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JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

Do que eu falo quando falo de ansiedade

Eu nunca me julguei uma pessoa ansiosa – até, claro, o dia que descobri que era exatamente isso que eu era. Não foi uma descoberta casual, mas um processo que começou muito antes de eu sequer saber o que significava ser ansiosa de verdade, muito menos me perceber como uma. Foi só depois que entrei para faculdade de comunicação e, posteriormente, me refugiei no audiovisual, que meus sintomas se intensificaram, e eu comecei a ler sobre o assunto e entender que minhas angústias, afinal de contas, tinham nome, e que eu não estava sozinha nesse barco. Mas era algo que já estava ali, desde a minha pré-adolescência, quando eu passava um tempo insano vivendo no futuro, me preocupando com o futuro, pensando no futuro em cada dia da minha pequena existência até ali.

A primeira vez que eu ouvi alguém falar sobre ansiedade foi mais ou menos nessa época, quando meu primo (que tem a mesma idade que eu) começou a apresentar sintomas do transtorno. Ele era agitado, não conseguia se concentrar em nada, ficava muito angustiado em determinadas situações, não tinha quase nenhum amigo e tinha sempre muita pressa, pressa demais. Eu assistia tudo aquilo me sentindo o completo oposto: é verdade que eu ainda passava um tempo precioso pensando no meu futuro, idealizando cada passo que eu daria depois que a escola acabasse (aos treze anos!), mas continuava sendo uma pessoa calma na maior parte do tempo, que se sentia confortável em algumas situações, desconfortável em algumas outras, mas que conseguia seguir com a vida numa boa, sem se preocupar muito com nada além do seu Futuro Promissor ™. Eu me enfiava em coisas novas sem ter meu estômago inteiro revirando, me sentia segura o suficiente para levantar a mão no meio de uma aula qualquer e perguntar alguma coisa ao professor sem gaguejar, e me apresentava na frente dos outros como se tivesse feito aquilo a vida inteira.

Minha vida começou a mudar um pouco no ensino médio, quando eu passei a ter absoluto pavor de levantar a mão ou ser questionada sobre algo no meio da aula (exceto por professores que eu já conhecia há mais tempo), a calcular todas as minhas palavras antes de abrir a boca pra falar qualquer coisa ou falar com qualquer pessoa, e ter que respirar fundo, bem fundo, antes de qualquer apresentação para não gaguejar demais. Eu passava um tempo gigantesco pensando no que os outros pensavam sobre mim, e embora eu gostasse de acreditar que nunca dei muita bola para a opinião externa – eu pintava as unhas de amarelo maracujá, ninguém mais pintava as unhas de amarelo maracujá -, a verdade é que eu só me arriscava naquilo que não era tão importante assim – tipo pintar as unhas de amarelo maracujá -, porque todo o resto era um monstro tão grande e assustador que eu achei mais fácil enfiá-lo dentro de um armário e deixar virar pó por lá mesmo. Eu tentava ao máximo agir dentro das regras para não estar no centro das atenções por sair da linha, eu evitava contato com pessoas novas, estranhas, porque nunca sabia o que conversar com elas; e sempre que precisava enfrentar alguma coisa que me assustava, passava horas pensando em todas os desdobramentos possíveis da situação, me preparando para cada um deles só para não ser pega de surpresa; fora todas as noites que eu passei em claro pensando naquela merda que eu falei dez anos atrás e POR QUE, MEU DEUS, POR QUE EU FUI ESCOLHER JUSTAMENTE AQUELAS PALAVRAS? POR QUE EU SOU TÃO IDIOTA? POR QUE EU TINHA QUE ABRIR A MINHA BOCA?

Lembro de um trabalho de química no segundo ano do ensino médio, que fui apresentar com Guilherme e um outro amigo nosso. Nós dividimos as partes de cada um e, como eu não era tão boa assim em química, decorei cada linha do que precisava falar, contando com todas as respostas para as possíveis perguntas que o professor poderia fazer. Só que alguma coisa aconteceu no meio do caminho (porque coisas sempre acontecem no meio do caminho) e de repente, não mais que de repente, depois de já ter explicado minha parte inteirinha, meu amigo solta: “agora a Ana vai explicar isso aqui”. Só que eu não sabia explicar aquilo ali. Eu não fazia a menor ideia do que era aquilo ali, porque a gente tinha dividido todo o trabalho e eu foquei todos os meus esforços em me preparar para falar a minha parte. Aquele era o plano e eu o segui, como devia ser. Meu amigo não. Eu falar aquela parte não fazia parte do nosso plano, e ao contrário de Guilherme e desse amigo nosso (que é amigo nosso até hoje, caso vocês estejam se perguntando), eu era – e ainda sou – completamente incapaz de improvisar. No final das contas, deu tudo mais ou menos certo: eu consegui explicar também a outra parte, mesmo gaguejando um pouco, e o professor ficou bastante satisfeito com nosso trabalho. Mas foi a apresentação terminar pra eu ter que sair correndo da sala, com lágrimas nos olhos e a voz ainda falha, para tomar um pouco de ar e recobrar o controle da minha vidinha ridícula.

