DRAMAS REAIS

DRAMAS DA MADRUGADA

Uma das coisas que mais me incomodam em Doutor Estranho é o fato do filme tentar abordar um assunto complexo como a morte e a falta de controle do ser-humano sobre a vida, mas não tratá-lo com a seriedade que ele realmente merece. Ah, mas é só um filme de super-herói, diriam vocês. E, de fato, é um filme de super-herói – só não apenas mais um, o que faz toda a diferença do mundo. Me chateia um bocado que tenhamos chegado num ponto em que é impossível esperar que um filme de super-herói – ou blockbusters, de modo geral – seja capaz de ir além daquilo que é esperado nesse tipo de produção. Conversando com um cara mais ou menos famoso nesse meio da cultura pop sobre o filme, ouvi que era ele era bacana, mas que eu não deveria esperar uma obra-prima. Ah, mas aí é esperar um pouco demais, né?, respondi. Me odiei no mesmo instante. Mas aí vocês veem como as coisas são, porque se eu, que defendo blockbusters com unhas e dentes, disse uma coisa dessas, imagina só quem sempre acreditou que esse era um nicho de alguma forma inferior, né.

Às vezes, fico pensando se chegamos mesmo num ponto em que já se tornou ingenuidade acreditar que podemos tirar mais de um filme desses do que aquilo que eles realmente prometem. Sei lá, será que eu nunca vou parar para refletir sobre a vida, o universo e tudo mais depois de assistir um filme de super-herói? Isso já aconteceu antes, por que diabos não pode acontecer de novo agora? Eu achei, do fundo do meu coração pisciano sofredor, que Doutor Estranho seria esse filme. Ele foi vendido como o filme mais sombrio da Marvel até então, e a própria história do Dr. Strange abria espaço suficiente para que a Marvel mandasse todo mundo pro inferno com essa ideia. Uma pena, então, que não tenha mandado, mas feito justamente o contrário.

A princípio, o filme é exatamente aquilo que venderam. Diferente. Protagonista complexo. Primeira vez que um filme vai fazer o 3D realmente valer à pena, esse tipo de coisa. Fora, claro, o fato dele abordar um tema que sim, é bastante complexo, e que sim, particularmente, me interessa demais. Mas entre piadas que às vezes funcionam, às vezes não, ele acaba se tornando um filme que nunca é realmente capaz de chegar lá. Ouvi – ouvi é modo de dizer, já que nossas conversas são inteiramente escritas – desse mesmo cara que a cena da morte da Anciã tinha sido uma das coisas mais fortes que ele já tinha visto num filme da Marvel, e eu concordo, demais até – ela só não é suficiente pra compensar todo o resto.

A morte é uma questão bem séria na minha vida, do tipo que já me fez perder noites de sono e ficar caminhando em círculos pelo meu quarto tentando entender se a vida, afinal, valia alguma coisa se no final todo mundo acabaria virando comida de minhoca mesmo. É uma coisa horrível de se pensar – e dizer, me desculpem pela imagem mental -, mas pra mim, é inevitável. Não por acaso, meu livro favorito é Estação Onze, que conta justamente uma história que aborda, entre outras coisas, a efemeridade da vida e a falta de controle do ser-humano. Vira e mexe, minha mãe me diz que esse medo todo é falta de fé em Deus. Que eu não tenho confiança o suficiente para entregar minha vida nas mãos Dele e abraçar o que quer que venha pela frente – até o inevitável fim, quando chegar a hora -, etc etc. Seria mentira se eu dissesse que isso não faz algum sentido na minha cabeça também, porque faz um bocado, embora não seja só isso, muito menos o tempo inteiro.

Quando digo que tenho medo de morrer, as pessoas normalmente imaginam que esse medo tenha algum motivo religioso por trás, que eu tenho medo de ir pro inferno ou qualquer coisa assim. Só que não é sobre isso, nem nunca foi. Também não é o medo da forma como isso vai acontecer, embora eu prefira que seja durante o sono, de forma serena e sem grandes traumas; muito menos porque eu temo pelas pessoas que vão ficar aqui, nesse mundo, e vão sentir a minha falta e seguir a vida sem mim – uma razão muito mais nobre para se temer a morte, na minha humilde opinião. Não. Meu medo é morrer, e simplesmente morrer, e me dar conta de que a única existência é essa que estamos vivendo agora e que nada além dela existe fora um vazio angustiante e o inevitável esquecimento. Uma vez, sonhei que morria com uma facada na barriga, e após sentir, literalmente, a vida se esvair do meu corpo, eu fui parar nesse lugar escuro, completamente sozinha, até a hora de acordar. Foi desesperador e eu espero, do fundo do meu coração, nunca ter que voltar lá.

