JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

CRISES DE UMA VIDA ACADÊMICA FURADA

Antes mesmo de entrar na faculdade, eu já sabia exatamente o que queria fazer da minha vida, o trabalho que eu gostaria de ter e quem eu deveria ser. Chegar lá ainda era uma questão sem resposta, mas aos 17 anos, poder contar com alguma certeza era melhor do que nada, e enquanto meus amigos não tinham sequer uma ideia do que fariam depois da formatura, eu respirava aliviada, dava um beijo no meu plano friamente calculado e agradecia à Deus por não ser eu naquela situação.

A verdade é que com 17 anos, protegida pelas paredes do colégio e as limitações da menoridade, eu não podia fazer muito mais senão planejar exaustivamente meus passos dali em diante. Era minha forma de ter algum controle antes mesmo de receber meu atestado de dona-do-próprio-nariz, meu jeito de mostrar para o universo que não, eu não ia ficar parada esperando o destino agir ao meu favor.

Quando olho pra trás percebo que há cinco anos eu era uma pessoa muito mais alegre e otimista e motivada do que sou hoje. Isso me entristece, de certa forma, porque no fundo no fundo eu sinto falta daquela fé inabalável na vida, que me impulsionava a ir atrás do que eu queria e me fazia acreditar que eu podia. Mas as coisas só foram daquele jeito porque, no fim das contas, elas só aconteciam na minha cabeça. Eu não estava realmente correndo atrás de nada além da minha aprovação no vestibular da UnB, e isso era realmente o maior passo que eu podia dar rumo ao meu futuro promissor.

De lá pra cá eu passei não em um, mas em três vestibulares, e a cada aprovação eu tinha menos certeza do que eu estava (e ainda estou) fazendo com minha vida.

A gente cresce acreditando que difícil difícil mesmo é escolher o que fazer da vida, mas não é bem isso. Difícil mesmo é o que fazer depois pra alcançar esse futuro incrível que a gente passa um tempão acreditando que vem grudado no diploma de ensino superior. Lembro que numa das minhas primeiras aulas na FAC, quando eu ainda era uma linda caloura (nem tão caloura assim) cheia de sonhos e expectativas, a professora disse que o mercado da Comunicação Organizacional ainda tinha pouquíssimos profissionais realmente preparados para ocupar as posições que ocupavam, que a média dos salários dos gestores de comunicação era altíssima e que era por isso que nós estávamos ali: para suprir essa carência e garantir nosso lugar ao sol. Secretamente, claro, não pude deixar de me perguntar que diabos aquela mulher estava fazendo ali quando podia estar em alguma multinacional ganhando rios de dinheiro, mas tudo bem, porque se ela não queria ser essa pessoa, eu seria, sem dúvida alguma.

Só que a cada semestre que passa eu tenho menos certeza de que eu quero ser essa pessoa. Porque por mais que eu goste muito do que eu faça, só de pensar em me ver gerindo uma crise, a vontade que tenho é de sentar e chorar. Eu não consigo sequer resolver as minhas próprias crises, imagina ser a pessoa que segura a corda para uma organização sair do buraco? Converso com minhas amigas sobre isso e fico um pouco mais aliviada por ver que todas nós estamos no mesmo barco furado, mas ao mesmo tempo fico morrendo de medo do que vai ser da gente quando esses anos de faculdade terminarem e a gente só contar com um pedaço de papel na mão.

Desde que eu coloquei meus pés na UnB pela primeira vez que aparece gente disposta a me fazer acreditar que eu sou especial só por ter conseguido um lugar ali dentro, porque muita gente foda passou por ali e nossa como você é foda também, como se isso automaticamente me garantisse duas casinhas à frente dos meus concorrentes nesse tal mercado de trabalho que as pessoas tanto falam. Eu acreditei por muito tempo que ter Universidade de Brasília estampado no meu currículo me levaria longe por si só, mas agora, vendo a universidade como ela é de verdade e com uma pouca mas honesta ideia de como o mercado funciona, ter passado num vestibular teoricamente mais difícil, só me torna uma pessoa que passou num vestibular teoricamente mais difícil e, olha só que coisa, ninguém tá interessado no caminho que você trilhou até chegar onde chegou, mas se tem competência suficiente ou não.