E isso continua acontecendo até hoje, mesmo que em situações ligeiramente diferentes. Não que eu não continue me importando em apresentar trabalhos, em falar em público, em conversar com pessoas que não conheço muito bem (mesmo que essas pessoas sejam, sei lá, o segurança de um shopping ou o caixa de um supermercado). Porque eu me importo – e muito. Mas hoje essas coisinhas – que podem parecer pequenas pra muita gente, mas não pra mim – se uniram à outras, e mais outras e mais outras, até se transformarem numa bola de neve imensa, que cedo ou tarde ia acabar rolando de dentro do armário que eu tenho, há tanto tempo, tentado manter fechado. Eu passava noites em claro literalmente pensando na morte, enquanto deveria estar vivendo o aqui e o agora, ou então com que diabos eu vou fazer com a minha vida quando a faculdade acabar sendo que, no mínimo, falta pelo menos um ano inteiro pra isso acontecer. Meu coração bate mais rápido (de um jeito horroroso) só de pensar que eu já estou com quase 24 anos (!) e que ainda não tenho um diploma; que eu já deveria ter algum controle sobre o que eu vou fazer quando a faculdade acabar; e nem preciso dizer sobre como meu peito aperta e minha garganta trava só de pensar que tudo isso – todas essas angústias, todas essas preocupações, todas as noites em claro pensando no futuro – vai terminar exatamente no mesmo lugar, pra todo mundo.

Falo sobre esses temas porque são eles que, no momento, ativam os meus gatilhos com mais intensidade. Mas eu poderia falar também da pressão que é estar num relacionamento tão longo quando você não faz a menor ideia de quando vai poder elevar isso a um outro patamar; quando você não sabe o que responder quando as pessoas perguntam se você está trabalhando – embora você saiba exatamente a resposta -; sobre todas as vezes que eu deixei alguma coisa de lado porque só de pensar em sair da minha zona de conforto já era doloroso demais; sobre a minha dificuldade em fazer coisas sozinha, com medo do que os outros vão pensar de mim; ou então como é difícil criar conexões ou manter um diálogo com uma pessoa quando você não solta um “bom dia” sem pensar um milhão de vezes se essa é a coisa certa a dizer, qual a entonação adequada, quanto você tem que elevar a voz e quão natural você tem que parecer, mesmo que nada, absolutamente nada nessa situação, seja natural.

Eu nunca precisei respirar em um saco, nunca me estressei no trânsito, mantenho a calma em situações que a maior parte das pessoas perdem completamente o controle, e se vocês me conhecessem pessoalmente, provavelmente diriam que eu sou uma das pessoas mais calmas que vocês já viram na vida. Mas isso é porque a dimensão do que acontece dentro da minha cabeça só eu sei. Por mais que eu tenha pessoas no meu círculo de amigos que entendam a situação, por mais que a minha mãe e minha família e meu namorado tentem ajudar na medida do possível, a maioria dessas pessoas só entendeu que algo estava realmente errado comigo quando sintomas físicos começaram a aparecer. Quando eu comecei a parar de comer. Quando eu comecei a ter insônia porque minha cabeça não sabia mais a hora de parar de trabalhar. Quando olhei tanto para o futuro que esqueci da minha própria realidade, do aqui e do agora. Claro que existem mais coisas no meio de tudo isso – a depressão, a insegurança, a falta completa de autoestima – que me trouxeram até aqui. Mas quando eu entrei no consultório do psiquiatra e, por fim, ele me diagnosticou com ansiedade – entre outras coisas -, eu já nem fiquei mais surpresa: era só a confirmação de algo que eu já sentia há muito, muito tempo, só levei tempo demais para admitir pra mim mesma.

Procurar ajuda foi fundamental porque, como a Yuu sempre gosta de me dizer, ela faz com que a gente ganhe perspectiva e volte a andar com as próprias pernas. E é o que tem acontecido comigo. Embora hoje eu ainda não me sinta segura o suficiente para enfrentar certas situações, os poucos meses tomando medicamento e fazendo terapia, já tem surtido alguns efeitos, e principalmente, me ensinado algumas coisas importantes, que me ajudam a visualizar uma vida em que eu vou ser capaz de lidar com essas pequenas coisas que me afligem tanto do dia-a-dia, sem surtar. A terapia, principalmente, tem sido uma experiência de profundo autoconhecimento, que me faz olhar para dentro de mim mesma e refletir sobre a minha vida, mas que também me ensina a me enxergar com mais gentileza e saber que tudo bem parar, tudo bem não ser perfeita o tempo inteiro. Essa coisa de ser gentil, aliás, tem sido absolutamente fundamental nessa minha caminhada, e é incrível como tudo muda radicalmente quando a gente percebe que a maior parte dessas questões que fazem tão, tão mal, seriam resolvidas com um pouquinho mais de cuidado próprio, amor, compaixão e respeito – com os outros, é claro, mas principalmente com a gente.

