RORY GILMORE

Considerações sobre literatura, arte e consumo

(Esse título é pedante demais.)

A primeira coisa que você precisa ter em mente quando faz parte de uma bolha em que praticamente todo mundo lê e boa parte também escreve, é que as chances de que ambas as coisas eventualmente se transformem em debates e opiniões exaltadas são imensas. Como tudo nessa vida, existem basicamente duas formas de enxergar essas discussões, mas porque sou uma pessoa bem pouco engajada nesse tipo de coisa – e, pra ser honesta, em qualquer tipo de debate de internet -, no fim das contas isso não importa realmente; não sou eu que vou perder meu tempo pensando a respeito.

O problema é que, vez ou outra, algumas discussões quebram essa barreira, e eu começo a não apenas refletir sobre elas, mas também a querer conversar a respeito e destrinchar o assunto até dizer chega. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando a Kylie Jenner recebeu a alcunha de self-made woman ou quando absolutamente todas as pessoas do meu círculo começaram a falar, ao mesmo tempo, sobre como a nossa geração era a menos provável de conseguir realizar o sonho da casa própria (e esse texto foi apenas a cereja do bolo), e de repente, e não mais que de repente, eu estava obcecada, conversando com qualquer pessoa que demonstrasse o mínimo interesse em discutir o assunto e chorar algumas pitangas comigo. “Quais são suas considerações?”, eu perguntava, ou, ainda “o que você pensa sobre x, y ou z?”; claros sinais de que o ciclo estava prestes a começar mais uma vez. Desde grupos de amigas, até minha mãe e meu namorado, todos tiveram o seu momento para pensar sobre essas questões (“junto comigo!!! vamos lá!!!”), em momentos cada vez menos apropriados, fosse no meio do café da manhã ou antes da hora de dormir – limites que naturalmente não trabalhamos.

São casos isolados, é claro, e que tornam-se cada vez mais raros à medida que meu interesse por polêmicas de internet diminui em proporção ao meu desgaste com a internet de modo geral. O fato de ter encontrado formas de blindar esse tipo de conteúdo me mantiveram longe de muitas discussões, mas porque essa não é uma alternativa infalível, existem debates que eventualmente chegam até mim, simples assim, e não há muito que se possa fazer para desviar. O caso mais recente foi quando, na última semana, alguém me perguntou sobre uma questão bastante velha, que é a sobre pirataria de livros – uma história que de tempos em tempos renasce das cinzas para plantar alguma discórdia. Da última vez em que isso aconteceu, não me pareceu muito justificável que eu perdesse algum tempo do meu dia – e talvez alguma paz – para dar minha opinião não requisitada sobre algo que, embora me dissesse respeito em alguma medida (porque elas sempre falam sobre nós em alguma medida), não conhecia – e nem queria – o suficiente para me sentir confortável em lhe dispensar meus dois centavos. Mas dessa vez foi diferente, e bastou que alguém perguntasse quais eram minhas considerações sobre o assunto para que eu imediatamente ficasse obcecada.

Porque esse é um debate bastante complexo, existem mais lados nessa história do que opiniões exaltadas nos permitiriam perceber, e a maioria dos argumentos até agora são plausíveis o suficiente para serem levados em consideração. Isso significa que, até o momento, não tenho uma opinião 100% formada – ainda que, obviamente, tenha uma opinião – e estou disposta a entender de verdade quantos argumentos mais surgirem na minha frente. Ainda assim, muitos dos pontos levantados têm me feito pensar sobre a nossa relação com a literatura, com o aspecto do livro como bem de consumo, e sobre o que significa ser leitora em um país onde quase metade da população não lê, enquanto muitos nem sequer chegaram a comprar um livro alguma vez na vida – e é sobre esses aspectos que quero conversar agora.

