Browsing Category

QUERIDO DIÁRIO

QUERIDO DIÁRIO

Diário da semana #2: Uma semana ruim

Todo mundo tem dias – às vezes semanas, meses, anos; enfim, vocês entenderam – ruins. Eles podem chegar de forma inesperada e, sem pedir licença, começam a fazer estrago. Você acorda se sentindo meio estranha, mas sem saber exatamente o por quê, até que de repente, e não mais que de repente, entende: um dia ruim. Simples assim. Outras vezes, esses dias simplesmente se acomodam no meio de toda a desgraça possível, como uma consequência inevitável e insuportável, que chega de mala e cuia sem nem pedir desculpas por estar ali. Dias ruins são sempre muito mal educados e inconvenientes, como parentes distantes que não cansam de fazer perguntas mal educadas e igualmente inconvenientes sobre o futuro, os namorados e casamentos que jamais irão acontecer; mas assim como parentes, eles também têm data e hora certa para irem embora – a única diferença é que nós nunca sabemos exatamente quando isso vai acontecer.

Eu tive uma semana bastante ruim, do tipo que não acontecia desde maio ou abril, quando literalmente precisei de toda a ajuda possível para ser salva de mim mesma. Olhando agora, esses dias parecem ironicamente distantes, mas eu ainda lembro como era ter tanto pra fazer quando eu sequer conseguia levantar da cama de manhã. Era o auge do semestre, as coisas não podiam estar piores em casa e eu não tinha a menor ideia do que fazer com a minha vida. As coisas não estão tão horríveis agora, mas não foi preciso muito esforço para que o pouco controle que eu tinha adquirido nas férias fosse perdido novamente. E eu me sentisse perdida de novo. Era só um dia ruim, que de repente se transformou em uma semana inteira, e daí eu estava jogando a toalha, me enfiando embaixo das cobertas ao meio-dia, decidida a cancelar meu dia porque eu não ia mesmo conseguir escrever aquele texto a tempo, não ia mesmo terminar aquela crítica, aquela resenha, aquele formulário do edital, eu não ia postar aquela papelada nos Correios; forçar a barra não ia ajudar em absolutamente nada.

Minha rotina é bastante confusa para a maioria das pessoas, o que não ajuda em nada quando tento justificar por que diabos estou arrancando a calcinha pela cabeça de novo. A maior parte do meu tempo é gasto na frente do computador, que é onde escrevo, preencho formulários e planilhas, converso com pessoas, faço reuniões, leio, assisto e tenho acesso à maior parte do material que preciso para escrever, e mesmo o tempo que passo fora de casa, tendo aulas ou resolvendo coisas na rua, tem se tornado cada vez menor. Para quem me vê sentada no meu quarto, com fone de ouvido, de frente para o computador, aquilo se parece bem pouco com o que nos ensinaram sobre o conceito de trabalho – que em qualquer outra circunstância, significa passar várias horas fora de casa, bater ponto cinco vezes por semana em um horário fixo e receber um salário “x” no fim do mês. O fato de todos os meus trabalhos convencionais terem sido realizados por longas horas na frente de um computador que não era meu não altera absolutamente nada nesse cenário: o importante é não estar em casa, não o fato de você encarar ambas as situações como um compromisso real oficial, que possui prazos que precisam ser respeitados e obrigações com as quais você precisa arcar.

O fato de estar em uma semana ruim torna tudo ainda pior, porque não adianta ter todos os prazos colados num mural bem na sua frente, tampouco uma lista de tarefas para cada dia anotada em um caderno que praticamente é uma extensão de você mesma. Você não vai conseguir fazer nada; ou vai fazer muito pouco, o que é tão ruim quanto. Eu entendo a noção de compromisso, eu entendo minhas obrigações e tento respeitá-las ao máximo, mesmo que às vezes isso signifique fazer hora extra, mas às vezes é preciso reconhecer a derrota e, oh boy, essa semana foi uma derrota.

A começar pelas minhas aulas, que começaram do pior jeito possível: não começando de jeito nenhum. Estou naquele período conhecido na Universidade de Brasília – em especial, pelas pessoas do Audiovisual – como o Bloco, um bloco (dã) de disciplinas práticas que incluem, entre outras coisas, disciplinas como direção, produção, fotografia e edição; em sua, o que a gente vai fazer quando sair dali com um diploma na mão; ao menos, em tese. Semestre passado, peguei a primeira rodada do Bloco (batizada de Bloco I), matérias essencialmente práticas, mas que ainda exigiam presença como uma disciplina teórica qualquer. É uma realidade completamente diferente do Bloco II, que é onde estou agora, onde no máximo temos reuniões esporádicas com os professores enquanto produzimos um curta-metragem por conta própria, que é o que temos que entregar no fim do semestre letivo. Aproveitei o horário mais flexível para pegar uma cadeira de Documentário às terças e quintas pela manhã, numa tentativa de manter uma rotina, mas como colocou uma colega numa conversa que tivemos antes do início das aulas, tanto tempo livre é um convite à vadiagem – tamanha vadiagem que sequer tivemos aula na segunda-feira, quiçá alguma informação sobre qualquer reunião. Além disso, a disciplina de Documentário, que seria minha âncora no meio de um semestre sem qualquer tipo de rotina, não tinha professor definido até o fechamento desta edição, o que significa a completa ausência de aulas até segunda ordem.

