COM AMOR

COM FÉ EU VOU

“Acho que às vezes a gente se ilude”. Quem disse isso foi o Galvão Bueno (!), durante o último jogo Brasil x Argentina, ao se dar conta de que o problema do meio de campo brasileiro era falta de talento mesmo. Não entendo de futebol o suficiente para opinar, mas numa sexta-feira 13 que veio tão pesada antes mesmo da Argentina fazer gol, fiquei pensando que a frase até que fez bastante sentido.

Não sou supersticiosa e não achei, por exemplo, que o fato dos meus professores terem achado de bom tom marcar uma aula pra noite de sexta tivesse algo a ver com o número 13, muito menos que o meu mau humor tivesse a ver com a data. Aliás, quando acordei ontem eu já sabia que teria aula e por pior que fosse a ideia de sair de casa e me obrigar a ir pra uma universidade quase deserta e passar pelo menos duas horas fingindo fazer alguma coisa, meu único pensamento era que depois daquele dia horroroso eu ia chegar em casa, colocar meu pijama, deitar na cama e ouvir o álbum novo do One Direction que, vejam só, foi lançado ontem também, e no máximo bater um papo com minhas amigas, comemorar que a semana tinha chegado ao fim e que nós finalmente íamos ter um descanso bem merecido.

Só que o que aconteceu (e a essa altura vocês já devem ter pelo menos uma ideia do que aconteceu) foi que eu cheguei em casa e não quis fazer nada disso, porque o mundo de repente tinha começado a acabar. Eu não conseguia sequer pensar em vestir um pijama sem lembrar do Rio Doce, de Mariana e Baixo Guandu, da situação daquelas pessoas e dos animais que morreram junto com o rio; não podia ouvir música e me divertir com isso sabendo do terremoto no Japão e dos ataques em Bagdá; e não podia deitar a cabeça no travesseiro e ter uma noite de sono tranquila sem pensar em todas as pessoas que morreram em Paris ou na chacina em Fortaleza.

Dizem que piscianos têm esse complexo de super-herói e depois ficam frustrados porque, infelizmente, o mundo é muito mais problemático do que acredita nossa vã filosofia. Eu acredito nisso, bastante até, mas não acho que seja uma exclusividade nossa, e num dia que terminou tão errado, acho que difícil mesmo é olhar pra tudo e não se sentir nem um pouco frustrado – com a vida, com o mundo, com as pessoas, com o universo inteiro. Depois de me ver perder o sono, o apetite e a vontade de fazer qualquer coisa, minha mãe sugeriu que talvez fosse melhor evitar a tv e a internet nos próximos dias, uma forma de me poupar das tantas notícias ruins e não deixar que eu desabasse mais um pouquinho. Ela disse que eu era uma pessoa muito sensível, de um jeito doce bem típico de mãe, e eu sei que a intenção era a melhor do mundo, mas não pude deixar de pensar que era um alívio enorme que eu me sentisse dessa forma.

Já disse em outro momento que um dos meus maiores medos era me tornar uma pessoa endurecida, porque o mundo é um lugar hostil e é natural que a gente tente se preservar de alguma forma, fechar os olhos pro que acontece e seguir com a vida. No entanto, a cada ano que passa acho que fico mais sensível em relação aos meus problemas, claro, e dos meus amigos e pessoas mais próximas, mas aos do mundo também. Problemas de gente que não conheço, de lugares que nunca pisei, e que mesmo assim importam e importam demais. São pessoas, como eu e você, e graças a Deus que eu não preciso conhecer nenhuma delas pra me importar com o sofrimento alheio.

Sei lá o que eu quero com esse texto, sei lá se ele faz sentido na cabeça de alguém, mas acho que todo mundo pode se importar sim, e tudo bem. A gente sente medo, a gente sofre, a gente chora e perde um pouco a fé no mundo, mas a gente se importa, e não tem nada de errado ou fraco nisso. Muito pelo contrário, é corajoso pra cacete deixar o coração aberto assim. É frustrante saber que o mundo é um lugar tão, tão errado, mas ainda que o pessimismo tente me fazer enxergar o contrário, eu continuo acreditando muito nele, na vida, nas pessoas, e no universo inteiro também (e juro, fica um pouquinho melhor quando a gente pensa que, apesar de ser uma merda a gente não poder fazer muita coisa efetivamente, tem muita gente boa por aí fazendo esse papel).

Talvez a gente se iluda mesmo, mas não vejo como seguir em frente se a gente achar que tudo já está perdido. Então sigo em frente, ainda triste, ainda morrendo de medo – do mundo, das pessoas e, principalmente, do futuro – mas com fé de que dias melhores virão. Não é fácil, não vai acontecer de uma hora pra outra, mas uma hora a gente chega lá. Vamos rezar, vamos enviar boas energias, e não perder a fé jamais.

“Darkness cannot drive out darkness; only light can do that. Hate cannot drive out hate; only love can do that.”

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7 Comments

  • Reply Maria 15 de novembro de 2015 at 3:11 AM

    Esse final de semana foi terrível mesmo. Faz a gente se questionar como tudo isso acontece, como pode haver tanta gente ruim, tanto descaso, tanta gente tratando outra gente como se não fossem todos seres humanos…

    Não sei se compreendo muito bem teu texto porque também sou pisciana, ou se é porque ele realmente faz sentido. Vamos esperar alguém que não seja desse signo falar alguma coisa, haha.

