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THE ROAD SO FAR

THE ROAD SO FAR

SELF IMAGE 2017

Tenho as sobrancelhas da minha mãe e o nariz do meu pai, mas todo o resto é só meu. Nasci em 1993, mas minha história começa quase um século antes, numa cidade pequenininha no interior da Bahia. Sou obcecada por memórias e raízes, e desde então tenho tentado entender esse passado. Sou filha de pais separados, um clichê ambulante com uma porção de daddy issues. Cresci numa casa – e numa família – onde mulheres sempre foram maioria. Sou leitora em uma família de gente que não lê. A mulher mais alta, mas há algum tempo já não sou a neta mais nova. Alguém que quer viajar o mundo, mas precisa de um lugar para onde voltar.

Ainda tenho dificuldades em encarar meu reflexo no espelho. Ainda quero perder 10kg. Ainda quero ter as pernas finas e o quadril estreito que sei que nunca terei. Ainda tenho a autoestima baixa e choro todas as vezes que a realidade bate como um martelo, mas não tenho mais vontade de ser outra pessoa. Faço careta em quase todas as fotos que tiro numa tentativa de driblar a autocrítica. Estou tentando ser mais gentil comigo mesma. Sou uma pessoa que chora muito, mas que tem chorado cada vez menos. Por outro lado, continuo sentindo demais o tempo inteiro, talvez mais do que nunca. Continuo sonhando alto e sonhando grande, mas hoje já não sinto vergonha da minha ambição. Acredito em Deus, no Universo, no poder de boas energias, no ser humano. Acredito no cinema, na arte, no poder de boas histórias. Acredito que o amor vence a guerra, embora nem mesmo ele seja capaz de vencer todas as batalhas.

Continuo achando difícil acreditar no meu trabalho, mas cada vez me sinto mais segura em relação ao que faço, independente de quanto dinheiro ganho ou deixo de ganhar com isso. Mas ainda preciso que vez ou outra alguém me lembre de valorizá-lo. Escrevo há muito tempo, mas só esse ano passei a me reconhecer como escritora. Faço filmes, mas ainda acho difícil me reconhecer como cineasta. Ainda me importo demais com a validação externa. Tenho um site sobre cultura pop que nasceu da minha cabeça, e embora só tenha tomado forma com a união de outras tantas pessoas, não deixo de me encantar com a possibilidade de sonhos e projetos abstratos se transformarem em realidade. Não tenho mais medo de falar com professores ou pessoas mais velhas que eu, mas ainda preciso aprender me impor quando necessário. Continuo sendo overachiever, mas já entendi que é preciso traçar uma linha entre aquilo que eu realmente preciso fazer e aquilo que eu só quero demais.

Tenho mais amigos do que imaginei que fosse ter um dia e todos eles são preciosos, lindos, as melhores pessoas do mundo. Ganhei lembranças, fotos, risadas, registros, conexões, laços. Ganhei vários tetos diferentes em todos os cantos possíveis desse país. Construí histórias lindas, mas descobri que não é preciso ter alguém ao seu lado por uma vida inteira para torná-la especial. Há quase dez anos descobri o amor, que continua firme e forte como nunca, e foi com ele que aprendi que nem só de sorrisos e declarações é feita uma história de amor, mas que os pequenos gestos cotidianos são mais significativos do que todas as palavras do mundo. Descobri que a paixão é fundamental e continuo me apaixonando todos os dias, mas é o amor que tem cheiro de lar.

Eu tenho 24 anos. Não terminei a faculdade. Gosto de jaquetas de couro, calça jeans e camiseta GG. Tenho depressão e ansiedade, mas não acredito que essas coisas me definam. Faço terapia há quase um ano e é a melhor coisa do mundo. Gosto de dançar, mas tenho vergonha de fazê-lo em público, então danço sozinha no meu quarto. Ainda falo muito baixo, sou muito tímida e meio antissocial, mas aos poucos tenho tentado sair da minha concha. Me disseram uma vez que escolhi o jeito mais traumático de fazer isso e eu ri de nervoso, mas se não fosse assim, talvez eu já tivesse mudado de ideia. Sou pisciana. Feminista. Contraditória demais para o meu próprio bem. Tento ser uma pessoa melhor a cada dia, mas já parei de pedir desculpas por ser quem eu sou. Meu filme favorito continua sendo A Noviça Rebelde. Gasto tempo demais com obsessões irrelevantes. Ainda tenho morro de tirar sangue. Algumas coisas realmente não mudam.

THE ROAD SO FAR

PERFECT PLACES

Em 2013, quando o primeiro álbum da Lorde foi lançado, eu tinha 20 anos. Era meu segundo ou terceiro semestre na faculdade de comunicação e coisas que imediatamente me pareceram extraordinárias, começavam a adquirir contornos cada vez mais mundanos. Depois de me impressionar com as pessoas, as opiniões e a aparente transgressão – às vezes, genuína -, me sentir sozinha e ao mesmo tempo parte de algo maior, amar e odiar aquilo com toda a força do meu coraçãozinho pisciano sofredor, eu finalmente começava a enxergar aquelas pessoas e aquele lugar aparentemente perfeitos por uma perspectiva menos idealizada e mais realista. De repente, as roupas bonitas e os cabelos calculadamente descolados passaram a dar lugar a pessoas inseguras, vulneráveis, cada vez mais distantes daquela imagem inicial de força e subversão; ainda eram as mesmas pessoas que, nos corredores da faculdade, pareciam invencíveis, fortes e livres, mas tanto quanto qualquer outro, elas também queriam pertencer, também sentiam medo e eram jovens, muito jovens, embora suas palavras nem sempre as condenassem.

Eu observava tudo isso a uma distância mais ou menos segura: distante o suficiente para não me machucar, o mais perto possível para não deixar nada passar despercebido. Era uma posição privilegiada, superior até; mas curiosamente decepcionante – eu queria o glamour meio decadente, queria o horror das noites em claro, bêbada demais para entender o que estava acontecendo; e todo o trauma, o terror e a porra do melodrama. Eu estava segura e a salvo, mas eu era jovem, muito jovem, e não queria estar segura, muito menos a salvo. Diferente da adolescência, quando passava a maior parte do meu tempo trancada no quarto, ouvindo músicas de bandas que ninguém conhecia, assistindo filmes que ninguém além de mim ou dos meus pais achavam legais e lendo livros que ninguém mais gostava, aos vinte anos, eu já não me sentia tão melhor assim do que outras pessoas por fazer nenhuma dessas coisas, muito menos julgava quem caminhasse na contramão – pelo contrário, eu quase implorava que eles me dessem a mão e pelo amor de Deus, me deixassem caminhar (ou dançar) junto com eles. Era uma mudança sutil – e silenciosa – de comportamento, mas ainda fundamental, que me afastava cada vez mais do meu eu adolescente e me aproximava desse novo cenário onde tudo era meio feio e exagerado, mas que ainda assim me atraía em vários níveis; o que era contraditório e, ao mesmo tempo, profundamente incômodo.

