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You jump, i jump

“It’ll be fun, it’ll be a thrill. Something stupid, something bad for you. Just something different.”

Já disse isso uma ou duas vezes por aqui, mas uma coisa que minha mãe – e meu namorado, e minhas amigas, e aparentemente todas as pessoas do mundo – repete desde que me entendo por gente é que eu preciso aprender a dizer “não” com mais frequência. Na maioria das vezes, ela diz isso depois de um longo suspiro, enquanto me observa arrancar os cabelos e correr desesperada pela casa, chorando por algum prazo ou trabalho não cumprido que pareceu uma ótima ideia, mas que até aquele momento era só uma fonte inesgotável de desgosto e frustração, como quem já não aguenta mais repetir as mesmas coisas em vão, mas continua assim mesmo pois: mãe. Ela conhece a filha que tem bem demais e tem total consciência de que essa é uma cena que vai se repetir até o fim dos tempos; dizer “não”, afinal de contas, nunca foi mesmo o meu forte.

Mas o que pouca gente sabe – e minha mãe sabe melhor do que ninguém – é que, no meio de todo o desgosto e frustração do mundo, existe algo que me preenche e me completa de um jeito totalmente equivocado. Eu gosto disso. Longe de ser uma pessoa corajosa (embora minha psicóloga sempre diga o contrário), projetos, ciladas e ideias malucas demais para serem levadas a sério são o que me mantém em movimento e fazem com que minha vidinha efêmera e sem graça tenha um pouquinho mais de sentido. Por mais esgotada que eu esteja, mesmo com todas as lágrimas e a vontade constante de arrancar os cabelos e amaldiçoar todos os projetos que aceitei e todas as ideias que topei fazer acontecer porque pareciam a coisa mais legal do mundo até que não era mais, eu gosto de participar e me meter em todas as merdas possíveis, especialmente quando elas dão certo ou rendem uma boa história para contar no final. Muitas das coisas mais legais que já vivi nessa vida só aconteceram porque eu disse “sim” e me dei de presente a chance de vivê-las, e é bom que seja assim – e continue sempre sendo assim; não porque é sempre bom, mas porque ainda é melhor desse jeito.

Talvez por isso, faça todo o sentido do mundo que 2017 tenha sido o ano em que elevei esse negócio de dizer “sim” aos extremos; menos por medo de magoar os outros, mais por uma vontade intrínseca de arriscar – o que exige uma confiança extrema nas Forças do Universo™ e na minha própria capacidade de fazer as coisas darem certo. Sempre que converso sobre isso com a Yuu, chegamos à conclusão que isso é, de alguma forma, um reflexo da ansiedade e da depressão, numa espécie de euforia que antecipa a queda; mas também uma consequência do momento que estou vivendo, que é sim, um prato cheio para novas experiências. Não sou uma pessoa corajosa – pelo menos, não de um jeito óbvio -, muito menos destemida, mas talvez o segredo sobre fazer as coisas acontecerem não seja sair por aí sem medo algum, mas caminhar apesar do medo. Ao mesmo tempo, li em algum lugar que, depois de todas as coisas horríveis que aconteceram nos dois últimos anos, 2017 finalmente seria o ano em que trabalharíamos duro e faríamos coisas importantes acontecerem. Não sei até que ponto vocês acreditam nesse tipo de coisa, mas como alguém que crê fortemente que a culpa quase sempre é das estrelas, todas essas coisas têm se provado incrivelmente reais.

Às vezes é incômodo pra caralho, porque significa dar passos imensos e fazer várias coisas ao mesmo tempo, ainda que todas elas sejam assustadoras, e continuar seguindo em frente assim mesmo, mas, mais uma vez, é no meio dessa loucura que eu encontro algum conforto e significado. Estou de férias desde o dia sete de julho e acho que a coisa que mais repeti nesse meio tempo foi que minhas férias tinham sido uma mentira e eu não tinha parado um minuto sequer, o que não deixa de ser verdade. Desde que me vi livre dos trabalhos da faculdade, minha sensação é a de que continuo sempre tendo um texto para escrever, um e-mail para responder, um formulário para preencher, uma consulta ou evento inadiável para ir; mas entre todos os compromissos, todas as noites em claro na frente do computador, as crises de choro no banheiro e a vontade constante de passar dias só olhando pro teto, dançando sozinha no meu quarto, assistindo episódios de Downton Abbey em looping como se nada mais importasse na vida e lendo todos os livros do mundo, também existe a satisfação de saber que todo o esforço, dedicação e tempo aparentemente perdido estão alimentando sonhos e ambições maiores até do que eu mesma. Já disse mais de uma vez que preciso me apaixonar por qualquer coisa que eu faça, e minha maior sorte é que, no momento, todas as coisas que tenho feito e que têm ocupado meu tempo me fascinam e enchem de orgulho de um jeito que parece bobo – e talvez até seja -, mas que ainda é justamente o que me faz colocar um pé na frente do outro dia após dia.

As pessoas percebem o quanto esses projetos, ambições e sonhos – que podem ou não ter começado como algo meu, mas que a essa altura já se tornaram tão meus quanto de quem as idealizou – têm um significado imenso só de me ouvirem falar sobre elas; algo tão incrível, único e especial que às vezes preciso parar e me perguntar se realmente está acontecendo ou se simplesmente não vou acordar em algum momento e descobrir que tudo não passava de um sonho meio maluco. Sempre existe essa possibilidade, mas acho que dificilmente seria o caso.

Naturalmente, muitas dessas coisas envolvem enfrentar medos imensos e confrontar fantasmas que ficariam no meu armário por muitos anos, não fosse a necessidade imediata de tirá-los de lá. Recentemente, ouvi de uma pessoa que nem me conhece muito bem, que eu tinha escolhido um jeito bastante traumático de sair da minha concha, e foi engraçado ouvir isso dessa forma, como uma verdade que não precisava de um pano de fundo complicado para se tornar real. Ele não precisava saber de toda a minha história para reconhecer o tamanho dos desafios que tenho pela frente; eis aí uma verdade incontestável. No entanto, ao invés de correr para o banheiro e chorar na frente do espelho, só para perguntar para o meu reflexo onde diabos eu estava com a cabeça quando aceitei todas aquelas propostas e querer jogar tudo pro alto, isso só me fez ter ainda mais certeza do que eu quero. Uma das minhas cenas favoritas de Gilmore Girls é justamente quando a Rory topa pular de mãos dadas com o Logan, segurando um guarda-chuva e usando um lindo vestido de princesa, daquela enorme estrutura que não sei como chama, mas vocês sabem exatamente qual é. Ela só estava ali para escrever uma matéria, mas então o Logan diz pra ela que as pessoas podem viver cem anos sem terem vivido por um minuto sequer, e de repente, não mais que de repente, os dois estão lá em cima, apavorados e de mãos dadas. Minha sensação, em todos esses desafios, é exatamente a de estar em cima dessa imensa estrutura, esperando para pular – e a euforia da Rory pós-salto é exatamente como eu me sinto quando as coisas finalmente acontecem.

