Browsing Category

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

THE FOOLS WHO DREAM

Here’s to the ones who dream
Foolish as they may seem
Here’s to the hearts that ache
Here’s to the mess we make

Eu lembro como se fosse ontem da primeira vez que pensei em estudar cinema: o ano era 2008, eu tinha quinze anos e estava no primeiro ano do ensino médio, e enquanto considerava uma carreira na moda, li o livro que mudou completamente a minha vida.

O livro, no caso, era Los Angeles, da Marian Keyes – uma história adorável e absurdamente engraçada sobre uma mulher que, após ser a filha certinha, a esposa certinha, a funcionária certinha, etc etc, descobre que sua vida inteira era uma mentira e vai morar com a melhor amiga em Los Angeles; uma melhor amiga que é roteirista e que trabalha duro para deixar sua marca no cinema norte-americano. O livro não idealiza Hollywood em momento algum – na verdade, muito pelo contrário -, mas foi ali, enquanto desvendava os absurdos da terra das estrelas que eu me interessei pela carreira de roteirista e achei que aquilo pudesse ser um caminho profissional viável, ainda que difícil pra caramba. Eu gostava de contar histórias, é algo que gosto de fazer até hoje, e a perspectiva de poder fazer disso uma profissão era tudo que eu precisava para sonhar e acreditar que aquilo era realmente possível.

Demorou até que eu finalmente entrasse na faculdade de cinema, mas o fato é que, uma vez lá, eu nunca acreditei que aquilo pudesse ser tão possível. Eu estava no caminho certo, eu estava onde eu queria estar desde sempre, e estava começando a correr atrás de verdade daquilo que era meu sonho – e continua sendo. O que antes parecia um desejo distante de adolescente, agora começava a ganhar forma, e eu realmente conseguia acreditar num futuro em que eu não só escreveria filmes, mas também os transformaria em algo real, minhas histórias concretizadas numa enorme tela de projeção. Eu acreditava na mágica do cinema, eu acreditava que sonhos podiam se tornar realidade, eu acreditava que a gente era capaz de fazer o que quisesse e chegar onde quisesse com dedicação e força de vontade. Chegava até a ser meio ridículo, mas era isso que me fazia continuar seguindo em frente, e acho que isso também fazia com que muitas outras pessoas continuassem seguindo em frente também. Era perceptível, numa turma de calouros, que todos ali tinham sonhos grandes, imensos, tão ridículos quanto assustadores. Eram pessoas que, assim como eu, também acreditavam que podiam chegar lá – não porque se achavam especiais demais (às vezes, um pouco disso também), mas porque confiavam no próprio potencial, no amor idealizado que sentiam por essa indústria imensa e na possibilidade de transformar sonhos em realidade.

O que não deixa de ser uma visão meio problemática, é claro. Mas sendo eu mesma uma pessoa que sempre acreditou na força dos sonhos e do amor, e que quase sempre foi movida por essas duas coisas, era importante sentir que existiam outras pessoas no mundo que não iam achar minhas aspirações ridículas, que não iam me julgar por colocar os dois pés pra fora da realidade e que de alguma forma acreditavam no meu potencial. Por mais que nenhuma dessas coisas garantam o sucesso de ninguém, acreditar é fundamental pra que você ao menos se permita tentar – o que talvez seja a principal diferença entre quem realmente tenta e quem simplesmente espera que as coisas caiam do céu.

A faculdade, por outro lado, quebra um pouco desse encantamento. Porque uma vez ali dentro, você descobre que por trás de toda a mágica existem truques que são repetidos à exaustão; entende como eles acontecem, aprende a técnica por trás de cada um deles, constrói e desconstrói essas técnicas para aprender a reproduzi-las e só então construir os seus próprios truques. Por fora, tudo é lindo, colorido, quase sempre impecável; mas essa é uma realidade muito distante daquilo que realmente acontece para fazer com que algo lindo, colorido e impecável surja na tela pra quem quiser ver. De repente, você se vê deixando de acreditar em mágica porque filmes custam muito dinheiro, dão um trabalho imenso que nem sempre compensa, envolvem um milhão de pessoas que no final do dia precisam pagar as contas – e sonhos não pagam as contas de ninguém. Portas são batidas na sua cara, pessoas desacreditam o seu trabalho e você percebe que aquela indústria pautada pelos sonhos de alguém é, na realidade, um universo controverso, quase sempre injusto e cruel, e incrivelmente restrito, que só está interessada em sonhos com potencial de render alguns milhões. É muito fácil se tornar cético quando a realidade bate na porta e você passa a enxergar todas essas coisas, e percebe que sonhos não são suficientes, que a vida real é muito diferente daquilo que a gente vê na tela; e muito difícil acreditar em mágica quando você não tem dinheiro pra pagar as próprias contas, quando vive num lugar decadente, quando tem crises de ansiedade constantes porque não faz a menor ideia do que vai fazer com um diploma em cinema.