Minha adolescência não foi um mar de rosas – existiram os dramas, as drogas, as festas, o álcool, as pessoas legais demais até que se provasse o contrário -, mas ainda assim havia um abismo que separava a versão adolescente da versão jovem adulta de mim mesma. Com treze ou catorze anos, eu ouvia músicas que falavam sobre lugares em que eu nunca estivera, sobre sentimentos que eu nunca sentira, e via filmes e lia livros que falavam sobre exatamente as mesmas coisas, sonhando com o dia que eu, talvez, pudesse viver aquilo também – e aí, quem sabe, cantar, escrever ou registrar de alguma forma minhas próprias experiências. Contudo, mesmo aquilo que era vivido na clandestinidade, nos momentos de desatenção da minha mãe, vinha envolto por um sentimento de incompletude porque, no final das contas, eu continuava sendo a adolescente que não podia fazer nada sem permissão, envolta por uma bolha de limitações que nunca era estourada por completo.

A única vez que fiquei realmente bêbada durante minha adolescência foi dos quinze para os dezesseis anos, quando vomitei embaixo da mesa no aniversário de uma amiga e tive que ser levada pra casa, literalmente, no colo, na frente de todos os meus professores. As pessoas falaram sobre aquilo por semanas, e eu me senti invencível e descolada, de um jeito sujo e meio infantil – a imagem de garota certinha, de repente, quebrada em mil pedacinhos -, mas ninguém sabia que, naquele mesmo dia, enquanto enfiavam uma latinha de Coca-Cola embaixo do meu nariz, eu chorei no telefone com a minha mãe e pedi que ela, pelo amor de Deus, me levasse para casa; que eu deitei no chão do banheiro público de um shopping e pedi que me deixassem dormir ali porque não aguentava mais ficar em pé de tão enjoada, e foi preciso que meu namorado me carregasse mais uma vez nos braços; que eu precisei literalmente fugir do bar em que estava porque éramos todos menores de idade e ninguém queria terminar a noite numa delegacia ou no hospital. Viver tudo isso foi um terror e um horror do início ao fim, mas a história contada parecia muito mais romântica, de um jeito totalmente decadente e ironicamente glamouroso, e aos olhos (e ouvidos) de todos os outros, era muito mais interessante do que realmente tinha sido. No entanto, esse foi um episódio isolado e, eventualmente, as pessoas esqueceram que aquilo algum dia tinha acontecido. Eu voltei a ser a garota que lia demais, ouvia músicas estranhas e pintava as unhas de amarelo maracujá, enquanto as garotas descoladas de verdade continuavam saindo todos os finais de semana, bebendo horrores e fazendo o que quer que adolescentes descoladas faziam no final da primeira década dos anos 2000.

Pure Heroine, trabalho que apresentou Lorde ao mundo, fala exatamente sobre esse distanciamento – sobre observar tudo a uma distância segura, quase cínica, como uma espécie de espectadora segura demais em seu próprio espaço de controle e superioridade meio infantil e ironicamente periférica, sem se envolver demais ou encarar-se como uma parte ativa naquele contexto. Não ouvi o álbum para ter descoberto isso por conta própria, mas é o que tenho lido ou ouvido a respeito na maior parte do tempo, em especial nas últimas semanas, e não acredito que essa seja uma obra do acaso, onde todas as pessoas resolvem concordar umas com as outras just because. Boa parte das pessoas que disseram isso, aliás, são minhas amigas, pessoas que viveram coisas muito parecidas em algum momento de suas vidas, e que ao dizerem isso, falam com a propriedade de quem já esteve – ou ainda está – naquele lugar. Eu acredito nessas pessoas, acredito quando elas dizem que é exatamente esse sentimento que essas músicas evocam e falam a respeito, assim como acredito que a própria Ella de dezesseis anos, que escreveu aquelas músicas sem saber que elas a levariam ao estrelato, também estivera ali em algum momento.

Meus dezesseis anos foram, de alguma forma, o ápice desse exercício quase antropológico de observação. Depois de passar o início da adolescência nutrindo expectativas que eram controladas à base de pequenos atos de rebeldia, eu finalmente assumia, mais pra mim do que para os outros, que aquele não era o meu lugar; eu jamais andaria de mãos dadas com aquelas pessoas, muito menos frequentaria aquelas festas ou encheria a cara daquele jeito pra me divertir. Eu ansiava pelo fim da adolescência, ansiava pelo o que viria depois do ensino médio (I’m waiting for it, that green light, I want it.), mas já não me preocupava em parecer descolada ou fazer coisas que não me interessavam só porque sim. Então, eu continuei a ouvir minhas músicas estranhas, assistir filmes que ninguém conhecia e ler os mesmos livros em looping, me sentindo importante demais para fazer qualquer outra coisa. Curiosamente, foi mais ou menos nessa mesma época que eu comecei a namorar, o que, em partes, influenciou muito a forma como eu encarava a situação. Eu fiquei com Guilherme pela primeira vez numa noite clandestina de bebedeira, em que nós dois bebemos demais, e que terminou comigo vomitando no canteiro do prédio que morava na época. Contudo, a partir do momento em que decidimos ficar juntos, nada daquilo parecia continuar a fazer sentido. Minhas amigas solteiras passaram a frequentar lugares que não pareciam adequados para mim e meu namorado (embora eu nunca tenha acredito nesse tipo de coisa) e nós fomos, gradualmente, nos afastando. Nós não estávamos mais na mesma página, e para viver todo o drama da l.o.v.e.l.e.s.s. generation, era preciso que nós estivéssemos não apenas falando a mesma língua, mas vivendo as mesmas experiências.

Não que estar comprometida, por si só, seja uma questão ou mesmo um problema, mas o romance quase sempre surge como uma parte muito essencial e indissociável de todo o drama que precisa acontecer, e quando ele acontece de forma natural e pouco dramática, você inevitavelmente enxerga as coisas por uma perspectiva diferente. A própria Lorde viveu um relacionamento relativamente longo durante sua adolescência, que chegou ao fim em 2015, e não é por acaso que a garota que conhecemos em Pure Heroine e a jovem mulher que ouvimos em Melodrama são tão radicalmente diferentes. Ela está em um lugar diferente – o que não tem apenas a ver com o fim do seu relacionamento, mas que ainda diz muito sobre estar solteira e, principalmente, sozinha. Como a Isa Sinay colocou em sua última newsletter, Melodrama é sobre descobrir que entrar na vida adulta é colocar os pés na água.