Apavorada é como tenho me sentido desde que decidi participar do BEDA, mesmo já tendo tanto pra fazer (site? newsletter? filmes? vida pessoal? HÁ!), mesmo com tanto para me preocupar. No sábado, passei quase duas horas no telefone com dona Yuriko Yogi, e quando ela me perguntou se eu iria participar e eu respondi que sim, é óbvio, nós rimos horrores – eu, de nervoso; ela, provavelmente porque sabe a amiga maluca que tem. Lógico. Quais as chances disso não acontecer? Que eu sou completamente maluca não é nenhuma novidade, mas talvez seja a hora de abraçar de vez meu lado overachiever e pular de uma vez nesse barco. As chances de que dê tudo muito, muito errado são imensas, mas já tenho alguns posts programados e um calendário mais ou menos organizado para me orientar – que não vai servir pra absolutamente nada quando a coisa ficar feia, mas essa é outra história. No entanto, como dizem por aí, o que importa não é realmente o destino, mas a jornada, e essa talvez seja a oportunidade perfeita para provar que a máxima nunca foi tão real.

Quem vamos?

>> Como sou maluca, mas raramente estou sozinha, não esqueçam de acompanhar meus amores Manu, Tati, Michas e Mia que estão de mãos dadas nessa cilada comigo e também participarão do famigerado BEDA. Partiu, é nóis. <3

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Uma palavra de cada vez

Como todos os textos que nasceram da necessidade meio tosca de justificar minhas ausências, pensei em começar esse com um imenso e ridículo pedido de desculpas, mas então decidi que não valia à pena. Não que pedir desculpas não seja importante, mas a essa altura já é uma verdade universalmente conhecida que a rotina desse blog é feita de pequenos hiatos, que cedo ou tarde chegam ao fim, e eu já deixei de me sentir culpada por eles há tempo demais para continuar a me desculpar. Embora nem sempre tenha sido assim, nos últimos meses, o blog assumiu um espaço na minha vida que passa muito longe de ser uma obrigação; o que é, ao mesmo tempo, bom e ruim: bom porque, naturalmente, eu não passo mais tanto remoendo todos os textos que não escrevi; ruim pelo exato mesmo motivo. Entre uma atualização e outra, muita coisa acaba ficando perdida, e eu estaria mentindo se dissesse que eu não sinto muito, muitíssimo, por todos os textos que não viram a luz do dia.

Curiosamente, essa nova relação com a escrita, de um modo geral, me deixa muito mais tranquila, e taí uma coisa que eu tenho priorizado bastante na minha vida. Aos 24 anos, sempre imaginei que tranquilidade fosse estar muito longe da minha cota de prioridades – “quero dinheiro”, eu pensava, “um casamento”, “um trabalho maneiro”, “viagens”, etc etc -, mas sendo a vida essa grande piada cósmica, é impossível não olhar ao redor e querer viver num mundo em que a gente tenha tempo pra fazer tudo ou não fazer nada se preferir. Se minha vida fosse um filme, o transformaria numa narrativa cheia de silêncios carinhosos, tons pastéis e músicas fofas, e cenas que deixassem o coração de quem assiste mais quentinho. Ainda hoje (na verdade ontem, porque comecei a escrever esse texto num dia, mas só fui concluí-lo no dia seguinte), disse pra uma amiga que, embora eu amasse filmes frios e grandiosos, esse não era o tipo de cinema que eu gostaria de fazer, e é verdade. Não por acaso, os filmes que eu desejo fazer são aqueles que falam sobre pessoas muito desgraçadas, mas que curiosamente contam histórias leves, quentinhas, com sabor de comfort food, que é mais ou menos como eu desejo que minha vida seja também.

Sempre gostei de pensar que eu podia fazer o que quisesse, ser o que quisesse e conseguir o que quisesse, mas foi preciso que minha saúde física e mental entrassem em cena para que eu entendesse que, ainda que eu me sentisse muito capaz o tempo inteiro, nada nesse mundo valia o risco de perdê-las de vez. E que nem sempre eu ia conseguir fazer o que quisesse, ser o que quisesse, etc etc. Tenho a sorte – e o azar – de estar envolvida em muitos projetos e ter responsabilidades pelas quais eu sou completamente apaixonada e que fazem todo o esforço valer à pena. Eu amo a faculdade, eu amo fazer filmes, eu amo escrever. Mas existe uma diferença fundamental em amar todas essas coisas de maneira saudável e esquecer de si mesma no processo. Ser workaholic parece muito bacana na teoria; um milhão de vezes eu disse que era assim que eu queria ser, desde que fizesse o que amava, e era exatamente essa pessoa que eu estava me tornando, sempre ocupada demais para qualquer coisa. Então eu fiquei doente; uma vez, duas vezes, três vezes em pouquíssimos meses. Minha ansiedade voltou com força total. E enquanto eu era obrigada a abandonar um, dois, três projetos, quatro, cinco, seis ideias de textos, invariavelmente, eu me sentia uma fraude. Uma mentira. Uma pessoa incapaz e ridícula e falha e que não ia chegar em lugar nenhum porque ninguém chega a lugar algum se não consegue sequer cumprir um prazo porque está com a cabeça desgraçada demais pra isso.

Quando a Anna Vitória escreveu no Valkirias sobre colocar o pé no freio e se permitir absorver as coisas com calma, uma parte de mim jazia no chão completamente exausta depois de passar horas gritando na minha cabeça que aquele era um passo terrivelmente equivocado e que eu ia me arrepender amargamente de tê-lo aprovado num futuro nem tão distante assim. Depois de um ano intenso, porém maravilhoso, parecia uma decisão estúpida seguir na contramão daquilo que vinha dando tão certo. 2017 seria um ano do trabalho duro, diziam os astros, de fazer as coisas acontecerem, e eu, que nunca precisei de muito incentivo para acreditar nessas coisas, levei a máxima a sério o suficiente para me permitir ser engolida pelo trabalho. E pelos meus sonhos e projetos e ambições, como se de algum modo eu precisasse provar que eu era uma pessoa ocupada de verdade e que não passava o dia inteiro sentada na frente do computador atoa, assistindo vídeo de gato e jogando conversa fora com minhas amigas – ironicamente, as coisas que eu deveria estar fazendo também, mas que simplesmente não encontravam espaço para coexistir com a loucura entre faculdade e projetos que se multiplicavam de maneira insana. Eventualmente, consegui entender que pisar o pé no freio não significava fracassar ou admitir uma possível derrota; é uma decisão que parte muito mais da consciência de que, para acontecer da forma que queremos, nosso trabalho precisa de cuidado e atenção e tempo, do que de supostos fracassos. Além disso, somos todas humanas e não adianta nada falar sobre a humanidade não aceita de tantas personagens se nós sequer somos capazes de aceitar nossas próprias limitações.