Mas, outra coisa que eu também aprendi nesse meio tempo é que a gente tem que se permitir perder o controle de vez em quando, que é inevitável não se sentir ansioso quando você tenta manter o controle de situações que são absolutamente impossíveis de serem controladas, e que é preciso respeitar o próprio tempo das coisas, porque ele existe e nem sempre é aquele que a gente quer. E não tem problema, porque existem aproximadamente 129387192 que eu posso fazer aqui e agora, e é melhor aproveitar o momento do que ficar pensando num amanhã idealizado que nunca vai ser perfeito, justamente porque não é real.

Reconhecer a hora de parar é necessário. Não existe nada que te impeça de continuar depois, mas às vezes, tudo que a gente precisa é um pouco de ar fresco, um café no meio da tarde, um banho quentinho, um jantar gostoso e uma maratona de Friends para voltar a fazer o que quer a gente tenha parado antes. Cozinhar é uma coisa que me relaxa muito profundamente porque me obriga a parar e só pensar no que eu estou fazendo naquele momento: no corte certo dos ingredientes, na quantidade de tempero, no tempo de preparo. Do contrário, alguma coisa vai sair errada. É essa mesma ideia que me motiva a parar o quer que eu esteja fazendo quando minha mãe me chama pra tomar um café, ou então quando eu decido, sem mais nem menos, que preciso de um banho, ou que perder vinte minutos do meu dia assistindo um episódio de Friends não vai matar ninguém. São coisas que me aproximam de mim mesma, que me colocam num estado de absoluta plenitude, e onde eu posso me dar o luxo de me importar só com o aqui e o agora.

Não existe um jeito certo ou errado de lidar com a ansiedade porque, da mesma forma que os gatilhos variam de pessoa para pessoa, a melhor forma de lidar com eles também. Mas se alguém me perguntasse o que me mantém sã no meio do caos, eu diria que é tentar, na medida do possível, ser mais gentil comigo mesma, reconhecer os meus limites e não pirar só porque eu precisei parar um pouquinho pra tomar fôlego. Porque no carrinho da vida, é maravilhoso sentar no banco do motorista e colocar as mãos no volante, tomando o controle de tudo pra si; mas é só quando sentamos no carona e nos permitimos deixar a vida nos levar, que podemos admirar a beleza do que está ali, ao nosso redor.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

It’s a trap

Você sabe que uma pessoa é completamente sem noção quando ela decide, sem mais nem menos, embarcar numa cilada com algumas amigas no mês mais ferrado do ano.

Querido leitor, a essa altura você nem deve estar se perguntando quem é essa pessoa, afinal de contas, não restam dúvidas de que ela e eu somos a mesma pessoa – e eu não preciso nem fingir que não. Prometi pra mim mesma, ainda ontem, que não inventaria nenhuma moda, porque dezembro já é um mês naturalmente intenso e eu realmente não precisava – e continuo não precisando – de algo a mais com o que me preocupar. Só que eu sou eu, também conhecida como a pessoa mais sem juízo do mundo, que sempre quer abraçar o mundo e que nunca hesita diante de uma ideia que pareça boa, boa demais, para não ser colocada em prática. Foi assim que eu topei as coisas mais absurdas que já fiz na vida, de tocar campainha de gente desconhecida e sair correndo até pegar uma avião pra ver gente que eu nunca tinha visto na vida, e foi exatamente assim que eu me vi topando participar do Blogmas, que nada mais é do que uma versão do BEDA em clima de Natal, risos.

A última vez que eu inventei de postar todos os dias durante um mês foi esse ano mesmo, e o resultado foi tão bom que eu larguei de mão já na primeira semana. Naquela época, aconteceram várias coisas (inúmeros gatilhos que desencadearam crises de ansiedade e depressão horrorosas) que me motivaram a parar tudo que eu estava fazendo pra respirar fundo e colocar minha cabeça no lugar, e nessa sucessão inevitável de fatos, abrir mão do BEDA era a única saída possível pra que eu continuasse com a mente mais ou menos sã.

Quando eu digo que levo essa porra muito a sério, é porque eu levo mesmo essa porra muito a sério.

Eu não tinha a menor intenção de entrar de novo em nada parecido. Embora eu goste de manter esse espaço, não me cobrar para mantê-lo atualizado me ajudou um bocado e me deixou muito mais leve em relação ao papel dele na minha vida. Se o blog nunca foi uma obrigação – e eu nunca quis que ele virasse uma obrigação -, nada mais justo do que eu só aparecer aqui quando realmente tiver o que falar e, principalmente, quiser falar, mesmo que entre uma atualização e outra se passem muitas semanas. É um jeito muito mais honesto de trabalhar, especialmente porque esse é um espaço que nasceu pra que eu falasse da minha vida, sobre coisas que nem sempre as pessoas ao meu redor estavam interessadas em discutir, e onde eu pudesse registrar minhas memórias, e por mais que a gente consiga fazer graça até do que já virou rotina, às vezes a gente também só quer deitar na cama e assistir Gilmore Girls até não aguentar mais, sem a obrigação de ter que transformar tudo em texto.