“[…] Melodrama, aos olhos de todos nós, escritores de vinte e tantos anos, não parece um rompimento, mas uma continuidade: a adolescente fechada em si mesma que descobre que entrar na vida adulta é por os pezinhos na água. É ter as coisas acontecendo. Intensas demais, rápidas demais, coisas demais, coisas que você romantizou na sua cabeça, mas que quando estão aqui, fazendo seu sangue ferver de verdade, já não parecem tão desejáveis.”

Nada disso tem a ver exclusivamente com o fato de estar em um relacionamento amoroso, mas essa ainda é uma parte importante da experiência de ser jovem, muito jovem, e que também diz muito sobre como nos posicionamos e enxergamos o mundo. O fato de nunca ter vivido grandes dramas me privou, de certa forma, dessa experiência, porque o amor continuava a ser um lugar seguro, estável e confortável demais para me jogar para o mundo por conta própria; e não fruto de mágoas profundas, vulnerabilidade e sentimentos confusos. Nunca foi confuso; inebriante e intenso, sem dúvida, mas nunca confuso. Foram necessários muitos mais anos do que talvez fosse aceitável para que eu finalmente colocasse meus pés na água e me permitisse ser vulnerável, o que talvez seja a maior mensagem sobre Melodrama. Até os 22 anos, eu não bebia, sequer pensava em usar drogas, e continuava vivendo numa bolha de pessoas que não bebiam ou usavam drogas, e que raramente iam em festas ou bares ou qualquer coisa assim. Nós passávamos horas jogando WAR, tomando banho de piscina, falando mal dos outros e comendo feito loucos; mas foi uma fase, e como todas as outras, essa também chegou ao fim.

Foi um rompimento dramático, triste e doloroso como poucos que senti e precisei lidar na minha vida. Várias vezes eu disse – pra mim mesma e também para os outros – que 2015 era o pior ano da minha vida, e essa era a mais pura e dolorosa verdade. 2015 foi um ano de profundo desencantamento, o momento em que rompi com todas as minhas certezas e finalmente me permiti colocar os pés na água – só para descobrir que ela era muito mais gelada do que eu estava esperando. Não foi preciso ter meu coração quebrado por um homem; mas ele foi quebrado assim mesmo – uma, duas, três vezes por fim; e foi difícil, traumático, dolorido como eu jamais poderia esperar. Era o fim de uma era, a despedida da vida que eu conhecia. Não por acaso, esse foi o mesmo ano em que eu menti pra minha mãe e viajei sozinha pela primeira vez para encontrar pessoas que eu nunca tinha visto na vida (num lapso inquestionável de coragem) e pedi transferência de curso na faculdade – uma atitude que, naquela altura do campeonato, pareceu ridícula e imatura para a maioria das pessoas -, mas também quando comecei a ter crises de ansiedade mais sérias e me perder em meio à depressão. Depois de perder o emprego, o casamento de uma amiga, levar um pé na bunda da minha então melhor amiga (thought you said that you would always be in love, but you’re not in love, no more) e ver um monte de gente da minha idade literalmente morrer, eu me vi em um lugar em que já não tinha mais nada a perder; o controle era só uma ilusão, não havia nada ali que não pudesse facilmente se desfazer no ar.

Lembro de morrer de medo em vários desses momentos, da ansiedade, do sentimento de vulnerabilidade por me permitir estar tão fora de mim, especialmente quando estava longe de casa. Mas, ao mesmo tempo, também lembro da magia, do sentimento de viver coisas tão incríveis e especiais, da segurança que pouco a pouco ganhava espaço em meio ao caos sem nenhum traço de ironia ou cinismo; o suficiente para que eu não quisesse voltar atrás. 2015 talvez tenha sido o pior ano da minha vida, mas foi um ano absolutamente necessário e também mágico, ainda que do seu jeito meio torto. Eu dancei até sentir meus pés doerem, só pra continuar dançando mesmo assim; chorei de saudades, ri até perder o ar, peguei no sono ainda com roupa de festa no corpo e maquiagem na cara, fui até a Lua e voltei três vezes, sem nem saber como havia saído de órbita para começo de conversa, sem nem mesmo precisar sair de casa. Era visceral, inebriante e, ao mesmo tempo, extremamente libertador.

Ao seu próprio modo, Melodrama também é visceral, inebriante e libertador. Conceitualmente ambientado em uma festa, o álbum nos leva por diferentes lugares que ganham espaço nesse cenário – início, ápice e declínio; lugares perfeitos e outros nem tão perfeitos assim -, condensados em 41 minutos preciosos e repletos de honestidade. Suas letras falam sobre rompimentos, sobre perda de controle, mas principalmente sobre permitir-se perdê-lo; sobre vulnerabilidade, desencantamento, drogas, álcool, paixões intoxicantes e instantâneas, solidão, e em alguma medida, também sobre o sentimento agridoce de renovação. Sem pedir licença, Lorde nos leva em uma montanha-russa de sentimentos contraditórios – e, por isso mesmo, tão reais -, e embora segure nossas mãos com carinho, não pede desculpas pelo final da jornada; não há, afinal, nenhuma garantia de que ela terminará bem. Mas isso não significa que não possamos nos divertir no processo. Se a dor é inevitável, então talvez seja a hora de jogar os braços para cima e dançar ao som das nossas próprias mágoas – exatamente o que ela faz e nos convida a fazer junto.

Em“Green Light”, primeira faixa do álbum, Lorde canta sobre o fim de seu relacionamento, sobre a tentativa de abrir-se para novas experiências, mas sobre a falha que inevitavelmente a persegue ao se apegar ao passado de tal modo que torna-se impossível desvencilhar-se por completo. São sentimentos ambíguos, contraditórios, que ganham espaço em meio à dor e ao sentimento de traição, quase inevitável após um rompimento dramático, ainda que não de forma intencional. O clipe é um retrato perfeito disso: Lorde canta, dança, sente o vento no rosto enquanto se pendura para fora da janela do carro, mas ainda é a mesma garota quebrada que diz na frente do espelho coisas que talvez jamais tenha coragem de dizer para a outra pessoa. ‘Cause, honey, I’ll come get my things, but I can’t let go; I wish I could get my things and just let go.

Por muito tempo, comparei o fim da minha amizade com o fim de um relacionamento; eu me senti profundamente traída, sentia raiva, muita raiva o tempo inteiro (I know about what you did and I wanna scream the truth, she thinks you love the beach, you’re such a damn liar), e por mais que eu tentasse me livrar desses sentimentos – porque, no final das contas, me faziam mais mal do que qualquer outra coisa -, eu sempre voltava para o mesmo lugar, quase como se algo realmente me puxasse de volta cada vez que eu tentasse ir embora. Entretanto, a comparação só foi ganhar contornos mais óbvios quando comecei a fazer terapia e entendi que aquele rompimento, de fato, teve um peso imenso, muito maior do que as pessoas usualmente atribuem a uma amizade – daí a comparação com o fim de um namoro. Embora hoje essa seja uma questão resolvida na minha vida, no entanto, foram necessários muitos estágios até chegar aqui; o que, de certo modo, é o que Melodrama também faz. Os estágios, que a princípio remetem a uma festa, também evocam momentos de uma vida inteira, vividos num espaço de tempo muito distinto.

