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O abismo no meio do caminho

Não lembro exatamente quando, tampouco por quê, mas em algum ponto em meados de setembro, comecei a assistir Gilmore Girls pela segunda vez. Era pra ser um rewatch banal e descompromissado, minha companhia em dias difíceis, noites insones e horas de almoço — às vezes, meu único momento de paz e sossego real ao longo do dia —, mas de repente as coisas começaram a ficar meio estranhas e já não fazia mais sentido assistir qualquer outra coisa ou fazer qualquer outra coisa quando eu simplesmente poderia fugir para Stars Hollow e me deliciar com a existência daquelas pessoas, me solidarizar com seus conflitos, erros e mágoas, e viver uma realidade que parecia tão melhor.

Assim como Downton Abbey, Gilmore Girls se transformou num bote salva-vidas, cujo maior objetivo era me manter sã; o barquinho que impedia meu coração de se afogar. A grande diferença entre as duas, no entanto, é que enquanto em Downton tudo parecia pertencer a uma realidade tão, tão distante — estamos, afinal, falando de uma história que gira em torno uma família aristocrata inglesa e seus empregados, tudo isso ambientado no século passado, um mundo que definitivamente não existe mais —, Gilmore Girls sempre me forneceu um conforto muito mais próximo, como o abraço apertado de alguém que sabe exatamente o que você está passando e entende o quanto pode ser difícil, doloroso e traumático, mas que também reconhece que vai ficar tudo bem. Rory Gilmore, sobretudo na faculdade, sou eu em todos os níveis possíveis, sejam eles bons ou ruins (principalmente os ruins), e existe algo de muito confortável — num nível totalmente pessoal — em ver outra pessoa que não uma amiga, colega ou conhecida viver coisas tão parecidas e ainda encontrar uma saída em meio ao caos.

Não é por acaso que tantas amigas, colegas e conhecidas se identificam com a Rory — e se inspiram nela, e querem ser como ela, e sentem-se profundamente incomodadas pelos erros dela. Ainda que a experiência esteja longe de ser universal, porque contempla uma bolha muito específica de mulheres brancas e privilegiadas, com acesso à educação de qualidade, que nunca tiveram que se preocupar com muito além de serem boas alunas, boas filhas e entrar numa faculdade de prestígio, a trajetória da Rory representa muito dos nossos conflitos internos, que derivam em grande parte por esse estigma de perfeição (a filha perfeita, a aluna perfeita, a namorada perfeita, a neta perfeita, etc etc) que não corresponde à realidade. Crescer significa ser constantemente confrontada pela perspectiva de que ser um floquinho de neve especial é uma missão fadada ao fracasso, que por mais perfeitas que sejamos (ou pareçamos ser), jamais vamos chegar lá. É por isso que gosto tanto da quarta temporada em diante, quando Rory finalmente vai para Yale e começa a caminhar por conta própria. Sem a presença constante da Lorelai — que, talvez pela primeira vez, também já não tem mais todas as respostas —, Rory precisa descobrir sozinha por que e como resolver aquilo que acontece em sua vida, e mesmo que nem sempre tome as decisões certas, ela ao menos está tentando. Muita gente odeia essa nova versão da personagem, que é intensificada no revival, mas eu adoro justamente porque é quando ela se permite ser mais humana. Nos acostumamos a ter esse referencial de perfeição e é por isso que vê-la errar chega a ser tão incômodo, mas é, ao mesmo tempo — e ironicamente, e contraditoriamente — tão libertador.

As coisas dão errado. Elas dão tão errado que às vezes a gente se pergunta se algum dia elas já deram certo, porque não pode ser possível que algo dê tão errado sem que exista um histórico de erros cabeludos por trás. E ainda assim elas dão, porque, bom, essa é a vida. Um dos grandes motivos que me levaram à terapia foi minha incapacidade de lidar com o futuro e o fato de não poder ter uma vida inteira planejada, perfeita, estável, com todos os movimentos calculados previamente. Desde muito nova, eu sabia exatamente o que fazer, como fazer, e mesmo que não soubesse com precisão a carreira que gostaria de seguir — tinha um fraco por algumas áreas —, a certeza de que dali alguns anos eu estaria na faculdade já era suficiente. Mas estar na faculdade transformou tudo: de repente, o próximo passo já não parecia tão óbvio. O que vai acontecer depois? se tornou uma das minhas perguntas favoritas — e também a mais desesperadora delas — e ninguém te conta o quanto pode ser angustiante pensar num futuro que, embora repleto de opções, sempre parece tão abstrato.

Um dos meus momentos favoritos de Gilmore Girls é quando Rory vai para Stars Hollow com Lucy e Olivia, suas novas amigas de faculdade, e elas jogam conversa fora, riem, pintam os cabelos de rosa, roxo e verde, vasculham álbuns de fotos, fazem doces de flocos de arroz, e se divertem de verdade. Mas é ali, em meio a uma banal girl’s night out, que Rory tem seu momento e despenca, confessa que não sabe o que fazer em seguida, chora o fim da faculdade que se aproxima mais e mais, lamenta sua saída da editoria do Yale Daily News, se entrega à todas as dúvidas que a destroem por dentro. Ela sente muito, naturalmente e intensamente, e chora no chão do banheiro com os cabelos pintados de rosa, numa dicotomia que faz todo o sentido do mundo; tão, tão adulta e, ainda assim, tão ridiculamente vulnerável e infantil. Ela não é uma pessoa de verdade, não ainda, assim como a personagem principal de Frances Ha, e há algo de reconfortante ali. Quando permite que suas angústias se transformem em palavras, ganhando forma e tamanhos reais, Rory é um pouco como nós. Em qualquer outra circunstância, ela permitiria que esses monstros a consumissem por dentro, tornando-os uma ilusão menos real, ainda que tão maléfica quanto; mas quando os expõe, ela os confronta realmente — e encontra de volta amor, apoio, carinho e uma compreensão que parte, principalmente do entendimento de que não é a única naquele barco. Lucy e Olivia também se sentem assim; e eu, e vocês aí do outro lado, e todas as garotas do mundo que foram criadas para serem lindos floquinhos de neve especiais, até descobrirem que o mundo era um lugar grande demais para nos limitarmos  a uma caixa. Rory Gilmore não está sozinha justamente porque nós também não estamos.

