I WANNA BE A ROCKSTAR

DARVIN E BATATAS FRITAS TROCADAS ÀS 5AM

Pode não parecer tanto agora, mas por um longo período da minha vida (ou tão longo quanto meus vinte e poucos anos permitam ser), eu fui uma frequentadora assídua de shows capengas de bandas de rock em início do que muitos sonhavam ser uma carreira. O nível da zoeira era infinito, a diversão também, e eu não me questionava muito por estar gastando meu pouco dinheiro pra assistir bandas horríveis fazerem um som bizarro pra uns cento e poucos jovens inconsequentes, num lugar horroroso e meio duvidoso, onde ninguém em sã consciência ousaria colocar os pés. Foi uma fase bem gostosa, que eu sinto saudade pacas, e sempre me traz lembranças maravilhosas de quando eu era uma pessoa sociável e cheia de amigos e as pessoas diziam que meu cabelo era igual o da Hayley Williams (e eu, obviamente, fazia minha melhor cara de surpresa, quando no fundo aquilo era o mínimo que eu esperava ouvir depois de passar a semana inteira confabulando com minha mãe – e eterna cabelereira – sobre possíveis cortes e técnicas que deixariam meu cabelo tal qual o da ruivinha, ainda que eu não pudesse pintar meu cabelo de ruivo), ou tipo aquela vez que eu fui parar numa lanchonete com os caras do Darvin, às 5 da manhã, num desses plot twists aleatórios porém maravilhosos da vida.

Vamos dizer assim que aos 15 anos eu não tinha lá muito critério. Já tinha passado da fase revoltada nossa-como-eu-odeio-todo-mundo e por uma benção divina minha relação com mamãe ia muito bem, obrigada, mas eu ainda tinha aquela cota básica de irresponsabilidade a cumprir, de modo que quando minha amiga e então parceira de crime me convidou pro show de uma banda que, na melhor das hipóteses, eu conhecia umas cinco músicas, não pensei duas vezes em aceitar, mesmo que a gente não tivesse como voltar porque por algum motivo nossa carona de sempre não ia poder ficar até o fim do show, e eu não sou o tipo de pessoa que paga pra ver uma banda tocar e desiste do rolê antes que a bendita tenha a chance de subir no palco. Então abraçamos a cilada e nos permitimos não pensar no assunto até que fossemos obrigadas a voltar pro nosso lar, pras nossas caminhas quentes e pros nossos pais inocentes que juravam que estaríamos em casa à meia-noite.

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Quando tudo estava bem e eu já tinha me esquecido completamente desse detalhe, eis que o show acaba, as pessoas começam a ir embora, e depois de um papo particularmente interessante com o baterista do Darvin (que terminou com ele chamando eu e minhas amigas pra conhecer o Rio de Janeiro, vejam só), eu sou obrigada a encarar a dura realidade que é estar fora de casa no meio da madrugada, sem ter pra onde ir e impedida de ficar parada exatamente no mesmo lugar. No alto dos meus muito maduros (cof, cof) 22 anos, eu sentaria no chão e choraria diante de tal perspectiva, mas com 15 anos e nenhuma vergonha na cara, a minha única alternativa era socializar e descobrir se, assim, por acaso, quem sabe, alguém estava indo pro mesmo lugar que eu. Era um tiro no escuro, mas meu anjo da guarda não falha e então eu olhei pro lado e tinha um cara que eu só conhecia pela internet, mas que sempre tinha sido muito legal comigo, e eu achei que seria bacana dizer pra ele que o show da banda dele tinha sido ótimo e o quanto o som deles era interessante, mesmo que não fosse de verdade, e será que você podia me deixar na rodoviária ou qualquer coisa assim?

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E ali estava eu, conversando com um cara legal, sendo extremamente abusada e pedindo pra ele me levar pra casa, mesmo que a gente só se conhecesse de verdade há mais ou menos dois minutos, correndo todos os riscos do mundo e fazendo meu anjo trabalhar dobrado só porque eu tinha achado maneiro sair de casa sem ter como voltar. Ele disse que não ia poder me levar, e eu achei um abuso da parte dele não ser tão legal assim offline, mas daí ele chamou um casal de amigos que moravam no mesmo lugar que eu, e eles foram super simpáticos e disseram que podiam deixar eu e minha amiga em casa, claro, mas antes eles iam passar num lugar pra lanchar, e eu respondi que não tinha problema, porque a real é que eu mal conseguia acreditar na minha sorte. Eu ia voltar pra casa, pra minha cama quente, pra minha mamãe inocente que não fazia ideia do que estava acontecendo naquelas horas em que eu devia estar voltando pra casa e não estava. Como é bom ser adolescente.

