JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

DO QUE EU FALO QUANDO FALO DE ANSIEDADE

Eu nunca me julguei uma pessoa ansiosa – até, claro, o dia que descobri que era exatamente isso que eu era. Não foi uma descoberta casual, mas um processo que começou muito antes de eu sequer saber o que significava ser ansiosa de verdade, muito menos me perceber como uma. Foi só depois que entrei para faculdade de comunicação e, posteriormente, me refugiei no audiovisual, que meus sintomas se intensificaram, e eu comecei a ler sobre o assunto e entender que minhas angústias, afinal de contas, tinham nome, e que eu não estava sozinha nesse barco. Mas era algo que já estava ali, desde a minha pré-adolescência, quando eu passava um tempo insano vivendo no futuro, me preocupando com o futuro, pensando no futuro em cada dia da minha pequena existência até ali.

A primeira vez que eu ouvi alguém falar sobre ansiedade foi mais ou menos nessa época, quando meu primo (que tem a mesma idade que eu) começou a apresentar sintomas do transtorno. Ele era agitado, não conseguia se concentrar em nada, ficava muito angustiado em determinadas situações, não tinha quase nenhum amigo e tinha sempre muita pressa, pressa demais. Eu assistia tudo aquilo me sentindo o completo oposto: é verdade que eu ainda passava um tempo precioso pensando no meu futuro, idealizando cada passo que eu daria depois que a escola acabasse (aos treze anos!), mas continuava sendo uma pessoa calma na maior parte do tempo, que se sentia confortável em algumas situações, desconfortável em algumas outras, mas que conseguia seguir com a vida numa boa, sem se preocupar muito com nada além do seu Futuro Promissor ™. Eu me enfiava em coisas novas sem ter meu estômago inteiro revirando, me sentia segura o suficiente para levantar a mão no meio de uma aula qualquer e perguntar alguma coisa ao professor sem gaguejar, e me apresentava na frente dos outros como se tivesse feito aquilo a vida inteira.

Minha vida começou a mudar um pouco no ensino médio, quando eu passei a ter absoluto pavor de levantar a mão ou ser questionada sobre algo no meio da aula (exceto por professores que eu já conhecia há mais tempo), a calcular todas as minhas palavras antes de abrir a boca pra falar qualquer coisa ou falar com qualquer pessoa, e ter que respirar fundo, bem fundo, antes de qualquer apresentação para não gaguejar demais. Eu passava um tempo gigantesco pensando no que os outros pensavam sobre mim, e embora eu gostasse de acreditar que nunca dei muita bola para a opinião externa – eu pintava as unhas de amarelo maracujá, ninguém mais pintava as unhas de amarelo maracujá -, a verdade é que eu só me arriscava naquilo que não era tão importante assim – tipo pintar as unhas de amarelo maracujá -, porque todo o resto era um monstro tão grande e assustador que eu achei mais fácil enfiá-lo dentro de um armário e deixar virar pó por lá mesmo. Eu tentava ao máximo agir dentro das regras para não estar no centro das atenções por sair da linha, eu evitava contato com pessoas novas, estranhas, porque nunca sabia o que conversar com elas; e sempre que precisava enfrentar alguma coisa que me assustava, passava horas pensando em todas os desdobramentos possíveis da situação, me preparando para cada um deles só para não ser pega de surpresa; fora todas as noites que eu passei em claro pensando naquela merda que eu falei dez anos atrás e POR QUE, MEU DEUS, POR QUE EU FUI ESCOLHER JUSTAMENTE AQUELAS PALAVRAS? POR QUE EU SOU TÃO IDIOTA? POR QUE EU TINHA QUE ABRIR A MINHA BOCA?

Lembro de um trabalho de química no segundo ano do ensino médio, que fui apresentar com Guilherme e um outro amigo nosso. Nós dividimos as partes de cada um e, como eu não era tão boa assim em química, decorei cada linha do que precisava falar, contando com todas as respostas para as possíveis perguntas que o professor poderia fazer. Só que alguma coisa aconteceu no meio do caminho (porque coisas sempre acontecem no meio do caminho) e de repente, não mais que de repente, depois de já ter explicado minha parte inteirinha, meu amigo solta: “agora a Ana vai explicar isso aqui”. Só que eu não sabia explicar aquilo ali. Eu não fazia a menor ideia do que era aquilo ali, porque a gente tinha dividido todo o trabalho e eu foquei todos os meus esforços em me preparar para falar a minha parte. Aquele era o plano e eu o segui, como devia ser. Meu amigo não. Eu falar aquela parte não fazia parte do nosso plano, e ao contrário de Guilherme e desse amigo nosso (que é amigo nosso até hoje, caso vocês estejam se perguntando), eu era – e ainda sou – completamente incapaz de improvisar. No final das contas, deu tudo mais ou menos certo: eu consegui explicar também a outra parte, mesmo gaguejando um pouco, e o professor ficou bastante satisfeito com nosso trabalho. Mas foi a apresentação terminar pra eu ter que sair correndo da sala, com lágrimas nos olhos e a voz ainda falha, para tomar um pouco de ar e recobrar o controle da minha vidinha ridícula.