A última semana foi bastante instável e a falta de uma rotina e informações fizeram com que as coisas saíssem um pouco mais do controle dessa vez. Passei a maior parte da segunda-feira em casa, coçando meu saco imaginário, esperando uma resposta, uma mensagem, qualquer coisa que me tirasse daquele limbo escuro de desorganização, mas conseguindo vários nadas. Tentei adiantar alguma coisa, qualquer coisa, numa tentativa de matar o tempo e excluir alguma tarefa da minha lista, mas falhei miseravelmente em todas elas. Minha crítica continua interminável, assim como a resenha que ainda nem comecei, e não confirmo nem nego que a essa altura, meu único desejo era matar o Selton Mello e a Clare Vanderpool com minhas próprias mãos por fazerem trabalhos tão incríveis e tão, tão bons. Eu estou completamente apaixonada e é uma verdade universalmente conhecida que é muito mais difícil falar sobre aquilo que a gente ama do que sobre aquilo que odeia. Era certo que nenhum coelho sairia daquele mato – pelo menos, não nesse cenário de estresse e frustração -, de modo que fui até os Correios buscar um pequeno envelope que me aguardava na agência desde a semana anterior, mas que só na segunda-feira tive tempo para, de fato, buscá-lo. O envelope em questão era o convite do casamento da minha amiga Dedê, essa pessoa que nunca nem vi ao vivo e já amo profundamente, de um jeito totalmente inexplicável e especial. A gente se ama, simples assim. Abrir o convite foi como receber uma enxurrada de sentimentos e amor. Eu chorei de um jeito inesperado, mas não surpreendente, porque me senti muito sortuda e especial por fazer parte desse momento, e mal posso esperar para estar ali, celebrando esse momento. A gente vai casar (de novo!), dá pra acreditar?

Na volta, eu, minha mãe, minha vó e JG passamos no comércio perto de casa para comprar algumas coisas; minha avó precisava de um chuveiro novo, minha mãe de algum remédio, e eu e JG ficamos vendo pincéis da loja de tintas. Ele, que sonha em ser pintor, ficou completamente obcecado, e só topou sair de lá bem mais tarde, com alguma resistência. Minha avó nos ofereceu açaí na sequência, o que JG prontamente aceitou. Dividimos um pequeno potinho, mas foi suficiente para matar a vontade de algo gelado e doce no calor da tarde. Terminamos em casa, sentados juntos no sofá, como sempre fazemos, e antes que o açaí chegasse ao fim, JG se aconchegou no meu colo e pegou no sono. À noite, decidi que merecia uma pizza, porque pizza fixes everything. Não deu certo, mas valeu a tentativa.

Na terça, acordei com a garganta doendo, o que me pareceu um sinal de que talvez eu devesse me obrigar a parar um pouquinho e prestar atenção no que estava acontecendo com minha mente, o que estava me deixando tão ansiosa e triste, e como isso afetava meu corpo. Aproveitei que não teria aula e passei a manhã inteira deitada na cama de roupão até pegar no sono de novo. Às vezes, é realmente preciso forçar a barra para que as coisas aconteçam, para que o corpo não se entregue de vez a uma mente que implora de joelhos que você fique mais um pouco na cama, que você deixe de escrever aquele texto, que faltar um dia não vai te reprovar, até que você deixa toda a sua vida de lado e não faz a menor ideia de como isso aconteceu. Eu já vi isso acontecer com pessoas próximas, eu sei o que a depressão é capaz de fazer com uma pessoa, e sendo desde sempre a pessoa que se cobra demais e que sonha tão alto, me permitir parar por um dia ou dois é quase como brincar com fogo; eventualmente, alguém irá se queimar. Mas parar também é necessário. Não dá pra lidar com uma vida que já saiu há tanto tempo dos trilhos que já criou raízes em todo lugar, menos onde deveria; mas isso só acontece quando a gente não se permite respirar, quando tenta acelerar demais, quando deixa de respeitar o ritmo natural da vida. A Isa Sinay escreveu algum tempo atrás, em uma newsletter, algo com o qual me identifico profundamente – embora não seja judia, tampouco criada para receber prêmios nobéis – e eu sempre retorno a esse texto quando preciso lembrar que é preciso ser gentil comigo mesma e interromper esse fluxo de atividades, cobranças e prazos infinitos.

“Eu sou muito dura comigo mesma. Terrivelmente. Eu chego ao ponto de ser cruel. Culpem meu signo, minha profissão, minha mãe, aquilo que o Jonathan Safran Foer chamou de “criar crianças judias para serem prêmios nobéis” ou tudo isso junto. Mas a verdade é que eu me cobro não só com uma expectativa imensa, mas com uma violência furiosa. (…) Então a ideia de me cobrir com uma camada de amor, embora bem menos simples do que pareça na prática, foi quase iluminadora. Não que eu tenha tido uma epifania e de repente, em uma aula de yoga, vou começar a fazer o que anos de análise não conseguiram conquistar. Eu ainda vou ser exigente e crítica e cruel comigo mesma muitas vezes, mas o lembrete de que eu não precisava ser fez algo por mim. Eu posso cuidar de mim mesma e me circundar com um espaço gostoso e enfrentar o mundo por trás dessa camada. Para alguém como eu é um exercício no qual falharei muitas vezes, mas que tem funcionado nos últimos dias. Eu me permiti ser acolhida, pelos outros e por mim mesma.”