O que vem em seguida podia ser cortado, porque não teve tanta relevância assim na história (que é toda muito relevante como vocês podem perceber), mas basicamente o casal amigo me deixou sozinha de novo com o cara legal e então estávamos só eu e ele sentados na grama, embaixo de um céu estrelado, as pessoas em volta conversando ou enchendo a cara, todo um cenário bonito e igualmente relevante, e eu olhei pra ele, ele olhou pra mim, e naquele olhar ficou decidido que a gente deveria estar fazendo algo mais do que simplesmente trocar olhares e de repente a gente estava se beijando. Sei lá, eu não era uma pessoa com muito critério na vida, como já disse, mas ele tinha sido tão legal que o fato dele nem ser tão bonito assim não importava muito, porque afinal ele não era só um cara legal, mas um cara legal que calhou de ser guitarrista de uma banda de rock, então foda-se mundo, eu peguei o guitarrista de uma banda de rock.

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Já faz quase dez anos (!) que essa cena aconteceu, então talvez eu tenha deixado uma ou duas coisas pelo caminho, mas pelo o que me lembro a gente se beijou, então tão rápido quanto começou, o tal beijo terminou, e ficou aquele clima engraçado e meio constrangedor, rsrsrs o que a gente faz agora, quando o mesmo casal que tinha me oferecido carona apareceu me chamando pra ir embora e eu fui, crente que nossa paradinha ~pra lanchar~ seria no máximo o drive do McDonalds e logo logo eu estaria em casa. Inocente. Ao invés de McDonalds, fomos parar no Sky’s, uma lanchonete maravilhosa de Brasília, idolatrada por todo jovem brasiliense que se preze, uma lenda na forma de gordura saturada, com bacon e queijo pra dar e vender. Esse foi meu primeiro contato com aquilo que hoje prefiro chamar de paraíso, mas na época eu não fazia ideia de onde estava metendo meus pés, porque quando vieram me perguntar se eu ia comer alguma coisa, eu disse que não, porque não estava com fome – o que talvez eu não estivesse mesmo, mas me conhecendo do jeito que conheço, posso jurar que estava com fome sim e só não ia comer porque morria de vergonha de fazer isso na frente de gente desconhecida (e olha que eu ainda nem usava aparelho). Minha amiga também não quis comer, então fomos caçar um lugar pra sentar e acabamos esbarrando com uma mesa cheia de gente, e os caras do Darvin ali, e todos os caras das outras bandas também, inclusive o cara que tinha sido legal comigo, todos comendo e rindo e se divertindo, e nós duas ali em pé, então de repente todos nos reconhecemos como iguais (ou meramente similares) e então estávamos eu e minha amiga dividindo batata frita com esses caras que apareciam na MTV de vez em quando e eram muito mais legais do que a tv deixava ver.

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Eu podia terminar esse post por aqui, porque a verdade é que depois das batatas, a única coisa que sobrou além das 192873981273 bandejas imundas era minha vontade de voltar pra casa e deitar na minha cama. Mas aí seria como ignorar a essência de ser um adolescente inconsequente e cês me desculpem, mas eu jamais faria isso com a Ana de sete anos atrás, mesmo que hoje meu sonho de vida não se resuma a andar com uma porção de ~gente da música~, namorar um baterista gatinho (alguém mais tem fraco por eles?) e estar sempre nos bastidores mais disputados. Não é que hoje eu não sonhe com isso também, só não é uma coisa tão intensa e presente quanto antes. Mas a questão é que naquele dia, na volta pra casa, no bando de trás do carro de pessoas que eu jamais veria outra vez na vida, eu não pensava no esporro que me esperava sentado no sofá ou no quanto eu era sortuda por, apesar dos pesares, estar voltando pra casa bem, com pessoas legais que nem me conheciam e mesmo assim toparam me dar carona numa boa. Porque por pior que fosse me meter nessas ciladas e sentir medo de verdade do que podia acontecer, fosse na rua ou quando eu chegasse em casa, eram essas ciladas que deixavam minha vida adolescente um pouquinho mais interessante do que minhas limitações da idade e os muros do colégio podiam me dar. Ir pra um show sem saber como voltar pra casa não foi a primeira e também não foi a última vez que obriguei meu anjo da guarda a fazer hora extra, mas às vezes, e só às vezes, vale a pena ser um pouquinho inconsequente.

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Ou seja, talvez eu tenha até levado um belo esporro e ficado de castigo, mas aposto que muitas das minhas amigas da época que eram fãs da banda e foram pra casa cedo, dormir em suas caminhas quentes, iam preferir ficar de castigo mil vezes só pra poder dividir uma batata com seu ídolo teen.