Por mais difícil que seja, aceitar que nem sempre dá pra fazer tudo, ser tudo, dar conta de tudo, é fundamental para seguir com o baile. Continuo acreditando que crescer é importante, que fazer cada dia mais e melhor também é, mas desde que isso não custe tão caro ao ponto de se tornar prejudicial. É uma relação completamente nova com a escrita, é claro, mas também com minha vida acadêmica, profissional e também pessoal porque nem só de trabalho e problematização e artigos de cinco mil palavras é feita a vida; o que naturalmente também reflete no blog. Diferente de muitas pessoas que abandonaram os blogs para continuar falando sobre a vida em outras plataformas ou simplesmente se dedicar a outros projetos, eu continuo incrivelmente determinada a continuar nesse espaço, mas sem a obrigação que um dia já foi regra. Quero continuar a escrever sobre a vida e registrar minhas memórias aqui, mesmo que nem tudo seja explicitamente escrito, porque essa ainda é a melhor forma que encontrei para lembrar e guardar aquilo que é importante, e o que não é também, mas que eu vou gostar de lembrar quando tiver 84 anos e conversar com meus netos e deixar para trás depois que eu morrer – mesmo que ninguém se importe com isso além de mim mesma. Uma das minhas maiores frustrações é não ser fruto de uma família de gente que escreve, obcecada por registros e memórias, e nunca ter tido a oportunidade de passear pelas lembranças dos meus avós, que são pessoas que eu admiro tão profundamente e que tenho certeza que viveram coisas incríveis, mas que jamais foram registradas e que terminaram se perdendo com o tempo.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que começou a Primeira Guerra Mundial, um conflito de importância histórica que, dizem alguns, foi ainda mais traumático, sujo e brutal do que a Segunda Guerra. Ambos parecem distantes demais da nossa realidade, separadas por um período de mais de cem anos, mas que não parece tão distante assim quando sabemos que pessoas que conhecemos estiveram lá de alguma forma e fizeram parte da história, mais ou menos como nós também estamos fazendo agora. Meu avô assistiu muitos dos maiores fatos históricos que marcaram o século XX acontecerem em tempo real, e eu realmente gostaria de saber o que ele pensava sobre esses assuntos, quais eram suas opiniões, seus medos, frustrações. O homem que eu conheci – e que infelizmente já não está mais entre nós – é uma versão infantil e carinhosa moldada pela perspectiva da neta que passou dezesseis anos sendo chamada de passarinho, que ria de suas piadas e que acreditava que nenhum outro homem poderia ser tão gentil quanto aquele; mas existiam muitos outros e sinto muito por não tê-los conhecido também. Não é muito diferente do que acontece com a minha avó. Ela, que nasceu em 1927, também já viveu e assistiu muita coisa, mas ainda que conversemos um bocado sobre o passado, algumas memórias simplesmente se esvaem com o tempo.

É uma obsessão idiota, mas não vazia, e é isso que, de certa forma, me faz continuar aqui. Me perguntaram uma vez porquê eu continuava com o blog quando existia um sem fim de plataformas onde eu poderia fazer exatamente a mesma coisa, e eu não precisei pensar duas vezes antes de responder: porque o blog ainda é, dentre todas as coisas, algo essencialmente meu. Tirando duas ou três coisas nessa vida, esse é o único espaço do qual eu tenho pleno controle e que não vai sofrer mudanças se alguém além de mim mesma quiser; o que é muito mais do que eu posso esperar de um Medium da vida ou de um Tinyletter qualquer. Esse foi um dos motivos, aliás, que me fez desistir da newsletter nos moldes em que ela estava; embora eu ainda tenha a pretensão de fazer algo novo com ela, escrever sobre a minha vida em um novo espaço pode fazer muito sentido pra muita gente, mas definitivamente não faz pra mim. O blog é minha casa, é meu lar, é o cantinho que tem a minha cara e que muda comigo cada vez que eu achar necessário, como um corte de cabelo que muda ao longo dos anos, cada vez que sentimos a necessidade de apresentar uma nova faceta ao mundo. É aqui que eu quero poder sentar no tapete com uma taça de vinho na mão e falar sobre a vida e não faz o menor sentido tentar mudar o que acontece nesse espaço se eu já me sinto tão confortável aqui.

Ainda existem muitas coisas que eu quero fazer e pouco tempo para, de fato, fazê-las. Quero escrever mais e em novos lugares, quero remodelar a newsletter, aprender a bordar, voltar a fotografar, escrever mais roteiros, começar uma pequena produtora e produzir mais filmes, fazer colagens, terminar um livro; mas são coisas que inevitavelmente precisam de tempo e calma – e às vezes dinheiro – para acontecerem e eu estou disposta, talvez pela primeira vez na minha vida, a esperar e dar um passo de cada vez ao invés de sair atropelando tudo sem nunca ser capaz de curtir nada porque estou mais preocupada em fazer com que elas aconteçam do que realmente aproveitar cada uma dessas conquistas – que podem ser pequenas ou não, mas devem ser celebradas da mesma forma. Escrever mais ainda é meu maior objetivo, mas ao final de um dia de trabalho, eu ainda quero poder entrar nesse blog e descobrir que esse é exatamente o lugar em que eu desejo estar.

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Aos treze

Quando assisti Aos Treze pela primeira vez eu tinha vinte e três anos. Isso mesmo: depois de passar aproximadamente 19023890183 bilhões de anos fantasiando sobre a histórias das meninas com piercing na língua na capa do dvd, minha adolescência inteira pautada pelas irrealidades provocadas pela expectativa, finalmente, no ano passado, tomei vergonha na cara e assisti o filme – e odiei.

Odiei, na realidade, é o jeito exagerado de dizer que eu não gostei tanto assim, que ele não chegou perto de suprir minhas expectativas adolescentes; eu esperava um filme sobre jovens adoravelmente lindas e loucas, curtindo seus treze anos como se não houvesse amanhã e se enfiando em algumas furadas de um jeito limpinho e destemido que não incomoda ninguém. Aos treze anos, meu sonho era ser uma jovem destemida e adoravelmente louca, além de linda, de um jeito que não incomoda justamente porque tem o efeito oposto: causa admiração. Eu cruzei com essas meninas um milhão de vezes durante minha adolescência, na escola, no shopping, lugares que naquela época eram o ponto de encontro de todos os adolescentes de Brasília; sempre sonhando em ser um pouco como elas, sem considerar que, por trás das roupas bonitas e da atitude blasé, existiam garotas com uma porção de questões mal resolvidas – que eu também tinha, ou talvez não -, que não viviam vidas tão divertidas assim, muito menos eram tão limpinhas quanto nosso olhar idealizado e os jeans rasgados de butique nos faziam enxergar.

