QUERIDO DIÁRIO

DIÁRIO DA SEMANA #1: FIM DE FÉRIAS

Minhas aulas começam amanhã.

Não sei exatamente quando, muito menos como ou porquê, mas em algum momento da minha vida acadêmica (cof, cof) minhas férias – em especial as de julho – começaram a parecer cada vez menores e mais irrelevantes perto da quantidade absurda de trabalho e esforço que eu precisava fazer para sobreviver ao semestre letivo. São mais ou menos quatro meses de aulas para um de férias; o que, em tese, deveria ser tempo suficiente para colocar minha vida em ordem antes de começar tudo de novo, mas não é. Minhas férias começaram oficialmente no dia sete do mês passado, exatamente um mês atrás, e parece outra vida, é verdade, mas ao mesmo tempo tudo que eu queria era ter pelo menos mais uma semana livre pra me organizar, tentar colocar minha vida mais ou menos em ordem antes de ser obrigada a estar de volta e bater ponto na faculdade todo dia de manhã, cinco vezes por semana.

Já repeti tantas vezes que minhas férias tinham sido uma mentira, para absolutamente qualquer pessoa que estivesse disposta a ouvir, que a essa altura já deve ter enchido o saco, mas foi exatamente isso que aconteceu. Prometi que me daria a primeira semana de férias para descansar de verdade, olhar pro teto, assistir todas as séries e filmes do mundo, colocar minha vida mais ou menos no lugar e não pensar em nada relacionado a trabalho, faculdade ou editais de 500 páginas que ninguém quer ler, mas que a gente precisa, porque é assim que a banda (pelo menos a do cinema) toca no Brasil. Eu dormiria até meio-dia, tomaria café da manhã na hora do almoço, passaria horas na frente da televisão e do computador, ia ler uma milhão de livros, começaria uma rotina de exercícios, cuidaria da minha aparência e da minha saúde, voltaria a fotografar e cozinhar, sairia com meus amigos, passaria mais tempo com meu namorado; e faria todas as coisas que tinha vontade de fazer o ano inteiro, mas que nunca encontrava tempo disponível para, de fato, realizá-las. Era uma meta ambiciosa, e como acontece com a maior parte das metas ambiciosas feitas com base na promessa de tempo livre, estavam fadadas ao fracasso. Eu até podia voltar a cozinhar, sair, ler todos os livros do mundo, mas jamais conseguiria fazer todas essas coisas ao mesmo tempo, quem dirá todas as que me propus a fazer. Eu nem tinha tempo pra tudo isso. Um mês não é tanto tempo assim.

Entretanto, o que mais me incomodou nesse meio tempo foi o fato de que, embora eu tenha tentado fazer essas coisas por algum tempo, a culpa por fazê-las – ou por não fazer o que eu realmente deveria estar fazendo: trabalho, faculdade, projetos paralelos, etc etc – era imensa. Não existia satisfação naquele lugar onde o único sentimento presente era a culpa e a certeza de que eu deveria estar fazendo algo melhor com meu tempo. Em nenhum dia sequer eu consegui ficar totalmente sossegada e em paz, mesmo que sossegada e em paz fossem minhas únicas tarefas; eu falhei miseravelmente. O que diz muito sobre o peso que coloco em mim mesma. Na escola, eu era do tipo que chegava a sentir saudades da rotina e das aulas, ainda que não gostasse tanto assim das matérias ou do ambiente escolar, porque o fato de ter que levantar todos os dias pela manhã e ter um lugar pra ir me dava a sensação de que eu estava em movimento numa época em que eu não tanto assim para fazer. É uma relação completamente diferente da de hoje, especialmente porque agora sou completamente apaixonada pelo o que faço, e a necessidade de ser boa – de preferência, muito boa – e fazer as coisas acontecerem é muito maior. Às vezes, eu realmente sinto falta da rotina de aulas, trabalhos, gravações, mas na segunda-feira, quando me dei conta de que aquela era a última semana de férias, a única coisa que eu queria era, pelo amor de Deus, ter só mais alguns dias pra descansar. Ou tentar descansar, já que fazê-lo foi absolutamente impossível nas últimas quatro semanas. Começar tudo de novo, de novo (!), significaria voltar a ficar descabelada e maluca, e eu ainda não estou pronta para estar nesse estado tão cedo. Existe a satisfação nos dias de loucura, prazos, gravações, artigos e textos infinitos; eu sou maluca desse tanto. Mas até eu preciso admitir a hora de parar, até eu preciso reconhecer meus próprios limites.

