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RORY GILMORE

RORY GILMORE

Considerações sobre literatura, arte e consumo

(Esse título é pedante demais.)

A primeira coisa que você precisa ter em mente quando faz parte de uma bolha em que praticamente todo mundo lê e boa parte também escreve, é que as chances de que ambas as coisas eventualmente se transformem em debates e opiniões exaltadas são imensas. Como tudo nessa vida, existem basicamente duas formas de enxergar essas discussões, mas porque sou uma pessoa bem pouco engajada nesse tipo de coisa – e, pra ser honesta, em qualquer tipo de debate de internet -, no fim das contas isso não importa realmente; não sou eu que vou perder meu tempo pensando a respeito.

O problema é que, vez ou outra, algumas discussões quebram essa barreira, e eu começo a não apenas refletir sobre elas, mas também a querer conversar a respeito e destrinchar o assunto até dizer chega. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando a Kylie Jenner recebeu a alcunha de self-made woman ou quando absolutamente todas as pessoas do meu círculo começaram a falar, ao mesmo tempo, sobre como a nossa geração era a menos provável de conseguir realizar o sonho da casa própria (e esse texto foi apenas a cereja do bolo), e de repente, e não mais que de repente, eu estava obcecada, conversando com qualquer pessoa que demonstrasse o mínimo interesse em discutir o assunto e chorar algumas pitangas comigo. “Quais são suas considerações?”, eu perguntava, ou, ainda “o que você pensa sobre x, y ou z?”; claros sinais de que o ciclo estava prestes a começar mais uma vez. Desde grupos de amigas, até minha mãe e meu namorado, todos tiveram o seu momento para pensar sobre essas questões (“junto comigo!!! vamos lá!!!”), em momentos cada vez menos apropriados, fosse no meio do café da manhã ou antes da hora de dormir – limites que naturalmente não trabalhamos.

São casos isolados, é claro, e que tornam-se cada vez mais raros à medida que meu interesse por polêmicas de internet diminui em proporção ao meu desgaste com a internet de modo geral. O fato de ter encontrado formas de blindar esse tipo de conteúdo me mantiveram longe de muitas discussões, mas porque essa não é uma alternativa infalível, existem debates que eventualmente chegam até mim, simples assim, e não há muito que se possa fazer para desviar. O caso mais recente foi quando, na última semana, alguém me perguntou sobre uma questão bastante velha, que é a sobre pirataria de livros – uma história que de tempos em tempos renasce das cinzas para plantar alguma discórdia. Da última vez em que isso aconteceu, não me pareceu muito justificável que eu perdesse algum tempo do meu dia – e talvez alguma paz – para dar minha opinião não requisitada sobre algo que, embora me dissesse respeito em alguma medida (porque elas sempre falam sobre nós em alguma medida), não conhecia – e nem queria – o suficiente para me sentir confortável em lhe dispensar meus dois centavos. Mas dessa vez foi diferente, e bastou que alguém perguntasse quais eram minhas considerações sobre o assunto para que eu imediatamente ficasse obcecada.

Porque esse é um debate bastante complexo, existem mais lados nessa história do que opiniões exaltadas nos permitiriam perceber, e a maioria dos argumentos até agora são plausíveis o suficiente para serem levados em consideração. Isso significa que, até o momento, não tenho uma opinião 100% formada – ainda que, obviamente, tenha uma opinião – e estou disposta a entender de verdade quantos argumentos mais surgirem na minha frente. Ainda assim, muitos dos pontos levantados têm me feito pensar sobre a nossa relação com a literatura, com o aspecto do livro como bem de consumo, e sobre o que significa ser leitora em um país onde quase metade da população não lê, enquanto muitos nem sequer chegaram a comprar um livro alguma vez na vida – e é sobre esses aspectos que quero conversar agora.

1. Nem todo mundo pode comprar livros

De todos os argumentos, esse talvez seja o mais simples e óbvio (ou o que aparenta ser mais simples e óbvio), e também o mais importante – embora também seja o mais fácil de se perder de vista quando se está cercado por pessoas que leem mais de 50 livos num ano, muitos dos quais são comprados por elas mesmas, com o dinheiro que ganham com o próprio trabalho, dos pais ou de ambos. A impressão que dá é a de que todo mundo está lendo e, mais do que isso, comprando livros com alguma frequência. Esse, contudo, é apenas um recorte, e dificilmente seria compatível com a realidade de muitos brasileiros. Mais do que uma questão cultural, em um país como nosso, onde taxas de desemprego são enormes e o salário mínimo não chega a mil reais, comprar livros é um privilégio para poucos. O mesmo serve para a compra de e-readers e serviços como o Kindle Unlimited, que naturalmente não vão caber no orçamento de uma pessoa que precisa viver um mês inteiro com um salário mínimo – ou até menos.

Assim, quando alguém sem quaisquer outras fontes de acesso à literatura, e também nenhum incentivo, baixa ilegalmente uma obra em pdf, ela já está, sozinha, ultrapassando uma barreira. Limitar esse tipo de acesso serviria apenas para tornar a literatura mais restrita e elitista, o que ela já é de qualquer forma, e essa é uma questão tão complexa quanto problemática. De imediato, é muito fácil colocar todo mundo no mesmo balaio e dizer que quem baixa o que quer que seja ilegalmente é criminoso. Mas será que o fato de essas pessoas estarem baixando livros online é mesmo o maior dos problemas ou apenas o reflexo de uma questão maior e muito mais complicada?

2. Bibliotecas, infelizmente, não são a solução de todos os problemas

Dentre os muitos argumentos que surgiram como uma alternativa à pirataria, as bibliotecas talvez tenham sido a opção mais recorrente. Não é difícil entender por que elas de fato parecem uma solução milagrosa, que não é utilizada com tanta frequência mais por uma questão de pouca informação, costume e às vezes falta de interesse nas obras disponíveis, do que qualquer outra coisa, o que poderia ser facilmente revertido com programas ou projetos de incentivo. Na última semana, por exemplo, a Tati deu início ao projeto Rata de Biblioteca, que nada mais é do que uma forma de desmistificar velhos preconceitos e incentivar que mais pessoas passem a frequentar bibliotecas públicas. No texto de abertura, a própria Tati conta que, embora tenha crescido com acesso a uma biblioteca na escola quando mais nova, ela mesma tinha certo preconceito com bibliotecas públicas em geral, e foi só quando passou a frequentá-las que percebeu que o estereótipo do lugar velho, com livros empoeirados que não interessavam ninguém não era uma realidade.

É um projeto muito válido e realmente sugiro que vocês o acompanhem daqui pra frente. No entanto, como eu, ela e um grupo de amigas também conversamos essa semana, bibliotecas não são uma solução infalível, tampouco possível para todo mundo. Além de muitas não disponibilizarem um acervo atualizado, com livros que interessem faixas etárias e gostos mais abrangentes, o simples fato de se deslocar pode se tornar um empecilho para muita gente, que tampouco pode gastar com transporte para buscar e devolver livros sempre que necessário. Por mais difícil que seja visualizarmos essa realidade, o que pode não ser muito pra nós é, com alguma frequência, essencial para quem vive com dinheiro contado todos os meses e que não têm a possibilidade de gastar com nada além do essencial – seja um exame, uma comida diferente, uma passagem de ônibus ou um livro.