Uma porção de pessoas especiais passaram pela UnB, é verdade, e eu admiro muitas delas. Mas e todas as outras que ninguém se lembra? Onde elas estão e o que aconteceu no meio do caminho pra elas não terem ganhado um lugar na lista de alunos notáveis? Não eramos todos assim tão especiais? Não eramos todos tão capazes de correr atrás dos nossos sonhos, conquistar o mundo e esse futuro tão incrível que não chega nunca?

Ninguém está realmente preocupado em dizer que, olha, o mais difícil não é saber o que a gente quer, mas como faz pra chegar lá. Que ótimo que você quer ser um cineasta, mas você sabe o que tem que fazer pra chegar naquele ponto da vida em que você ganha um Oscar? Você sabe que só uma graduação não basta? Você sabe que nada cai do céu e que o universo não está muito preocupado com o quão especial você é? O sonho está lá, esperando. Ele não vai sair correndo, não vai à lugar nenhum, e ainda assim é tão tão difícil chegar lá que é melhor mesmo que ele espere sentado.

Tem horas que é difícil demais acreditar. Horas que eu paro, olho pra mim mesma e para o que minha vida se tornou e fico morrendo de medo de não conseguir nada, de não chegar em lugar nenhum, de caminhar caminhar caminhar e não conseguir nada at all. Acho que a gente só descobre essas coisas quando paga pra ver e eu tenho feito minha parte como posso. Mas se tornar quem a gente sempre quis é difícil e dá medo. Muito medo.

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3 Comments

  • Reply Analu 6 de abril de 2015 at 1:24 AM

    Que domingão de Páscoa animado, hein, amiga? Não consegui deixar de dar um sorriso melancólico de canto de rosto enquanto lia seu texto porque não preciso nem te lembrar que tô atolada no mesmo barco e um tanto mais no fundo que você, porque JÁ tenho meu papel na mão e minha vida ainda tá mais atrasada que a tua, de acordo com tudo o que eu sonhava enquanto era auto-suficiente e mega protegida pelas paredes do colégio. Os 20 e poucos são os tais tempos difíceis para os sonhadores. E ao mesmo tempo, acho que a gente dá valor demais pras nossas crises e fica parado no mesmo lugar, sofrendo, em vez de conseguir fazer toda a mudança que a gente quer. MAS COMOFAS?
    Te amo! Beijo! #tamojunto

  • Reply Anna 6 de abril de 2015 at 4:16 AM

    Nossa Xará, você acabou de resumir todas as minhas insônias desse último ano de faculdade que vem me deixando cheia de pavor. Você não se sente meio traída? Sei lá, acho que eles deviam avisar a gente antes. Na escola parecia que todos os problemas iam acabar quando a gente entrasse na faculdade, mas a real é que eles só aumentam. A vida pica em muitos quadradinhos o manual de instrução e as pessoas que antes estavam lá prontas pra te dar respostas agora só querem cobrar uma posição, um avanço, uma caralha de futuro que a gente passou a vida inteira acreditando que ia chegar de boa vontade, só porque a gente é tão legal, e inteligente e bonitinho.
    Queria ter respostas pra você, mas no momento tô aqui com minha almofadinha pedindo espaço nesse barco.
    beijos! <3

  • Reply Fernanda 9 de abril de 2015 at 3:24 AM

    Vou te contar que no auge dos meus 29 anos e depois de duas faculdades concluídas (por incrível que pareça!) eu não faço a menor ideia do que fazer com a minha vida. E digo que minhas amigas, com mesma idade, estão nessa situação também. É um mal que assola o mundo! Esse post faz todo o sentido na minha vida sem sentido e olha, nada dá mais medo do que isso; nem barata voando dentro do quarto. ‘Tá passando tudo rápido demais (ESTAMOS EM ABRIL! E o ano novo foi quando, ontem?) e não deixa nem tempo de bolar um planinho pra tentar colocar as coisas no rumo certo. Como faz com essa correria que nem dá tempo da gente viver direito?
    Beijos!

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