Tenho pensado em todas essas coisas desde segunda-feira, e talvez por isso, a última semana foi um misto bastante honesto de sentimentos, com momentos muito bons e outros em que eu verdadeiramente só queria deitar na minha cama e esquecer da vida por duas horinhas, deixar que tudo pegasse fogo ao meu redor enquanto eu tirava um cochilo. Meu único desejo era ver tudo resolvido quando acordasse; que meu namorado pudesse tirar cópias e imprimir documentos, que minha mãe soubesse dirigir, que eu não precisasse escrever, que não precisasse dar conta de site ou filme para produzir. Naturalmente, nada disso ia acontecer, então só tentei ignorar, do jeito que deu, a pequena tragédia que era minha vida. Nem sempre deu certo, mas não se pode ter tudo. Segundas-feiras são dias horríveis sem que ninguém precise fazer esforço; ignorar parecia a única saída plausível. No final das contas, o dia passou sem maiores traumas e até consegui concluir algumas tarefas que vinham me tirando do sério há bastante tempo: tipo terminar um livro que preciso resenhar e escrever alguns parágrafos que estou devendo há 84 anos. Ainda era menos do que gostaria de ter feito, mas o conjunto parecia melhor do que nada.

Terça foi mais ou menos um repeteco da segunda, exceto que acordei cedo e consegui tomar café com minha mãe e minha vó. É sempre uma delícia estar com as duas à mesa, jogar conversa fora e dividir uma refeição gostosa, mas existe algo de especial no café da manhã, algo mais íntimo e, por isso mesmo, nossoÉ o momento em que a casa está vazia e só as mulheres estão acordadas, e nós dividimos uma xícara de café enquanto conversamos amenidades de pijama e roupão, antes de seguirmos com nossos afazeres. Eu estava de férias, de modo que minha única obrigação era deitar novamente na minha cama quentinha e assistir Downton Abbey até pegar no sono – o que talvez tenha acontecido, talvez não, mas não vem ao caso agora. Na quarta, tive consulta com meu psiquiatra, que além de prescrever a medicação como de costume, também sugeriu que eu fizesse aulas de dança para ocupar a mente e exercitar meu corpo menos como uma obrigação e mais por prazer. Não confirmo nem nego que estou seriamente pensando no assunto. Quinta, por sua vez, foi um dia completamente aleatório. Se saí pra dar uma volta com João Guilherme, foi muito.

Mas todo o marasmo da semana foi devidamente compensado na sexta, quando eu e Guilherme saímos para celebrar a formatura da Juli. Além dos meus primos e da minha tia, ela foi a única pessoa que eu efetivamente vi formar, e acompanhei praticamente todo o processo até chegar lá, desde quando fazíamos cursinho juntas até o dia em que ela finalmente pegou seu diploma. Por muito tempo, acreditei que jamais participaria desse momento e que no máximo ficaria sabendo pelas atualizações no Facebook e no Instagram, até que nós estávamos juntas de novo e tudo aconteceu como tinha que ser; como sempre soubemos que seria. E foi incrível. A colação foi linda e especial, como ela merecia, e era visível como aquele momento era importante e especial em níveis estratosféricos. Tinha vontade abraçá-la o tempo inteiro e não largar nunca mais, enfiar numa caixinha e literalmente levar pra casa, e pedir pelo amor de Deus que continuasse feliz daquele jeito pra sempre; e ainda que eu não estivesse no melhor dos dias, a noite foi tão divertida que lamentei a hora de voltar para casa.

O que não aconteceu de verdade. Ao invés de voltar pra casa, fui direto pra casa de Guilherme, onde passei a noite e só fui acordar por volta das 10h; finalmente um horário razoável. Ganhei café da manhã na cama, com direito a ovos mexidos, suco de morango e vários pãezinhos doces que fizeram meu sábado mais bonito. Só então peguei o celular e, ainda na cama, ouvi a mensagem de voz que a Juli tinha nos enviado na noite anterior, agradecendo pela presença, e mais uma vez foi como receber um boost de amor no meu coraçãozinho. Quando digo que tenho os melhores amigos do mundo é porque, de fato, tenho os melhores amigos do mundo.