O que não quer dizer que bibliotecas públicas não sejam importantes, pelo contrário. Em outra polêmica mais recente, uma proposta de por fim às bibliotecas como são hoje nos Estados Unidos balançaram muitos norte-americanos que reconheciam a importância desses espaços, não só porque eles são o único acesso que muitos têm à literatura, mas também porque os serviços oferecidos são muito mais abrangentes. Em um dos muitos textos que li, uma bibliotecária de Washington contava que a biblioteca na qual trabalhava era o único espaço em que pessoas em situação de rua, por exemplo, podiam ter um pouco mais de dignidade, além de conseguirem acesso à internet, o que possibilitava que elas pudessem encontrar empregos, imprimir currículos e outros serviços gratuitos que não seriam oferecidos em outros lugares. As bibliotecas também se tornaram o espaço em que muitas pessoas mais velhas, que não cresceram na era da internet, puderam aprender a utilizar computadores, realizar pesquisas e todo tipo de conteúdo que lhes interessasse. Ou seja: bibliotecas são muito importantes, só não são a solução para os problemas de todo mundo.

3. Pessoas que baixam livros dificilmente investiriam em literatura se essa opção deixasse de existir

Existem muitos motivos que fazem com que uma pessoa prefira baixar um livro ao invés de adquiri-lo de maneira tradicional. Além da já citada falta de recursos, outra justificativa bastante comum é a de que algumas pessoas simplesmente não querem correr o risco de gastar dinheiro com um livro de que não vão gostar tanto assim, preferindo ler antes e comprar depois. É um argumento que faz sentido, sobretudo se você tem dinheiro, mas não muito, para investir nesse tipo de coisa. Além disso, mesmo que você possa gastar uma quantia razoável todos os meses, a velocidade com que novos livros são lançados, quase sempre a um valor altíssimo, barram o acesso a essas obras. Assim, em uma comparação tosca, ler o livro em pdf seria quase como ir à livraria todos os dias e ler um livro até o fim, só para ter certeza de que realmente valeria o investimento antes de finalmente comprá-lo – a única diferença é que isso deixa de acontecer no estabelecimento em si para existir no conforto de nossos lares.

Porque estou longe de ser santa, alguns anos atrás baixei dois livros que ilustram muito bem esse caso: Big Little Lies, da Liane Moriarty, e Bling Ring, da Nancy Jo Sales. Ao passo que o primeiro se tornou um favorito e não demorou a vir morar na minha estante (porque eu precisava, porque esse livro é perfeito, porque a Liane Moriarty é incrível, etc etc), comprar Bling Ring só teria me feito passar raiva, como aconteceu com Garoto Encontra Garoto, um livro que até hoje está largado na minha penteadeira esperando o dia que eu finalmente tomarei vergonha na cara para doá-lo ou trocar por outra coisa em um sebo – que são opções super válidas, é verdade, mas seria muito mais fácil não ter que olhar todos os dias para um livro que só me trouxe desgosto quando eu podia simplesmente não tê-lo comprado e seguido com a minha vida em relativa paz. Se a opção de baixá-los não existisse, no entanto, não teria acontecido nem uma coisa nem outra, e eu tanto não teria odiado Bling Ring como Big Little Lies não viria parar na minha estante por tão cedo. Em comparação, é verdade que sou uma pessoa bastante privilegiada e que não necessariamente precisa baixar livros, quaisquer que sejam. Entretanto, isso não significa que eu não precise fazer escolhas de tempos em tempos, que livros encham a minha barriga ou que qualquer obra está dentro do meu orçamento – como a maioria dos livros que uso na faculdade, por exemplo, que chegam aos três dígitos com facilidade e muitas vezes não são tampouco encontrados em livrarias, sebos e bibliotecas, ou qualquer outro lugar que não plataformas online de download ilegal; às vezes, nem mesmo brasileiras. Não considerar essas nuances é ignorar uma realidade que também existe, e acreditar que não é tão babaca quanto o argumento que diz que uma pessoa que nem sempre pode comprar os livros que deseja ler também não pode fazer outra coisa da vida, tipo comprar roupas ou ir no McDonald’s de vez em quando.

Em outra instância, comprar livros físicos é a única opção pra muita gente que não tem como bancar um Kindle (ou qualquer outro e-reader de sua preferência), seja por falta de grana ou pelas formas limitadas de pagamento (a Amazon, por exemplo, só aceita cartão de crédito), o que significa que comprar algo que não vai ser do seu agrado, além de ser um gasto que poderia ser evitado, também não é lá a opção mais sustentável do mundo. Outro ponto interessante é que, por pior que seja na cabeça de muita gente, o download de livros segue o mesmo molde de outras alternativas já citadas, como bibliotecas e o empréstimo em geral – é preciso que alguém o compre antes de disponibilizá-lo onde quer que seja. Então, se alguém ainda está comprando essas obras e se pessoas que baixam dificilmente as comprariam se lê-las online ou baixar em pdf não fosse uma opção, tampouco estão usando essa disponibilidade para ganhar dinheiro, qual é realmente o ponto?

4. Autores, blogueiros e booktubers não estão fazendo muito para mudar esse cenário

Como escritora e como alguém que trabalha com livros na internet, que mantém parcerias e responsabilidades, mas que pessoalmente não ganha um centavo com isso, é muito fácil entender o lado de quem argumenta contra a distribuição não-autorizada de obras literárias. Mais do que o trabalhoso processo de escrita, pesquisa e edição, e a dificuldade em conseguir que seu material seja publicado, culturalmente não somos um país acostumado a valorizar produções artísticas. Isso significa que para cada autor brasileiro que consegue viver muito bem, obrigada, com os frutos de sua obra, a maioria esmagadora de escritores ainda precisa dividir o seu tempo em jornadas duplas ou triplas de trabalho, em profissões alternativas capazes de fornecer a estabilidade que a escrita, sozinha, não dá. Para muitos, a arte continua a ser um supérfluo que qualquer um poderia realizar se quisesse, de modo que o fato de algumas pessoas ganharem dinheiro com isso é tanto um absurdo quanto uma afronta, para dizer o mínimo.

É uma realidade dura e é uma realidade que precisa mudar. Entretanto, minha sensação é a de que as mesmas pessoas que reclamam sobre a distribuição ilegal de livros são as mesmas que muito pouco fazem para mudar esse cenário. Autores merecem receber pelo seu trabalho e eu jamais diria que não. Mas quem são os autores que sugerem que as pessoas voltem a frequentar bibliotecas e que estão doando exemplares para esses lugares? Ou que estão ativamente tentando promover uma literatura mais inclusiva? Qual a diferença entre distribuir exemplares gratuitos para esses lugares e para jornais, revistas, sites, blogs e canais no YouTube? A resposta mais óbvia é a de que, naturalmente, esses veículos e as pessoas por trás deles têm um alcance maior do que o de um leitor padrão. Mas será mesmo? O boca a boca é, muito provavelmente, a tática mais antiga de marketing, e é também bastante eficiente. Qual a melhor forma de alcançar determinado público senão deixando que ele próprio fale sobre a sua obra?