As últimas semanas foram um processo doloroso de ser muito adulta, o que significa que na maior parte do tempo eu só queria me esconder embaixo das minhas cobertas, fingir que jamais tinha existido e que todas as merdas que já havia feito não eram problemas meus, tampouco minha responsabilidade. Foram tombos atrás de tombos, atrás de outros tantos tombos, até que eu não quisesse mais me levantar, mas ser adulto é levantar uma, duas, três vezes — e levantar rápido —, só para cair de novo, dessa vez por um motivo completamente diferente. Foi preciso me lembrar constantemente que falhar não era o fim do mundo — nem da minha carreira ou da minha vida —, que errar era humano e que não fazia o menor sentido chorar por erros que chegaram muito perto de acontecer, mas não aconteceram de verdade. Tive a sorte de contar com pessoas nesse meio tempo que tinham a paciência e firmeza necessárias para lembrarem que nem tudo estava perdido e me mandar engolir o choro e voltar ao trabalho, mas que também me abraçaram e confortaram, que me lembraram que todos os êxitos pesavam mais do que as falhas que sempre pareciam monstros tão maiores e assustadores com os quais lidar na minha cabeça.

Ao mesmo tempo, quando tudo acabou, foi preciso lidar com o fim de algo que vinha me consumindo por inteiro, pro bem e pro mal, e ao qual me apeguei profundamente; chegar ao fim foi como me sentir órfã e descobrir que, embora o cansaço e o desgraçamento fossem reais, e não sobrasse uma roupa limpa no meu armário, eu não queria que aquilo terminasse. Eu sentia falta da rotina, das pessoas, dos problemas que pareciam impossíveis de serem resolvidos, até acontecerem como num passe de mágica, porque a magia do cinema existe também — e principalmente — nos bastidores. No último dia, nós nos abraçamos longa e fortemente, trocamos mensagens fofas, celebramos o quanto aquela experiência havia sido incrível, mas dois dias depois, sozinha e de pijamas no meu quarto, eu só conseguia me sentir terrivelmente perdida, como se um pedaço grande e importante de mim tivesse ido embora. Eu tinha mergulhado em um oceano inteiro de emoções, conflitos, altos e baixos, sem que tivesse tempo de respirar antes de enfiar cabeça e corpo inteiros na água — o que poderia ter sido traumático, é verdade, mas foi uma das melhores experiências que eu podia ter tido, e principalmente vivido; e eu vivi, cada segundo. Eu coloquei não apenas os pés na água, mas me joguei inteira, sem saber direito o que me esperava, e foi incrível. Estar de volta ao meu quarto escuro foi como me sentir presa depois de experienciar a imensidão azul incontrolável, totalmente sem limites do mar, e depois sequer poder sentir o vento na cara.

Em “French Twist”, é a saída do Yale Daily News que faz a Rory ter essa percepção de que as coisas estão acabando; ela saíra do jornal, em breve sairá da faculdade e, de repente, não tem nenhum emprego para ir, nenhuma pós-graduação para começar. Pra mim, o fim das gravações é o que marca esse momento. Porque tudo está acabando. Ainda existem projetos a serem produzidos, experiências a serem vividas, mas o fim parece mais próximo do que o início. Há uma melancolia sobre o fim, que começa muito antes do efetivo ponto final. E mesmo assim, nada disso deixa de ser extremamente natural — terrivelmente, dolorosamente, mas ainda assim. Como um reflexo pouco surpreendente, a ansiedade voltou com força total, voltei ao antigo e reconfortante — porém problemático — hábito de arrancar meus cabelos e uma atrás da outra, embalagens de comida chinesa começam a se empilhar no lixo da minha cozinha. Nada parece casual, no entanto. Que tudo passa é uma certeza com a qual posso sobreviver — só para começar de novo e de novo em outro lugar. Eu sou Rory Gilmore de cabelos cor-de-rosa, chorando no chão do banheiro, apavorada demais com aquilo que me reserva o futuro — mas isso também vai passar.

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8. Your favorite internet friend

Inspirado nesse desafio incrível aqui.

Querida Y.

A primeira vez que escrevi pra você foi em abril, logo após meu retorno de São Paulo. Eu tinha pisado na cidade pela primeira vez e, naqueles dias, nós tínhamos feito planos, muitos planos, mas não concretizamos nenhum; ainda que precisássemos desesperadamente que eles se realizassem. Não é preciso lembrá-la de nenhuma dessas coisas: cada uma delas foi registrada na carta que te enviei naqueles dias, e você sabe, como eu sei, porque as viveu também. Mas o que eu nunca disse é que, naquela época, cheguei a temer pelo nosso futuro. Temi que a culpa que insistíamos em tomar para nós se tornasse um obstáculo em nosso caminho; que construíssemos muros altos demais, numa tentativa de evitar a mágoa e a frustração, até que eventualmente eles se tornassem intransponíveis. Lembro de me sentir profundamente culpada, e lembro de você se sentir também, não porque havia uma culpa real, mas porque somos humanas e insistimos em encontrá-la em algum lugar. Não havia como culparmos uma à outra, então culpamos a nós mesmas. Quando minha carta chegou até você, no entanto, eu soube que ficaria tudo bem. De um jeito bobo, porém muito honesto, ela fez com que eu me sentisse conectada com você, como se o fato de você estar finalmente segurando aquela caixa, aquela carta, aquele presente que um dia esteve comigo e de repente estava com você, mudasse absolutamente tudo. E mudava.

Gosto dessa história porque acredito que ela sintetiza perfeitamente um medo que, pra mim, sempre foi muito real: o de que, eventualmente, eu estragaria tudo. Não é como se nunca tivesse acontecido, como se eu nunca tivesse sido corroída pela culpa de estragar algo que parecia tão perfeito e precioso até não ser mais, e naquele momento parecia uma questão de tempo até que acontecesse de novo. Então você apareceu e, do jeito mais doce possível, me mostrou que as coisas podiam ser diferentes. Me surpreende até hoje a forma e a velocidade com que nos aproximamos – parecia improvável que após tanta coisa, eu pudesse me doar novamente de forma tão honesta, que eu pudesse confiar em uma amizade que não me deixaria de lado assim que aquilo que existe de mais feio em mim viesse à tona. Mas as barreiras que construí ao meu redor e que me mantinham protegida do mundo nunca pareceram funcionar com você. Talvez nunca tenha te dito isso, mas em nossas primeiras conversas, era assustador ver nossas mensagens ficarem tão grandes e como, de repente, assuntos banais do nosso dia a dia ganhavam contornos mais densos e se tornavam textos enormes sobre a nossa vida, nossas angústias, nossos medos. Nunca antes consegui ser tão profunda ou expor detalhes tão complexos da minha personalidade e da minha vida para alguém que conhecia há tão pouco tempo. De forma parecida, também era fascinante o fato de você retribuir na mesma intensidade e falar sobre a sua vida de forma tão aberta para uma pessoa que, até pouco tempo, não estava ali. Hoje, me parece impossível imaginar uma vida sem nossas longas conversas que jamais têm fim, sem a sua presença constante na minha vida.