Acontece que dezembro é o meu mês favorito do ano inteiro e as chances dele passar em branco por aqui eram mínimas, pra não dizer inexistentes. O Natal é minha celebração favorita, as comidas dessa época são minhas preferidas, eu adoro me arrumar pra beber vinho com minha família e jantar com a família do meu namorado, e o fim iminente do ano sempre me deixa mais reflexiva (brega, eu sei). Meus textos favoritos são sempre aqueles que escrevo no último dia do ano, justamente porque eles são um balanço muito fiel daquilo que me aconteceu em um período de tempo específico e eu sempre gosto de poder voltar pra eles de vez em quando e relembrar as coisas boas e ruins que ficaram – ou não – pra trás e do quanto minha vida mudou nesse meio tempo. Além disso, gosto de fazer um balanço nessa época daquilo que andei lendo, ouvindo e assistindo durante o ano, e minha opinião sobre todas essas coisas – que podem ou não mudar com o passar do tempo. Querendo ou não, são todas formas de registrar aquilo que está acontecendo na minha vida. Se a cultura pop me influencia tanto ao ponto de eu decidir criar um site com minhas amigas só para discutir o assunto, nada mais justo que uma parte disso também venha parar no blog – de um jeito diferente, é claro, mas ainda assim. Ou seja, eu daria as caras por aqui em dezembro de qualquer jeito.

O negócio é que postar todos os dias – ou, pelo menos, tentar postar todos os dias, que é o que eu me propus a fazer – muda completamente todo o meu planejamento pra esse mês. Tem a faculdade, que alguma hora vai renascer das cinzas e transformar minha vida num inferno; tem os textos que precisam ser entregues; os filmes e séries que precisam ser assistidos; as revisões que precisam ser feitas; fora a minha vida inteira que não precisa de mais incentivo pra se tornar inexistente no meio de tudo isso. E mesmo assim, eu resolvi que deveria fazer isso – não por fui obrigada, não porque sou maria-vai-com-as-outras (sou mesmo, e daí?), mas eu porque eu tive vontade, porque eu claramente não tenho juízo nenhum na cabeça, e porque é certo que eu terei pessoas maravilhosas do meu lado nessa.

Não garanto que vamos ter posts novos todos os dias porque, como eu bem disse, tenho trabalhado melhor com a ideia de tentar e respeitar meu próprio tempo, ao invés de fazer alocka e me obrigar a fazer alguma coisa e depois ficar arrancando os cabelos enquanto choro desesperada e ando em círculos no quarto porque claramente não dou conta de tudo. Mas eu espero realmente conseguir, não como uma forma de me redimir pelo BEDA não alcançado, mas de fazer uma coisa diferente, com pessoas – nem tão – diferentes e me divertir um pouquinho no processo – e espero, de verdade, que vocês possam se divertir um pouquinho também.

Aguardem cenas dos próximos capítulos, risos.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

Aquele com os alunos pelados

Entre todas as coisas que me contaram sobre a Universidade de Brasília, a mais curiosa, de longe, era sobre os alunos que corriam pelados pela faculdade.

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Vejam bem, ninguém sabe até que ponto isso é verdade ou mentira. Afinal, estamos falando de uma história que vem sendo contada há anos, geração após geração, sem que ninguém questione a veracidade dos fatos – no fundo, porque ninguém leva esse papo muito a sério. O negócio é que a história foi sendo passada para frente de tal modo que, hoje, ela já se tornou tão popular quanto, sei lá, o trans-minhocão – que muito calouro jura de pé junto que existe até hoje -, ao ponto de fazer muita gente começar a, de fato, acreditar que em algum momento da história da UnB existiram esses tais estudantes que corriam pelados sem nenhum motivo aparente, apenas porque eram livres, muito livres, e nada mais libertador do que correr sem roupa por uma universidade federal, o antro da perdição, como diriam os mais conservadores.

Até hoje, eu não conheci uma pessoa que realmente estivesse envolvida nessas histórias (que viu a cena ou foi o aluno peladão, não importa), mas se vocês perguntarem para qualquer pessoa que more em Brasília, podem ter certeza, ela vai ter pelo menos uma história para contar sobre a galera que curtia pegar um vento onde o vento normalmente não bate nas horas vagas, risos eternos.

Não lembro quando ouvi essa história pela primeira vez, muito menos quem me contou (provavelmente um professor do colégio ou do cursinho, eles sempre têm umas histórias cabeludas pra contar), mas eu me divertia horrores imaginando esse povo correndo pelado por aí só porque sim, enquanto imaginava o dia que eu faria um filme ambientado na universidade e enfiaria uma pessoa correndo pelada pelo Minhocão sem mais nem menos – tudo numa fotografia meio anos 80/90, pra ficar ainda mais legal (desculpa, sou doente), mesmo que, no fundo, eu não acreditasse que isso pudesse acontecer de verdade. Quer dizer, existem leis que proíbem esse tipo de coisa, não existem? Sei que universidades têm essa imagem de lugares livres, onde as pessoas podem pensar e fazer o que quiserem (você até pode pensar o que quiser, fazer são outros quinhentos), mas na prática a coisa não é bem assim, e mesmo que todo mundo seja muito legal e a favor de certas rebeldias, também existem pessoas que odeiam esse tipo de coisa e que não aceitariam uma coisa dessas numa boa. Ou seja, as chances de que isso acontecesse enquanto eu estivesse lá eram menores do que, sei lá, eu meter a mão numa aranha e curtir a experiência.