Sempre que falo que estudo cinema, as pessoas assumem duas posturas: ou a de achar que eu vou morrer de fome ou que eu tenho uma vida fácil e ultra glamourosa. São duas visões radicalmente opostas, mas que não se distanciam tanto assim da realidade porque a indústria cinematográfica que a gente conhece é, quase sempre, um festival de oitos e oitentas. Não existe um meio termo. Na faculdade, você descobre que esse meio termo até existe, mas que é preciso aprender a se dividir entre sonhos e aquilo que paga as contas – e não é difícil imaginar pra qual lado a balança pende quando a coisa aperta. A maior parte dos meus professores são também cineastas que se dividem entre a carreira acadêmica e a arte que eles acreditam. São pessoas que, com sorte, produzem um filme por ano, mas a maioria desses filmes ficam fora do circuito comercial e raramente rendem dinheiro suficiente para que eles possam se dedicar somente a isso. Ao mesmo tempo, alguns são pessoas completamente desiludidas com a indústria, que tiveram seus sonhos massacrados por ela e que perderam completamente a esperança. Neles, você percebe o olhar de quem já perdeu demais, alguém que um dia foi muito igual à você, mas que não teve tanta sorte, e teme pelo o futuro que lhe aguarda.

Então não é uma surpresa que, semestre após semestre, tanta gente mude de opinião: alguém que antes sonhava em trabalhar com direção de arte agora se contenta em seguir carreira na publicidade, o outro que sempre quis ser diretor decidiu que vai seguir carreira acadêmica ou se tornar crítico de cinema (ou as duas coisas), etc etc. Não é falta de força de vontade: é a percepção de que a vida real é muito diferente daquilo que sonhamos enquanto vivíamos nossas adolescências privilegiadas, é a perda de uma arrogância que precisa ir embora para que a gente aprenda a lidar com a vida como ela é de verdade – perdas, frustrações, raiva, tudo isso incluso no pacote -, não como a gente quer que seja. É um processo doloroso, é claro, mas absolutamente necessário também, e não é por acaso que ao final dele, a maior parte das pessoas desista dessa ideia maluca de ser um Grande Diretor de Cinema™ ou qualquer coisa que o valha. É um baque imenso, uma consciência da realidade que desestrutura completamente e que questiona sem nenhuma cerimônia todas as certezas, sonhos e promessas que tivemos ou fizemos até ali. E é difícil acreditar quando essa realidade bate na porta, quando contas precisam ser pagas, quando dinheiro é o que mais precisa e mesmo assim nenhum oportunidade aparece, nenhuma ideia é comprada, um roteiro é rejeitado atrás do outro.

Em cinco semestres de faculdade, eu desisti de alguns sonhos, guardei outros para momentos mais oportunos, e priorizei aquilo que parecia mais viável dentro da minha própria realidade. Descobri que, embora eu quisesse muito trabalhar com ficção, a escrita poderia ser uma saída justa e agradável quando meus sonhos grandiosos começaram a se tornar a lembrança de um passado ambicioso que já não dizia mais tanto assim sobre mim. Mesmo assim, é muito fácil que vez ou outra eu ainda me pegue pensando que a vida seria muito mais fácil se eu tivesse um emprego chato e estável, que fosse capaz de pagar todas as minhas contas e suprir meus pequenos desejos, sem que tivesse que viver nessa loucura. Mas eu também me permito entristecer pelos sonhos enterrados, pelos que ficaram no meio do caminho, pelos que foram enfiados no fundo da mochila até o dia que puderem ver a luz do dia de novo, ou então por aquela versão de mim mesma que acreditava que o impossível não existia.

Quando assisti La La Land, eu pensei em tudo isso.

La La Land conta a história de Mia e Sebastian, dois jovens que vão tentar a sorte em Los Angeles com o sonho de se tornarem grandes estrelas – ela, como uma renomada atriz de cinema; ele, como um importante músico. São pessoas sonhadoras, ambiciosas, movidas pelas suas paixões e que acreditam que o impossível não existe, sem medo de parecerem ingênuos demais; tudo isso enquanto dançam e cantam pela cidade dos anjos. A história dos dois é contada em um filme igualmente ambicioso, sonhador, que não tem medo de parecer ingênuo: um musical caro, difícil, grande, arriscado e extremamente ousado que, não por acaso, levou seis anos para ser concretizado. É um filme colorido, lindo, [quase] impecável, completamente deslocado da realidade; é a mágica do cinema acontecendo em tempo integral. É difícil não gostar do filme, não querer dançar junto com os atores, não querer fazer parte daqueles números tão adoráveis. Mas mais difícil ainda é não se identificar com Mia e Sebastian, e não pensar que a história dos dois é, em alguma medida, a história de todos nós – especialmente se esse “nós” é composto por pessoas que também querem fazer fama, dinheiro e sucesso nessa indústria maluca e completamente obcecada por si mesma.

É por isso que, quando assisti ao filme na última sexta-feira, embaixo das cobertas enquanto comia um pedaço de pizza gelada, muito longe da realidade que sonhei pra mim aos vinte e poucos anos, eu senti como se todos os meus sonhos tivessem sido desenterrados e, pouco a pouco, fossem jogados na minha cara – não de um jeito ruim, num tom de acusação, mas de uma forma especial que só quem também sonha alto, com força e que às vezes tem medo dos próprios sonhos é capaz de entender. Mia e Sebastian não recebem nada de mão beijada: eles são desvalorizados, aceitam trabalhos ridículos, mal conseguem pagar as próprias contas (quando conseguem) e recebem uma porção de “nãos” até o dia que recebem um “sim” – e aí, é incrível como a história dos dois muda radicalmente. Mas eles nunca (ou quase nunca) deixam de acreditar naquilo que sonham, que algum dia eles podem transformar tudo aquilo em realidade. O fato dos dois conseguirem, apesar de tudo, só nos lembra que sonhos são sim possíveis, mesmo que sejam muito difíceis de serem alcançados – a grande diferença está em quem acredita neles o suficiente para correr atrás e quem simplesmente espera que eles caiam do céu. O próprio Chazelle, diretor do filme, era um nome completamente desconhecido até o dia que não era mais; e ontem, durante o Oscar, enquanto segurava o prêmio nas mãos e entrava para a história como diretor mais jovem a ganhar um prêmio naquela categoria, era justamente nisso que eu pensava. Assim como Mia e Sebastian e tantas outras pessoas da indústria, ele também acreditou que era possível transformar sonhos em realidade – e foi lá e fez.