As pessoas percebem que há algo de especial entre nós, que existe uma conexão profunda e única. Tenho a sorte de ter muitas amigas e todas elas são minhas melhores amigas, mas quando coloco em perspectiva, sempre me parece que estamos em uma página diferente do resto do mundo, quase como se nossa amizade existisse em uma realidade paralela que é apenas nossa, e não há explicação alguma para isso exceto de que algumas coisas estão predestinadas a ser. Não deixa de ser curioso, no entanto, que nossa amizade tenha se construído justamente no momento em que mais precisávamos uma da outra – o que me faz acreditar cada vez menos em acaso e mais em uma força divina que faz com que as coisas aconteçam quando e como devem. Tenho a sensação de que somos nós contra um mundo inteiro de coisas horríveis e monstros, fantasmas e dragões – o que talvez seja verdade, mas me parece muito mais possível encarar esse mundo de frente quando tenho você para segurar minha mão.

Muito é dito sobre almas gêmeas de um jeito romântico, mas nunca me disseram que era possível encontrar esse tipo de conforto e completude em uma… amizade. Me sinto muito sortuda por ter encontrado a minha metade, que não fosse a internet, talvez estivesse perdida até hoje nesse vasto mundo. Em você, baby girl, eu encontrei alguém capaz de desenhar um mundo junto comigo, um mundo onde a gente precisa de muito pouco para ser feliz, onde passamos horas flutuando no mar, a barriga pra cima e os dedos fora da água, as mãos dadas, os olhos fechados por causa do sol; um lugar perfeito que não precisa ser físico para existir onde realmente importa: dentro de cada uma de nós.

Existe uma infinidade de coisas que eu gostaria de dizer nessa carta – algumas, eu tampouco poderia -, mas falar sobre elas me parece muito pequeno quando vivemos e fizemos tanto, como crescemos nesse período e como, pouco a pouco, temos nos tornado mais fortes. Um ano parece pouco tempo, e talvez seja de fato, mas cada vez mais tenho entendido que tempo é algo muito relativo – e o nosso é apenas nosso. Você é como um passarinho que voa comigo, o barquinho que jamais deixa meu coraçãozinho se afogar, a luz que me faz enxergar o melhor em mim e que me inspira todos os dias a ser uma pessoa melhor. Obrigada por dividir sua história comigo e permitir que, nessa vida tão efêmera, possamos dividir uma jornada tão bonita e especial. Que nesse mar de incertezas em que navegamos, as dúvidas sejam sempre infinitas, e que sempre encontremos na outra um lugar para chamar de lar.

Com todo o amor do mundo,

Ana Lee

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Formas de voltar para casa

De Brasília até Correntina percorre-se pouco mais de 530km; mais ou menos cinco horas se você estiver de carro, um pouco mais se estiver de ônibus. Não é uma viagem longa, tampouco cansativa, e não exige muito mais do que vontade e alguns trocados para ir até lá. Quando era pequena, qualquer feriado era motivo para sair de Brasília rumo à Correntina, e eu sempre gostei como, mesmo muito nova e impaciente, as coisas se moviam do lado de fora. De dia, o céu muito azul se desloca, acompanha, faz desenhos com suas nuvens brancas como algodão, enquanto a estrada, o cerrado e as imensas plantações que até hoje não sei bem do que é, são as únicas coisas no chão. Minha mãe sempre dizia para não olhar as árvores por muito tempo, nem tão fixamente; do contrário, eu poderia passar mal; mas eu desobedecia todas as vezes porque parecia injusto deixar aquela paisagem tão bonita passar batido. Eu imaginava quem morava ali, quem cuidava de tudo aquilo, se existiam pessoas, casas, vida depois daquelas pequenas estradas de chão feitas no meio do nada, e gostava de imaginar como seria morar ali, como seria estar tão distante de tudo. Na época, internet ainda era algo muito restrito, uma mordomia limitada aos moradores das grandes capitais, mas nem mesmo o telefone, uma coisa tão básica, parecia funcionar naquela terra de ninguém.

À noite, são as estrelas que acompanham tudo isso e iluminam a paisagem que, do contrário, desapareceria em meio à escuridão. O céu do interior é sempre mais bonito, mais limpo, é muito fácil enxergar as estrelas ali. Da última vez que viajamos, eu e Guilherme procuramos estrelas, constelações, satélites, e era possível ver tudo ali de baixo. Ao mesmo tempo, eu pensava em filmes de terror; espantalhos que acordavam no meio da noite em uma plantação qualquer e se alimentavam de viajantes desavisados, zumbis que passeavam sozinhos como aquele da abertura de The Walking Dead. Como seria viver em um mundo destruído pela praga? Como seria caminhar por aquelas estradas rumo a lugar nenhum? Como seria viver no meio de um apocalipse zumbi? Sempre lembro do Hershel, que morava no meio do nada e, por muito tempo, conseguiu manter a família afastada da realidade, mais ou menos alheia ao que acontecia fora da fazenda. Mas a que preço? Nunca disse que não tinha uma imaginação fértil, mas são esses pensamentos e essas histórias cabeludas que me confortam enquanto, pouco a pouco, me entrego ao sono.