A amizade entre Tracy e Evie começa num misto de admiração e curiosidade que a primeira dispensa à segunda, os mesmos sentimentos que eu tinha em relação às meninas mais velhas que eram minha referência na época. Evie é a garota mais popular do colégio, estilosa, destemida, admirada pelos garotos, linda e louca de um jeito adoravelmente inconsequente que não parece suficiente para machucar ninguém, e Tracy enxerga tudo isso de longe, querendo fazer parte daquele mundo de alguma forma, mas ao mesmo tempo muito distante dele. As duas se tornam amigas de um jeito absolutamente ridículo, com a primeira descaradamente tentando se enturmar; mas elas são jovens e ser jovem também significa ser ridículo e cara de pau de um jeito que adultos às vezes deveriam ser, mas não são. Assim, as duas se tornam amigas; dividem roupas, cigarros, namorados, dramas, a casa e a vida, uma relação que a princípio não parece tão diferente do padrão, até as duas entrarem juntas numa montanha-russa que só vai pra baixo. A amizade das duas se torna cada vez mais problemática e auto-destrutiva à medida que a história avança, e elas passam a ter contato com universos que idealmente deveriam passar longe da realidade de qualquer adolescente. Ambas constroem uma relação que não é exatamente de autodescoberta, sobre pertencimento, sobre ser jovem e descobrir qual o seu lugar no mundo – embora, em algum nível, seja sobre essas coisas também -, mas sobre drogas, sexo, roubo e automutilação; uma sucessão irrealística de fatos a não ser que você tenha vivido coisas muito parecidas… aos treze anos. O roteiro é baseado nas experiências reais da própria Nikki Reed – que além de interpretar Evie no longa, também ajudou a escrever o roteiro -, alguém que viu e viveu algo muito similar enquanto era pré-adolescente, e decidiu que precisava contar essa história.

Em 2003, quando o filme foi lançado, eu tinha dez anos e era a mesma criança certinha ao ponto de ser idiota que eu ia me esforçar para subverter não muito tempo depois. Eu tirava boas notas, era educada, usava roupas fofas e muito cor-de-rosa, brincava de Barbie e tinha um fã-clube de Sandy & Júnior, minhas maiores preocupações na vida. Mas era uma realidade muito frágil, construída sobre uma perfeição que não existe, e bastou que minha tia caísse de cama em depressão para que todas as minhas certezas caíssem junto com ela. 2004 é um ano que não tenho muitas recordações, um grande vácuo na minha linha cronológica, composta por pequenos flashes de um ou outro momento mais marcante; mas aos doze anos eu já começava a nutrir uma certa revolta interna, já começava a me questionar o por quê da minha vida não ser mais aquele mundo cor-de-rosa no qual eu tinha sido criada. Para quem via de fora, eu ainda era a menina doce e delicada de sempre, mas dentro de casa a narrativa era outra. No filme, Tracy também é uma garota doce, talvez não exatamente delicada, mas meiga e bondosa o suficiente para fazer o que tem que ser feito, para fingir que aceita a situação em que vive e não incomodar ninguém. Ela não aceita o padrasto, se incomoda com a falta de dinheiro da mãe e com a ausência do pai, mas finge que está tudo bem. Fingir que está tudo bem foi algo que eu aprendi a fazer desde muito cedo e que ainda tenho dificuldades em não fazer, algo que, aos poucos, minha psicóloga tenta me ensinar que é possível. Mas é uma situação extremamente complicada, nociva, e também delicada, algo que te corrói por dentro, mas que continua impossível de ser exorcizado.

A postura de Tracy muda quando ela conhece Evie, que é quem mostra pra ela um outro lado da vida – mais sujo e cruel, é verdade, mas onde ela ainda pode ser quem quiser. Ela abandona a imagem de garota certinha para assumir uma versão de si mesma que é admirada e idealizada por quem vê de fora, que não aceita a realidade que lhe é concedida e se sente no direito de questionar e quebrar tudo se necessário, e apontar o dedo na cara de quem se colocar em seu caminho como se isso fosse algo natural. É uma garota muito mais destemida do que a que conhecemos no início e muito mais livre também, mas ironicamente, é essa mesma liberdade aparente que a permite sucumbir de vez. Quem a atenta inicialmente para esse fato é sua mãe (não curiosamente, a primeira pessoa a quem Tracy vira as costas), mas mesmo que seu irmão e seu pai (que despenca sabe-se lá de onde só para entender que diabos está acontecendo com sua filha perfeita que ele nunca se preocupou em amar e dar a devida atenção) conversem com ela posteriormente, é só quando realmente vê a situação sair completamente do controle que Tracy percebe que é só uma adolescente que precisa desesperadamente de amor e proteção. A grande mensagem do filme é justamente a que nossos pais ainda vão ser as pessoas a segurar cada uma das pontas das nossas vidas quando tudo ameaçar desabar – um clichê tão grande que parece deslocado num filme que se esforça tanto para construir uma imagem tão subversiva de jovens de treze anos -, mas o que existe no meio me parece muito mais importante, fundamental.

Minha postura também mudou radicalmente aos treze anos – foi a época em que eu comecei a usar roupas pretas, ouvir rock e passar lápis preto no olho; mas foi também quando eu comecei a pensar na morte, a me revoltar contra minha realidade, a ter problemas com minha mãe, tirar notas baixas no colégio e escrever desabafos na parede do meu quarto -, mas não foi preciso que uma garota popular e prafrentex entrasse na minha vida pra virar meu mundo de cabeça pra baixo. Eu conheci alguém, é verdade, uma pessoa que me apresentou a um mundo com o qual eu não estava acostumada, que eu nem sabia direito que existia mesmo que, racionalmente, eu soubesse que existia em algum lugar; mas nós o exploramos juntas, não separadas.

A B., que é como vou chamá-la aqui, era uma garota muito parecida comigo: nós duas vinhamos de famílias imperfeitas, não éramos exatamente populares, mas andávamos com esse grupo de meninas que eram populares e perfeitas, exatamente o oposto de nós duas. Eram meninas legais até, gente boa e de bom coração, mas que ainda eram as mesmas meninas lindas e populares de sempre, o lembrete de tudo que eu e B. poderíamos ser, mas não éramos. Ninguém precisava nos dizer o contrário, ninguém precisava sequer dizer alguma coisa; nós tínhamos plena consciência de aquele não era nosso lugar, não exatamente, e isso já era o suficiente. Quando nos afastamos – com uma briga que explodiu do nada, como naturalmente acontece entre pessoas que tentam com força demais manter uma relação que já não existe -, nós assumimos que jamais seríamos como aquelas garotas; não de um jeito arrogante de quem se acha superior, mas com a certeza confortadora de que não precisávamos mais usar aquelas máscaras. Nós tínhamos caído da corda bamba, é verdade, mas a cama elástica que nos esperava no final era incrivelmente mais divertida.

Meio sem querer, nós nos tornamos exatamente as pessoas que queríamos ser: garotas misteriosas e destemidas que pareciam viver numa dimensão paralela onde nada, nem ninguém, era capaz de nos atingir – que as pessoas estivessem falando não era o problema, desde que continuassem falando sobre a gente.

