QUERIDO DIÁRIO

DIÁRIO DA SEMANA #3: ACONTECEM COISAS

Tem esse episódio da primeira temporada de Gilmore Girls (“The Deer Hunters”, porque ao contrário da minha pessoa, a Yuu não brinca em serviço e sabe responder toda e qualquer coisa sobre Gilmore Girls) em que a Rory, depois de receber um D numa prova e ter um péssimo dia na escola, chega na cozinha da pousada e deixa todas as suas mochilas caírem dos ombros, com um suspiro de exaustão. Se tivesse que ilustrar a última semana com uma única cena, seria assim: um eterno cair de mochilas e suspiros de exaustão. Foram dias difíceis pra caralho.

Já escrevi sobre isso algumas vezes, mas no último semestre trabalhei em um projeto que, eventualmente, se transformou em algo muito maior, ao ponto de, literalmente, começar a chamá-lo de projeto da minha vida. É um jeito exagerado de colocar as coisas, sobretudo quando não se trata de um projeto a longo prazo, menos ainda solitário – eu tenho alguns projetos da vida, afinal, e amo a todos como filhos muito queridos e desejados -, mas parece uma colocação adequada quando penso em como ele começou de uma forma totalmente despretensiosa, que nem por um momento pareceu ter a chance de se tornar tão grande, ainda que sempre tenha sido muito especial. De repente, não era só mais um projeto de amigas de faculdade, uma história para nascer e morrer no ambiente acadêmico, mas algo grande e real, que se transformou em planos, contratos, reuniões; coisas adultas e assustadoras que jamais imaginei que aconteceriam comigo; menos ainda que aconteceriam agora.

Vira e mexe alguém me pergunta como funciona esse negócio de trabalhar com cinema, e a verdade é que não existe um jeito certo ou errado de fazer isso, menos ainda uma fórmula única: são muitas opções, muitos caminhos, muitos destinos, e várias formas de se chegar a um mesmo lugar. Diferente de outras profissões, que transformam necessidade em espaços a serem ocupados, o cinema precisa forjar esses espaços em terrenos que normalmente ainda o enxergam – e à arte, de um modo geral – como supérfluo. De toda produção artística, o cinema talvez seja a que mais depende da economia, indústria e mercado para acontecer; o que pode ser interessante pra muita gente, mas que é especialmente péssimo com quem está começando. Mesmo quando falamos de filmes de baixo orçamento, fazer cinema ainda é muito caro; raramente alguém consegue cobrir os custos de uma produção por conta própria. Assim, você precisa conseguir apoio, patrocínio, ajuda do governo, ou uma boa alma que acredite em você o suficiente para financiar o seu projeto. Existem, basicamente, dois caminhos para conseguir isso (mentira, existem vários, mas vamos tentar ser sucintos aqui): o primeiro, é por conta própria; o segundo é ter uma produtora que possa fazer isso por você.

Nada é impossível e fica muito mais fácil quando você conhece as pessoas certas, que conhecem outras pessoas certas, que conhecem justamente aquela pessoa que vai se apaixonar pelo seu projeto e topar investir em você; mas essa é uma chance mínima, especialmente quando se é um cineasta iniciante, universitário, com nada além de amor para oferecer (eu diria que é impossível, mas existem casos em que isso já aconteceu). Infelizmente, amor ainda é um produto bastante desvalorizado no mercado, de modo que, quase sempre, o que acontece é você ter que vender o seu peixe por conta própria, na cara e na coragem, pra gente que, muito provavelmente, não tem a menor intenção de investir algum dinheiro em você. É minha opção menos favorita, não só porque é desconfortável as fuck de tentar vender algo sem saber exatamente pra quem ou mesmo se alguém está interessado, e convencer quem quer que seja de que aquele investimento vai valer à pena, mas porque é uma etapa exaustiva e desestimulante, que nos lembra, do jeito mais feio e sujo possível, porque ainda é tão difícil fazer cinema. Às vezes, as pessoas simplesmente não se importam. Parabéns pelo projeto, moça, mas nós não poderíamos nos importar menos. Às vezes, elas simplesmente não querem colocar o próprio dinheiro em cinema. É difícil colocar seu próprio dinheiro na reta pelo projeto de outra pessoa. Outras vezes, elas simplesmente não podem arcar com esses custos, mas muitas vezes, são essas mesmas pessoas que oferecem outra forma de ajudar. É meu tipo favorito de pessoa: aquele que se importa o suficiente para não te deixar sair de mãos abanando, que entende sua paixão e o esforço que existe ali. Então elas oferecem comida, figurino, mão de obra, qualquer coisa que possa ser útil e que faça aquele projeto sair do papel, o que sempre nos dá alguma esperança. É assim que filmes universitários saem do papel; um pequeno milagre que tenho valorizado cada vez mais.