1. Nem todo mundo pode comprar livros

De todos os argumentos, esse talvez seja o mais simples e óbvio (ou o que aparenta ser mais simples e óbvio), e também o mais importante – embora também seja o mais fácil de se perder de vista quando se está cercado por pessoas que leem mais de 50 livos num ano, muitos dos quais são comprados por elas mesmas, com o dinheiro que ganham com o próprio trabalho, dos pais ou de ambos. A impressão que dá é a de que todo mundo está lendo e, mais do que isso, comprando livros com alguma frequência. Esse, contudo, é apenas um recorte, e dificilmente seria compatível com a realidade de muitos brasileiros. Mais do que uma questão cultural, em um país como nosso, onde taxas de desemprego são enormes e o salário mínimo não chega a mil reais, comprar livros é um privilégio para poucos. O mesmo serve para a compra de e-readers e serviços como o Kindle Unlimited, que naturalmente não vão caber no orçamento de uma pessoa que precisa viver um mês inteiro com um salário mínimo – ou até menos.

Assim, quando alguém sem quaisquer outras fontes de acesso à literatura, e também nenhum incentivo, baixa ilegalmente uma obra em pdf, ela já está, sozinha, ultrapassando uma barreira. Limitar esse tipo de acesso serviria apenas para tornar a literatura mais restrita e elitista, o que ela já é de qualquer forma, e essa é uma questão tão complexa quanto problemática. De imediato, é muito fácil colocar todo mundo no mesmo balaio e dizer que quem baixa o que quer que seja ilegalmente é criminoso. Mas será que o fato de essas pessoas estarem baixando livros online é mesmo o maior dos problemas ou apenas o reflexo de uma questão maior e muito mais complicada?

2. Bibliotecas, infelizmente, não são a solução de todos os problemas

Dentre os muitos argumentos que surgiram como uma alternativa à pirataria, as bibliotecas talvez tenham sido a opção mais recorrente. Não é difícil entender por que elas de fato parecem uma solução milagrosa, que não é utilizada com tanta frequência mais por uma questão de pouca informação, costume e às vezes falta de interesse nas obras disponíveis, do que qualquer outra coisa, o que poderia ser facilmente revertido com programas ou projetos de incentivo. Na última semana, por exemplo, a Tati deu início ao projeto Rata de Biblioteca, que nada mais é do que uma forma de desmistificar velhos preconceitos e incentivar que mais pessoas passem a frequentar bibliotecas públicas. No texto de abertura, a própria Tati conta que, embora tenha crescido com acesso a uma biblioteca na escola quando mais nova, ela mesma tinha certo preconceito com bibliotecas públicas em geral, e foi só quando passou a frequentá-las que percebeu que o estereótipo do lugar velho, com livros empoeirados que não interessavam ninguém não era uma realidade.

É um projeto muito válido e realmente sugiro que vocês o acompanhem daqui pra frente. No entanto, como eu, ela e um grupo de amigas também conversamos essa semana, bibliotecas não são uma solução infalível, tampouco possível para todo mundo. Além de muitas não disponibilizarem um acervo atualizado, com livros que interessem faixas etárias e gostos mais abrangentes, o simples fato de se deslocar pode se tornar um empecilho para muita gente, que tampouco pode gastar com transporte para buscar e devolver livros sempre que necessário. Por mais difícil que seja visualizarmos essa realidade, o que pode não ser muito pra nós é, com alguma frequência, essencial para quem vive com dinheiro contado todos os meses e que não têm a possibilidade de gastar com nada além do essencial – seja um exame, uma comida diferente, uma passagem de ônibus ou um livro.

