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QUERIDO DIÁRIO

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DIÁRIO DA SEMANA #3: ACONTECEM COISAS

Tem esse episódio da primeira temporada de Gilmore Girls (“The Deer Hunters”, porque ao contrário da minha pessoa, a Yuu não brinca em serviço e sabe responder toda e qualquer coisa sobre Gilmore Girls) em que a Rory, depois de receber um D numa prova e ter um péssimo dia na escola, chega na cozinha da pousada e deixa todas as suas mochilas caírem dos ombros, com um suspiro de exaustão. Se tivesse que ilustrar a última semana com uma única cena, seria assim: um eterno cair de mochilas e suspiros de exaustão. Foram dias difíceis pra caralho.

Já escrevi sobre isso algumas vezes, mas no último semestre trabalhei em um projeto que, eventualmente, se transformou em algo muito maior, ao ponto de, literalmente, começar a chamá-lo de projeto da minha vida. É um jeito exagerado de colocar as coisas, sobretudo quando não se trata de um projeto a longo prazo, menos ainda solitário – eu tenho alguns projetos da vida, afinal, e amo a todos como filhos muito queridos e desejados -, mas parece uma colocação adequada quando penso em como ele começou de uma forma totalmente despretensiosa, que nem por um momento pareceu ter a chance de se tornar tão grande, ainda que sempre tenha sido muito especial. De repente, não era só mais um projeto de amigas de faculdade, uma história para nascer e morrer no ambiente acadêmico, mas algo grande e real, que se transformou em planos, contratos, reuniões; coisas adultas e assustadoras que jamais imaginei que aconteceriam comigo; menos ainda que aconteceriam agora.

Vira e mexe alguém me pergunta como funciona esse negócio de trabalhar com cinema, e a verdade é que não existe um jeito certo ou errado de fazer isso, menos ainda uma fórmula única: são muitas opções, muitos caminhos, muitos destinos, e várias formas de se chegar a um mesmo lugar. Diferente de outras profissões, que transformam necessidade em espaços a serem ocupados, o cinema precisa forjar esses espaços em terrenos que normalmente ainda o enxergam – e à arte, de um modo geral – como supérfluo. De toda produção artística, o cinema talvez seja a que mais depende da economia, indústria e mercado para acontecer; o que pode ser interessante pra muita gente, mas que é especialmente péssimo com quem está começando. Mesmo quando falamos de filmes de baixo orçamento, fazer cinema ainda é muito caro; raramente alguém consegue cobrir os custos de uma produção por conta própria. Assim, você precisa conseguir apoio, patrocínio, ajuda do governo, ou uma boa alma que acredite em você o suficiente para financiar o seu projeto. Existem, basicamente, dois caminhos para conseguir isso (mentira, existem vários, mas vamos tentar ser sucintos aqui): o primeiro, é por conta própria; o segundo é ter uma produtora que possa fazer isso por você.

Nada é impossível e fica muito mais fácil quando você conhece as pessoas certas, que conhecem outras pessoas certas, que conhecem justamente aquela pessoa que vai se apaixonar pelo seu projeto e topar investir em você; mas essa é uma chance mínima, especialmente quando se é um cineasta iniciante, universitário, com nada além de amor para oferecer (eu diria que é impossível, mas existem casos em que isso já aconteceu). Infelizmente, amor ainda é um produto bastante desvalorizado no mercado, de modo que, quase sempre, o que acontece é você ter que vender o seu peixe por conta própria, na cara e na coragem, pra gente que, muito provavelmente, não tem a menor intenção de investir algum dinheiro em você. É minha opção menos favorita, não só porque é desconfortável as fuck de tentar vender algo sem saber exatamente pra quem ou mesmo se alguém está interessado, e convencer quem quer que seja de que aquele investimento vai valer à pena, mas porque é uma etapa exaustiva e desestimulante, que nos lembra, do jeito mais feio e sujo possível, porque ainda é tão difícil fazer cinema. Às vezes, as pessoas simplesmente não se importam. Parabéns pelo projeto, moça, mas nós não poderíamos nos importar menos. Às vezes, elas simplesmente não querem colocar o próprio dinheiro em cinema. É difícil colocar seu próprio dinheiro na reta pelo projeto de outra pessoa. Outras vezes, elas simplesmente não podem arcar com esses custos, mas muitas vezes, são essas mesmas pessoas que oferecem outra forma de ajudar. É meu tipo favorito de pessoa: aquele que se importa o suficiente para não te deixar sair de mãos abanando, que entende sua paixão e o esforço que existe ali. Então elas oferecem comida, figurino, mão de obra, qualquer coisa que possa ser útil e que faça aquele projeto sair do papel, o que sempre nos dá alguma esperança. É assim que filmes universitários saem do papel; um pequeno milagre que tenho valorizado cada vez mais.

Há, ainda, uma terceira opção, embora sempre me pareça mais promissora na teoria do que na prática: o crowdfunding, que nada mais é do que o famigerado financiamento coletivo – que é quando várias pessoas se juntam na internet para doar pequenas quantias de dinheiro e financiar um projeto. Foi assim que a Amanda Palmer, nossa eterna inspiração de vida, conseguiu gravar um álbum de maneira independente, numa campanha que deu tão, mas tão certo que se transformou num dos casos mais bem sucedido do Kickstarter. Esse sucesso lhe rendeu algumas palestras, que mais tarde se transformaram no livro que hoje habita nossas prateleiras, e é lindo pensar que tudo isso só aconteceu com o apoio de muitas pessoas, que acreditaram na arte e na Amanda, e não pensaram duas vezes em contribuir para que esse sonho – que era dela, mas de repente tornou-se de todos – se tornasse realidade.

O que essa história muitas vezes nos leva a esquecer, contudo, é que, o que aconteceu com a Amanda não é a regra, mas sim a exceção: ela não se tornou um caso de sucesso por acaso; não é todo dia que as pessoas ganham milhões em campanhas de financiamento. Antes de se tornar uma artista independente, ela já era reconhecida como artista e possuía uma base de seguidores na internet que acompanhavam seu trabalho há seculos e com quem mantinha uma conexão profunda, construída por anos a base de muita conversa e uma troca mútua de carinho, experiências e sentimentos. No livro, ela conta que sua campanha foi apoiada por vinte e cinco mil pessoas, que já a acompanhavam e ficaram verdadeiramente empolgados em ajudar.

Tenho a impressão de que, quando falamos sobre A Arte de Pedir, o ponto mais importante é o papo sobre vulnerabilidade. Não é uma surpresa: é mais fácil que nos identifiquemos com ele; são lições que podem ser, literalmente, aplicadas em qualquer momento da vida, para qualquer pessoa, seja ela artista ou não. Mas, ainda, existem as conexões, e Amanda fala muito disso, sobretudo porque esse é um aspecto fundamental em sua jornada como pessoa e artista, e foi algo que me chamou a atenção de imediato, principalmente porque sempre acreditei na internet como ferramenta capaz de criar conexões, muitas das quais não aconteceriam se ela não existisse. A maior parte das minhas amizades são fruto da world wide web, que amplia as fronteiras e faz com que eu tenha contato com pessoas do interior do norte ao sul do Brasil; e foram essas conexões que me possibilitaram viver coisas incríveis, viajar para lugares que jamais esperei conhecer e iniciar projetos que só se tornaram realidade porque aquelas pessoas acreditaram neles tanto quanto eu. Mas essa ainda é uma bolha muito pequena: eu não tenho 25 mil pessoas para investirem no meu projeto, eu não sou uma pessoa conhecida na internet, tampouco tenho um público, de modo que emplacar uma campanha de financiamento coletivo suficientemente rentável para cobrir os gastos de filme, campanha e recompensas dificilmente seria viável.

Não é por acaso que tanta gente desiste, se torna ansiosa, depressiva ou profundamente amarga no meio do caminho; resistir é difícil pra cacete. Um dos meus professores favoritos, que infelizmente se aposentou este ano, foi um dos caras mais sensacionais que já conheci, alguém com quem eu realmente gostava de cruzar nos corredores e trocar uma ideia; mas era, também, uma das pessoas mais destruídas pela indústria que conheci até hoje. Tenho certeza que ele destruiu os sonhos de muita gente em sala de aula, não porque quisesse, muito menos de um jeito escroto, mas com uma sinceridade que só quem já foi muito machucado e não quer que o mesmo aconteça com outras pessoas pode fazer. E existia um fundo de verdade ali. Odeio ser a pessoa que diz isso, sobretudo porque antes de tudo eu acredito, de um jeito que muitas vezes parece idiota, e espero ser sempre assim; mas é diferente quando você passa a enxergar mais as coisas de dentro e menos pelo resultado, que é o que vê quem está de fora. Não quero me tornar uma pessoa amarga ou ressentida com um futuro que parecia brilhante, mas que saíra muito pior do que a encomenda, mas é preciso lembrar que continuar de pé quando o mundo passa em cima da gente como um rolo compressor não é fácil – e isso não serve apenas para o cinema. Nem sempre conseguimos. Ser jovem, ter força, vontade e cara de pau é incrível, e é importante que aproveitemos todas essas coisas que se esvaem com o tempo ou simplesmente deixam de fazer sentido quando as prioridades mudam; mas nunca é fácil.