Eu volto a essa newsletter porque ela me lembra, de um jeito terrivelmente honesto, que por mais crítica e exigente que eu seja comigo mesma, por mais que eu me cobre o tempo inteiro para ser a filha perfeita, a aluna perfeita, a dona de site perfeita, a escritora perfeita, em níveis que jamais estiveram próximos de serem saudáveis, eu não preciso ser essa pessoa o tempo todo. Se me desvencilhar completamente dela é impossível, porque ainda é algo que me traz uma imensa satisfação na maior parte do tempo, é importante traçar linhas e entender quais são os meus limites, justamente para evitar que aquilo que é satisfatório e prazeroso, de repente se transforme num fardo grande demais para carregar. O mundo já é um lugar horrível demais, terrível demais para eu tornar as coisas ainda mais difíceis. Às vezes, a gente só precisa de um carinho, um episódio de uma série conforto, uma comida quentinha e gostosa, como um abraço por dentro. Na tarde daquela mesma terça-feira, tive uma reunião com alguns professores, que esclareceram como as coisas vão funcionar esse semestre, e foi um alívio imenso. Aproveitei para conversar com a diretora do filme que vou produzir e esboçarmos alguns planos, mas não era nada formal e assim que entrei no carro, esqueci tudo que havíamos conversado.

Quarta e quinta foram dias completamente aleatórios em que eu não fiz nada, absolutamente nada, além de passar o dia na frente da televisão ou do computador; e, ironicamente, foram os dois dias que me senti mais perdida e quando as coisas realmente começaram a descer ladeira abaixo. Eu tive crises de ansiedade, eu voltei a sentir meu braço doer, eu voltei a chorar de tanto estresse e precisar de toda a ajuda possível para me acalmar, e foi horrível, como sempre é. Aconteceram coisas, é claro, e naturalmente essas coisas se juntaram à outras, e outras e mais outras, transformando-as numa bola de neve tão grande que passou por cima de mim e me levou junto com elas; mas o mais importante é que tudo já estava ali, como um monstro à espreita, esperando o momento de dar o bote; como as quedas que a gente sabe que vai acontecer, mas nunca percebe o suficiente para evitar. Na sexta, aproveitei e conversei sobre tudo isso com minha psicóloga, e foi uma sessão bastante esclarecedora, embora não o suficiente para que eu largasse esse peso de imediato. Ainda não está tudo bem, mas vai ficar. Ainda na sexta, tive uma reunião com meu professor de roteiro, e foi incrível poder finalmente conversar com alguém e ter um feedback profissional e realista não só sobre meu projeto, mas como funciona o vasto universo dos editais voltados para o financiamento de obras audiovisuais. De vez em quando, tenho realmente a impressão de que fazer cinema no Brasil parece um troço cada vez mais impossível, sobretudo se você é jovem, muito jovem e não tem muita experiência ou uma produtora para bancar suas ambições e dar alguma segurança para quem investe em você. Segurança é o que o Estado quer quando investe em cultura; ele precisa ter a garantia de que aquele filme vai sair e que você não vai só usar o dinheiro pra beber cerveja e sumir do mapa depois. É por isso que pessoas como o Selton Mello (eu realmente estou brava com o Selton Mello, vocês me perdoem) ganham dinheiro do Estado para fazerem filmes e estudantes universitários não. E eu entendo, por mais triste e restrito que seja.

O bom disso tudo é que a gente sabe onde está amarrando o jegue, e que provavelmente não vai dar em nada, absolutamente nada, mas vai ser uma experiência interessante; fora que vamos ter um projeto pronto. Quando surgirem outras oportunidades, basta enviar de novo, de novo e de novo até o dia que nos aceitarem. O cinema, afinal de contas, também é feito de tempo e alguma paciência.

No sábado, fizemos uma festa surpresa pro meu primo Peu, que é surdo, e morou mais ou menos dois anos no Rio Grande do Sul antes de voltar para Brasília. É uma história complicada e não sou eu quem vou contá-la, mas no tempo que passou lá, ele sentiu muita falta dos amigos e da família, de modo que parecia uma excelente ideia surpreendê-lo esse ano. A única prova que eu tive é que minha família é muito amadora nessa coisa de fazer festas surpresas (pensem em luzes sendo apagadas em cima da hora, em um milhão de carros estacionados na frente da casa, num PULA-PULA – !!!!!!! – localizado bem na entrada; festas surpresas definitivamente não são o nosso forte), mas foi uma comemoração linda e especial, e por mais que eu não tenha me sentido muito bem o tempo inteiro, foi bom sair um pouco de casa, vestir uma roupa bonita e ouvir as pessoas dizerem que aquela era, de fato, uma roupa muito bonita, que eu estava especialmente bela naquela noite. Não saímos de lá muito tarde, mas ficamos o suficiente para nos divertirmos, e eu ainda voltei para casa carregando dois livros encontrados por acaso na biblioteca da minha tia, em edições tão velhas que quando estava saindo com eles debaixo do braço, minha prima Bia perguntou se agora eu andava carregando uma Bíblia por aí: A Montanha Mágica, do Thomas Mann; e Quando o Espiritual Domina, da Simone de Beauvoir. Comecei a leitura do segundo ainda na casa da minha tia e fui obrigada a abandonar porque realmente precisávamos ir embora.

Acordei hoje com a garganta realmente inflamada, embora tenha preferido fingir que não, muito obrigada. Acabei não conseguindo ver meu pai – em partes, porque estava doente e não tinha o menor ânimo de sair de casa, mas também porque não me sentiria confortável naquela situação. Um dos motivos que me deixaram ansiosa nessa última semana foi o fato de que, muito embora eu quisesse passar o dia dos pais ao lado do mai pai, não queria fazê-lo num ambiente que pra mim é tão pouco familiar, e só a perspectiva de estar cercada por pessoas que me amam, mas que não me conhecem muito bem, parecia um filme de terror. Me senti bem menos culpada por não ter ido do que imaginei, mas passei toda a tarde pensando no que teria acontecido se eu tivesse tido um pouquinho mais de força de vontade e realmente me esforçado para ir ao invés de acordar cedo e passar horas e horas olhando pro teto, só para depois me desculpar por ter perdido a hora. Com meu padrasto, por outro lado, foi um momento realmente importante, porque pela primeira vez fui capaz de dizer que era ele a minha figura paterna, e embora tenhamos sempre sabido disso, acho que é diferente quando falamos as coisas em voz alta. Mais tarde, Guilherme me chamou para almoçar na casa da vó dele, e embora uma parte de mim quisesse muito ir, preferi também não fazê-lo: se eu não estaria com meu pai, eu não estaria em lugar nenhum além da minha casa. Passei o resto do dia alternando entre o computador e cochilos clandestinos, até a noite, quando o novo episódio de Game of Thrones deu o dia oficialmente por encerrado.