O mesmo pode ser dito sobre as pessoas que recebem esses livros gratuitamente no conforto de suas casas. As parcerias firmadas com grandes editoras variam de veículo para veículo, o que significa que nem todo mundo os recebe como presente, mas como parte de um trabalho com prazos e obrigações a serem cumpridos – como qualquer outro. Além disso, nem todos os livros são escolhidos por quem os recebe, e isso não anula a obrigação de escrever e gerar conteúdo sobre eles. Na maior parte do tempo, esse ainda é o trabalho mais legal do mundo, mas nem sempre. Existem pessoas, é claro, que os recebem como presentes e que não têm qualquer obrigação em falar sobre eles, mas elas ainda são uma minoria – normalmente pessoas com muitos seguidores e um poder de influência gigantesco. Não é uma surpresa que muitas delas terminem acumulando uma quantidade insana de livros, muitos dos quais jamais serão lidos, mas que não necessariamente são repassados para outras pessoas, e muitas vezes são edições diferentes da mesma obra, o que, conscientemente ou não, também cria uma cultura bastante problemática de consumo. Mas até que ponto isso é válido? Qual o propósito de ter uma biblioteca no ano 2018 do nosso senhor? Qual a necessidade de manter três ou quatro edições diferentes do mesmo livro?

Como muitos autores, essas pessoas não parecem particularmente interessadas em doar parte daquilo que recebem para bibliotecas ou escolas, tampouco promovem iniciativas com o mesmo objetivo e utilizam sua visibilidade para algo mais do que longos hauls e bookshelf tours. É verdade que elas não têm nenhuma obrigação de fazer qualquer uma dessas coisas, mas até que ponto o argumento se torna válido quando nem mesmo elas estão dispostas a facilitar o consumo legal de obras literárias por qualquer pessoa e não apenas uma parcela privilegiada que tem dinheiro para investir em literatura com alguma facilidade? Mais do que isso: como julgar as pessoas quererem sempre mais quanto essa é, justamente, a cultura que estamos promovendo? Todas essas perguntas me levam ao próximo tópico, que é:

5. Literatura como arte versus literatura como bem de consumo

Esse semestre voltei a estudar um assunto que muito me interessa, que é a questão da reprodutibilidade da arte e seu aspecto como bem de consumo, e o conceito de indústria cultural – que não é novo, é verdade, mas continua sendo bastante relevante em análises sobre cultura e mídia de modo geral. A multiplicidade da arte e seu valor como bem de consumo ajudam a explicar por que a produção artística hoje não mantém a mesma aura sacralizada de décadas atrás. Você ainda precisa ir até o Louvre para ver a Monalisa ao vivo, por exemplo, mas não precisa ir até o Louvre para saber como a Monalisa se parece – existem fotos, vídeos e até mesmo réplicas que são suficientes para te dar, senão a dimensão completa dela, apenas uma noção de como ela é de verdade.

Isso fica ainda mais evidente hoje, quando o acesso a esse tipo de trabalho está literalmente ao alcance de um clique, e porque a indústria cultural é, antes de mais nada, um mercado, e o lucro é o fator mais importante, essa facilidade também cria novas relações e formas de consumo. Não é por acaso que vivemos um momento em que o ato de consumir o que quer que seja está mais atrelado ao pertencimento e tendências sociais do que o interesse genuíno em determinadas obras. É um fenômeno que não acontece apenas na literatura, mas em outros setores como a moda, o cinema e até mesmo a música, mas porque estamos inseridos em uma bolha de gente que lê e escreve, a indústria editorial acaba sendo o exemplo mais notório disso. Há uma inversão de valores e é essa inversão que faz com que o objeto livro torne-se consideravelmente mais relevante do que seu conteúdo ou até mesmo o aspecto intelectual da obra. O que é interessante não é querer algo porque genuinamente se tem interesse naquilo, mas o que possuir determinado bem de consumo significa na sociedade em que vivemos.

Desnecessário dizer que, para quem trabalha com isso, a venda de livros é uma questão tão importante quanto prática, e que obviamente deve ser levada em consideração. Todo mundo precisa comer e todo mundo precisa pagar contas, e trabalhar com o que se ama, com arte, não anula nada disso. Mas esse é realmente o aspecto mais importante? Uma coisa que muito me incomoda é que a forma como muitos autores (e editores, e youtubers, e pessoas que trabalham com livros de modo geral) atribuem valor àquilo que comercializam sugere que a compra é o último passo desse processo, quase como se tudo que acontece depois não fosse relevante – que você queime, doe, rasgue, use como objeto de decoração e jamais leia aquela história não é realmente importante. O trabalho do escritor, portanto, perde valor de um jeito ou de outro – receber por isso não significa necessariamente que seu trabalho está sendo consumido, tampouco valorizado. A pergunta que sempre me faço nesse caso é: aceitar esse molde é a única saída para ser artista e não morrer de fome em uma sociedade capitalista? Infelizmente, essa é uma pergunta para a qual ainda não tenho uma resposta.

6. Consumir algo ilegalmente também pode ser um ato político

A primeira vez que tive contato com esse argumento não foi em uma discussão sobre literatura, mas em um texto sobre cinema. Nele, a autora tentava justamente encontrar uma forma razoável de continuar consumindo certas produções sem, necessariamente, contribuir para que artistas horríveis continuassem trabalhando. Como uma pessoa que estuda cinema e, mais do que isso, escreve sobre cultura pop e produções artísticas em geral em 90% do tempo, tenho essa discussão em um âmbito tão pessoal quanto profissional. E, ainda assim, é difícil encontrar uma resposta definitiva sobre qual é a melhor maneira de lidar com o fato inexorável de que artistas horríveis continuarão a ser responsáveis por obras incríveis.

É uma questão bastante complexa, não apenas porque entre consumir e deixar de fazê-lo existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, mas porque esse consumo muitas vezes está atrelado à coisas das quais não podemos abrir mão, seja por causa de um trabalho, estudo ou vontade. Mesmo que por gosto, o argumento continua válido, sobretudo porque muitas obras artísticas adquirem valor sentimental, tornam-se parte da nossa história, e é difícil abrir mão de algo com tamanho significado. Polanski nos deu de presente O Bebê de Rosemary, mas ele continua a ser o homem que abusou sexualmente de uma menina de 13 anos. Animais Fantásticos e Onde Habitam é um ótimo filme, mas ainda é a mesma produção cuja equipe preferiu defender a permanência de um agressor em seu elenco a tomar uma atitude mais drástica, porque essa era a opção mais cômoda. Mas eu não vou deixar de consumir nem uma coisa nem outra – a produção do Polanski, por causa da faculdade; qualquer coisa da saga Harry Potter porque essas ainda são histórias que cresceram comigo ou que sempre vão remeter a um período importante da minha vida. Então, como continuar a consumir essas obras sem, no entanto, promover as pessoas por trás delas?

Sempre que penso nisso, lembro de uma vez em que a Olivia Wilde contou que, em uma conversa com a Gloria Steinem, ela ouviu que, se realmente quisesse protestar contra o governo de forma eficiente, que deixasse de pagar seus impostos. É uma posição drástica, é verdade, mas gosto desse exemplo porque ele sintetiza de forma bastante óbvia como o manifesto sobre qualquer que seja a causa pode acontecer de diversas formas. E é por isso que, de certa forma, o download ilegal também pode ter um peso de manifesto; por mais errado que seja aos olhos da lei, existe algo de subversivo entre fazê-lo com esse fim, que é totalmente diferente de utilizar a disponibilidade dessas obras para ganhar dinheiro, por exemplo. O fato de que muitas pessoas não têm dinheiro para pagar para consumir essas produções de formas legais, a ausência de cinema em várias cidades do país e a falta de programas de incentivo de acesso e consumo à cultura são apenas mais nuances que devem ser levadas em consideração.