De certa forma, os últimos dias foram um lembrete frequente de que, se resistir fosse fácil, provavelmente teria outro nome. Estou participando da seleção de um edital de curtas-metragem a nível nacional, o que significa concorrer com pessoas infinitamente mais experientes, com apoios, contatos e todo tipo de possibilidade que não tenho. Precisei encontrar uma forma de elevar um pouquinho minhas chances, não de ser selecionada, mas conseguir uma posição razoável entre os candidatos, mas tive vários picos de ansiedade ao longo da semana, ocasionados por todas as não-respostas, e-mails ignorados, telefonemas não atendidos e mensagens ignoradas do mundo; e prazos, prazos, prazos que precisavam ser cumpridos, o que pouco a pouco me destruiu inteira por dentro. Dedicação, esforço e amor já não importavam mais; eu havia colocado meu filho no mundo e ele havia sido tratado como nada, reduzido a uma proposta desimportante e desinteressante – longe demais do que ele tinha nascido pra ser. Diferente do pitching, em que tudo que podia dar errado deu e mesmo assim as coisas deram incrivelmente certo, fora do ambiente seguro da faculdade, as pessoas não podiam se importar menos. Mais uma vez, era um lembrete terrível, mas ainda um lembrete, do por quê tanta gente desiste e se torna cínico no meio do caminho. Na terça-feira, depois da reunião semanal com os professores, disse para a Nayara, minha eterna parceira de crime, que estava pensando em chutar o balde e enviar nossos formulários sem incluir nenhum apoio, ou não enviá-los de jeito nenhum, já que o contrário seria suicídio de qualquer forma, e embora ela tenha me acalmado e dito que ia dar tudo certo, naquele momento, acreditar já não parecia fazer muito sentido. Tudo isso foi dito alto o suficiente para que o professor – o mesmo que me dera um feedback sobre o projeto na semana anterior – ouvisse, quase como um pedido de ajuda – por favor, me ajude! me dê uma luz! -, mas ele não fez absolutamente nada; provavelmente porque não ouviu ou simplesmente estava ocupado demais com qualquer coisa mais importante, mas naquele momento, me pareceu um sinal: ninguém se importa, foda-se essa merda.

O que não é necessariamente verdade, mas não deixa de não ser uma mentira também. Passei a quarta-feira inteira na frente do computador, absolutamente exausta pela frustração e expectativa de receber um e-mail, uma mensagem, um telefonema, qualquer coisa que me tirasse daquele limbo. Enviei mais algumas propostas durante a tarde, fiz algumas ligações, e por fim me dei por vencida; o mundo que explodisse se quisesse. Não parecia que algum coelho potencialmente saísse daquele mato, pelo menos não a tempo de incluir no projeto para o edital, mas de repente, e não mais que de repente, as coisas, curiosamente, começaram a acontecer. Sempre acho engraçado quando as coisas começam a acontecer e dar certo, quase como se eu não fosse realmente merecedora delas, mas ao mesmo tempo feliz demais para dizer não. Primeiro, foi a resposta de uma loja, que não podia nos ajudar com dinheiro, mas ofereceu figurino e objetos cenográficos, e logo tinha ajuda vinda de todos os lugares. Marquei reuniões e fui quase que literalmente abraçada por cada uma dessas pessoas, que nem sempre me conheciam muito bem, mas acreditavam no poder da história que eu queria contar assim mesmo. Na semana passada, disse que às vezes achava quase impossível fazer cinema no Brasil, sobretudo se você era jovem, muito jovem, e sem grandes experiências, o que justificava que pessoas como o Selton Mello ganhassem dinheiro do governo para fazer filmes e estudantes universitários não, mas de repente, uma luzinha se acendeu no fim do túnel. Então quer dizer que isso pode acontecer? Então quer dizer que isso não só pode acontecer como está acontecendo comigo? Pois é.

Foi assim que, em pleno sábado à noite, eu e Nayara dirigimos rumo a um shopping onde Judas perdeu as botas nos encontrar com uma produtora que queria nos conhecer e entender melhor o projeto, o que já havíamos feito e o que esperávamos dela caso trabalhássemos juntas, antes de fechar conosco. Foi uma conversa bastante esclarecedora, especialmente porque, mais de uma vez, nos fez olhar para o outro lado da indústria – no caso, o das produtoras – e menos para o nosso próprio. São perspectivas muito diferentes, com interesses completamente distintos, o que, mais uma vez, me levou à certeza de que, antes de termos contratos, precisávamos de pessoas realmente alinhadas com a história que queríamos contar. Nós precisávamos manter esse tipo de honestidade. Saímos da reunião direto para casa, depois de tomarmos uma Coca-Cola, repassarmos alguns papéis, folhearmos livros e rirmos da nossa tragédia particular que, pouco a pouco, se transformava novamente em nosso sonho; o mesmo que idealizamos quase dois anos atrás. Ainda é muito cedo para dizer qualquer coisa, mas tenho certeza que amanhã, quando enviar o projeto, estarei com a alma em paz, tranquila – e em paz e tranquila são as únicas coisas que posso desejar estar no momento.


MÚSICA DA SEMANA

Aparentemente Taylor Swift está de volta. Aproveitei o novo momento da nossa melhor amiga famosa para passear por seus trabalhos antigos e relembrar seus melhores momentos; o que, basicamente, significa voltar a santíssima trindade: Fearless, Speak Now e Red. De todos, Red continua sendo meu favorito, muito embora Speak Now tenha feito meu coração bater mais forte nos últimos anos. À época de seu lançamento eu vivia um momento de muito rock, jaquetas de couro e madrugadas dirigindo sem rumo por ruas vazias, de modo que só agora, quase dez anos após seu lançamento, é que pude apreciar a magia que esse álbum evoca; sentimentos contraditórios, que nem sempre coexistem harmonia, mas o que é ser jovem, muito jovem, senão uma loucura de sentimentos? Taylor sabe disso melhor do que ninguém, e sendo a compositora incrível que é, foi lá e escreveu músicas capazes de nos transportar diretamente para esses lugares. De todas, “Long Live” é minha favorita, com o tipo de sentimento que chega mais perto do que acredito que significa ser jovem e muito, muito livre, e muito, muito apaixonado, mas para não obrigar ninguém a ter que ouvir a versão brega com a Paula Fernandes, “Sparks Fly” parece uma escolha mais apropriada, com praticamente o mesmo resultado.


LUKINHO DA SEMANA

Não exatamente dessa semana, mas que representa muito bem o estado que me encontrei na maior parte da semana: roupão e pijamas, única combinação possível.


O QUE ESCREVI ESSA SEMANA

• Na segunda, decidi começar a semana falando sobre Downton Abbey, minha nova obsessão do momento e série favorita de todas as vidas. Ali, escrevi um resumo de cada uma das seis temporadas e dei minha opinião sobre alguns dos eventos mais importantes de cada uma delas.

• Na terça, respondi o meme Guilty Reader, um oferecimento da menina Michas, que salvou mais um dia de BEDA neste blog.

• Na quarta, escrevi sobre Tigres em Dia Vermelho, um dos meus livros favoritos do ano passado, mas cujo hype parece não ter sido forte o suficiente para chegar na minha bolha de amigas.

• Na quinta, escrevi uma cartinha pra Yuu, amor da minha vida e uma das minhas melhores amigas.

Sexta foi dia de compartilhar alguns sonhos malucos, fruto da minha cabeça igualmente maluca e sem noção.

• Por fim, no sábado, respondi outro meme, dessa vez o A Cara da Riqueza… Se Eu Fosse Rica; oferecimento da Manu onde, basicamente, compartilhei coisas que faria ou como agiria caso fosse milionária. Spoiler: a vida seria top.

(Perdoem a falta de links, prometo melhorar na semana que vem, risos.)