MÚSICA DA SEMANA

Acho que a grande questão da minha vida no momento é: será que algum dia vou superar Melodrama? Eu realmente acredito que não. O que a Lorde fez com esse álbum é um troço de outro mundo e eu realmente espero que o encanto jamais se perca; que ele mude, mas não se perca jamais. “Green Light” foi o primeiro single do álbum, mas à época de seu lançamento eu estava completamente maluca (estar completamente maluca: cada vez mais um estado constante da minha pessoa), o que significa que só quando o hype da música, e principalmente do clipe, já haviam passado foi que eu finalmente descobri o quanto a música era maravilhosa e como o clipe construía toda a vibe do álbum, que é ambientado numa festa, como a própria Lorde – e todas as pessoas da internet – já disse um milhão de vezes. Além disso, embora “Perfect Places” seja um clipe mais complexo, acho que “Green Light” é mais bem sucedido, o que prova meu ponto de que nem só de grandes firulas são feitas boas produções audiovisuais.


LUKINHO DA SEMANA

Uma das coisas que mais gosto sobre essa seção é que ela me lembra o quanto eu gostei de moda algum tempo atrás e como um dia sonhei em trabalhar com isso. Essa não é mais uma ambição, sobretudo quando penso na selva que a indústria da moda é (não que a do cinema não seja, mas bear with me), mas gosto de brincar de vez em quando, fingir que entendo de alguma coisa e compartilhar aquilo que visto sem muita pretensão, que é exatamente o que tenho feito aqui. Dessa vez, sem as luzes do provador, o que dificulta bastante a visibilidade, mas paciência. Esse foi o lukinho que usei na festa do meu primo, o mesmo que todas as pessoas elogiaram, ainda que seja uma combinação bem simples de blusinha preta de frio, saia jeans, meia calça preta e oxfords. O calor voltou oficialmente à Brasília e a única coisa que tem confortado meu coração é o fato de que, a partir de agora, cada vez mais vou poder usar minhas saias; e eu estava morrendo de saudades delas.


O QUE ESCREVI ESSA SEMANA

• Na segunda, respondi o meme das 50 perguntas (48, na realidade), um oferecimento de menina Manu, que salvou minha vida e o BEDA mais uma vez.

• Na terça, fiz uma breve lista sobre alguns dos filmes que assisti nos últimos meses e compartilhei minha opinião geral sobre cada um deles.

• Na quarta aproveitei para falar sobre Downton Abbey, como sugestão da Michas, que também acabou salvando o dia. Não era um meme programado, mas me diverti um bocado enquanto respondia à perguntas sobre uma das minhas séries favoritas dos últimos tempos.

• Na quinta, escrevi sobre minha relação com a cidade natal da minha mãe e do meu avô, sobre acreditar no passado, enxergar histórias em todos os lugares, encontrar raízes e se sentir em casa.

• Na sexta, exausta e descabelada, respondi outro meme, porque não tinha a menor condição de fazer qualquer outra coisa. Dessa vez, fui inspirada pela Natália que, por sua vez, tirou as perguntas de uma tag do Buzzfeed.

• Já no sábado, escrevi uma pequena nota de agradecimento, inspirada pela newsletter Thank You Notes, que envia para sua caixa de entrada notas de agradecimento de várias pessoas ao redor do mundo.


O QUE ANDEI LENDO

• A Manu escreveu sobre suas aventuras no transporte público e ilustrou todo o texto com gifs da Violet Crawley, também conhecida como a melhor personagem que esse blog já viu.

• A Tati escreveu sobre se reconhecer escritora, um texto muito, muito lindo, que conversou muito comigo também.

• A Jazz, que escreve no Valkirias, mas também mantém um blog, escreveu sobre A Mulher Calada, livro cuja autora utiliza o mito Sylvia Plath para discutir os limites de uma biografia; quantas versões podem existir para uma mesma história?; em quem devemos acreditar, se é que devemos acreditar em alguém?; a escrita é movida por interesses particulares? Achei o texto muito esclarecedor e fiquei com bastante vontade de ler o livro, muito embora isso provavelmente demore a acontecer.

• A Manu também escreveu sobre Mary Crawley, e como eu jamais me canso de falar sobre Downton Abbey, não podia deixar de compartilhar um texto que existe justamente para defender uma das melhores personagens já vistas na televisão.

• Não é exatamente uma novidade que sou apaixonada pelos textos da Revista Cinética, e amo especialmente os da Andrea Ormond. Essa semana, ela escreveu sobre Pitanga, documentário sobre o Antônio Pitanga, dirigido pela sua filha, Camila Pitanga, atriz e pessoa maravilhosa que mora nos nossos corações. Ainda não assisti ao filme, mas o texto da Andrea é uma preciosidade, dessas que te convencem sem muito esforço.

Por fim, no Headcanons, saiu o texto da Sofia (que também escreve no Valkirias, nossa bolha é realmente maravilhosa) sobre Gossip Girl e o fato inegável de que todos aqueles personagens não são héteros nem aqui, nem na China.

(Por algum motivo, perdi a maior parte dos textos que salvei ao longo da semana para compartilhar, de modo que peço desculpas à Michas e à Mia, que foram as maiores prejudicadas nessa palha assada. Por favor, não deixem de prestigiá-las.)