O que não quer dizer que bibliotecas públicas não sejam importantes, pelo contrário. Em outra polêmica mais recente, uma proposta de por fim às bibliotecas como são hoje nos Estados Unidos balançaram muitos norte-americanos que reconheciam a importância desses espaços, não só porque eles são o único acesso que muitos têm à literatura, mas também porque os serviços oferecidos são muito mais abrangentes. Em um dos muitos textos que li, uma bibliotecária de Washington contava que a biblioteca na qual trabalhava era o único espaço em que pessoas em situação de rua, por exemplo, podiam ter um pouco mais de dignidade, além de conseguirem acesso à internet, o que possibilitava que elas pudessem encontrar empregos, imprimir currículos e outros serviços gratuitos que não seriam oferecidos em outros lugares. As bibliotecas também se tornaram o espaço em que muitas pessoas mais velhas, que não cresceram na era da internet, puderam aprender a utilizar computadores, realizar pesquisas e todo tipo de conteúdo que lhes interessasse. Ou seja: bibliotecas são muito importantes, só não são a solução para os problemas de todo mundo.

3. Pessoas que baixam livros dificilmente investiriam em literatura se essa opção deixasse de existir

Existem muitos motivos que fazem com que uma pessoa prefira baixar um livro ao invés de adquiri-lo de maneira tradicional. Além da já citada falta de recursos, outra justificativa bastante comum é a de que algumas pessoas simplesmente não querem correr o risco de gastar dinheiro com um livro de que não vão gostar tanto assim, preferindo ler antes e comprar depois. É um argumento que faz sentido, sobretudo se você tem dinheiro, mas não muito, para investir nesse tipo de coisa. Além disso, mesmo que você possa gastar uma quantia razoável todos os meses, a velocidade com que novos livros são lançados, quase sempre a um valor altíssimo, barram o acesso a essas obras. Assim, em uma comparação tosca, ler o livro em pdf seria quase como ir à livraria todos os dias e ler um livro até o fim, só para ter certeza de que realmente valeria o investimento antes de finalmente comprá-lo – a única diferença é que isso deixa de acontecer no estabelecimento em si para existir no conforto de nossos lares.

Porque estou longe de ser santa, alguns anos atrás baixei dois livros que ilustram muito bem esse caso: Big Little Lies, da Liane Moriarty, e Bling Ring, da Nancy Jo Sales. Ao passo que o primeiro se tornou um favorito e não demorou a vir morar na minha estante (porque eu precisava, porque esse livro é perfeito, porque a Liane Moriarty é incrível, etc etc), comprar Bling Ring só teria me feito passar raiva, como aconteceu com Garoto Encontra Garoto, um livro que até hoje está largado na minha penteadeira esperando o dia que eu finalmente tomarei vergonha na cara para doá-lo ou trocar por outra coisa em um sebo – que são opções super válidas, é verdade, mas seria muito mais fácil não ter que olhar todos os dias para um livro que só me trouxe desgosto quando eu podia simplesmente não tê-lo comprado e seguido com a minha vida em relativa paz. Se a opção de baixá-los não existisse, no entanto, não teria acontecido nem uma coisa nem outra, e eu tanto não teria odiado Bling Ring como Big Little Lies não viria parar na minha estante por tão cedo. Em comparação, é verdade que sou uma pessoa bastante privilegiada e que não necessariamente precisa baixar livros, quaisquer que sejam. Entretanto, isso não significa que eu não precise fazer escolhas de tempos em tempos, que livros encham a minha barriga ou que qualquer obra está dentro do meu orçamento – como a maioria dos livros que uso na faculdade, por exemplo, que chegam aos três dígitos com facilidade e muitas vezes não são tampouco encontrados em livrarias, sebos e bibliotecas, ou qualquer outro lugar que não plataformas online de download ilegal; às vezes, nem mesmo brasileiras. Não considerar essas nuances é ignorar uma realidade que também existe, e acreditar que não é tão babaca quanto o argumento que diz que uma pessoa que nem sempre pode comprar os livros que deseja ler também não pode fazer outra coisa da vida, tipo comprar roupas ou ir no McDonald’s de vez em quando.