Não é por acaso que ouvi-lo assemelha-se à sensação de colocar os pés na água e ser pego por uma onda de sentimentos conflituosos, num vai e vem que não faz muito sentido até o fim da tempestade. Em “Homemade Dynamite”, Lorde fala, literalmente, sobre embriagar-se e perder o controle até estar completamente cega, blowing shit up with homemade d-d-d-dynamite. Diferente dela, no entanto, minha experiência com esse lugar aconteceu somente no ano passado, quando a depressão e ansiedade passaram a me consumir de formas muito intensas, e eu comecei a alternar períodos de tristeza e profundo desamparo, com outros em que eu verdadeiramente gostaria de explodir coisas por aí com bomba caseira, irreverente e destemida como nunca fui. Muitas das melhores coisas que fiz ano passado, muitos dos “sims” ditos de modo inconsequente, aconteceram justamente porque eu estava nesse lugar, nesse estado de absoluta embriaguez, mesmo sem uma gota sequer de álcool em meu corpo. Em muitas madrugadas que passei conversando sobre isso com a Yuu, chegamos à conclusão de que esse estado tinha muito a ver com nossos transtornos; a euforia antes da queda, como a Isa também colocou em sua newsletter. “The Louvre” é uma continuação de tudo isso: a situação não poderia estar mais fora de controle, but we’re the greatest, they’ll hang us in the Louvre; down the back, but who cares – still the Louvre.

Contudo, eventualmente a conta é cobrada, e quase sempre ela é cara, muito cara. “Liability” é essa conta. A música nos confronta com a perspectiva de que talvez sejamos difíceis demais, complexas demais, para sermos amadas. Não é um pedido de desculpas, pelo contrário, mas a dolorosa noção de que talvez esse amor idealizado e aparentemente perfeito não exista para mulheres… como nós; todas nós. É uma percepção que machuca, porque confronta anos e anos de representações tortas, que nos moldaram de algum modo, e destroem sonhos que são construídos a partir de padrões e expectativas irreais de amor, seja ele qual for. Deitada no meu quarto, sem vida e sem chão, muitas vezes eu me perguntei se não deveria fugir, se não deveria sumir de uma vez por todas (they’re gonna watch me disappear into the sun; you’re all gonna watch me disappear into the sun), deixar de existir e ser um problema para todas as pessoas que tiveram o azar de cruzar o meu caminho.

They say,”you’re a little much for me, you’re liability, you’re a little much for me”; so they pull back, make other plans; I understand, I’m a liability; get you wild, make you leave, I’m a little much for everyone. Na música, o eu-lírico se sente como um brinquedo, que pode ser substituído e deixado de lado tão logo seus truques perdem a graça. Eu me senti dessa forma um milhão de vezes; o sentimento de ser descartável como uma barreira que se punha entre eu e o mundo. Não foi por acaso que tantas vezes eu senti medo, muito medo, de permitir que as pessoas entrassem na minha casca, que elas conhecessem a verdadeira Ana, a mais feia dentre todas as mulheres que existem em mim – só para fugirem em seguida, algo que, eu sabia, ia acontecer, e aconteceria rápido se eu me tornasse… inútil. Mais de uma vez, fui questionada se eu realmente precisava ser tão útil o tempo inteiro, se só era digna do amor das pessoas quando servia para alguma coisa. Não era sobre como elas me tratavam ou me viam, mas sobre o tipo de amor que eu acreditava merecer: um amor condicionado e cheio de restrições.

Encontrar um meio de subverter essa narrativa foi um processo – mais curto e menos traumático do que eu esperava, mas ainda assim um processo -, que continua acontecendo todos os dias, embora hoje eu esteja em um lugar infinitamente melhor. “Hard Feelings / Loveless”“Writer In The Dark” representam, de certa forma, parte desse processo: Lorde se joga em amores incertos, repudia uma geração inteira de cabeças desgraçadas, e a mágoa e o desencantamento são sentimentos que gritam no escuro. Bet you rue the day you kissed a writer in the dark. E não apostamos todos? “Supercut”, em contrapartida, apresenta um eu-lírico quase conformado, que depois da tempestade, torna-se novamente capaz de dançar ao som das próprias mágoas. O desencantamento e a melancolia continuam lá, mas existe algo mais: a profunda e libertadora aceitação de que, na vida, o controle é apenas mentira que não nos impede de encontrar sentido em meio ao caos. Como disse em uma conversa que tive com a Yuu sobre álbum, algum tempo atrás, eu me identifico profundamente com isso porque acho que desde 2015 minha vida tem sido esse eterno processo de desencantamento: eu não sou boa demais, minhas expectativas foram enfiadas num buraco, e a vida não é tão fácil quanto meu eu adolescente imaginava; as coisas não acontecem simplesmente porque eu estou trabalhando duro. São constatações duras, difíceis e pouco gentis, mas que após o choque inicial, ainda abrem espaço para essa aceitação genuína e a percepção de que, embora o mundo não nos deva favor algum, ainda podemos ser felizes, ainda podemos encontrar um lugar perfeito em nossa própria imperfeição e fazer com que toda essa bagunça adquira algum significado – o que é, de certa forma, extremamente libertador.

Melodrama foi, curiosamente, lançado num momento em que eu vivia esse turbilhão de sentimentos, festas, álcool, trabalhos infinitos, e eu não podia me sentir mais perdida (are you lost enough?): era fim de semestre na faculdade, eu não parava de sair um minuto sequer, e quando não estava enchendo a cara em algum lugar, estava em casa, arrancando os cabelos para dar conta de um projeto que queria muito ver acontecer, embora só a ideia de vê-lo ganhar vida me enchesse de medo. Foram muitas noites em claro, pouquíssimas horas de sono, crises de choro em absolutamente qualquer lugar, uma briga interna entre acreditar que aquilo podia dar muito certo e a certeza de que daria muito errado; momentos de raiva, esperança, desesperança, estresse, risadas, corações quentinhos e medo, muito medo, que basicamente resumiram os últimos meses. Por algumas semanas, foi como se eu estivesse (e eu de fato estava) vivendo no meu limite, e tenho certeza que se não fossem as mensagens de apoio, as conversas, a paciência, o amor e carinho infinitos que recebi nesse meio tempo, eu jamais teria dado conta e resistido até o último minuto, quando finalmente enviei o projeto e entreguei nas mãos de Deus.

