I WANNA BE A ROCKSTAR

‘CAUSE WE ALL JUST WANNA BE BIG ROCKSTARS

I’m gonna trade this life for fortune and fame
I’d even cut my hair and change my name

Todo mundo tem uma história para contar sobre quando era criança e sonhava em ser médico, dentista, astronauta, ator, veterinário, jogador de futebol, insira-aqui-uma-profissão-massa-que-você-tenha-sonhado-em-ter-quando-era-criança. Ao contrário da maioria dos meus coleguinhas na época e contrariando as expectativas de todos ao meu redor, inclusive dos meus pais, que sonhavam em ter uma filha médica (especialmente meu pai), eu decidi que queria ser rockstar. Tudo que um pai e uma mãe podem querer para sua filhinha, até então, única.

Claro que não foi uma ideia que simplesmente surgiu na minha cabeça e grudou para todo o sempre, sendo mais como uma brincadeira de criança que foi, aos poucos, evoluindo para algo mais. Eu devia ter mais ou menos uns seis anos e, junto com meu primo Caio, que tem praticamente a mesma idade que eu, comecei a fazer pequenos shows para nossa família no intervalo do Jornal Nacional. Show é o jeito legal de dizer que a gente pegava uns instrumentos de plástico e fingíamos cantar e tocar Raimundos, que era o que a gente gostava de ouvir naquela época (e vocês aí se preocupando com as mensagens subliminares da Peppa Pig). Ninguém levava aquilo a sério além de nós dois, é claro, mas a gente se divertia um bocado e no fundo, acreditávamos de verdade que estávamos fazendo um ótimo trabalho com nossas guitarras de plástico. Não lembro muito bem de todos os detalhes, afinal fazem quase 20 anos que tudo isso aconteceu, mas nessa época eu já era bastante eu para sonhar alto demais (sol em peixes, vocês sabem do que estou falando), de modo que não demorou muito para que eu substituísse os instrumentos de plástico por instrumentos de verdade e começasse a tomar aulas de teclado e violão. Nunca fui muito boa em nenhuma das duas coisas – uma frustração que, assim como a carreira na medicina, eu provavelmente vou carregar pelo resto da vida -, mas eu me divertia bastante pelo menos tentando aprender.

Foi a adolescência, no entanto, a responsável por me fazer enxergar a música não só como um trabalho divertido, que eu almejava com todas as forças (faça aquilo que ama e não terá que trabalhar por um só dia de sua vida, etc etc), mas também como uma forma de expressar e traduzir meus próprios sentimentos. Minha adolescência não foi um período muito fácil, mas também não foi tão mais difícil do que a média. Eu tinha problemas em casa devido à depressão e paranóia da minha tia, e fora de casa era uma pessoa estranha e tímida demais, que não gostava das mesmas coisas que todo mundo, que usava roupas esquisitas e lia Harry Potter no recreio, e os meninos de quem eu gostava nunca queriam saber de mim. É verdade que eu não me importava muito com nenhuma dessas coisas, mas eu estaria mentindo se não dissesse para vocês que alguns dias eram pior que outros, e que eu já chorei um bocado na frente do espelho por ser tão inadequada.

Nesse aspecto, a música me fez descobrir que eu não estava sozinha e que ser diferente não era algo necessariamente ruim. Meus artistas favoritos também eram pessoas deslocadas, que gostavam de coisas estranhas que ninguém mais se interessava e que não se encaixavam em lugar algum. Era incrível como eles sempre tinham uma ou mais histórias para contar sobre suas adolescências pouco convencionais e conhecer um pouco mais dessas vivências me fazia ter esperanças de que, um dia, seria eu a sentar junto com essas pessoas e dividir minhas histórias de vida.

Lembro de um trabalho de inglês, na sexta série, que consistia em montar pequenas bandas ou grupos, e fazer uma apresentação ao vivo ou gravar um videoclipe, e mostrar no dia da aula. Não era preciso saber tocar nem cantar de verdade, era só fingir. A professora, que era uma jovem recém-formada na época, tentou, com isso, fazer com que seus alunos se interessassem mais pela língua que ela tentava ensinar, mas eu, que nunca precisei de incentivo para ser ridícula, levei o trabalho super a sério. Eu não toquei nem cantei de verdade, mas consegui instrumentos autênticos para usar na nossa apresentação (menos a bateria, porque é praticamente impossível convencer alguém a te emprestar uma bateria quando você tem 12 anos) e fingi ser a Avril Lavigne, minha cantora favorita na época. Foi um momento mágico. Era a primeira vez que eu subia em um palco de verdade e a primeira vez que eu pude mostrar um pouco do que eu já fazia sozinha no meu quarto, e foi incrível ver como a minha imagem mudou um pouco a partir dali. Se antes eu era apenas a menina esquisita, mas inofensiva, que lia Harry Potter no recreio, no outro eu era a menina que tinha deixado todo mundo de boca aberta com minha apresentação. Ganhei nota máxima da professora, que adorou minha apresentação e admirou toda a minha dedicação, mas eu fiquei feliz mesmo quando o menino mais bonito da sala veio me dizer que minha apresentação tinha sido muito, muito legal. Com a cabeça que tenho hoje, eu não teria dado tanta importância para o elogio e já estaria tentando encontrar milhões de problemas na história, mas naquela época, aos 12 anos, eu era ingênua o suficiente para me permitir ficar genuinamente feliz com uma coisa dessas.