 

QUERIDO DIÁRIO

DIÁRIO DA SEMANA #2: UMA SEMANA RUIM

Todo mundo tem dias – às vezes semanas, meses, anos; enfim, vocês entenderam – ruins. Eles podem chegar de forma inesperada e, sem pedir licença, começam a fazer estrago. Você acorda se sentindo meio estranha, mas sem saber exatamente o por quê, até que de repente, e não mais que de repente, entende: um dia ruim. Simples assim. Outras vezes, esses dias simplesmente se acomodam no meio de toda a desgraça possível, como uma consequência inevitável e insuportável, que chega de mala e cuia sem nem pedir desculpas por estar ali. Dias ruins são sempre muito mal educados e inconvenientes, como parentes distantes que não cansam de fazer perguntas mal educadas e igualmente inconvenientes sobre o futuro, os namorados e casamentos que jamais irão acontecer; mas assim como parentes, eles também têm data e hora certa para irem embora – a única diferença é que nós nunca sabemos exatamente quando isso vai acontecer.

Eu tive uma semana bastante ruim, do tipo que não acontecia desde maio ou abril, quando literalmente precisei de toda a ajuda possível para ser salva de mim mesma. Olhando agora, esses dias parecem ironicamente distantes, mas eu ainda lembro como era ter tanto pra fazer quando eu sequer conseguia levantar da cama de manhã. Era o auge do semestre, as coisas não podiam estar piores em casa e eu não tinha a menor ideia do que fazer com a minha vida. As coisas não estão tão horríveis agora, mas não foi preciso muito esforço para que o pouco controle que eu tinha adquirido nas férias fosse perdido novamente. E eu me sentisse perdida de novo. Era só um dia ruim, que de repente se transformou em uma semana inteira, e daí eu estava jogando a toalha, me enfiando embaixo das cobertas ao meio-dia, decidida a cancelar meu dia porque eu não ia mesmo conseguir escrever aquele texto a tempo, não ia mesmo terminar aquela crítica, aquela resenha, aquele formulário do edital, eu não ia postar aquela papelada nos Correios; forçar a barra não ia ajudar em absolutamente nada.

Minha rotina é bastante confusa para a maioria das pessoas, o que não ajuda em nada quando tento justificar por que diabos estou arrancando a calcinha pela cabeça de novo. A maior parte do meu tempo é gasto na frente do computador, que é onde escrevo, preencho formulários e planilhas, converso com pessoas, faço reuniões, leio, assisto e tenho acesso à maior parte do material que preciso para escrever, e mesmo o tempo que passo fora de casa, tendo aulas ou resolvendo coisas na rua, tem se tornado cada vez menor. Para quem me vê sentada no meu quarto, com fone de ouvido, de frente para o computador, aquilo se parece bem pouco com o que nos ensinaram sobre o conceito de trabalho – que em qualquer outra circunstância, significa passar várias horas fora de casa, bater ponto cinco vezes por semana em um horário fixo e receber um salário “x” no fim do mês. O fato de todos os meus trabalhos convencionais terem sido realizados por longas horas na frente de um computador que não era meu não altera absolutamente nada nesse cenário: o importante é não estar em casa, não o fato de você encarar ambas as situações como um compromisso real oficial, que possui prazos que precisam ser respeitados e obrigações com as quais você precisa arcar.

O fato de estar em uma semana ruim torna tudo ainda pior, porque não adianta ter todos os prazos colados num mural bem na sua frente, tampouco uma lista de tarefas para cada dia anotada em um caderno que praticamente é uma extensão de você mesma. Você não vai conseguir fazer nada; ou vai fazer muito pouco, o que é tão ruim quanto. Eu entendo a noção de compromisso, eu entendo minhas obrigações e tento respeitá-las ao máximo, mesmo que às vezes isso signifique fazer hora extra, mas às vezes é preciso reconhecer a derrota e, oh boy, essa semana foi uma derrota.

A começar pelas minhas aulas, que começaram do pior jeito possível: não começando de jeito nenhum. Estou naquele período conhecido na Universidade de Brasília – em especial, pelas pessoas do Audiovisual – como o Bloco, um bloco (dã) de disciplinas práticas que incluem, entre outras coisas, disciplinas como direção, produção, fotografia e edição; em sua, o que a gente vai fazer quando sair dali com um diploma na mão; ao menos, em tese. Semestre passado, peguei a primeira rodada do Bloco (batizada de Bloco I), matérias essencialmente práticas, mas que ainda exigiam presença como uma disciplina teórica qualquer. É uma realidade completamente diferente do Bloco II, que é onde estou agora, onde no máximo temos reuniões esporádicas com os professores enquanto produzimos um curta-metragem por conta própria, que é o que temos que entregar no fim do semestre letivo. Aproveitei o horário mais flexível para pegar uma cadeira de Documentário às terças e quintas pela manhã, numa tentativa de manter uma rotina, mas como colocou uma colega numa conversa que tivemos antes do início das aulas, tanto tempo livre é um convite à vadiagem – tamanha vadiagem que sequer tivemos aula na segunda-feira, quiçá alguma informação sobre qualquer reunião. Além disso, a disciplina de Documentário, que seria minha âncora no meio de um semestre sem qualquer tipo de rotina, não tinha professor definido até o fechamento desta edição, o que significa a completa ausência de aulas até segunda ordem.

A última semana foi bastante instável e a falta de uma rotina e informações fizeram com que as coisas saíssem um pouco mais do controle dessa vez. Passei a maior parte da segunda-feira em casa, coçando meu saco imaginário, esperando uma resposta, uma mensagem, qualquer coisa que me tirasse daquele limbo escuro de desorganização, mas conseguindo vários nadas. Tentei adiantar alguma coisa, qualquer coisa, numa tentativa de matar o tempo e excluir alguma tarefa da minha lista, mas falhei miseravelmente em todas elas. Minha crítica continua interminável, assim como a resenha que ainda nem comecei, e não confirmo nem nego que a essa altura, meu único desejo era matar o Selton Mello e a Clare Vanderpool com minhas próprias mãos por fazerem trabalhos tão incríveis e tão, tão bons. Eu estou completamente apaixonada e é uma verdade universalmente conhecida que é muito mais difícil falar sobre aquilo que a gente ama do que sobre aquilo que odeia. Era certo que nenhum coelho sairia daquele mato – pelo menos, não nesse cenário de estresse e frustração -, de modo que fui até os Correios buscar um pequeno envelope que me aguardava na agência desde a semana anterior, mas que só na segunda-feira tive tempo para, de fato, buscá-lo. O envelope em questão era o convite do casamento da minha amiga Dedê, essa pessoa que nunca nem vi ao vivo e já amo profundamente, de um jeito totalmente inexplicável e especial. A gente se ama, simples assim. Abrir o convite foi como receber uma enxurrada de sentimentos e amor. Eu chorei de um jeito inesperado, mas não surpreendente, porque me senti muito sortuda e especial por fazer parte desse momento, e mal posso esperar para estar ali, celebrando esse momento. A gente vai casar (de novo!), dá pra acreditar?

Na volta, eu, minha mãe, minha vó e JG passamos no comércio perto de casa para comprar algumas coisas; minha avó precisava de um chuveiro novo, minha mãe de algum remédio, e eu e JG ficamos vendo pincéis da loja de tintas. Ele, que sonha em ser pintor, ficou completamente obcecado, e só topou sair de lá bem mais tarde, com alguma resistência. Minha avó nos ofereceu açaí na sequência, o que JG prontamente aceitou. Dividimos um pequeno potinho, mas foi suficiente para matar a vontade de algo gelado e doce no calor da tarde. Terminamos em casa, sentados juntos no sofá, como sempre fazemos, e antes que o açaí chegasse ao fim, JG se aconchegou no meu colo e pegou no sono. À noite, decidi que merecia uma pizza, porque pizza fixes everything. Não deu certo, mas valeu a tentativa.

Na terça, acordei com a garganta doendo, o que me pareceu um sinal de que talvez eu devesse me obrigar a parar um pouquinho e prestar atenção no que estava acontecendo com minha mente, o que estava me deixando tão ansiosa e triste, e como isso afetava meu corpo. Aproveitei que não teria aula e passei a manhã inteira deitada na cama de roupão até pegar no sono de novo. Às vezes, é realmente preciso forçar a barra para que as coisas aconteçam, para que o corpo não se entregue de vez a uma mente que implora de joelhos que você fique mais um pouco na cama, que você deixe de escrever aquele texto, que faltar um dia não vai te reprovar, até que você deixa toda a sua vida de lado e não faz a menor ideia de como isso aconteceu. Eu já vi isso acontecer com pessoas próximas, eu sei o que a depressão é capaz de fazer com uma pessoa, e sendo desde sempre a pessoa que se cobra demais e que sonha tão alto, me permitir parar por um dia ou dois é quase como brincar com fogo; eventualmente, alguém irá se queimar. Mas parar também é necessário. Não dá pra lidar com uma vida que já saiu há tanto tempo dos trilhos que já criou raízes em todo lugar, menos onde deveria; mas isso só acontece quando a gente não se permite respirar, quando tenta acelerar demais, quando deixa de respeitar o ritmo natural da vida. A Isa Sinay escreveu algum tempo atrás, em uma newsletter, algo com o qual me identifico profundamente – embora não seja judia, tampouco criada para receber prêmios nobéis – e eu sempre retorno a esse texto quando preciso lembrar que é preciso ser gentil comigo mesma e interromper esse fluxo de atividades, cobranças e prazos infinitos.