Parece idiota que eu tenha me envolvido tanto com um projeto que, a princípio, era só mais um trabalho de faculdade; mas como disse na apresentação – uma apresentação em que absolutamente tudo que podia dar errado deu, e mesmo assim continuei segura e plena; uma versão completamente nova de mim mesma -, aquela era uma história que dizia muito sobre mim, sobre minhas experiências, frustrações e desencantamentos, e eu queria a chance de contá-la, especialmente agora, quando todas essas coisas ainda são incrivelmente atuais pra mim. Compartilhei o roteiro dessa história com algumas pessoas ao longo do processo e uma das coisas mais importantes que ouvi nesse tempo foi que ele era muito… eu. Que embora fosse uma história repleta de silêncios, era possível me sentir ali o tempo inteiro, meu coração batendo em cada linha escrita, em cada palavra não dita pelos personagens. Eu chorei ao ouvir isso, chorei na véspera da apresentação e quis chorar antes dela, quando as coisas começaram a dar errado – mas eu continuei ali e, no final das contas, acho que todo esse processo me ajudou a criar uma base sólida sobre o que eu acreditava; e naquele momento, eu acreditava profundamente e irrevogavelmente no meu projeto.

Ironicamente, essa história fala muito sobre – se permitir – perder o controle e sobre aceitar que a vida não é sempre boa ou sempre ruim, mas algo aí no meio. Os momentos felizes são tratados exatamente como momentos, instantes de alegria que parecem eternos até que se prove o contrário – o que, eventualmente e inevitavelmente, acontece com todo mundo. Mas eu não queria contar uma história triste: “Aurora” era – e ainda é – uma história sobre esperança e aceitação, uma história não sobre encontrar respostas, mas sobre ser feliz em um mundo onde elas não existem e o controle é apenas uma ilusão; é sobre encontrar felicidade e sentido em meio ao caos. Os personagens dessa história são pessoas que sofreram muito ao longo da vida, pessoas que possuem uma cota considerável de tragédias pessoais e que, em determinado momento, se permitiram definir por elas – só para perceberem que, assim como os momentos de alegria, a tristeza e a dor também não são eternas. Elas são um capítulo, não a história de uma vida inteira.

Escrever essa história foi, ao mesmo tempo, um exercício de roteiro, construção narrativa e de personagens, mas também foi o momento em que fui confrontada pelos meus próprios fantasmas, e em que finalmente pude olhar de perto para o meu melodrama pessoal, um processo de me desencantar e encantar novamente por uma vida que jamais será perfeita. Ao lado de Julia e Rafael, meus dois personagens, eu exorcizei meus demônios, chorei, dancei, dirigi em alta velocidade e pulei na água sem medo que ela estivesse gelada demais. Eu segurei a mão deles e eles seguraram as minhas, e quando acabou, eu já não era mais a mesma. O encontro dos dois os marcou profundamente, mas me encontrar com eles deixou marcas indeléveis na minha jornada enquanto escritora e roteirista, mas principalmente como pessoa.

De certa forma, Melodrama foi a forma que a Lorde encontrou de registrar e guardar para sempre seus 19 anos. “Aurora”, por sua vez, foi a minha forma de condensar, em alguns minutos, um processo que já vinha acontecendo desde os meus 22. Lorde conclui o álbum com “Perfect Places” – de todas, minha favorita -, uma música onde ela assume para si mesma que lugares perfeitos não existem e para de procurar por eles, o que é, de certa forma, libertador. Tudo começa de novo e de novo e de novo – os drinks, a dança, o romance, a queda -, mas isso não a impede de se divertir. It’s just another graceless night – e tudo bem. A essa altura, ela tem a consciência de que o ideal é apenas uma história bonita demais que nos contaram e que o controle não é uma realidade; lugares perfeitos não existem – ela já passou noites inteiras buscando-os, afinal – e, quando existem, não são eternos, e não há absolutamente nada de errado com isso. Enquanto passava noites chorando, apavorada demais com o que aconteceria com meu projeto, as palavras da Lorde vieram como um abraço apertado e quentinho, e não é por acaso que suas músicas complementaram tão bem a minha história, ainda que ela tenha sido concebida muito antes do álbum sequer ser lançado. Nós estávamos no mesmo lugar.

Essas músicas sempre vão ser a trilha sonora desse momento, das descoberta, das decepções, das crises, da euforia, das conquistas e do momento em que eu finalmente me tornei capaz não de colocar os pés na água, mas de pular num mar inteiro de sentimentos e incertezas. Conversando com algumas amigas algumas semanas atrás, disse que me sentia meio idiota por me identificar tanto com o trabalho de uma mulher de 19 anos, quando eu já devia ter passado dessa fase. Hoje, no entanto, enquanto escrevo esse texto (uma tentativa meio tosca, mas honesta, de também registrar essas memórias e impressões), não me sinto nem um pouco idiota, mas plena e segura, de um jeito que talvez nunca tenha me sentido antes. What the fuck are perfect places anyway?

THE ROAD SO FAR

NOBODY LIKES YOU WHEN YOU’RE 23

Eu sempre gostei de fazer aniversário – até, claro, o dia que não gostei mais tanto assim. Desde que eu fiz vinte anos – longe de casa pela primeira vez, sem a minha mãe e a maior parte dos meus amigos, mas de frente pro mar, com meu namorado, com direito a um “parabéns pra você” tocado num imenso piano de cauda – minha relação com essa coisa de fazer aniversário mudou muito. Os dias que antecedem a data são sempre meio estranhos; meio triste, meio alegres, meio já cansei de tentar entender. Mas é também uma época que vem carregadas de uma expectativa que eu não sinto em qualquer outra época do ano, que é meio o que me mantém viva nesse período conturbado.

Eu sempre digo que março é o meu mês num tom de brincadeira, como quem pede pra que nada dê muito errado e que as pessoas pelo amor de Deus façam o favor de não forçarem muito a barra e serem mais gentis comigo do que o normal, mas esse é um mês que eu sinto muito meu justamente porque é quando um novo ciclo na minha vida começa de fato e eu me sinto no direito de pedir o que quiser, mesmo que não receba de volta. Minha mãe sempre me diz que querer não é poder e eu acredito nisso demais, mas foi essa mesma mãe que me disse que a gente precisa querer as coisas e pensar positivo, porque os pensamentos têm poder. Por mais que eu tenha revirado os olhos depois, preocupada demais em não morrer (risos eternos), eu sei exatamente do que ela estava falando porque na maior parte do tempo eu acredito nisso também: querer não é poder, mas é preciso querer antes de saber se é possível tê-las ou não. Então eu me permito desejar muitas coisas, ser mais abusada que o normal e ver no que dá, o máximo que eu posso receber é um “não”. É uma tática maravilhosas, e numa dessas eu já convenci muita gente que me ama a fazer coisas meio absurdas – mas não tão absurdas assim – só porque era o meu mês.