Até que aconteceu. Do jeito mais improvável possível, mas ainda assim.

Foi mais ou menos assim: eu estava no primeiro semestre de contabilidade (long story short: antes de entrar para o audiovisual, passei por outros três cursos na UnB – gestão de saúde, contabilidade e comunicação organizacional, respectivamente – dos quais cheguei a cursar de verdade somente dois) (a não ser que vocês considerem a primeira e única semana que fui às aulas de gestão de saúde, risos), no meio de uma aula bem monótona sobre produção de textos (meio uma extensão das aulas de redação do colégio) e de repente, não mais que de repente, um monte de gente pelada começou a entrar na sala de aula. Gente pelada com sacos de papel pardo na cabeça, vale dizer. Uma coisa maravilhosa. Ninguém sabia o que fazer. Ninguém sabia o que não fazer. O circo estava formado.

Sabem aquele episódio em Gilmore Girls onde o Logan invade a sala de aula da Rory e faz um teatrinho com os amigos, dispersando todo mundo? Então. Eu me senti como uma daquelas pessoas na sala de aula – a diferença é que, ao invés de um teatrinho, nós tínhamos alunos pelados de verdade, com sacos de papel pardo na cabeça, andando casualmente pelo anfiteatro e depois indo embora como se nada tivesse acontecido. A professora, coitada, até tentou colocar ordem na sala novamente – depois, claro, de passado seu choque inicial -, mas foi um ato completamente desesperado, que terminou com ela jogando a toalha e liberando todo mundo mais cedo porque era absolutamente impossível retomar o controle da situação. Sério, quais as chances de um monte de jovens recém-saídos das fraldas verem um monte de gente aleatória andando pelada no meio da sala de aula, com um saco na cabeça, e seguir com a vida numa boa? Não dá. Maturidade: definitivamente não trabalhamos.

Até hoje não sei o que, afinal de contas, foi aquilo. Reza a lenda que tudo não passou de um protesto feito pelos estudantes em prol de uma causa “x” – uma informação que não confirmo nem nego, porque a verdade é que eu não consegui prestar muita atenção nas cabeças ensacadas ou em qualquer outra coisa que não as ppks aleatórias e os pintos meio murchos. De todo modo, foi uma ótima experiência antropológica, o jeito perfeito de tirar a prova que, afinal de contas, os estudantes pelados existem de verdade – eles só são um pouco diferentes do que as histórias costumam contar.

Pelo menos agora eu vou poder contar para meus filhos e netos que essas pessoas existem de verdade e que eu as vi com meus próprios olhos. Aposto que eles vão adorar, risos eternos.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

I just wanna tell my friends no matter where i go

I’ll see them down the road. 

Antes do ano começar, naqueles minutos que antecedem a virada, prometi três coisas pra mim mesma: a primeira que não criaria expectativas e nem faria resoluções mirabolantes; a segunda que não ficaria com a bunda no sofá esperando coisas acontecerem; e a terceira, que não reclamaria tanto quando as coisas não saíssem como o esperado, reconhecendo que minha história não é imutável, que a vida é uma caixinha de surpresas e que existe beleza até no fracasso. Não sei se vocês acreditam nesse tipo de coisa (o poder das palavras!, o pensamento positivo!, etc etc), mas desde que o ano começou muita coisa tem de fato acontecido, e eu não posso deixar de pensar que, por mais idiota que pareça, muito disso tem a ver com aquela Ana meio rabugenta que prometeu pra si mesma que não dependeria mais da própria sorte. Não sei muito bem como chegamos aqui, mas parece que funcionou – ainda bem.

Maio foi um mês que durou aproximadamente 1475 anos. Começou com uma novidade incrível que eu gostaria de ter compartilhado com vocês de um jeito mais apropriado, mas como acontece demais na minha vida, infelizmente não deu. A essa altura vocês já sabem do que estou falando, mas se o blog é um registro daquilo que acontece na minha vida, nada mais justo do que registrar aquele que seria meu primeiro projeto pessoal de verdade: o Valkirias, um site sobre cultura pop feito por mulheres e para mulheres, que busca justamente levantar questões que muitas vezes são ignoradas em páginas mais abrangentes. O projeto é uma cria minha e de mais seis amigas (Ana, Anna Vitória, Fernanda, Paloma, Thay e Yuu), pessoas incríveis que a vida me deu de presente e que agora dividem uma filha comigo, que fizeram (e continuam fazendo) esse projeto acontecer, que celebram cada nova conquista e choram comigo pelas coisas ruins que inevitavelmente surgem no caminho – só pra depois levantar a cabeça e superar cada uma delas, todas juntas, de mãos dadas.