QUERIDO DIÁRIO

Diário da semana #1: Fim de férias

Minhas aulas começam amanhã.

Não sei exatamente quando, muito menos como ou porquê, mas em algum momento da minha vida acadêmica (cof, cof) minhas férias – em especial as de julho – começaram a parecer cada vez menores e mais irrelevantes perto da quantidade absurda de trabalho e esforço que eu precisava fazer para sobreviver ao semestre letivo. São mais ou menos quatro meses de aulas para um de férias; o que, em tese, deveria ser tempo suficiente para colocar minha vida em ordem antes de começar tudo de novo, mas não é. Minhas férias começaram oficialmente no dia sete do mês passado, exatamente um mês atrás, e parece outra vida, é verdade, mas ao mesmo tempo tudo que eu queria era ter pelo menos mais uma semana livre pra me organizar, tentar colocar minha vida mais ou menos em ordem antes de ser obrigada a estar de volta e bater ponto na faculdade todo dia de manhã, cinco vezes por semana.

Já repeti tantas vezes que minhas férias tinham sido uma mentira, para absolutamente qualquer pessoa que estivesse disposta a ouvir, que a essa altura já deve ter enchido o saco, mas foi exatamente isso que aconteceu. Prometi que me daria a primeira semana de férias para descansar de verdade, olhar pro teto, assistir todas as séries e filmes do mundo, colocar minha vida mais ou menos no lugar e não pensar em nada relacionado a trabalho, faculdade ou editais de 500 páginas que ninguém quer ler, mas que a gente precisa, porque é assim que a banda (pelo menos a do cinema) toca no Brasil. Eu dormiria até meio-dia, tomaria café da manhã na hora do almoço, passaria horas na frente da televisão e do computador, ia ler uma milhão de livros, começaria uma rotina de exercícios, cuidaria da minha aparência e da minha saúde, voltaria a fotografar e cozinhar, sairia com meus amigos, passaria mais tempo com meu namorado; e faria todas as coisas que tinha vontade de fazer o ano inteiro, mas que nunca encontrava tempo disponível para, de fato, realizá-las. Era uma meta ambiciosa, e como acontece com a maior parte das metas ambiciosas feitas com base na promessa de tempo livre, estavam fadadas ao fracasso. Eu até podia voltar a cozinhar, sair, ler todos os livros do mundo, mas jamais conseguiria fazer todas essas coisas ao mesmo tempo, quem dirá todas as que me propus a fazer. Eu nem tinha tempo pra tudo isso. Um mês não é tanto tempo assim.

Entretanto, o que mais me incomodou nesse meio tempo foi o fato de que, embora eu tenha tentado fazer essas coisas por algum tempo, a culpa por fazê-las – ou por não fazer o que eu realmente deveria estar fazendo: trabalho, faculdade, projetos paralelos, etc etc – era imensa. Não existia satisfação naquele lugar onde o único sentimento presente era a culpa e a certeza de que eu deveria estar fazendo algo melhor com meu tempo. Em nenhum dia sequer eu consegui ficar totalmente sossegada e em paz, mesmo que sossegada e em paz fossem minhas únicas tarefas; eu falhei miseravelmente. O que diz muito sobre o peso que coloco em mim mesma. Na escola, eu era do tipo que chegava a sentir saudades da rotina e das aulas, ainda que não gostasse tanto assim das matérias ou do ambiente escolar, porque o fato de ter que levantar todos os dias pela manhã e ter um lugar pra ir me dava a sensação de que eu estava em movimento numa época em que eu não tanto assim para fazer. É uma relação completamente diferente da de hoje, especialmente porque agora sou completamente apaixonada pelo o que faço, e a necessidade de ser boa – de preferência, muito boa – e fazer as coisas acontecerem é muito maior. Às vezes, eu realmente sinto falta da rotina de aulas, trabalhos, gravações, mas na segunda-feira, quando me dei conta de que aquela era a última semana de férias, a única coisa que eu queria era, pelo amor de Deus, ter só mais alguns dias pra descansar. Ou tentar descansar, já que fazê-lo foi absolutamente impossível nas últimas quatro semanas. Começar tudo de novo, de novo (!), significaria voltar a ficar descabelada e maluca, e eu ainda não estou pronta para estar nesse estado tão cedo. Existe a satisfação nos dias de loucura, prazos, gravações, artigos e textos infinitos; eu sou maluca desse tanto. Mas até eu preciso admitir a hora de parar, até eu preciso reconhecer meus próprios limites.

Tenho pensado em todas essas coisas desde segunda-feira, e talvez por isso, a última semana foi um misto bastante honesto de sentimentos, com momentos muito bons e outros em que eu verdadeiramente só queria deitar na minha cama e esquecer da vida por duas horinhas, deixar que tudo pegasse fogo ao meu redor enquanto eu tirava um cochilo. Meu único desejo era ver tudo resolvido quando acordasse; que meu namorado pudesse tirar cópias e imprimir documentos, que minha mãe soubesse dirigir, que eu não precisasse escrever, que não precisasse dar conta de site ou filme para produzir. Naturalmente, nada disso ia acontecer, então só tentei ignorar, do jeito que deu, a pequena tragédia que era minha vida. Nem sempre deu certo, mas não se pode ter tudo. Segundas-feiras são dias horríveis sem que ninguém precise fazer esforço; ignorar parecia a única saída plausível. No final das contas, o dia passou sem maiores traumas e até consegui concluir algumas tarefas que vinham me tirando do sério há bastante tempo: tipo terminar um livro que preciso resenhar e escrever alguns parágrafos que estou devendo há 84 anos. Ainda era menos do que gostaria de ter feito, mas o conjunto parecia melhor do que nada.