Estar na estrada é diferente de chegar ao destino. Em Correntina não existem zumbis, não existem espantalhos assassinos, não existem celeiros lotados de monstros que comeriam meu cérebro na primeira oportunidade. Mas existem histórias. Boa parte dessas histórias são o que me motivam a voltar pra lá sempre que possível, a entrar em contato com minhas memórias, mas principalmente com um passado que não é diretamente meu. Eu sei que estou em casa muito antes de ver as luzes da cidade, muito antes de sequer entrar na rua Coronel Flores ou na casa dos meus avós, mas quando desço a ladeira de paralelepípedo e ouço o barulho do rio, é quando me lembro que boa parte da minha história começa ali. Mais de um século atrás, meu avô nascia naquela mesma cidade, e antes disso sua família – que eventualmente se tornaria minha – já habitava aquelas ruas, construíam suas próprias narrativas. Estamos em todos os lugares. Quando viajo de ônibus, só o fato de estar parada na rodoviária me lembra que tudo está carregado de história: antes de ser a rodoviária da cidade, aquele terreno pertenceu ao meu avô, e foi ele que o vendeu para a prefeitura da cidade muito, muito tempo atrás construir um lugar onde as pessoas pudessem embarcar e desembarcar de forma apropriada, e os ônibus não precisassem parar em lugares aleatórios no meio da cidade. Guilherme sempre brinca que meu avô era dono da cidade, porque nas histórias ele sempre conhece todo mundo e é dono de todos os lugares, mas isso não é verdade, muito embora ele de fato conhecesse muitas pessoas e fosse dono de muitos lugares.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que teve início a Primeira Guerra Mundial; dois acontecimentos que parecem muito, muito distantes, mas não tão distantes assim. Ele nasceu e cresceu na cidade, assim como seus irmãos e seus filhos depois dele, e não é difícil entender por quê ele sempre esteve tão presente, como ele conhecia tantas pessoas, como praticamente todos os moradores daquela pequena cidade no interior da Bahia dividiam algum tipo de parentesco com ele e, consequentemente, com todo o resto da família. Minha prima Renata costumava dizer que sempre que íamos pra Correntina, a gente descobria a existência de um novo parente, e é verdade. Se não fossem parentes legítimos, eram amigos suficientemente próximos para serem considerados parte da família; amigos dos meus avós que viram seus filhos crescerem e se tornarem amigos, brincarem nas mesmas ruas e das mesmas coisas até o dia que começaram a sair da cidade em busca de uma vida melhor e ter os próprios filhos. A minha geração não é tão próxima justamente porque somos fruto de outros lugares – Brasília, Salvador, Goiânia -; mesmo nas férias, era difícil forçar uma amizade que durava no máximo algumas semanas. Foi um laço que, inevitavelmente, se perdeu com o tempo, ainda que, daqui alguns anos, as únicas pessoas que vão se lembrar dessas histórias e dessas pessoas seremos nós. Eu tenho medo do esquecimento, eu tenho medo de pensar que meus filhos jamais vão conhecer meu avô, que tudo que eles vão saber sobre ele será a partir de memórias minhas e da minha mãe, e essas jamais terão o mesmo significado, porque não fazem parte daquilo que eles viveram. Mas tudo vai continuar ali, na cidade.

Meus avós se casaram na mesma igreja branca com detalhes azuis que fica em frente à praça, ao lado da antiga delegacia e do Hotel de Vivi, que há muito já não hospeda ninguém. Minha avó se casou de preto, porque esse era o único vestido de festa no seu armário, já com quase 30 anos, numa época em que mulheres da idade dela já eram consideradas velhas demais para o casamento. Tudo foi feito às pressas, no dia do aniversário dela; meu avô também já não era nenhum menino e os dois se conheceram de maneira inesperada, quando minha avó ainda não morava em Correntina e estava noiva de outro rapaz. Ela rompeu o noivado para se casar com meu avô e, cinquenta anos depois, os dois celebrariam bodas de ouro naquela mesma igreja – dessa vez, com minha vó usando um belo conjunto nude e dourado. Foi uma noite linda, que se estendeu madrugada adentro, numa imensa festa no hotel, e eu percebi o quanto minha família era importante e amada na cidade. Eu não conhecia aquelas pessoas, muitas delas também não me conheciam, mas todos estavam ali pelo mesmo motivo: celebrar o amor de duas pessoas que eles amavam profundamente. Ao longo da festa, muitas dessas pessoas subiram no palco e homenagearam meus avós – com músicas, poesia, discursos e histórias – e a cada uma delas eu sentia mais e mais orgulho de pertencer a essa família, de ser fruto dessas narrativas.

A última vez que entrei naquela igreja foi em 2009, na missa de corpo presente do meu avô. Tudo aconteceu muito rápido e de repente; nós fomos todos pegos de surpresa. Ele não estava doente, na verdade ele não poderia estar melhor, até que, de repente, não estava mais. Eu nunca chorei tanto em toda a minha vida, ou sofri tanto e quis tanto poder voltar no tempo. Mas foi no meio da tristeza que, mais uma vez, senti orgulho por fazer parte dessa família, por não apenas ter conhecido um homem tão especial quanto o meu avô, mas por tê-lo chamado de avô e ouvido de volta ele me chamar de passarinho. Todas as pessoas que o amavam estavam ali mais uma vez, e elas relembraram histórias, choraram, disseram palavras lindas e nos encheram de… amor. Eu nunca me senti tão triste em toda a minha vida e, ainda assim, poucas vezes me senti tão amada e confortada. Nunca mais entrei naquela igreja – menos por uma decisão consciente, mais porque as oportunidades se tornaram cada vez mais escassas -, mas quando penso em casar no religioso, penso em fazê-lo lá, numa tentativa ambiciosa e meio ridícula de continuar a escrever essa história e ligar o passado a um presente que parece se importar cada vez menos com aqueles que vieram antes dele.

Enterrei meu avô no mesmo lugar em que meus bisavós estão enterrados, e acho que foi naquele momento que me dei conta da quantidade de histórias que moravam ali. Eu podia ou não assumir aquelas histórias como minhas, podia ou não dar continuidade à elas, mas elas continuariam existindo naquele lugar – nas ruas de paralelepípedo, nas casinhas coloridas com piso cimentado, nas ladeiras, tantas ladeiras, no rio que corta a cidade ao meio, nas pessoas, principalmente nas pessoas. São muitas histórias, e ainda que a vida tenha me ensinado que o tempo é capaz de apagar muitas coisas, talvez o esquecimento não seja a regra. Talvez exista uma maneira de preservar esse passado, talvez eu não seja a única preocupada em resgatar e registrar essas lembranças.

Faz muito tempo que não coloco meus pés em Correntina, mas cada vez que estou lá, é como estar novamente em casa. Gosto, especialmente, quando viajo à noite e de ônibus porque sempre chegamos de madrugada, num horário cedo demais para alguém estar acordado, mas tarde o suficiente para ninguém perambular pelas ruas, e é enquanto caminhamos no escuro e em silêncio até a casa da minha avó, que eu sinto a vida que existe ali e, inevitavelmente, me sinto muito viva também. Viva de um jeito idiota. Viva de um jeito que só a ideia de herança e passado e todas essas bobagens que ninguém se importa, mas eu me importo demais, te dá. Então eu penso no meu avô, e penso na minha mãe brincando com filhotes de ratos naquelas ruas, dando os primeiros beijos, indo às primeiras festas. Na minha avó brigando com minha tia avó que esse ano completou cem (!) anos e a cidade inteira comemorou junto com ela. Penso no rato que caiu do telhado em cima da cama quando minha avó estava grávida do seu primeiro filho e meu avô, que disse que aquilo obviamente não ia acontecer, ficou desesperado. Nos quartos que hoje têm vídeo game e computador, mas que um dia tiveram posteres do Roberto Carlos cobrindo as paredes. Na minha mãe correndo apavorada de uma vaca. Do meu avô distribuindo leite, cuidando com carinho do gado, admirando o canto do sabiá. Tudo isso é também uma parte de mim – indireta e distante, mas ainda assim. Eu, que brinquei naquelas ruas, que chorei olhando aquelas estrelas, que corri com galinhas, nadei naquele rio; que vivi coisas realmente horríveis, mas outras incríveis, especiais.