Em outra instância, comprar livros físicos é a única opção pra muita gente que não tem como bancar um Kindle (ou qualquer outro e-reader de sua preferência), seja por falta de grana ou pelas formas limitadas de pagamento (a Amazon, por exemplo, só aceita cartão de crédito), o que significa que comprar algo que não vai ser do seu agrado, além de ser um gasto que poderia ser evitado, também não é lá a opção mais sustentável do mundo. Outro ponto interessante é que, por pior que seja na cabeça de muita gente, o download de livros segue o mesmo molde de outras alternativas já citadas, como bibliotecas e o empréstimo em geral – é preciso que alguém o compre antes de disponibilizá-lo onde quer que seja. Então, se alguém ainda está comprando essas obras e se pessoas que baixam dificilmente as comprariam se lê-las online ou baixar em pdf não fosse uma opção, tampouco estão usando essa disponibilidade para ganhar dinheiro, qual é realmente o ponto?

4. Autores, blogueiros e booktubers não estão fazendo muito para mudar esse cenário

Como escritora e como alguém que trabalha com livros na internet, que mantém parcerias e responsabilidades, mas que pessoalmente não ganha um centavo com isso, é muito fácil entender o lado de quem argumenta contra a distribuição não-autorizada de obras literárias. Mais do que o trabalhoso processo de escrita, pesquisa e edição, e a dificuldade em conseguir que seu material seja publicado, culturalmente não somos um país acostumado a valorizar produções artísticas. Isso significa que para cada autor brasileiro que consegue viver muito bem, obrigada, com os frutos de sua obra, a maioria esmagadora de escritores ainda precisa dividir o seu tempo em jornadas duplas ou triplas de trabalho, em profissões alternativas capazes de fornecer a estabilidade que a escrita, sozinha, não dá. Para muitos, a arte continua a ser um supérfluo que qualquer um poderia realizar se quisesse, de modo que o fato de algumas pessoas ganharem dinheiro com isso é tanto um absurdo quanto uma afronta, para dizer o mínimo.

É uma realidade dura e é uma realidade que precisa mudar. Entretanto, minha sensação é a de que as mesmas pessoas que reclamam sobre a distribuição ilegal de livros são as mesmas que muito pouco fazem para mudar esse cenário. Autores merecem receber pelo seu trabalho e eu jamais diria que não. Mas quem são os autores que sugerem que as pessoas voltem a frequentar bibliotecas e que estão doando exemplares para esses lugares? Ou que estão ativamente tentando promover uma literatura mais inclusiva? Qual a diferença entre distribuir exemplares gratuitos para esses lugares e para jornais, revistas, sites, blogs e canais no YouTube? A resposta mais óbvia é a de que, naturalmente, esses veículos e as pessoas por trás deles têm um alcance maior do que o de um leitor padrão. Mas será mesmo? O boca a boca é, muito provavelmente, a tática mais antiga de marketing, e é também bastante eficiente. Qual a melhor forma de alcançar determinado público senão deixando que ele próprio fale sobre a sua obra?

O mesmo pode ser dito sobre as pessoas que recebem esses livros gratuitamente no conforto de suas casas. As parcerias firmadas com grandes editoras variam de veículo para veículo, o que significa que nem todo mundo os recebe como presente, mas como parte de um trabalho com prazos e obrigações a serem cumpridos – como qualquer outro. Além disso, nem todos os livros são escolhidos por quem os recebe, e isso não anula a obrigação de escrever e gerar conteúdo sobre eles. Na maior parte do tempo, esse ainda é o trabalho mais legal do mundo, mas nem sempre. Existem pessoas, é claro, que os recebem como presentes e que não têm qualquer obrigação em falar sobre eles, mas elas ainda são uma minoria – normalmente pessoas com muitos seguidores e um poder de influência gigantesco. Não é uma surpresa que muitas delas terminem acumulando uma quantidade insana de livros, muitos dos quais jamais serão lidos, mas que não necessariamente são repassados para outras pessoas, e muitas vezes são edições diferentes da mesma obra, o que, conscientemente ou não, também cria uma cultura bastante problemática de consumo. Mas até que ponto isso é válido? Qual o propósito de ter uma biblioteca no ano 2018 do nosso senhor? Qual a necessidade de manter três ou quatro edições diferentes do mesmo livro?