Tem esse discurso do Bryan Cranston (que se não me engano ele fez quando recebeu o Emmy, mas posso estar radicalmente equivocada) em que ele diz que aceitou uma porção de trabalhos ruins, que se sujeitou a uma porção de situações ridículas até o dia que conseguiu um trabalho legal de verdade que o levasse até onde ele queria estar. Ele não diz isso com essas palavras, mas é essa a mensagem principal do seu discurso, e eu sempre tento pensar nisso quando as coisas ficam difíceis demais – e agora, junto com ele, eu também vou lembrar de La La Land, de Mia e Sebastian, e de todos os sonhos que não devem morrer jamais.

La La Land não é o melhor filme do mundo, não é o mais importante. Mas isso não anula o fato de que ele é um ótimo filme, que é lindo, especial, e com uma mensagem linda que nunca foi tão necessária. São tempos difíceis para os sonhadores e às vezes, a gente realmente só precisa de filmes que nos lembrem que a mágica é real – desde que nunca deixemos de sonhar.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

ALGUNS DIAS SÃO MELHORES QUE OUTROS

Hoje foi meu primeiro dia tomando um remédio novo. Depois das noites agitadas, a falta de apetite seguida de enjoos, e todas as crises de choro fora de hora que fizeram parte do período de adaptação ao primeiro, meu psiquiatra resolveu trocar o remédio por uma versão em gotas – infinitamente mais prática para quem vai começar a reduzir a dosagem do que ficar partindo comprimidos minúsculos em um milhão de pedacinhos. Em tese, é o mesmo remédio: nome e embalagens diferentes, mas igual em todo o resto (mesmo composto, mesma dose, etc etc); na prática, foi quase como estar de volta àqueles dias de noites agitadas, falta de apetite e crises de choro que poderiam explodir em qualquer momento, bastava alguém apertar o botão certo. Mas nada disso tem realmente a ver com o remédio – pelo menos não nesse caso, acredito. Achei justo registrar esse detalhe, no entanto, porque logo que acordei e pela eternidade que durou a minha manhã, fez todo o sentido do mundo culpar o remédio novo, que além de pouco prático, ainda tinha gosto ruim; e o médico que achou uma boa ideia me receitar aquele troço ao invés de me deixar ser feliz picando comprimidos em casa.

Mas o fato é que eu estava diante de um dia ruim, que já era ruim antes mesmo de eu colocar o remédio na boca e tentar espantar o gosto horrível com um café requentado e um cuscuz meio sem gosto. E não havia muito o que entender sobre isso, embora eu tenha passado boa parte do meu dia deitada na cama (quando deveria estar fazendo um milhão de coisas) tentando entender que necessidade maluca era aquela de ficar andando em círculos no meu quarto, ao ponto de precisar deitar para parar de uma vez, e o que, afinal de contas, me fazia ficar tão agitada e inteiramente incapaz de usar meu tempo livre para algo útil ou me concentrar numa atividade qualquer. Enviei uma mensagem pra Guilherme, meio desesperada, mas sem conseguir dizer exatamente o que estava acontecendo. Ele me mandou pular ou fazer polichinelos pra dispersar um pouco da tensão. Não fiz nenhuma das duas coisas, embora devesse ter feito. Alguns diriam que é falta de força de vontade. Eu diria que é só minha cabeça tornando minha vida um pouquinho mais difícil. Cada um acredita no que quiser.

Não sei explicar porque a minha cabeça funciona assim. Quer dizer, cientificamente existe uma justificativa, mas é uma forma que me parece distante demais e que nem sempre é suficiente pra que as pessoas tenham a real dimensão do que de fato está acontecendo ao ponto de me fazer querer passar um dia – uma semana, um mês – inteiro trancada no quarto, completamente incapaz de levantar da cama e fazer qualquer coisa. É algo que nem eu consigo entender, porque parece impossível e improvável, e eu ainda tenho certa resistência em aceitar que algo tão abstrato possa ter consequências tão concretas e exercer uma influência tão forte no que faço ou deixo de fazer – principalmente no que deixo de fazer. Por mais que eu continue buscando respostas melhores para explicar pra quem quer que seja que diabos estou sentindo e porque eu estou agindo desse jeito tão estranho de novo, nunca consigo encontrar uma justificativa que seja suficiente, só um vazio enorme e meio assustador, que me consome inteiramente. Muita gente acredita que o fato de tomar remédios me faz ter dias sempre bons, independente das coisas ruins que acontecem, mas isso é uma mentira deslavada. Se a vida de ninguém é feita só de alegrias, por que a minha deveria ser?