“Eu sou muito dura comigo mesma. Terrivelmente. Eu chego ao ponto de ser cruel. Culpem meu signo, minha profissão, minha mãe, aquilo que o Jonathan Safran Foer chamou de “criar crianças judias para serem prêmios nobéis” ou tudo isso junto. Mas a verdade é que eu me cobro não só com uma expectativa imensa, mas com uma violência furiosa. (…) Então a ideia de me cobrir com uma camada de amor, embora bem menos simples do que pareça na prática, foi quase iluminadora. Não que eu tenha tido uma epifania e de repente, em uma aula de yoga, vou começar a fazer o que anos de análise não conseguiram conquistar. Eu ainda vou ser exigente e crítica e cruel comigo mesma muitas vezes, mas o lembrete de que eu não precisava ser fez algo por mim. Eu posso cuidar de mim mesma e me circundar com um espaço gostoso e enfrentar o mundo por trás dessa camada. Para alguém como eu é um exercício no qual falharei muitas vezes, mas que tem funcionado nos últimos dias. Eu me permiti ser acolhida, pelos outros e por mim mesma.”

Eu volto a essa newsletter porque ela me lembra, de um jeito terrivelmente honesto, que por mais crítica e exigente que eu seja comigo mesma, por mais que eu me cobre o tempo inteiro para ser a filha perfeita, a aluna perfeita, a dona de site perfeita, a escritora perfeita, em níveis que jamais estiveram próximos de serem saudáveis, eu não preciso ser essa pessoa o tempo todo. Se me desvencilhar completamente dela é impossível, porque ainda é algo que me traz uma imensa satisfação na maior parte do tempo, é importante traçar linhas e entender quais são os meus limites, justamente para evitar que aquilo que é satisfatório e prazeroso, de repente se transforme num fardo grande demais para carregar. O mundo já é um lugar horrível demais, terrível demais para eu tornar as coisas ainda mais difíceis. Às vezes, a gente só precisa de um carinho, um episódio de uma série conforto, uma comida quentinha e gostosa, como um abraço por dentro. Na tarde daquela mesma terça-feira, tive uma reunião com alguns professores, que esclareceram como as coisas vão funcionar esse semestre, e foi um alívio imenso. Aproveitei para conversar com a diretora do filme que vou produzir e esboçarmos alguns planos, mas não era nada formal e assim que entrei no carro, esqueci tudo que havíamos conversado.

Quarta e quinta foram dias completamente aleatórios em que eu não fiz nada, absolutamente nada, além de passar o dia na frente da televisão ou do computador; e, ironicamente, foram os dois dias que me senti mais perdida e quando as coisas realmente começaram a descer ladeira abaixo. Eu tive crises de ansiedade, eu voltei a sentir meu braço doer, eu voltei a chorar de tanto estresse e precisar de toda a ajuda possível para me acalmar, e foi horrível, como sempre é. Aconteceram coisas, é claro, e naturalmente essas coisas se juntaram à outras, e outras e mais outras, transformando-as numa bola de neve tão grande que passou por cima de mim e me levou junto com elas; mas o mais importante é que tudo já estava ali, como um monstro à espreita, esperando o momento de dar o bote; como as quedas que a gente sabe que vai acontecer, mas nunca percebe o suficiente para evitar. Na sexta, aproveitei e conversei sobre tudo isso com minha psicóloga, e foi uma sessão bastante esclarecedora, embora não o suficiente para que eu largasse esse peso de imediato. Ainda não está tudo bem, mas vai ficar. Ainda na sexta, tive uma reunião com meu professor de roteiro, e foi incrível poder finalmente conversar com alguém e ter um feedback profissional e realista não só sobre meu projeto, mas como funciona o vasto universo dos editais voltados para o financiamento de obras audiovisuais. De vez em quando, tenho realmente a impressão de que fazer cinema no Brasil parece um troço cada vez mais impossível, sobretudo se você é jovem, muito jovem e não tem muita experiência ou uma produtora para bancar suas ambições e dar alguma segurança para quem investe em você. Segurança é o que o Estado quer quando investe em cultura; ele precisa ter a garantia de que aquele filme vai sair e que você não vai só usar o dinheiro pra beber cerveja e sumir do mapa depois. É por isso que pessoas como o Selton Mello (eu realmente estou brava com o Selton Mello, vocês me perdoem) ganham dinheiro do Estado para fazerem filmes e estudantes universitários não. E eu entendo, por mais triste e restrito que seja.

O bom disso tudo é que a gente sabe onde está amarrando o jegue, e que provavelmente não vai dar em nada, absolutamente nada, mas vai ser uma experiência interessante; fora que vamos ter um projeto pronto. Quando surgirem outras oportunidades, basta enviar de novo, de novo e de novo até o dia que nos aceitarem. O cinema, afinal de contas, também é feito de tempo e alguma paciência.

No sábado, fizemos uma festa surpresa pro meu primo Peu, que é surdo, e morou mais ou menos dois anos no Rio Grande do Sul antes de voltar para Brasília. É uma história complicada e não sou eu quem vou contá-la, mas no tempo que passou lá, ele sentiu muita falta dos amigos e da família, de modo que parecia uma excelente ideia surpreendê-lo esse ano. A única prova que eu tive é que minha família é muito amadora nessa coisa de fazer festas surpresas (pensem em luzes sendo apagadas em cima da hora, em um milhão de carros estacionados na frente da casa, num PULA-PULA – !!!!!!! – localizado bem na entrada; festas surpresas definitivamente não são o nosso forte), mas foi uma comemoração linda e especial, e por mais que eu não tenha me sentido muito bem o tempo inteiro, foi bom sair um pouco de casa, vestir uma roupa bonita e ouvir as pessoas dizerem que aquela era, de fato, uma roupa muito bonita, que eu estava especialmente bela naquela noite. Não saímos de lá muito tarde, mas ficamos o suficiente para nos divertirmos, e eu ainda voltei para casa carregando dois livros encontrados por acaso na biblioteca da minha tia, em edições tão velhas que quando estava saindo com eles debaixo do braço, minha prima Bia perguntou se agora eu andava carregando uma Bíblia por aí: A Montanha Mágica, do Thomas Mann; e Quando o Espiritual Domina, da Simone de Beauvoir. Comecei a leitura do segundo ainda na casa da minha tia e fui obrigada a abandonar porque realmente precisávamos ir embora.

Acordei hoje com a garganta realmente inflamada, embora tenha preferido fingir que não, muito obrigada. Acabei não conseguindo ver meu pai – em partes, porque estava doente e não tinha o menor ânimo de sair de casa, mas também porque não me sentiria confortável naquela situação. Um dos motivos que me deixaram ansiosa nessa última semana foi o fato de que, muito embora eu quisesse passar o dia dos pais ao lado do mai pai, não queria fazê-lo num ambiente que pra mim é tão pouco familiar, e só a perspectiva de estar cercada por pessoas que me amam, mas que não me conhecem muito bem, parecia um filme de terror. Me senti bem menos culpada por não ter ido do que imaginei, mas passei toda a tarde pensando no que teria acontecido se eu tivesse tido um pouquinho mais de força de vontade e realmente me esforçado para ir ao invés de acordar cedo e passar horas e horas olhando pro teto, só para depois me desculpar por ter perdido a hora. Com meu padrasto, por outro lado, foi um momento realmente importante, porque pela primeira vez fui capaz de dizer que era ele a minha figura paterna, e embora tenhamos sempre sabido disso, acho que é diferente quando falamos as coisas em voz alta. Mais tarde, Guilherme me chamou para almoçar na casa da vó dele, e embora uma parte de mim quisesse muito ir, preferi também não fazê-lo: se eu não estaria com meu pai, eu não estaria em lugar nenhum além da minha casa. Passei o resto do dia alternando entre o computador e cochilos clandestinos, até a noite, quando o novo episódio de Game of Thrones deu o dia oficialmente por encerrado.