Há, ainda, uma terceira opção, embora sempre me pareça mais promissora na teoria do que na prática: o crowdfunding, que nada mais é do que o famigerado financiamento coletivo – que é quando várias pessoas se juntam na internet para doar pequenas quantias de dinheiro e financiar um projeto. Foi assim que a Amanda Palmer, nossa eterna inspiração de vida, conseguiu gravar um álbum de maneira independente, numa campanha que deu tão, mas tão certo que se transformou num dos casos mais bem sucedido do Kickstarter. Esse sucesso lhe rendeu algumas palestras, que mais tarde se transformaram no livro que hoje habita nossas prateleiras, e é lindo pensar que tudo isso só aconteceu com o apoio de muitas pessoas, que acreditaram na arte e na Amanda, e não pensaram duas vezes em contribuir para que esse sonho – que era dela, mas de repente tornou-se de todos – se tornasse realidade.

O que essa história muitas vezes nos leva a esquecer, contudo, é que, o que aconteceu com a Amanda não é a regra, mas sim a exceção: ela não se tornou um caso de sucesso por acaso; não é todo dia que as pessoas ganham milhões em campanhas de financiamento. Antes de se tornar uma artista independente, ela já era reconhecida como artista e possuía uma base de seguidores na internet que acompanhavam seu trabalho há seculos e com quem mantinha uma conexão profunda, construída por anos a base de muita conversa e uma troca mútua de carinho, experiências e sentimentos. No livro, ela conta que sua campanha foi apoiada por vinte e cinco mil pessoas, que já a acompanhavam e ficaram verdadeiramente empolgados em ajudar.

Tenho a impressão de que, quando falamos sobre A Arte de Pedir, o ponto mais importante é o papo sobre vulnerabilidade. Não é uma surpresa: é mais fácil que nos identifiquemos com ele; são lições que podem ser, literalmente, aplicadas em qualquer momento da vida, para qualquer pessoa, seja ela artista ou não. Mas, ainda, existem as conexões, e Amanda fala muito disso, sobretudo porque esse é um aspecto fundamental em sua jornada como pessoa e artista, e foi algo que me chamou a atenção de imediato, principalmente porque sempre acreditei na internet como ferramenta capaz de criar conexões, muitas das quais não aconteceriam se ela não existisse. A maior parte das minhas amizades são fruto da world wide web, que amplia as fronteiras e faz com que eu tenha contato com pessoas do interior do norte ao sul do Brasil; e foram essas conexões que me possibilitaram viver coisas incríveis, viajar para lugares que jamais esperei conhecer e iniciar projetos que só se tornaram realidade porque aquelas pessoas acreditaram neles tanto quanto eu. Mas essa ainda é uma bolha muito pequena: eu não tenho 25 mil pessoas para investirem no meu projeto, eu não sou uma pessoa conhecida na internet, tampouco tenho um público, de modo que emplacar uma campanha de financiamento coletivo suficientemente rentável para cobrir os gastos de filme, campanha e recompensas dificilmente seria viável.

Não é por acaso que tanta gente desiste, se torna ansiosa, depressiva ou profundamente amarga no meio do caminho; resistir é difícil pra cacete. Um dos meus professores favoritos, que infelizmente se aposentou este ano, foi um dos caras mais sensacionais que já conheci, alguém com quem eu realmente gostava de cruzar nos corredores e trocar uma ideia; mas era, também, uma das pessoas mais destruídas pela indústria que conheci até hoje. Tenho certeza que ele destruiu os sonhos de muita gente em sala de aula, não porque quisesse, muito menos de um jeito escroto, mas com uma sinceridade que só quem já foi muito machucado e não quer que o mesmo aconteça com outras pessoas pode fazer. E existia um fundo de verdade ali. Odeio ser a pessoa que diz isso, sobretudo porque antes de tudo eu acredito, de um jeito que muitas vezes parece idiota, e espero ser sempre assim; mas é diferente quando você passa a enxergar mais as coisas de dentro e menos pelo resultado, que é o que vê quem está de fora. Não quero me tornar uma pessoa amarga ou ressentida com um futuro que parecia brilhante, mas que saíra muito pior do que a encomenda, mas é preciso lembrar que continuar de pé quando o mundo passa em cima da gente como um rolo compressor não é fácil – e isso não serve apenas para o cinema. Nem sempre conseguimos. Ser jovem, ter força, vontade e cara de pau é incrível, e é importante que aproveitemos todas essas coisas que se esvaem com o tempo ou simplesmente deixam de fazer sentido quando as prioridades mudam; mas nunca é fácil.