Quando era mais nova, me ressentia por não ter origens mais interessantes, por minha vida começar numa cidadezinha no interior da Bahia, pelo meu sobrenome não ser tão único e diferente. Hoje, no entanto, só posso dizer que estar ali é como estar de volta ao lar – e eu nunca senti tantas saudades desse lar.

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A menina mais bonita da faculdade

Existem pessoas e pessoas no mundo – eu, certamente, sou uma pessoa de camiseta e calça jeans. Quem disse isso fui eu mesma, em uma conversa com algumas colegas da faculdade, alguns semestre atrás. Recentemente, lembrei dessa conversa, enquanto conversava com a Michas sobre nossa necessidade cada vez menor de investir em peças mirabolantes de roupas e gastar nosso dinheiro naquilo que realmente usamos e que tem a nossa cara. A princípio, esse não foi um movimento consciente, mas algo que surgiu com o tempo, e depois de tentar ser Blair Waldorf com tanta força – quando vestidos infinitos e tiaras e sapatos de salto foram minha realidade -, voltar para minha calça jeans, minhas camisetas e minhas jaquetas de couro e botinhas de todos os dias parece estranhamente reconfortante.

Na conversa, eu e a Michas chegamos à conclusão de que muito disso acontece porque, inevitavelmente, a gente cresce, aprende do que realmente gosta e paramos de tentar ser alguma coisa além de nós mesmos. Não que eu não goste de usar coisas diferentes, pelo contrário: meu armário é uma salada de referências, mas ainda existe uma linha que liga todas elas ao todo, porque a essa altura já conheço meu estilo e meus gostos o suficiente para saber a diferença entre o que acho bonito e aquilo que realmente cabe no meu dia-a-dia e conversa com o resto do meu guarda-roupa. Hoje, quando olho pro meu guarda-roupa, consigo me enxergar inteira ali, e é com um orgulho meio besta que digo isso; foi um longo processo até chegar aqui, que vem acontecendo desde 2009, quando comecei a me interessar de verdade por moda, e foram anos de compras, doações, erros e acertos até que eu finalmente tivesse um acervo inteiro que gritasse meu nome.

Nada disso, no entanto, me impede de admirar outras pessoas e seus estilos tão peculiares de longe, num exercício quase antropológico de observação. Na faculdade, especialmente, isso acontece com demasiada frequência, porque as pessoas são muito estilosas e levam esse negócio de se vestir muito a sério. A gente percebe quando alguém acordou atrasado e pegou a primeira roupa que viu na frente; ou então quando se esforçou um pouco mais, quando tem algum compromisso depois da aula, quando começa a trabalhar, fora todas as camisetas que dizem mais do que muitas palavras vão ser capazes de expressar. São coisas bestas, é claro, mas que são facilmente percebidas quando você passa algumas semanas analisando a roupa de alguém, o que é interessante de um jeito meio tosco, mas ainda bastante honesto. O bom de ser uma pessoa que observa antes de qualquer outra coisa é justamente perceber essas nuances, o suficiente para alimentar uma admiração inusitada que cresce a cada novo lukinho inspirador, o que às vezes me faz, literalmente, ter uma queda por pessoas que nem conheço, me apaixonar e desejar ser amiga delas de um jeito bem bobo e retardado.

Foi mais ou menos assim que conheci a menina mais bonita da faculdade, ou melhor dizendo, comecei a prestar atenção nela. Era o primeiro semestre de 2016 (não confirmo nem nego que abri meu histórico para conferir a data, risos) e uma das disciplinas que peguei naquele período – que agora parece tão distante – era estética. Era um horário duplo de quase quatro horas, com um intervalo de vinte minutos no meio, nas manhãs de segunda-feira, um dia que, por si só, evoca preguiça e má vontade na hora de se vestir. A maioria das pessoas se vestia de um jeito meio preguiçoso, com variações de moletons e jeans, que era mais ou menos o que eu costumava – e costumo até hoje – usar também. A menina mais bonita da faculdade não. Diferente de todos nós, meros estudantes e nossas roupas que mais pareciam pijamas, ela sempre parecia ter saído diretamente de um mangá com garotas estilosas ou de alguma série como Gossip Girl, onde todas as pessoas se vestem incrivelmente bem, mas nem sempre de um jeito óbvio de quem segue tendências à risca. Suas composições sempre mesclavam peças muito comuns com outras que pareceriam estranhas em qualquer outra pessoa; mas não nela, que era estilosa o suficiente para segurar cada uma com louvor. Laços imensos e vermelhos ganhavam espaço em meio ao jeans e camiseta de todos os dias, tiaras de gatinho eram combinadas com vestidos e meias coloridas, enquanto botinhas e saias midi davam as mãos e rodopiavam de um jeito inesperado e incrivelmente certos, quase como se tivessem nascido para viver ao lado um do outro para sempre. Tenho certeza que se fosse eu usando uma combinação daquelas, qualquer uma delas, o fracasso seria certo, mas isso não me impedia de todas as manhãs de segunda-feira – e às terças, quando pegávamos história do cinema juntas; e depois cinema brasileiro, todas as sextas no semestre seguinte – admirar aquela pessoa e suas roupas sempre tão bonitas e curiosamente despretensiosas, quase como se fosse a coisa mais óbvia do mundo amarrar o cabelo com um laço vermelho gigantesco. Como não pensei nisso antes?

Logo descobri que não era a única que admirava o estilo pouco convencional – para o padrão já pouco convencional das pessoas de humanas – da menina mais bonita da faculdade: conversando com a Nayara, minha parceira de ideias cabeludas e entusiasta de crushes esquisitos, descobri que ela também a observava de longe e admirava seu estilo, e queria ser amiga dela, e queria ser como ela. Longe de ser uma pessoa de camiseta e calça jeans (ao menos, não o tempo inteiro) ou de moletom, mas alguém cujo estilo me inspira profundamente, ela também estava encantada pela beleza daquela garota, pelas suas roupas bonitas demais e tão fora da nossa curva de gente de humanas. Ela realmente parecia ter saído das páginas de um mangá ou de uma série cheia de jovens ricos e estilosos, e era incrível poder assisti-la acontecer na nossa frente. Somos tão idiotas que chegamos ao ponto de realmente soltar gritinhos de admiração todas as manhãs de um jeito bem retardado. Pegamos outras matérias juntas e quase sempre era um repeteco do dia anterior: nós literalmente soltávamos gritinhos de empolgação a cada novo lukinho e confidenciávamos o quanto era incrível que, naquele antro de gente maluca e descolada, era incrível que ainda existissem pessoas capazes de se vestirem de um jeito tão original e lindo de morrer.