MÚSICA DA SEMANA

Acho que a grande questão da minha vida no momento é: será que algum dia vou superar Melodrama? Eu realmente acredito que não. O que a Lorde fez com esse álbum é um troço de outro mundo e eu realmente espero que o encanto jamais se perca; que ele mude, mas não se perca jamais. “Green Light” foi o primeiro single do álbum, mas à época de seu lançamento eu estava completamente maluca (estar completamente maluca: cada vez mais um estado constante da minha pessoa), o que significa que só quando o hype da música, e principalmente do clipe, já haviam passado foi que eu finalmente descobri o quanto a música era maravilhosa e como o clipe construía toda a vibe do álbum, que é ambientado numa festa, como a própria Lorde – e todas as pessoas da internet – já disse um milhão de vezes. Além disso, embora “Perfect Places” seja um clipe mais complexo, acho que “Green Light” é mais bem sucedido, o que prova meu ponto de que nem só de grandes firulas são feitas boas produções audiovisuais.


LUKINHO DA SEMANA

Uma das coisas que mais gosto sobre essa seção é que ela me lembra o quanto eu gostei de moda algum tempo atrás e como um dia sonhei em trabalhar com isso. Essa não é mais uma ambição, sobretudo quando penso na selva que a indústria da moda é (não que a do cinema não seja, mas bear with me), mas gosto de brincar de vez em quando, fingir que entendo de alguma coisa e compartilhar aquilo que visto sem muita pretensão, que é exatamente o que tenho feito aqui. Dessa vez, sem as luzes do provador, o que dificulta bastante a visibilidade, mas paciência. Esse foi o lukinho que usei na festa do meu primo, o mesmo que todas as pessoas elogiaram, ainda que seja uma combinação bem simples de blusinha preta de frio, saia jeans, meia calça preta e oxfords. O calor voltou oficialmente à Brasília e a única coisa que tem confortado meu coração é o fato de que, a partir de agora, cada vez mais vou poder usar minhas saias; e eu estava morrendo de saudades delas.


O QUE ESCREVI ESSA SEMANA

• Na segunda, respondi o meme das 50 perguntas (48, na realidade), um oferecimento de menina Manu, que salvou minha vida e o BEDA mais uma vez.

• Na terça, fiz uma breve lista sobre alguns dos filmes que assisti nos últimos meses e compartilhei minha opinião geral sobre cada um deles.

• Na quarta aproveitei para falar sobre Downton Abbey, como sugestão da Michas, que também acabou salvando o dia. Não era um meme programado, mas me diverti um bocado enquanto respondia à perguntas sobre uma das minhas séries favoritas dos últimos tempos.

• Na quinta, escrevi sobre minha relação com a cidade natal da minha mãe e do meu avô, sobre acreditar no passado, enxergar histórias em todos os lugares, encontrar raízes e se sentir em casa.

• Na sexta, exausta e descabelada, respondi outro meme, porque não tinha a menor condição de fazer qualquer outra coisa. Dessa vez, fui inspirada pela Natália que, por sua vez, tirou as perguntas de uma tag do Buzzfeed.

• Já no sábado, escrevi uma pequena nota de agradecimento, inspirada pela newsletter Thank You Notes, que envia para sua caixa de entrada notas de agradecimento de várias pessoas ao redor do mundo.


O QUE ANDEI LENDO

• A Manu escreveu sobre suas aventuras no transporte público e ilustrou todo o texto com gifs da Violet Crawley, também conhecida como a melhor personagem que esse blog já viu.

• A Tati escreveu sobre se reconhecer escritora, um texto muito, muito lindo, que conversou muito comigo também.

• A Jazz, que escreve no Valkirias, mas também mantém um blog, escreveu sobre A Mulher Calada, livro cuja autora utiliza o mito Sylvia Plath para discutir os limites de uma biografia; quantas versões podem existir para uma mesma história?; em quem devemos acreditar, se é que devemos acreditar em alguém?; a escrita é movida por interesses particulares? Achei o texto muito esclarecedor e fiquei com bastante vontade de ler o livro, muito embora isso provavelmente demore a acontecer.

• A Manu também escreveu sobre Mary Crawley, e como eu jamais me canso de falar sobre Downton Abbey, não podia deixar de compartilhar um texto que existe justamente para defender uma das melhores personagens já vistas na televisão.

• Não é exatamente uma novidade que sou apaixonada pelos textos da Revista Cinética, e amo especialmente os da Andrea Ormond. Essa semana, ela escreveu sobre Pitanga, documentário sobre o Antônio Pitanga, dirigido pela sua filha, Camila Pitanga, atriz e pessoa maravilhosa que mora nos nossos corações. Ainda não assisti ao filme, mas o texto da Andrea é uma preciosidade, dessas que te convencem sem muito esforço.

Por fim, no Headcanons, saiu o texto da Sofia (que também escreve no Valkirias, nossa bolha é realmente maravilhosa) sobre Gossip Girl e o fato inegável de que todos aqueles personagens não são héteros nem aqui, nem na China.

(Por algum motivo, perdi a maior parte dos textos que salvei ao longo da semana para compartilhar, de modo que peço desculpas à Michas e à Mia, que foram as maiores prejudicadas nessa palha assada. Por favor, não deixem de prestigiá-las.)

QUERIDO DIÁRIO

DIÁRIO DA SEMANA #1: FIM DE FÉRIAS

Minhas aulas começam amanhã.

Não sei exatamente quando, muito menos como ou porquê, mas em algum momento da minha vida acadêmica (cof, cof) minhas férias – em especial as de julho – começaram a parecer cada vez menores e mais irrelevantes perto da quantidade absurda de trabalho e esforço que eu precisava fazer para sobreviver ao semestre letivo. São mais ou menos quatro meses de aulas para um de férias; o que, em tese, deveria ser tempo suficiente para colocar minha vida em ordem antes de começar tudo de novo, mas não é. Minhas férias começaram oficialmente no dia sete do mês passado, exatamente um mês atrás, e parece outra vida, é verdade, mas ao mesmo tempo tudo que eu queria era ter pelo menos mais uma semana livre pra me organizar, tentar colocar minha vida mais ou menos em ordem antes de ser obrigada a estar de volta e bater ponto na faculdade todo dia de manhã, cinco vezes por semana.

Já repeti tantas vezes que minhas férias tinham sido uma mentira, para absolutamente qualquer pessoa que estivesse disposta a ouvir, que a essa altura já deve ter enchido o saco, mas foi exatamente isso que aconteceu. Prometi que me daria a primeira semana de férias para descansar de verdade, olhar pro teto, assistir todas as séries e filmes do mundo, colocar minha vida mais ou menos no lugar e não pensar em nada relacionado a trabalho, faculdade ou editais de 500 páginas que ninguém quer ler, mas que a gente precisa, porque é assim que a banda (pelo menos a do cinema) toca no Brasil. Eu dormiria até meio-dia, tomaria café da manhã na hora do almoço, passaria horas na frente da televisão e do computador, ia ler uma milhão de livros, começaria uma rotina de exercícios, cuidaria da minha aparência e da minha saúde, voltaria a fotografar e cozinhar, sairia com meus amigos, passaria mais tempo com meu namorado; e faria todas as coisas que tinha vontade de fazer o ano inteiro, mas que nunca encontrava tempo disponível para, de fato, realizá-las. Era uma meta ambiciosa, e como acontece com a maior parte das metas ambiciosas feitas com base na promessa de tempo livre, estavam fadadas ao fracasso. Eu até podia voltar a cozinhar, sair, ler todos os livros do mundo, mas jamais conseguiria fazer todas essas coisas ao mesmo tempo, quem dirá todas as que me propus a fazer. Eu nem tinha tempo pra tudo isso. Um mês não é tanto tempo assim.

Entretanto, o que mais me incomodou nesse meio tempo foi o fato de que, embora eu tenha tentado fazer essas coisas por algum tempo, a culpa por fazê-las – ou por não fazer o que eu realmente deveria estar fazendo: trabalho, faculdade, projetos paralelos, etc etc – era imensa. Não existia satisfação naquele lugar onde o único sentimento presente era a culpa e a certeza de que eu deveria estar fazendo algo melhor com meu tempo. Em nenhum dia sequer eu consegui ficar totalmente sossegada e em paz, mesmo que sossegada e em paz fossem minhas únicas tarefas; eu falhei miseravelmente. O que diz muito sobre o peso que coloco em mim mesma. Na escola, eu era do tipo que chegava a sentir saudades da rotina e das aulas, ainda que não gostasse tanto assim das matérias ou do ambiente escolar, porque o fato de ter que levantar todos os dias pela manhã e ter um lugar pra ir me dava a sensação de que eu estava em movimento numa época em que eu não tanto assim para fazer. É uma relação completamente diferente da de hoje, especialmente porque agora sou completamente apaixonada pelo o que faço, e a necessidade de ser boa – de preferência, muito boa – e fazer as coisas acontecerem é muito maior. Às vezes, eu realmente sinto falta da rotina de aulas, trabalhos, gravações, mas na segunda-feira, quando me dei conta de que aquela era a última semana de férias, a única coisa que eu queria era, pelo amor de Deus, ter só mais alguns dias pra descansar. Ou tentar descansar, já que fazê-lo foi absolutamente impossível nas últimas quatro semanas. Começar tudo de novo, de novo (!), significaria voltar a ficar descabelada e maluca, e eu ainda não estou pronta para estar nesse estado tão cedo. Existe a satisfação nos dias de loucura, prazos, gravações, artigos e textos infinitos; eu sou maluca desse tanto. Mas até eu preciso admitir a hora de parar, até eu preciso reconhecer meus próprios limites.