Só que secretamente, março é também um mês que eu costumo me recolher com mais frequência, ficar mais reservada que o normal, e refletir sobre minha vida, minhas escolhas, meus sonhos e como eu quero continuar minha caminhada dali em diante. É um momento que quase sempre envolve muito choro e também algum sofrimento, porque é difícil olhar pra trás e pisar de novo em lugares que já não existem mais no aqui e no agora, lembrar de sonhos que ficaram no meio da estrada e foram pisoteados por quem veio depois, e encarar de perto meus demônios só pra tentar diferenciar aqueles que já me sinto capaz de exorcizar daqueles que ainda precisam passar algum tempo comigo. Então eu choro: pela raiva, pela perda, pela saudade daquilo que já foi e, em algum momento, por tudo que não foi, pelo o que ainda está por vir. Nunca é fácil, mas é algo que faz total sentido na minha cabeça e que é absolutamente necessário – pelo menos, pra mim. Eu fico muito sensível e vulnerável depois, mas ironicamente é justamente assim que eu consigo me levantar mais forte e confiante mais tarde, e aí sim, ter forças pra celebrar mais um ciclo que se inicia.

O que não aconteceu esse ano – ou aconteceu e eu estava ocupada demais para perceber. Desde o início de março, ou talvez desde o final de fevereiro, minha vida virou uma bagunça tão grande que eu não tive tempo, quiçá vontade, de me acostumar com a ideia de mais um aniversário, refletir sobre a data e tentar entender tantos sentimentos que tomavam conta de mim de uma vez só. Eu passei dias inteiros deitada na cama, olhando pro teto do meu quarto sem a menor vontade de fazer qualquer coisa, porque qualquer coisa exigia uma força que eu não tinha e honestamente não queria ter. Era o meu mês e eu podia chorar se quisesse – mas também podia passar o dia inteiro na cama, e faltar todas as aulas do mundo, me afastar do mundo e fantasiar sobre cenários em que eu invariavelmente morria. Eu, que sempre tive pavor de morrer, de repente encantada com a perspectiva de por um fim em tudo. Foda-se, é o meu mês e eu posso morrer se quiser.

Verdade seja dita, eu achei que fosse morrer de verdade. Enquanto revirava na cama, dessa vez fisicamente doente, sentindo a febre e a dor me consumirem, eu alternava momentos de muito choro e outros em que simplesmente desejava que aquilo acabasse o mais rápido possível. O antibiótico não fez efeito, meu médico não podia me atender, e eu não tinha coragem de sair de casa para ir em qualquer outro. Era óbvio que eu ia acabar morrendo como uma camponesa da Idade Média. Quando disse isso pra minha mãe, ela respondeu que todo mundo ia morrer mesmo, mas que ninguém morre de amigdalite no século XXI. Era questão de tempo até eu melhorar e eu deveria parar de ser tão pessimista; mas ela não entendia que era impossível não ser. De repente, era o meu mês e eu estava fazendo uma porção de coisas, coisas demais para sequer aproveitar a vantagem, consumida pela depressão e pela ansiedade, até cair de cama de vez. Ficar doente foi como um pedido de ajuda do meu corpo, mas me magoava que justamente quando as coisas deveriam estar dando tão certo, elas estavam dando tão errado. O universo não deve nada, nem pra mim nem pra ninguém, mas me parecia injusto demais passar meu aniversário de cama, com um pijama velho e o cabelo sujo, sem nem conseguir ter uma refeição gostosa e especial. Eu queria ter um dia bacana, como qualquer pessoa deve querer em seu aniversário, mas a única coisa na minha frente era a morte lenta e dolorosa de uma camponesa medieval.

Foram necessárias horas e horas de conversas com minhas amigas, pequenos rituais de exorcismo que me ajudaram a manter a cabeça no lugar, superando de pouco em pouco cada um dos obstáculos que apareciam na minha frente: a amigdalite, a ansiedade, a depressão, as questões com o futuro, a falta de ânimo e de apetite, a pouca vontade de viver. Eu chorava muito em todas essas conversas, mas ao fim de cada uma delas eu me sentia incrivelmente renovada, um pouco mais forte e amada, especialmente amada. Foi assim que aprendi, do jeito mais difícil, uma lição que eu já acreditava ser muito verdadeira, mas que foi preciso muito tempo para finalmente colocar em prática: a melhor maneira de encontrar a luz nas trevas não é afastando as pessoas, mas caindo nos braços delas. A distância é enganadora porque ela nos dá essa aparente sensação de controle, como se nossos problemas se tornassem mais reais à medida que falamos em voz alta sobre eles. Mas eles estão ali e tentar lidar com tudo sozinha é terrível demais, além de enlouquecedor. Pela primeira vez em anos, talvez em décadas, eu permiti que meus problemas fossem o centro de todas as minhas conversas, permiti que as pessoas me dessem colo e palavras de conforto, e que entendessem o que estava acontecendo comigo. Era uma exposição até então inédita – ironicamente, já que eu me exponho em tempo integral por aqui – e também assustadora, porque foram anos criando barreiras e lidando sozinha com minhas questões. Mas foi assustador justamente por ser tão especial. A sensação foi como estar submersa, mas dessa vez numa enorme onda de amor e carinho, do qual eu não podia e nem queria fugir.

Quando meu aniversário chegou, eu estava incrivelmente em paz. E foi com esse sentimento de paz e profunda gratidão que eu recebi de braços abertos uma nova onda de amor e carinho, vinda dos mais diferentes lugares, de pessoas que eu sequer podia esperar. Eu recebi mensagens lindas, delicadas e carinhosas, mesmo depois da data; assisti minhas amigas fazerem festa e meus amigos escreverem coisas ridículas, mas absolutamente sensacionais sobre mim; tirei fotos ridículas e me senti bela em cada uma delas. Aproveitei cada minuto da minha ceia de Natal fora de época, feita especialmente pro meu aniversário, só porque era meu aniversário e eu queria uma ceia de Natal – um pedido que minha mãe não pensou duas vezes em atender. À noite, fui ao cinema assistir A Bela e a Fera, porque, de novo, era meu aniversário e ninguém me impediria de assistir a um dos meus filmes favoritos ganhar uma versão com gente de verdade. Cada minuto da sessão foi como um pequeno presente, e eu ri, chorei, cantei e me emocionei o tempo inteiro.