É uma experiência completamente nova essa, que me empolga e assusta na mesma medida, mas que tem me ensinado muito e sido incrível na maior parte do tempo. Disse aqui uma vez que precisava me apaixonar pelas coisas que faço e é verdade. Eu preciso me sentir realizada com aquilo que me proponho a fazer – seja um trabalho da faculdade, um almoço de domingo ou um site com minhas amigas -, preciso acreditar que meu esforço vale à pena e, principalmente, preciso me importar com cada uma delas – do contrário, eu realmente não vou esquentar minha cabeça com algo que não me interessa. O Valkirias é exatamente isso – algo que eu amo, que acredito e que realmente acho que vale à pena me esforçar pra dar certo.

O negócio é que, muitas vezes, me esforçar pra dar certo significa ir além dos meus próprios limites. Porque essa sou eu e amar e me sentir realizada com alguma coisa também envolve uma certa dose de obsessão – às vezes boa, às vezes ruim. Nos últimos dias, me vi numa onda de querer abraçar o mundo e achar que eu podia dar conta de tudo, mesmo quando eu claramente não tinha a menor estrutura pra isso. Podem ter certeza que, se eu não estava fazendo planos com minhas amigas, discutindo pautas e tomando decisões, eu estava trabalhando o tempo todo, escrevendo feito louca e tendo ideias sem parar, num nível de começar a perder o sono (!) e não conseguir fazer coisas básicas, tipo comer (!) ou lavar o cabelo (!).  No meio disso tudo ainda tinha (tem?) a faculdade – que também é algo que amo profundamente, num nível meio obsessivo (apesar de todas as crises que surgem no meio do caminho) – e a vida, que não para nunca, como vocês já estão carecas de saber.

Se tem uma coisa que 2015 me ensinou é que na vida (pelo menos na minha vida), as coisas nunca acontecem uma de cada vez. Elas sempre acontecem juntas, de uma vez só, se atropelam e não pedem licença, e eu que aprenda a lidar com tudo. Já passei tempo demais chorando porque me sentia incapaz, porque não acreditava que conseguia, que podia chegar lá, até aprender na marra que podia sim, e que quanto mais a gente faz, mais a gente descobre que é capaz de fazer. É por isso que, mesmo que às vezes não seja saudável, eu me permito correr atrás daquilo que eu quero. De uns tempos pra cá ficou meio cafona ser a pessoa que tenta demais, mas eu sou essa pessoa que tenta – às vezes demais – e tudo bem. O mundo não me deve favor algum e eu realmente acredito que é dando nosso melhor e tentando de verdade que, cedo ou tarde, a gente chega lá. Nem sempre dá certo, mas isso não significa também que tenha dado errado – e aí entra toda aquela filosofia de que também existe beleza no fracasso. Às vezes a gente precisa que as coisas não saiam como o planejado pra ter uma mudança de perspectiva e aí sim fazer dar certo. Ou então desistir de uma vez e colocar os esforços em algo que realmente valha à pena.

Maio foi um mês estranho, intenso, que pesou a mão pro bem e pro mal. Passei todos esses dias sem saber se eu deveria estar comemorando, se eu deveria estar chorando, se eu não deveria fazer nenhuma das duas coisas e só continuar trabalhando feito louca, até que eu fiquei doente e só queria saber de reclamar e chorar sem parar. Foram dias terríveis de febre, dor de garganta, de cabeça, muito choro e a sensação de ser absolutamente incapaz de fazer coisas triviais. Me obriguei a parar por uma semana e não fazer ou pensar em nada – porque eu não conseguia mesmo, mas principalmente porque percebi na doença uma forma do meu corpo pedir, pelo amor de Deus, que eu diminuísse um pouco o ritmo, respirasse fundo e voltasse a ser uma pessoa de verdade.

Eu já não ficava doente há bastante tempo, então ficar desse jeito foi um lembrete realmente necessário de que eu sou humana, que meu corpo tem limitações e necessidades, e que é preciso cuidar de mim antes de pensar em cuidar de qualquer outra coisa. Isso me fez refletir muito sobre muitas questões que inevitavelmente surgem quando eu me sinto vulnerável e me fez desenterrar algo que sempre me assustou muito e que eu vinha tentando esconder de qualquer jeito: o medo. Medo de escrever, medo de não ser suficiente, medo de criar, medo de ser uma fraude, medo de descobrirem que eu sou uma fraude, medo de falhar, medo de decepcionar minhas amigas, medo de correr atrás de alguma coisa que claramente não mereço conquistar, medo do desconhecido, medo dos meus sonhos – que são enorme, gigantes e desconhecem limites -, medo do próprio medo. Medo, medo, medo.

