesmo assim, é muito fácil que vez ou outra eu ainda me pegue pensando que a vida seria muito mais fácil se eu tivesse um emprego chato e estável, que fosse capaz de pagar todas as minhas contas e suprir meus pequenos desejos, sem que tivesse que viver nessa loucura. Mas eu também me permito entristecer pelos sonhos enterrados, pelos que ficaram no meio do caminho, pelos que foram enfiados no fundo da mochila até o dia que puderem ver a luz do dia de novo, ou então por aquela versão de mim mesma que acreditava que o impossível não existia.

Quando assisti La La Land, eu pensei em tudo isso.

La La Land conta a história de Mia e Sebastian, dois jovens que vão tentar a sorte em Los Angeles com o sonho de se tornarem grandes estrelas – ela, como uma renomada atriz de cinema; ele, como um importante músico. São pessoas sonhadoras, ambiciosas, movidas pelas suas paixões e que acreditam que o impossível não existe, sem medo de parecerem ingênuos demais; tudo isso enquanto dançam e cantam pela cidade dos anjos. A história dos dois é contada em um filme igualmente ambicioso, sonhador, que não tem medo de parecer ingênuo: um musical caro, difícil, grande, arriscado e extremamente ousado que, não por acaso, levou seis anos para ser concretizado. É um filme colorido, lindo, [quase] impecável, completamente deslocado da realidade; é a mágica do cinema acontecendo em tempo integral. É difícil não gostar do filme, não querer dançar junto com os atores, não querer fazer parte daqueles números tão adoráveis. Mas mais difícil ainda é não se identificar com Mia e Sebastian, e não pensar que a história dos dois é, em alguma medida, a história de todos nós – especialmente se esse “nós” é composto por pessoas que também querem fazer fama, dinheiro e sucesso nessa indústria maluca e completamente obcecada por si mesma.

É por isso que, quando assisti ao filme na última sexta-feira, embaixo das cobertas enquanto comia um pedaço de pizza gelada, muito longe da realidade que sonhei pra mim aos vinte e poucos anos, eu senti como se todos os meus sonhos tivessem sido desenterrados e, pouco a pouco, fossem jogados na minha cara – não de um jeito ruim, num tom de acusação, mas de uma forma especial que só quem também sonha alto, com força e que às vezes tem medo dos próprios sonhos é capaz de entender. Mia e Sebastian não recebem nada de mão beijada: eles são desvalorizados, aceitam trabalhos ridículos, mal conseguem pagar as próprias contas (quando conseguem) e recebem uma porção de “nãos” até o dia que recebem um “sim” – e aí, é incrível como a história dos dois muda radicalmente. Mas eles nunca (ou quase nunca) deixam de acreditar naquilo que sonham, que algum dia eles podem transformar tudo aquilo em realidade. O fato dos dois conseguirem, apesar de tudo, só nos lembra que sonhos são sim possíveis, mesmo que sejam muito difíceis de serem alcançados – a grande diferença está em quem acredita neles o suficiente para correr atrás e quem simplesmente espera que eles caiam do céu. O próprio Chazelle, diretor do filme, era um nome completamente desconhecido até o dia que não era mais; e ontem, durante o Oscar, enquanto segurava o prêmio nas mãos e entrava para a história como diretor mais jovem a ganhar um prêmio naquela categoria, era justamente nisso que eu pensava. Assim como Mia e Sebastian e tantas outras pessoas da indústria, ele também acreditou que era possível transformar sonhos em realidade – e foi lá e fez.

Tem esse discurso do Bryan Cranston (que se não me engano ele fez quando recebeu o Emmy, mas posso estar radicalmente equivocada) em que ele diz que aceitou uma porção de trabalhos ruins, que se sujeitou a uma porção de situações ridículas até o dia que conseguiu um trabalho legal de verdade que o levasse até onde ele queria estar. Ele não diz isso com essas palavras, mas é essa a mensagem principal do seu discurso, e eu sempre tento pensar nisso quando as coisas ficam difíceis demais – e agora, junto com ele, eu também vou lembrar de La La Land, de Mia e Sebastian, e de todos os sonhos que não devem morrer jamais.

La La Land não é o melhor filme do mundo, não é o mais importante. Mas isso não anula o fato de que ele é um ótimo filme, que é lindo, especial, e com uma mensagem linda que nunca foi tão necessária. São tempos difíceis para os sonhadores e às vezes, a gente realmente só precisa de filmes que nos lembrem que a mágica é real – desde que nunca deixemos de sonhar.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

ALGUNS DIAS SÃO MELHORES QUE OUTROS

Hoje foi meu primeiro dia tomando um remédio novo. Depois das noites agitadas, a falta de apetite seguida de enjoos, e todas as crises de choro fora de hora que fizeram parte do período de adaptação ao primeiro, meu psiquiatra resolveu trocar o remédio por uma versão em gotas – infinitamente mais prática para quem vai começar a reduzir a dosagem do que ficar partindo comprimidos minúsculos em um milhão de pedacinhos. Em tese, é o mesmo remédio: nome e embalagens diferentes, mas igual em todo o resto (mesmo composto, mesma dose, etc etc); na prática, foi quase como estar de volta àqueles dias de noites agitadas, falta de apetite e crises de choro que poderiam explodir em qualquer momento, bastava alguém apertar o botão certo. Mas nada disso tem realmente a ver com o remédio – pelo menos não nesse caso, acredito. Achei justo registrar esse detalhe, no entanto, porque logo que acordei e pela eternidade que durou a minha manhã, fez todo o sentido do mundo culpar o remédio novo, que além de pouco prático, ainda tinha gosto ruim; e o médico que achou uma boa ideia me receitar aquele troço ao invés de me deixar ser feliz picando comprimidos em casa.