No mesmo dia, tínhamos um churrasco pra ir. Mas aí eu tinha muito o que fazer, não estava realmente interessada e não me parecia justo sair de casa para ficar de cara feia, de modo que fiquei em casa e meu namorado seguiu sozinho. Passei a tarde escrevendo e assim fiquei até a hora de dormir. Já no domingo, passei a tarde no shopping com minha mãe, minha tia e minha avó. A intenção era comprar um presente pra Guilherme, que fez aniversário em junho (!), mas só agora consegui ir no shopping escolher algo com calma. Acabei o que queria com relativa facilidade, o que me permitiu passar o tempo que me restava fazendo compras com minha mãe. Foi ali que comprei o oxford vinho que citei aqui, além de uma camiseta e um brinco enorme que não parece muito minha cara, mas que me encantou o suficiente para valer à pena trazer pra casa (o fato dele custar só dez golpinhos ajudou um bocado, risos). Minha mãe também comprou um sapatinho com cara de tumblr, que se parece um oxford, mas ainda tem um saltinho que é ideal para parecer mais arrumada sem necessariamente estar desconfortável. É lindo, lindo de morrer, e arrisquei colocá-lo no pé ainda na loja, mesmo sabendo que minha mãe calça um ou dois números a menos que eu. Surpreendentemente, o sapato serviu em nós duas, o que significa que, de agora em diante, vamos protagonizar uma nova versão de Quatro Amigas e Um Jeans Viajante, só que agora com uma mãe e uma filha que dividem o mesmo sapato que, surpreendentemente, cabe nas duas.

Por fim, o domingo terminou como sempre terminam meus domingos desde a estreia da nova temporada de Game of Thrones: com um novo episódio. Depois de toda a história do vazamento, parecia ridículo esperar até domingo para assistir o episódio, mas eu gosto da folia o suficiente para esperar assim mesmo, e foi o que fiz. Gosto de ver as reações na internet, gosto de conversar com a Michas depois dos episódios, quando trocamos ideias e opiniões sobre os rumos da série, e gosto especialmente que meu domingo termine dessa forma. Embora ainda não tenha uma opinião formada sobre a temporada no geral, o último episódio me lembrou porque Game of Thrones foi uma revolução para a televisão, e porque continuo gostando tanto dessa história. Os problemas existem, mas também existe algo além, e no final das contas, acredito que seja isso que nos mantenha ligados domingo após domingo, numa época em que assistir algo na televisão parece coisa de outro mundo.


MÚSICA DA SEMANA

Depois de uma espera relativa (mentira, foi uma espera ridícula), a Lorde finalmente liberou o clipe de Perfect Places; que não por acaso, é minha música favorita de todo o álbum. Talvez por isso, o fato de finalmente ter um clipe para ilustrar essa música tenha sido ligeiramente decepcionante: é tudo muito lindo e bem feito, mas não exatamente o lindo e bem feito que idealizei por esse tempo todo. O fato de falar sobre lugares perfeitos em literalmente um paraíso à beira-mar me parece uma escolha óbvia e um pouco preguiçosa, especialmente para alguém como a Lorde, que sempre esteve longe de ser óbvia ou preguiçosa; mas ainda é uma produção impecável e muito bonita, que tem os seus momentos. O clipe, no entanto, me levou novamente para os últimos dias de junho e o início de julho, quando finalmente entrei de férias e estava literalmente em êxtase pelas minhas conquistas naquele semestre. Ironicamente, meu mood agora era muito diferente, mas foi incrível permitir que a música me levasse de volta àqueles dias e que eu ainda conseguisse encontrar motivos para sorrir no meio de tudo. What the fuck are perfect places, anyway?