Tenho pensado em todas essas coisas desde segunda-feira, e talvez por isso, a última semana foi um misto bastante honesto de sentimentos, com momentos muito bons e outros em que eu verdadeiramente só queria deitar na minha cama e esquecer da vida por duas horinhas, deixar que tudo pegasse fogo ao meu redor enquanto eu tirava um cochilo. Meu único desejo era ver tudo resolvido quando acordasse; que meu namorado pudesse tirar cópias e imprimir documentos, que minha mãe soubesse dirigir, que eu não precisasse escrever, que não precisasse dar conta de site ou filme para produzir. Naturalmente, nada disso ia acontecer, então só tentei ignorar, do jeito que deu, a pequena tragédia que era minha vida. Nem sempre deu certo, mas não se pode ter tudo. Segundas-feiras são dias horríveis sem que ninguém precise fazer esforço; ignorar parecia a única saída plausível. No final das contas, o dia passou sem maiores traumas e até consegui concluir algumas tarefas que vinham me tirando do sério há bastante tempo: tipo terminar um livro que preciso resenhar e escrever alguns parágrafos que estou devendo há 84 anos. Ainda era menos do que gostaria de ter feito, mas o conjunto parecia melhor do que nada.

Terça foi mais ou menos um repeteco da segunda, exceto que acordei cedo e consegui tomar café com minha mãe e minha vó. É sempre uma delícia estar com as duas à mesa, jogar conversa fora e dividir uma refeição gostosa, mas existe algo de especial no café da manhã, algo mais íntimo e, por isso mesmo, nossoÉ o momento em que a casa está vazia e só as mulheres estão acordadas, e nós dividimos uma xícara de café enquanto conversamos amenidades de pijama e roupão, antes de seguirmos com nossos afazeres. Eu estava de férias, de modo que minha única obrigação era deitar novamente na minha cama quentinha e assistir Downton Abbey até pegar no sono – o que talvez tenha acontecido, talvez não, mas não vem ao caso agora. Na quarta, tive consulta com meu psiquiatra, que além de prescrever a medicação como de costume, também sugeriu que eu fizesse aulas de dança para ocupar a mente e exercitar meu corpo menos como uma obrigação e mais por prazer. Não confirmo nem nego que estou seriamente pensando no assunto. Quinta, por sua vez, foi um dia completamente aleatório. Se saí pra dar uma volta com João Guilherme, foi muito.

Mas todo o marasmo da semana foi devidamente compensado na sexta, quando eu e Guilherme saímos para celebrar a formatura da Juli. Além dos meus primos e da minha tia, ela foi a única pessoa que eu efetivamente vi formar, e acompanhei praticamente todo o processo até chegar lá, desde quando fazíamos cursinho juntas até o dia em que ela finalmente pegou seu diploma. Por muito tempo, acreditei que jamais participaria desse momento e que no máximo ficaria sabendo pelas atualizações no Facebook e no Instagram, até que nós estávamos juntas de novo e tudo aconteceu como tinha que ser; como sempre soubemos que seria. E foi incrível. A colação foi linda e especial, como ela merecia, e era visível como aquele momento era importante e especial em níveis estratosféricos. Tinha vontade abraçá-la o tempo inteiro e não largar nunca mais, enfiar numa caixinha e literalmente levar pra casa, e pedir pelo amor de Deus que continuasse feliz daquele jeito pra sempre; e ainda que eu não estivesse no melhor dos dias, a noite foi tão divertida que lamentei a hora de voltar para casa.

O que não aconteceu de verdade. Ao invés de voltar pra casa, fui direto pra casa de Guilherme, onde passei a noite e só fui acordar por volta das 10h; finalmente um horário razoável. Ganhei café da manhã na cama, com direito a ovos mexidos, suco de morango e vários pãezinhos doces que fizeram meu sábado mais bonito. Só então peguei o celular e, ainda na cama, ouvi a mensagem de voz que a Juli tinha nos enviado na noite anterior, agradecendo pela presença, e mais uma vez foi como receber um boost de amor no meu coraçãozinho. Quando digo que tenho os melhores amigos do mundo é porque, de fato, tenho os melhores amigos do mundo.

No mesmo dia, tínhamos um churrasco pra ir. Mas aí eu tinha muito o que fazer, não estava realmente interessada e não me parecia justo sair de casa para ficar de cara feia, de modo que fiquei em casa e meu namorado seguiu sozinho. Passei a tarde escrevendo e assim fiquei até a hora de dormir. Já no domingo, passei a tarde no shopping com minha mãe, minha tia e minha avó. A intenção era comprar um presente pra Guilherme, que fez aniversário em junho (!), mas só agora consegui ir no shopping escolher algo com calma. Acabei o que queria com relativa facilidade, o que me permitiu passar o tempo que me restava fazendo compras com minha mãe. Foi ali que comprei o oxford vinho que citei aqui, além de uma camiseta e um brinco enorme que não parece muito minha cara, mas que me encantou o suficiente para valer à pena trazer pra casa (o fato dele custar só dez golpinhos ajudou um bocado, risos). Minha mãe também comprou um sapatinho com cara de tumblr, que se parece um oxford, mas ainda tem um saltinho que é ideal para parecer mais arrumada sem necessariamente estar desconfortável. É lindo, lindo de morrer, e arrisquei colocá-lo no pé ainda na loja, mesmo sabendo que minha mãe calça um ou dois números a menos que eu. Surpreendentemente, o sapato serviu em nós duas, o que significa que, de agora em diante, vamos protagonizar uma nova versão de Quatro Amigas e Um Jeans Viajante, só que agora com uma mãe e uma filha que dividem o mesmo sapato que, surpreendentemente, cabe nas duas.

Por fim, o domingo terminou como sempre terminam meus domingos desde a estreia da nova temporada de Game of Thrones: com um novo episódio. Depois de toda a história do vazamento, parecia ridículo esperar até domingo para assistir o episódio, mas eu gosto da folia o suficiente para esperar assim mesmo, e foi o que fiz. Gosto de ver as reações na internet, gosto de conversar com a Michas depois dos episódios, quando trocamos ideias e opiniões sobre os rumos da série, e gosto especialmente que meu domingo termine dessa forma. Embora ainda não tenha uma opinião formada sobre a temporada no geral, o último episódio me lembrou porque Game of Thrones foi uma revolução para a televisão, e porque continuo gostando tanto dessa história. Os problemas existem, mas também existe algo além, e no final das contas, acredito que seja isso que nos mantenha ligados domingo após domingo, numa época em que assistir algo na televisão parece coisa de outro mundo.


MÚSICA DA SEMANA

Depois de uma espera relativa (mentira, foi uma espera ridícula), a Lorde finalmente liberou o clipe de Perfect Places; que não por acaso, é minha música favorita de todo o álbum. Talvez por isso, o fato de finalmente ter um clipe para ilustrar essa música tenha sido ligeiramente decepcionante: é tudo muito lindo e bem feito, mas não exatamente o lindo e bem feito que idealizei por esse tempo todo. O fato de falar sobre lugares perfeitos em literalmente um paraíso à beira-mar me parece uma escolha óbvia e um pouco preguiçosa, especialmente para alguém como a Lorde, que sempre esteve longe de ser óbvia ou preguiçosa; mas ainda é uma produção impecável e muito bonita, que tem os seus momentos. O clipe, no entanto, me levou novamente para os últimos dias de junho e o início de julho, quando finalmente entrei de férias e estava literalmente em êxtase pelas minhas conquistas naquele semestre. Ironicamente, meu mood agora era muito diferente, mas foi incrível permitir que a música me levasse de volta àqueles dias e que eu ainda conseguisse encontrar motivos para sorrir no meio de tudo. What the fuck are perfect places, anyway?