No caso da literatura, não é tão diferente: além de existirem autores detestáveis, que utilizam sua visibilidade e sucesso de maneiras igualmente detestáveis (pensem no autor que cobra 700 golpes por pessoa para dar uma palestra), livros são bens de consumo, nem todo mundo tem dinheiro para comprá-los e bibliotecas nem sempre são acessíveis. Muitas vezes, baixar ilegalmente é a única forma que determinados grupos podem ter acesso à literatura e, consequentemente, ultrapassar barreiras que lhe são impostas a vida inteira. Se tanto falamos sobre a importância de  termos oportunidades equivalentes, sejamos homens ou mulheres, negros ou brancos, ricos ou pobres, negar as limitações que lhe são impostas é, também, uma forma de subversão. Então talvez, e só talvez, consumir arte ilegalmente seja, também, um ato político.

RORY GILMORE

Um balanço das leituras de 2018: o meme dos 50%

Mais de seis meses depois do último post deste blog, confesso que nem sei muito como voltar, mas estou tentando. É nessa tentativa meio ridícula, meio frustrada, que hoje respondo este ilustríssimo meme, já bastante conhecido, mas do qual só lembrei após ler as respostas da Mia, em que basicamente se faz um balanço das leituras do ano até aqui. 2018 tem sido um ano pouquíssimo favorável nesse aspecto (e em muitos outros, tbh), mas alguns livros me conquistaram o suficiente para valer à pena responder as questões mesmo assim, e é sobre eles, principalmente, que escrevo agora.

Eventualmente voltaremos com a programação normal deste blog, mas por ora, é isto.

1. O melhor livro que você leu até agora, em 2018.
O Condo da Aia, da Margaret Atwood – que honestamente, dispensa apresentações.

2. A melhor continuação que você leu até agora, em 2018.
A única até agora, mas não necessariamente a melhor: Noites Azuis, da Joan Didion. O livro é uma continuação de O Ano do Pensamento Mágico, onde a autora continua falando sobre perda, mas dessa vez centraliza a perda da filha, que morre de maneira repentina e um tanto jovem, de algo que ninguém esperava que fosse ter um desfecho tão triste, nem se tornar uma enfermidade tão grave. Noites Azuis ainda é um livro muito interessante e a escrita da Joan é realmente fascinante, mas em comparação, ele parece bem menos comprometido com a questão da perda em específico e o resultado é um livro bem pouco equilibrado – mas talvez perder um filho seja isso.

3. Algum lançamento do primeiro semestre que você ainda não leu, mas quer muito.
Pequenos Incêndios Por Toda Parte, da Celeste Ng – que não é um livro deste ano, mas foi lançado no Brasil só em 2018.

4. O livro mais aguardado do segundo semestre.
Não faço ideia, não me perguntem.

5. O livro que mais te decepcionou esse ano.
On The Road, do Jack Kerouac, que pra começar comprei por engano, mirando no Into The Wild, do Jon Krakauer. Publicado originalmente em algum momento da década de 1950, On The Road é um livro bem famoso lá fora e vira e mexe surge como referência (Gilmore Girls e Mad Men, por exemplos, o citam em determinado momento), porque ele foi, de fato, um marco pra uma geração. Mas nada disso anula o fato de ele ser um livro realmente detestável, com personagens tão detestáveis quanto. Não é só o machismo que incomoda (Oscar Wilde conseguiu muito bem, obrigada, escrever um livro incrível e ainda assim profundamente misógino), embora isso naturalmente aconteça, mas não há nada realmente relevante na estrada, nenhuma mudança, nenhum amadurecimento. Histórias que se passam na estrada costumam ser interessantes justamente porque, de forma mais ampla, elas servem como uma grande metáfora pra vida e tudo aquilo que aprendemos, ganhamos, perdemos, deixamos pra trás. On The Road não tem isso, como seus personagens não parecem particularmente interessados em nada além de bebidas, festa e sexo sem compromisso. Não é por acaso que, ainda hoje, o típico fã de Kerouac é tido como o homem imaturo que não quer nada da vida além de curtição – e se eles continuam a existir, que seja bem longe de mim.

6. O livro que mais te surpreendeu este ano.
A Trama do Casamento, do Jeffrey Eugenides, foi uma releitura que surgiu sem muita pretensão: era final de ano, eu não queria ficar no limbo com um livro inédito, e então decidi lê-lo pela segunda vez. Ao contrário da primeira, eu não apenas tive vontade de fazê-lo dessa vez, como estava em um momento muito diferente, e acho que tudo isso, no final das contas, terminou por influenciar minha opinião. Se em 2015 ele foi uma questão, um quatro estrelas mais por qualidade do que por gosto, em 2018 A Trama do Casamento se tornou um dos meus livros favoritos de toda a vida, que continua até hoje ao lado da minha cama e para onde ainda quero poder voltar outra vez.

7. Novo autor favorito (que lançou seu primeiro livro neste semestre, ou que você conheceu recentemente).
Ian McEwan – o que parece tão ridículo quanto improvável, mas bear with. Foi só em 2018 que pude ter meu primeiro contato com a obra do autor, depois de compras que não deveriam, mas foram feitas mesmo assim, e embora tenha lido somente um dos livros que comprei, foi o suficiente pra sentir muito, o tempo inteiro. Na Praia, primeiro livro de sua autoria que veio parar nas minhas mãos, conta a história de um casal em sua noite de núpcias, e é uma história bem curtinha, dividida em cinco capítulos, mas é incrível o que ele consegue fazer nesse curto espaço de tempo. Até hoje consigo lembrar perfeitamente das sensações que percorreram a leitura, de como foi me colocar no lugar daqueles personagens tão jovens e ainda assim tão problemáticos, como o final me deixou melancólica. Quando penso nisso, chego à conclusão de que era exatamente o que eu gostaria de conseguir quando escrevo ficção, e por fim só posso mesmo esperar um dia chegar lá.

8. A sua quedinha por personagem fictício mais recente.
Nenhum, infelizmente.

9. Seu personagem favorito mais recente.
Madeleine, de A Trama do Casamento.

10. Um livro que te fez chorar neste primeiro semestre.
O Ano do Pensamento Mágico, da Joan Didion. De todos os livros, esse talvez seja o mais óbvio nesse aspecto, mas porque o momento em que o li também foi muito significativo, foi difícil não me emocionar em vários momentos durante a leitura. Joan Didion fala sobre a perda de maneira muito visceral e viva – o que é irônico em um livro que fala justamente sobre o oposto, mas é verdade. Mesmo que nosso luto parta de relações diferentes, sua dor também era a minha dor e conversava comigo de uma maneira muito profunda. O livro foi a minha forma de tentar lidar com a perda e não foi uma surpresa que tudo sobre ele tenha sigo tão significativo, mas foi importante que a expectativa tenha se tornado real e que ele tenha sido capaz de oferecer o suporte que eu precisava naqueles dias.

