JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

SESSÃO CARNAVALESCA DE DESCARREGO

De Brasília até Correntina são cerca de 500km, distância que, de ônibus, é percorrida em mais ou menos 7 horas. Chegamos pouco antes do sol nascer (o que foi meio decepcionante, porque eu ainda nutria a esperança de ver o céu estrelado se transformar num dia novo em folha), e depois de uma viagem agradável na medida do possível – porque ninguém deveria ser obrigado a passar tanto tempo ouvindo Zezé di Carmago e Luciano (onde foram parar os fones de ouvido?) – desci do ônibus e admirei o paralelepípedo tão característico, enquanto me aquecia perto do motor e o Gui se estapeava com os outros passageiros pra ver quem pegaria a mala primeiro. Oi Correntina, cheguei.

Pulei dentro da caminhonete e esperei enquanto as malas eram colocadas na parte de trás. Até a casa da minha avó são menos de dez minutos de caminhada agradável, jogando papo fora e vendo os primeiros raios de sol aparecerem tímidos no céu; mas naquele dia – e só naquele dia – achei justo me recolher no banco do carro e admirar tudo pela janelinha mesmo.

Chegando em casa, malas foram largadas no chão e café foi providenciado. Eu, que nem gosto de café, fiquei feliz em ter algo quentinho pra beber enquanto me decidia se dormia mais algumas horas ou se simplesmente trocava de roupa e continuava brincando com Lana (Del Rey), a cachorrinha terrivelmente linda e deveras pentelha que agora vive na casa da minha avó. O Del Rey, claro, é por minha conta, e eu já prometi que da próxima levo uma coroa de flores pra ela usar (?).

Em Correntina não tem horário de verão e eu, que me esqueci desse detalhe completamente, acordei feliz da vida por, veja só, me sentir renovada às 10 da manhã. Foi uma deliciosa ilusão, que continuou sendo maravilhosa mesmo quando eu descobri que não era o ar ou a água que me fazia acordar mais cedo e mais disposta. A partir daí, ficou mais ou menos estabelecida uma rotina que consistia, basicamente, em acordar por volta das 10, tomar café da manhã, fugir pro sítio dos meus avós e só voltar de tardezinha, hora que a gente aproveitava não pra ver o trio ou acompanhar os bloquinhos, mas pra caçar um lugar pra comer. Entre as tantas opções disponíveis estava o melhor quibe que já comi na vida e um crepe de frango pra francês nenhum botar defeito.

Tomei banho gelado praticamente todos os dias e me vi curtindo cada um deles como se fosse o último. Em Brasília, lidar com água fria é um tormento até no verão, mas no calor da Bahia fica fácil esquecer certas frescuras. Em Correntina meu cabelo não é problema, e ainda que minha mãe insista que eu deveria me maquiar um pouquinho antes de sair de casa e fazer bem o papel da moça da ~capital~, não me preocupo em sequer passar um blush porque o sol já fez seu trabalho e me presenteou com bochechas rosadas de verdade.

Flutuando na piscina, os olhos fechados por causa do sol, só conseguia pensar no quanto a vida é boa e que, às vezes, a gente precisa mesmo de muito pouco pra ser feliz. Ali, rodeada pela minha família e pela calma que só o interior oferece, me permitia esquecer da vida em Brasília e das tantas fotos que jurei que iria tirar pra postar depois no Instagram. Consigo me desligar de mim mesma e curtir o tempo livre de verdade, sem a sensação de que poderia estar fazendo qualquer coisa mais útil do que simplesmente ver o tempo passar. Em Correntina me sinto uma pessoa mais leve, e é tão boa a sensação que eu quase acredito que posso viver ali pra sempre, sem wifi, secador e uma boa camada de corretivo na cara.

Às vezes entendo quando minha mãe diz que tudo o que ela queria era poder morar lá pra sempre, mas quando terminei de arrumar minhas coisas na terça-feira, só conseguia pensar que quase nada é tão bom quanto voltar pra casa. Chorei muito na despedida, mas a verdade é que, naquela altura do campeonato, enquanto o Gui pedia “beijos felizes” e limpava minhas lágrimas, eu só conseguia pensar em matar a saudade dos meus bichinhos, na minha cama maravilhosa e na overdose de internet que eu precisava depois de quatro dias de desintoxicação. Ir pra Correntina desperta em mim um lado que em Brasília não conheço e é maravilhoso poder viver essa minha versão mais despreocupada, sem neuras e sem frescura, que fica horas deitada na grama pelo simples prazer de ver as estrelas no céu. Mas não posso deixar de agradecer por sempre ter um lugar pra onde voltar, um lugar que de fato me pertence, um lugar pra chamar de lar. Só lamento que minhas viagens de descarrego sejam tão pouco frequentes. Talvez essa seja a deixa para que eu cumpra a promessa de viajar mais em 2015.

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2 Comments

  • Reply Xará 27 de fevereiro de 2015 at 11:25 AM

    Amô meu, que delícia que seu carnaval foi cheio de paz. Às vezes família e interior é tudo o que a gente precisa na vida – mas voltar pra casa também é maravilhoso e sempre será (menos voltando de encontrão, cê vai ver). E eu também sou super tratante nos meus detox de internet: voltou louca para mais uma overdose. HAHAHA
    Beijos! <3

  • Reply Thay 28 de fevereiro de 2015 at 10:10 PM

    Você praticamente descreveu minhas férias, com a diferença que as passo no interior de Minas, não na Bahia. E eu sempre me surpreendo em como posso ser mais simples e tranquila quando passo um tempo na casa dos meus avós. Sem internet, pq o 3G quase não funciona, sem nada se não a companhia da família e o tempo passando. É uma delícia! Mas, como você disse muito bem, não há nada como voltar pra casa e pro meu próprio travesseiro. Um beijo!

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