De certa forma, os últimos dias foram um lembrete frequente de que, se resistir fosse fácil, provavelmente teria outro nome. Estou participando da seleção de um edital de curtas-metragem a nível nacional, o que significa concorrer com pessoas infinitamente mais experientes, com apoios, contatos e todo tipo de possibilidade que não tenho. Precisei encontrar uma forma de elevar um pouquinho minhas chances, não de ser selecionada, mas conseguir uma posição razoável entre os candidatos, mas tive vários picos de ansiedade ao longo da semana, ocasionados por todas as não-respostas, e-mails ignorados, telefonemas não atendidos e mensagens ignoradas do mundo; e prazos, prazos, prazos que precisavam ser cumpridos, o que pouco a pouco me destruiu inteira por dentro. Dedicação, esforço e amor já não importavam mais; eu havia colocado meu filho no mundo e ele havia sido tratado como nada, reduzido a uma proposta desimportante e desinteressante – longe demais do que ele tinha nascido pra ser. Diferente do pitching, em que tudo que podia dar errado deu e mesmo assim as coisas deram incrivelmente certo, fora do ambiente seguro da faculdade, as pessoas não podiam se importar menos. Mais uma vez, era um lembrete terrível, mas ainda um lembrete, do por quê tanta gente desiste e se torna cínico no meio do caminho. Na terça-feira, depois da reunião semanal com os professores, disse para a Nayara, minha eterna parceira de crime, que estava pensando em chutar o balde e enviar nossos formulários sem incluir nenhum apoio, ou não enviá-los de jeito nenhum, já que o contrário seria suicídio de qualquer forma, e embora ela tenha me acalmado e dito que ia dar tudo certo, naquele momento, acreditar já não parecia fazer muito sentido. Tudo isso foi dito alto o suficiente para que o professor – o mesmo que me dera um feedback sobre o projeto na semana anterior – ouvisse, quase como um pedido de ajuda – por favor, me ajude! me dê uma luz! -, mas ele não fez absolutamente nada; provavelmente porque não ouviu ou simplesmente estava ocupado demais com qualquer coisa mais importante, mas naquele momento, me pareceu um sinal: ninguém se importa, foda-se essa merda.

O que não é necessariamente verdade, mas não deixa de não ser uma mentira também. Passei a quarta-feira inteira na frente do computador, absolutamente exausta pela frustração e expectativa de receber um e-mail, uma mensagem, um telefonema, qualquer coisa que me tirasse daquele limbo. Enviei mais algumas propostas durante a tarde, fiz algumas ligações, e por fim me dei por vencida; o mundo que explodisse se quisesse. Não parecia que algum coelho potencialmente saísse daquele mato, pelo menos não a tempo de incluir no projeto para o edital, mas de repente, e não mais que de repente, as coisas, curiosamente, começaram a acontecer. Sempre acho engraçado quando as coisas começam a acontecer e dar certo, quase como se eu não fosse realmente merecedora delas, mas ao mesmo tempo feliz demais para dizer não. Primeiro, foi a resposta de uma loja, que não podia nos ajudar com dinheiro, mas ofereceu figurino e objetos cenográficos, e logo tinha ajuda vinda de todos os lugares. Marquei reuniões e fui quase que literalmente abraçada por cada uma dessas pessoas, que nem sempre me conheciam muito bem, mas acreditavam no poder da história que eu queria contar assim mesmo. Na semana passada, disse que às vezes achava quase impossível fazer cinema no Brasil, sobretudo se você era jovem, muito jovem, e sem grandes experiências, o que justificava que pessoas como o Selton Mello ganhassem dinheiro do governo para fazer filmes e estudantes universitários não, mas de repente, uma luzinha se acendeu no fim do túnel. Então quer dizer que isso pode acontecer? Então quer dizer que isso não só pode acontecer como está acontecendo comigo? Pois é.