11. Um livro que te deixou feliz neste primeiro semestre.
O Ano Em Que Disse Sim, da Shonda Rhimes – uma sugestão da minha psicóloga, que achou o livro bastante interessante e recomendou que eu o lesse. Desnecessário dizer que ela não só acertou muito, como o tom leve e despretensioso com a qual a Shonda escreve me fisgou sem muito esforço. Embora trate de temas um tanto densos, a leitura é realmente muito fluida, de modo que a sensação é sempre muito próxima do que imagino que seria conversar com a Shonda enquanto casualmente tomamos um café.

12. Melhor adaptação cinematográfica de um livro que você assistiu até agora, em 2018.
Call Me By Your Name, sem nem pensar duas vezes.

13. Sua resenha favorita deste primeiro semestre (escrita ou em vídeo).
Não tenho o costume de ler resenhas, fora as que são publicadas no Valkirias, então fiquem de olho. Fora isso, acompanho sempre que posso os canais da Michas e da Analu, e porque elas são incríveis demais no que fazem, fica a recomendação.

14. O livro mais bonito que você comprou ou ganhou este ano.
Acho que o Querido Scott, Querida Zelda, que apesar de não ter capa dura, é bastante bonito por dentro e por fora.

15. Quais livros você precisa ou quer muito ler até o final do ano?
De preferências, todos os comprados e não lidos, e com sorte, alguns da minha lista de desejos, risos.

RORY GILMORE

Tigres à beira-mar

Comecei a ler Tigres Em Dia Vermelho ainda no aeroporto, enquanto esperava um voo para o Rio de Janeiro. Sozinha embaixo do ar-condicionado gelado do aeroporto de Brasília e sem qualquer previsão de quando finalmente embarcaria rumo a um fim de semana de praia, sol e vinho rosê ao lado do meu amorzinho, Paloma Engelke, permiti que a história de Liza Klaussmann me engolisse inteira; uma história que, ironicamente, também se passa em um cenário idílico de sol e praia, onde o vinho era substituído por infinitas doses de gim. Logo no primeiro capítulo, Helena e Nick, as protagonistas, rodopiam sob o céu escuro de uma noite de verão, bebem gim em copos de geleia e celebram o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de anos de incertezas, o futuro finalmente se tornara uma realidade palpável, e não mais uma promessa distante, instável e pouco razoável. Nick e Helena fazem planos, riem em voz alta e dançam, dançam, dançam, como se nada fosse mais importante – e não era -, mas também choram a distância, lamentam separar-se uma da outra.

Em uma história onde a relação mais importante e complexa é desenvolvida por e entre duas mulheres, não é uma surpresa que o que acontece ou deixa de acontecer com Nick ou Helena tenham um peso tão grande para a outra; antes de se casarem, formarem a própria família e se tornarem mulheres independentes, Nick e Helena são primas e, sobretudo, amigas, e desde a infância dividem uma história complexa em que são, ao mesmo tempo, confidentes e ruína uma da outra. Nick é a mulher de traços sisudos, de personalidade hipnotizante, expansiva, por quem todos se apaixonam, embora ninguém saiba exatamente o motivo. Helena é o contrário. Ela é doce e introvertida, bonita com seus cachos cor de areia e a pela macia, mas mais suscetível à submissão. Helena é o clichê da mulher comum e banal das décadas de 40, 50 e 60, exatamente o que Nick jamais desejou ser, mas que, ao seu próprio modo, também o é. A história constrói essas mulheres de modo que elas sejam capazes de levantar questões e trazer à tona sentimentos muito específicos da existência feminina. Não é uma história universal, não há como ser. Às vezes, temos acesso ao ponto de vista de outros personagens, e esses personagens por vezes são homens, mas ainda é uma história muito feminina, que trata de dramas e conflitos que conversam com a experiência de ser mulher numa sociedade ocidental. Nick e Helena são mulheres, logo possuem experiências e sentimentos que muitas vezes também nos dizem respeito – o que nem sempre é bom, mas que alívio descobrir que não estamos sozinhas nesse mundo.

Em 1945, a maior preocupação de Nick era voltar a viver com o marido – Hughes, que estava na guerra – e não viver mais em um mundo controlado por cartões de racionamento. Helena, por sua vez, tinha planos de ir para Hollywood casar-se com Avery Lewis – um produtor cinematográfico picareta que vendia seguros e adorava contar vantagem – após seu primeiro marido ser morto em combate. Ter alguém para chamar de “meu” parecia ser a única ambição daquelas mulheres, que se satisfaziam com a ideia de casamento, filhos e a vida de dona de casa, mas não é uma surpresa que, pouco tempo depois, ambas estejam frustradas com seus maridos, filhos e uma com a outra, mas principalmente consigo mesmas. O futuro que lhes fora prometido, afinal, não era tão bonito assim na prática. Tanto Helena quanto Nick projetam nos outros e em si mesmas expectativas irreais, é por isso que elas se decepcionam. Assim, quando Nick se entrega à romances extraconjugais que não significam nada, ela não está dizendo que não ama seu marido; ela só está em busca de uma fuga para um casamento que parece perfeito na teoria, mas não na prática. Quando Helena bebe, bebe, bebe sem parar, quando toma uma porção de remédios, quando foge da própria realidade, ela está fazendo exatamente a mesma coisa – a fuga de uma mulher torturada por um mundo de homens. São mulheres machucadas demais, complexas demais, e o grande trunfo da história é a construção dessas personagens não como pessoas limpinhas demais, boazinhas demais, mas seres humanos que vivem coisas desagradáveis o tempo inteiro e são complicadas, muito complicadas. São mulheres irritantes, dramáticas, mesquinhas, invejosas, falhas; todas características muito humanas, mas que ainda nos são negadas. Ser mulher é complicado pra cacete.

Tenho pensado bastante sobre essa coisa de ser mulher e como, por muito tempo, vivi em uma bolha em que era preciso fingir o tempo todo ser uma pessoa quando, na realidade, eu era outra – às vezes radicalmente diferente. Como neguei tantos sentimentos na tentativa de me adequar e como hoje parece quase impossível lidar com esse turbilhão, porque ninguém me ensinou o que isso significava ou o que eu devia fazer quando essas coisas acontecessem. Ao longo da vida, tive muito mais contato com a produção artística de mulheres – exceto, muito provavelmente, pelo cinema -, ao contrário de muitas amigas, que primeiro conheceram e consumiram o cânone cultural construído e moldado por homens. Contudo, ainda que me identificasse com essas mulheres e entendesse muito do que elas estavam dizendo, na prática, eu ainda me limitava; eu jamais poderia ser como elas – ao menos, não de uma forma tão aberta.

Quando constrói duas personagens (três, se também considerarmos Daisy, a filha de Nick) tão ambíguas, Klaussmann está dizendo que esses sentimentos são possíveis, que eles existem; não somos as garotas boazinhas e unidimensionais que um dia nos disseram que deveríamos ser. É um convite a pensar nos papéis que estamos desempenhando, sobre quem somos e qual, afinal de contas, é nosso lugar no mundo, e principalmente sobre nos reconhecermos como pessoas que às vezes são boas, às vezes são más, mas jamais são uma coisa só – um reconhecimento brutal, mas também libertador. No título, os tigres são uma referência a Tiger House, a casa de veraneio localizada na ilha de Martha’s Vineyard onde a maior parte da trama se desenvolve; mas gosto especialmente como, de maneira menos óbvia, ele também referencia a suas personagens, que amam, desejam, brigam de forma furiosa, como tigres. E sentem, sentem, sentem o tempo todo. Existem várias coisas acontecendo, inclusive um assassinato, mas a resolução dele se torna bem menos importante quando há tanto a ser dito sobre essas mulheres, seus sentimentos e as relações que estabelecem entre si; um lugar em que inveja, ressentimento, amor, cuidado e carinho coexistem como iguais.