Em Aos Treze, a amizade de Tracy e Evie eventualmente entra numa espiral de problemas, auto-destruição e pequenos crimes que são descobertos e terminam por colocar um ponto final no relacionamento das duas. É algo que acontece aos poucos, até assumir proporções incontroláveis, ao ponto de respingar em todas as pessoas que não deveriam estar sabendo de nada, e enquanto uma acusa a outra de ser a culpada por tudo o que está acontecendo, as responsáveis se desentendem sem saber em quem acreditar. É um desfecho ridículo, mas muito verossímil também, justamente porque mostra o quando ambas são apenas garotas, vulneráveis e machucadas até dizer chega, que só precisavam de amor, carinho e um pouco de atenção. O fim da amizade das duas é exatamente o que teria acontecido comigo e B. se as coisas tivessem saído do nosso controle: existiram pequenos delitos, existiram drogas (que nunca usamos, é verdade, mas ainda assim), existiram momentos estranhos em que tivemos absoluta certeza de que tudo ia dar errado e nós íamos morrer, existiram nomes pichados nos muros de Brasília quase como uma declaração de amor de devoção, existiu um presidiário que tirou a própria vida na cadeia e, numa sucessão estranha de fatos, seu corpo surgiu no nosso caminho, existiram festas, álcool, brigas, e mentiras, uma porção de mentiras; fora todos os problemas que estavam em casa, ou muito perto de casa, dos quais a gente nunca podia fugir.

Não é preciso falar sobre cada uma dessas coisas porque mencioná-las já é suficiente, qualquer pessoa entende que nenhuma adolescente deveria estar lidando com elas; não é preciso de detalhes para entender que elas são absurdas, irrealistas demais, não fossem exatamente o contrário. E curiosamente, ninguém percebeu. Assim como os pais de Tracy demoraram a descobrir que algo estava errado, e a responsável por Evie jamais percebeu, sequer se perguntou quando todos os problemas vieram à tona, ninguém nunca se perguntou o que estava acontecendo comigo ou com B. As pessoas falavam sobre nossas notas, sobre nosso mau comportamento, sobre as fugas da escola, sobre um possível relacionamento que nunca tivemos; mas elas nunca se perguntaram o que realmente estavam acontecendo. Ninguém queria saber sobre a tia maníaco-depressiva, não queria ouvir sobre o pai ausente; sobre uma mãe igualmente ausente e alcoólatra, e sobre um outro pai que passava o dia inteiro fora porque precisava trabalhar, mas também porque não fazia a menor ideia de como lidar com uma filha adolescente.

Tenho pensado muito em todas essas coisas ultimamente, revirando meu passado como se de repente despejasse uma imensa caixa cheia de papéis no chão em busca de alguma resposta, mas só consigo pensar que, embora as pessoas ainda pareçam muito preocupadas, elas nunca se importam o suficiente. É um assunto que me deixa muito sensível, que me faz olhar de frente para fantasmas dos quais até hoje não consegui me livrar, esqueletos que deveriam ter sido queimados com sal grosso há muito tempo, mas que continuam trancados no meu armário a sete chaves, e eu tenho certeza que muito disso teria sido evitado se as pessoas tivessem feito as perguntas certas, se tivessem olhado para dentro, e não só para o que estava fora.

Aos Treze continua não sendo o filme que eu achei que seria, mas talvez sua grande sacada não seja mostrar como pais são pessoas importantes na vida de um adolescente e sim como adolescentes são pessoas complexas e com problemas muito, muito reais.

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The fools who dream

Here’s to the ones who dream
Foolish as they may seem
Here’s to the hearts that ache
Here’s to the mess we make

Lembro como se fosse ontem da primeira vez que pensei em estudar cinema: o ano era 2008, eu tinha quinze anos e estava no primeiro ano do ensino médio, e enquanto considerava uma carreira na moda, li o livro que mudou completamente a minha vida.

O livro, no caso, era Los Angeles, da Marian Keyes – uma história adorável e absurdamente engraçada sobre uma mulher que, após ser a filha certinha, a esposa certinha, a funcionária certinha, etc etc, descobre que sua vida inteira era uma mentira e vai morar com a melhor amiga em Los Angeles; uma melhor amiga que é roteirista e que trabalha duro para deixar sua marca no cinema norte-americano. O livro não idealiza Hollywood em momento algum – na verdade, muito pelo contrário -, mas foi ali, enquanto desvendava os absurdos da terra das estrelas que eu me interessei pela carreira de roteirista e achei que aquilo pudesse ser um caminho profissional viável, ainda que difícil pra caramba. Eu gostava de contar histórias, é algo que gosto de fazer até hoje, e a perspectiva de poder fazer disso uma profissão era tudo que eu precisava para sonhar e acreditar que aquilo era realmente possível.

Demorou até que eu finalmente entrasse na faculdade de cinema, mas o fato é que, uma vez lá, eu nunca acreditei que aquilo pudesse ser tão possível. Eu estava no caminho certo, eu estava onde eu queria estar desde sempre, e estava começando a correr atrás de verdade daquilo que era meu sonho – e continua sendo. O que antes parecia um desejo distante de adolescente, agora começava a ganhar forma, e eu realmente conseguia acreditar num futuro em que eu não só escreveria filmes, mas também os transformaria em algo real, minhas histórias concretizadas numa enorme tela de projeção. Eu acreditava na mágica do cinema, eu acreditava que sonhos podiam se tornar realidade, eu acreditava que a gente era capaz de fazer o que quisesse e chegar onde quisesse com dedicação e força de vontade. Chegava até a ser meio ridículo, mas era isso que me fazia continuar seguindo em frente, e acho que isso também fazia com que muitas outras pessoas continuassem seguindo em frente também. Era perceptível, numa turma de calouros, que todos ali tinham sonhos grandes, imensos, tão ridículos quanto assustadores. Eram pessoas que, assim como eu, também acreditavam que podiam chegar lá – não porque se achavam especiais demais (às vezes, um pouco disso também), mas porque confiavam no próprio potencial, no amor idealizado que sentiam por essa indústria imensa e na possibilidade de transformar sonhos em realidade.

O que não deixa de ser uma visão meio problemática, é claro. Mas sendo eu mesma uma pessoa que sempre acreditou na força dos sonhos e do amor, e que quase sempre foi movida por essas duas coisas, era importante sentir que existiam outras pessoas no mundo que não iam achar minhas aspirações ridículas, que não iam me julgar por colocar os dois pés pra fora da realidade e que de alguma forma acreditavam no meu potencial. Por mais que nenhuma dessas coisas garantam o sucesso de ninguém, acreditar é fundamental pra que você ao menos se permita tentar – o que talvez seja a principal diferença entre quem realmente tenta e quem simplesmente espera que as coisas caiam do céu.