Dividi todas essas impressões com a Yuu, minha guru de estilo e de todas as outras coisas importantes da vida, e foi maravilhoso ter alguém que, mesmo à distância, entendia essa obsessão idiota por roupas bonitas e estilos tão diferentes do meu, ainda que na prática eu não fosse efetivamente usar nada daquilo. A Yuu é uma pessoa que também tem um estilo muito diferente do meu, mas é incrível como a gente se entende e muitas vezes gosta das mesmas coisas, muito embora as usemos de formas completamente distintas. Mesmo sem ver, ela também se encantou pela menina mais bonita da faculdade e dividiu aquele momento comigo sem nem pensar duas vezes. Eventualmente, ela me perguntou se eu não tinha uma foto ou o link de uma rede social que pudesse dar um rosto à pessoa e ilustrar melhor os lukinhos que ela só conhecia de tanto me ouvir falar. Como pessoas da internet que somos, parecia meio óbvio que pessoas bonitas e descoladas ostentassem redes sociais à altura, mas a verdade é que isso nem sempre acontece, não é? Porque as pessoas nem sempre estão interessadas em manter um feed bonito ou dirigir artisticamente suas vidas e só mostrar aquilo que é impecavelmente bonito e agradável, como num filme do Wes Anderson. Eu sou essa pessoa – de moletom e pijama, mas bear with me – e a maioria das pessoas que conheço também são; mas essa é só a bolha que eu vivo, e não necessariamente a mesma que vivem todas as pessoas que cruzam meu caminho.

Não há nada de errado em viver nessa bolha – exceto, talvez, pela limitação meio tosca que a gente se impõe em nome da estética -, em pensar no look do dia já mirando na foto pro instagram, em pensar numa paleta de cores para o próprio feed, etc etc, mas não deixa de ser meio engraçado (de um jeito mais ou menos curioso) que existam pessoas por aí que não dão a mínima pra nada disso, que estão muito bem e felizes vivendo suas vidinhas sem a necessidade de um registro artístico que capte esses momentos de um jeito ou de outro, ainda que de uma forma pouco genuína ou natural; que, na realidade, não poderiam se importar menos. Eu me importo um bocado com esse tipo de coisa, de um jeito que às vezes beira o inconveniente. Minha psicóloga riu alto quando comentei o desgosto que era ver uma menina tão bonita e estilosa desperdiçar sua existência na internet com tantas fotos ruins e mal ajambradas, umas iluminações cagadas e uns filtros toscos que qualquer pessoa em sã consciência preferiria fingir que nunca existiu, mas conversando com ela naquela mesma sessão, cheguei à conclusão que esse outro lado também podia ser bacana e interessante, ainda que não fosse o meu tipo de bacana e interessante. Continuava frustrada por não ter o registro daquelas combinações inusitadas e maravilhosas de roupas, assim como me irrito sempre que vejo uma pessoa linda demais para o seu próprio bem que não mantém um perfil decente nas redes sociais ou então uma celebridade que se preocupa tanto com essa coisa de, hm, internet, que nem sequer se dá ao trabalho de abrir uma conta no instagram (Eva Green, estou olhando pra você). Mas será que isso realmente importa?

As pessoas viveram anos, séculos, se vestindo muito bem e sendo muito maravilhosas sem a menor preocupação em manter um registro disso, e por mais que esses registros existam, quase nunca se trata de mostrar para outras pessoas o que se está usando, mas guardar para si aquilo que importa: o momento; e os sorrisos, e as lágrimas, e as coisas bonitas demais para serem colocadas em palavras. Sem saber, a menina mais bonita da faculdade me ensinou que a gente deve se vestir primeiro pra si e só depois pros outros – se é que devemos mesmo nos vestir pros outros – e que muito melhor do que manter registros das nossas roupas propositalmente descoladas é lembrar dos momentos em que elas foram usadas. O vestido comprado especialmente para ver sua amiga casar. A blusa que você estava usando quando beijou seu namorado pela primeira vez. O tênis que voltou para casa todo sujo depois do show da sua banda favorita. Ainda sou a pessoa que se importa demais com fotos bonitas, que registra os próprios lukinhos na frente do espelho (e gosta disso), e que apaga sem dó uma foto que não combina com o resto do feed; mas cada vez menos tenho me importado no que mostrar para os outros e sim naquilo que aquelas fotos – aqueles registros – significam pra mim.

Hoje, a menina mais bonita da faculdade já não é mais uma mera desconhecida que admiro à distância: não somos exatamente amigas, mas já não somos distantes também e até dividimos alguns trabalhos juntas e conversas banais, o que é mais do que posso dizer de muita gente que estuda comigo. No final do semestre passado, dei um abraço apertado nela quando, depois da minha apresentação, ela disse que votaria no meu filme e pediu para ser diretora de arte nele, caso fosse o vencedor. O filme não ganhou, mas a confiança dela no meu roteiro foi uma das coisas mais preciosas que podia receber naquele momento e significou muito, muito mesmo – daí o abraço. A essa altura, já sei que ela também tem seus dias de moletom e calça jeans, que nasceu no Japão e é um ano mais velha do que eu, e que não é exatamente a pessoa mais fofa do mundo como seu visual e sua voz doce às vezes entrega, mas pra mim ela ainda é a menina mais bonita da faculdade, e vai continuar sendo até o dia que vestirmos uma beca para pegar nossos diplomas, e ela inevitavelmente se destacar no meio de todo mundo, mesmo usando uma roupa bizarra e cafona. Mal posso esperar.

 

PESSOAL

Abraçando o overshare

Vira e mexe alguém me pergunta se não é incômodo ou meio esquisito esse negócio de compartilhar a vida na internet. Sempre fico sem saber o que responder, especialmente porque, na maioria das vezes, quem pergunta não está realmente interessado numa resposta, mas em dar sua opinião. Eu jamais aguentaria expor minha vida desse jeito, é o que eles normalmente dizem, enquanto eu sorrio e aceno de um jeito mais ou menos simpático. Escrever sobre a própria vida e permitir que outras pessoas tenham acesso é, como qualquer outra coisa na vida, bom e ruim. Na maior parte do tempo, o bom pesa muito mais, e é por isso que continuo fazendo isso – ainda que o ruim também exista. É esquisito e às vezes incômodo, mas é incrível pra caramba na maior parte do tempo.