Algum tempo atrás, me vi em uma situação bastante delicada, que envolvia sentimentos com os quais eu não estava acostumada a lidar, que não sabia nomear. “Então isso é inveja?”, eu me perguntei um milhão de vezes enquanto tentava entender o que estava acontecendo comigo, qual era a natureza daquele sentimento, como eu podia ficar tão feliz por uma pessoa e ao mesmo tempo tão frustrada, sem conseguir deixar de pensar “por que não eu? por que não comigo?”. Eu me senti suja, mesquinha e egoísta como poucas vezes na vida, mas quando conversei com outras mulheres sobre isso, ninguém me fez sentir mal ou culpada, ninguém disse que eu era a pior pessoa do mundo. Todas elas fizeram com que eu me sentisse acolhida e amada, sem jamais invalidar meus sentimentos. Porque elas entendiam. Porque muitas delas já haviam pisado nesse lugar antes. Foi uma experiência surpreendente, mas triste também porque me lembrou que o mesmo mundo que nos cria para sermos criaturas delicadas, sensíveis e, de preferência, invisíveis, é o mesmo que nos ensina a utilizar o sucesso de outra mulher como prova do nosso fracasso. A grama do vizinho é sempre mais verde, mas ela é especialmente verde quando falamos da grama de outra mulher. É algo que tentamos quebrar todos os dias, e eu sei disso porque vejo mulheres todos os dias tentando romper com esse padrão, mulheres que tentam subverter a regra, mudar tudo, começar de novo. Mas ainda são as mesmas pessoas que choram na frente do espelho porque não são quem deveriam ser, porque queriam trocar de lugar com outra pessoa, porque se perguntam o tempo inteiro “por que não eu? por que não eu?”, que se ressentem por aquilo que todas as outras são.

Liza Klaussmann parte da experiência de mulheres das décadas de 40, 50 e 60, um período em que, depois de serem incentivadas a saírem de suas casas e desempenharem funções antes reservadas exclusivamente aos homens, elas são novamente convidadas a se retirarem e voltarem aos afazeres domésticos, ao marido, ao lar, aos filhos, a coisa toda. É um contexto diferente do nosso, é claro, embora ainda exista um abismo quando pensamos na realidade de homens e mulheres no mercado de trabalho, mas ainda que a História nos separe dessas mulheres, existe o universal de feminilidade que nos une à elas. Um universal que está longe de ser bonito e que jamais é preto e branco. Ao mesmo tempo, existe algo de ordinário ali, confortável porque já é muito conhecido. Nick e Helena são mulheres extraordinárias em sua própria banalidade. Elas sofrem muito, o tempo inteiro, mas seu sofrimento jamais ganha contornos mirabolantes. A complexidade dessas mulheres jamais é posta à prova, mas seus conflitos não são originados a partir de histórias cabeludas. O ressentimento, a inveja, o casamento fracassado, o abandono, o abuso, a raiva. Existe muita raiva ali, em todos os lugares. Em determinado momento do livro, Helena, em um fluxo de consciência terrivelmente íntimo e visceral, confessa que odeia Nick; mas num reconhecimento de sua própria ambiguidade, também diz que sente falta da prima, porque ela é uma pessoa encantadora, divertida e insuportável, características ambíguas que coexistem numa só pessoa e que, em contrapartida, gera sentimentos igualmente contraditórios. Tudo isso em um cenário tão, tão bonito que parece óbvio que aquelas pessoas sejam felizes, lindas, mas elas são apenas humanas, atormentadas demais para se deixarem levar pela beleza do lugar. Existem os romances de verão, mas eles jamais são perfeitos, simples; existem as festas, mas elas são apenas uma forma mais ambiciosa de encenação. Em meio ao banal, coisas extraordinárias acontecem.

Ainda falamos muito pouco sobre mulheres banais, sobre o valor que essas histórias têm. Sobre como é importante se reconhecer em algo além do extraordinário, ou de, pelo contrário, reconhecer o extraordinário dentro das nossas vidinhas comuns. Essas histórias têm ganhado muita força nos últimos tempo, e é revolucionário que isso esteja acontecendo, mas se me perguntassem, ainda acho que existe muito espaço para ser ocupado. Que ainda existem muitas histórias esperando para serem trazidas à tona, muitas mulheres com as quais podemos nos identificar. Já conhecemos homens comuns demais. Um dos pontos negativos do livro que muita gente apontou é o fato do assassinato ser resolvido de um jeito meio morno e o final perder força por causa da revelação que parece óbvia a partir de determinado ponto. E eu concordo, mas ainda acho que existe mais sobre essa história, que ela é menos sobre quem matou quem, e mais sobre os dramas vividos por Nick, Helena e, em alguma medida, também Daisy; que é o que existe de mais poderoso no livro e o que me faz gostar tanto, tanto dele, ao ponto de sempre olhá-lo com carinho e sonhar com o dia que terei tempo de retornar à Tiger House, apesar dos pesares. Ainda há um caminho imenso pela frente, mas me permito admirar quem ao menos tenta contar essas histórias e dizer em voz alta que estamos longe de sermos perfeitas – graças a Deus.

 

RORY GILMORE

Quem tem medo de clássicos?

O primeiro livro de gente grande que eu li foi Robinson Crusoé, um romance sobre um náufrago que passa vinte e oito anos perdido numa ilha deserta. O livro foi publicado em 1719, mas curiosamente foi uma das coisas mais legais que eu já tinha lido até ali, uma obra que abriu espaço para muitas outras dali em diante numa época em que eu ainda não tinha medo de livros antigos demais, distantes demais da minha realidade, dos grandes clássicos da literatura e todo o resto. Crescer aparentemente me transformou numa pessoa ridiculamente idiota, porque desde o início da minha adolescência, a leitura de clássicos se tornou um grande tabu na minha vida e não é por acaso que, até hoje, minha formação literária nesse sentido é tão falha. Eu criei um medo irracional de muitos livros e de muitos autores, ao ponto de só muito recentemente ter passado a correr atrás do prejuízo – meio por interesse, meio porque não aguentava mais dizer que nunca tinha lido Machadão ou Jane Austen.

É uma situação ridícula essa, especialmente quando falamos de clássicos, que são os livros populares de outrora, os tais best-sellers que a gente tanto ouve falar. Embora a escrita mais rebuscada às vezes seja um problema, ela nem sempre é a regra, e no final das contas esses livros acabam sendo experiências maravilhosas, além de retratos de épocas que não vivemos. Tirando uma ou outra leitura que até agora eu não consegui superar o medo – Machadão, estou olhando pra você #spoiler – a maior parte das minhas experiências foram maravilhosas, e eu acabei conhecendo histórias que se tornaram favoritas de uma vida inteira. Orgulho e Preconceito é uma grande novela das seis, deliciosa de acompanhar e absolutamente cativante; O Retrato de Dorian Gray se tornou um verdadeiro favorito, desses que eu indico pra qualquer pessoa sem nem pensar duas vezes; e embora já faça muito tempo desde que o li, Lucíola ainda é um dos meus clássicos favoritos da literatura brasileira. Então por que diabos a gente – e quando digo a gente, estou falando principalmente de mim mesma – continuamos com esse medo ridículo de… livros?