Em dias como hoje eu só queria comer uma yakissoba quentinho e dar uma choradinha entre um episódio e outro de uma série qualquer. Não é preciso que meu mundo esteja desabando pra que eu queira ter esses momentos, nem que alguma coisa realmente ruim tenha acontecido pra eu me permitir cancelar tudo: só a cruel, mas libertadora noção de que alguns dias são melhores que outros, e que às vezes é muito melhor admitir a derrota e seguir com o baile, do que continuar tentando fazer alguma coisa e se frustrar ainda mais por não conseguir fazer nada. É preciso parar e se permitir não fazer nada, olhar pro teto, se esconder embaixo do edredom, dar uma choradinha e comer uma comida quentinha que parece um abraço por dentro, e esquecer dos prazos, esquecer da vida, esquecer de todos os textos a serem escritos, livros a serem lidos e filmes a serem assistidos. Aceitar a tristeza não como algo definitivo, mas como uma parte intrínseca da nossa existência, e aprender a conviver com ela da forma mais natural possível.

Em Alucinadamente Feliz, a Jenny Lawson diz que existem muitas coisas erradas na cabeça dela, mas que existem muitas certas também, e a partir daí começa a listar coisas boas que não existiriam sem as ruins: a alegria sem a tristeza, a luz sem a escuridão, a dor sem o alívio, a sorte de viver momentos tão maravilhosos quando não se conhecem os ruins. E eu concordo com cada parte disso. Dias ruins continuarão existindo, independente do que eu faça ou deixe de fazer, independente dos meus problemas, dos meus fantasmas, da minha realidade – eles existem pra todo mundo, em maior ou menor intensidade; e ninguém pode vencer o tempo inteiro. Então talvez, muito mais honesto do que tentar fugir ou lutar contra eles, seja encará-los de frente, tomar uma xícara de café e dormir de conchinha até o dia que eles finalmente decidam ir embora. Enquanto isso não acontece, no entanto, são as lembranças de todos os momentos felizes que eu já vivi e a promessa de todos que eu ainda viverei, que me fazem continuar seguindo em frente quando a depressão distorce a realidade e tenta me convencer do contrário. Alguns dias são melhores que outros, mas pelo menos ainda podemos contar com a certeza de que em algum momento, esses outros também irão embora – ainda bem.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

DO QUE EU FALO QUANDO FALO DE ANSIEDADE

Eu nunca me julguei uma pessoa ansiosa – até, claro, o dia que descobri que era exatamente isso que eu era. Não foi uma descoberta casual, mas um processo que começou muito antes de eu sequer saber o que significava ser ansiosa de verdade, muito menos me perceber como uma. Foi só depois que entrei para faculdade de comunicação e, posteriormente, me refugiei no audiovisual, que meus sintomas se intensificaram, e eu comecei a ler sobre o assunto e entender que minhas angústias, afinal de contas, tinham nome, e que eu não estava sozinha nesse barco. Mas era algo que já estava ali, desde a minha pré-adolescência, quando eu passava um tempo insano vivendo no futuro, me preocupando com o futuro, pensando no futuro em cada dia da minha pequena existência até ali.

A primeira vez que eu ouvi alguém falar sobre ansiedade foi mais ou menos nessa época, quando meu primo (que tem a mesma idade que eu) começou a apresentar sintomas do transtorno. Ele era agitado, não conseguia se concentrar em nada, ficava muito angustiado em determinadas situações, não tinha quase nenhum amigo e tinha sempre muita pressa, pressa demais. Eu assistia tudo aquilo me sentindo o completo oposto: é verdade que eu ainda passava um tempo precioso pensando no meu futuro, idealizando cada passo que eu daria depois que a escola acabasse (aos treze anos!), mas continuava sendo uma pessoa calma na maior parte do tempo, que se sentia confortável em algumas situações, desconfortável em algumas outras, mas que conseguia seguir com a vida numa boa, sem se preocupar muito com nada além do seu Futuro Promissor ™. Eu me enfiava em coisas novas sem ter meu estômago inteiro revirando, me sentia segura o suficiente para levantar a mão no meio de uma aula qualquer e perguntar alguma coisa ao professor sem gaguejar, e me apresentava na frente dos outros como se tivesse feito aquilo a vida inteira.

Minha vida começou a mudar um pouco no ensino médio, quando eu passei a ter absoluto pavor de levantar a mão ou ser questionada sobre algo no meio da aula (exceto por professores que eu já conhecia há mais tempo), a calcular todas as minhas palavras antes de abrir a boca pra falar qualquer coisa ou falar com qualquer pessoa, e ter que respirar fundo, bem fundo, antes de qualquer apresentação para não gaguejar demais. Eu passava um tempo gigantesco pensando no que os outros pensavam sobre mim, e embora eu gostasse de acreditar que nunca dei muita bola para a opinião externa – eu pintava as unhas de amarelo maracujá, ninguém mais pintava as unhas de amarelo maracujá -, a verdade é que eu só me arriscava naquilo que não era tão importante assim – tipo pintar as unhas de amarelo maracujá -, porque todo o resto era um monstro tão grande e assustador que eu achei mais fácil enfiá-lo dentro de um armário e deixar virar pó por lá mesmo. Eu tentava ao máximo agir dentro das regras para não estar no centro das atenções por sair da linha, eu evitava contato com pessoas novas, estranhas, porque nunca sabia o que conversar com elas; e sempre que precisava enfrentar alguma coisa que me assustava, passava horas pensando em todas os desdobramentos possíveis da situação, me preparando para cada um deles só para não ser pega de surpresa; fora todas as noites que eu passei em claro pensando naquela merda que eu falei dez anos atrás e POR QUE, MEU DEUS, POR QUE EU FUI ESCOLHER JUSTAMENTE AQUELAS PALAVRAS? POR QUE EU SOU TÃO IDIOTA? POR QUE EU TINHA QUE ABRIR A MINHA BOCA?