LUKINHO DA SEMANA

Para minha absoluta tristeza, voltou a fazer sol em Brasília, o que significa que, mais dia menos dia, estaremos vivendo o terror e o horror (and the fucking melodrama) que é sobreviver aos meses de agosto e setembro na capital federal. Apesar do sol, o calor ainda não é exatamente uma realidade, de modo que ainda é possível sair de calça e jaquetinhas de couro durante o dia. Usei essa roupinha – sem calças, pela primeira vez no mês – para passear no shopping; o que me pareceu apropriado na hora que escolhi as peças, mas que me deixou na dúvida tão logo saí de casa. Sigo na dúvida se gosto da combinação ou não, mas fica a tentativa de registrá-lo. Meu futuro como blogueira de moda definitivamente está morto e enterrado.


O QUE ESCREVI ESSA SEMANA

Contrariando minhas expectativas, sobrevivemos sem grandes traumas à primeira semana de BEDA, o que, pra quem não durou nem uma semana no ano passado, é uma excelente notícia. A má notícia é que a parte mais difícil começa agora. Explico: a primeira semana é sempre encarada com festa; é quando temos textos agendados, quando conseguimos escrever com mais calma e pensar melhor naquilo que queremos publicar. Mas a partir da segunda semana, as coisas mudam radicalmente de figura. As ideias começam a se multiplicar de forma descontrolada, mas o tempo para desenvolvê-las se torna cada vez menor; o que, no meu caso, gera todo um ciclo de ansiedade que só piora à medida que o desafio avança e a vida real volta a bater na porta. Não quero transformar o blog numa obrigação, muito menos o desafio em algo além da diversão, e espero conseguir fazer isso por mais uma semana. Por enquanto, pra quem não viu ou perdeu alguma coisa, fica a lista daquilo que escrevi por esses dias.

Terça-feira foi o primeiro dia de BEDA, o que significa que abrimos os trabalhos por aqui com um texto introdutório. Era para falar sobre o desafio, mas acabei falando sobre ser uma pessoa overachiever e minha dificuldade em dizer “não”.

• Na quarta, compartilhei 25 fatos aleatórios sobre mim, num formato que já tinha utilizado em outro momento e achei bacana replicar – dessa vez com direito ao mesmo gif que a Manu usou num post parecidíssimo, porque obviamente somos a mesma pessoa.

• Na quinta, escrevi sobre a menina mais bonita da faculdade e como é importante nos vestirmos com aquilo que gostamos e sem se preocupar com a opinião dos outros ou em registrar por registrar.

• Na sexta, respondi o meme “Por que eu escrevo” e falei um pouco sobre minha relação com a escrita, meu processo criativo e o que tanto tenho feito no momento.

• No sábado, por fim, fiz um self image, que basicamente consiste em falar sobre a imagem que tenho de mim mesma. Tirei a ideia inicialmente da Milena, que faz os self images mais lindos do mundo inteiro, mas acabei curtindo bastante o resultado, mas principalmente o exercício de escrever sobre eu mesma de uma forma tão sincera e vulnerável. Foi um textinho que teve um feedback incrível e fiquei muito feliz que as pessoas tenham se inspirado e escrito sobre elas mesmas também.


O QUE ANDEI LENDO

• Falando em self image, a Rafinha escreveu um pra ela também, e o resultado é esse texto lindo e inspirador, como não poderia deixar de ser.

• Nunca li Watchmen, mas esse texto da Manu me fez verdadeiramente questionar que diabos eu fiz esse tempo todo que ainda não li essa história. Amo ser fisgada dessa forma por algo que não conheço, que na realidade conheço tão pouco sobre, mas ainda assim me convenço pela qualidade da escrita de uma pessoa. A Manu é 100% esse tipo de pessoa.

• A Michas escreveu um post fantástico sobre coisas absurdas que ela já ouviu na academia (e as respostas que ela gostaria de ter dado naquela situação), o que prova dois pontos: a) o ser humano definitivamente não trabalha com limites; e b) academia é um ambiente pavoroso.

• A Mia fez um top 6 HOMÃOS DO PASSADO, e se esse não for o melhor post do mundo para alegrar nossas vidinhas sem graça, eu não sei o que é.

• A Tati, por sua vez, falou sobre suas girl crushes ficcionais, e eu achei uma ideia tão boa, mas tão boa, que tenho pensado seriamente em fazer igual. A gente fala muito sobre crushes masculinas; é chegada a hora de valorizar as minas também.

QUERIDO DIÁRIO

23 DE JANEIRO DE 2017

We’re all bad guys in someone’s story. 

Alguns dias atrás, sonhei com uma pessoa com quem já não falo há bastante tempo e em quem penso cada vez menos a respeito. Não é que eu não goste dessa pessoa ou qualquer coisa assim: a vida aconteceu e nós nos afastamos para trilhar caminhos radicalmente opostos, cada uma em busca dos próprios sonhos. Já faz bem mais de um ano que isso aconteceu, mais ou menos o mesmo tempo que não nos encontramos, um pouco menos que não nos falamos e que eu não procuro mais saber sobre a vida dessa pessoa. Ou seja: doeu, mas sobrevivi para contar essa história – e depois enterrá-la nas profundezas do inferno, que é o que eu estou tentando fazer agora, risos.

O problema é que sonhar com tudo isso depois de tanto tempo me fez desenterrar uma porção ridícula de sentimentos que eu jurei de pé junto que já estavam enterrados há décadas – rejeição, saudade, tristeza, decepção, raiva, frustração -, até que de repente eles estavam empilhados em cima de mim; todos eles, até me soterrarem de uma vez. A vida: em um momento, está tudo correndo bem, sem grandes dramas, até que no momento seguinte tudo se transforma num dramalhão mexicano que você não sente a menor vontade de viver de novo. Chega a ser vergonhosa a quantidade de vezes que eu pensei nesse assunto desde o fatídico dia, e isso só piora à medida que eu penso que o aniversário (!) dessa pessoa está chegando e que já é o segundo ano que vamos passar a data separadas. É mais ou menos nesse momento que eu começo a chorar por tudo que não aconteceu, por tudo que não vivemos. Não foi culpa de ninguém, como ambas sabemos, e o que tinha que acontecer, aconteceu. Mas é vergonhoso que, tanto tempo depois, eu ainda não tenha conseguido seguir em frente – pelo menos, não completamente – e que mesmo depois de me machucar tanto, eu passei os últimos dias pensando seriamente em puxar assunto com essa pessoa, numa tentativa fadada ao fracasso de reatar antigos laços.

Trouxa: teu nome é Ana Luíza.

No sonho, eu estava justamente tentando construir uma nova relação com essa pessoa que, por sua vez, fazia e acontecia pra cima de mim, exigindo coisas absurdas em troca de uma amizade que não passava de fachada. Eu não era burra, eu sabia que o que estava acontecendo: sabia de todas as vezes que era ignorada, que era feita de idiota, que era deixada na mão. Mas aí que tá, porque mesmo sabendo de tudo isso, eu continuava me sujeitando àquela situação, continuava permitindo que aquela pessoa me tratasse tão mal, só para no final admitir pra mim mesma que aquela já era uma página virada da minha vida, que não tinha como tentar reconstruir uma ponte se a pessoa do outro lado não estava disposta a construí-la junto comigo, e que era melhor seguir em frente do que ficar dando murro em ponta de faca. Mesmo assim, eu sofri por abrir mão de uma pessoa que teve um papel tão essencial na minha vida, e talvez por isso, por mais longe que eu esteja de onde nos desencontramos, eu continuo sempre olhando para trás, na esperança de que ela esteja logo ali, arrependida por ter virado naquela esquina ao invés de ter seguido em frente rumo à próxima.

Tendo destrinchado o que aconteceu exaustivamente ao longo do tempo, hoje eu já consigo ter plena consciência de que o ponto final da nossa história não foi, necessariamente, minha culpa ou culpa das escolhas que eu fiz – embora eu as carregue em alguma medida -, mas algo que já estava ali o tempo inteiro e que aconteceu porque tinha que acontecer, como uma consequência de todas as escolhas que nós fizemos ao longo do caminho, e que acontece com muitas pessoas, o tempo todo. Se tudo nessa vida tem começo, meio e fim, nós inevitavelmente chegaríamos a um ponto final, por vontade própria, de uma ou de outra, porque o destino resolveu agir de um jeito ridículo, ou tudo junto e misturado. Eu sofri muito, chorei por várias noites seguidas e até hoje ainda imagino uma realidade alternativa em que a gente ainda troca mensagens todos os dias, faz coisas juntas e onde todos os erros foram perdoados para dar lugar a uma nova fase – muito mais madura e feliz.