Mas o fato é que eu estava diante de um dia ruim, que já era ruim antes mesmo de eu colocar o remédio na boca e tentar espantar o gosto horrível com um café requentado e um cuscuz meio sem gosto. E não havia muito o que entender sobre isso, embora eu tenha passado boa parte do meu dia deitada na cama (quando deveria estar fazendo um milhão de coisas) tentando entender que necessidade maluca era aquela de ficar andando em círculos no meu quarto, ao ponto de precisar deitar para parar de uma vez, e o que, afinal de contas, me fazia ficar tão agitada e inteiramente incapaz de usar meu tempo livre para algo útil ou me concentrar numa atividade qualquer. Enviei uma mensagem pra Guilherme, meio desesperada, mas sem conseguir dizer exatamente o que estava acontecendo. Ele me mandou pular ou fazer polichinelos pra dispersar um pouco da tensão. Não fiz nenhuma das duas coisas, embora devesse ter feito. Alguns diriam que é falta de força de vontade. Eu diria que é só minha cabeça tornando minha vida um pouquinho mais difícil. Cada um acredita no que quiser.

Não sei explicar porque a minha cabeça funciona assim. Quer dizer, cientificamente existe uma justificativa, mas é uma forma que me parece distante demais e que nem sempre é suficiente pra que as pessoas tenham a real dimensão do que de fato está acontecendo ao ponto de me fazer querer passar um dia – uma semana, um mês – inteiro trancada no quarto, completamente incapaz de levantar da cama e fazer qualquer coisa. É algo que nem eu consigo entender, porque parece impossível e improvável, e eu ainda tenho certa resistência em aceitar que algo tão abstrato possa ter consequências tão concretas e exercer uma influência tão forte no que faço ou deixo de fazer – principalmente no que deixo de fazer. Por mais que eu continue buscando respostas melhores para explicar pra quem quer que seja que diabos estou sentindo e porque eu estou agindo desse jeito tão estranho de novo, nunca consigo encontrar uma justificativa que seja suficiente, só um vazio enorme e meio assustador, que me consome inteiramente. Muita gente acredita que o fato de tomar remédios me faz ter dias sempre bons, independente das coisas ruins que acontecem, mas isso é uma mentira deslavada. Se a vida de ninguém é feita só de alegrias, por que a minha deveria ser?

Em dias como hoje eu só queria comer uma yakissoba quentinho e dar uma choradinha entre um episódio e outro de uma série qualquer. Não é preciso que meu mundo esteja desabando pra que eu queira ter esses momentos, nem que alguma coisa realmente ruim tenha acontecido pra eu me permitir cancelar tudo: só a cruel, mas libertadora noção de que alguns dias são melhores que outros, e que às vezes é muito melhor admitir a derrota e seguir com o baile, do que continuar tentando fazer alguma coisa e se frustrar ainda mais por não conseguir fazer nada. É preciso parar e se permitir não fazer nada, olhar pro teto, se esconder embaixo do edredom, dar uma choradinha e comer uma comida quentinha que parece um abraço por dentro, e esquecer dos prazos, esquecer da vida, esquecer de todos os textos a serem escritos, livros a serem lidos e filmes a serem assistidos. Aceitar a tristeza não como algo definitivo, mas como uma parte intrínseca da nossa existência, e aprender a conviver com ela da forma mais natural possível.

Em Alucinadamente Feliz, a Jenny Lawson diz que existem muitas coisas erradas na cabeça dela, mas que existem muitas certas também, e a partir daí começa a listar coisas boas que não existiriam sem as ruins: a alegria sem a tristeza, a luz sem a escuridão, a dor sem o alívio, a sorte de viver momentos tão maravilhosos quando não se conhecem os ruins. E eu concordo com cada parte disso. Dias ruins continuarão existindo, independente do que eu faça ou deixe de fazer, independente dos meus problemas, dos meus fantasmas, da minha realidade – eles existem pra todo mundo, em maior ou menor intensidade; e ninguém pode vencer o tempo inteiro. Então talvez, muito mais honesto do que tentar fugir ou lutar contra eles, seja encará-los de frente, tomar uma xícara de café e dormir de conchinha até o dia que eles finalmente decidam ir embora. Enquanto isso não acontece, no entanto, são as lembranças de todos os momentos felizes que eu já vivi e a promessa de todos que eu ainda viverei, que me fazem continuar seguindo em frente quando a depressão distorce a realidade e tenta me convencer do contrário. Alguns dias são melhores que outros, mas pelo menos ainda podemos contar com a certeza de que em algum momento, esses outros também irão embora – ainda bem.