Na semana passada, conversando sobre isso com Guilherme, descobri que ele também acha meio desconfortável esse negócio de namorar alguém que não apenas escreve, mas que expõe, em alguma medida, a própria vida na internet, e eu entendo, da mesma forma que ele me entende e respeita de volta; que é o que importa, no final das contas. Muita gente diz que minha escrita é, ao mesmo tempo, muito pessoal e muito sentimental, e eu concordo. Ainda existem barreiras, é claro, mas elas são muito tênues e são muito mais uma orientação do que, necessariamente, um muro intransponível. Me expor um pouco além da conta é o preço. Tenho certeza que, depois de descobrir e ficar horrorizado com a existência do Gato Curioso (Deus tenha misericórdia da alma inocente do meu homem) (me sigam), ele certamente teria um ataque com a ideia de um post que não serve pra nada – absolutamente nada – além de expor fatos aleatórios sobre a minha pessoa e minha vidinha sem graça, mas ainda bem que a Pessoa Que Escreve™ nessa relação ainda sou eu, risos.

1. Embora não me importe com o fato de ter cabelos brancos, me incomoda profundamente a necessidade que as pessoas têm de me lembrar que eles estão ali. Eu já sei, disso. Eu me olho no espelho todo santo dia, pelo menos duas vezes ao dia. Eu realmente não preciso que ninguém me lembre da existência deles o tempo inteiro.

2. Quando era mais nova, as pessoas costumavam dizer que eu era parecidíssima com meu pai. Hoje, elas costumam me achar mais parecida com minha mãe.

3. Pijama é um dos meus presentes favoritos da vida, ainda que eu dificilmente vá usá-los. A verdade é que, em casa prefiro dormir com camisetas imensas e meio velhas, quase sempre roubadas do guarda-roupa de Guilherme, e um shortinho xexelento de mil anos atrás já até ganhou pernas e passeia sozinho pela casa, como minha mãe costuma dizer. Pijamas só são usados quando durmo fora de casa ou quando viajo com pessoas que não estão acostumadas com meus trajes pouco convencionais.

4. Entre as coisas que mais odeio sobre a megalomania da Marvel, a principal é a nova abertura dos filmes, que sintetiza muito bem o conceito de: farofa. Kevin Feige claramente perdeu completamente a noção do ridícula e agora só nos resta sentir saudade das páginas passando que eram suficientes para fazer nossos corações sofredores baterem mais forte.

5. Já dormir falando no telefone, risos.

6. Um dos incisivos (?) centrais (???) precisou de ajuda para nascer. A verdade é que meus dentes são relativamente grandes e, quando os dentes de leite começaram a cair, o incisivo – qual é realmente uma questão – decidiu que não daria conta de nascer sozinho. Foi preciso que minha mãe me levasse ao dentista para resolver a situação, mas hoje todos os envolvidos passam bem e, embora meus dentes estejam longe de serem perfeitos (dois anos de aparelho pra nada, etc etc), eu gosto bastante de todos eles.

7. Adoro conversar sozinha na frente do espelho e dar entrevistas na hora do banho ou quando estou dirigindo sozinha. A maioria dessas conversas são feitas em inglês, risos.

8. Foi só no ano passado que comecei a tomar café de verdade, num misto de desespero para me manter acordada e vontade. Hoje não consigo viver sem, ao ponto de sentir falta quando fico muito tempo sem beber um cafézinho sequer. Além disso, uma das minhas horas favoritas do dia é, justamente, quando paro para tomar café – seja de manhã, após o almoço ou no final da tarde.

9. Passei a maior parte da minha vida morando em apartamento, o que significa que toda a minha infância foi vivida embaixo do prédio e boa parte das minhas primeiras amizades e memórias foram construídas ali. Uma das minhas brincadeiras preferias nessa época era tocar campainhas aleatórias e sair correndo depois. Em uma dessas vezes, no entanto, eu toquei a campainha e, em algum momento entre tocar e sair correndo, acabei fazendo xixi no corredor. Não foi a primeira vez que fiz xixi na roupa e fora de casa, porque achei mais fácil prender do que correr de volta pra casa ou pedir para ir ao banheiro. Aos seis anos, na escola, fiz xixi no meio da aula e me molhei inteira na frente de todos os meus colegas porque fiquei com vergonha de pedir para a professora para usar o banheiro. Lembro como se fosse ontem de ser levada pra casa mais cedo pela minha mãe, que teve que sair correndo para me buscar e trocar minha roupa, e da minha professora dizendo que eu não precisava ter vergonha, que era só pedir da próxima vez e tudo bem. Curiosamente, tive bem menos vergonha de estar mijada do que de pedir permissão – o que diz muito sobre a pessoa que eu sou até hoje -, e mesmo que meus colegas nunca tenham esquecido essa história, nunca me incomodei quando ela era desenterrada – pelo contrário.

10. A primeira vez que fui ao cinema sozinha foi no mês passado, numa cabine para imprensa do novo filme do Selton Mello. Foi uma experiência realmente incrível – eu e a tela, completamente sozinhos, embora existissem outras pessoas na sala – e o tempo todo me perguntei por que diabos não tinha feito aquilo antes; uma pergunta pra qual eu sei exatamente a resposta, mas que não vem ao caso agora.

11. Minha primeira grande festa de aniversário aconteceu quando eu fui fazer três anos. O tema foi Branca de Neve e Os Sete Anões e eu me vesti de Branca de Neve, com direito a diadema e vestido de baile, e dancei a noite inteira, literalmente. Aos quatro e aos cinco anos eu me vesti de Cinderela e Bela, respectivamente. A partir daí minha mãe cansou, o dinheiro acabou, e minhas festas de aniversário deixaram de ter temas definidos.

12. Sinto cheio de sangue com MUITA facilidade – o que normalmente me faz parecer muito esquisita aos olhos da maioria das pessoas. Nada como dizer “mas que cheiro de sangue é esse?” para as pessoas começarem a te olhar torto e trocarem de calçada, risos.

13. Ainda sobre cheiros, álcool e água sanitária são dois que me incomodam profundamente; me lembram hospitais e, consequentemente, todas as injeções que já tomei nessa vida.

