COM AMOR

DEAR SANTA,

Já faz mais de dez anos desde que escrevi pra você pela última vez. Não sei se deveria pedir desculpas ou não, embora no fundo tenha quase certeza de que isso não é realmente necessário. Crianças crescem, afinal de contas, e assim como bonecas e carrinhos de controle remoto são deixados de lado, é natural que a sua figura caia na descrença, a lembrança de uma ingenuidade tão característica. Embora hoje eu já não acredite mais num Papai Noel concreto, de roupa vermelha e um trenó puxados por renas, eu continuo acreditando na sua existência e, principalmente, em tudo que sua figura representa.

Lembro quando minha mãe me contou a verdade sobre você. Na realidade, ela não me contou que você não existia: um belo dia, ela simplesmente resolveu que não me levaria no shopping. Eu pedi. Ela disse que eu já era grandinha demais. Eu devia ter 11 anos. Sei que parece cruel quando coloco as coisas dessa forma e é possível que na época eu tenha chorado um bocadinho por conta disso. Hoje, no entanto, reconheço que ela tentava fazer o melhor, e naquele momento, colocar meus pés no chão e jogar a real parecia a coisa certa a se fazer. E eu não guardo nenhuma mágoa, muito pelo contrário. Todos esses anos de infinitas visitas e presentes serviram para me deixar com o coração mais quentinho sempre que me lembro de cada Natal, e que ainda me fazem sentir incrivelmente amada e privilegiada quando essa época chega. Não é por acaso que o Natal é minha época favorita do ano inteiro, aquela que eu espero com mais ansiedade e que me faz começar uma contagem regressiva assim que vai embora. Eu me lembro da minha infância, me lembro de todos os dias que esperecei você chegar só para cair no sono em seguida, e de todas as vezes que acordei com um presente novo embaixo da árvore e, feliz da vida, ouvia minha mãe contar, pela milésima vez, como você era capaz de entrar por uma janela com grades. São lembranças importantes, o tipo de coisa que me mantém viva quando o mundo se torna difícil demais, e que me faz ter esperanças mesmo quando tudo parece perdido. Eu te agradeço por isso, do fundo do meu coração.

Sabe Papai Noel, uma coisa que a vida me ensinou é que a gente precisa acreditar sempre. Talvez por isso, mesmo depois de todo esse tempo, eu continue acreditando em você de alguma forma, com tanta força que, a essa altura, nada é capaz de me provar o contrário. É por isso que até hoje eu morro de amores por quem me dá presente em seu nome ou então porque eu me esforço tanto pra criar momentos tão especiais pra JG, porque no final das contas, os presentes até podem ir embora, mas as lembranças, essas ficam conosco para todo o sempre. Ontem, quando o relógio marcou meia-noite e todos desejamos feliz Natal, eu olhei pra carinha dele, tão feliz em ver suas pessoas favoritas reunidas, e me senti incrivelmente feliz. Foi o mesmo sentimento quando vi seus olhinhos brilhando quando o seu tio, vestido como você, bateu na porta trazendo a bicicleta que ele tanto queria. Foram momentos especiais demais e, embora ele ainda seja muito novo para se lembrar de cada um deles quando crescer, essas memórias estarão sempre comigo – e aí eu vou me sentir infinitamente feliz de novo, o suficiente para conjurar um patrono.

E é por isso que, se eu ainda pudesse te pedir alguma coisa, eu pediria por mais memórias como essa. Por mais felicidade, mais momentos ao lado das pessoas que amamos, mais carinho, mais amor. Por mais sorrisos e olhinhos brilhando, e por mais pessoas que acreditem em você, mesmo que não de um jeito idealizado. A vida já é complicada demais, e o mundo cheio de coisas horríveis, para que a gente não se permita acreditar no que quer que seja. Enquanto escrevo essa carta, estou com a barriga cheia e o coração quentinho como nunca, como se tivesse recebido um abraço que vem de dentro – e é sobre isso que é o Natal. Obrigada por me ensinar tanto, mesmo agora, e por me lembrar, ano após ano, porque essa data importa – e importa muito.

Feliz Natal!
Com carinho.

Previous Post Next Post

No Comments

Leave a Reply