No ano seguinte, eu e algumas amigas do colégio decidimos montar uma banda. A banda, na verdade, não era nada mais do que cinco ou seis garotas que não sabiam tocar nem cantar quase nada tentando fazer um som, mas a gente se divertiu bastante sonhando com o dia seríamos verdadeiramente boas – um dia que nunca chegou. Mesmo assim, sempre lembro dessa fase com bastante carinho. Era a primeira vez que eu podia dizer que tinha uma banda e sonhar com o dia que faríamos shows de verdade, nem que fosse no intervalo da escola (naquela época, meu colégio incentivava que bandas de alunos tocassem em alguns recreios). Foi uma época de mudanças muito intensas na minha vida, algumas boas, mas outras nem tanto, e a vontade de fazer nossa banda dar certo foi o que me segurou firme quase o tempo inteiro. Nessa época eu também comecei a escrever com mais frequência. Eu escrevia músicas, fanfics e, depois de algum tempo, comecei a escrever sobre a minha vida num caderninho. Óbvio que era tudo bem ruim, afinal eu tinha apenas 13 anos, mas sempre gosto de pensar que o gosto pela escrita sempre esteve comigo e que, ao longo do tempo, ele só foi sofrendo modificações. Hoje, por exemplo, já não escrevo mais músicas e troquei o caderno pelo computador, onde continuo escrevendo sobre a minha vida, da mesma forma que escrevo sobre cultura pop no Valkirias, e que também escrevo ficção, principalmente roteiros, mas acho que isso só aconteceu porque, lá atrás, eu já gostava muito de escrever.

Mas como eu ia dizendo, a banda me fez descobrir muito sobre mim mesma.

Depois que ela terminou, eu não desisti de tentar montar uma nova. Em tese, parecia mais fácil, porque eu me sentia mais experiente – mesmo sem ter nenhuma experiência de verdade -, mas principalmente porque eu conhecia pessoas que já estavam nessa há mais tempo e podiam me dar algum tipo de ajuda. Comecei a conviver com pessoas que tinham gostos muito parecidos com os meus, especialmente para música, e foi muito por causa dessas pessoas que eu conheci muitas das bandas que até hoje figuram nas minhas playlists, tipo o Sum 41, que até hoje é uma das minhas bandas favoritas. Muitas dessas pessoas também tocavam algum instrumento e tinham a mesma vontade de viver de música, de modo que sempre existia alguém disposto a tentar junto comigo. Fizemos algumas tentativas de montar uma nova banda, até que eu cansei e joguei a toalha porque eu não era obrigada a lidar com três ou quatro moleques de 15 anos. Mais ou menos nessa mesma época eu comecei a namorar, perdi contato com muita gente e aceitei que não era mesmo para acontecer. Paciência, tem outros troféu.

Nada disso significa que eu tenha abandonado esse universo por completo. Mesmo depois de desistir da ideia de ter uma banda só minha, eu continuei acompanhando pequenas bandas de Brasília e de outros estados. Foi assim que eu terminei às cinco horas da manhã dividindo batata-frita com os caras do Darvin, uma história que, inclusive, já contei por aqui e até hoje vivo esbarrando com o Gustavo, vocalista da Scalene, ou com a Alexa, que foi a primeira vocalista da banda. E a música continua me influenciando em outros aspectos também. A escolha pela faculdade de cinema, por exemplo, nasceu porque eu queria, principalmente, dirigir videoclipes, fora que é na música que, até hoje, eu encontro o escape necessário para colocar meus pensamentos em ordem e minha cabeça no lugar. Eu ainda brinco de cantar no meu quarto com a escova de cabelo fazendo as vezes de microfone e juro de pé junto que vou aprender a tocar bateria (meu sonho, desde sempre) e amo quando uso alguma roupa e alguém diz que eu estou parecendo uma cantora “x” do rock ou então quando a Thay me disse, numa das nossas conversas maravilhosas, que acha que eu seria uma ótima rockstar.