14. Um dos meus sonhos megalomaníacos é dirigir um filme de super-herói. Sempre me sinto meio idiota quando falo isso porque as pessoas normalmente encaram como um sonho distante e impossível, mas ainda que seja, de fato, distante e semi-impossível, a dificuldade não me faz abrir mão de… sonhar. No mais, sonho em conseguir ganhar dinheiro suficiente para me sustentar produzindo/dirigindo filmes independentes e de orçamento mais modesto, escrever um livro, ter um filho, e fazer um mestrado (e, posteriormente, um doutorado).

15. Nunca trabalhei em set de longa-metragem. Todos os filmes que fiz até hoje foram curtas e quase sempre fiquei em funções como direção de arte, fotografia ou assistente de direção.

16. Se em Hogwarts estivesse, eu veria testrálios; cavalos alados de corpo esquelético que são invisíveis para a maioria das pessoas. Não é preciso que eu diga o que vê-los significa: quem é fã ou simplesmente assistiu aos filmes certamente sabe o que separa as pessoas que veem essas criaturas das que não os veem ou simplesmente supõe que as carruagens que levam os alunos de Hogwarts até o castelo são puxadas por… nada.

17. Downton Abbey foi a única série que consegui assistir do início ao fim mais de uma vez. Além dela, também recomecei Penny Dreadful e Call The Midwife, mas não cheguei a terminar nenhuma. Friends, Supernatural e Gilmore Girls são outras duas séries que já assisti episódios repetidos, mas só no modo aleatório.

18. Antes de ter um blog pessoal e dividir um site sobre cultura pop com minhas amigas, já tive outros dois blogs de moda e dividi um blog – também de moda – com uma outra amiga. Hoje não me importo com moda tanto quanto antigamente, mas ainda é um assunto que me interessa em algum nível, especialmente enquanto forma de expressão e identidade, e como elemento capaz de contar histórias inteiras por conta própria.

19. Quando era criança, pensei algumas vezes em me tornar freira, quase sempre inspirada pelas novelas mexicanas ou pelos filmes água com açúcar que eu assistia na época. Nessas histórias, as freiras sempre eram mocinhas lindas e adoráveis, que se apaixonavam por homens lindos e igualmente adoráveis, que se apaixonavam por elas de volta, mas não podiam viver esse amor por motivos óbvios. A ideia de viver um amor proibido sempre me pareceu muito atraente e até hoje essas são histórias que me fascinam, ainda que na prática eu não deseje de modo algum viver algo parecido.

20. Não costumo assistir muitos filmes de terror com frequência – em partes, porque me impressiono muito fácil e odeio sentir medo -, mas tenho um interesse muito particular pelo terror enquanto gênero e pela mitologia por trás dessas histórias. É um interesse muito particular e meio esquisito, porque me aproxima e repele ao mesmo tempo, mas bastante real.

21. Minha personagem favorita de Orgulho e Preconceito é Jane Bennet; em partes, porque me identifico muito com ela, mas principalmente por ser um exemplo de como não é preciso que uma personagem feminina tenha uma língua ferina ou chutar bundas – metafórica ou literalmente falando – para ser considerada incrível. Jane é doce, delicada e carinhosa, uma mulher que enfrenta os problemas que surgem em seu caminho com muita calma, mas ainda com a cabeça erguida, mesmo que esteja profundamente machucada, e que sempre busca ver o melhor nas pessoas – muito mais do que muita gente consegue fazer. Elizabeth é uma mulher igualmente incrível, ao seu próprio modo, e muitas vezes fiquei chateada quando meus testes para saber quem eu seria num romance de Jane Austen sempre davam a Jane Bennet, Jane Bennet, Jane Bennet. Hoje, no entanto, sei que se numa história escrita por Jane Austen eu vivesse, Jane Bennet seria com muito orgulho e amor.

22. Ultimamente, tenho tido o sonho dourado de fazer um a dois filmes por ano e me sustentar com o dinheiro deles, vivendo em uma casinha no meio do mato, com piso de taco, um monte de livros e lareiras para esquentar. Também queria ter uma criação de bichos, uma horta e me alimentar das coisas que a natureza… dá. Parece meio idiota quando a gente fala assim – e talvez até seja -, mas diferente de quando eu era mais nova e sonhava em viver na Cidade Grande, cada vez mais esse ritmo insano e essa obsessão pelo consumo tem me deixado esgotada, e eu não quero, de modo algum, viver essa vida. Ao mesmo tempo, não quero criar meus filhos dentro dessa bolha em que o celular que você tem é mais importante do que a pessoa que você é. Deus me livre viver sem internet, ou Netflix, ou meus filmes, minhas séries, minha câmera e um vídeo game, mas tudo nessa vida tem limite e eu realmente gostaria de ensinar pros meus filhos o que realmente importa, antes de soltar meus passarinhos para voarem por aí. (Contei essas coisas pra minha mãe e ela me olhou com horror, certa de que sua filha, seu bebê, estava fumando alguma coisa nas horas vagas, risos.)

23. Eu sou uma pessoa bastante contraditória, que acredita em várias coisas ao mesmo tempo, e que muda de opinião com certa facilidade. Não é algo que me incomode particularmente, mas às vezes tenho medo de que isso me faça parecer fraca. Ou influenciável. Ou sem personalidade, falsa e mentirosa.

24. Meu primeiro show sem a presença de um adulto responsável foi do Nx Zero, em 2007. O show foi organizado por alguns amigos da minha prima – que na época tinha 22 anos, mas estava longe de ser responsável – e me deixou livre, leve e solta para curtir o show com meus amigos na época. Eu estava doente, com a garganta inflamada e febre, mas foi um dia memorável, que eu curti como se fosse estar morta no dia seguinte. Ironicamente, foi mais ou menos isso que aconteceu e na segunda-feira, lá estava eu no hospital, com a bunda dolorida depois de tomar injeção. Bons tempos, risos.

25. Sempre gostei muito de história, mas tenho estado particularmente obcecada por ela desde que passei a consumir mais produções de épocas mais recentes – mas nem tão recentes assim – e adquirir a consciência de que muitos dos fatos históricos apresentados na tela foram vividos, de algum modo, por pessoas que fazem parte da minha história pessoal. Adoro assistir Downton Abbey e pensar que a série se passa mais ou menos na época em que meu avô nasceu, e termina dois anos antes do nascimento da minha vó; ou Call The Midwife, em que a última temporada foi ambientada mais ou menos no ano do nascimento da minha mãe. Ao mesmo tempo, gosto de pensar que minha história começou ali, com aquelas pessoas, e que se não fossem elas, não seria eu, e acho bonito como a vida simplesmente acontece e vai se desenrolando, como um novelo, construindo histórias e mais histórias em diferentes épocas e contextos. Desculpa ser tão brega.