Eu não ganhei muitos presentes, mas foi como se cada parte do dia fosse um presente por si só. Diferente do que eu esperava, os vinte e quatro chegaram leves, especiais, coloridos como um arco-íris depois de uma tempestade; um adorável lembrete de como a vida pode ser bela, mesmo que nunca seja fácil. Quando soprei minhas velas – cor de rosa (!), com glitter (!) – no último dia 18, eu pedi um pouco mais de saúde, mas também que a vida se tornasse mais gentil e mais leve do que foi no ano anterior. Os vinte e três me ensinaram demais e foram, de longe, um dos melhores anos da minha vida, mas talvez seja a hora de voltar a respirar fundo e devagar – e que seja assim, então.

THE ROAD SO FAR

JANEIRO E OUTRAS AVENTURAS

Você sabe que alguma coisa está radicalmente errada quando o primeiro mês do ano – em teoria: férias, sol, curtição, azaração, etc etc – se parece muito mais com o inferno do fim de semestre do que qualquer outra coisa. Janeiro foi assim: uma correria insana, que me fez desejar estar morta em vários momentos, arrancar o cabelo em outros mais, até que ele chegou (quase) ao fim e eu finalmente pude respirar aliviada. Ufa, acabou!

A Manu disse que janeiro é seu mês menos favorito do ano, e eu me permito concordar, ao menos em partes. Não é como se eu morresse de amores por agosto, por exemplo, mas janeiro sempre é um mês meio aleatório, sem grandes emoções, e essa sensação de tela em branco implorando de joelhos para ser preenchida me deixa ligeiramente incomodada. Eu sempre fico mais lenta que o normal, demoro aproximadamente mil anos para concluir tarefas simples fora a sensação de que o mundo parou e eu não estou vivendo de verdade, mas assistindo tudo um instante mais lento do que o resto do mundo enquanto me embolo embaixo do edredom com o controle remoto na mão. Só depois do dia vinte é que eu finalmente consigo voltar a ser uma pessoa de verdade, escrever coisas que façam o mínimo de sentido e usar meu tempo para algo mais do que assistir um milhão de séries aleatórias que eu nem vou lembrar sobre o que eram na semana seguinte, risos.

O negócio é que, com as paralisações do ano passado, o semestre na faculdade foi ligeiramente prejudicado, e foi assim que, em pleno janeiro – o mês de férias, sol, curtição, azaração, etc etc – eu estava arrancando a calcinha pela cabeça, chorando na frente do computador por coisas que já deveriam ter sido resolvidas em novembro e comendo um chocolatinho para me consolar sempre que eu jurava de pé junto que não ia conseguir entregar os trabalhos dentro do prazo. Claramente, foram momentos maravilhosos. E eles foram mesmo – uma contradição totalmente proposital. Porque entre uma arrancada de calcinha pela cabeça e outra, janeiro foi um mês repleto de momentos bacanas, festinhas, risadas, passeios que pareciam cilada mas que foram maravilhosos, e uma quantidade insana de eventos que até agora eu me pergunto como foi que sobrevivi para contar essa história #dramas. Passeio pelo meu feed do Instagram e, embora nem tudo esteja registrado ali, cada foto traz uma porção de memórias maravilhosas no pacote, coisas que me fazem abrir um sorriso só de lembrar, e que valeram cada energia gasta. Vou precisar de aproximadamente o resto do ano inteiro para me recuperar de tanta socialização, mas who cares, não é mesmo? Tá no inferno, beija o capeta, etc etc.

Em janeiro, eu saí praticamente todos os fins de semana – e não fins de semana também. Fui ao cinema tantas vezes quanto foi possível (embora não tenha assistido a maior parte dos lançamentos importantes, me perdoem por ser uma fraude), comemorei o aniversário de pessoas queridas, passei minha primeira festa de ano novo fora de casa, fiz caminhada, parei de fazer caminhada, voltei a fazer caminhada, voltei das férias do Valkirias – e meu Deus, como é bom estar de volta! -, brinquei com JG até não aguentar mais, vi meu primo que mora comigo completar 15 anos – e me senti velha o tempo inteiro, mas que lindo é ver meu bebê se tornar um homenzinho, risos -, comi uma porção de coisas maravilhosas, rolei com meus cachorros (e com o cachorro dos outros!) até cansar, gravei um curta que tenho certeza que jamais mostrarei pra alguém nessa vida, tamanho o pavor, mas que foi uma experiência divertida demais e que me lembrou porque eu gosto tanto de estar num set de gravação.

Também comecei a assistir algumas séries – e essas eu lembro exatamente sobre o que eram: Riverdale, Emerald City, Z: The Beginning of Everything, Land Girls e The O.C, que eu ainda não tenho uma opinião muito formada. De todas, no entanto, a história mais preciosa que acompanhei nesse meio tempo foi a de Call The Midwife, uma série sobre parteiras na Inglaterra pós-guerra que sempre me ensina lições importantíssimas sobre a vida, o universo e tudo mais. Eu poderia ficar horas falando sobre ela e pretendo fazer isso em algum momento – aqui e no Valkirias -, mas por enquanto só queria dizer: assistam Call The Midwife, assistam Call The Midwife, assistam Call The Midwife. E me agradeçam depois, risos.

2016 não foi o meu melhor ano de leituras e, por isso, decidi que 2017 seria muito mais produtivo nesse sentido. Assim, baixei uma porção de livros (pois #pobre), comprei alguns que fazia muita questão, e comecei a participar do Desafio Luxuoso criado pela Analu e pela Creiça Karina (uma pessoa que nem conheço e já considero pacas). Eu nunca participei de um desafio literário antes, mas espero de verdade que dê certo. Minha lista inclui títulos como Drácula, O Apanhador no Campo de Centeio e Trainspotting, então aguardem cenas dos próximos capítulos. Esse ano promete (e caso vocês estejam interessados em participar, é só ir lá no canal da Analu que tem a lista com todas as categorias direitinho).

Não sei se vocês se vocês acreditam nesse tipo de coisa, mas no horóscopo chinês, 2017 é o ano do Galo, e sendo eu mesma desse signo, me permito acreditar que esse será um ano incrível. Dizem que o signo do Galo caracteriza pessoas com coragem, honestidade e ambição, e que esse ano, portanto, será cheio de energia, novas ideias e oportunidades. O que será que vem por aí? A gente precisa esperar pra ver – e abrir aos poucos, uma a uma, as portas desse corredor enorme que nos enfiamos. Mais festas? Séries infinitas? Risadas maravilhosas? Calcinhas arrancadas pela cabeça (risos)? São questões. Enquanto isso, aproveito o resto das minhas férias, com as pernas pro ar no meu quarto, porque infelizmente não teremos piscina nem praia nesse verão. Uma pena, mas tem outros troféu.