Como muitos autores, essas pessoas não parecem particularmente interessadas em doar parte daquilo que recebem para bibliotecas ou escolas, tampouco promovem iniciativas com o mesmo objetivo e utilizam sua visibilidade para algo mais do que longos hauls e bookshelf tours. É verdade que elas não têm nenhuma obrigação de fazer qualquer uma dessas coisas, mas até que ponto o argumento se torna válido quando nem mesmo elas estão dispostas a facilitar o consumo legal de obras literárias por qualquer pessoa e não apenas uma parcela privilegiada que tem dinheiro para investir em literatura com alguma facilidade? Mais do que isso: como julgar as pessoas quererem sempre mais quanto essa é, justamente, a cultura que estamos promovendo? Todas essas perguntas me levam ao próximo tópico, que é:

5. Literatura como arte versus literatura como bem de consumo

Esse semestre voltei a estudar um assunto que muito me interessa, que é a questão da reprodutibilidade da arte e seu aspecto como bem de consumo, e o conceito de indústria cultural – que não é novo, é verdade, mas continua sendo bastante relevante em análises sobre cultura e mídia de modo geral. A multiplicidade da arte e seu valor como bem de consumo ajudam a explicar por que a produção artística hoje não mantém a mesma aura sacralizada de décadas atrás. Você ainda precisa ir até o Louvre para ver a Monalisa ao vivo, por exemplo, mas não precisa ir até o Louvre para saber como a Monalisa se parece – existem fotos, vídeos e até mesmo réplicas que são suficientes para te dar, senão a dimensão completa dela, apenas uma noção de como ela é de verdade.

Isso fica ainda mais evidente hoje, quando o acesso a esse tipo de trabalho está literalmente ao alcance de um clique, e porque a indústria cultural é, antes de mais nada, um mercado, e o lucro é o fator mais importante, essa facilidade também cria novas relações e formas de consumo. Não é por acaso que vivemos um momento em que o ato de consumir o que quer que seja está mais atrelado ao pertencimento e tendências sociais do que o interesse genuíno em determinadas obras. É um fenômeno que não acontece apenas na literatura, mas em outros setores como a moda, o cinema e até mesmo a música, mas porque estamos inseridos em uma bolha de gente que lê e escreve, a indústria editorial acaba sendo o exemplo mais notório disso. Há uma inversão de valores e é essa inversão que faz com que o objeto livro torne-se consideravelmente mais relevante do que seu conteúdo ou até mesmo o aspecto intelectual da obra. O que é interessante não é querer algo porque genuinamente se tem interesse naquilo, mas o que possuir determinado bem de consumo significa na sociedade em que vivemos.

Desnecessário dizer que, para quem trabalha com isso, a venda de livros é uma questão tão importante quanto prática, e que obviamente deve ser levada em consideração. Todo mundo precisa comer e todo mundo precisa pagar contas, e trabalhar com o que se ama, com arte, não anula nada disso. Mas esse é realmente o aspecto mais importante? Uma coisa que muito me incomoda é que a forma como muitos autores (e editores, e youtubers, e pessoas que trabalham com livros de modo geral) atribuem valor àquilo que comercializam sugere que a compra é o último passo desse processo, quase como se tudo que acontece depois não fosse relevante – que você queime, doe, rasgue, use como objeto de decoração e jamais leia aquela história não é realmente importante. O trabalho do escritor, portanto, perde valor de um jeito ou de outro – receber por isso não significa necessariamente que seu trabalho está sendo consumido, tampouco valorizado. A pergunta que sempre me faço nesse caso é: aceitar esse molde é a única saída para ser artista e não morrer de fome em uma sociedade capitalista? Infelizmente, essa é uma pergunta para a qual ainda não tenho uma resposta.