No entanto, por mais que a vontade de recuperar laços antigos seja muito real, eu já não tenho mais tanta certeza se essa seria uma boa ideia – e basta que eu fuce as redes sociais dessa pessoa agora para ter certeza absoluta. Já não somos mais as mesmas pessoas e eu tenho certeza absoluta que a minha versão atual e a dela não se dariam tão bem como nossos “eus” do passado. E talvez por isso a dor seja ainda maior: porque eu não sinto falta apenas de algo que existiu, mas de algo que poderia existir, mas nunca vai. Das festinhas de aniversário que nunca foram, dos presentes nunca trocados, das coisas nunca ditas, das promessas feitas que nunca serão cumpridas. Eu me sinto traída até hoje e acho um desaforo ter sido levada a acreditar em tantas coisas que nunca vão existir – nem nessa vida, nem em outra -, e quem está dizendo isso é a pessoa que diz que a gente nunca deve dizer nunca. Vê como as coisas são?

Já me disseram que nem todas as pessoas estão destinadas a estar nas nossas vidas para sempre, e eu acredito nisso até. Já me disseram, também, que às vezes é preciso que duas pessoas se afastem para se reencontrarem em algum ponto do futuro e se conectarem novamente, não como no passado, mas construindo uma relação completamente nova em cima das memórias destroçadas de outrora. É algo que eu também acredito, demais até, mas que não acho possível – não quando eu demorei quase dois anos para voltar a confiar em pessoas e estabelecer algum tipo de relação íntima com elas, e continuo catando os caquinhos de uma relação que deixou traumas tão profundamente enraizados em mim.

Portanto, da próxima vez que eu tiver um sonho esquisito como esse (de preferência, nunca mais), me deem um puxão de orelha e me lembrem que eu não nasci para sofrer e que não quero fazer o papel da mulher bêbada que liga pro ex para falar coisas das quais vai se arrepender no dia seguinte. Grata.

(Espero que isso nunca aconteça, tho.)

QUERIDO DIÁRIO

A TAL MAGIA DO ESPORTE

Título roubado descaradamente desse texto incrível aqui.

Eu nunca gostei de esportes. Eu não tenho time de futebol, sempre odiei as aulas de educação física (se eu preferia ficar de recuperação por não fazer as provas práticas e depois recuperar a nota numa prova escrita? hell yeah!) e até onde eu me lembro, boa parte da minha infância foi marcada pelas tentativas frustradas da minha mãe – uma mulher super ativa, que está sempre pronta para fazer discursos sobre o poder da endorfina e os benefícios dos exercícios físicos – de me fazer gostar de alguma atividade física, qualquer que fosse. Foram anos de natação, alguns de vôlei, outros de ginástica rítmica – essa sim, eu adorava e era incrivelmente boa, mas infelizmente tive que sair depois que minha treinadora se mudou para outro estado e eu não tinha mais quem me treinar -, uma quase-tentativa de tênis, sem contar todas as vezes que me vi obrigada a jogar futebol, basquete ou handball na escola. Por fim, minha mãe acabou aceitando a derrota e entregou minha carta de alforria, me dando a chance de fazer a atividade que eu quisesse – ou não fizer atividade nenhuma, que foi mais ou menos o que eu acabei fazendo no final das contas.

Digo mais ou menos porque, como eu não sou idiota e sei que todo mundo precisa praticar algum tipo de atividade física para viver uma vida longa e feliz, corro de vez em quando e tenho tentado fazer pilates ou exercícios localizados em casa mesmo, sempre que possível – que é muito menos do que eu deveria, infelizmente -, mas essas são atividades muito solitárias e que nunca rendem uma boa história para contar, e eu sempre fico um pouco frustrada por nunca ter me apaixonado por um esporte o suficiente para me dedicar e ter histórias para contar. Não é como se eu tivesse algum talento, mas de qualquer forma fica aquela frustraçãozinha, aquele “e se” que não me deixa fingir que as coisas talvez pudessem ter sido diferentes se eu tivesse persistido um pouco mais.

Lembro que, no ensino médio, enquanto eu ficava batendo papo com minhas amigas na aula de educação física, observava Guilherme jogar futebol, basquete, vôlei ou handball – dependia do que estávamos estudando naquele bimestre -, e morria de inveja por não ser como ele, que se adaptava incrivelmente bem à qualquer esporte. Ele, que fez anos de natação e inclusive chegou a competir em provas regionais, também era incrivelmente bom em outras modalidades, e eu, no alto de toda a falta de habilidade do mundo, me perguntava se algum dia conseguiria saltar para bloquear uma bola no vôlei ou se daria um salto para marcar um ponto no handball sem me embolar inteira  e acabar dando com a cara no chão (spoiler: nunca consegui nenhuma das duas coisas). Eu queria ser boa em alguma coisa, eu ficava feliz quando por acaso fazia alguma coisa certa, mas eram casos isolados e no final do dia eu continuava sendo a adolescente inadequada que ninguém queria ter no próprio time.

Assim, segui minha vidinha me mantendo alheia a qualquer tipo de competição esportiva e odiando tudo quando não conseguia. Eu me transformei no tipo de pessoa que revirava os olhos para um jogo de futebol e que só topava assistir um jogo de basquete ou vôlei na casa de alguém se tivesse comida no meio. A coisa mudava um pouco de figura na Copa do Mundo, quando eu realmente me transformava numa torcedora dessas de carteirinha e me divertia um bocado. No entanto, depois de acompanhar o Brasil 2006, 2010 e 2014, até mesmo a Copa deixou de ser tão divertida. Eu ainda torcia e me divertia, é claro, mas não era mais a mesma coisa quando eu já não acreditava mais naqueles caras que tentavam defender nosso país com uma bola no pé. Eu não ia começar a xingar muito no twitter e queimar a bandeira do meu país (!), mas a cada ano que passava eu sentia que me importava menos. Eu não tinha nada a ver com aquilo. Eu não ia sofrer por esporte nenhum, quem dirá por futebol. Sem chance.

Com as Olimpíadas no Rio de Janeiro cada vez mais próximas, minha reação foi mais ou menos a mesma. Quer dizer, eu não me importava. Eu sabia de todos os problemas que estavam acontecendo no nosso país, eu sabia como um evento desse porte nesse momento específico era uma ideia equivocada, e não me importava nem um pouco com o esporte em si. Não me importava se o Brasil tinha chances reais de ganhar medalhas, quem viria e quem ficaria de fora, não me importava com absolutamente nada, exceto, talvez, se o evento causaria algum tipo de interferência no meu semestre letivo – coisa que aconteceu na época da Copa e avacalhou com o aproveitamento geral de algumas disciplinas. Eu não me importava com nada – até, claro, começar a me importar demais.

É engraçado como nossa opinião pode mudar tão rápido, mas às vezes acontece e eu fico feliz que tenha acontecido comigo dessa vez. Em questão de dias, eu fui da pessoa desacreditada, para uma torcedora de esportes que eu jamais imaginei me interessar; de uma pessoa que se irritava com a inconveniência do evento, para uma pessoa que saía mais cedo da aula só para acompanhar a final da ginástica artística; de uma pessoa que simplesmente não se importava, para uma pessoa que se importava demais, e que chorou por vitórias e derrotas como se cada uma delas fossem verdadeiramente suas, e que não queria que esse evento terminasse nunca, nunquinha, que chorou quando teve que ir embora. Eu me apaixonei por pessoas e por esportes, me diverti, me envolvi, gritei, xinguei, ri e chorei, e tudo isso por causa de um evento que eu jurei de pé junto que seria um porre. Não é como se eu já não estivesse acostumada a pagar minha língua, mas algumas vezes são mais divertidas que outras, e essa sem dúvida é uma que eu quero me lembrar sempre.

Eu continuo sendo a pessoa que não pratica esportes, continuo sendo a pessoa que não tem time de futebol e que revira os olhos para o Campeonato Brasileiro, mas pela primeira vez eu pude experimentar a tal magia do esporte, e foi incrível enquanto durou. Ontem, enquanto eu me desesperava com o vôlei masculino, Guilherme me perguntou porque eu me importava tanto se, na prática, eu não ganhava nada – e acho que essa é justamente a beleza de tudo isso. Na prática, a gente não ganha mesmo nada por se importar tanto. Medalhas não vão brotar nas nossas parede e nossos nomes não vão entrar para a história, e mesmo assim nós nos importamos. Não é bonito isso? Não é especial? São tempos estranhos esse que vivemos e não é como se todos os problemas do Brasil e do mundo fossem sumir de repente, mas ver tanta gente unida por uma razão comum, se importando com pessoas que elas sequer conhecem, com esportes que elas nem entendem, me dá mais esperanças, um motivo para continuar acreditando na beleza do mundo em que vivemos, acreditando na força que temos juntos, acreditando no esporte, nas pessoas.

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Obrigada, Olimpíadas, por me lembrar, acima de tudo, que a gente precisa continuar acreditando sempre. Foi muito bom enquanto durou.