LUKINHO DA SEMANA

Para minha absoluta tristeza, voltou a fazer sol em Brasília, o que significa que, mais dia menos dia, estaremos vivendo o terror e o horror (and the fucking melodrama) que é sobreviver aos meses de agosto e setembro na capital federal. Apesar do sol, o calor ainda não é exatamente uma realidade, de modo que ainda é possível sair de calça e jaquetinhas de couro durante o dia. Usei essa roupinha – sem calças, pela primeira vez no mês – para passear no shopping; o que me pareceu apropriado na hora que escolhi as peças, mas que me deixou na dúvida tão logo saí de casa. Sigo na dúvida se gosto da combinação ou não, mas fica a tentativa de registrá-lo. Meu futuro como blogueira de moda definitivamente está morto e enterrado.


O QUE ESCREVI ESSA SEMANA

Contrariando minhas expectativas, sobrevivemos sem grandes traumas à primeira semana de BEDA, o que, pra quem não durou nem uma semana no ano passado, é uma excelente notícia. A má notícia é que a parte mais difícil começa agora. Explico: a primeira semana é sempre encarada com festa; é quando temos textos agendados, quando conseguimos escrever com mais calma e pensar melhor naquilo que queremos publicar. Mas a partir da segunda semana, as coisas mudam radicalmente de figura. As ideias começam a se multiplicar de forma descontrolada, mas o tempo para desenvolvê-las se torna cada vez menor; o que, no meu caso, gera todo um ciclo de ansiedade que só piora à medida que o desafio avança e a vida real volta a bater na porta. Não quero transformar o blog numa obrigação, muito menos o desafio em algo além da diversão, e espero conseguir fazer isso por mais uma semana. Por enquanto, pra quem não viu ou perdeu alguma coisa, fica a lista daquilo que escrevi por esses dias.

Terça-feira foi o primeiro dia de BEDA, o que significa que abrimos os trabalhos por aqui com um texto introdutório. Era para falar sobre o desafio, mas acabei falando sobre ser uma pessoa overachiever e minha dificuldade em dizer “não”.

• Na quarta, compartilhei 25 fatos aleatórios sobre mim, num formato que já tinha utilizado em outro momento e achei bacana replicar – dessa vez com direito ao mesmo gif que a Manu usou num post parecidíssimo, porque obviamente somos a mesma pessoa.

• Na quinta, escrevi sobre a menina mais bonita da faculdade e como é importante nos vestirmos com aquilo que gostamos e sem se preocupar com a opinião dos outros ou em registrar por registrar.

• Na sexta, respondi o meme “Por que eu escrevo” e falei um pouco sobre minha relação com a escrita, meu processo criativo e o que tanto tenho feito no momento.

• No sábado, por fim, fiz um self image, que basicamente consiste em falar sobre a imagem que tenho de mim mesma. Tirei a ideia inicialmente da Milena, que faz os self images mais lindos do mundo inteiro, mas acabei curtindo bastante o resultado, mas principalmente o exercício de escrever sobre eu mesma de uma forma tão sincera e vulnerável. Foi um textinho que teve um feedback incrível e fiquei muito feliz que as pessoas tenham se inspirado e escrito sobre elas mesmas também.


O QUE ANDEI LENDO

• Falando em self image, a Rafinha escreveu um pra ela também, e o resultado é esse texto lindo e inspirador, como não poderia deixar de ser.

• Nunca li Watchmen, mas esse texto da Manu me fez verdadeiramente questionar que diabos eu fiz esse tempo todo que ainda não li essa história. Amo ser fisgada dessa forma por algo que não conheço, que na realidade conheço tão pouco sobre, mas ainda assim me convenço pela qualidade da escrita de uma pessoa. A Manu é 100% esse tipo de pessoa.

• A Michas escreveu um post fantástico sobre coisas absurdas que ela já ouviu na academia (e as respostas que ela gostaria de ter dado naquela situação), o que prova dois pontos: a) o ser humano definitivamente não trabalha com limites; e b) academia é um ambiente pavoroso.

• A Mia fez um top 6 HOMÃOS DO PASSADO, e se esse não for o melhor post do mundo para alegrar nossas vidinhas sem graça, eu não sei o que é.

• A Tati, por sua vez, falou sobre suas girl crushes ficcionais, e eu achei uma ideia tão boa, mas tão boa, que tenho pensado seriamente em fazer igual. A gente fala muito sobre crushes masculinas; é chegada a hora de valorizar as minas também.

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