Lembro de um trabalho de química no segundo ano do ensino médio, que fui apresentar com Guilherme e um outro amigo nosso. Nós dividimos as partes de cada um e, como eu não era tão boa assim em química, decorei cada linha do que precisava falar, contando com todas as respostas para as possíveis perguntas que o professor poderia fazer. Só que alguma coisa aconteceu no meio do caminho (porque coisas sempre acontecem no meio do caminho) e de repente, não mais que de repente, depois de já ter explicado minha parte inteirinha, meu amigo solta: “agora a Ana vai explicar isso aqui”. Só que eu não sabia explicar aquilo ali. Eu não fazia a menor ideia do que era aquilo ali, porque a gente tinha dividido todo o trabalho e eu foquei todos os meus esforços em me preparar para falar a minha parte. Aquele era o plano e eu o segui, como devia ser. Meu amigo não. Eu falar aquela parte não fazia parte do nosso plano, e ao contrário de Guilherme e desse amigo nosso (que é amigo nosso até hoje, caso vocês estejam se perguntando), eu era – e ainda sou – completamente incapaz de improvisar. No final das contas, deu tudo mais ou menos certo: eu consegui explicar também a outra parte, mesmo gaguejando um pouco, e o professor ficou bastante satisfeito com nosso trabalho. Mas foi a apresentação terminar pra eu ter que sair correndo da sala, com lágrimas nos olhos e a voz ainda falha, para tomar um pouco de ar e recobrar o controle da minha vidinha ridícula.

E isso continua acontecendo até hoje, mesmo que em situações ligeiramente diferentes. Não que eu não continue me importando em apresentar trabalhos, em falar em público, em conversar com pessoas que não conheço muito bem (mesmo que essas pessoas sejam, sei lá, o segurança de um shopping ou o caixa de um supermercado). Porque eu me importo – e muito. Mas hoje essas coisinhas – que podem parecer pequenas pra muita gente, mas não pra mim – se uniram à outras, e mais outras e mais outras, até se transformarem numa bola de neve imensa, que cedo ou tarde ia acabar rolando de dentro do armário que eu tenho, há tanto tempo, tentado manter fechado. Eu passava noites em claro literalmente pensando na morte, enquanto deveria estar vivendo o aqui e o agora, ou então com que diabos eu vou fazer com a minha vida quando a faculdade acabar sendo que, no mínimo, falta pelo menos um ano inteiro pra isso acontecer. Meu coração bate mais rápido (de um jeito horroroso) só de pensar que eu já estou com quase 24 anos (!) e que ainda não tenho um diploma; que eu já deveria ter algum controle sobre o que eu vou fazer quando a faculdade acabar; e nem preciso dizer sobre como meu peito aperta e minha garganta trava só de pensar que tudo isso – todas essas angústias, todas essas preocupações, todas as noites em claro pensando no futuro – vai terminar exatamente no mesmo lugar, pra todo mundo.

Falo sobre esses temas porque são eles que, no momento, ativam os meus gatilhos com mais intensidade. Mas eu poderia falar também da pressão que é estar num relacionamento tão longo quando você não faz a menor ideia de quando vai poder elevar isso a um outro patamar; quando você não sabe o que responder quando as pessoas perguntam se você está trabalhando – embora você saiba exatamente a resposta -; sobre todas as vezes que eu deixei alguma coisa de lado porque só de pensar em sair da minha zona de conforto já era doloroso demais; sobre a minha dificuldade em fazer coisas sozinha, com medo do que os outros vão pensar de mim; ou então como é difícil criar conexões ou manter um diálogo com uma pessoa quando você não solta um “bom dia” sem pensar um milhão de vezes se essa é a coisa certa a dizer, qual a entonação adequada, quanto você tem que elevar a voz e quão natural você tem que parecer, mesmo que nada, absolutamente nada nessa situação, seja natural.

Eu nunca precisei respirar em um saco, nunca me estressei no trânsito, mantenho a calma em situações que a maior parte das pessoas perdem completamente o controle, e se vocês me conhecessem pessoalmente, provavelmente diriam que eu sou uma das pessoas mais calmas que vocês já viram na vida. Mas isso é porque a dimensão do que acontece dentro da minha cabeça só eu sei. Por mais que eu tenha pessoas no meu círculo de amigos que entendam a situação, por mais que a minha mãe e minha família e meu namorado tentem ajudar na medida do possível, a maioria dessas pessoas só entendeu que algo estava realmente errado comigo quando sintomas físicos começaram a aparecer. Quando eu comecei a parar de comer. Quando eu comecei a ter insônia porque minha cabeça não sabia mais a hora de parar de trabalhar. Quando olhei tanto para o futuro que esqueci da minha própria realidade, do aqui e do agora. Claro que existem mais coisas no meio de tudo isso – a depressão, a insegurança, a falta completa de autoestima – que me trouxeram até aqui. Mas quando eu entrei no consultório do psiquiatra e, por fim, ele me diagnosticou com ansiedade – entre outras coisas -, eu já nem fiquei mais surpresa: era só a confirmação de algo que eu já sentia há muito, muito tempo, só levei tempo demais para admitir pra mim mesma.