¯\_(ツ)_/¯

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6 Comments

  • Reply Lilica 29 de maio de 2015 at 4:16 PM

    E para que serve a adolescência se não para aprontarmos poucas e boas, não é mesmo? Claro que esse tipo de aventura, depois de passado um tempo é até engraçado, mas na hora dá aquele leve pânico de “e se essas pessoas que vão nos dar carona forem serial killers e acabarem com as nossas vidas?” Ahahaha! Mas pelo visto você está bem vivinha da silva e ainda por cima, tascou umas beijocas no bom samaritano né? ;-)

    Beijos

  • Reply shell 29 de maio de 2015 at 7:33 PM

    Oi! Que blog lindo e que menina que escreve bem!!!
    Tô tão velha que fui pro google tentar entender o que era um Darvin… triste, mas se existe um Deus, todas as meninas sem celulite de 15 anos envelhecerão um dia também porque não é justo que aconteça só comigo!
    Adorei a história, me deu vontade de lembrar as minhas (que eu vivi com vinte e poucos anos pq com 15 eu era absolutamente retardada). Vou lá ler mais do teu blog! Beijão!

  • Reply Anna 1 de junho de 2015 at 2:38 AM

    Primeiro: É TÃO RAROOOO TÃO DIFÍCIL ESTARMOS SÓS ENTRE OS LENÇÓIS OU MESMO DE MÃOS DADAS PASSEANDO POR AI QUER SE DIVERTIR É SÓ CHAMAAAARRR

    Segundo: APAGUE A LUZ VAMOS FUGIR DAQUIIIII NÓS DOIS CORRENDO MORRENDO DE RIIIIIRRRR DANE-SE O MUNDO AO NOSSO REDOR VAMOS DE ENCONTRO AO NADA (?) CORRENDO PELA ESTRADA SEMPRE NA MESMA DIREÇÃÃÃOOOOOO

    Terceiro: amiga, me abraça. Por que nossos eus adolescentes não se encontraram? Porque eu era exatamente essa pessoa, com a diferença que não tinha parceiras de crime. Então eu ficava em casa. Sonhando em ficar de castigo depois de beijar um guitarrista de banda e dividir batatas fritas com a galera que aparece na MTV de vez em quando. Meu Deus, eu preciso muito pegar um roqueirinho pra minha vida ser completa, não posso continuar convivendo com essa falta na minha vida hahahaha

    Gente, que bafo. Eu amava Darvin, adoro aquele clipe da festa em casa (?) e lembro que o vocalista era meio bonitinho.

    beijos ídola
    <3

  • Reply Analu 1 de junho de 2015 at 1:15 PM

    Miga Sharon, eu sou tão não a adolescente que você e Anna Vitória foram que quando eu li o título do seu post achei que ele falaria de biologia, porque sim, porque meu subconsciente leu DARWIN mesmo e enfim. Nunca ouvi falar nessa banda mas estava quase de joelhos na cadeira lendo seu relato, pensando que deve ter sido uma delícia viver isso e ser uma adolescente assim. Eu era total o tipo que julgava isso tudo aí e me achava mega superior e controlada enquanto colegas minhas morriam pra ficar na beira do palco do NxZero e escreviam fics sobre o Simple Plan, hahaha. Neguei tudo isso enquanto era adolescente e agora, aos 23, nem preciso dizer o tipo de coisa que acontece né? Não sobre as aventuras, infelizmente, mas sobre a tietagem, rs. AMEI demais sua história, tava desde o início torcendo por um beijo Tem castigo que vale demais a pena nessa vida *-*
    Te amo!

  • Reply Thay 3 de junho de 2015 at 12:25 AM

    HAHA, gente, que loucura! Fui uma adolescente muito tranquila, não fazia dessas. Me divertia, é claro, mas sempre fui muito sossegada e de boa nessa vida. Tinha lá meus momentos de fangirl, mas nenhuma banda que eu curtia vinha pra Cwb, então meus pais estavam sossegados quanto a tentativas de fuga. Mas simplesmente adorei teu relato, foi realmente um dia memorável. Um beijo!

  • Reply Nana 12 de agosto de 2015 at 9:36 PM

    Miga, sei que esse post é de maio e isso vai parecer um pouco stalker, mas é que eu achei seu blog agr e tô lendo vários posts on a row.
    Decidi comentar nesse por motivos de: DARVINNNNNNNNNNNNN!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! MEU DEUSSSSSSSSSSSSSSSS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Sinceramente, nem lembro mais da cara dos integrantes da banda, mas Pensa em Mim foi a trilha sonora da minha oitava série e dos meus 13 anos, então não tem como não surtar um pouco e ficar nostálgica das matinês com show dessas bandinhas todas no clube aos domingos <3
    Amei o texto!

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