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WALK OF SHAME

WALK OF SHAME

A problemática do John Mayer

Vamos supor que eu odeie o John Mayer.

Eu sei que a regra aqui é espalhar o amor, meu lema é amar sempre, odiar jamais, all we need is love, etc. Eu continuo acreditando nessas coisas, mas vamos supor rapidão que eu não seja uma pessoa assim tão legal. E que eu odeie o John Mayer. É, acho que dá pra dizer que eu odeio o John Mayer.

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querido, seje menas

Pra ser bem sincera, eu nem sabia quem era o John Mayer até ver o John Mayer em cima de um palco (que no caso foi o palco principal do RiR, em 2013). O nome não era de todo estranho, mas eu não sabia que o John Mayer era uma thing, muito menos que as pessoas sofriam por causa dele. Minhas amigas se jogaram no chão da faculdade, chorando lágrimas de sangue pelo ingresso não alcançado quando ele veio tocar no Brasil, em 2013, enquanto eu observava tudo de longe e pensava na peculiaridade daquela cena: minhas jovens amigas sofrendo por um homem tão velho (o tipo de pessoa que julga a idade dos outros pelo nome: euzinha). Nada contra chorar, muito menos por homem velho, inclusive sofro desse mal (e o Harrison Ford que o diga) e sou dessas que recomenda ocasionais doses de sofrência platônica e tudo, mas é sempre curioso observar de fora o momento fangirl alheio. Deveria eu estar chorando um rio pelo Jon Bon Jovi? Deveria eu estar me arrastando no chão do Centro Acadêmico, rolando em restos de cerveja e com pedaços de sofá grudados no cabelo, pelo Jared Leto? Eram questões.

Acabei assistindo o show do sofá de casa, junto com minha mãe e meu padrasto – que esperava ansioso o show do Bruce Springsteen (esse sim, um rosto conhecido) -, mais por falta do que fazer do que qualquer outra coisa. Se não me engano, foi o John quem abriu o show do Bruce, e passada a surpresa – nossa, mas cadê o cabelo branco? nossa, e qual é a dessa braço tatuado? nossa, mas ele é bem alto, né? risos eternos – e alheia a maiores informações, me permiti curtir o show, não com a pretensão de virar fã, rolar no chão do CA e querer ter um filho na Cidade do Rock (meu deus, odeio esse nome), mas como quem quer curtir, e apenas curtir, de forma descompromissada, uma música que, venhamos e convenhamos, não é de todo ruim.

Apesar do show ter sido bastante esquecível (sei que vocês vão querer me matar) (mas, por favor, não façam isso), prometi pra mim mesma que daria uma chance pro cara e baixaria pelo menos as músicas mais famosas, meio um jeitinho pra me redimir e tal – e obviamente acabei esquecendo de tudo no dia seguinte porque minha memória é ruim nesse nível mesmo.

Ou seja, eu teria esquecido da existência de um ser chamado John Mayer na primeira oportunidade, sendo lembrada apenas pelas ocasionais crises de sofrência platônica das minhas amigas, não fosse esse homem fazendo uma cagada atrás da outra por aí.

Tá, uma cagada atrás da outra pode ser um pouco de exagero, um artifício dramático da fã que até hoje não superou a tristeza de ver não uma, mas duas de suas cantoras favoritas sofrerem nas mãos do mesmo macho – uma história que, aliás, rende muito pano pra manga até hoje. Me digam que a rixa das duas teve bem menos a ver com John e muito mais com uma história mal contada sobre dançarinos e turnês sendo boicotadas, e eu direi que vocês não me enganam. Pode até ser que a treta seja real, mas olha só a minha cara de quem vai acreditar nesse papo de que, um belo dia, sem mais nem menos, Kátia querida se sentiu ameaçada e decidiu que seria uma boa caçar confusão com Taylorine, nossa melhor amiga famosa, sendo a presença do John nesse meio apenas uma presença, nada mais que uma presença, que nada teve a ver com essa história at all.

Desculpa, mas não faz o menor sentido.