E isso continua acontecendo até hoje, mesmo que em situações ligeiramente diferentes. Não que eu não continue me importando em apresentar trabalhos, em falar em público, em conversar com pessoas que não conheço muito bem (mesmo que essas pessoas sejam, sei lá, o segurança de um shopping ou o caixa de um supermercado). Porque eu me importo – e muito. Mas hoje essas coisinhas – que podem parecer pequenas pra muita gente, mas não pra mim – se uniram à outras, e mais outras e mais outras, até se transformarem numa bola de neve imensa, que cedo ou tarde ia acabar rolando de dentro do armário que eu tenho, há tanto tempo, tentado manter fechado. Eu passava noites em claro literalmente pensando na morte, enquanto deveria estar vivendo o aqui e o agora, ou então com que diabos eu vou fazer com a minha vida quando a faculdade acabar sendo que, no mínimo, falta pelo menos um ano inteiro pra isso acontecer. Meu coração bate mais rápido (de um jeito horroroso) só de pensar que eu já estou com quase 24 anos (!) e que ainda não tenho um diploma; que eu já deveria ter algum controle sobre o que eu vou fazer quando a faculdade acabar; e nem preciso dizer sobre como meu peito aperta e minha garganta trava só de pensar que tudo isso – todas essas angústias, todas essas preocupações, todas as noites em claro pensando no futuro – vai terminar exatamente no mesmo lugar, pra todo mundo.

Falo sobre esses temas porque são eles que, no momento, ativam os meus gatilhos com mais intensidade. Mas eu poderia falar também da pressão que é estar num relacionamento tão longo quando você não faz a menor ideia de quando vai poder elevar isso a um outro patamar; quando você não sabe o que responder quando as pessoas perguntam se você está trabalhando – embora você saiba exatamente a resposta -; sobre todas as vezes que eu deixei alguma coisa de lado porque só de pensar em sair da minha zona de conforto já era doloroso demais; sobre a minha dificuldade em fazer coisas sozinha, com medo do que os outros vão pensar de mim; ou então como é difícil criar conexões ou manter um diálogo com uma pessoa quando você não solta um “bom dia” sem pensar um milhão de vezes se essa é a coisa certa a dizer, qual a entonação adequada, quanto você tem que elevar a voz e quão natural você tem que parecer, mesmo que nada, absolutamente nada nessa situação, seja natural.

Eu nunca precisei respirar em um saco, nunca me estressei no trânsito, mantenho a calma em situações que a maior parte das pessoas perdem completamente o controle, e se vocês me conhecessem pessoalmente, provavelmente diriam que eu sou uma das pessoas mais calmas que vocês já viram na vida. Mas isso é porque a dimensão do que acontece dentro da minha cabeça só eu sei. Por mais que eu tenha pessoas no meu círculo de amigos que entendam a situação, por mais que a minha mãe e minha família e meu namorado tentem ajudar na medida do possível, a maioria dessas pessoas só entendeu que algo estava realmente errado comigo quando sintomas físicos começaram a aparecer. Quando eu comecei a parar de comer. Quando eu comecei a ter insônia porque minha cabeça não sabia mais a hora de parar de trabalhar. Quando olhei tanto para o futuro que esqueci da minha própria realidade, do aqui e do agora. Claro que existem mais coisas no meio de tudo isso – a depressão, a insegurança, a falta completa de autoestima – que me trouxeram até aqui. Mas quando eu entrei no consultório do psiquiatra e, por fim, ele me diagnosticou com ansiedade – entre outras coisas -, eu já nem fiquei mais surpresa: era só a confirmação de algo que eu já sentia há muito, muito tempo, só levei tempo demais para admitir pra mim mesma.

