DRAMAS REAIS

DOS SONHOS HORRÍVEIS

Ontem eu tive um sonho pavoroso.

Começou como todos os outros: num momento eu estava dormindo, simplesmente dormindo um sono maravilhoso sem sonhos e, no momento seguinte, eu estava numa realidade alternativa, fugindo com minha família sabe-se lá de quê, no meio de uma Brasília lamacenta e esquisita pra cacete. As pessoas se enfiavam em trincheiras e tentavam se proteger da chuva enquanto guardas que mais pareciam stormtroopers passavam pra lá e pra cá tocando o terror. Eu estava com minha mãe, meu padrasto, meu tio e a mulher dele, e João Guilherme no colo – que eu tentava a todo custo manter quietinho enquanto a gente se escondia. Em determinado momento, encontramos uma lanchonete que ficava no subsolo da cidade e paramos ali para comer um cachorro-quente (!). E foi aí que as coisas começaram a sair do controle, porque ali, enquanto eu comia um cachorro-quente mais ou menos na paz com João Guilherme e minha mãe, meu padrasto assassinou uma pessoa (!), meu tio descobriu que ele era um rebelde (!) e os dois começaram a brigar muito, muito feio, me obrigando a fugir com minha mãe, João Guilherme e meu padrasto pra longe dali.

Ao invés de sossegar o facho e não perseguir a família da sua irmã, meu tio iniciou uma caçada que tinha por objetivo acabar com meu padrasto e, consequentemente, com minha família. Junto com meu tio mais velho, os dois se aliaram aos stormtroopers, ganharam postos privilegiados e começaram a correr contra o tempo para nos pegar. Nesse meio tempo, eu tentei levar João Guilherme para uma espécie de abrigo, mas depois descobri que as estradas estavam sendo fechadas (!) e que aquele abrigo era, na verdade, uma farsa, e decidi fugir com ele dali. Eu tentava correr desesperada pela lama e pela chuva, mas meus pés pareciam não se mover na velocidade necessária. Meus tios chegavam cada vez mais perto de nos alcançar e eu temia pela minha vida, é claro, mas principalmente pela a da minha mãe e do meu padrasto – JG, eu sabia, não corria perigo nenhum. Eu sentia meu coração bater com muita força, eu sentia o medo, a frustração e o desespero em cada parte do meu corpo, eu sentia os músculos da minha perna queimarem e o cansaço nos meus braços de tanto correr com João Guilherme enquanto tentava alcançar a estrada antes que os portões se fechassem de vez. No meio da lama, no meio da chuva.

Então eu acordei.

Foi com um alívio muito genuíno que eu abri os olhos e me dei conta de que continuava no meu quarto escuro, que Brasília não era um lugar lamacento e que as pessoas não tentavam se abrigar em trincheiras enquanto uma pseudo guerra rolava do lado de fora. Eu não estava num filme de ficção científica, meu padrasto e meu tio continuavam sendo ótimos amigos, minha mãe provavelmente estava na sala assistindo alguma novela tranquilamente e minha única preocupação no momento era se eu tinha acordado tarde demais e perdido a sessão de pré-estreia de Rogue One, risos. Corri até a sala só para me certificar de que estava tudo certo mesmo e que minha casa não tinha ardido em chamas nas duas horinhas que eu decidi tirar um cochilo e criei toda uma realidade alternativa horrorosa na minha cabeça. Minha mãe, claro, estava exatamente onde eu imaginei: assistindo televisão na sala com minha tia e minha avó, Loki casualmente jogado aos seus pés, parecendo um tapete. Contei pra ela do meu sonho pavoroso, ao que ela sorriu e respondeu que tinha sido só um pesadelo.

Embora eu estivesse muito mais tranquila do que na hora em que acordei, não pude deixar de ficar apreensiva ao mesmo tempo que pensava em todos os motivos que fizeram meu inconsciente trabalhar daquele jeito e criar aquela narrativa específica na minha cabeça – que de todas as possibilidades, foi projetar justamente um futuro distópico horrível. Somos todas Katniss Everdeen. Porque fora as coisas absurdas, tipo as pessoas vivendo em trincheiras e acampamentos no meio da lama, os abrigos de ficção científica e os stormtroopers, e salvo as devidas proporções, tudo ali me parecia assustadoramente real. Naquele mesmo dia, comentei com minha psicóloga que minha visão política era radicalmente diferente da minha família que não mora comigo – tios, primos, essas pessoas – e que eu evitava me expor nesse sentido como uma forma de me preservar e me poupar da dor de cabeça. Eu sei o quanto isso é terrível, mas vocês entendem a diferença entre conversar sobre política com alguém que realmente está disposto a entender seu ponto e com pessoas que, embora te amem e você ame muito profundamente, não tem a menor intenção de ouvir nada além daquilo que elas querem. Eu também contei pra ela que, no dia anterior, meu tio (o mesmo do sonho, vejam só que coisa) e meu padrasto tiveram uma discussão acalorada demais pro meu gosto sobre política e esse era exatamente o tipo de coisa que eu buscava evitar enquanto sorria e acenava de boas no meu canto.

Não demorou muito pra que eles baixassem as cristas e começassem a conversar naturalmente sobre outras coisas, como se aquela discussão nunca tivesse acontecido. Mas eu tenho medo que com o andar da carruagem as coisas comecem a tomar um rumo totalmente equivocado. Eu ouço histórias de pessoas que viveram no tempo da ditadura, que contam de pais que denunciavam os próprios filhos para os militares e eu tenho medo muito real de estar no meio de algo parecido. Sei que parece exagero e eu sou alarmista assim mesmo, mas ao mesmo tempo não posso deixar de me questionar quando o mundo inteiro parece viver um momento político e social tão conturbado. A gente jurou que o Trump não ia ser eleito e olha só o que aconteceu. A gente jurou que o Temer jamais ficaria no governo e olha só o que aconteceu. Não é por nada não, mas às vezes, minha sensação é a de justamente estar vivendo um pesadelo do qual eu não posso acordar. Ou então que o mundo acabou mesmo em 2012 e a gente só não se deu conta disso ainda.

Não é por acaso que distopias são um dos meus gêneros favoritos – e é bem possível que eu esteja lendo e assistindo distopias demais, risos. Elas sempre são pautadas por um discurso muito político e revolucionário, e é assustador como tudo aquilo parece tão distante e, ao mesmo tempo, tão próximo da nossa própria realidade. Mas na moral, é de cair o cu da bunda ver gente ler 1984 e depois defender a ditadura, ou então assistir Star Wars e sair espalhando discurso de ódio por aí, e o pavor que eu sinto de ver todas essas coisas é muito real. Não é questão de qual lado você está, é questão de reconhecer que seu umbigo não é a única coisa que importa no mundo e lembrar de todas as atrocidades que seres humanos já cometeram antes. O mundo está sempre em constante mudança porque nós também estamos mudando com o tempo – mas daí começar a dar passos pra trás são outros quinhentos. No fundo eu só espero que eu continue sendo só a maluca que leva ficção a sério demais e que todas essas barbaridades continuam sendo apenas uma parte da minha imaginação ridiculamente fértil.

Enquanto despertar for o suficiente para sair de um pesadelo, então estamos bem.

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