A faculdade, por outro lado, quebra um pouco desse encantamento. Porque uma vez ali dentro, você descobre que por trás de toda a mágica existem truques que são repetidos à exaustão; entende como eles acontecem, aprende a técnica por trás de cada um deles, constrói e desconstrói essas técnicas para aprender a reproduzi-las e só então construir os seus próprios truques. Por fora, tudo é lindo, colorido, quase sempre impecável; mas essa é uma realidade muito distante daquilo que realmente acontece para fazer com que algo lindo, colorido e impecável surja na tela pra quem quiser ver. De repente, você se vê deixando de acreditar em mágica porque filmes custam muito dinheiro, dão um trabalho imenso que nem sempre compensa, envolvem um milhão de pessoas que no final do dia precisam pagar as contas – e sonhos não pagam as contas de ninguém. Portas são batidas na sua cara, pessoas desacreditam o seu trabalho e você percebe que aquela indústria pautada pelos sonhos de alguém é, na realidade, um universo controverso, quase sempre injusto e cruel, e incrivelmente restrito, que só está interessada em sonhos com potencial de render alguns milhões. É muito fácil se tornar cético quando a realidade bate na porta e você passa a enxergar todas essas coisas, e percebe que sonhos não são suficientes, que a vida real é muito diferente daquilo que a gente vê na tela; e muito difícil acreditar em mágica quando você não tem dinheiro pra pagar as próprias contas, quando vive num lugar decadente, quando tem crises de ansiedade constantes porque não faz a menor ideia do que vai fazer com um diploma em cinema.

Sempre que falo que estudo cinema, as pessoas assumem duas posturas: ou a de achar que eu vou morrer de fome ou que eu tenho uma vida fácil e ultra glamourosa. São duas visões radicalmente opostas, mas que não se distanciam tanto assim da realidade porque a indústria cinematográfica que a gente conhece é, quase sempre, um festival de oitos e oitentas. Não existe um meio termo. Na faculdade, você descobre que esse meio termo até existe, mas que é preciso aprender a se dividir entre sonhos e aquilo que paga as contas – e não é difícil imaginar pra qual lado a balança pende quando a coisa aperta. A maior parte dos meus professores são também cineastas que se dividem entre a carreira acadêmica e a arte que eles acreditam. São pessoas que, com sorte, produzem um filme por ano, mas a maioria desses filmes ficam fora do circuito comercial e raramente rendem dinheiro suficiente para que eles possam se dedicar somente a isso. Ao mesmo tempo, alguns são pessoas completamente desiludidas com a indústria, que tiveram seus sonhos massacrados por ela e que perderam completamente a esperança. Neles, você percebe o olhar de quem já perdeu demais, alguém que um dia foi muito igual à você, mas que não teve tanta sorte, e teme pelo o futuro que lhe aguarda.

Então não é uma surpresa que, semestre após semestre, tanta gente mude de opinião: alguém que antes sonhava em trabalhar com direção de arte agora se contenta em seguir carreira na publicidade, o outro que sempre quis ser diretor decidiu que vai seguir carreira acadêmica ou se tornar crítico de cinema (ou as duas coisas), etc etc. Não é falta de força de vontade: é a percepção de que a vida real é muito diferente daquilo que sonhamos enquanto vivíamos nossas adolescências privilegiadas, é a perda de uma arrogância que precisa ir embora para que a gente aprenda a lidar com a vida como ela é de verdade – perdas, frustrações, raiva, tudo isso incluso no pacote -, não como a gente quer que seja. É um processo doloroso, é claro, mas absolutamente necessário também, e não é por acaso que ao final dele, a maior parte das pessoas desista dessa ideia maluca de ser um Grande Diretor de Cinema™ ou qualquer coisa que o valha. É um baque imenso, uma consciência da realidade que desestrutura completamente e que questiona sem nenhuma cerimônia todas as certezas, sonhos e promessas que tivemos ou fizemos até ali. E é difícil acreditar quando essa realidade bate na porta, quando contas precisam ser pagas, quando dinheiro é o que mais precisa e mesmo assim nenhum oportunidade aparece, nenhuma ideia é comprada, um roteiro é rejeitado atrás do outro.

Em cinco semestres de faculdade, eu desisti de alguns sonhos, guardei outros para momentos mais oportunos, e priorizei aquilo que parecia mais viável dentro da minha própria realidade. Descobri que, embora eu quisesse muito trabalhar com ficção, a escrita poderia ser uma saída justa e agradável quando meus sonhos grandiosos começaram a se tornar a lembrança de um passado ambicioso que já não dizia mais tanto assim sobre mim. Mesmo assim, é muito fácil que vez ou outra eu ainda me pegue pensando que a vida seria muito mais fácil se eu tivesse um emprego chato e estável, que fosse capaz de pagar todas as minhas contas e suprir meus pequenos desejos, sem que tivesse que viver nessa loucura. Mas eu também me permito entristecer pelos sonhos enterrados, pelos que ficaram no meio do caminho, pelos que foram enfiados no fundo da mochila até o dia que puderem ver a luz do dia de novo, ou então por aquela versão de mim mesma que acreditava que o impossível não existia.

Quando assisti La La Land, eu pensei em tudo isso.

La La Land conta a história de Mia e Sebastian, dois jovens que vão tentar a sorte em Los Angeles com o sonho de se tornarem grandes estrelas – ela, como uma renomada atriz de cinema; ele, como um importante músico. São pessoas sonhadoras, ambiciosas, movidas pelas suas paixões e que acreditam que o impossível não existe, sem medo de parecerem ingênuos demais; tudo isso enquanto dançam e cantam pela cidade dos anjos. A história dos dois é contada em um filme igualmente ambicioso, sonhador, que não tem medo de parecer ingênuo: um musical caro, difícil, grande, arriscado e extremamente ousado que, não por acaso, levou seis anos para ser concretizado. É um filme colorido, lindo, [quase] impecável, completamente deslocado da realidade; é a mágica do cinema acontecendo em tempo integral. É difícil não gostar do filme, não querer dançar junto com os atores, não querer fazer parte daqueles números tão adoráveis. Mas mais difícil ainda é não se identificar com Mia e Sebastian, e não pensar que a história dos dois é, em alguma medida, a história de todos nós – especialmente se esse “nós” é composto por pessoas que também querem fazer fama, dinheiro e sucesso nessa indústria maluca e completamente obcecada por si mesma.

É por isso que, quando assisti ao filme na última sexta-feira, embaixo das cobertas enquanto comia um pedaço de pizza gelada, muito longe da realidade que sonhei pra mim aos vinte e poucos anos, eu senti como se todos os meus sonhos tivessem sido desenterrados e, pouco a pouco, fossem jogados na minha cara – não de um jeito ruim, num tom de acusação, mas de uma forma especial que só quem também sonha alto, com força e que às vezes tem medo dos próprios sonhos é capaz de entender. Mia e Sebastian não recebem nada de mão beijada: eles são desvalorizados, aceitam trabalhos ridículos, mal conseguem pagar as próprias contas (quando conseguem) e recebem uma porção de “nãos” até o dia que recebem um “sim” – e aí, é incrível como a história dos dois muda radicalmente. Mas eles nunca (ou quase nunca) deixam de acreditar naquilo que sonham, que algum dia eles podem transformar tudo aquilo em realidade. O fato dos dois conseguirem, apesar de tudo, só nos lembra que sonhos são sim possíveis, mesmo que sejam muito difíceis de serem alcançados – a grande diferença está em quem acredita neles o suficiente para correr atrás e quem simplesmente espera que eles caiam do céu. O próprio Chazelle, diretor do filme, era um nome completamente desconhecido até o dia que não era mais; e ontem, durante o Oscar, enquanto segurava o prêmio nas mãos e entrava para a história como diretor mais jovem a ganhar um prêmio naquela categoria, era justamente nisso que eu pensava. Assim como Mia e Sebastian e tantas outras pessoas da indústria, ele também acreditou que era possível transformar sonhos em realidade – e foi lá e fez.