Conversando com algumas amigas, percebi que o medo é algo natural, que todo mundo sofre com ele em maior ou menor intensidade, e que isso não é de todo ruim, muito pelo contrário – a gente só não pode parar de vez e achar que vai ficar tudo bem por medo de tentar. Pela primeira vez eu estou realmente caminhando em busca daquilo que eu quero, que faz o meu olho brilhar, dos meus sonhos grandes – imensos, gigantes, enormes – que me assustam na mesma medida que me empolgam, e é natural que eu sinta medo, que me questione se realmente sou capaz – só pra descobrir, mais uma vez, que sou capaz sim. E aí, depois que a gente dá o primeiro passo, já não dá mais pra voltar atrás. Eu posso até estar apavorada, mas a vontade de descobrir o que me espera é muito maior e de repente eu estou enfrentando meus monstros, provando pra mim, de novo e de novo, que eu sou capaz. Como me disse uma amiga muito querida esses dias: dá um medo do caralho, mas quando a gente dá o primeiro passo, a gente sabe que é capaz simMais uma vez: é isso.

Então, nesse meio tempo que eu desapareci do mapa, saibam que eu estava aqui do outro lado lutando com alguns dragões, tentando de verdade correr atrás dos meus sonhos e fazer as coisas darem certo, acreditando que eu posso chegar lá – e que vocês também podem. Várias vezes quis vir aqui contar o que estava acontecendo, mas me incomodava demais voltar só para chorar algumas pitangas e depois sumir de novo, que é o que invariavelmente aconteceria, sem tirar nenhum aprendizado de tudo isso. Mas eu aprendi e agora me sinto pronta pra voltar a escrever aqui de novo. Foram tempos estranhos, mas superamos e agora acho que posso contar essa história de um jeito mais otimista. Não vou prometer que volto a escrever com a frequência de sempre porque, a não ser que eu tire umas férias de mim mesma, as coisas estão acontecendo numa velocidade absurda e acho que é muito mais honesto admitir que eu nem sempre vou dar conta de tudo mesmo e que é muito melhor eu estar inteira no que quer que eu faça, do que jurar que vou chegar em casa todos os dias e fazer milhões de coisas, e depois ficar frustrada porque não consegui fazer tudo ou porque preferi tomar um banho demorado, um chocolate quente e assistir mais um episódio de Supergirl, e aí ir chorar no meu quarto quando a culpa bater porque a vida é uma bosta e eu sou uma fraude.

Mas essa não é uma despedida, muito pelo contrário. Se o blog é um registro dos últimos anos, nada mais justo do que ele refletir o momento que eu estou vivendo. Mas eu volto, eu sempre volto – e aí vamos poder deitar no tapete da sala, abrir uma garrafa de vinho e colocar o papo em dia como sempre. Enquanto isso, quando vocês perguntarem por onde eu ando, saibam que eu estou aqui do outro lado, tentando fazer o melhor que posso sem pirar de vez, arrancando os cabelos eventualmente, mas me sentindo muito feliz e realizada. As coisas estão acontecendo e acho que finalmente temos um motivo para comemorar.

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Torçam por mim, mais uma vez?

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

Come here, please hold my hand for now

Help me, I’m scared please show me how to fight this,
God has a master plan
And I guess
I am in his demand

Então minhas aulas começaram.

Querido leitor, me perdoe por ser repetitiva. Eu sei que a essa altura é bem possível que você já saiba que minhas aulas começaram. Quer dizer, se você me segue no twitter ou assina minha newsletter (o que você está fazendo que ainda não assinou?), é bem possível que você saiba que minhas aulas começaram na última segunda-feira. Mas daí que existem pessoas e pessoas, e ninguém é obrigado a me seguir ou assinar nada (mentira, é claro que vocês são obrigados), então achei que seria importante compartilhar essa informação logo de cara. Até porque, o início do semestre letivo é um evento importantíssimo, que pode definir todo o andamento da minha vida nos próximos meses. É aquela história: dependendo do semestre/professor/trabalho/prova, e de todas as coisas que acontecerem no meio do caminho (elas sempre acontecem em maior ou menos intensidade), talvez eu chegue em julho (ou agosto, sei lá) me sentindo mais ou menos uma pessoa de verdade.

ross

Esse também é meu primeiro semestre como estudante de audiovisual – o que é maravilhoso e terrível ao mesmo tempo. Maravilhoso porque, finalmente, estou estudando algo que realmente me interessa, que é o que eu (acho que) sei fazer e que pode me levar onde eu quero estar – onde quer que isso seja. Eu voltei a gostar de estar na faculdade, voltei a curtir as aulas, voltei a sonhar e fazer planos, e mesmo que eu não acredite em mim o suficiente pra correr atrás de todos eles, pela primeira vez eu sinto que estou no caminho certo e que, eventualmente, posso chegar lá. Terrível porque essa sensação de começar tudo de novo, não do zero, mas exatamente da metade, um ponto onde todas as pessoas já se conhecem, se entendem, um ponto em que é difícil você se juntar e se misturar e passar a fazer parte do todo, é uma bosta bem grande. Por mais que eu conheça pessoas e esteja disposta a conhecer outras, é tudo muito novo e estranho e confuso e eu não sinto como se algum dia fosse fazer parte de verdade do que está acontecendo ali.