Procurar ajuda foi fundamental porque, como a Yuu sempre gosta de me dizer, ela faz com que a gente ganhe perspectiva e volte a andar com as próprias pernas. E é o que tem acontecido comigo. Embora hoje eu ainda não me sinta segura o suficiente para enfrentar certas situações, os poucos meses tomando medicamento e fazendo terapia, já tem surtido alguns efeitos, e principalmente, me ensinado algumas coisas importantes, que me ajudam a visualizar uma vida em que eu vou ser capaz de lidar com essas pequenas coisas que me afligem tanto do dia-a-dia, sem surtar. A terapia, principalmente, tem sido uma experiência de profundo autoconhecimento, que me faz olhar para dentro de mim mesma e refletir sobre a minha vida, mas que também me ensina a me enxergar com mais gentileza e saber que tudo bem parar, tudo bem não ser perfeita o tempo inteiro. Essa coisa de ser gentil, aliás, tem sido absolutamente fundamental nessa minha caminhada, e é incrível como tudo muda radicalmente quando a gente percebe que a maior parte dessas questões que fazem tão, tão mal, seriam resolvidas com um pouquinho mais de cuidado próprio, amor, compaixão e respeito – com os outros, é claro, mas principalmente com a gente.

Mas, outra coisa que eu também aprendi nesse meio tempo é que a gente tem que se permitir perder o controle de vez em quando, que é inevitável não se sentir ansioso quando você tenta manter o controle de situações que são absolutamente impossíveis de serem controladas, e que é preciso respeitar o próprio tempo das coisas, porque ele existe e nem sempre é aquele que a gente quer. E não tem problema, porque existem aproximadamente 129387192 que eu posso fazer aqui e agora, e é melhor aproveitar o momento do que ficar pensando num amanhã idealizado que nunca vai ser perfeito, justamente porque não é real.

Reconhecer a hora de parar é necessário. Não existe nada que te impeça de continuar depois, mas às vezes, tudo que a gente precisa é um pouco de ar fresco, um café no meio da tarde, um banho quentinho, um jantar gostoso e uma maratona de Friends para voltar a fazer o que quer a gente tenha parado antes. Cozinhar é uma coisa que me relaxa muito profundamente porque me obriga a parar e só pensar no que eu estou fazendo naquele momento: no corte certo dos ingredientes, na quantidade de tempero, no tempo de preparo. Do contrário, alguma coisa vai sair errada. É essa mesma ideia que me motiva a parar o quer que eu esteja fazendo quando minha mãe me chama pra tomar um café, ou então quando eu decido, sem mais nem menos, que preciso de um banho, ou que perder vinte minutos do meu dia assistindo um episódio de Friends não vai matar ninguém. São coisas que me aproximam de mim mesma, que me colocam num estado de absoluta plenitude, e onde eu posso me dar o luxo de me importar só com o aqui e o agora.

Não existe um jeito certo ou errado de lidar com a ansiedade porque, da mesma forma que os gatilhos variam de pessoa para pessoa, a melhor forma de lidar com eles também. Mas se alguém me perguntasse o que me mantém sã no meio do caos, eu diria que é tentar, na medida do possível, ser mais gentil comigo mesma, reconhecer os meus limites e não pirar só porque eu precisei parar um pouquinho pra tomar fôlego. Porque no carrinho da vida, é maravilhoso sentar no banco do motorista e colocar as mãos no volante, tomando o controle de tudo pra si; mas é só quando sentamos no carona e nos permitimos deixar a vida nos levar, que podemos admirar a beleza do que está ali, ao nosso redor.

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1 Comment

  • Reply KARINE 17 de fevereiro de 2017 at 7:02 PM

    “e se vocês me conhecessem pessoalmente, provavelmente diriam que eu sou uma das pessoas mais calmas que vocês já viram na vida. Mas isso é porque a dimensão do que acontece dentro da minha cabeça só eu sei”

    me vi tanto nisso, que sério, nem sei o que dizer. eu tb sou uma pessoa muito ansiosa, desde pequena. e embora eu já tenha tido crises graves relacionadas a isso (incluindo crises absurdas de bruxismo, em que eu não conseguia comer NADA porque tinha fodido todo o meu maxilar dormindo. ou quando eu passava dias sem conseguir pregar os olhos), eu só fui me tocar da gravidade disso muito tempo depois. pra mim ansiedade era aquilo que todo mundo fala quando se descreve, sabe? não como uma doença. eu ainda não fui procurar ajuda psicológica, já melhorei bastante nos últimos tempos (se for pensar nas crises absurdas que já tive), mas sei que é algo que eu preciso ir atrás. uma das coisas que eu mais ~sinto com minha ansiedade, é que ela me trava. sabe? que é difícil fazer qualquer coisa nova, mesmo que seja uma coisa irrelevante. minha cabeça vai sempre colocar mil problemas na frente de tudo que eu queira fazer. e isso é muito ruim :(

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