Tem esse discurso do Bryan Cranston (que se não me engano ele fez quando recebeu o Emmy, mas posso estar radicalmente equivocada) em que ele diz que aceitou uma porção de trabalhos ruins, que se sujeitou a uma porção de situações ridículas até o dia que conseguiu um trabalho legal de verdade que o levasse até onde ele queria estar. Ele não diz isso com essas palavras, mas é essa a mensagem principal do seu discurso, e eu sempre tento pensar nisso quando as coisas ficam difíceis demais – e agora, junto com ele, eu também vou lembrar de La La Land, de Mia e Sebastian, e de todos os sonhos que não devem morrer jamais.

La La Land não é o melhor filme do mundo, não é o mais importante. Mas isso não anula o fato de que ele é um ótimo filme, que é lindo, especial, e com uma mensagem linda que nunca foi tão necessária. São tempos difíceis para os sonhadores e às vezes, a gente realmente só precisa de filmes que nos lembrem que a mágica é real – desde que nunca deixemos de sonhar.

PESSOAL

Do que eu falo quando falo de ansiedade

Eu nunca me julguei uma pessoa ansiosa – até, claro, o dia que descobri que era exatamente isso que eu era. Não foi uma descoberta casual, mas um processo que começou muito antes de eu sequer saber o que significava ser ansiosa de verdade, muito menos me perceber como uma. Foi só depois que entrei para faculdade de comunicação e, posteriormente, me refugiei no audiovisual, que meus sintomas se intensificaram, e eu comecei a ler sobre o assunto e entender que minhas angústias, afinal de contas, tinham nome, e que eu não estava sozinha nesse barco. Mas era algo que já estava ali, desde a minha pré-adolescência, quando eu passava um tempo insano vivendo no futuro, me preocupando com o futuro, pensando no futuro em cada dia da minha pequena existência até ali.

A primeira vez que eu ouvi alguém falar sobre ansiedade foi mais ou menos nessa época, quando meu primo (que tem a mesma idade que eu) começou a apresentar sintomas do transtorno. Ele era agitado, não conseguia se concentrar em nada, ficava muito angustiado em determinadas situações, não tinha quase nenhum amigo e tinha sempre muita pressa, pressa demais. Eu assistia tudo aquilo me sentindo o completo oposto: é verdade que eu ainda passava um tempo precioso pensando no meu futuro, idealizando cada passo que eu daria depois que a escola acabasse (aos treze anos!), mas continuava sendo uma pessoa calma na maior parte do tempo, que se sentia confortável em algumas situações, desconfortável em algumas outras, mas que conseguia seguir com a vida numa boa, sem se preocupar muito com nada além do seu Futuro Promissor ™. Eu me enfiava em coisas novas sem ter meu estômago inteiro revirando, me sentia segura o suficiente para levantar a mão no meio de uma aula qualquer e perguntar alguma coisa ao professor sem gaguejar, e me apresentava na frente dos outros como se tivesse feito aquilo a vida inteira.

Minha vida começou a mudar um pouco no ensino médio, quando eu passei a ter absoluto pavor de levantar a mão ou ser questionada sobre algo no meio da aula (exceto por professores que eu já conhecia há mais tempo), a calcular todas as minhas palavras antes de abrir a boca pra falar qualquer coisa ou falar com qualquer pessoa, e ter que respirar fundo, bem fundo, antes de qualquer apresentação para não gaguejar demais. Eu passava um tempo gigantesco pensando no que os outros pensavam sobre mim, e embora eu gostasse de acreditar que nunca dei muita bola para a opinião externa – eu pintava as unhas de amarelo maracujá, ninguém mais pintava as unhas de amarelo maracujá -, a verdade é que eu só me arriscava naquilo que não era tão importante assim – tipo pintar as unhas de amarelo maracujá -, porque todo o resto era um monstro tão grande e assustador que eu achei mais fácil enfiá-lo dentro de um armário e deixar virar pó por lá mesmo. Eu tentava ao máximo agir dentro das regras para não estar no centro das atenções por sair da linha, eu evitava contato com pessoas novas, estranhas, porque nunca sabia o que conversar com elas; e sempre que precisava enfrentar alguma coisa que me assustava, passava horas pensando em todas os desdobramentos possíveis da situação, me preparando para cada um deles só para não ser pega de surpresa; fora todas as noites que eu passei em claro pensando naquela merda que eu falei dez anos atrás e POR QUE, MEU DEUS, POR QUE EU FUI ESCOLHER JUSTAMENTE AQUELAS PALAVRAS? POR QUE EU SOU TÃO IDIOTA? POR QUE EU TINHA QUE ABRIR A MINHA BOCA?

Lembro de um trabalho de química no segundo ano do ensino médio, que fui apresentar com Guilherme e um outro amigo nosso. Nós dividimos as partes de cada um e, como eu não era tão boa assim em química, decorei cada linha do que precisava falar, contando com todas as respostas para as possíveis perguntas que o professor poderia fazer. Só que alguma coisa aconteceu no meio do caminho (porque coisas sempre acontecem no meio do caminho) e de repente, não mais que de repente, depois de já ter explicado minha parte inteirinha, meu amigo solta: “agora a Ana vai explicar isso aqui”. Só que eu não sabia explicar aquilo ali. Eu não fazia a menor ideia do que era aquilo ali, porque a gente tinha dividido todo o trabalho e eu foquei todos os meus esforços em me preparar para falar a minha parte. Aquele era o plano e eu o segui, como devia ser. Meu amigo não. Eu falar aquela parte não fazia parte do nosso plano, e ao contrário de Guilherme e desse amigo nosso (que é amigo nosso até hoje, caso vocês estejam se perguntando), eu era – e ainda sou – completamente incapaz de improvisar. No final das contas, deu tudo mais ou menos certo: eu consegui explicar também a outra parte, mesmo gaguejando um pouco, e o professor ficou bastante satisfeito com nosso trabalho. Mas foi a apresentação terminar pra eu ter que sair correndo da sala, com lágrimas nos olhos e a voz ainda falha, para tomar um pouco de ar e recobrar o controle da minha vidinha ridícula.