Procurar ajuda foi fundamental porque, como a Yuu sempre gosta de me dizer, ela faz com que a gente ganhe perspectiva e volte a andar com as próprias pernas. E é o que tem acontecido comigo. Embora hoje eu ainda não me sinta segura o suficiente para enfrentar certas situações, os poucos meses tomando medicamento e fazendo terapia, já tem surtido alguns efeitos, e principalmente, me ensinado algumas coisas importantes, que me ajudam a visualizar uma vida em que eu vou ser capaz de lidar com essas pequenas coisas que me afligem tanto do dia-a-dia, sem surtar. A terapia, principalmente, tem sido uma experiência de profundo autoconhecimento, que me faz olhar para dentro de mim mesma e refletir sobre a minha vida, mas que também me ensina a me enxergar com mais gentileza e saber que tudo bem parar, tudo bem não ser perfeita o tempo inteiro. Essa coisa de ser gentil, aliás, tem sido absolutamente fundamental nessa minha caminhada, e é incrível como tudo muda radicalmente quando a gente percebe que a maior parte dessas questões que fazem tão, tão mal, seriam resolvidas com um pouquinho mais de cuidado próprio, amor, compaixão e respeito – com os outros, é claro, mas principalmente com a gente.

Mas, outra coisa que eu também aprendi nesse meio tempo é que a gente tem que se permitir perder o controle de vez em quando, que é inevitável não se sentir ansioso quando você tenta manter o controle de situações que são absolutamente impossíveis de serem controladas, e que é preciso respeitar o próprio tempo das coisas, porque ele existe e nem sempre é aquele que a gente quer. E não tem problema, porque existem aproximadamente 129387192 que eu posso fazer aqui e agora, e é melhor aproveitar o momento do que ficar pensando num amanhã idealizado que nunca vai ser perfeito, justamente porque não é real.

Reconhecer a hora de parar é necessário. Não existe nada que te impeça de continuar depois, mas às vezes, tudo que a gente precisa é um pouco de ar fresco, um café no meio da tarde, um banho quentinho, um jantar gostoso e uma maratona de Friends para voltar a fazer o que quer a gente tenha parado antes. Cozinhar é uma coisa que me relaxa muito profundamente porque me obriga a parar e só pensar no que eu estou fazendo naquele momento: no corte certo dos ingredientes, na quantidade de tempero, no tempo de preparo. Do contrário, alguma coisa vai sair errada. É essa mesma ideia que me motiva a parar o quer que eu esteja fazendo quando minha mãe me chama pra tomar um café, ou então quando eu decido, sem mais nem menos, que preciso de um banho, ou que perder vinte minutos do meu dia assistindo um episódio de Friends não vai matar ninguém. São coisas que me aproximam de mim mesma, que me colocam num estado de absoluta plenitude, e onde eu posso me dar o luxo de me importar só com o aqui e o agora.

Não existe um jeito certo ou errado de lidar com a ansiedade porque, da mesma forma que os gatilhos variam de pessoa para pessoa, a melhor forma de lidar com eles também. Mas se alguém me perguntasse o que me mantém sã no meio do caos, eu diria que é tentar, na medida do possível, ser mais gentil comigo mesma, reconhecer os meus limites e não pirar só porque eu precisei parar um pouquinho pra tomar fôlego. Porque no carrinho da vida, é maravilhoso sentar no banco do motorista e colocar as mãos no volante, tomando o controle de tudo pra si; mas é só quando sentamos no carona e nos permitimos deixar a vida nos levar, que podemos admirar a beleza do que está ali, ao nosso redor.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

BAD NEWS, BLAIR

Uma coisa que ninguém te diz quando você entra na faculdade é que entre o emprego dos sonhos e quatro ou cinco anos de estudo intenso (ou não, risos), existem uma porção de “nãos” e portas fechadas na cara com as quais você inevitavelmente vai ter que aprender a lidar. Na teoria, parece o tipo de coisa óbvia. Nada cai do céu, você precisa batalhar por aquilo que deseja, etc etc. Na prática, no entanto, a coisa toda não é tão simples assim.

Mês passado, enviei o roteiro para uma seleção de estágio. Era uma oportunidade rara em Brasília, para trabalhar como roteirista, e eu achei que não custava nada tentar, especialmente quando era algo que eu queria com tanta força. Por mais que eu não esperasse realmente ser aprovada – a concorrência era enorme e acho que essa altura já estamos todos de acordo que floquinhos de neve não existem, risos -, lá no fundo, uma vozinha me dizia pra ir em frente. Eu não tinha nada a perder, certo? O máximo que podia acontecer era eu receber um “não” – e isso, eu meio que já esperava mesmo. De repente, tudo parecia ter se encaixado e o universo pareceu agir em meu favor. Eu tirei uma ideia da gaveta que se encaixava perfeitamente nos requisitos da seleção, consegui transformar a ideia em roteiro dentro do prazo e enviei tudo naquele dia mesmo, feliz de, pelo menos uma vez na vida, não me autossabotar. É uma pena, então, que as coisas tenham dado tão errado depois.