THE ROAD SO FAR

PÁGINA 26 DE 365

O primeiro post do ano é sempre um troço meio complicado de fazer. Gosto de pensar nele como a primeira página de um caderno que acabei de comprar e que, como todos os meus cadernos recém-comprados, me deixam morrendo de pena de começar a usar sem nenhum motivo aparente além do meu medo inevitável de traçar uma linha do qual posso me arrepender amargamente depois. Não é como se eu não pudesse arrancar a página e começar de novo ou usar um lápis e apagar tudo se me der vontade, mas vocês ficariam surpresos (ou talvez, nem tão surpresos assim) com a minha capacidade de guardar um caderno novinho me contentando com pedaços de papéis velhos enquanto guardo meus queridos, especiais cadernos, em uma gaveta qualquer. Em outubro ou novembro – talvez um pouco antes disso, talvez um pouco depois – comprei um caderno gracinha que pretendia usar no dia-a-dia, andar com ele dentro da bolsa e anotar minhas ideias malucas que surgem de última hora.

Não confirmo nem nego que até hoje não usei o bendito caderno, risos.

Enquanto isso, minhas anotações em casa são feitas num caderno que continua sua existência cercado de muita dor e sofrimento, e que implora de joelhos para ser aposentado, e na rua a gente entrega nas mãos de Deus, anota no celular e torce pra lembrar daquela anotação que, ao que tudo indica, vai ficar pra sempre perdida no bloco de notas até o dia que não servir pra mais nada que é exatamente quando você (no caso, eu) vai lembrar da existência dela de novo. Pois é.

A ideia de não querer traçar uma linha errada do qual vou me arrepender depois é mais ou menos o que sempre me faz postergar tanto o primeiro post do ano no blog. Como se já não bastasse ele estar respirando com a ajuda de aparelhos (por todos os motivos que vocês já devem estar carecas de saber), eu não quero começar com o pé esquerdo, não quero começar com um texto equivocado que daqui alguns dias vai me fazer voltar neste maravilhoso recinto internético, amargamente arrependida por ter voltado e ainda voltado de um jeito tão vergonhoso. Há muito tempo eu já não me sinto culpada por não escrever aqui com a constância de sempre – porque não tenho mais idade, porque tenho outras prioridades, porque a vida acontece e tudo bem -, mas passar um mês inteirinho sem dar qualquer sinal de vida é uma coisa que ainda me incomoda em algum nível: não ao ponto de me fazer decidir postar qualquer coisa só pra dizer que eu postei, porque qualquer coisa é melhor do que nada (não pra mim) ou me questionar se manter um blog ainda é viável. Mas eu me chateio por não conseguir mais escrever sobre a vida, o universo e tudo mais, com a mesma facilidade que escrevia uns dois anos atrás, por não conseguir sentar na cadeira e escrever uma coisinha despretensiosa sobre o que aconteceu na última temporada dessa minha vidinha ridícula e seguir em frente depois, como acontece todos anos, a vida inteira.

Passeio pelas páginas antigas desse enorme caderno sobre a minha vida e me pergunto se algum dia vou conseguir escrever com a mesma facilidade sobre a minha vida. Não é questão de continuar tentando embarcar num barco que já partiu faz tempo, escrever numa página que já foi virada. Mas eu realmente gostaria de chegar aqui e poder contar uns casinhos bestas sobre a vida, como eu conto com facilidade para minhas amigas (ou pra minha psicóloga, risos). Coisas absolutamente banais mas que se encaixam de forma perfeita até se transformarem nesse grande, enorme, complexo quebra-cabeças que é a vida. Se o blog nasceu para ser um lugar onde eu pudesse registrar minhas memórias – para os outros, é claro, mas principalmente pra mim -, então nada mais justo do que eu começar a escrever sem medo de parecer ridícula, sem a cobrança por ser boa, muito boa, não-posso-postar-nada-com-menos-de-oitocentas-palavras ou qualquer coisa assim. Afinal, não é como se qualquer linha errada não pudesse ser apagada e qualquer texto meio ruim não pudesse ser imediatamente enfiado na lixeira.

Num mundo ideal, meus anos começariam sempre na praia, com os pés na areia e o corpo flutuando na imensidão azul do mar, as mãos enrugadas de todas as horas gastas na água e o cabelo embaraçado pela maresia, e seria isso que eu contaria nas primeiras páginas que marcam o início de mais um ciclo na minha vida, minhas aventuras de verão, os amores, as dores, todas as tardes olhando o céu azul se tornar um grande breu iluminado por pequenos pontos de luz. Entretanto, se perfeição não existe nessa vida – e, possivelmente, em nenhuma outra -, não existe motivo para continuar me cobrando por começos que nunca saem exatamente como o planejado. Nunca comecei o ano na praia, meu namoro começou do jeito mais tosco possível, minhas amizades sempre começam de um jeito meio esquisito e minha vida começou em uma quinta-feira, às 9h da manhã, o dia que menos gosto da semana inteira – contrariando o horóscopo, que não para de me dizer que quinta-feira é o melhor dia da semana para os piscianos. E a graça dos começos está exatamente aí: na incapacidade de controlá-los, de saber quando eles vêm, e então aceitar cada um deles, escrever sobre em uma página em branco, e então seguir em frente, como acontece todos os anos, a vida inteira.

Quando comecei a escrever esse texto, minha ideia era falar sobre o que (não) aconteceu nos últimos dias e não refletir sobre minha incapacidade de lidar com o fato de que minha vida nunca parece tão legal e que eu já não consigo escrever com a mesma facilidade sobre coisas banais, transformando-as num texto que daqui alguns anos ainda vão me dar um orgulho meio besta, mas bastante sincero. Mas vejam só vocês: coisas têm acontecido na minha vida nos últimos dias e por mais bobas que elas sejam, são todas elas que constroem o início de mais um ciclo na minha vida – um ciclo que não começa na praia, mas que tem várias tardes ao redor da mesa comendo bolo e tomando café, festinhas de família, muitas séries, abraços, beijos, e a alegria que é estar ao lado do meu afilhado todas as tardes, da hora do almoço até o jantar. É sobre essas coisas, tão banais que ficam perdidas na minha cabeça, que eu quero escrever, mesmo que seja para me arrepender depois porque a verdade é que eu jamais vou ser capaz de escrever algo que traduza fielmente todos os sentimentos que fazem meu coração bater com força enquanto vivo cada uma dessas coisas. Quem sabe, daqui uns anos, ao invés de me julgar por escrever coisas horríveis em tempo integral, eu seja capaz de olhar com mais gentileza para minhas próprias memórias? É quase como acontece com as fotografias: num primeiro momento, achamos nossa imagem pavorosa, mas basta que o tempo faça seu trabalho para que possamos encontrar certa beleza naquilo que parecia tão assustador no passado. Que 2017 seja assim então: um eterno encontrar belezas em coisas que sempre julgamos tão banais.