    Beijinhos. ;*

  • Reply Thay 15 de novembro de 2015 at 4:27 PM

    “No entanto, a cada ano que passa acho que fico mais sensível em relação aos meus problemas, claro, e dos meus amigos e pessoas mais próximas, mas aos do mundo também. Problemas de gente que não conheço, de lugares que nunca pisei, e que mesmo assim importam e importam demais.” <3

    Sou tão assim, Ana! Sexta meu estômago estava ficando embrulhado, simplesmente tive que parar de ler as notícias porque estava ficando com o coração estraçalhado diante tanta tristeza. Foi uma semana tão pesada, tão cheia de medo que o fechamento com a sexta me deixou exausta. Às vezes queria ser uma heroína de capa e espada pra poder deixar o mundo em paz, mas sei que isso é sonho de criança. Enquanto isso fico ruminando nos motivos, tentando entender como uma pessoa tem coragem de tirar a vida de outra, como uma barragem rompe matando um rio inteiro e a mídia trata como mero acidente. Nada disso foi acidente, foi uma tragédia e em nome do quê eu não sei. Me frustra ser tão pequena frente a isso tudo, de verdade.

    Seu texto me aqueceu o coração, sabe? Vejo que ainda tem gente que se importa, gente que pensa parecido comigo, gente que sente independente de conhecer. Falta amor no mundo, falta empatia.

  • Reply ingrid 16 de novembro de 2015 at 8:17 PM

    Ai menina depois de milênios voltei aqui pra responder aquele comentário seu sobre 5 coisas que não dou a mínima…

    E meu, eu sei bem o que você sente..sou super deprimida então pra mim é nível dificil tentar ser esperançosa nesse mundo atual e ainda mais bombardeado de informações, as vezes gosto de ficar meio alheia e ser daquelas “o que os olhos não veem o coração não sente’. é muito doloroso lidar com tudo isso e ainda se considerar uma pessoa feliz…juro que não consigo me colocar numa bolha de alienação assim :(

    mas no fundo a gente tem que tentar seguir adiante.. pelo menos dar conta de nossas vidas e tentar fazer o melhor que a gente para os outros e pra nós.;

  • Reply Patthy 16 de novembro de 2015 at 11:44 PM

    Eu sou assim. Não consigo lidar com a enxurrada de más notícias – não porque não me importo, mas porque me importo demais.
    O que eu só soube por comentários no twitter e no instagram foi o suficiente para me deixar bolada com o mundo. Então em algum momento me deparei com a frase: “When I was a boy and I would see scary things in the news, my mother would say to me, “Look for the helpers. You will always find people who are helping.”
    Posso dizer que tive uma luz? Enfim, tive uma luz, que não me confortou de todo mas me fez ter um cadinho mais de esperança: não importa quão ruim seja uma desgraça, não importa quantas pessoas más existam no mundo, para cada situação horrível existe pelo menos uma pessoa querendo ajudar.

  • Reply Karine 17 de novembro de 2015 at 8:13 PM

    Entendo muito tudo que você falou.
    Sempre que acontecem essas tragédias, seja aqui ou do outro lado do mundo, eu fico com a cabeça pesada, como se estivesse sentido (nem que fosse um milésimo) da dor das pessoas. É foda. Isso é coisa de quem pensa demais e sente empatia pelo problema dos outros, e isso acaba afetando nossos dias (mesmo estando longe, mesmo não conhecendo, mesmo…). Nessas horas eu sempre fico na duvida se esse mundo ainda tem jeito, e é difícil tirar o foco de tantas coisas ruins, mas ao mesmo tempo que elas estão acontecendo, tem muita gente boa se importando e ajudando tb, e acho que isso conta demais. Enfim. Ontem eu ainda tava me sentindo muito cansada (de viver), então parei de olhar qualquer noticia de desgraças (pelo menos por 24 horas).

  • Reply BA MORETTI 21 de novembro de 2015 at 12:01 PM

    sim sim, ana, sim ♥ super te entendo e concordei tanto com esse teu texto que deu vontade de te abraçar pra gente chorar juntas e ainda sim, falar uma pra outra que a vida é essa coisa louca que dá medo mas que enche a gente de amor e de pessoas maravilhosas também :)

  • Reply Gabriella 28 de dezembro de 2015 at 2:17 AM

    Oi, Ana. Achei seu blog hoje no blogroll da Lari do Loud Like Moi e estou encantada (obrigada, Lari). Seus textos são incríveis, me identifico demais com sua visão de mundo, a forma como encara ele e o jeitinho que você escreve. Não consegui deixar de comentar esse… Lembro bem dessa sexta 13 e foi bem horrível. Quando você diz “um dos meus maiores medos era me tornar uma pessoa endurecida, porque o mundo é um lugar hostil”, isso me descreve esse ano. Vi tanta coisa ruim. Mas acho que isso serviu pra abrir meus olhos pro mundo real e além de tudo passei a pensar mais no próximo, me importar de verdade. Então, eu também tenho esse otimismo, e acredito que todos deveriam ter. Vamos continuar assim, por que esse é o caminho pra tentar mudar essa realidade assustadora, mesmo que seja só um pouquinho…

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