Estou contando essa história porque desde que perdi a vergonha e comecei a contá-la para pessoas que convivem comigo no dia-a-dia ou na internet, tenho descoberto que muitas delas dividem sonhos muito parecidos e que possuem histórias muito similares para contar, e é muito divertido saber que eu não estou sozinha nesse barco furado, que não sou a única rockstar frustrada da minha bolhinha particular. Não é como se a gente fosse montar uma banda agora em homenagem aos velhos tempos, mas não é como se tivéssemos desistido completamente da ideia e não passássemos mais tempo do que deveríamos fantasiando sobre todos os shows que nunca fizemos.

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Vamos montar uma banda?

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4 Comments

  • Reply Thay 15 de agosto de 2016 at 4:32 PM

    VAMOS MONTAR UMA BANDA PLMDDS! ♥
    Fico muito feliz em ver (ou ler, no caso) você contando essa história. É tão parte sua que não há o menor sentido em sentir vergonha disso. Acho que todo mundo, em maior ou menor grau, já sonhou em ser um rockstar. Eu já te disse que também já pensei nisso, haha, o que prova que estou certa (q). E gosto de pensar que em um universo paralelo o Valkirias é uma banda de rock só de minas maravilhosas, ou seja, a gente e as miga tudo, e a gente ganha Grammy todo ano. SIM, somos fantásticas a esse ponto e é Taylor Swift quem quer entrar em nosso #squad, beijos de luz. ♥ ♥ ♥

  • Reply Manu 15 de agosto de 2016 at 6:57 PM

    AMIGA VAMOS MONTAR UMA BANDA?????????? SIM???? EU POSSO OUVIR UM SIM????????
    Já adianto dizendo que não sei cantar, tocar ou dançar nada, mas posso fazer um backing vocal ou arrasar numa performance fajuta de air guitar, tipo em Sexta-Feira Muito Louca. Nunca tive os seus talentos pra efetivamente ser uma rockstar (ou já sonhei de verdade em ser uma), mas volta e meia ouço músicas mágicas de pessoas que conseguiram chegar lá e não posso deixar de pensar no quão fantástico e divertido seria dar uma performance dessa de rockstar na frente do mundo. Me consolo fazendo covers malucos na frente do espelho, que é o que tem pra hoje. Mesmo sem ter sonhado em ser Avril Lavigne (sua professora, aliás, maravilhosa), me identifiquei tanto com esse texto, pensando em todos os sonhos loucos que eu cultivei na adolescência e que não consegui fazer acontecer (ainda???????? HAHAHAHA). Sei que mesmo que eu não publique um fenômeno literário adolescente, essas coisas que me entreteram por tanto tempo sempre vão ficar comigo, porque são uma parte muito grande da pessoa que eu sou.
    E não tem nada melhor do que a gente encontrar outras pessoas que dividem esse sentimento pra reviver nossos planos doidos e encorajar uma a outra HAHAHAHAH <33 aliás, eu também acho que você seria uma ótima rockstar <33

  • Reply Wanila 16 de agosto de 2016 at 12:21 AM

    Vamos, vamos montar uma banda! A cada post seu que leio, me identifico mais com você. Por coincidência, o meu maior sonho de infância (além da medicina) era ser uma rock star. Lembro que quando ia fazer 13 anos, pedi pro meu pai uma guitarra de aniversário (nunca ganhei) falando que tinha decidido: ia montar uma banda e viver disso. Bom, eu ganhei um violão quando fiz 15 anos e fiz algumas aulas, mas nunca aprendi direito. Também cantei por um tempo numa banda do grupo de jovens da igreja, o que me rendeu um luau na faculdade da cidade, a única experiência como rock star que eu realmente tive. E quer saber? Amo colocar músicas pra tocar no spotify e acompanhar, e ainda sonho em tocar violão e bateria. Por ironia do destino, namoro um cantor.

  • Reply Debora Pizolito 16 de agosto de 2016 at 1:01 AM

    Que coisa mais especial! <3 Pude me ver em alguns momentos dessa tua história – que acredito significar muito para você – e o que eu posso dizer mesmo mesmo é que tu não ta sozinha. Acredito que todos temos os bad days com 12 ou 13 anos e o que nos mantem firmes são os nossos sonhos. Quando a gente cresce, muitos sonhos nós desistimos de sonhar, ou então, apenas encontramos outros mais possíveis. Fato é, que coisas que nos transformam e nos ajudam a sermos melhores estarão sempre dentro da gente; assim é você com a música (devo dizer que achei uma relação muito bonita, ainda mais quando entrou o cursar cinema para dirigir clipes, af <3). Então vamos, vamos montar uma banda e ser quem a gente sempre quis ser!
    Um beijo!

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