Tão errado é o jeito exagerado que eu encontrei de dizer que não fui selecionada. Mas curiosamente – ou, talvez, nem tão curiosamente assim -, ler a resposta não foi tão dramático quando eu esperava que fosse – e continua não sendo, mesmo agora. Compartilhei com a Yuu o que tinha acontecido logo em seguida e ela me respondeu que era uma pena, é claro, mas que ficava orgulhosa que eu ao menos tivesse tentado. Ela, que acompanhou todas as fases do processo, se sentia orgulhosa da minha tentativa – e no fundo eu me sentia da mesma forma. De um jeito meio tosco, mas ainda assim. Li o e-mail de novo, numa tentativa de entender o que eu estava sentindo, e foi com alívio que eu percebi que, num dia tão errado quanto hoje, eu só conseguia sentir paz. É como se um peso tivesse sido tirado das minhas costas. Eu tinha tentado, não tinha dado certo, mas tudo bem. Não é como se eu fosse morrer por causa disso ou qualquer coisa assim.

De certa forma, isso me fez pensar na minha relação com meus próprios fracassos. Porque eu demorei tempo demais pra entender que, embora eles fizessem parte da vida de qualquer pessoa, eu jamais deveria deixar que eles me desmotivassem ou me fizessem questionar e ter medo dos meus sonhos – que são grandes, enormes, gigantes, como vocês já estão carecas de saber. Por mais que muitas vezes eu dissesse que ia ficar tudo bem e que eu estava me sentindo bem, bastava que eu me virasse para perceber que as coisas não estavam tão bem assim, e me jogar no chão do meu quarto e chorar até não aguentar mais. Foi exatamente o que aconteceu quando eu perdi a vaga de um estágio para uma menina da minha sala, tão mais talentosa que eu, ou então quando fui demitida do meu segundo estágio e enviei uma mensagem pra um grupo de amigas contando o que tinha acontecido, mas que estava tudo bem, só pra depois entrar no carro e chorar desesperadamente porque eu era um fracasso completo. Demorou até que eu percebesse que todas essas coisas não faziam de mim um fracasso, como eu adorava acreditar, mas só uma pessoa 100% humana, que às vezes falha e que nem sempre é a melhor em tudo. Até chegar nesse ponto, no entanto, foram necessárias muitas horas de choro e decepções a rodo, e eu estaria mentindo se dissesse que não passo um tempo considerável conversando sobre todas essas coisas com minha psicóloga até hoje porque o medo de falhar ainda é presente demais.

Não é como se hoje eu não sofresse pelas portas que levo na cara, mas se antes eu era uma Rory Gilmore de frente para uma dezena de Mitchums Huntzberger, pronta para abandonar o barco tão logo alguém dissesse que eu não era boa o suficiente, hoje eu consigo olhar para todos os “nãos”, não com a arrogância de quem se acha boa demais ou que está acima de qualquer crítica, mas como uma pessoa que admite não ser perfeita e que eventualmente vai quebrar a cara, porque tudo isso faz parte de quem somos ou queremos ser. Não é uma porta na cara que vai invalidar todos os anos que eu tenho passado estudando e me dedicando, muito pelo contrário. Não ser selecionada não me diz que eu não sou boa o suficiente, só me diz que existiam pessoas melhores do que eu concorrendo à vaga naquele momento e que talvez, da próxima, eu precise me esforçar um pouco mais. Ou que talvez, em algum momento, meu roteiro vai ser perfeito e não o daquela outra pessoa – e aí vai ser a minha vez de chegar aqui e vir celebrar porque tudo deu certo dessa vez. Eu até posso ficar chateada de vez em quando, chorar um pouquinho quando achar necessário, mas só pra depois seguir em frente e continuar tentando até não aguentar mais. Porque uma coisa é certa: enquanto isso não acontece, a gente pelo menos pode continuar tentando. E aí, uma hora vai dar certo. A gente só precisa acreditar.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

AQUELE EM QUE A GENTE FOI ASSISTIR ROGUE ONE

E voltou pra casa sem assistir Rogue One, risos.

Na última quarta-feira, eu fui ao cinema assistir a pré-estreia de Rogue One. Depois de acordar aflitíssima do pior pesadelo do mundo, tomei um banho, vesti a primeira roupa que vi na minha frente (camisa jeans, calça preta, coturno e jaqueta de couro, caso você esteja se perguntando), passei um pouco de maquiagem na cara, sequei meu cabelo e parti com meu namorado rumo ao cinema, mais ou menos meia hora antes da meia-noite.

Desde que comecei a escrever no Valkirias, tenho o costume de assistir os filmes na estreia ou na pré-estreia e dessa vez não podia ser diferente. Rogue One é um dos lançamentos mais esperados do ano, e sendo um filme protagonizado por uma mulher, era impossível deixá-lo passar batido no site. Assim, comprei os ingressos com algumas semanas de antecedência e, na data marcada, lá estávamos eu e Guilherme – meu companheiro jedi, parceiro de crime, amor da minha vida, etc etc. Compramos enormes sacos de pipoca, litros de refrigerante, pegamos nossos óculos 3D – desgraça, bela desgraça – e entramos na sala, que a essa altura já exibia os primeiros trailers na tela. Sentamos, desligamos os celulares, guardamos nossas carteirinhas e ficamos ali, comendo pipoca e bebendo refrigerante como se não houvesse amanhã enquanto Marion Cotillard e Michael Fassbender tocavam o terror na Espanha do século XV…em português. O fato de estarmos em uma sessão legendada não nos chamou a atenção de imediato. Conforme o tempo foi passando, no entanto, as coisas começaram a ficar meio estranhas e enquanto as pessoas se mexiam desconfortáveis na cadeira, claramente sentindo que algo estava errado ali, Guilherme pediu que eu tirasse meu celular da bolsa e iluminasse o ingresso só pra ele ver “um negócio”.