E isso continua acontecendo até hoje, mesmo que em situações ligeiramente diferentes. Não que eu não continue me importando em apresentar trabalhos, em falar em público, em conversar com pessoas que não conheço muito bem (mesmo que essas pessoas sejam, sei lá, o segurança de um shopping ou o caixa de um supermercado). Porque eu me importo – e muito. Mas hoje essas coisinhas – que podem parecer pequenas pra muita gente, mas não pra mim – se uniram à outras, e mais outras e mais outras, até se transformarem numa bola de neve imensa, que cedo ou tarde ia acabar rolando de dentro do armário que eu tenho, há tanto tempo, tentado manter fechado. Eu passava noites em claro literalmente pensando na morte, enquanto deveria estar vivendo o aqui e o agora, ou então com que diabos eu vou fazer com a minha vida quando a faculdade acabar sendo que, no mínimo, falta pelo menos um ano inteiro pra isso acontecer. Meu coração bate mais rápido (de um jeito horroroso) só de pensar que eu já estou com quase 24 anos (!) e que ainda não tenho um diploma; que eu já deveria ter algum controle sobre o que eu vou fazer quando a faculdade acabar; e nem preciso dizer sobre como meu peito aperta e minha garganta trava só de pensar que tudo isso – todas essas angústias, todas essas preocupações, todas as noites em claro pensando no futuro – vai terminar exatamente no mesmo lugar, pra todo mundo.

Falo sobre esses temas porque são eles que, no momento, ativam os meus gatilhos com mais intensidade. Mas eu poderia falar também da pressão que é estar num relacionamento tão longo quando você não faz a menor ideia de quando vai poder elevar isso a um outro patamar; quando você não sabe o que responder quando as pessoas perguntam se você está trabalhando – embora você saiba exatamente a resposta -; sobre todas as vezes que eu deixei alguma coisa de lado porque só de pensar em sair da minha zona de conforto já era doloroso demais; sobre a minha dificuldade em fazer coisas sozinha, com medo do que os outros vão pensar de mim; ou então como é difícil criar conexões ou manter um diálogo com uma pessoa quando você não solta um “bom dia” sem pensar um milhão de vezes se essa é a coisa certa a dizer, qual a entonação adequada, quanto você tem que elevar a voz e quão natural você tem que parecer, mesmo que nada, absolutamente nada nessa situação, seja natural.

Eu nunca precisei respirar em um saco, nunca me estressei no trânsito, mantenho a calma em situações que a maior parte das pessoas perdem completamente o controle, e se vocês me conhecessem pessoalmente, provavelmente diriam que eu sou uma das pessoas mais calmas que vocês já viram na vida. Mas isso é porque a dimensão do que acontece dentro da minha cabeça só eu sei. Por mais que eu tenha pessoas no meu círculo de amigos que entendam a situação, por mais que a minha mãe e minha família e meu namorado tentem ajudar na medida do possível, a maioria dessas pessoas só entendeu que algo estava realmente errado comigo quando sintomas físicos começaram a aparecer. Quando eu comecei a parar de comer. Quando eu comecei a ter insônia porque minha cabeça não sabia mais a hora de parar de trabalhar. Quando olhei tanto para o futuro que esqueci da minha própria realidade, do aqui e do agora. Claro que existem mais coisas no meio de tudo isso – a depressão, a insegurança, a falta completa de autoestima – que me trouxeram até aqui. Mas quando eu entrei no consultório do psiquiatra e, por fim, ele me diagnosticou com ansiedade – entre outras coisas -, eu já nem fiquei mais surpresa: era só a confirmação de algo que eu já sentia há muito, muito tempo, só levei tempo demais para admitir pra mim mesma.

Procurar ajuda foi fundamental porque, como a Yuu sempre gosta de me dizer, ela faz com que a gente ganhe perspectiva e volte a andar com as próprias pernas. E é o que tem acontecido comigo. Embora hoje eu ainda não me sinta segura o suficiente para enfrentar certas situações, os poucos meses tomando medicamento e fazendo terapia, já tem surtido alguns efeitos, e principalmente, me ensinado algumas coisas importantes, que me ajudam a visualizar uma vida em que eu vou ser capaz de lidar com essas pequenas coisas que me afligem tanto do dia-a-dia, sem surtar. A terapia, principalmente, tem sido uma experiência de profundo autoconhecimento, que me faz olhar para dentro de mim mesma e refletir sobre a minha vida, mas que também me ensina a me enxergar com mais gentileza e saber que tudo bem parar, tudo bem não ser perfeita o tempo inteiro. Essa coisa de ser gentil, aliás, tem sido absolutamente fundamental nessa minha caminhada, e é incrível como tudo muda radicalmente quando a gente percebe que a maior parte dessas questões que fazem tão, tão mal, seriam resolvidas com um pouquinho mais de cuidado próprio, amor, compaixão e respeito – com os outros, é claro, mas principalmente com a gente.

Mas, outra coisa que eu também aprendi nesse meio tempo é que a gente tem que se permitir perder o controle de vez em quando, que é inevitável não se sentir ansioso quando você tenta manter o controle de situações que são absolutamente impossíveis de serem controladas, e que é preciso respeitar o próprio tempo das coisas, porque ele existe e nem sempre é aquele que a gente quer. E não tem problema, porque existem aproximadamente 129387192 que eu posso fazer aqui e agora, e é melhor aproveitar o momento do que ficar pensando num amanhã idealizado que nunca vai ser perfeito, justamente porque não é real.

Reconhecer a hora de parar é necessário. Não existe nada que te impeça de continuar depois, mas às vezes, tudo que a gente precisa é um pouco de ar fresco, um café no meio da tarde, um banho quentinho, um jantar gostoso e uma maratona de Friends para voltar a fazer o que quer a gente tenha parado antes. Cozinhar é uma coisa que me relaxa muito profundamente porque me obriga a parar e só pensar no que eu estou fazendo naquele momento: no corte certo dos ingredientes, na quantidade de tempero, no tempo de preparo. Do contrário, alguma coisa vai sair errada. É essa mesma ideia que me motiva a parar o quer que eu esteja fazendo quando minha mãe me chama pra tomar um café, ou então quando eu decido, sem mais nem menos, que preciso de um banho, ou que perder vinte minutos do meu dia assistindo um episódio de Friends não vai matar ninguém. São coisas que me aproximam de mim mesma, que me colocam num estado de absoluta plenitude, e onde eu posso me dar o luxo de me importar só com o aqui e o agora.

Não existe um jeito certo ou errado de lidar com a ansiedade porque, da mesma forma que os gatilhos variam de pessoa para pessoa, a melhor forma de lidar com eles também. Mas se alguém me perguntasse o que me mantém sã no meio do caos, eu diria que é tentar, na medida do possível, ser mais gentil comigo mesma, reconhecer os meus limites e não pirar só porque eu precisei parar um pouquinho pra tomar fôlego. Porque no carrinho da vida, é maravilhoso sentar no banco do motorista e colocar as mãos no volante, tomando o controle de tudo pra si; mas é só quando sentamos no carona e nos permitimos deixar a vida nos levar, que podemos admirar a beleza do que está ali, ao nosso redor.