i dont know what im gonna do with my life

Conversando com algumas pessoas que viveram ou estão vivendo a mesma coisa que eu, descobri que se sentir deslocado é quase uma regra geral entre aqueles que também resolveram arriscar e pegaram o bonde andando, confiando que o destino, no final das contas, compensaria qualquer perrengue. Porque lógico, né? Se você entra num bonde que já está andando, não dá pra ter certeza de nada, muito menos que vai sobrar um lugar pra você sentar e continuar a viagem confortavelmente. Talvez você fique em pé. Talvez você tenha que se segurar com força pra não acabar desistindo na primeira curva, acreditando que todo esforço é compensando, que o destino, no final das contas, vale o perrengue.

Uma coisa que eu ouvi, aliás, nessa primeira semana e que me marcou demais veio exatamente de uma das pessoas que, assim como eu, passaram por vários vestibulares e vários cursos e tiveram vários amigos e conheceram várias perspectivas até encontrar algo que a fizesse sentir que, finalmente, estava no lugar certo. Eu não quero só um diploma, eu quero ter algo do que me orgulhar, algo que tenha um significado pra mim, que não seja só um pedaço de papel. E enquanto eu ouvia, do fundo da sala, só conseguia pensar: é isso, é isso, é isso.

Eu preciso me apaixonar pelas coisas que faço, preciso me sentir realizada com elas, seja uma festa de aniversário, um blog ou uma graduação, preciso acreditar que elas valem à pena e preciso principalmente me importar com cada uma delas – do contrário, não vou esquentar minha cabeça com algo que não me interessa. Tive a sorte de nascer num ambiente favorável, rodeada por pessoas que valorizam isso, que me deram o privilégio da escolha e sempre me encorajaram a seguir o meu caminho, qualquer que fosse. Por mais que meu pai tenha sonhado a vida inteira com uma filha médica e minha mãe sonhe com uma filha concursada, eles me apoiaram e celebraram cada uma das minhas escolhas, certas ou não, e eu sinto que tenho uma obrigação moral de compensar isso de alguma forma, fazendo o que eu quiser da melhor forma que eu puder. É por isso que, por mais que eu tenha tentado, tentando de verdade, eu jamais seria feliz se passasse o resto da vida com a cara enfiada em planejamentos ou pesquisando sobre coisas que nunca me trouxeram nenhum tipo de satisfação. Reconheço muito do perigo que existe em se satisfazer justamente naquilo que paga as contas e acredito em vários problemas que podem surgir daí, inclusive sofro com alguns, mas eu já passei tempo demais tentando acreditar no contrário, e se não deu certo por quase quatro anos, não é agora que vai dar. Tipo, sem chance.

its really fulfilling doing something you hate for no money

(É possível que, mais uma vez, eu esteja terrivelmente equivocada, mas aí é uma coisa que eu vou ter que descobrir por conta própria)

Começar de novo, não do zero, mas de um lugar totalmente novo, é assustador porque me tira da minha zona de conforto e me coloca de frente com alguns monstros ao mesmo tempo que faz perguntas para as quais eu ainda não tenho uma resposta. O que você quer? Quem você vai ser? O que você vai fazer com a sua vida? Quando você finalmente vai começar a ganhar algum dinheiro? Onde você quer chegar? Quanto tempo você ainda tem? Eu poderia correr e me esconder de tudo e todos, eu poderia simplesmente fugir, que é o que eu mais tenho vontade de fazer na maior parte do tempo, mas aí eu não estaria sendo honesta comigo mesma.

Preciso fazer força para ser corajosa e mostrar pra mim mesma que eu posso, que eu consigo, que eu sou capaz, mesmo morrendo de medo. Não tem um dia que eu não acorde duvidando de mim mesma, pensando que se eu estou nessa sozinha, se eu sou a única irmã das minhas mágoas, a única pessoa capaz de correr atrás dos meus sonhos, então eu não vou chegar em lugar nenhum. Mas aí eu levanto da cama, porque é assim que as coisas começam a acontecer, e de repente: ufa, um dia já foi. Só faltam mais dois anos. É desesperador na maior parte do tempo, mas ninguém disse que seria fácil mesmo. Eu não tenho todas as respostas e não sei se estou perto de encontrá-las, mas temos um caminho inteiro pela frente para descobrir – ainda bem.

Quando comecei a escrever esse texto, pensei que seria só mais um resumão dos últimos dias, com tudo de bom e de ruim que tem acontecido na minha vida, e não um desabafo aleatório sobre ela, mas acho que no fundo eu precisava escrever sobre isso e talvez eu precise de um pouco de ajuda também. Sei que ninguém tem nada a ver com isso, mas só dessa vez, posso pedir pra vocês torcerem por mim? Parece que não faz diferença nenhuma, mas eu juro que a diferença é enorme.

hm

Vai dar tudo certo, né?