Foi pensando nisso que a Mia, essa adorável criatura e parceira de crime, sugeriu que falássemos sobre livros clássicos que nos dão medo, muito medo, que nos intimidam em tempo integral mesmo que a vontade de lê-los seja imensa. Imediatamente pensei em uma porção de títulos que se encaixariam perfeitamente na proposta, mas preferi focar nos principais, aqueles que me dão mais medo entre todos os clássicos que estão na minha lista de futuras leituras há anos, mas seguem me assombrando em tempo integral.

1. Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski.
Aparentemente existe um consenso sobre os russos, que não são apenas os russos, mas os RUSSOoOoOoOoOoS, esses caras diferentões e difíceis de lidar, que escrevem uma literatura igualmente diferentona e difícil de lidar. São livros imensos, vindos de uma terra que nos causa, ao mesmo tempo, fascínio e receio, um lugar de gente diferentona e, reza a lenda, difícil de lidar, e eu não acho que seja puro acaso que esses livros evoquem os mesmos sentimentos. Crime e Castigo acaba sendo ainda pior por se tratar de um livro imenso com uma temática pesada; a história de um ex-estudante de Direito que comete um assassinato (!) e se torna incapaz de lidar com sua própria vida após o delito. Outras histórias se desenvolvem em paralelo, mas o livro dedica boa parte de suas infinitas páginas aos conflitos psicológicos do personagem principal, e isso por si só já é suficiente para que eu tenha certeza de que uma bad fenomenal caminha em minha direção só de passar os dedos pela capa do livro, enquanto vivemos um relacionamento platônico e destrutivo numa livraria qualquer.

2. Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Minha relação com Machadão começou no ensino médio, quando eu fui gentilmente obrigada a ler algumas de suas obras para o vestibular e…não li nenhuma. Eu passava horas, na sala de aula mesmo, lendo tudo que fosse possível, menos aquilo que eu efetivamente deveria estar lendo; meu jeitinho de ser rebelde, mas nem tanto assim. A verdade é que eu sempre tive um preconceito sincero em relação aos clássicos da literatura nacional, algo que mais tarde evoluiu para um medo muito honesto de lê-los. As pessoas diziam que todos eram insuportáveis, difíceis, e meio sem querer, meio já querendo, eu acreditava, mesmo que nunca tivesse realmente tentado dar uma chance pra eles. Alguns anos mais tarde, conheci pessoas que me fizeram mudar completamente de ideia e que me mostraram que Machado de Assis não era um autor chato e difícil, como passei boa parte da minha vida ouvindo. Assim, tentei ler uma edição feiosa que ganhei na época do vestibular, junto com uma porção de outros clássicos – todos em edições igualmente horrorosas, para o meu completo horror -, mas infelizmente não consegui passar da primeira página. Foi a primeira tentativa frustrada de algumas, não muitas, mas que imagino serem uma consequência de todos aqueles anos que eu passei ouvindo que o livro era o maior pavor de todos os tempos. Ainda pretendo dar uma nova chance, mas quando isso vai acontecer é realmente uma questão.

3. Drácula, de Bram Stoker.
Sendo uma pessoa apaixonada por vampiros e toda a mitologia que os envolve, chega a ser ridículo que até hoje eu não tenha lido Drácula, também conhecido como o livro que moldou nosso imaginário coletivo e que nos deu de presente a figura misteriosa e repulsiva do vampiro mais famoso do mundo, etc etc. Tenho certeza que vou amar cada minuto da leitura e foi justamente por isso que, no ano passado (!) finalmente comprei uma edição pra chamar de minha – uma que não é exatamente bonita, mas também não é exatamente feia, bear with me -, decidida a iniciar a leitura assim que possível; um possível que, por algum motivo, nunca chega. Já perdi as contas de quantas vezes tirei o livro da estante, determinada a mergulhar na história, mas aparentemente não trabalhamos com vergonha na cara, porque até hoje foi o máximo que já aconteceu. Numa medida desesperada, enfiei o livro na minha lista do Desafio Luxuoso, genialmente criado pela menina Analu e sua amiga, creiça Karina, mas até o fechamento desta edição, o livro segue “””intocado””” na minha estante. Vai entender.

4. Este Lado do Paraíso, de Scott Fitzgerald.
Não sei se já falei sobre isso, mas desde que conheci a Fer, tenho nutrido uma obsessão descompromissada pelo casal Fitzgerald. Amor descompromissado foi a forma que eu encontrei de chamar essa admiração e interesse que tenho pelos dois e sua história de vida curta e conturbada, mas sem realmente mergulhar na vida & obra de ambos. Este Lado do Paraíso foi o primeiro livro do Scott a ser publicado, o responsável por colocar o selo “top” de aprovação na testa do homem, e desde que assisti a primeira temporada de Z: The Beginning of Everything – que na verdade é sobre a Zelda, mas bear with me – tenho me sentido especialmente interessada. Mas meu primeiro contato com a literatura de Scott Fitzgerald não foi das melhores. Embora ainda tenha vontade de lê-lo em outro momento, O Grande Gatsby não me disse absolutamente nada, o que me faz ter um medo especial de encarar uma nova obra sem um bom preparo psicológico antes. Não é uma leitura difícil, muito pelo contrário, mas eu realmente gostaria de me apaixonar pelas histórias e não apenas lê-las e seguir com a vida depois, como se nada tivesse acontecido.

5. Moby Dick, de Herman Melville.
Um milhão de páginas sobre uma baleia, pesca, arpões e métodos de caça que, por algum motivo, se tornou um dos livros mais importantes da literatura mundial. Curiosamente, meu medo de Moby Dick não é exatamente em relação ao livro em si – que como acontece com muitos clássicos, foi mal recebido pela crítica da época, até se tornar O Livro Respeitado™ que é hoje -, mas sobre a história, sobre o fato de ser uma questão – no caso, a caça de baleias – que pra mim ainda é muito delicada. Realmente, não sei se algum dia conseguirem ler, mas a vontade, ironicamente, é bem real, apesar dos pesares.

6. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.
Falo de Cem Anos de Solidão porque é o primeiro que me vem à cabeça, mas poderia ser qualquer livro do Gabo. Eu tenho pavor de Gabriel García Márquez – um pavor que também não é nada senão uma consequência das aulas de literatura e de todas as pessoas que me disseram que eu deveria ter medo, muito medo, da literatura de um cara tão incrível. E eu tenho, até hoje. Não ajuda em nada que o livro seja considerado uma das obras mais importantes da literatura latino-americana, a segunda mais importante de toda a literatura hispânica, ou seja né. O medo, ele é muito real.

7. Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
Aparentemente existe um consenso de que esse livro é o pavor maior entre todos os pavores gigantes que fazem parte desse período maravilhoso chamado ensino médio, vestibular a dar com pau, etc etc. Como todos os clássicos que deveria ter feito parte do meu currículo (cof, cof), mas foram gentilmente ignorados, Grande Sertão: Veredas acabou ficando esquecido no tempo; até, claro, o dia que decidi que queria compensar o tempo perdido, mesmo que fosse para me sentir burra o tempo inteiro – o que, tenho certeza, inevitavelmente irá acontecer. Embora seja um livro que, reza a lenda, é difícil pra caramba, ele ainda é uma obra muito rica, que utiliza um cenário muito específico para tratar de temas universais, e uma vez ultrapassadas as barreiras que me afastam dele, tenho certeza que a experiência pode ser verdadeiramente incrível.

RORY GILMORE

Victoria Aveyard, vamos ser amigas?

Então eu li um livro que me fez querer acender uma fogueira nos primeiros quinze capítulos, até que ele terminou e tudo que eu queria era dar um abraço na autora. Momentos.

O livro, no caso, é A Rainha Vermelha, e conta a história de Mare Barrow, uma moça de 17 anos nascida num universo alternativo onde as pessoas são separadas pela cor do seu sangue. Mare tem o sangue vermelho, o que significa que ela e sua família estão destinados a viver na miséria pelo resto da vida, escravizados pelos nascidos com sangue prateado – criaturas poderosas e muito arrogantes, que possuem habilidades sobrenaturais e são terrivelmente perigosas. Mare acredita já ter seu destino traçado: ao completar 18 anos, será obrigada a ir para o campo de batalha, do qual tem certeza que nunca voltará. Mas daí, num desses plot twists (não tão) aleatórios do destino, Mare descobre que tem poderes e coloca em perigo todo o “”””equilíbrio”””” da sociedade em que vive e, principalmente, a soberania dos prateados. A partir daí ela é obrigada a abrir mão da pouca liberdade que tem, e passa a viver no palácio, fingindo ser uma pessoa que não é, convivendo com pessoas que abomina em tempo integral, num plano que claramente tem tudo pra dar errado.

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Já aviso de antemão que, a não ser que você tenha morado em Marte nos últimos anos, é muito difícil desassociar o universo do livro de suas referências. Victoria Aveyard, a autora, bebe de fontes como Jogos Vorazes, Game Of Thrones (oh lord, she did it), e d’A Seleção, só pra citar alguns, e faz isso da forma mais descarada possível. É mais ou menos como ler um compilado de tudo que fez sucesso no mercado editorial nos últimos anos, dentro de um contexto meio aleatório que não chega a ser forte o suficiente pra fazer você esquecer que opa, acho que já vi isso antes em algum lugar. Claro que isso não me impediu de me envolver demais com a trama e shippar horrores o casal principal, nem de ficar louca de raiva com os personagens odiáveis (são muitos), e principalmente com o plot twist que rola mais pro final, mas concordam que é meio puxado levar a sério um troço que segue religiosamente a cartilha do autor de sucesso?

Eu estava pronta pra escrever algo sobre como o leitor de YA ainda é subestimado, sobre como as pessoas não conseguem mais escrever uma história honesta sem se inspirar nas tantas outras que vieram antes e sobre essa mania insuportável de inventar uma adaptação cinematográfica diferente todo santo dia, sem nenhum critério aparente, quando já se tem tanta gente incrível e talentosa escrevendo textos específicos pro cinema. Eu ainda quero escrever sobre isso. Eu ainda vou escrever sobre isso. Mas aí eu resolvi ler os agradecimentos antes, uma coisa que nunca faço, e de repente estava abraçada com o livro em posição fetal na cama, querendo muito ser amiga da pessoa por trás daquelas páginas, pensando que o mundo é um lugar melhor porque ela resolveu acreditar naquela história, mesmo que ela não seja exatamente boa (nem exatamente ruim).

Lena Dunham escreveu que não há nada mais corajoso do que uma pessoa anunciar que sua história merece ser contada, sobretudo se essa pessoa é uma mulher. Eu acredito tanto nisso que não só acho muito importante que a gente conte nossa história, mas que conte também as histórias que saem da nossa cabeça, e que são tão nossas quanto aquelas que vivemos todo santo dia. Foi por isso que, quando eu parei pra pensar que se essa história é o que é hoje (um livro de fantasia, protagonizado por uma mulher, com adaptação cinematográfica já planejada (!) e avaliações muito boas, apesar de não ser um livro exatamente inovador) foi só porque, em algum momento, uma mulher, como todas nós, acreditou que essa história precisava ser contada, e foi lá, correu atrás, e fez as coisas acontecerem.

Ando num vórtice muito bom de encarar a história dos outros como uma coisa real e palpável o suficiente pra ser inspiradora, e isso tem me ajudado muito a reconhecer que eu também posso fazer coisas incríveis com a minha vida, sem necessariamente fazer algo grande, nooooooossa vejam só como sou incrível & inovadora, me amem. É como se alguém me desse um tapinha nas costas e dissesse que tudo bem não ser a melhor em tudo, que eu não preciso ter metas gigantescas na vida pra fazer meu tempo aqui valer a pena, mas que eu posso, na medida do possível, fazer e ser o que e quem eu quiser. Aliás, superem essa mania de achar que só é bem-sucedido quem tem um império nas mãos e a vida toda no lugar aos vinte e poucos anos.

Tenho conversado muito sobre essa vontade de fazer as coisas acontecerem com qualquer pessoa que esteja disposta a conversar sobre o assunto (interessados podem me chamar no chat do Facebook) e o mais legal é que essas conversas nunca são sobre como a vida é injusta ou sobre o grande fracasso que somos, mas sim sobre como nós temos uma porção de planos incríveis e precisamos correr atrás deles. Que seja pra dar errado, mas pelo menos a gente não tá aqui engavetando tudo e fingindo que esqueceu desse monte de ideia sem pé nem cabeça.

É por isso que, enquanto eu lia os agradecimentos no final do livro, não pude deixar de dar um sorriso e querer muito fortemente ser amiga da Victoria, porque era exatamente isso que ela parecia: uma amiga. Logo na primeira página ela agradece os autores que fizeram com que seu mundo fosse muito maior do que as limitações de uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos, e mesmo eu, que cresci numa cidade grande (que parece o quintal de casa, mas bear with me), consigo ver muito de mim nessa parte. Se hoje sou uma pessoa que escreve (?) é só porque, em algum momento, essas pessoas me mostraram que tão legal quanto ler as histórias dos outros, era escrever as minhas próprias. Elas podem até não ser tão boas, mas ninguém precisa de muito mais do que vontade e um pouquinho de coragem pra começar. O resto a gente torce pra vir com o tempo.

Ler A Rainha Vermelha foi como ler o livro de uma amiga muito querida e sentir que poderia ser eu no lugar dela, não de um jeito invejoso de quem quer muito viver a vida de outra pessoa, mas como a amiga orgulhosíssima que se vê representada por uma pessoa muito especial. Se vocês me perguntassem se o livro é bom, eu diria que tudo é uma questão de gosto. Pode ser que ele não seja exatamente bom, pode ser que ele não seja exatamente original, mas isso não quer dizer que ele seja de todo ruim. É provável que eu não leia o primeiro volume de novo, mas estaria mentindo se dissesse que não passei as últimas duas semanas pesquisando sobre Glass Sword, segundo livro da série que só vai ser lançado em 2016.

king

É tudo uma questão de ponto de vista.