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Não satisfeito, John também é um excelente praticante da arte de perder boas oportunidades de ficar calado, o que mais ou menos significa que, vira e mexe, ele vê seu nome metido numa polêmica porque, mais uma vez, disse algo que não devia. Longe de mim querer cagar regra em cima da vida dos outros e obrigar todo mundo a pensar do mesmo jeito que eu, mas existe uma diferença gritante entre expor a própria opinião e usar liberdade de expressão como desculpa pra ser racista e falar mal da ex. Se um homem compara a ex-namorada ao seu próprio membro sexual e diz que na última noite viu 300 fotos de vaginas antes de dormir, a gente sabe que só pode ter algo de muito errado acontecendo com esse homem. Sério, será que ele não tem nada melhor pra fazer da vida do que ficar caçando foto de ppk?

O negócio é que John nos manda informações tão contraditórias que, ao mesmo tempo que declaro meu ódio sem ressalvas, não consigo ficar imune ao seu jeitão de homem do mato (?). Quer dizer, ele é an expert at sorry and keeping lines blurry, o cara que paint a blue sky and go back and turn it to rain, mas não tem uma vez que eu ouça Half Of My Heart e não sinta meu coração derreter junto. Claro, isso tem bem menos a ver com o fato dele fazer meu tipo (não faz, inclusive alguém mais acha que ele parece uma versão do Johnny Depp mal formatada?) e muito mais com sua voz doce e seu braço cheio de tatuagens (e talvez uma pitada de Nora Roberts na vida), mas acho que já é o suficiente pra pedir ajuda e um pouquinho de juízo na cabeça, se não for pedir demais.

I should’ve known.

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Não passará.

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Pagando mico adoidado

Ou: Imagina no Oscar.

Recentemente descobri que uma das coisas que mais gosto na vida é contar histórias. Parece besta falar isso quando eu tenho um blog onde, basicamente, conto os causos da minha novela mexicana particular. Mas não é disso que eu tô falando. Falo de histórias que em algum momento surgiram na cabeça de alguém (ou de uma porção de alguéns), e que por algum motivo me fazem acreditar que precisam ser contadas. Que por mais loucas e improváveis que pareçam, precisam tomar forma e ganhar vida, custe o que custar. Foi mais ou menos isso que aconteceu com Tombé, um filme curta-metragem que nasceu como um trabalho de Oficina Básica de Audiovisual, e tinha tudo pra ser só isso mesmo, mas no final acabou indo bem mais além e se tornou uma espécie de filho pra todo mundo (ou quase) que se envolveu no projeto.

É claro que eu amar esse filme e me orgulhar pacas não significa, necessariamente, que ele seja bom. Porque né, vamos combinar, a gente até tenta, mas sempre rola aquela cota básica de limitações, que impedem a gente de fazer a coisa acontecer exatamente como a gente sonha. Ao contrário de ~certos filmes~ que tiveram um pa(i)trocínio pesado, vários efeitos especiais, superprodução, ui ui ui, o nosso foi uma parada bem mais instintiva, vamos ver o que dá certo, vamos rezar pra essa merda dar certo, meu deus alguém sabe como travar esse tripé? Éramos jovens universitárias sem nenhuma experiência, quase sem dinheiro, sofrendo assédio adoidado enquanto a gente fazia um filme sobre isso, vejam só que coisa, mas com muita muita vontade de fazer a coisa toda sair do papel e dar certo. Então sei lá? Ele não é impecável, nem de longe uma superprodução, mas isso não quer dizer também que ele seja ruim. Ou talvez até seja, vida que segue, mas me deixem ser feliz aqui no meu canto e amar esse troço em paz. Todo mundo ama um filme ruim. Talvez um dia ele passe na Sessão da Tarde.

A questão é que, bom ou não, a gente acreditou tanto em Tombé que não bastasse exibir nosso pequeno filho para o professor e nossos coleguinhas, nós achamos que seria uma ótima ideia jogar ele na roda e participar do Fecuca, festival que rola todo semestre na UnB e premia os curtas feitos pelos calouros lindos, esses bebês chorões insuportáveis que todos fomos no passado. A gente não esperava ganhar, mas tudo bem, porque a folia seria boa e a gente não tinha nada melhor pra fazer mesmo.