Terça foi mais ou menos um repeteco da segunda, exceto que acordei cedo e consegui tomar café com minha mãe e minha vó. É sempre uma delícia estar com as duas à mesa, jogar conversa fora e dividir uma refeição gostosa, mas existe algo de especial no café da manhã, algo mais íntimo e, por isso mesmo, nossoÉ o momento em que a casa está vazia e só as mulheres estão acordadas, e nós dividimos uma xícara de café enquanto conversamos amenidades de pijama e roupão, antes de seguirmos com nossos afazeres. Eu estava de férias, de modo que minha única obrigação era deitar novamente na minha cama quentinha e assistir Downton Abbey até pegar no sono – o que talvez tenha acontecido, talvez não, mas não vem ao caso agora. Na quarta, tive consulta com meu psiquiatra, que além de prescrever a medicação como de costume, também sugeriu que eu fizesse aulas de dança para ocupar a mente e exercitar meu corpo menos como uma obrigação e mais por prazer. Não confirmo nem nego que estou seriamente pensando no assunto. Quinta, por sua vez, foi um dia completamente aleatório. Se saí pra dar uma volta com João Guilherme, foi muito.

Mas todo o marasmo da semana foi devidamente compensado na sexta, quando eu e Guilherme saímos para celebrar a formatura da Juli. Além dos meus primos e da minha tia, ela foi a única pessoa que eu efetivamente vi formar, e acompanhei praticamente todo o processo até chegar lá, desde quando fazíamos cursinho juntas até o dia em que ela finalmente pegou seu diploma. Por muito tempo, acreditei que jamais participaria desse momento e que no máximo ficaria sabendo pelas atualizações no Facebook e no Instagram, até que nós estávamos juntas de novo e tudo aconteceu como tinha que ser; como sempre soubemos que seria. E foi incrível. A colação foi linda e especial, como ela merecia, e era visível como aquele momento era importante e especial em níveis estratosféricos. Tinha vontade abraçá-la o tempo inteiro e não largar nunca mais, enfiar numa caixinha e literalmente levar pra casa, e pedir pelo amor de Deus que continuasse feliz daquele jeito pra sempre; e ainda que eu não estivesse no melhor dos dias, a noite foi tão divertida que lamentei a hora de voltar para casa.

O que não aconteceu de verdade. Ao invés de voltar pra casa, fui direto pra casa de Guilherme, onde passei a noite e só fui acordar por volta das 10h; finalmente um horário razoável. Ganhei café da manhã na cama, com direito a ovos mexidos, suco de morango e vários pãezinhos doces que fizeram meu sábado mais bonito. Só então peguei o celular e, ainda na cama, ouvi a mensagem de voz que a Juli tinha nos enviado na noite anterior, agradecendo pela presença, e mais uma vez foi como receber um boost de amor no meu coraçãozinho. Quando digo que tenho os melhores amigos do mundo é porque, de fato, tenho os melhores amigos do mundo.

No mesmo dia, tínhamos um churrasco pra ir. Mas aí eu tinha muito o que fazer, não estava realmente interessada e não me parecia justo sair de casa para ficar de cara feia, de modo que fiquei em casa e meu namorado seguiu sozinho. Passei a tarde escrevendo e assim fiquei até a hora de dormir. Já no domingo, passei a tarde no shopping com minha mãe, minha tia e minha avó. A intenção era comprar um presente pra Guilherme, que fez aniversário em junho (!), mas só agora consegui ir no shopping escolher algo com calma. Acabei o que queria com relativa facilidade, o que me permitiu passar o tempo que me restava fazendo compras com minha mãe. Foi ali que comprei o oxford vinho que citei aqui, além de uma camiseta e um brinco enorme que não parece muito minha cara, mas que me encantou o suficiente para valer à pena trazer pra casa (o fato dele custar só dez golpinhos ajudou um bocado, risos). Minha mãe também comprou um sapatinho com cara de tumblr, que se parece um oxford, mas ainda tem um saltinho que é ideal para parecer mais arrumada sem necessariamente estar desconfortável. É lindo, lindo de morrer, e arrisquei colocá-lo no pé ainda na loja, mesmo sabendo que minha mãe calça um ou dois números a menos que eu. Surpreendentemente, o sapato serviu em nós duas, o que significa que, de agora em diante, vamos protagonizar uma nova versão de Quatro Amigas e Um Jeans Viajante, só que agora com uma mãe e uma filha que dividem o mesmo sapato que, surpreendentemente, cabe nas duas.

Por fim, o domingo terminou como sempre terminam meus domingos desde a estreia da nova temporada de Game of Thrones: com um novo episódio. Depois de toda a história do vazamento, parecia ridículo esperar até domingo para assistir o episódio, mas eu gosto da folia o suficiente para esperar assim mesmo, e foi o que fiz. Gosto de ver as reações na internet, gosto de conversar com a Michas depois dos episódios, quando trocamos ideias e opiniões sobre os rumos da série, e gosto especialmente que meu domingo termine dessa forma. Embora ainda não tenha uma opinião formada sobre a temporada no geral, o último episódio me lembrou porque Game of Thrones foi uma revolução para a televisão, e porque continuo gostando tanto dessa história. Os problemas existem, mas também existe algo além, e no final das contas, acredito que seja isso que nos mantenha ligados domingo após domingo, numa época em que assistir algo na televisão parece coisa de outro mundo.