Em 23 anos, eu vi a morte acontecer algumas vezes – com pessoas próximas, com pessoas nem tão próximas, com pessoas que estavam literalmente na minha frente – e embora cada situação seja única, todas me ensinaram, do jeito mais difícil, que não existe nada de bonito ou poético na morte. Talvez por isso exista esse costume de dizer que ninguém é capaz de compreender a morte tão profundamente até, de fato, ter perdido alguém próximo. E talvez por isso, também, assistir esse assunto ser tratado de forma leviana na ficção ainda seja algo que mexe tão profundamente comigo. E vai continuar sempre mexendo, acho.

Se posso passar a vida inteira ignorando meus monstros ou escondê-los no armário e sair correndo, a morte se faz presente de um jeito ou de outro, e por mais que eu passe a vida inteira fugindo, me escondendo, em algum momento vamos acabar nos esbarrando – resta saber se, quando isso acontecer, eu serei pega de surpresa e irei embora esperneando, ou se darei as mãos para ela, como uma velha amiga, partindo juntas para uma nova aventura pelo o que quer que exista além deste mundo. Ficamos na torcida pela segunda opção.

tumblr_mzrgovjikd1sspwz7o1_500

(Perdão pela bad vibe, prometo melhorar)

Previous Post Next Post

2 Comments

  • Reply Natália Oliveira 17 de novembro de 2016 at 3:28 PM

    Tive a mesma sensação quando assisti Guerra Civil. Eu sei que é um filme popular e tal, e que a maioria das pessoas que procuram esse tipo de filme só querem um escape da rotina ou algo assim, mas seria a oportunidade perfeita de discutir o quanto deve ser o controle do governo sobre as nossas ações e os conceitos de liberdade. Sério, na minha cabeça, o filme podia dar um debate lindo. Pena que tudo o que eu vi foram porradinhas e efeitos especiais.
    Minha relação com a morte tem mais a ver com “o antes” dela. Não tenho medo do que vem depois, mas tenho medo da hora chegar e eu me dar conta de que desperdicei minha vida fazendo coisas que as pessoas esperavam de mim ao invés de coisas que eu queria fazer. Medo de morrer sem ter tomado um porre, ou sem te viajado pro exterior, medo de ser só mais uma formiguinha no formigueiro, essas coisas. Além do famigerado medo do processo ser doloroso, claro.
    Eu queria ser uma pessoa de fé, queria mesmo. Até tenho uma certa dose de inveja de quem é. Minha mãe, por exemplo, consegue passar por umas situações loucas só repetindo o mantra “está nas mãos de Deus”. Eu não consigo. Não tenho essa fé cega. Sempre que olho pra frente eu vejo perigo, não esperança (pessimista, né? eu sei, não me agrada muito também).

  • Reply Tany 25 de novembro de 2016 at 2:32 AM

    Não assisti esse filme ainda, porém consigo me identificar (de forma diferente) com o que você quer falar e com outros filmes. Antigamente morria de medo de pensar que era isso, sabe? O nosso fim. A nossa vida. Que ela basicamente o que vivemos na terra e nada mais… Hoje em dia eu já não acho tão impossível e acho que fiquei muito mais cética com o tempo, porém mais conformada e isso me impulsionou de alguma forma pra viver a vida que eu tenho, que é essa. Se eu vou reencanar, viver algo além ou simplesmente parar por aqui nunca saberemos e hoje em dia não tento questionar isso. Obviamente, cada pessoa é de um jeito e entendo seu receio e medo, mas ao mesmo temos uma vida né? Meio torta, meio ruim, meio frustrante, mas ela existe…

    Fica bem <3
    Beijo, linda

  • Leave a Reply