Foi assim que, em pleno sábado à noite, eu e Nayara dirigimos rumo a um shopping onde Judas perdeu as botas nos encontrar com uma produtora que queria nos conhecer e entender melhor o projeto, o que já havíamos feito e o que esperávamos dela caso trabalhássemos juntas, antes de fechar conosco. Foi uma conversa bastante esclarecedora, especialmente porque, mais de uma vez, nos fez olhar para o outro lado da indústria – no caso, o das produtoras – e menos para o nosso próprio. São perspectivas muito diferentes, com interesses completamente distintos, o que, mais uma vez, me levou à certeza de que, antes de termos contratos, precisávamos de pessoas realmente alinhadas com a história que queríamos contar. Nós precisávamos manter esse tipo de honestidade. Saímos da reunião direto para casa, depois de tomarmos uma Coca-Cola, repassarmos alguns papéis, folhearmos livros e rirmos da nossa tragédia particular que, pouco a pouco, se transformava novamente em nosso sonho; o mesmo que idealizamos quase dois anos atrás. Ainda é muito cedo para dizer qualquer coisa, mas tenho certeza que amanhã, quando enviar o projeto, estarei com a alma em paz, tranquila – e em paz e tranquila são as únicas coisas que posso desejar estar no momento.


MÚSICA DA SEMANA

Aparentemente Taylor Swift está de volta. Aproveitei o novo momento da nossa melhor amiga famosa para passear por seus trabalhos antigos e relembrar seus melhores momentos; o que, basicamente, significa voltar a santíssima trindade: Fearless, Speak Now e Red. De todos, Red continua sendo meu favorito, muito embora Speak Now tenha feito meu coração bater mais forte nos últimos anos. À época de seu lançamento eu vivia um momento de muito rock, jaquetas de couro e madrugadas dirigindo sem rumo por ruas vazias, de modo que só agora, quase dez anos após seu lançamento, é que pude apreciar a magia que esse álbum evoca; sentimentos contraditórios, que nem sempre coexistem harmonia, mas o que é ser jovem, muito jovem, senão uma loucura de sentimentos? Taylor sabe disso melhor do que ninguém, e sendo a compositora incrível que é, foi lá e escreveu músicas capazes de nos transportar diretamente para esses lugares. De todas, “Long Live” é minha favorita, com o tipo de sentimento que chega mais perto do que acredito que significa ser jovem e muito, muito livre, e muito, muito apaixonado, mas para não obrigar ninguém a ter que ouvir a versão brega com a Paula Fernandes, “Sparks Fly” parece uma escolha mais apropriada, com praticamente o mesmo resultado.


LUKINHO DA SEMANA

Não exatamente dessa semana, mas que representa muito bem o estado que me encontrei na maior parte da semana: roupão e pijamas, única combinação possível.


O QUE ESCREVI ESSA SEMANA

• Na segunda, decidi começar a semana falando sobre Downton Abbey, minha nova obsessão do momento e série favorita de todas as vidas. Ali, escrevi um resumo de cada uma das seis temporadas e dei minha opinião sobre alguns dos eventos mais importantes de cada uma delas.

• Na terça, respondi o meme Guilty Reader, um oferecimento da menina Michas, que salvou mais um dia de BEDA neste blog.

• Na quarta, escrevi sobre Tigres em Dia Vermelho, um dos meus livros favoritos do ano passado, mas cujo hype parece não ter sido forte o suficiente para chegar na minha bolha de amigas.

• Na quinta, escrevi uma cartinha pra Yuu, amor da minha vida e uma das minhas melhores amigas.

Sexta foi dia de compartilhar alguns sonhos malucos, fruto da minha cabeça igualmente maluca e sem noção.

• Por fim, no sábado, respondi outro meme, dessa vez o A Cara da Riqueza… Se Eu Fosse Rica; oferecimento da Manu onde, basicamente, compartilhei coisas que faria ou como agiria caso fosse milionária. Spoiler: a vida seria top.

(Perdoem a falta de links, prometo melhorar na semana que vem, risos.)

 

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