MÚSICA DA SEMANA

Depois de uma espera relativa (mentira, foi uma espera ridícula), a Lorde finalmente liberou o clipe de Perfect Places; que não por acaso, é minha música favorita de todo o álbum. Talvez por isso, o fato de finalmente ter um clipe para ilustrar essa música tenha sido ligeiramente decepcionante: é tudo muito lindo e bem feito, mas não exatamente o lindo e bem feito que idealizei por esse tempo todo. O fato de falar sobre lugares perfeitos em literalmente um paraíso à beira-mar me parece uma escolha óbvia e um pouco preguiçosa, especialmente para alguém como a Lorde, que sempre esteve longe de ser óbvia ou preguiçosa; mas ainda é uma produção impecável e muito bonita, que tem os seus momentos. O clipe, no entanto, me levou novamente para os últimos dias de junho e o início de julho, quando finalmente entrei de férias e estava literalmente em êxtase pelas minhas conquistas naquele semestre. Ironicamente, meu mood agora era muito diferente, mas foi incrível permitir que a música me levasse de volta àqueles dias e que eu ainda conseguisse encontrar motivos para sorrir no meio de tudo. What the fuck are perfect places, anyway?


LUKINHO DA SEMANA

Para minha absoluta tristeza, voltou a fazer sol em Brasília, o que significa que, mais dia menos dia, estaremos vivendo o terror e o horror (and the fucking melodrama) que é sobreviver aos meses de agosto e setembro na capital federal. Apesar do sol, o calor ainda não é exatamente uma realidade, de modo que ainda é possível sair de calça e jaquetinhas de couro durante o dia. Usei essa roupinha – sem calças, pela primeira vez no mês – para passear no shopping; o que me pareceu apropriado na hora que escolhi as peças, mas que me deixou na dúvida tão logo saí de casa. Sigo na dúvida se gosto da combinação ou não, mas fica a tentativa de registrá-lo. Meu futuro como blogueira de moda definitivamente está morto e enterrado.


O QUE ESCREVI ESSA SEMANA

Contrariando minhas expectativas, sobrevivemos sem grandes traumas à primeira semana de BEDA, o que, pra quem não durou nem uma semana no ano passado, é uma excelente notícia. A má notícia é que a parte mais difícil começa agora. Explico: a primeira semana é sempre encarada com festa; é quando temos textos agendados, quando conseguimos escrever com mais calma e pensar melhor naquilo que queremos publicar. Mas a partir da segunda semana, as coisas mudam radicalmente de figura. As ideias começam a se multiplicar de forma descontrolada, mas o tempo para desenvolvê-las se torna cada vez menor; o que, no meu caso, gera todo um ciclo de ansiedade que só piora à medida que o desafio avança e a vida real volta a bater na porta. Não quero transformar o blog numa obrigação, muito menos o desafio em algo além da diversão, e espero conseguir fazer isso por mais uma semana. Por enquanto, pra quem não viu ou perdeu alguma coisa, fica a lista daquilo que escrevi por esses dias.

Terça-feira foi o primeiro dia de BEDA, o que significa que abrimos os trabalhos por aqui com um texto introdutório. Era para falar sobre o desafio, mas acabei falando sobre ser uma pessoa overachiever e minha dificuldade em dizer “não”.

• Na quarta, compartilhei 25 fatos aleatórios sobre mim, num formato que já tinha utilizado em outro momento e achei bacana replicar – dessa vez com direito ao mesmo gif que a Manu usou num post parecidíssimo, porque obviamente somos a mesma pessoa.

• Na quinta, escrevi sobre a menina mais bonita da faculdade e como é importante nos vestirmos com aquilo que gostamos e sem se preocupar com a opinião dos outros ou em registrar por registrar.

• Na sexta, respondi o meme “Por que eu escrevo” e falei um pouco sobre minha relação com a escrita, meu processo criativo e o que tanto tenho feito no momento.

• No sábado, por fim, fiz um self image, que basicamente consiste em falar sobre a imagem que tenho de mim mesma. Tirei a ideia inicialmente da Milena, que faz os self images mais lindos do mundo inteiro, mas acabei curtindo bastante o resultado, mas principalmente o exercício de escrever sobre eu mesma de uma forma tão sincera e vulnerável. Foi um textinho que teve um feedback incrível e fiquei muito feliz que as pessoas tenham se inspirado e escrito sobre elas mesmas também.


O QUE ANDEI LENDO

• Falando em self image, a Rafinha escreveu um pra ela também, e o resultado é esse texto lindo e inspirador, como não poderia deixar de ser.

• Nunca li Watchmen, mas esse texto da Manu me fez verdadeiramente questionar que diabos eu fiz esse tempo todo que ainda não li essa história. Amo ser fisgada dessa forma por algo que não conheço, que na realidade conheço tão pouco sobre, mas ainda assim me convenço pela qualidade da escrita de uma pessoa. A Manu é 100% esse tipo de pessoa.

• A Michas escreveu um post fantástico sobre coisas absurdas que ela já ouviu na academia (e as respostas que ela gostaria de ter dado naquela situação), o que prova dois pontos: a) o ser humano definitivamente não trabalha com limites; e b) academia é um ambiente pavoroso.

• A Mia fez um top 6 HOMÃOS DO PASSADO, e se esse não for o melhor post do mundo para alegrar nossas vidinhas sem graça, eu não sei o que é.

• A Tati, por sua vez, falou sobre suas girl crushes ficcionais, e eu achei uma ideia tão boa, mas tão boa, que tenho pensado seriamente em fazer igual. A gente fala muito sobre crushes masculinas; é chegada a hora de valorizar as minas também.

QUERIDO DIÁRIO

Querido diário,

No último domingo eu fiz 14 anos de novo.