E o que aconteceu foi o seguinte: De um grupo de cinco pessoas, só eu e a Mari abraçamos a cilada e fomos no evento. É claro que a Mari levou o namorado. É claro que eu levei minha melhor amiga, que levou o namorado de brinde, e é claro que Guilherme estava comigo em espírito (transmissão por WhatsApp, teve de monte). Porque a gente faz merda, mas não faz sozinha, tem que arrastas os migos juntos. Mas do grupo mesmo, era eu e ela, ela e eu. Então, numa quarta-feira qualquer de abril, lá estávamos nós esperando na fila a nossa vez de entrar no anfiteatro enorme, pensando se conseguiríamos um lugar bom ou se seríamos obrigadas a sentar naquele lugar constrangedor reservado para os ~concorrentes~, inventando discursos que jamais seriam ditos se tivéssemos um microfone de verdade na nossa frente – o que realmente não teríamos, porque a gente não ia ganhar nada, claro.

Risos. Risos eternos.

E aí o festival começou. As luzes se apagam, o palco de repente fica super iluminado, apresentadores chatos fingem ser engraçados e falam merda enquanto as pessoas fingem achar graça, meio em solidariedade, meio odiando aquelas pessoas horríveis. Começam os filmes, uma coisa meio aleatória assim, mais piadas sem graça que todo mundo finge achar hilárias. Ou não. Mais filmes, mais piadas, caroços de pipoca ameaçam quebrar os dentes de alguém. Namorado da Mari faz um comentário realmente engraçado que todo mundo escuta e todo o anfiteatro começa a rir. Tudo normal e maravilhoso como tinha que ser. Então começa a premiação. Direção de Arte. E aí num momento eu estou esperando anunciarem um nome e no instante seguinte dou um pulo porque, meu deus, será que ele disse o nome do nosso filme mesmo?

Tinha dito.

Era muito óbvio que a gente devia levantar, buscar o prêmio, dizer umas duas palavras e sair do palco, mas fazer era tão mais difícil. Eu tinha fantasiado mil vezes aquilo, tinha imaginado uma ou duas coisinhas que eu podia dizer pra agradecer e depois ir embora, mas foi só chamarem nosso nome que eu esqueci até quem eu era, quanto mais o que eu devia fazer. Até que eu tive um estalo, e ainda sem saber direito o que eu estava fazendo eu levantei, peguei a mão da Mariana, e fui descendo até o palco sem olhar pra trás, rumo ao que agora chamo carinhosamente de suicídio social.

Pensei que eu fosse a única a achar aquela situação terrível demais pra ser encarada, mas então estávamos eu e a Mari no palco, e eu peguei o prêmio e empurrei ela pra falar algumas coisas, e aí eu descobri que eu não estava sozinha e que ela também estava odiando demais estar ali, na frente daquele monte de gente, então ficamos as duas mudas, totalmente sem reação, olhando aquelas pessoas que esperavam que a gente dissesse uma ou duas palavras quando a gente nem sabia mais qual era nosso nome. Momentos. Um dos apresentadores chatos resolveu dar um empurrãozinho e perguntou se a gente não queria agradecer, ou qualquer coisa assim, e de forma automática a Mari agradeceu todo mundo. Assim mesmo. E aí de repente as pessoas estavam achando nossa performance engraçadinha, e eu achei que seria legal agradecer aquele povo que participou da nossa festa fake, porque eu tinha ouvido uma menina comentar na plateia que nossa festa tinha sido feita numa boate x de Brasília quando eu sabia que na verdade a gente tinha feito cada parte daquela festa no salão de festas do prédio da Mari e tinha sido um sufoco danado pra uma creiça vir falar que a gente tinha conseguido tudo de bandeja. Então quando o outro apresentador perguntou se era só isso, eu resolvi agradecer as pessoas que participaram da festa fake. AS. PESSOAS. QUE. PARTICIPARAM. DA. FESTA. FAKE. Desculpa, mãe. As pessoas riram, uma ou duas que participaram se manifestaram, e eu respondi com um tchauzinho que me pareceu apropriado, mais pessoas riem, batem palmas, e a gente aproveita a deixa pra sair correndo.

I know places we can hide.

Então, tão rápido quanto começou, acabou. Nós ganhamos um prêmio, pagamos um mico fenomenal, demos uma choradinha de vergonha, rimos horrores, nos revoltamos com alguns resultados, ficamos em terceiro lugar na escolha do público e terminamos a noite no Burger King, o que foi até bastante agradável depois de um mico horrível. Ao nosso favor, só posso dizer que estávamos realmente sem nenhuma esperança de ganhar, mas da próxima vez, por favor, me lembrem de levar um discursinho assim, só por via das dúvidas porque né, nunca se sabe.

E um saco pra colocar na cabeça no dia seguinte também é sempre uma boa pedida.

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