O negócio, no caso, era o ingresso, que ele queria conferir se era ou não de uma sessão legendada ou se tinha, de fato, alguma coisa muito errada acontecendo naquele cinema. Depois de constar que não havia nada, absolutamente nada, que indicasse tal informação no ingresso, concluímos que a sessão devia ser legendada mesmo e que só os trailers eram dublados – o que não seria de todo uma novidade, muito embora não fizesse o menor sentido. Foi só quando o filme realmente começou e nós ouvimos a ainda pequena Jyn Erso gritar pela mãe em português que eu pude ouvir a música da Maysa tocar no fundo da minha cabeça. O filme era dublado. Meu mundo caiu – mas não foi o único. De repente, várias pessoas começaram a gritar em voz alta que o filme era legendado enquanto outras se levantavam para reclamar com quem quer que estivesse à disposição. As luzes foram finalmente acesas, o filme foi interrompido, e sentada no meu canto, eu comi minha pipoca quietinha enquanto observava uma verdadeira revolução acontecer na minha frente, risos eternos.

Não demorou muito para que um funcionário do cinema aparecesse, numa tentativa frustrada de conter aqueles espectadores de ânimos exaltados. Ele, que claramente não tinha culpa de nada, que passou o dia inteiro trabalhando e já devia estar de saco cheio daquele lugar, ele que provavelmente ganha muito menos do que o verdadeiro responsável pelo erro, foi a pessoa que sofreu com aqueles que buscavam alguém a quem culpar. Fiquei com uma vergonha genuína quando, após ele perguntar pela última vez se alguém gostaria de ir para a outra sessão – essa sim, legendada – um cara na fileira ao lado perguntou, de um jeito grosso e completamente desnecessário, se ele achava que estava fazendo um favor. Foi com um alívio genuíno que eu vi outra pessoa, um pouco mais adiante, responder que não precisava falar daquele jeito, que o cara só estava fazendo ali o seu trabalho. Mas fiquei com vontade de dizer, também, que ele estava sim fazendo um favor. Que o cinema tinha falhado, é verdade, mas ele não tinha a menor obrigação de enfiar alguém numa sala nova, especialmente quando o filme certo estava sendo baixado para ser exibido dali alguns minutos. Eles estavam possibilitando que, quem quisesse arriscar ir para outra sala e sentar nos lugares que sobraram, podia fazer isso, o filme estaria pausado esperando por eles lá. Mas eles não podiam sacrificar uma outra sala inteira em função de uma segunda e manter o filme parado eternamente porque um cara achou que eles não estavam fazendo mais do que a obrigação deles de oferecer a opção de assistir o filme na sala ao lado.

Eu entendo a frustração, é claro. Antes de mais nada, eu estava ali porque meses atrás eu me comprometi a escrever sobre esse filme – algo que eu queria (e ainda quero!) fazer com todo o meu coração. Eu não me esforçaria tanto para assistir logo se não me importasse tanto com o que escrevo no Valkirias, e embora eu reconheça que o filme não vai sair correndo e que as pessoas interessadas em ler sobre ele vão continuar ali de qualquer forma, eu também sei que é muito mais legal ler sobre um filme quando ele acaba de chegar ao cinema e você pondera se deve ou não gastar seu dinheiro naquilo ali (especialmente quando o ingresso está pela hora da morte, como é o caso aqui). Mesmo assim, eu sabia que a culpa não era daquele cara e que meus problemas eram só meus, que não era justo eu soltar meus cachorros em alguém que só estava ali dando a cara pra bater enquanto quem realmente deveria estar atento nesse meio tempo, não esteve. Fiquei feliz quando, mais tarde, esse mesmo cara foi aplaudido, mesmo que tivesse trazido notícias ruins. “Vai demorar muito para baixar o filme legendado”, ele disse, “mas vocês podem carimbar o ingresso e vir assistir outro dia se não quiserem assistir dublado mesmo”. Tudo bem, tem outros troféu.

Enquanto esperava Guilherme carimbar nosso ingresso e garantir um novo combo de pipoca e refrigerante (risos), fiquei rindo sozinha, lembrando da cara de todo mundo quando Jyn gritou “mamãe”. Meus planos de escrever sobre o filme e entregar o texto antes de sexta-feira foram por água abaixo, assim como meu lukinho foi um desperdício, mas no meio de um Blogmas que você claramente já não sabe mais sobre o que escrever, as chances de qualquer coisa virar texto são enormes.

Pelo menos agora, entre todas as histórias de luzes de emergência que acenderam sem necessidade e apagões no meio de uma sessão das quais eu só ouço falar, eu também tenho uma história mais ou menos sobre confusões no cinema pra contar, risos.