Era uma noite chuvosa, como as tantas que andam rolando em Brasília nos últimos dias. Eu já tinha trocado de roupa dez vezes e ainda não estava lá muito satisfeita, já tinha passado um tempão deitada pensando se não era melhor ficar em casa e parar de inventar moda, mesmo que por um milagre do destino meu delineador tivesse ficado bom demais. Era domingo e meu humor estava terrível porque eu teria que trabalhar no dia seguinte e meu deus, quem é que inventa de trabalhar numa segunda-feira pré-feriado? Também porque eu tinha uma porrada de coisas pra fazer e incrivelmente não consegui fazer nenhuma delas; porque eu estava me sentindo ignorada pela vida e como se não bastasse estava chateada com coisas bobas que não vem ao caso agora, mas que me irritaram mesmo assim e pelo amor de deus, que ideia errada foi essa de sair em pleno domingo, quem foi que me deixou comprar esse ingresso, quem autorizou essa merda? Eu não estava tendo um dia bom e esse claramente era um sinal pra eu ficar em casa, mesmo que isso significasse não ver minha melhor amiga. Mas eu não desisti e fui lá ver a Fresno, com minha regata de poser e minha legging de bolinhas, embaixo de chuva, porque minhas amigas não me encontraram em qualquer canto e eu não sou de dizer não para ciladas.

Enquanto a gente ia até o pub onde ia acontecer o show, no banco de trás do carro, eu só conseguia pensar no quanto eu queria minha cama, em como tinha sido errada essa ideia de sair, e na fila que a gente fatalmente pegaria embaixo de chuva. Eu era um poço de pessimismo, ainda que não dissesse nada pra não azedar a noite de ninguém. Por mais que eu goste de fingir que ainda tenho 15 anos, é só entrar nessas furadas que eu me lembro que na verdade tenho 22, que eu já sou uma velha caduca de alma e condicionamento físico, e que enquanto adolescentes de verdade iam curtir um feriado prolongado no dia seguinte, o máximo que eu iria curtir era o ar condicionado do trabalho.

Mas aí que alguma coisa aconteceu quando eu coloquei os pés naquele pub meio caído porque, de repente, eu estava numa festa estranha com gente esquisita, ouvindo uma banda horrível fazer música ruim, esperando pra ver o show de uma banda que eu já não via há uns oito anos (cacete, OITO!!1!1!11!) e curtir uma fossa emo com minhas amigas. Era como se eu tivesse 14 anos de novo, ou quase isso, porque ainda parecia bem errado estar ali quando eu só queria saber da minha cama e do meu edredom, porque eu ainda me sentia um ser estranho perto daquelas pessoas, e também tinha essa voz que não parava de sussurrar no meu ouvido que eu estava velha demais pr’aquilo. Mas, sei lá? Quando a Fresno subiu no palco e eu vi o cabelo horroroso do Lucas, só conseguia achar aquilo certo demais. Eu podia ser muito diferente de todas aquelas pessoas, eu podia me sentir um peixe fora d’água e ainda assim todas nós estávamos ali pelo mesmo motivo, porque em algum momento das nossas vidas a gente tinha encontrado a Fresno e suas letras deprimentes e aquilo agora unia todo mundo num mesmo lugar, todo tipo de gente, de tudo quanto é idade. Isso não era errado, era na verdade certo demais.

Eu ri muito, ri demais. Ri por lembrar da Ana de 14 anos, que usava um tanto de lápis preto e calças mais justas que Deus, da Ana que ia todo fim de semana bater ponto no Pátio Brasil beber vodka barata com os amigos, a Ana que ia pros mesmos shows duvidosos que me fizeram conhecer a Fresno e tantas outras bandas maravilhosas de um jeito tão duvidoso que só bandas maravilhosas porém duvidosas conseguem ser. Ri porque estava feliz demais, porque eu estava vivendo tudo aquilo de novo, meus amados 14 anos, sendo tomada por uma avalanche de sentimentos, e meu deus como é bom ser adolescente. Ri porque as músicas eram tão deprimentes que chegavam a ser engraçadas, e nesse momento eu talvez esteja desmerecendo o sofrimento genuíno de muita gente que chorou naquele noite ao som daquelas palavras, mas quando Lucas desenterrou aquela que seria sua música mais velha e começou a cantar imagina se um dia eu não acordar, quem vai puxar assunto com você, quem vai mentir que você é legal, imagina se um dia eu morrer, eu tive que me controlar pra não gargalhar alto demais porque né, como era bom e saudável ser emo. Sdds.

Por algum motivo eu não lembrei de quase nenhuma letra durante o show, mas foi ótimo mesmo assim porque cada uma que eu lembrava era uma folia particular e eu cantava bem alto. E aí teve aquela hora também que o Lucas mandou abraçar nossos amigos e eu virei pras minhas amigas e a gente foi se abraçando até que eu estava com as duas nos meus braços e foi maravilhoso demais. Todo mundo ali estava numa vibe incrível, e mesmo que o show fosse acústico, isso não fez com que ele fosse menos animado. Porque a galera pulou, gritou, chorou e se entregou de verdade àquele momento e cacete, foi bonito demais de ver.

Já passava das 23hrs quando eu cheguei em casa e olha, foi ótimo poder tomar um banho, deitar na cama e sossegar finalmente, mas eu trocaria mil noites de sono pra poder voltar para aquelas horas que eu tive 14 anos de novo. Talvez eu não tenha mais o mesmo pique de antes. Talvez eu seja um pouco mais reclamona do que há 8 anos. Talvez meu estilo não seja mais tão duvidoso e talvez eu não goste mais tanto assim de lápis de olho. Mesmo assim, lá no fundo, eu continuo sendo a mesma adolescente de sempre. E que continue sendo sempre assim. Valeu, Fresno. Valeu, vida. E que venha a próxima.