6. Consumir algo ilegalmente também pode ser um ato político

A primeira vez que tive contato com esse argumento não foi em uma discussão sobre literatura, mas em um texto sobre cinema. Nele, a autora tentava justamente encontrar uma forma razoável de continuar consumindo certas produções sem, necessariamente, contribuir para que artistas horríveis continuassem trabalhando. Como uma pessoa que estuda cinema e, mais do que isso, escreve sobre cultura pop e produções artísticas em geral em 90% do tempo, tenho essa discussão em um âmbito tão pessoal quanto profissional. E, ainda assim, é difícil encontrar uma resposta definitiva sobre qual é a melhor maneira de lidar com o fato inexorável de que artistas horríveis continuarão a ser responsáveis por obras incríveis.

É uma questão bastante complexa, não apenas porque entre consumir e deixar de fazê-lo existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, mas porque esse consumo muitas vezes está atrelado à coisas das quais não podemos abrir mão, seja por causa de um trabalho, estudo ou vontade. Mesmo que por gosto, o argumento continua válido, sobretudo porque muitas obras artísticas adquirem valor sentimental, tornam-se parte da nossa história, e é difícil abrir mão de algo com tamanho significado. Polanski nos deu de presente O Bebê de Rosemary, mas ele continua a ser o homem que abusou sexualmente de uma menina de 13 anos. Animais Fantásticos e Onde Habitam é um ótimo filme, mas ainda é a mesma produção cuja equipe preferiu defender a permanência de um agressor em seu elenco a tomar uma atitude mais drástica, porque essa era a opção mais cômoda. Mas eu não vou deixar de consumir nem uma coisa nem outra – a produção do Polanski, por causa da faculdade; qualquer coisa da saga Harry Potter porque essas ainda são histórias que cresceram comigo ou que sempre vão remeter a um período importante da minha vida. Então, como continuar a consumir essas obras sem, no entanto, promover as pessoas por trás delas?

Sempre que penso nisso, lembro de uma vez em que a Olivia Wilde contou que, em uma conversa com a Gloria Steinem, ela ouviu que, se realmente quisesse protestar contra o governo de forma eficiente, que deixasse de pagar seus impostos. É uma posição drástica, é verdade, mas gosto desse exemplo porque ele sintetiza de forma bastante óbvia como o manifesto sobre qualquer que seja a causa pode acontecer de diversas formas. E é por isso que, de certa forma, o download ilegal também pode ter um peso de manifesto; por mais errado que seja aos olhos da lei, existe algo de subversivo entre fazê-lo com esse fim, que é totalmente diferente de utilizar a disponibilidade dessas obras para ganhar dinheiro, por exemplo. O fato de que muitas pessoas não têm dinheiro para pagar para consumir essas produções de formas legais, a ausência de cinema em várias cidades do país e a falta de programas de incentivo de acesso e consumo à cultura são apenas mais nuances que devem ser levadas em consideração.

No caso da literatura, não é tão diferente: além de existirem autores detestáveis, que utilizam sua visibilidade e sucesso de maneiras igualmente detestáveis (pensem no autor que cobra 700 golpes por pessoa para dar uma palestra), livros são bens de consumo, nem todo mundo tem dinheiro para comprá-los e bibliotecas nem sempre são acessíveis. Muitas vezes, baixar ilegalmente é a única forma que determinados grupos podem ter acesso à literatura e, consequentemente, ultrapassar barreiras que lhe são impostas a vida inteira. Se tanto falamos sobre a importância de  termos oportunidades equivalentes, sejamos homens ou mulheres, negros ou brancos, ricos ou pobres, negar as limitações que lhe são impostas é, também, uma forma de subversão. Então talvez, e só talvez, consumir arte ilegalmente seja, também, um ato político.

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2 Comments

  • Reply Helen 5 de agosto de 2018 at 12:44 AM

    eu gostaria de comentar no nível do teu texto, que foi excelente e mostrou vários argumentos, que concordo totalmente. é um texto para se indicar, se discutir, compartilhar.

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